domingo, 30 de maio de 2010

SOLILÓQUIO DE ORFEU, de Vinícius de Moraes








Orfeu:



Ai, que agonia que você me deu


Meu amor! que impressão, que pesadelo!


Como se eu te estivesse vendo morta


Longe como uma morta...



Eurídice:




Morta eu estou.


Morta de amor, eu estou; morta e enterrada


Com cruz por cima e tudo!



Orfeu (sorrindo):




Namorada!


Vai bem depressa. Deus te leve. Aqui


Ficam os meus restos a esperar por ti


Que dás vida!



(Eurídice atira-lhe um beijo e sai).



Mulher mais adorada!


Agora que não estás, deixa que rompa


O meu peito em soluços! Te enrustiste


Em minha vida; e cada hora que passa


E' mais por que te amar, a hora derrama


O seu óleo de amor, em mim, amada...


E sabes de uma coisa? cada vez


Que o sofrimento vem, essa saudade


De estar perto, se longe, ou estar mais perto


Se perto, - que é que eu sei! essa agonia


De viver fraco, o peito extravasado


O mel correndo; essa incapacidade


De me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso


Que é bem capaz de confundir o espírito


De um homem - nada disso tem importância


Quando tu chegas com essa charla antiga


Esse contentamento, essa harmonia


Esse corpo! e me dizes essas coisas


Que me dão essa força, essa coragem


Esse orgulho de rei. Ah, minha Eurídice


Meu verso, meu silêncio, minha música!


Nunca fujas de mim! sem ti sou nada


Sou coisa sem razão, jogada, sou


Pedra rolada. Orfeu menos Eurídice...


Coisa incompreensível! A existência


Sem ti é como olhar para um relógio


Só com o ponteiro dos minutos. Tu


És a hora, és o que dá sentido


E direção ao tempo, minha amiga


Mais querida! Qual mãe, qual pai, qual nada!


A beleza da vida és tu, amada


Milhões amada! Ah! criatura! quem


Poderia pensar que Orfeu: Orfeu


Cujo violão é a vida da cidade


E cuja fala, como o vento à flor


Despetala as mulheres - que ele, Orfeu


Ficasse assim rendido aos teus encantos!


Mulata, pele escura, dente branco


Vai teu caminho que eu vou te seguindo


No pensamento e aqui me deixo rente


Quando voltares, pela lua cheia


Para os braços sem fim do teu amigo!


Vai tua vida, pássaro contente


Vai tua vida que eu estarei contigo!


(Orfeu da Conceição)


(Ilustração: Rubens - Orfeu e Eurídice)


sexta-feira, 28 de maio de 2010

PRIMEIRO SERMÃO DO PADRE PANELOUX, de Albert Camus







“Irmãos, caístes em desgraça, irmãos, vós o merecestes”, a assistência se tumultuou. Logicamente, o que se seguiu não parecia estar de acordo com este exórdio patético. Só a seqüência do discurso fez compreender aos nossos concidadãos que, por um hábil processo oratório, o padre tinha dado de uma só vez, como um golpe que se desfecha, o tema de todo o seu sermão. Logo depois desta frase, Paneloux citou o texto do Êxodo relativo à peste no Egito e disse: “A primeira vez que este flagelo aparece na história é para atacar os inimigos de Deus. O faraó opõe-se aos desígnios eternos e a peste o faz então cair de joelhos. Desde o princípio de toda a história, o flagelo de Deus põe a seus pés os orgulhosos e os cegos. Meditai sobre isto e caí de joelhos.”



E continuou, num tom mais veemente: “Se hoje a peste vos olha, é porque chegou o momento de refletir. Os justos não podem teme-la, mas os maus têm razão para tremer. Na imensa granja do universo, o flagelo implacável baterá o trigo humano até que o joio se separe do grão. Haverá mais joio que grão, mais chamados que eleitos e esta desgraça não foi desejada por Deus. Por longo tempo, este mundo compactuou com o mal, repousou na misericórdia divina. Bastava arrepender-se, tudo era permitido. E para se arrependerem, todos se sentiam fortes. Chegado o momento, o arrependimento viria por certo. Até lá, o mais fácil era deixar-se levar; a misericórdia divina faria o resto. Pois bem! Isto não podia durar. Deus, que durante tanto tempo baixou sobre os homens desta cidade o seu rosto de piedade, cansado de esperar, desiludido na sua eterna esperança, acaba de afastar o olhar. Privados da luz de Deus, eis-nos por muito tempo nas trevas da peste!”


