quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

“CONTEMPLO O ROSTO DE GRACILIANO RAMOS, MORTO…”, de Augusto Frederico Schmidt







Contemplo o rosto de Graciliano Ramos, morto: parece-me sereno, tranquilo, adormecido como está no fundo de sua ausência. Foi um revoltado, não um ressentido. Sabia que o mundo é mau, que os homens devoram-se, e ao terminar sua carreira sobre a terra, não esperava encontrar mais nada.

Estendido no caixão, coberto de flores — que paz todavia emana desse que fora homem de aparência brusca, personagem desabusado, franco, duro! A mim não enganou, jamais, o jeito de Graciliano: sempre o julguei como realmente era — honesto, incapaz de falsear, de mentir, de odiar gratuitamente quem quer que fosse. Não era um sentimental, um terno ser de fácil emoção, de nervos à flor da pele, de mesmo raras lágrimas. Longe disto, aprendera muito, tivera a experiência da luta, conhecera uma prisão injusta e longa: vira o que o homem pode fazer com o homem inerme…

Suas memórias contarão histórias implacáveis. Quantas vezes, num banco ao fundo da Livraria José Olympio, não me descreveu Graciliano episódios que presenciara e sofrera, numa época de má lembrança e em que não havia liberdade entre nós. Suas queixas pessoais — diga-se, em abono da verdade — não lhe punham na voz as cores do ódio, nem insistia nelas; odiava muito mais o que praticaram contra outros seres, à sua vista, sob o seu testemunho.

Cada qual com a sua experiência. A experiência de Graciliano Ramos fê-lo um revoltado — mas em toda parte há motivos de revolta; e creio mesmo, apesar dos pesares e do que viu o autor de Vidas secas, ainda existe no Brasil uma cordialidade que outros povos não conhecem mais.

***

Esse morto sereno que meus olhos fixam celebrou as viagens dos párias — dos homens fugindo à inclemência das próprias terras desoladas, dos filhos das paragens madrastas onde não há o socorro elementar da água, onde o bicho humano debalde invoca o milagre dos céus impiedosos.

Foi um romancista de bandidos, de incompreendidos, de solitários e desgraçados, de gente infeliz e condenada a não inspirar piedade a ninguém. Foi um forte, nunca um fanático; os que o conheceram sabem que seu pudor sempre o manteve a distância do fanatismo, da beatitude. Não serviu, como escritor, a partido ou credo nenhum, religioso nem político, senão por coincidência. O que almejava era escrever bem, atender às regras do jogo literário. Não se orgulhava de nada, mas gostava que o consultassem sobre questões de sintaxe, sobre dificuldades da língua e da arte.

Esse modesto revolucionário era um escritor clássico, amante das leis do estilo e dos grandes modelos e exemplos…

***

Jamais vingou, entre Graciliano e eu, o menor equívoco, o mínimo juízo mau. Em vão tentaram intrigar-nos, mesmo em público. Graciliano resistia: sabia-me alvo de ressentimentos inconfessáveis. Pouco se lhe dava, aliás, o que eu pensasse quanto à existência de Deus ou sobre a necessidade e a maneira de defender o homem humano nesta trágica conjuntura: e de minha parte, o comunismo de Graciliano não me arrepiava — parecia-me, ao contrário bem integrado e compreensível na revolta desse homem que a vida fizera desiludido de tudo. A adesão a um partido representava para ele o retorno a uma esperança de dias mais justos e melhores para a humanidade, mas em nada lhe solapava o senso de justiça — e o fato de alguém ser branco ou vermelho não ajudava nem prejudicava o seu julgamento e a sua consideração.

***

Da última visita que fiz a Graciliano, guardo lembrança marcante: falou-me de seu passeio à Rússia, dos encontros e das surpresas que lá encontrara, das paisagens avistadas… Depois ficamos a rememorar episódios velhos, desde o nosso primeiro encontro, mal chegara ele ao Rio; generosamente, pela primeira vez, aludiu aos anos decorridos. Lembrou-se dos dois artigos que escrevi, em protesto contra a sua prisão, numa hora em que quase todos se calavam, mesmo os profissionais da contumélia e do insulto.

Saberia ele estar condenado à morte próxima? — indagava-me eu, a cada instante vendo-o acender o cigarro incessantemente e ouvindo-o conversar. Nunca o encontrara tão desempenado, tão bom palestrador, tão ameno, como nesse dia de domingo claro e festivo em que, já às vésperas do término de seus padecimentos, Graciliano fazia de conta que não sabia de nada, heroico em seu pudor… Mas não lhe faltava o conhecimento exato de seu mal, e já as grandes dores o atormentavam: ia morrer. Mas morria no seu natural, sem quebrar a linha de sua natureza áspera e intratável que guardava, porém, o ouro fino do amor dissimulado e escondido, negado e renegado.


