quinta-feira, 30 de agosto de 2012

AUTOMÓVEIS DEVEM TER RABOS?, de Fernando Reinach







A descoberta de como os lagartos usam seus rabos motivou a construção de carros-robôs providos de rabos. E, impressionante, o rabo ajuda a estabilizar o veículo.

Para que servem os rabos? Vacas espantam moscas e macacos se penduram, mas sempre se suspeitou de que a principal função dos rabos seria ajudar os animais a manter o equilíbrio. O princípio envolvido é o mesmo que os equilibristas usam para andar numa corda bamba carregando uma longa vara. Se eles vão cair para a esquerda, levantam a borda direita da vara, o que leva o corpo a se inclinar para a direita, permitindo reequilibrar o corpo.

O fenômeno físico por trás desse efeito é a conservação do momento angular. Em filmes de guepardos perseguindo gazelas em alta velocidade, pode ser observado que o animal move o rabo para compensar o desequilíbrio causado pelas curvas fechadas necessárias para acompanhar a presa. Até recentemente, essa função dos rabos era uma simples suposição, nunca comprovada experimentalmente.

Um grupo de cientistas filmou em câmara lenta os saltos de lagartos da espécie Agama agama. Os lagartos, que pesam aproximadamente 65 gramas, eram incentivados a correr em uma pista, subir em um degrau, saltar sobre um vão, pousar sobre uma superfície vertical e entrar no seu esconderijo. Esses vídeos foram analisados de modo a verificar como o lagarto conseguia orientar o corpo durante o voo de modo a conseguir pousar na vertical partindo da posição horizontal.

Os cientistas variaram a superfície do degrau de onde o lagarto partia. Quando a superfície era lisa, mas não escorregadia, o lagarto conseguia orientar corretamente o pulo e o rabo permanecia reto em relação ao corpo. Mas, se a superfície era escorregadia, o impulso era mais fraco e ficava mais difícil de o lagarto iniciar o pulo com a cabeça erguida. Ele decolava em linha reta e, se nada fosse feito, bateria de frente na superfície vertical. Nesses casos, o lagarto levanta rapidamente o rabo de modo a orientar o corpo para a vertical durante o voo , conseguindo pousar corretamente. Finalmente, se a superfície era áspera, o lagarto partia com um excesso de inclinação e necessitava baixar o rabo para orientar o corpo.

Após coletar e analisar esses dados, os cientistas construíram um modelo matemático que permite prever o quanto é necessário mover a cauda do lagarto para orientar o corpo durante o voo, qualquer que seja sua orientação inicial. Para verificar se esse modelo estava correto, construíram um carro-robô com rabo, que possui um giroscópio que mede a inclinação do corpo do carro (que faz o papel do ouvido interno do lagarto) e informa um computador.

Com base nesses dados, o computador (que faz o papel do cérebro do lagarto) utiliza o modelo matemático e ativa um motor (que faz o papel dos músculos do rabo do lagarto) capaz de alterar a orientação do rabo do carro. O sistema é programado para mover o rabo de maneira a manter o corpo do carro na horizontal durante a queda.

O carro-robô foi lançado em uma pista descendente, semelhante a uma pista de salto de esqui, que termina em um trecho ascendente. Normalmente, sem a ativação dos movimentos do rabo, o carro tende a cair de bico no chão, como ocorre quando um caro sai da estrada e cai em um barranco . Quando o rabo inteligente é ativado, o carro consegue manter a frente erguida durante a queda e pousa na horizontal.

Isso prova que o rabo móvel é capaz de orientar o carro durante a queda. Mais importante, esse resultado demonstra que o modelo deduzido a partir dos estudos com lagartos permite não somente prever o comportamento dos lagartos, mas controlar a orientação de um carro durante a queda. Como toda boa ciência, esse estudo explica como funciona um fenômeno natural e permite que esse conhecimento seja incorporado a novos produtos.

É difícil saber se essa tecnologia um dia será incorporada aos carros. Afinal, um carro com rabo talvez não habite o sonho dos consumidores - mas sem dúvida o rabo ajudaria a evitar acidentes.