“Sim, chegou a hora de refletir. Pensaste que vos bastaria visitar Deus aos domingos para ficardes com os vossos dias livres. Pensastes que algumas genuflexões pagariam suficientemente o vosso desleixo criminoso. Mas Deus não é fraco. Essas atenções espaçadas não bastavam à sua ternura devoradora. Ele queria ver-vos mais tempo, é a sua maneira de vos amar, que é, a bem dizer, a única maneira de amar. Eis por quê, cansado de esperar a vossa vinda, deixou que o flagelo vos visitasse, como visitou todas as cidades do pecado desde que os homens têm história. Sabeis agora o que é o pecado, como o souberam Caim e seus filhos, os de antes do Dilúvio, os de Sodoma e Gomorra, Faraó e Jô e também todos os malditos. E, como esses o fizeram, é um olhar novo que lançais sobre os seres e as coisas, desde o dia em que esta cidade fechou os seus muros em torno de vós e do flagelo. Sabeis agora, finalmente, que é preciso chegar ao essencial.”...... Este mesmo flagelo que vos aflige vos eleva e vos mostra o caminho.


“Há muito tempo, os cristãos da Abissínia viam na peste um meio eficaz, de origem divina, para alcançar a Eternidade. Os que não eram atingidos enrolavam-se nas roupas contaminadas para terem a certeza de morrer. Sem dúvida, esta fúria de salvação não é recomendável. Ela revela uma precipitação lamentável, bem próxima do orgulho. Não se deve ser mais apressado que Deus, e tudo o que pretende acelerar a ordem imutável que ele estabeleceu de uma vez para sempre conduz à heresia.


O Padre Paneloux esperava, contra toda a esperança, que, a despeito do horror destes dias e dos gritos dos agonizantes, os nossos concidadãos dirigiriam ao céu a única palavra que era cristã e que era de amor. Deus faria o resto.



(A Peste)



(Ilustração: Peste em Roma, de Jules Elie Delaunay)





quarta-feira, 26 de maio de 2010

O LOBO E O CORDEIRO, de La Fontaine







Na água limpa de um regato,


matava a sede um cordeiro,


quando, saindo do mato,


veio um lobo carniceiro.




Tinha a barriga vazia,


não comera o dia inteiro.


- Como tu ousas sujar


a água que estou bebendo?


- rosnou o Lobo a antegozar


o almoço. - Fica sabendo


que caro vais me pagar!




- Senhor - falou o Cordeiro -


encareço à Vossa Alteza


que me desculpeis mas acho


que vos enganais: bebendo,


quase dez braças abaixo


de vós, nesta correnteza,


não posso sujar-vos a água.




- Não importa. Guardo mágoa


de ti, que ano passado,


me destrataste, fingido!


- Mas eu nem tinha nascido.


- Pois então foi teu irmão.


- Não tenho irmão, Excelência.


- Chega de argumentação.


Estou perdendo a paciência!


- Não vos zangueis, desculpai!


- Não foi teu irmão? Foi o teu pai


ou senão foi teu avô.


Disse o Lobo carniceiro.


E ao Cordeiro devorou.




Onde a lei não existe, ao que parece,


a razão do mais forte prevalece.






(Tradução de Ferreira Gullar)





(Ilustração: o lobo e o cordeiro, de W. Aractingy)



segunda-feira, 24 de maio de 2010

VERDES MARES, de José de Alencar







Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba;



Verdes mares que brilhais como líquida esmeralda aos raios do Sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros.



Serenai verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas.



Onde vai a afouta jangada, que deixa rápida a costa cearense, aberta ao fresco terral a grande vela? Onde vai como branca alcíone buscando o rochedo pátrio nas solidões do oceano?



Três entes respiram sobre o frágil lenho que vai singrando veloce, mar em fora;



Um jovem guerreiro cuja tez branca não cora o sangue americano; uma criança e um rafeiro que viram a luz no berço das florestas, e brincam irmãos, filhos ambos da mesma terra selvagem.