 (Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 22 mar. 1953, 1º Caderno, p. 2.)



(Ilustração: Graciliano Ramos no esquife em 1963 - foto de a. desconhecido)





segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

LE MIROIR / O ESPELHO, de Edmond Jabès








Au dortoir des ressemblances

les feuilles ont leurs pensées

les pierres savent le bruit

doré que font les abeilles

Le jour est intimement lié

à leur désespoir à leur oreille

Pour l’air l’eau du temps

la nature danse

L’herbe dans la terre a

un pied nu qui avance

Mais tu n’entendras jamais

un murmure de fatigue.



Tradução de Eclair Antonio Almeida Filho:



No dormitório das semelhanças

as folhas têm seus pensamentos

as pedras sabem o rumor

dourado que fazem as abelhas

O dia está intimamente ligado

ao seus desesperos às suas orelhas

Para o ar a água do tempo

a natureza dança

A relva na terra tem

um pé nu que avança

Mas tu não ouvirás jamais

um murmúrio de fadiga.





(De l’écorce du monde – 1954)




(Ilustração: Paulo Martinez Fernandez)



sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

NOITE DE GALA, de Yara Maria Camillo







Passa da uma da manhã. A Missa do Galo foi longa e a fila para beijar os pés do Menino Jesus estende-se, procissão para além do pátio, até a esquina da Rua Glicério.

A Menina arregala os olhos para tudo: esta sua Noite de Gala. Delicia-se com o Hosana das Filhas de Maria e o presépio junto ao altar, onde chegará para beijar os pés do Deus feito Menino.

Não a incomoda, como às vezes ocorre, a mão esquecida da mãe sobre a sua, nem o ajuntamento, nem o olhar do "tio" que, meio-rude-meio-terno, afasta-lhe a outra mão que estava a explorar o nariz meio chato, nariz que é a primeira coisa que ela sente ao acordar, porque a avó o aperta de leve, todas as manhãs, afilando-o para que assuma a forma do nariz materno, para que perca a qualidade esborrachada, herança do pai, herança de negro. Apenas, a avó, nesse obstinado ato de esculpir um novo nariz, se esquece de arrebitar-lhe a ponta, de modo que com o passar dos anos ele se tomará afilado, sim, mas ligeiramente adunco.

—Tira a mão do nariz — diz o "tio". — É feio.

Ela consente. Peçam-lhe o que quiserem.

A fila anda mais rápido.

— Beijem o Deus Menino e deixem para rezar em volta do presépio; não vamos retardar a fila — adverte o Padre Romano, que a Menina acha muito bonito, assim, vestido de branco.

A poucos passos do altar a mãe se abaixa e avisa:

— Não encoste a boca no Menino Jesus. Beije de longe, que é a mesma coisa.

...Coisa que a Menina não obedece, porque tomada pelo Adeste Fidelis, porque feliz. Sabe que na volta a mãe e o "tio" Rodrigues serão os primeiros a entrar no kitchenette, sabe que ficará na portaria esperando, junto com a avó, enquanto os dois vão ver se os presentes já chegaram.

Sabe e não tem pressa, prolonga com delícia o gozo próximo.

Se a mãe a viu beijar de verdade os pés do Menino, se a viu encostar a boca onde todos encostam, fingiu que não.

A noite é sereno na volta, os quatro dobram a esquina da Rua Oscar Cintra, a Menina de mãos dadas com a avó, e entram no Edifício Ouro Branco.

A mãe passa altiva pelas louras oxigenadas e um marinheiro, todos aglomerados na portaria, tomando champanhe barato com o zelador. Passa altiva, braços dados com o "tio", que assume ares de carranca.

A avó, soltando a Menina, senta-se no banco de madeira, junto à árvore de Natal, armada perto dos elevadores.

A Menina acha bonitas aquelas moças decotadas, de cabelos cor de ouro; sorri de volta aos sorrisos, e também para o marinheiro Rosalvo, que uma vez lhe deu um chinezinho de louça, pelado.

— Eu queria ser bonita como a Nina — ela disse, um dia, à mãe, que comentou com o "tio" a urgência de sair daquele prédio, "antes que a Menina cresça e comece a entender".

Também agora a Menina queria ser Nina, a mais loura, a mais linda; queria ser Rosalvo, que a abraça.

O "tio" volta pelo corredor e avisa que os presentes chegaram. Estabanada ante o gozo iminente, a Menina dispara corredor afora, escorrega no capacho para deslumbrar-se com os jogos, a boneca, uma xícara com desenhos de flores, um vestido amarelo, tanta coisa, um carrossel com cinco cavalinhos que giram como no Parque Xangai.

Foi-se a surpresa, nada mais a esperar. A Menina sabe que agora virá o guaraná e avelã e amêndoas, sabe que virá o sono e então o dia, os dias.

