sábado, 29 de junho de 2013

INÊS SUBTIL, de Valter Hugo Mãe






talvez seja o momento de te dizer
que sou da mais vil beleza, feito de
amar entre os homens apenas as coisas
mais efêmeras

talvez seja o momento de te dizer
que me cresceram os teus seios mais
jovens, numa indisfarçável necessidade de
que me pertençam entre as coisas
que te cedo

talvez seja o momento de te dizer
que o teu corpo mulher é um exagero do
meu deus, generoso mais do que nunca na
liberdade da minha fome

não estou certo de que seja o momento de
pedir mais ainda, quanto te roubo a alma e
aos poucos a entorno pelo caminho até ao
outrora vazio do meu coração

como não sei se será certo padecer de alguma
felicidade imprudentemente, naquele
miudinho perigoso de estar quase a
morrer de amor por ti

também eu me sinto capaz de desmaiar com
um orgasmo. mas só agora, aos trinta e
sete anos, só contigo



(Ilustração: Reuben Negron - the embrace V)

quarta-feira, 26 de junho de 2013

PEQUENO ACIDENTE DE PERCURSO, de Guy de Maupassant








O sol desaparecia aos poucos por detrás da grande serra senhoreada pelo Puy-de-Dôme, e a sombra da serra se estendia pelo profundo vale de Royat. Algumas pessoas passeavam no parque, ao redor do quiosque da música. Outras estavam sentadas, em grupos, apesar da friagem da tarde. Conversava-se com animação num desses grupos, posto que um grave assunto preocupava as senhoras de Sarcagnes, de Vaulacelles e de Bridoie. As férias se aproximavam e tratava-se de mandar buscar seus filhos, internados nos colégios dos jesuítas e dos dominicanos.Ora, essas damas não pensavam em fazer elas mesmas a viagem para trazer seus descendentes e não conheciam ninguém a quem pudessem encarregar de tão delicada missão.

Era nos últimos de julho. Paris estava deserta. Elas procuravam em vão um nome que lhes oferecesse as requeridas garantias. Maiores eram suas preocupações devido a um escabroso caso de ultraje ao pudor público que ocorrera alguns dias antes num vagão de trem. E estas damas estavam persuadidas de que todas as rameiras da capital passavam a vida nos trens, entre Auvergne e a Gare de Lyon. Os tópicos de Gil Blas, aliás, no dizer de Mr. De Bridoie, assinalavam sua presença em Vichy, no Mont Doré e em Bouboule, de todas as horizontais conhecidas e desconhecidas. Para lá chegarem, deveriam elas viajar de trem e, sem dúvidas, de trem regressariam elas; deveriam mesmo voltar ininterruptamente para tornarem a vir todos os dias. Seria, portanto, um vaivém constante daquelas mulheres impuras todos os dias. As damas em questão se lamentavam de que os acessos às gares não fosse proibido às mulheres suspeitas.

Ora, Roger de Sarcagnes tinha quinze anos. Gontran de Vaulacelles, treze, e Rotand de Bridoie, onze anos. O que fazer? Elas não podiam, no entanto, expor seus queridos filhos ao contato com semelhantes criaturas. O que não ouviriam eles, o que não aprenderiam, se passassem um dia inteiro, ou uma noite, num compartimento em que contivesse também uma ou duas daquelas desavergonhadas com seus respectivos companheiros.

A situação parecia sem saída, quando aconteceu de por ali passar Madame Martinsec. Ela parou para cumprimentar as amigas, que lhe contaram suas preocupações.

- Mas é muito simples - exclamou ela - eu posso emprestar-lhes o padre. Posso  muito bem dispensá-lo durante quarenta e oito horas. A educação de Rodolphe não irá se abalar por tão pouco. O padre irá buscar seus filhos.

Ficou então combinado assim, que o padre Lecuir, um jovem sacerdote muito instruído, preceptor de Rodolphe de Martinsec, iria a Paris na semana seguinte buscar os três garotos.

O padre partiu, pois, na sexta-feira; e encontrava-se na Gare de Lyon no domingo de manhã, para, com seus três garotos, embarcar no expresso das oito, o novo expresso em funcionamento há poucos dias apenas e que era, por sinal, uma aspiração de todos os banhistas de Auvergne.