A lufada intermitente traz da praia um eco vibrante, que ressoa entre o marulho das vagas:



— Iracema!...



O moço guerreiro, encostado ao mastro, leva os olhos presos na sombra fugitiva da terra; a espaços o olhar empanado por tênue lágrima cai sobre o jirau, onde folgam as duas inocentes criaturas, companheiras de seu infortúnio.



Nesse momento o lábio arranca d’alma um agro sorriso.



Que deixara ele na terra do exílio?



Uma história que me contaram nas lindas várzeas onde nasci, à calada da noite, quando a Lua passeava no céu argenteando os campos, e a brisa rugitava nos palmares.



Refresca o vento.



O rulo das vagas precipita. O barco salta sobre as ondas; desaparece no horizonte. Abre-se a imensidade dos mares; e a borrasca enverga, como o condor, as foscas asas sobre o abismo.



Deus te leve a salvo, brioso e altivo barco, por entre as vagas revoltas, e te poje nalguma enseada amiga. Soprem para ti as brandas auras; e para ti jaspeie a bonança mares de leite.



Enquanto vogas assim à discrição do vento, airoso barco, volva às brancas areias a saudade, que te acompanha, mas não se parte da terra onde revoa.



(Iracema)



(Ilustração: Iracema Antônio Parreiras)







terça-feira, 18 de maio de 2010

CROMOS – 87, de Abílio Barreto









A lua albente derrama

Sobre a terra luz tranquila.

Qual triste, amorosa dama,

Seu pranto de luar distila...



Daquela gente pupila,

Dulce, que sofre porque ama,

Contempla a estrada da vila...

“Nunca mais!” – chorando exclama.



“Nunca mais!...” Ele o dissera.

Por isso, já não o espera,

E a Deus só a morte impreca...



Infeliz Dulce, coitada!...

Deserta é a fazenda e a estrada.

Roncam sapos na charneca.




(Cromos)



(Ilustração: Edward Hopper)





domingo, 16 de maio de 2010

A METAMORFOSE, de Franz Kafka






Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar.Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos.

Que me aconteceu? - pensou. Não era nenhum sonho. O quarto, um vulgar quarto humano, apenas bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares. Por cima da mesa, onde estava deitado, desembrulhada e em completa desordem, uma série de amostras de roupas: Samsa era caixeiro-viajante, estava pendurada a fotografia que recentemente recortara de uma revista ilustrada e colocara numa bonita moldura dourada.
Mostrava uma senhora, de chapéu e estola de peles, rigidamente sentada, a estender ao espectador um enorme regalo de peles, onde o antebraço sumia!

Gregório desviou então a vista para a janela e deu com o céu nublado - ouviam-se os pingos de chuva a baterem na calha da janela e isso o fez sentir-se bastante melancólico. Não seria melhor dormir um pouco e esquecer todo este delírio? - cogitou. Mas era impossível, estava habituado a dormir para o lado direito e, na presente situação, não podia virar-se. Por mais que se esforçasse por inclinar o corpo para a direita, tornava sempre a rebolar, ficando de costas. Tentou, pelo menos, cem vezes, fechando os olhos, para evitar ver as pernas a debaterem-se, e só desistiu quando começou a sentir no flanco uma ligeira dor entorpecida que nunca antes experimentara.

Oh, meu Deus, pensou, que trabalho tão cansativo escolhi! Viajar, dia sim, dia não. É um trabalho muito mais irritante do que o trabalho do escritório propriamente dito, e ainda por cima há ainda o desconforto de andar sempre a viajar, preocupado com as ligações dos trens, com a cama e com as refeições irregulares, com conhecimentos casuais, que são sempre novos e nunca se tornam amigos íntimos.

Diabos levem tudo isto! Sentiu uma leve comichão na barriga; arrastou-se lentamente sobre as costas, - mais para cima na cama, de modo a conseguir mexer mais facilmente a cabeça, identificou o local da comichão, que estava rodeado de uma série de pequenas manchas brancas cuja natureza não compreendeu no momento, e fez menção de tocar lá com uma perna, mas imediatamente a retirou, pois, ao seu contato, sentiu-se percorrido por um arrepio gelado.
Voltou a deixar-se escorregar para a posição inicial. Isto de levantar cedo, pensou, deixa a pessoa estúpida. Um homem necessita de sono. Há outros comerciantes que vivem como mulheres de harém.