Mas a noite acontece em outro tom: a avó se levanta da mesa e se apoia na guarda da cama, arfante, a mãe atrás. A Menina quer ir para as duas, o "tio" avisa que fique onde está.

— Rodrigues, corre aqui.

O "tio" se ergue, depois de repetir a ordem.

— Acode aqui, Rodrigues.

Não é a primeira vez da avó doente.

— Um táxi. Chama um táxi.

A Menina se agita. Ela pode ajudar? Não pode, e termina o guaraná que de repente perdeu o gosto. Com quem a deixarão dessa vez, se a vizinha, Dona Laura, viajou?

Demora.

A avó respira com dificuldade, dói só de olhar.

Demora.

A mãe reza, lamenta-se, "linda, a minha mãe", pensa a Menina.

Demora.

O "tio" volta, o táxi chegou. A Menina segue os três pelo corredor, a porta ficou aberta.

Na portaria, as mulheres e o marinheiro correm a ajudar. A mãe chama o zelador para pedir que fique com a filha, desiste ao vê-lo cambaleante e solícito.

Com quem deixar a Menina?

— Você fica — o "tio" propõe à Mãe, que não responde, apenas olha todas aquelas pessoas coloridas, não tem muito tempo, a avó arqueja.

 Se o problema é a Menina, pode deixar que eu tomo conta — diz Nina. — Deixe comigo... Senhora.

A mãe, altivez pejada, assente:

— Obrigada... Nina.

— Por nada... Senhora.

A Menina quer juntar a alegria de ficar com Nina a essa hora triste dos seus, da avó que parece um brinquedo quebrado, assim, encolhida.

A mãe avisa a Nina que a porta do kitchenette ficou aberta, agradece, olha a filha, sai. O táxi contorna a praça, entra na contramão na Rua Helena Zerrener e desaparece. Chuvisca.

A sós com tantos ídolos, a Menina quer rir.

— A tal pensa que tem o rei na barriga — ouve Nina dizer. — Grande senhora ela é, só porque tem um caso permanente.

As mulheres brincam com a Menina, inesperada boneca. Uma delas passa-lhe batom. Rosalvo, o marinheiro, promete-lhe uma tiara. De que cor? Azul. Você gosta de azul?

Gosta, a Menina diz que sim. A avó doente vai virando uma dor longínqua, com gosto de ontem; a alegria do agora vai contagiando a Menina, que não sente medo, como quando fica com Dona Laura, que logo a põe na cama e apaga a luz.

Nina deixa que ela experimente o champanhe, um gole só. A Menina quer... E adora.

O tempo não passa, de tão novo. É um olhar demoradamente para cada mulher, brincos, golas, saias, relógios, meias, é um gostar demais do uniforme azul-marinho de Rosalvo. Timidamente, a Menina aponta-lhe o quepe:

— "Seu" Rosalvo, deixa eu ver seu chapéu?

É bom que todos sorriam com ela, o centro, o miolo da flor cujo pólen é inteiro e somente para Nina, que se despede dos outros e, tomando a mão da Menina, pergunta cadê a chave.

— A porta ficou aberta.

— É mesmo.

A mão conducente de Nina é um suave caminho.

— Então é aqui que você mora? Que chique!

Nina é toda sorrisos, a Menina deslumbra-se mil vezes, mostra os presentes, oferece avelãs e amêndoas e nozes. As duas comem e brincam e riem e tudo parece assim, diferente.

— Agora, cama.

— Não.

— Já, gracinha.

O tempo se apaga, a Menina acorda e vê Nina sentada aos pés da cama, fumando, olhando. A luz acesa.

— Mamãe não voltou ainda, meu bem. Pode dormir de novo, que a Nina está aqui com você.

— Nina?

— Que é?

— Eu suei.

— Você o quê?

— Suei.

— Você... — Dos cabelos louros de Nina, que se abaixa para descobri-la, exala um perfume forte.

— Deixa eu ver... Ah, você fez pipi. Levanta daí.

Em pé, na cama, a Menina apoia-se na mulher, que lhe tira o vestido e a calcinha.

— Vamos trocar de roupa. — Erguendo-a nos braços, leva-a até o bidê. — Senta aí pra eu te lavar. Veja se a água está muito fria... Muito fria?

— Não.

— Bom. Então... Pronto.

A toalha não é tão macia quanto as mãos de Nina.

— Agora me diga onde estão suas roupas.

— Ali — a Menina aponta a cômoda.

— Vem.

Nina a coloca em pé sobre o colchão e abre a primeira gaveta.

— Nina, você foi na Missa do Galo beijar o Menino Jesus?

— Você é meu Menino Jesus, benzinho.

Risos. Nina encontra uma camiseta, uma calcinha:

— Tá bom assim?