Ele passeava pela gare seguido de seus meninos, e procurava um vagão com poucos passageiros, e passageiros de aspecto respeitável, pois ficara obcecado com todas as minuciosas recomendações que lhe fizeram as Sras. de Sarcagnes, de Vaulacelles e de Bridoie. Eis que ele avistou, em frente a um dos compartimentos, um velho senhor e uma velha dama de cabelos brancos que conversavam com uma outra dama instalada na cabine. O velho era oficial da Legião de Honra; e tinham ambos um aspecto perfeitamente distinto. "É a cabine que me serve", pensou o padre. Fez os três alunos subirem e foi atrás. A velha dama dizia:

- Cuide-se bem, minha filha.

A jovem respondeu:

- Claro, mamãe, não tenha medo.

- Se sentir alguma coisa, não se esqueça de chamar o médico.

- Claro, mamãe.

- Vamos indo. Adeus, minha filha.

- Adeus, mamãe.

Abraçaram-se e se beijaram; depois o empregado da gare fechou a portinhola e o trem se pôs em marcha.

Estavam sós. O padre, encantado, congratulava-se com a sua habilidade, iniciou conversa com os garotos que lhe foram confiados. No dia de sua partida, combinara com a Sra. de Martinsec que iria a dar lições particulares aos três garotos durante as férias, e ele queria sondar um pouco a inteligência e a personalidade de seus novos alunos.

Roger de Sarcagnes, o maior, era um desses meninos crescidos depressa, magros e pálidos, e cujas articulações não pareciam completamente formadas. Ele falava de forma lenta e era um tanto simplório.

Gontran de Vaulacelles, pelo contrário, permanecera pequeno, rechonchudo e era malicioso, dissimulado e gozador. Vivia sempre se divertindo à custa dos outros, tinha saídas de gente grande, respostas de duplo sentido, que inquietavam seus pais.

O mais jovem, Roland de Bridoie, não parecia revelar nenhuma aptidão para coisa alguma. Era um bom animalzinho que iria se parecer com seu pai. O padre prevenira os meninos de que eles ficariam sob as suas ordens durante os dois meses de verão; e fez-lhes um sermão bastante sentido sobre os seus deveres para com ele, padre, sobre a maneira como pretendia governá-los e o método que seguiria.

Era um padre de alma reta e simples, um pouco posudo e cheio de regras. Seu discurso foi interrompido por um profundo suspiro da sua vizinha. Voltou a cabeça para ela. A senhora conservava-se sentada no seu canto, com os olhos fixos, as faces algo pálidas. O padre voltou-se para seus discípulos.O trem corria a toda velocidade, atravessava planícies, bosques, passava túneis e pontes, sacudia com sua forte trepidação o rosário de viajantes presos nos vagões.

Era a vez de Gontran de Vaulacelles interrogar o padre sobre Royat e os divertimentos da terra. Tinha rio? Podia-se pescar? Conseguiria ele um cavalo, como nas férias passadas? Etc.

De repente, a jovem soltou uma espécie de grito, um "ah!" de sofrimento, logo reprimido. Inquieto, o sacerdote lhe perguntou:

- A senhora está se sentindo bem, Madame?

Ela respondeu:

- Não, senhor padre, não é nada, apenas uma leve dor. Ultimamente tenho andado meio adoentada e o movimento do trem me cansa.

Na verdade, seu rosto se tornara lívido. Ele insistiu:

- Se eu puder fazer alguma coisa pela senhora...

- Não, em absoluto, senhor padre. Fico-lhe muito agradecida.

O padre continuou a conversar com os alunos, avaliando-os para seu ensino e
orientação.

Passavam-se as horas. O trem parava de quando em quando, em seguida tornava a partir. A jovem senhora parecia dormir, não mais se movia, aconchegada no seu canto.

Embora mais da metade do dia já se passara, ela ainda não comera coisa alguma. O padre pensava: "A pobre deve estar sofrendo".

Mais duas horas e estariam em Clermond-Ferrand. Foi então que a senhora viajante começou a gemer. Quase se deixara cair do banco e, firmando-se nas mãos, com os olhos esgazeados, feições crispadas, ela repetia: "Ai, meu Deus! Ai, meu Deus!"

