quarta-feira, 15 de agosto de 2012

PELA BOCA, de Mariana Ianelli








Antes de tudo, o grito
- Ninguém sabe se de dor
Ou de aviso.
A fome dessedentada
No peito da mãe.
As primeiras letras gagas
Até que algum nome
Do mundo dos homens foi dito.
Em outros tempos, novos sabores.
O beijo que ensina a delícia,
O fumo alimentando o vício,
A delação que trai o falso amigo,
O consolo num copo de sidra.
A voz, conhecendo a si mesma,
Canta um bolero azul de Andaluzia.
São mínimas as distrações,
Enormes os compromissos.
Uma promessa de vida longínqua,
Um leve murmúrio ao pé do ouvido,
O sopro que faz voar um cisco,
Um discurso antibelicista
Para uma platéia de vítimas.
Pela boca se urde a lembrança
De um sem-número de sentidos.
A saliva morna, espumando,
Tão grande e indomável é a cobiça,
Minutos de felação,
A confissão de uns poucos delitos,
Um túmulo dentro de outro
Depois do último suspiro.



(Fazer silêncio)


(Ilustração: Anthony Christian - logical conclusion)


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