Por exemplo, quando volto para o hotel, de manhã, para tomar nota das encomendas que tenho, esses se limitam a sentar-se à mesa para o pequeno almoço. Eu que tentasse sequer fazer isso com o meu patrão: era logo despedido. De qualquer maneira, era capaz de ser bom para mim - quem sabe? Se não tivesse de me agüentar, por causa dos meus pais, há muito tempo que me teria despedido; iria ter com o patrão e lhe falar exatamente o que penso dele. Havia de cair ao comprido em cima da secretária! Também é um hábito esquisito, esse de se sentar a uma secretária em plano elevado e falar para baixo para os empregados, tanto mais que eles têm de aproximar-se bastante, porque o patrão é ruim de ouvido. Bem, ainda há uma esperança; depois de ter economizado o suficiente para pagar o que os meus pais lhe devem - o que deve levar outros cinco ou seis anos -, faço-o, com certeza. Nessa altura, vou me libertar completamente. Mas, para agora, o melhor é me levantar, porque o meu trem parte às cinco.

Olhou para o despertador, que fazia tique-taque na cômoda. Pai do Céu! - pensou. Eram seis e meia e os ponteiros moviam-se em silêncio, até passava da meia hora, era quase um quarto para as sete. O despertador não teria tocado? Da cama, via-se que estava corretamente regulado para as quatro; claro que devia ter tocado. Sim, mas seria possível dormir sossegadamente no meio daquele barulho que trespassava os ouvidos? Bem, ele não tinha dormido sossegadamente; no entanto, aparentemente, se assim era, ainda devia ter sentido mais o barulho. Mas que faria agora? O próximo trem saía às sete; para o apanhar tinha de correr como um doido, as amostras ainda não estavam embrulhadas e ele próprio não se sentia particularmente fresco e ativo. E, mesmo que apanhasse o trem, não conseguiria evitar uma reprimenda do chefe, visto que o porteiro da firma havia de ter esperado o trem das cinco e há muito teria comunicado a sua ausência. O porteiro era um instrumento do patrão, invertebrado e idiota. Bem, suponhamos que dizia que estava doente? Mas isso seria muito desagradável e pareceria suspeito, porque, durante cinco anos de emprego, nunca tinha estado doente. O próprio patrão certamente iria lá a casa com o médico da Previdência, repreenderia os pais pela preguiça do filho e poria de parte todas as desculpas, recorrendo ao médico da Previdência, que, evidentemente, considerava toda a humanidade um bando de falsos doentes perfeitamente saudáveis. E enganaria assim tanto desta vez? Efetivamente, Gregório sentia-se bastante bem, à parte uma sonolência que era perfeitamente supérflua depois de um tão longo sono, e sentia-se mesmo esfomeado.

À medida que tudo isto lhe passava pela mente a toda a velocidade, sem ser capaz de resolver a deixar a cama - o despertador acabava de indicar um quarto para as sete -, ouviram-se pancadas cautelosas na porta que ficava por detrás da cabeceira da cama.

- Gregório - disse uma voz, que era a da mãe -, é um quarto para as sete. Não tem de apanhar o trem?


(A Metamorfose)


(Ilustração: Francis Bacon - head)


sexta-feira, 14 de maio de 2010

OUR BIAS/NOSSO PENDOR, de W.H. Auden








The hour-glass whispers to the lion's roar,


The clock-towers tell the gardens day and night


How many errors Time has patience for,


How wrong they are in being always right.




Yet Time, however loud its chimes or deep.


However fast its falling torrent flows,


Has never put one lion off his leap


Nor shaken the assurance of a rose.




For they, it seems, care only for success:


While we choose words according to their sound


And judge a problem by its awkwardness;




And Time with us was always popular.


When have we not preferred some going round


To going straight to where we are?




Tradução de José Paulo Paes:





A ampulheta sussurra ao rugido do leão.
Diz o relógio da torre ao jardim ali perto,
Que, sendo o Tempo paciente com os erros, quão
Errados eles estão de estarem sempre certos.