(OESP/19 de janeiro de 2012)


(Ilustração: Ji Yong Ho - beest)


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

DESDE O FOGO, de Elizabeth Hazin







Sou triste
desde o fogo impresso na argila:
odeio todos os deuses.
Minha tristeza vem desde o nome
a revelar-me  a sede
a fome
a farsa que me corrói a face
nua.
Não quero essa alma que me queima:
de  barro estava bem.
Arde em meus olhos o desejo dos deuses
(como o dos homens).
Não quero a palavra
acesa
que à minha revelia me incendeia:
de repente
é impossível  restar calada.
Desde o fogo
a tristeza nos consome.



(Ilustração: Andrew Wyeth - overflow)





sábado, 25 de agosto de 2012

O HÓSPEDE, de Lúcio de Mendonça







Ele aí está, que o diga o Oliveira, aquele rapagão de bigode louro e olhar azul, que viajou como caixeiro de cobranças, "cometa", e hoje é repórter. Por sinal que foi a última viagem de cobrança que fez, e de tão horrorizado mudou de vida e profissão. Foi ele mesmo quem me referiu o caso. Aqui o dou pelo custo, sem nada meu.

Ao cair de uma tarde chuvosa de março, chegava o cobrador, extenuado e faminto, a uma vendola à beira da estrada, da longa estrada fastidiosa, pelos campos, que vai de Alfenas ao Machado, no sul de Minas.

Junto à venda havia a casa de morada, pequena, tosca e suja, dum velho casal português, que ali se fixara e vendia os produtos da pequena lavoura, cultivada nas suas terrinhas, e os furtos trazidos à noite pelos escravos da vizinhança. Pousada, não era costume dar-se ali; Alfenas ficava a uma légua, e os donos da casa diziam despachadamente que aquilo não era hospedaria. Mas, com o Oliveira, o caso era especial: trazia já as suas oito léguas bem puxadas e uma fome de carrapato, e depois, com tanta carga d'água, não havia meio de continuar viagem. Pediu pousada e ceia, pagando eu - acrescentou.

- Ceia, arranja-se-lhe  - disse o Zé Manuel, o taverneiro velho; lá a cama é que está mais difícil, que não recebemos hóspedes para dormir.

E com o olhar consultava a mulher, a mulheraça, anafada e pachorrenta, aboborada para dentro do balcão.

- Não, por isso não seja - opinou ela; dá-se-lhe o quarto do Jequim...

- Bem lembrado - concordou o vendeiro; - temos ali assim um quarto agora desocupado, que é o de nosso rapaz, que anda por fora; lá para o Carmo do Rio Claro; tem cama e colchão, que é o preciso para dormir... Se lhe serve...

- Serve, serve - aceitou logo o Oliveira. - E deem-me alguma coisa que se coma; estou morto de fome!

Enquanto se punha a janta, desarretou a besta, guardou os arreios no quarto que lhe destinaram, contíguo à saleta da frente e com janela para a estrada; levou o animal ao pasto, um pastinho fechado, muito perto; e voltou para cuidar de si.

Antes, porém, de sentar-se à mesa, onde já fumegava o feijão com couves e a canjiquinha, pediu que lhe trouxessem uma peneira.

- Uma peneira! ora essa!

- É cá para uma precisão!

Trouxeram-lha, e ele então sacou do bolso das calças um maço de dinheiro em papel, uma bolada de notas úmidas da chuva que apanhara, e estendeu pelo crivo da taquara as cédulas grandes, de duzentos, de cem, de cinquenta mil réis, uma boa meia dúzia de contos. Passou a peneira para a ponta da mesa a que não chegava a toalha, e entrou a servir-se da ceia no prato de louça azul, com a colher de ferro.

Ao levar à boca uma colherada, surpreendeu à porta da saleta o olhar aceso com que lhe comiam o estendal das notas, a velha portuguesa, que o servia, e o marido, que entrava com uma garrafa de vinho.

Tão cobiçoso era o olhar de ambos, que coou na alma do rapaz um frio de medo e um clarão de pressentimento. Logo, ali mesmo, resolveu acautelar-se, arrependido da imprudência de ter mostrado tanto dinheiro.

Acabando de cear, declarou que muito cedo, ao romper do dia, seguia para Alfenas, e por isso deixava paga a hospedagem; deram-lhe a boa-noite e recolheu, com uma vela de sebo, ao quarto do Joaquim.