O padre se precipitou:

- Madame... Madame... Madame, o que é que a senhora tem?

Ela balbuciou:

- Eu... eu... acho que... que... vou dar à luz.

E, em seguida, começou a gritar de um modo horrível, lançando um longo clamor desvairado que parecia rasgar-lhe a garganta na passagem, um clamor agudo, lancinante, cuja entonação sinistra traduzia a angústia de sua alma e a tortura do seu corpo.

Transtornado, o pobre do padre, de pé diante dela, não sabia o que fazer, o que dizer, que iniciativa tomar, e murmurava: "Meu Deus, se eu soubesse... Meus Deus, se eu soubesse!" Estava vermelho até o branco dos olhos; e seus três garotos olhavam apatetados a mulher estendida e a gritar.

De repente, ela se contorceu, levantando os braços acima da cabeça, e então estremeceu com uma convulsão que percorreu seu corpo todo. O padre pensou que ela ia morrer, morrer bem ali à sua frente, privada de socorros e de cuidados por culpa dele. Conseguiu dizer com uma voz resoluta:

- Vou ajudá-la, Madame. Eu não sei... Mas eu a ajudarei como puder. Devo dar minha assistência a toda criatura que sofre. - E voltou-se para os três garotos e gritou:

- Vocês aí, vão colocando a cabeça na janela; e se algum de vocês se voltar para olhar, vai ter de copiar mil versos de Virgílio.

Ele próprio baixou o vidro da janela, acomodou ali as três cabeças, estendeu sobre os pescoços deles as cortinas azuis e repetiu:

- Se fizerem um só movimento, vão ficar de castigo, vão ficar privados dos passeios durante todas as férias. Não se esqueçam que eu não perdôo nunca. E voltou para junto da jovem senhora, erguendo as mangas da batina.

Ela continuava a gemer; às vezes, gritava. O padre, com o rosto vermelho, dava-lhe assistência, exortando-a e reconfortando-a; e repetidamente levantava os olhos para os três garotos que arriscavam olhares furtivos, logo desviados, para o misterioso trabalho a que se dedicava seu novo preceptor.

- Sr. de Vaulacelles, vai me copiar vinte vezes o verbo "desobedecer"! - gritava ele. - Sr. de Bridoie, você vai ficar sem sobremesa durante um mês.

Subitamente a senhora parou com sua queixa insistente e quase em seguida um grito estranho e frágil, que mais parecia um latido ou um miado, fez com que os colegiais se voltassem para dentro ao mesmo tempo, convencidos de que acabavam de ouvir um cãozinho recém-nascido.

O padre segurava nas mãos uma criaturinha nua. Contemplava-a com um olhar desorientado; parecia feliz e desolado; a ponto de rir e a ponto de chorar; parecia que estava louco, tantas coisas exprimia a sua cara com o rápido movimento dos olhos, dos lábios e das faces. E declarou, como se desse aos seus alunos uma grande notícia:

- É um menino. - E em seguida, ordenou: - Sr. De Sarcagnes, me passe a garrafa d'água que está ali no canto. Desarrolhe-a... Isso... muito bem... Põe um pouco na minha mão... ótimo, ótimo...

E aspergiu com aquela água a fronte nua do bebezinho, dizendo:

- Eu te batizo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

O trem entrava na gare de Clermont. O rosto da Sra. De Bridoie apareceu na janela. O padre então, perdendo a cabeça, apresentou-lhe o frágil ser humano que acabara de colher, murmurando: "Tivemos um pequeno acidente de percurso."

Seu aspecto era o de ter recém apanhado aquela criança num esgoto; e, com os cabelos molhados de suor, o colarinho fora de lugar, a batina maculada, ele repetia:

- As crianças não viram nada, eu garanto. Os três olhavam pela janela, eu garanto. Eles nada viram.

E desceu do trem com quatro meninos em vez dos três que fora buscar, enquanto as senhoras de Bridoie, de Vaulacelles e de Sarcagnes trocavam olhares desvairados, sem encontrar uma palavra sequer para dizer.