— Tá.

— Deixa eu te vestir. Dá o pé, louro.

A Menina obedece e enlaça Nina, aspira com deleite o perfume dos cabelos claros. A mulher a aperta contra si. A Menina não quer soltar-se nunca mais.

— Você é meu Menino Jesus — Nina repete, repelindo-a com doçura.

— Jura?

— Juro.

— Você é linda, Nina. Linda como a Nossa Senhora.

— Não fala assim, gracinha. É pecado.

A Menina se atira no colo que ainda quer rejeitá-la, mas não consegue. E é como se algo nascesse, na noite sem idades.

O marinheiro Rosalvo bate levemente e entra. Com os olhos, Nina lhe pede silêncio. A Menina está quase dormindo. Rosalvo toca o ombro da mulher, deixa que a mão escorregue até os seios. Nina o repele com um tapa. A Menina se mexe um pouco, depois se abandona. Rosalvo volta a apoiar a mão no ombro de Nina, perguntando-se que bicho a terá mordido. Mas não ousa outro gesto e apenas fica ali, imóvel, olhando e olhando.

Num quintal da Rua Tabatinguera, o primeiro galo canta.



(Hiatos)




(Ilustração: Patrice Murciano)



terça-feira, 20 de dezembro de 2016

MA BOHÈME (FANTASIE) / MINHA BOEMIA (FANTASIA), de Arthur Rimbaud









Je m' en allais, les poings dans mes poches crevées;

Mon paletot aussi devenait idéal;

J' allais sous le ciel, Muse! et j' étais ton féal;

Oh! là là! que d' amours splendides j' ai rêvées!



Mon unique culotte avait un large trou.

— Petit-Poucet rêveur, j' égrenais dans ma course

Des rimes. Mon auberge était à la Grande-Ourse.

— Mes étoilles au ciel avaient un doux frou-frou.



Et je les écoutais, assis au bord des routes,

Ces bons soirs de septembre où je sentais des gouttes

De rosée à mon front, comme un vin de vigueur;



Où, rimant au millieu des ombres fantastiques,

Comme des lyres, je tirais des élastiques

De mes souliers blessés, un pied près de mon coeur!



Tradução de Claudio Daniel:



Eu caminhava, as mãos soltas nos bolsos gastos;

O meu paletó não era bem o ideal;

Ia sob o céu, Musa! Teu amante leal;

Ah! E sonhava mil amores insensatos



Minha única calça tinha um largo furo.

Pequeno Polegar, eu tecia no percurso

Um rosário de rimas. A Grande Ursa,

O meu albergue, brilhava no céu escuro.



Sentado na sarjeta, só, eu a ouvia

Nessa noite de setembro em que sentia

O odor das rosas, que vinho vigoroso!



Ali, entre inúmeros ombros fantásticos,

Rimava com a débil lira dos elásticos

De meus sapatos, e o coração doloroso!





(Ilustração: Nicolás Berlingiere - Homage to the Painters)


sábado, 17 de dezembro de 2016

BARBARIDADE, de Mariana Mesquita






Bárbara é uma doce menina de 13 anos, saudável e feliz. Acorda todos os dias, bem-disposta, às sete da manhã. Cantarola, abre as janelas, respira fundo, sorri e exclama que a vida é bela e que ela é a garota mais feliz do mundo! Deseja bom ­dia às suas bonecas, toma um refrescante banho, penteia seu lindo e sedoso cabelo, veste uma roupa esvoaçante e desce as escadas como uma borboleta sobrevoando um jardim. Antes que a mãe a chame para o café, Bárbara grita: Já estou indo, minha linda mamãe!

O pai lhe dá um beijo na testa e diz que a filha está um bibelô! Bárbara acha graça e lhe devolve o carinhoso beijo. Ela é o orgulho dos pais. A mãe traz a margarina e a família toma seu desjejum feliz.

Depois do café, o pai de Bárbara diz que tem uma surpresa. A mãe lhe entrega uma caixa colorida, com um laço de fita cor-de-rosa. A cor predileta de Bárbara. Ansiosa, ela desembrulha o presente tentando adivinhar o que será. Quase chora de emoção. Seu sonho mais recente foi realizado: é uma linda boneca Barbie vestida de noiva. Bárbara imagina como será o dia de seu casamento e, emocionada, comenta, mais uma vez, que ama muito seus pais. Depois, guarda a boneca junto com as suas outras trinta e cinco Barbies. As esportivas, as executivas, as vestidas para o campo e para o baile. Todas lindas e perfeitas! Mas nenhuma com a graciosidade de Bárbara. Quem sabe um dia não existirá uma Barbie Bárbara?, pensou, sorriu e foi se arrumar para não se atrasar para a aula.