Mal se viu só, tratou de ajuntar as notas que espalhara na peneira, tornou a enfiá-las no bolso, e apenas a casa sossegou em silêncio, ali por volta da meia-noite, saltou pela janela com os arreios e a mala à cabeça, foi ao pastinho fechado, selou a besta e tocou para a cidade, ao belo clarão da lua que despontava.

Nem bem se perdera ao longe o estrupido da besta que levava o cobrador, quando novo tropel de animal soou no terreiro da venda; era outro cavaleiro, que saltou do lombilho abaixo e em três tempos desarreou o cavalo em que veio e com um chupão nos beiços apinhados tocou-o para o campo.

- Diacho! minha janela aberta! - murmurou consigo. - Melhor! entro sem precisar bater e acordar os velhos a esta hora.

E, agarrando-se com o braço direito ao peitoril da janela, saltou para dentro, levando na outra o lombilho, o baixeiro e o freio, e logo tornou a fechar a janela, que o frio não era graça.

À alta madrugada, quando começava a amiudar o canto dos galos, dois vultos, cautelosos, sorrateiros, surdiram do interior da saleta da frente; um deles, o mais alto impeliu de manso a porta, apenas cerrada, e penetrou no quarto.

Da cama, ao fundo, ouvia-se a respiração compassada e forte de um bom sono ferrado. Aproximou-se o vulto, guiado pelo resfolegar do que dormia e pela tênue claridade que vinha da saleta, onde o outro vulto, agachado e trêmulo, sustentava e velava com a mão encarquilhada um candeeiro de azeite.
Súbito, no silêncio da habitação, soaram, soturnas, repetidas, machadadas rápidas, uma, duas, três, muitas, regulares a princípio depois desatinadas.

- Anda! traze a luz! - estertorou uma voz estrangulada.

Entrou no quarto o outro vulto, a velha gorda, com a candeia acesa.
Apenas a luz bateu na cama, numa horrível massa de roupas e carnes ensanguentadas, dois gritos sufocados misturaram o seu horror:

- O Jequim!!!

- O filho!! O meu rapaz!!

Fora, na estrada deserta, voejavam os bacuraus, como almas penadas.



(Horas do bom tempo, 1901.)



(Ilustração: Mia Makila)





quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O MINUETE, de Gonçalves Crespo







Espaçoso é o salão: jarras a cada canto;
Admira-se o lavor do tecto de pau santo.

Cadeiras de espaldar com fulvas pregarias:
Um enorme sofá: largas tapeçarias.

O purpúreo tapete aos olhos nos revela
Entre as garras de um tigre ansiosa uma gazela.

Retratos em redor: olhemos o primeiro:
No Toro as mãos de Afonso o armaram cavaleiro.

Era arcebispo aquele: esta foi açafata:
Que frescura sensual nos lábios de escarlata!

Olhos revendo o azul que sobre a Itália assoma:
Em finos caracóis, a loura e ondada coma:

Colo robusto e nu: cabeça triunfante:
Consta que certo rei... passemos adiante.

Este que vês, morreu num africano areal
Por vingança cruel do áspero Pombal.

Desse olhar na expressão infinda e inenarrável
desabrocha uma dor profunda e inconsolável.

Defronte, uma donzela, o rosto meigo e aflito,
Num êxtase adora o pálido proscrito.

O teu sonho nupcial, franzina morgadinha,
Tão cedo se desfez, ó mísera e mesquinha!

No burel escondeste o viço e a formosura,
E desmaiaste, flor, no chão de uma clausura!...

Repara nos desdéns do fofo conselheiro,
Que sorridente aspira a flor de um jasmineiro!

Em cânones doutor: no paço foi benquisto:
Orna-lhe o peito a cruz de um hábito de Cristo.

Esse outro combatendo às portas de Baiona,
Como um bravo, alcançou a rútila dragona.

Vibra flamas o olhar; cabeça ereta e audaz;
Ilumina-lhe o rosto a glória de um gilvaz.

Assistimos, ao vê-lo, às pugnas carniceiras,
E ouvimos o clangor das músicas guerreiras...

No antiquíssimo espelho, à sombra das cortinas,
Reflete-se o primor de argênteas serpentinas.

Sob o espelho se aninha um cravo marchetado,
Mimo outrora da casa, e prenda de um noivado.

Ao lado um cofre encerra, em amorável ninho,
Antiga partitura em velho pergaminho.