À noite, as três famílias jantaram juntas para festejar a chegada dos colegiais. Mas não falavam; os pais, as mães e os próprios meninos pareciam preocupados. De repente, o mais jovem, Roland de Bridoie, perguntou:

- Mamãe, onde foi que o padre achou aquela criancinha?

A mãe não poderia ter sido mais peremptória:

- Vamos, come e nos deixa em paz com as tuas perguntas.

O garoto calou-se por alguns minutos, logo em seguida:

- Não tinha ninguém. Só aquela senhora que estava com dor de barriga. É que o padre é um mágico, como o Houdini, que faz sair um armário cheio de peixes de baixo de um tapete?

- Cale essa boca. Foi Nosso Senhor quem mandou o bebê.

- Mas onde é que Nosso Senhor tinha posto o nenenzinho? Eu não vi nada. Será que ele entrou pela portinhola?

A Sra de Bridoie, impaciente, replicou:

- Cale a boca. Acabou-se. Ele apareceu num pé de couve, pronto, como todas as criancinhas. Você sabe disso.

- Mas não havia nenhuma couve naquele vagão.

Daí então Gontram de Vaulacelles, que escutava tudo com um ar maroto, sorriu e, disse:

- Havia uma couve, sim. Mas só quem a viu foi o padre.


(Ilustração: Denis Nunez Rodriguez)





domingo, 23 de junho de 2013

À ESPERA DOS BÁRBAROS, de Konstantinos Kaváfis







O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.


Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis há de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.


Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhes
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.


Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos,
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.


Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloquências.


Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.


Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.


(Poemas - tradução de José Paulo Paes)


(Ilustração: De Chirico - Los diósculos)





quinta-feira, 20 de junho de 2013

MASETTO DE LAMPORECCHIO FINGE-SE DE MUDO E TORNA-SE JARDINEIRO EM UM CONVENTO DE FREIRAS, AS QUAIS TERMINAM, TODAS, POR SE DEITAR COM ELE, de Giovanni Boccaccio







Relato de Filóstrato:

Belas senhoras, muitos são aqueles, homens e mulheres, que tão mal informados quanto tolos, acreditam piamente que é bastante cobrir com um véu branco a cabeça de uma jovem, e sobre ele colocar a touca negra, para que ela deixe de ser fêmea e, assim, não sinta mais os desejos de seu sexo, como se o fato de se fazer freira transformasse a carne em pedra; e se acaso escutam alguma coisa que se oponha a esta sua crença reagem conturbados, como se um dano enorme e criminoso houvesse sido perpetrado contra a própria natureza; sem pensar, nem querendo olhar o próprio exemplo, eles que, com plena liberdade de fazer como quiserem, não estão nunca saciados, nem atentam tampouco para a força tentadora que exercem o ócio e a solidão.

E da mesma forma há ainda outros, cegos, que pensam que a pá, a enxada, a comida rústica e a vida dura que levam, aqueles que trabalham a terra, lhes roubem da carne os desejos e os deixem embrutecidos e estúpidos. Mas como se enganam, uns e outros, os que assim pensam - eu, com prazer atendendo ao comando da rainha e fiel ao tema que por ela foi proposto, aqui pretendo prová-lo com o meu pequeno conto.

Aqui mesmo nestes nossos campos, há pouco tempo havia, e ainda há, um convento de freiras famoso por sua santidade (o qual não nomearei para evitar que em qualquer forma se diminua tal reputação); eram oito as freiras nessa época, mais uma Abadessa, e todas jovens. Seu belo jardim era cuidado por um simplório e bom homem que, pouco satisfeito do salário que lhe pagavam, decidiu abandonar o seu trabalho; feita as contas com o gestor do convento, partiu de volta a Lamporecchio de onde era originário. Entre aqueles que com boas-vindas o receberam de volta a sua terra, havia um jovem forte e robusto, chamado Masetto, que, mesmo sendo um camponês, era um homem de bela figura e que lhe perguntou por onde estivera tanto tempo. Nuto, que assim se chamava o jardineiro, contou que trabalhara num convento. E Masetto então perguntou que tipo de trabalho ele lá fazia. Ao que Nuto respondeu:

- Eu cuidava de um grande e belo jardim e da horta, ia ao bosque buscar lenha, carregava água e ainda fazia pequenas outras coisas; mas a paga que me davam era tão pouca que mal dava para manter-me calçado. Além do que, as freiras, todas jovens, pareciam como endiabradas, de forma que nunca o meu trabalho ficava ao gosto delas. Mais ainda, algumas vezes, enquanto eu trabalhava no jardim, vinha uma e dizia: "Ponha isto aqui"; e outra dizia: "Não, ali"; e uma outra, tirando a enxada da minha mão: "Não é assim que se faz"; e me cansavam tanto que eu terminava largando tudo e saindo do jardim; então, seja por uma coisa ou por outra, resolvi pedir as contas e vir-me embora. O gestor até que me pediu, antes que eu partisse, que se encontrasse alguém capaz que o mandasse a ele, mas, embora lhe tenha prometido, deixe que Deus cure seus rins, eu não vou me ocupar com isto.

Ouvindo as palavras de Nuto, Masetto foi tomado pelo desejo de estar com aquelas freiras, que havia bem visualizado, e de tudo aquilo que Nuto havia dito, ele intuiu como seus desejos poderiam ser satisfeitos; e sabendo que seus planos se arruinariam caso Nuto percebesse suas intenções, ele disfarçou:

- Ah! Você fez bem em despedir-se! Como pode o homem viver cercado de mulheres? É melhor viver com mil demonios; seis vezes em sete elas mesmas não sabem o que querem.

Depois de terminada a conversa, Masetto começou a pensar em que modo devia proceder para ver seus desejos satisfeitos. Ele se sabia bastante competente para o trabalho que Nuto descrevera e não tinha receios quanto a isto, mas temia não ser aceito devido a sua juventude e sua bela figura. Então, depois de dar tratos à imaginação, ele pensou: "O convento é longe daqui e lá ninguém me conhece; se eu me fizer de surdo-mudo é certo que me aceitarão."

Com seu plano em mente e uma trouxa nas costas ele partiu sem dizer nada a ninguém e, com a aparência de um mendicante, foi para o convento; lá chegando entrou pelo portão e, logo no pátio, encontrou o gestor, a quem, por gestos, como fazem os mudos, pediu um prato de comida pelo amor de Deus e mostrou também com mímicas que se fosse necessário poderia rachar a lenha. O gestor, satisfeito com a ideia, lhe deu de comer e depois lhe mostrou certos troncos de lenha que Nuto não tinha sido capaz de partir, os quais Masetto, que era muito forte, em pouco tempo reduziu a pedaços. Mais tarde, tendo de ir ao bosque, o gestor consigo o levou e, lá, o fez cortar mais lenha e depois, com gestos, mostrou-lhe o asno e o fez entender que ele devia carregar a lenha e voltar ao convento, o que ele fez muito bem feito. Assim, realizando pequenos trabalhos que eram necessários, o gestor o manteve alguns dias, até que a Abadessa o viu e perguntou quem era ele. Disse o gestor:

- Senhora, este é um pobre surdo-mudo que, um destes dias, bateu à nossa porta esmolando o que comer, o que lhe dei, e o mantive aqui fazendo várias coisas que precisavam se fazer. Se soubesse trabalhar no jardim e quisesse aqui permanecer, creio que nos prestaria bom serviço, pois precisamos de alguém e ele é forte e capaz para qualquer serviço, além do que, sendo surdo-mudo, não daria a minha senhora nenhuma preocupação quanto a importunar as suas jovens freiras - ao que a Abadessa respondeu:

- Por Deus que isso é verdade! Descubra se ele sabe cuidar da horta e do jardim e se quer ficar conosco, em tal caso dê a ele uns sapatos e uma capa velha, e trate de agradá-lo, cuide bem do seu estômago - o que o gestor prometeu fazer.