O Tempo, no entanto, quer badale grave ou alto,
Por veloz que se despenque em torrente raivosa,
Nunca de leão algum logrou deter o salto
Nem abalar jamais a firmeza de uma rosa.

Para ambos, só o sucesso importa, pelo jeito:
Enquanto escolhemos as palavras pelo som
E julgamos um problema por seu desajeito.

O Tempo sempre nos traz divertimento, e bom:
Quem não prefere dar umas voltas, fazer hora,
Em vez de vir direto para onde está agora?


(Poemas)


(Ilustração: Daniela Isache - clepsidra)


quarta-feira, 12 de maio de 2010

A ARTE DE SER FELIZ, de Cecília Meireles






Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz. Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.Houve um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, a às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz. Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma regra: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crinças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refelectidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes um galo canta. Às vezes um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.


(Escolha o seu sonho)


(Ilustração: Monet – maisons d’Argenteuil)





segunda-feira, 10 de maio de 2010

HARPA XXXII, de Sousândrade








Dos rubros flancos do redondo oceano

Com suas asas de luz prendendo a terra

O sol eu vi nascer, jovem formoso

Desordenando pelos ombros de ouro

A perfumada luminosa coma,

Nas faces de um calor que amor acende

Sorriso de coral deixava errante.

Em torno de mim não tragas os teus raios,

Suspende, sol de fogo! tu, que outrora

Em cândidas canções eu te saudava

Nesta hora d'esperança, ergue-te e passa

Sem ouvir minha lira. Quando infante

Nos pés do laranjal adormecido,

Orvalhado das flores que choviam

Cheirosas dentre o ramo e a bela fruta,

Na terra de meus pais eu despertava,

Minhas irmãs sorrindo, e o canto e aromas,

E o sussurrar da rúbida mangueira

Eram teus raios que primeiro vinham

Roçar-me as cordas do alaúde brando

Nos meus joelhos tímidos vagindo.


(Ilustração: Matisse - luxe calme et volupté)

