segunda-feira, 20 de julho de 2009

MISCELÂNEA DO ANEDOTÁRIO EMILIANO, de Raimundo de Menezes









O homem engraçado que viveu em Emílio de Menezes fez escola e teve adeptos.

A sua geração consagrou-o como o maior de nossos gênios espirituosos, depois de Paula Nei, que lhe cedera o principado com a sua morte em 1897. Emílio chegara depois, e teve a sua coroação nos começos deste século.


...



Eis algumas piadas de Emílio coligidas por Humberto de Campos, e contadas no seu discurso de recepção na Academia de Letras:



Guimarães Passos era, como se sabe, tuberculoso, e vivia em perpétua luta com a moléstia insidiosa. Um dia, apareceu nas livrarias o “Tratado de Versificação Portuguesa”, do autor dos “Versos de um simples”, e cujo produto ele reservava para uma viagem à Europa, onde pretendia curar-se.



- Coitado do Guima! – comentou Emílio de Menezes, uma tarde na antiga Colombo.



E simulando pena:



- Desde que o conheço que ele, coitado, tem “tratado de ver se fica são”!...



...



Achava-se Emílio de Menezes em uma roda da Pascoal, quando chegou um amigo e apresentou-lhe um rapaz que vinha em sua companhia:



- Apresento-te Fulano; é o nosso patrício e tem corrido o mundo inteiro! Fala corretamente o inglês, o francês, o italiano, o alemão e o espanhol.



O rapaz sorria, modesto, ante os elogios e a palestra voltou ao que era. Ao fim de uma hora, durante a qual apenas proferiu alguns monossílabos, o viajante despediu-se, e se foi embora.



- Que tal esse camarada? – perguntou a Emílio um dos da roda.



- Inteligentíssimo, sobretudo, muito criterioso – opinou o rei dos boêmios.



- Mas ele não disse palavra!



- Pois, por isso mesmo, tornou Emílio.



E rindo:



- Você não acha que é ter talento saber ficar calado em seis línguas diferentes?



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Em uma cervejaria de São Paulo, cujo soalho, como é de praxe nos estabelecimentos do gênero, se achava coberto de serragem, bebiam Emílio de Menezes e alguns amigos, quando um conhecido engenheiro, falando de arte, começou a louvar Florença, e a influência dos florentinos na Renascença. No auge, porém, do entusiasmo, põe-se de pé, afasta a cadeira e, ao sentar-se de novo, projeta-se de costas no chão. Levanta-se sujo de serragem, quer insistir.



- Sim, é aos florentinos que devemos todo esse patrimônio artístico...


- Homem – intervém Emílio de Menezes – deixa os florentinos...


E limpando-lhe a serragem:



- Tu agora estás “à milanesa”.



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Entre as figuras de relevo que serviam de alvo habitual à sátira impiedosa de Emílio de Menezes, estava Capistrano de Abreu, historiador ilustre, sábio respeitadíssimo, em torno do qual se criara uma glosadíssima lenda de desleixo, de abandono próprio, e, mesmo, falta de higiene. Utilizando essa versão popular, conta o poeta:



- Uma vez, o Capistrano mandou à tinturaria, para ser lavado, um terno com que andava há doze anos. Uma semana depois, apareceu-lhe à porta um empregado da tinturaria, e entrega-lhe um embrulho pequenino, que lhe cabia nas mãos.



E como lhe perguntavam o que seria, Emílio concluía, invariável:



- Eram os botões, menino! A roupa, de puída e velha, havia se dissolvido n’água.



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Certa vez, ia Emílio de Menezes em um bonde, quando se sentaram no banco imediato, em frente, duas senhoras de grandes banhas, que dificilmente puderam entrar no veículo. Com o peso das duas matronas, o banco, que era frágil, range, estala, geme, estranhando a carga. O poeta, que observa o caso, leva a mão à boca, no gesto característico, e põe-se a rir em silêncio, no seu riso sacudido e interior.