Uma noite estendi a música na estante,
E o cravo suspirou... naquele mesmo instante

Da ebúrnea palidez doentia do teclado
Manso e manso evolou-se o aroma do passado.

E vi descer do quadro a lânguida açafata
Que, ao discreto palor das lâmpadas de prata,

A fímbria alevantando azul do seu vestido,
O rosto acerejado, o gesto comovido,

A sorrir, deslizou graciosa no tapete,
Dançando airosamente o airoso minuete...




(Ilustração: Degas - Ballet Dancers in the Wing)



sábado, 18 de agosto de 2012

CASO DE RECENSEAMENTO, de Carlos Drummond de Andrade







O agente do recenseamento vai bater numa casa de subúrbio longínquo, aonde nunca chegam as notícias.

- Não quero comprar nada.

-Eu não vim vender, minha senhora. Estou fazendo o censo da população e lhe peço o favor de me ajudar.

- Ah moço, não estou em condições de ajudar ninguém. Tomara eu que Deus me ajude. Com licença, sim?

E fecha-lhe a porta.

Ele bate de novo.

- O senhor, outra vez? Não lhe disse que não adianta pedir auxílio?

- A senhora não me entendeu bem, desculpe. Desejo que me auxilie mas é a encher este papel. Não vai pagar nada, não vou lhe tomar nada. Basta responder a umas perguntinhas.

- Não vou responder a perguntinha nenhuma, estou muito ocupada, até logo!

A porta é fechada de novo, de novo o agente obstinado tenta restabelecer o diálogo.

-Sabe de uma coisa? Dê o fora depressa antes que eu chame meu marido!

- Chame sim, minha senhora, eu me explico com ele.

(Só Deus sabe o que irá acontecer. Mas o rapaz tem uma ideia na cabeça: é preciso preencher o questionário, é preciso preencher o questionário, é preciso preencher o questionário).

- Que é que há? - resmunga o marido, sonolento, descalço e sem camisa, puxado pela mulher.

- É esse camelô aí que não quer deixar a gente sossegada!

- Não sou camelô, meu amigo, sou agente do censo...

- Agente coisa nenhuma, eles inventam uma besteira qualquer, depois empurram a mercadoria! A gente não pode comprar mais nada este mês, Ediraldo!

O marido faz-lhe um gesto para calar-se, enquanto ele estuda o rapaz, suas intenções. O agente explica-lhe tudo com calma, convence-o de que não é camelô nem policial nem cobrador de impostos nem enviado de Tenório. A ideia de recenseamento, pouco a pouco, se vai instalando naquela casa, penetrando naquele espírito. Não custa atender ao rapaz, que é bonzinho e respeitoso. E como não há despesa nem ameaça de despesa de qualquer ordem, começa a informar, obscuramente orgulhoso de se objeto - pela primeira vez na vida - da curiosidade do governo.

- O senhor tem filhos, seu Ediraldo?

- Tenho três, sim senhor.

- Pode me dizer a graça deles, por obséquio? Com a idade de cada um?

- Pois não. Tenho o Jorge Independente, de 14 anos; o Miguel Urubatã, de 10; e a Pipoca, de 4.

- Muito bem, me deixe tomar nota. Jorge... Urubatã... E a Pipoca, como é mesmo o nome dela?

- Nós chamamos ela de Pipoca porque é doida por pipoca.

- Se pudesse me dizer como é que ela foi registrada...

- Isso eu não sei, não me lembro.

E voltando-se para cozinha:

- Mulher, sabes o nome da Pipoca?

A mulher aparece, confusa.

- Assim de cabeça eu não guardei. Procura o papel na gaveta.

Reviram a gaveta, não acham a certidão de registro civil.

- Só perguntando à madrinha dela, que foi quem inventou o nome. Pra nós ela é Pipoca, tá bom?

- Pois então fica se chamando Pipoca, decide o agente. Muito obrigado, seu Ediraldo, muito obrigado, minha senhora, disponham!