Oito e meia é a hora do ônibus. Bárbara sai de casa saltitante. O motorista que a leva todos os dias pensa: Que graça de menina! Bárbara tem a pele lisa como uma pétala de rosa, os dentes mais brancos que a neve e os cabelos macios, sedosos e com balanço. No colégio, suas notas são as melhores, seus assuntos, os mais interessantes, e todos querem sua amizade. Ela comanda as brincadeiras no recreio. Os professores se orgulham da aluna, e os amigos a amam. Bárbara não faz esforço para agradar, mas é a mais querida do colégio. No recreio, observa os meninos e prevê o dia em que terá que optar entre se casar com Rodrigo Martins ou Eduardo Carvalho. Uma decisão difícil, mas que ainda tem tempo para ser tomada. Certeza, só uma: quer ser mãe de uma linda menina. Como ela. Bárbara suspira, volta para casa, faz seu dever e corre para brincar com sua nova Barbie. A noiva. Sorri. Como sou feliz!

Era assim, foi sempre assim até aquela madrugada maldita. Bárbara dormia ingenuamente. Sonhava com anjos e brinquedos que ganhavam vida. Mas, sem aviso prévio, seu sonho foi interrompido por imagens estranhas, sem nexo, que lhe davam arrepios e tremedeiras. Os anjos fugiram, os brinquedos desapareceram. Ela fazia força para voltar ao sono antigo, mas nada adiantava. Bárbara se debatia, tremia como se seu corpo estivesse sendo invadido, abduzido, carcomido... suava. Tentou, em vão, acordar. Por instinto, tentava negar o que estava fadado a acontecer. Mas era tarde... A natureza havia marcado a data. Às três horas e cinco minutos do dia 15 de abril de 2009... Mais uma adorável e indefesa criança se tornava adolescente!

No dia seguinte, sem lembrar de nada, Bárbara acordou tarde e perdeu a hora do ônibus. Estava molhada de suor, exausta, e não sabia por quê. Eram muitas as novidades. Reparou que seu peito apresentava duas protuberantes bolinhas, de tamanhos diferentes, que despontavam para o alto. Precisava com urgência de um sutiã que escondesse aquelas azeitonas. Seus pés saíram na frente, haviam crescido mais que o resto do corpo. Seu esqueleto, agora, era quase um poste — alto e envergado. O cabelo já não balançava como antes, e ela reparou que seus dentes da frente estavam trepados uns por cima dos outros. Não era justo, mas provavelmente teria que usar aparelho fixo por muitos anos. Sentiu ódio!

Sua casa também parecia ter mudado, estava bem menor. Mas logo percebeu que era ela que não cabia mais no quarto. Havia crescido. Esbarrando em móveis, foi tomar seu banho.

Não! isso não!! Bárbara se olhou no espelho e gritou horrorizada. A acne marcava todo o seu rosto Na ponta do nariz crescia uma volumosa espinha cercada de pequenos e negros cravos. Bárbara quis morrer! Gritava que era a menina mais infeliz do mundo, que ninguém a compreendia, que seus pais eram os culpados por tudo, que nunca mais sairia de casa! Que estava horrorosa! Que odiava sua vida, seus brinquedos, a escola e sua família por ter permitido que essa desgraça acontecesse! A mãe veio, aflita, perguntar que estava acontecendo. O pai chegou a pensar em chamar a ambulância, os bombeiros ou a polícia. Mas Bárbara bateu a porta do quarto, furiosa. Já ia se jogar na cama para se afogar em lágrimas quando viu as trinta e seis Barbies sorrindo e zombando do seu infortúnio... Sem parar para pensar, chutou a Barbie executiva! Que alívio! Sentiu tanto prazer em destruir aquela boneca ridícula que arrancou a cabeça da esportiva e devorou a perna da Barbie noiva! Ninguém me compreende! Oh dia! Oh céus! Oh vida!

O tempo passou, o mato cresceu ao redor e agora ela tinha pentelhos em lugares nunca antes imagináveis. Não demorou muito e a menstruação chegou, para enfatizar a transformação de menina em monstro. Seu corpo inteiro doía, movido e exaurido. Milhares de hormônios borbulhavam em seu corpo, provocando novas e estranhas sensações. Foram três dias de um fluxo intenso. Sentia cólica, tesão, alívio, ódio, calafrio, amor, e chorava, chorava...

Os pais de Bárbara tentaram de tudo. Psicologia, psicanálise, medicina, pedagogia, psico-pedagogia, terapia familiar, individual, ocupacional, homeopatia, fitoterapia, astrologia, filosofia, espiritismo, ciências alternativas, ocultas e nada! Fizeram reuniões com o colégio, com os vizinhos, com pais dos amigos... Foram compreensivos, repressivos, alternativos e autoritários. Mas não era fácil domar a fera. Nada acalmava Bárbara.