Masetto, não muito longe, enquanto isso, fingindo varrer o pátio, ouvia tudo que diziam a Abadessa e o gestor e pensava com ele mesmo: "Se me deixam entrar nesse convento eu mostro a eles como se cuida de uma horta e de um jardim." Vendo o gestor que Masetto trabalhava muito bem, com sinais lhe perguntou se queria ficar empregado, e este lhe respondeu, também por sinais, que desejava aquilo que quisesse o outro; e estando os dois, assim, de acordo, o gestor, mostrando o que devia ser feito na horta da cozinha, determinou que ele trabalhasse ali e, tendo outros assuntos que tratar, o deixou. Masetto trabalhava agora, dia após dia, junto às freiras; as jovens começaram com zombarias a rir dele (como a gente costuma fazer com os surdos-mudos) e, convencidas de que ele não ouvia, usavam palavras das mais sujas para dizer as coisas mais explícitas; a Abadessa da coisa não cuidava, talvez pensando que, como lhe faltasse a fala, outra coisa também lhe faltaria.

Aconteceu então que um dia, Masetto, depois de muito trabalhar, estava descansando, e duas freiras, das mais jovens, passeando pelo jardim, o viram e foram lá onde estava para olhá-lo, enquanto ele fingia que dormia. Então a que era mais ousada disse à outra:

- Se você fosse capaz de guardar segredo eu contaria uma idéia que me ocorre e que talvez lhe sirva como a mim - e a outra disse:

- Pode contar sem receio que jamais repetirei nada a ninguém - então a mais ousada começou:

- Não sei se você já refletiu no quanto vivemos isoladas e no fato de nunca vermos homens, a não ser o gestor que é um velho e este mudo; muitas vezes tenho ouvido, de senhoras que visitam o convento, que todos os prazeres desse mundo não são nada comparados com aquele que a mulher tem com o homem. Muitas vezes assim tenho pensado, e, já que com outro homem é impossível, por que não prová-lo com o mudo? E o melhor de tudo é que, mesmo que quisesse, ele nunca poderia nos delatar; veja, ele é só um tolo que cresceu com a mente de um menino. Gostaria de sentir o seu juizo sobre todas as coisas que lhe disse.

- Oh, você - disse a outra - o que é que vai dizendo? Esqueceu que as nossas virgindades nós as prometemos a Deus?

- Ah! respondeu a outra - Quantos votos são feitos, todo dia, para jamais serem cumpridos por ninguém. Se Ele quer tanto assim à virgindade que encontre outra ou outras que a guardem.

- E se acaso nós engravidássemos?

- Você pensa nos problemas antes mesmo que eles apareçam; fosse o caso de tal acontecer, então a solução se buscará, há mil modos de cuidar da coisa desde que se aja com discrição.

Assim reassegurada, a outra tinha agora mais vontade de saber do que a primeira que gosto tinha o homem afinal; e foi assim dizendo:

- E, bem, como faremos? - ao que a amiga respondeu:

- Você vê que ele dorme a nona hora e, como ele, as irmãs estão dormindo, basta olhar o jardim para ver que não há ninguém, exceto nós; assim, tudo aquilo que temos a fazer é pegá-lo pela mão e levá-lo à cabana, onde ele se briga quando chove; e enquanto uma esteja dentro, que a outra, fora, monte guarda. Ele é só um tolo que fará tudo aquilo que quisermos.

Masetto, fingindo que dormia, ouvia todo o argumento e apenas esperava que uma delas o levasse pela mão. Depois de olhar por toda parte, certas de que ninguém as via, aquela que primeiro tivera a ideia aproximou-se de Masetto e, sacudindo seu corpo para acordá-lo, puxou-o pela mão; Masetto foi logo levantando e, com um sorriso idiota, a seguiu; mas depois, na cabana, foi desnecessário que ela lhe mostrasse o que queria para que ele cumprisse seu papel. Com leal companheirismo, tendo já satisfeito seu desejo, a jovem freira deixou que sua irmã provasse também do mesmo pão; e, antes de partir, por várias vezes, se revezaram no provar com que habilidade sabia o mudo cavalgar. Mais tarde, discutindo o sucedido, as duas concordavam que o prazer era ainda bem mais doce do que tudo que haviam ouvido comentar. E sempre que encontravam uma chance, um bom momento, com o mudo voltavam a praticar.