(Cadeira de Balanço)



(Ilustração: Bernadeth Rocha - vila italiana)



quarta-feira, 15 de agosto de 2012

PELA BOCA, de Mariana Ianelli








Antes de tudo, o grito
- Ninguém sabe se de dor
Ou de aviso.
A fome dessedentada
No peito da mãe.
As primeiras letras gagas
Até que algum nome
Do mundo dos homens foi dito.
Em outros tempos, novos sabores.
O beijo que ensina a delícia,
O fumo alimentando o vício,
A delação que trai o falso amigo,
O consolo num copo de sidra.
A voz, conhecendo a si mesma,
Canta um bolero azul de Andaluzia.
São mínimas as distrações,
Enormes os compromissos.
Uma promessa de vida longínqua,
Um leve murmúrio ao pé do ouvido,
O sopro que faz voar um cisco,
Um discurso antibelicista
Para uma platéia de vítimas.
Pela boca se urde a lembrança
De um sem-número de sentidos.
A saliva morna, espumando,
Tão grande e indomável é a cobiça,
Minutos de felação,
A confissão de uns poucos delitos,
Um túmulo dentro de outro
Depois do último suspiro.



(Fazer silêncio)


(Ilustração: Anthony Christian - logical conclusion)


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O GRITO, de Renata Pallottini





se ao menos esta dor servisse
se ela batesse nas paredes
abrisse portas
falasse
se ela cantasse e despenteasse os cabelos

se ao menos esta dor se visse
se ela saltasse fora da garganta como um grito
caísse da janela fizesse barulho
morresse

se a dor fosse um pedaço de pão duro
que a gente pudesse engolir com força
depois cuspir a saliva fora
sujar a rua  os carros  o espaço  o outro
esse outro escuro que passa indiferente
e que não sofre  tem o direito de não sofrer

se a dor fosse só a carne do dedo
que se esfrega na parede de pedra
para doer  doer  doer visível
doer penalizante
doer com lágrimas

se ao menos esta dor sangrasse 




(Ilustração: Dalí - figure at window)



segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A REPARTIÇÃO DOS PÃES, de Clarice Lispector






Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado – que fora da janela se balançava em acácias e sombras – eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-lo na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço, bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo. Não é com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos devagar a fumaça do cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado ia pouco a pouco roendo e avançando como ferrugem, até que qualquer alegria seria um insulto à alegria maior.

Só a dona da casa não parecia economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo coração já conhecera outros sábados, como pudera esquecer que se quer mais e mais? Não se impacientava sequer com o grupo heterogêneo, sonhador e resignado que na sua casa só esperava como pela hora do primeiro trem partir, qualquer trem – menos ficar naquela estação vazia, menos ter que refrear o cavalo que correria de coração batendo para outros, outros cavalos.

Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a bênção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós...

Era uma mesa para homens de boa-vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.

A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos – tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse.

Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera – mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar – um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de nós. Tudo limpo do retorcido desejo humano. 'Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.

Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.

Não havia holocausto: aquilo tudo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tomava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos.

Pão é amor entre estranhos.



(Laços de família)


(Ilustração: Andrea Kemp - copper kitchen)



sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A CASA, de Myriam Fraga






Pedra sobre pedra
Construí esta casa:
Tijolo, sonho e argila.
Custaram-me os alicerces
A metade da asa
Direita,
A outra metade,
Serviu de escora
Às traves que a sustentaram.

A asa esquerda perdeu-se
Na argamassa.

Esta casa, para fazer,
Levou-me anos
De solidão e fomes
Aplacadas.

Uma casa tão clara,
Aberta aos ventos,
E a cada dia sempre
Renovada.

Aqui plantei minha vida,
Nos esquadros
E soleira das portas.
Ancoradouro e barco,
Minha casa.

Daqui se ouvia o mar
E o canto das sereias,
Se nostálgico das janelas
O olhar se alongava.

Mas o perfume do incenso
Rolava nos altares, deuses lares,
E eu ficava e fui sempre
A guardiã da casa.

Pássaro do abismo,
Mensageiro da desgraça,
Meus olhos marinheiros
Pressentiram o desastre.

Ventos do sul sopraram
Sobre a casa. Marés de março
Enormes, com suas vagas,
Submergiram e arrasaram
Da soleira aos telhados.

Olho de furacão,
Espiral de sargaços,
Conheci o sumidouro,
A fúria da voragem.

Sobrevivente do escarcéu
Hoje, náufraga, na casa,
Sei que as paredes permanecem
Intactas, com suas marcas,
E novamente, aos poucos,
Com meus dedos quebrados,
Vou recompondo lentamente
A cumeeira arrasada.



(Ilustração: De Chirico - muebles y rocas em uma habitación)