Ela agora fazia o que bem queria, na hora em que bem quisesse. Essa era a parte boa. Matava aula, fumava escondido, e, para provar que era a tal, deu para Rodrigo Martins numa noite e para Eduardo Carvalho na outra. Achou tudo um saco!

Cada vez que olhava sua coleção de Barbies, já meio destruídas, tinha mais ódio delas, de si mesma e do mundo. Eu odeio Barbie!

Que ninguém viesse dizer que Bárbara não tinha motivos para se rebelar. A culpa de sua revolta foi aquela noite fatídica quando houve a transformação da criança em fera. Pelo menos, esta certeza ela tinha: a vítima era, e sempre seria, ELA.

No café da manhã em família do dia 13 de agosto, Bárbara havia acordado de mau humor. O pai, exausto, caiu na asneira de chamá-la de rebelde sem causa. A mãe, tolinha, comentou que a nova personalidade da filha fazia com que ela se lembrasse de Gonga, a mulher gorila. Bárbara quis matá-los! Calma, Gonga! Mas será que eles não percebem que são os culpados por tudo? Ela já não suportava mais aquela conversa mole: Um dia você vai nos compreender! Nós te amamos muito, meu bibelô! Essa fase difícil vai passar! ... Chega! Correu para o quarto, bateu a porta e foi devorar uma nova Barbie, quando se deu conta de que não havia sobrado mais nenhuma para abrandar sua ira. Calma, Gonga! Mais raivosa do que nunca, desceu as escadas como um caveirão. E, quando os pais tentaram impedir que ela demolisse a casa, Bárbara virou uma mulher-bomba e explodiu. Estraçalhou o casal como se eles fossem bonecos — Barbie e Ken —, agora sem pernas nem cabeças. Devorou os dois! Comeu o pai, depois a mãe... Não sobrou nem um órgão, nem um membro, nem um pedaço do corpo humano para contar a história. Ufa! Estavam todos em frangalhos. Inclusive Bárbara. Ela saiu ferida e os pais despedaçados. 

Finalmente, suspirou mais calma, olhou o cenário de devastação, sorriu e pensou: Ah, não fode.


(Dez contos de terror)



(Ilustração: Stu Mead (1955) - prelude)


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

NAVILOUCA, de Chacal






quero encontrar você

o dia amanhecendo

num buteco

tomando média

olhos claros

translúcidos

- você, aqui?



de repente nós dois

e o resto.



a gente vai

andando andando

dando risada

falando bobagem

pisando a paisagem

viagem



de repente

numa esquina

de terno o tempo

vai passar

apertado apressado.

a gente para o tempo.

diz a ele, calmamente,



como é a felicidade

e vai seguir seguir seguir…



(Belvedere)



(Ilustração: Gwenn Seemel - Répandre la joie)




domingo, 11 de dezembro de 2016

PÁSSAROS VORAZES, de Katia da Silva






Conheci uma senhora cujas palavras fluíam fáceis e insólitas. Ela acreditava que certas mulheres são capazes de voar durante a noite, metamorfoseando-se em vorazes pássaros noturnos. Seduzida pela eloquência e teatralidade de suas próprias palavras, ela acrescentava eufórica a opinião que tais pássaros noturnos não são apenas mulheres velhas, e que todas são, finalmente, mulheres fatais.

Olhar imperturbável, ela me disse que o voo noturno é uma característica das "bondosas damas", acrescentando com uma voz trovejante: "Pássaros vorazes de cabeça desmesurada, olhos fixos, bico afiado para a rapina, plumas brancas e garras tortas. Estes pássaros, sejam eles o fruto de uma reprodução entre sua própria raça, criados por um encanto infernal ou ainda, sejam somente velhas senhoras metamorfoseadas, nós os reconhecemos sempre pelos gritos estridentes com que amedrontam as noites."

De resto, ela me revelou ter ouvido isso em algum lugar. E eu acreditei. Alguém certamente também acreditou ser uma boa ideia falar sobre o assunto. E ela ficava assim pensativa repetindo estas palavras, com o olhar perdido. Olhar de vingança. Esse era o seu passatempo predileto, sonhar com asas largas que a levariam a distantes províncias e lhe dariam a força de escapar. Ela sonhava em escapar. Escapar dos murros, dos muros, dos gritos, das ironias, dos insultos, das dores e dos silêncios.

Gestos e nomes apoiando os seus contares, numa destas ocasiões ela me falou do escritor que disse que a força das sereias está no silêncio! "No seu silêncio! Pode imaginar pior insulto!?".