sábado, 8 de maio de 2010

HOJE DE MADRUGADA, de Raduan Nassar





O que registro agora aconteceu hoje de madrugada quando a porta do meu quarto de trabalho se abriu mansamente, sem que eu notasse. Ergui um instante os olhos da mesa e encontrei os olhos perdidos da minha mulher. Descalça, entrava aqui feito ladrão. Adivinhei logo seu corpo obsceno debaixo da camisola, assim como a tensão escondida na moleza daqueles seus braços, enérgicos em outros tempos. Assim que entrou, ficou espremida ali ao canto; me olhando. Ela não dizia nada, eu não dizia nada. Senti num momento que minha mulher mal sustentava a cabeça sob o peso de coisas tão misturadas, ela pensando inclusive que me atrapalhava nessa hora absurda em que raramente trabalho, eu que não trabalhava. Cheguei a pensar que dessa vez ela fosse desabar, mas continuei sem dizer nada, mesmo sabendo que qualquer palavra desprezível poderia quem sabe tranqüilizá-la. De olhos sempre baixos, passei a rabiscar ao verso de uma folha usada, e continuamos os dois quietos: ela acuada ali no canto, os olhos em cima de mim; eu aqui na mesa, meus olhas em cima do papel que eu rabiscava. De permeio, um e outro estalido na madeira do assoalho.Não me mexi na cadeira quando percebi que minha mulher abandonava o seu canto, não ergui os olhos quando vi sua mão apanhar o bloco de rascunho que tenho entre meus papéis. Foi uma caligrafia rápida e nervosa; foi uma frase curta que ela escreveu, me empurrando o bloco todo, sem destacar a folha, para o foco dos meus olhos: "vim em busca de amor" estava escrito, e em cada letra era fácil de ouvir o grito de socorro. Não disse nada, não fiz um movimento, continuei com os olhos pregados na mesa. Mas logo pude ver sua mão pegar de novo o bloco e quase em seguida me devolvê-lo aos olhos: "responda" ela tinha escrito mais embaixo numa letra desesperada, era um gemido. Fiquei um tempo sem me mexer, mesmo sabendo que ela sofria, que pedia em súplica, que mendigava afeto. Tentei arrumar (foi um esforço) sua imagem remota, iluminada; provocadoramente altiva, e que agora expunha a nuca a um golpe de misericórdia. E ali, do outro lado da mesa, minha mulher apertava as mãos, e esperava. Interrompi o rabisco e escrevi sem pressa: "não tenho afeto para dar", não cuidando sequer de lhe empurrar o bloco de volta, mas nem foi preciso, sua mão, com a avidez de um bico, se lançou sobre o grão amargo que eu, num desperdício, deixei escapar entre meus dedos. Mantive os olhos baixos, enquanto ela deitava o bloco na mesa com calma e zelo surpreendentes, era assim talvez que ela pensava refazer-se do seu ímpeto.Não demorou, minha mulher deu a volta na mesa e logo senti sua sombra atrás da cadeira, e suas unhas no dorso do meu pescoço, me roçando as orelhas de passagem, raspando o meu couro, seus dedos trêmulos me entrando pelos cabelos desde a nuca. Sem me virar, subi o braço, fechei minha mão ao alto, retirando sua mão dali como se retirasse um objeto corrompido, mas de repente frio, perdido entre meus cabelos. Desci lentamente nossas mãos até onde chegava o comprimento do seu braço, e foi nessa altura que eu, num gesto claro, abandonei sua mão no ar. A sombra atrás de mim se deslocou, o pano da camisola esboçou um vôo largo, foi num só lance para a janela, tinha até verdade naquela ponta de teatralidade. Mas as venezianas estavam fechadas, ela não tinha o que ver, nem mesmo através das frinchas, a madrugada lá fora ainda ressonava. Espreitei um instante: minha mulher estava de costas, a mão suspensa na boca, mordia os dedos.Quando ela veio da janela, ficando de novo à minha frente, do outro lado da mesa, não me surpreendi com o laço desfeito do decote, nem com os seios flácidos tristemente expostos, e nem com o traço de demência lhe pervertendo a cara. Retomei o rabisco enquanto ela espalmava as mãos na superfície, e, debaixo da mesa, onde eu tinha os pés descalços na travessa, tampouco me surpreendi com a artimanha do seu pé, tocando com as pontas dos dedos a sola do meu, sondando clandestino minha pele no subsolo. Mais seguro, próspero, devasso, seu pé logo se perdeu sob o pano do meu pijama, se esfregando na densidade dos meus pelos, subindo afoito, me lambendo a perna feito uma chama. Fiz a tentativa com vagar, seu pé de início se atracou voluntarioso na barra, e brigava, resistia, mas sem pressa me desembaracei dele, recolhendo meus próprios pés que cruzei sob a cadeira. Voltei a erguer os olhos, sua postura, ainda que eloquente, era de pedra: a cabeça jogada em arremesso para trás, os cabelos escorridos sem tocar as costas, os olhos cerrados; dois frisos úmidos e brilhantes contornando o arco das pálpebras; a boca escancarada, e eu não minto quando digo que não eram os lábios descorados, mas seus dentes é que tremiam.Numa arrancada súbita, ela se deslocou quase solene em direção à porta; logo freando porém o passo. E parou. Fazemos muitas paradas na vida, mas supondo-se que aquela não fosse uma parada qualquer, não seria fácil descobrir o que teria interrompido o seu andar. Pode ser simplesmente que ela se remetesse então a uma tarefa trivial a ser cumprida quando o dia clareasse. Ou pode ser também que ela não entendesse a progressiva escuridão que se instalava para sempre em sua memória. Não importa que fosse por esse ou aquele motivo, só sei que, passado o instante de suposta reflexão minha mulher, os ombros caídos, deixou o quarto feito sonâmbula.




(Cadernos de Literatura Brasileira, Instituto Moreira Salles - Rio de Janeiro, exemplar número 2 de setembro de 1996).


(Ilustração: Paula Rego – target)



quinta-feira, 6 de maio de 2010

If ... / SE..., de Rudyard Kipling







If you can keep your head when all about you,
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good or talk too wise:

If you can dream and not make dreams your master;
If you can think and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear the words you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them:"Hold on!"

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with Kings--nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And--which is more--you'll be a man, my son!




Tradução de António Botto:




Se tu podes impor a calma, quando aqueles


Que estão ao pé de ti a perdem, censurando


A tua teimosia nobre de a manter.