E como o companheiro o olhasse, explicou:



- Sem senhor! É a primeira vez que eu vejo um banco quebrar por excesso de fundos...



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Emílio visitava uma Exposição de Cereais. Entra um fabricante de espírito barato e, vendo-o, grita:



- É milho!...



E o cantor de “Pinheiro Morto”, cofiando e descofiando o bigode:



- Você hoje está com a veia...



E vendo que o outro queria escapulir, embarga-lhe os passos:



- Não s’evada!... Com isso é que eu me in... trigo!



E plantando-o numa cadeira:



- Sentei-o...



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O Sr. Bastos Tigre, amigo e companheiro inseparável de Emílio, colecionou, entre muitas outras várias anedotas cuja paternidade cabe ao poeta boêmio:



Um famoso jornalista da época, que andara metido, no Rio, numa negociata de fornecimento de moedas de prata, voltava da Europa. Contava ele, na impiedosa roda da “Colombo”, que assistira, em Londres, como convidado de honra, ao grande banquete do “Mayors”.



- Uma coisa fantástica, dizia ele; imaginem que os talheres eram de ouro...



- Mostra! – atalhou Emílio, fazendo menção de abrir o paletó do narrador.



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Certa vez, S., poeta sem estro, apareceu a Emílio, na confeitaria, sentou-se, e disse:



- Escrevi ontem dois sonetos. Hoje burilei um deles. Aqui está. Vou ler e você me dirá a sua impressão. Amanhã trarei o outro.



Leu com ênfase, martelando as tônicas, sob silêncio. Ao cabo, inquiriu, triunfante:



- Que tal?



Muito calmo, cofiando os longos bigodes, Emílio redarguiu:



- Gosto mais do outro...



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Aqui vão algumas colhidas em outras fontes:



Tornara-se indesejável a permanência de certo figurão no cargo de ministro, e, entretanto, não pedia exoneração...



Era assim comentado na roda de amigos de Emílio de Menezes:



- É uma injustiça combatê-lo pois é um estadista insigne!...



Emílio aproveitou a deixa para trocadilhar:



- É um “insigne... ficante!”



...



Foi no verão de 1914. Na casa do Comendador X, realizava-se grande baile comemorativo ao aniversário de sua filha.



Numa roda de intelectuais, prendia a atenção, com seus chistes e trocadilhos, Emílio de Menezes.



Eis que se aproxima uma senhora, toda donairosa, e, entre mil perguntas pueris, dirige-se ao grande boêmio: Sr. Emílio! Sabe quais são os encantos da mulher?



- “Sei-os”, minha senhora.



...



Longa, como se vê, é a miscelânea do “humor” emiliano.



Outras e muitas outras piadas, para mais de vinte mil, existem por aí que lhe são atribuídas, e cuja paternidade não lhe pertenceu jamais.



Ele mesmo costumava protestar, indignado, contra a autoria que lhe emprestavam de tudo que aparecia, “desvernaculizado”, com pretensões a espírito, nas rodas de letras e de imprensa:



- “Eu não sou a Sapucaia das perfídias alheias sem graça e sem gramática!”, clama, melancólico, nos últimos tempos.






(Emílio de Menezes, o Último Boêmio)


(Ilustração: busto de Emílio de Menezes, em Curitiba; foto da internet, sem indicação de autoria)




3 comentários:

  1. Faltou mencionar que: estava ele na calçada da rua Gonçalves Dias (Conf Colombo) qdo passou uma mulher alta e magra: ERA UMA BENGALA ... ao passar uma magra e baixa ele disse ser uma BENGALINHA ... qdo passou uma grávida ele disse que foi BEM GALADA ! ! !

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  2. Trocadilho excelente. Sou vidrado em trocadilhos.
    Olney Braga - Colatina (ES)

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  3. Dentro em breve, estarei postando alguns trocadilhos, alguns deles da minha lavra.

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