Ela me contou também que um conhecido seu, passeando em Montreal às margens do canal e numa noite de lua, entendeu uma voz que perfurou o silêncio do matagal:

"Muitos gostam de acreditar que somos todas iguais, pela nossa voz estridente ou sedutora. Julgam que somos instrumento de perdição, que somos o sonho. Desiludam-se! Somos o rosto cansado das velhas, o rosto apaixonado das jovens. Companheiras dos sonhos, com os animais elegemos nosso lar. Assim, temos uma forma bestial. Vejam aí só o que vocês sabem, pois no entanto, ignoram que mesmo sendo veneração, somos também horror. Horror e veneração.”

Quanto à mim, não sou velha; sou relativamente jovem. Meus urros, vocês não conseguem diferenciá-los no mais claro do dia. Mas quando a noite se desponta no alto dos edifícios cinzentos e que me vem este desejo de correr e gritar e gritar... gritar... e nunca mais parar... e bem, nestes momentos, o meu corpo se contorce, treme... e eu tenho frio, tenho frio, tenho um frio de morrer... e as minhas asas, elas, se armam para cobrir o meu corpo e com estas asas trêmulas escondo a minha cabeça desmesurada, os meus olhos fixos, o meu bico afiado, as minhas plumas e as minhas unhas tortas. Os meus gritos não amedrontam a noite. Enrolo-me em mim mesma, como as minhas garras, e fico lá no canto, quieta, torta e doente deste silêncio.





(Ilustração: José Luis Muñoz)



sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

UM CIDADÃO COMUM, de Torquato Neto








Sempre subindo a ladeira do nada,

Topar em pedras que nada revelam.

Levar às costas o fardo do ser

E ter certeza que não vai ser pago.

Sentir prazeres, dores, sentir medo,

Nada entender, querer saber tudo.

Cantar com voz bonita pra cachorro,

Não ver “PERIGO” e afundar no caos.

Fumar, beber, amar, dormir sem sono,

Observar as horas impiedosas

Que passam carregando um bom pedaço

da vida, sem dar satisfações.

Amar o amargo e sonhar com doçuras.

Saber que retornar não é possível.

Sentir que um dia vai sentir saudades

Da ladeira, do fardo, das pedradas.

Por fim, de um só salto,

Transpor de vez o paredão.




(Ilustração: Magritte - le temps traverse)



segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

MACACOS ME MORDAM, de Fernando Sabino






Morador de uma cidade do interior de Minas me deu conhecimento do fato: diz ele que há tempos um cientista local passou telegrama para outro cientista, amigo seu, residente em Manaus:

“Obsequio providenciar remessa 1 ou 2 macacos”.

Necessitava ele de fazer algumas inoculações em macaco, animal difícil de ser encontrado na localidade. Um belo dia, já esquecido da encomenda, recebeu resposta:

“Providenciada remessa 600 restante seguirá oportunamente”.

Não entendeu bem: o amigo lhe arranjara apenas um macaco, por seiscentos cruzeiros? Ficou aguardando, e só foi entender quando o chefe da estação veio comunicar-lhe:

– Professor, chegou sua encomenda. Aqui está o conhecimento para o senhor assinar. Foi preciso trem especial.

E acrescentou:

– É macaco que não acaba mais!

Ficou aterrado: o telégrafo errara ao transmitir “1 ou 2 macacos”, transmitira “1002 macacos”! E na estação, para começar, nada menos que seiscentos macacos engaiolados aguardavam desembaraço. Telegrafou imediatamente ao amigo:

“Pelo amor Santa Maria Virgem suspenda remessa restante”.

Ia para a estação, mas a população local, surpreendida pelo acontecimento, já se concentrava ali, curiosa, entusiasmada, apreensiva:

– O que será que o professor pretende com tanto macaco?

E a macacada, impaciente e faminta, aguardava destino, empilhada em gaiolas na plataforma da estação, divertindo a todos com suas macaquices. O professor não teve coragem de aproximar-se: fugiu correndo, foi se esconder no fundo de sua casa. À noite, porém, o agente da estação veio desentocá-lo:

– Professor, pelo amor de Deus, vem dar um jeito naquilo.

O professor pediu tempo para pensar. O homem coçava a cabeça, perplexo:

– Professor, nós todos temos muita estima e muito respeito pelo senhor, mas tenha paciência: se o senhor não der um jeito eu vou mandar trazer a macacada para sua casa.

– Para minha casa? Você está maluco?

O impasse prolongou-se ao longo de todo o dia seguinte. Na cidade não se comentava outra coisa, e os ditos espirituosos circulavam:

– Macacos me mordam!

– Macaco, olha o teu rabo.

A noite, como o professor não se mexesse, o chefe da estação convocou as pessoas gradas do lugar: o prefeito, o delegado, o juiz.

– Mandar de volta por conta da prefeitura?

– A prefeitura não tem dinheiro para gastar com macacos.

– O professor muito menos.

– Já estão famintos, não sei o que fazer.

– Matar? Mas isso seria uma carnificina!