Veio o dia que uma irmã, de sua cela, avistasse, olhando da janela, o que as duas faziam e, chamando outras duas, mostrou-lhes o que via; o primeiro que pensaram foi em tudo contar à Abadessa, mas depois de conversar, tendo bem
ponderado a questão, decidiram que melhor era entrar em um acordo com aquelas no jardim, e assim participar, dividindo de Masetto os favores e tenções, em justa sociedade. E as outras três que faltavam, por outros tantos acidentes, foram também, finalmente, uma a uma, se juntar à companhia. E por fim a Abadessa, que nada ainda sabia de tudo o que acontecia, vindo um dia, solitária, a andar pelo jardim, ali encontrou deitado Masetto, cansado do seu trabalho noturno, numa tarde muito quente dormindo à sombra da amendoeira, com as roupas desarranjadas, levantadas pelo vento, que o deixavam com o corpo descoberto. O efeito de tal visão e o fato de estar sozinha despertaram na Abadessa aqueles mesmos desejos que há tempos se entregavam todas as suas freirinhas, e despertando Masetto, sem muitas explicações, o levou diretamente ao seu quarto de dormir, onde o teve para ela, provocando o desconsolo e a revolta de todas as suas freiras que ficaram com a horta no mais completo abandono; para si o guardou, provando por muitas vezes delícias que, antes de haver provado, ela sempre condenara.

Por fim deixou que voltasse ao trabalho, mas tantas vezes o chamava e, pior, sem saber da divisão e dos arranjos que as outras haviam feito, o queria só para si; Masetto se via, assim, numa bela situação, sem ter forças nem poder para tantas satisfazer, e começou a pensar que o fato de ser mudo, que tanto o ajudara no início, ja agora começava a atrapalhar e foi assim que, estando uma noite com a Abadessa, quebrou a mudez dizendo:

- Senhora, eu tenho ouvido que um galo só é capaz de contentar dez galinhas, mas que dez homens se cansam e com muito sacrifício satisfazem a apenas uma mulher; e eu, pobre desgraçado, servindo a nove mulheres, acho que nesse mundo nada pode me salvar, peço que sendo assim minha senhora me deixe ir, com Deus e sua benção, de volta para o lugar de onde vim, ou então se encontre a forma que me permita com todos os meus encargos a eles sobreviver.

A Abadessa, assustada, ouvindo falar Masetto, disse:

- O que é isto? Mudo eu te acreditava!

- Senhora - disse Masetto -, eu era, não de nascença, foi uma doença que me fez ficar assim até esta mesma noite, quando voltei a falar, louvado seja o Senhor, que me devolveu a voz.

A Abadessa, acreditando na explicação, perguntou-lhe o que queria dizer com
a história de a nove mulheres ter que satisfazer.

Masetto contou-lhe tudo. A Abadessa, ouvindo seu relato, pensou que nenhuma das freiras tivera muito mais juizo que ela mesma. E entendeu que o melhor a fazer era encontrar um modo de discretamente solucionar tudo de comum acordo com suas irmãs, ou do contrário se arriscaria o bom nome da casa com o que Masetto poderia contar delas, sem falar em tudo mais que se perderia, caso ele partisse. Assim se reuniram as freiras em conselho e, como havia pouco tempo morrera o gestor, concordaram todas que Masetto o substituísse e decidiram também repartir seus serviços de modo a fazê-los suportáveis; e, ainda, fazer crer à gente do lugar que suas orações, mais a intercessão do santo patrono do convento, fossem a causa do milagre de haver Deus devolvido a fala ao mudo. E assim viveram vários anos e muitos fradinhos nasceram desse arranjo, mas feito tudo tão discretamente que, até quando morreu a Abadessa, do caso todo nada transpirou; mas, então, já rico e envelhecido, Masetto quis voltar a Lamporecchio, o que, sem muitos problemas, foi a ele concedido. Assim, tendo sabiamente vivido a juventude, Masetto, que dali partira com uma trouxa, voltou à aldeia velho, rico e patriarca de uma prole que nunca lhe deu despesas para criar e alimentar. E dizia, aos que lhe perguntavam da fortuna que tivera, que assim tratava o Cristo a quem, com chifres, Lhe enfeitara a testa.