– Nada disso – ponderou o delegado: – Dizem que macaco guisado é um bom prato…

Ao fim do segundo dia, o agente da estação, por conta própria, não tendo outra alternativa, apelou para o último recurso – o trágico, o espantoso recurso da pátria em perigo: soltar os macacos. E como os habitantes de Leide durante o cerco espanhol, soltando os diques do mar do Norte para salvar a honra da Holanda, mandou soltar os macacos. E os macacos foram soltos! E o mar do Norte, alegre e sinistro, saltou para a terra com a braveza dos touros que saltam para a arena quando se lhes abre o curral – ou como macacos saltam para a cidade quando se lhes abre a gaiola. Porque a macacada, alegre e sinistra, imediatamente invadiu a cidade em pânico. Naquela noite ninguém teve sossego. Quando a mocinha distraída se despia para dormir, um macaco estendeu o braço da janela e arrebatou-lhe a camisola. No botequim, os fregueses da cerveja habitual deram com seu lugar ocupado por macacos. A bilheteira do cinema, horrorizada, desmaiara, ante o braço cabeludo que se estendeu através das grades para adquirir uma entrada. A partida de sinuca foi interrompida porque de súbito despregou-se do teto ao pano verde um macaco e fugiu com a bola 7. Ai de quem descascasse preguiçosamente uma banana! Antes de levá-la à boca um braço de macaco saído não se sabia de onde a surrupiava. No barbeiro, houve um momento em que não restava uma só cadeira vaga: todas ocupadas com macacos. E houve também o célebre macaco em casa de louças, nem um só pires restou intacto. A noite passou assim, em polvorosa. Caçadores improvisados se dispuseram a acabar com a praga – e mais de um esquivo notívago correu risco de levar um tiro nas suas esquivanças, confundido com macaco dentro da noite.

No dia seguinte a situação perdurava: não houve aula na escola pública, porque os macacos foram os primeiros a chegar. O sino da igreja badalava freneticamente desde cedo, apinhado de macacos, ainda que o vigário houvesse por bem suspender a missa naquela manhã, porque havia macaco escondido até na sacristia.

Depois, com o correr dos dias e dos macacos, eles foram escasseando. Alguns morreram de fome ou caçados implacavelmente. Outros fugiram para a floresta, outros acabaram mesmo comidos ao jantar, guisados como sugerira o delegado, nas mesas mais pobres. Um ou outro surgia ainda de vez em quando num telhado, esquálido, assustado, com bandeirinha branca pedindo paz à molecada que o perseguia com pedras. Durante muito tempo, porém, sua presença perturbadora pairou no ar da cidade. O professor não chegou a servir-se de nenhum para suas experiências. Caíra doente, nunca mais pusera os pés na rua, embora durante algum tempo muitos insistissem em visitá-lo pela janela.

Vai um dia, a cidade já em paz, o professor recebe outro telegrama de seu amigo em Manaus:

“Seguiu resto encomenda”.

Não teve dúvidas: assim mesmo doente, saiu de casa imediatamente, direto para a estação, abandonou a cidade para sempre, e nunca mais se ouviu falar nele.




(Ilustração: Peter Brueghel the Elder - two monkwys, 1562)



sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

WORDS / PALAVRAS, de Sylvia Plath









Axes

after whose stroke the wood rings,

And the echoes!

Echoes travelling

Off from the centre like horses.



The sap

Wells like tears, like the

Water striving

To re-establish its mirror

Over the rock



That drops and turns,

A white skull,

Eaten by weedy greens.

Years later I

Encounter them on the road –



Words dry and riderless,

The indefatigable hoof-taps.

While

From the bottom of the pool, fixed stars

Govern a life.



Tradução de Ana Cristina César: 




Golpes

De machado que fazem soar a madeira,

E os ecos!

Ecos partem

Do centro como cavalos.



A seiva

Jorra como lágrimas, como a

Água lutando

Para repor seu espelho

Sobre a rocha.



Que cai e rola,

Crânio branco

Comido por ervas daninhas.

Anos depois as encontro

Na estrada –



Palavras secas e sem rumo,

Infatigável bater de cascos.

Enquanto

Do fundo do poço estrelas fixas

Governam uma vida.




Tradução de Wagner Mourão Brasil:




Machados

Após cujos golpes a madeira ressoa,

E os ecos!

Ecos propagando-se

a partir do cerne como cavalos.




A seiva

Brota como lágrimas, como a

Água esforçando-se

para recompor o seu espelho

Sobre a rocha




Que cai e gira,


Um crânio branco,

Corroído por herbosos verdes.

Anos depois eu

Encontro-as pelo caminho –




Palavras secas e indomáveis,


Os infatigáveis tropéis de cascos.

Enquanto

Do fundo do poço, estrelas fixas

Governam uma vida.






(Ilustração: João Ruas - haunted)