(Tradução de Octávio Marcondes)


(Ilustração: Clovis Trouille - immenculcae conception)




sexta-feira, 14 de junho de 2013

SÚPLICA, de Miguel Torga







Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.



(Ilustração: Adrian Gottlieb - second thougths)





terça-feira, 11 de junho de 2013

O PAPAGAIO, de J. Simões Lopes Neto








O reverendo Padre Bento de S. Bento - que o senhor talvez conhecesse, não? -
era um Santo homem paciente - paciente! paciente! - como naquela época outro não houve.

Nos circos de burlantins muita cousa curiosa tenho apreciado: cachorros sábios, cabras que fazem provas, cavalos dançarinos e burros que a dente pegam o palhaço pelo... atrás das pantalonas; mas a paciência para esse ensino não pode comparar-se, não se pode, com a do reverendíssimo.

O Padre Bento, farto de aturar sacristãos e não querendo estragar a sua paciência, que estava-lhe na massa do corpo, resolveu dizer as suas missas... sozinho.

Preparava as galhetas, o missal etc.; depois pachorrentamente paramentava-se e pachorrentamente esperava a hora de oficiar; chegada, encaminhava-se para o altar, e começava e concluía, parte por parte, tudo muito em ordem.

Mas o filé, o bem-bom, era quando entrava a ladainha: ele cantava o nome do soneto e uma vozinha esquisita, porém muito clara, respondia logo:

- O-o-a por nob-s!

E os fieis, em seguida, pela pequena nave afora, acudiam ao estribilho:

- Ora pro nobis!

Dessas ladainhas assisti eu a muitas, na capelinha de S. Romualdo, que era próxima a nossa casa, na Vila de...

Agora sabem quem cantava as ladainhas do Padre Bento?

Era o Lorota, um papagaio amarelo, criado na gaiola e muito bem falante... com ele diverti-me muitas vezes:

- Lorota, da cá o pé!

E ele, ensinado pelo padre, respondia, amável!

Coitado!... O padre morreu e o Lorota, não tendo mais a quem dar contas, fugiu. Passaram-se os anos.

Uma vez, estava eu na Serra, numa espera de onça, quando senti - confesso, não medo, mas um arrepio de... frio - quando ouvi, nas profundezas do mato virgem, uma ladainha religiosa!...

E pausada, afinada, bem puxada em suma! Seria um sonho?... Estaria eu errado na tocada das onças, e, em vez de estar na floresta cheia de bichos ferozes, estava na vizinhança de algum convento, de alguma capela, de alguma romaria?...

E a ladainha, compassada e cheia, vinha se aproximando:

- Bento S. Bento!

- Ora pro nobis!

- Santo Atanásio!

- Ora pro nobis!

- S. Romualdo!

- Ora pro nobis!

Eu mergulhava os olhos por entre os troncos, os cipós e as japecangas a ver se bispava uma cor de opa, uma luz de tocha, uma figura de gente; nada! Nisto, a ladainha pousou nas arvores, por cima de mim. Pousou, sim, é o termo próprio, porque quem cantava era um bando de papagaios e quem puxava a ladainha era o papagaio do Padre Bento, era o Lorota!

A paciência do bicho!... Ensinar, direitinho, aos outros, a cantoria toda!...

Pasmo daquele espetáculo, e duvidando, quis tirar uma prova real, e perguntei para cima:

- Lorota? Dá cá o pé!...

Pois o papagaio conheceu a minha voz, conheceu, porque logo retrucou-me com a antiga resposta que ele sempre dava:

- Romualdo é bonito! Bonito!...

E como para obsequiar-me fez um - crr! - como aviso de comando e recomeçou a ladainha:

- Bento S. Bento!

- Ora pro nobis!

- Santo...

Nisto tremeu o mato com um berro pavoroso... o Lorota e seu bando bateu asas... e eu olhei em frente: a sete passos de distância estava agachada, de boca  aberta, pronta para o salto, uma onça dourada, uma onça ruiva; uma onça de braça e meia de comprido!...

E na aragem do mato ainda soou um vozerio distante.

- Or... a pro no... bis!

- S... Ro... mual... do!


- Ora... pro... nobis!...




(Ilustração: Orlando de Sant'anna - pássaro amarelo)