Se sabes guardar sem ruga e sem cansaço.


Privar com Reis continuando simples,


E na calúnia não recorres à infâmia


Para com arma igual e em fúria responder,


- Mas não aparentar bondade em demasia


Nem presumir de sábio ou pretender


Manifestar excesso de ousadia,




Se o sonho não fizer de ti um escravo


E a luz do pensamento não andar


Contigo no domínio do exagerado,




Se encaras o triunfo ou a derrota


Serenamente, firme, e reforçado


Na coragem que é necessário ter


Para ver a verdade atraiçoada,


Caluniada, espezinhada, e ainda


Os nossos ideais por terra. - Mas erguê-los


De novo em mais profundos alicerces


E proclamar com alma essa Verdade!,




Se perdes tudo quanto amealhaste


E voltas ao princípio sem um ai,


Um lamento, uma lágrima, e sorrindo


Te debruças sobre o coração


Unindo outras reservas à Vontade


Que quer continuar, e prosseguindo


Chegar ao infinito da razão,




Se a multidão te ouvir entusiasmada


E a virtude ficar no seu lugar,




Se amigos e inimigos não conseguem


Ofender-te, e se quantos te procuram


Para estar com o teu esforço não contarem


Uns mais do que outros, - olha-os por igual!,




Se podes preencher esse minuto


Com sessenta segundos de existência


No caminho da vida percorrido


Embora essa existência seja dura


À força das tormentas que a consomem,




Bendita a tua essência, a tua origem


- O Mundo será teu,


E tu serás um Homem!


Tradução de Guilherme de Almeida:


Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,
De sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo

E o que mais - tu serás um homem, ó meu filho!



(Ilustração: Frida Kahlo – tree of hope)


terça-feira, 4 de maio de 2010

PREÂMBULO DE ZARATUSTRA – II, de Friedrich Nietzsche






Zaratustra desceu sozinho das montanhas sem encontrar ninguém. Ao chegar aos bosques deparou-se-lhe de repente um velho de cabelos brancos que saíra da sua santa cabana para procurar raízes na selva. E o velho falou a Zaratustra desta maneira:


“Este viandante não me é desconhecido: passou por aqui há anos. Chamava-se Zaratustra, mas mudou. Nesse tempo levava as suas cinzas para a montanha. Quererá levar hoje o seu fogo para os vales? Não terá medo do castigo que se reserva aos incendiários? Sim; reconheço Zaratustra. O seu olhar, porém, e a sua boca não revelam nenhum enfado. Parece que se dirige para aqui como um bailarino! Zaratustra mudou, Zaratustra tornou-se menino, Zaratustra está acordado. Que vais fazer agora entre os que dormem? Como no mar vivias, no isolamento, e o mar te levava. Desgraçado! Queres saltar em terra? Desgraçado! Queres tornar a arrastar tu mesmo o teu corpo?”


Zaratustra respondeu: “Amo os homens”.


“Pois por que — disse o santo — vim eu para a solidão? Não foi por amar demasiadamente os homens? Agora, amo a Deus; não amo os homens. O homem é, para mim, coisa sobremaneira incompleta. O amor pelo homem matar-me-ia”.


Zaratustra respondeu: “Falei de amor! Trago uma dádiva aos homens”.


“Nada lhes dês — disse o santo. — Pelo contrário, tira-lhes qualquer coisa e eles logo te ajudarão a levá-la. Nada lhes convirá melhor, de que quanto a ti te convenha. E se queres dar não lhes dês mais do que uma esmola, e ainda assim espera que ta peçam”.


“Não — respondeu Zaratustra; — eu não dou esmolas. Não sou bastante pobre para isso”.


O santo pôs-se a rir de Zaratustra e falou assim: “Então vê lá como te arranjas para te aceitarem os tesouros. Eles desconfiam dos solitários e não acreditam que tenhamos força para dar. As nossas passadas soam solitariamente demais nas ruas. E, ao ouvi-las perguntam assim como de noite, quando, deitados nas suas camas, ouvem passar um homem muito antes do alvorecer: Aonde irá o ladrão? Não vás para os homens! Fica no bosque! Prefere à deles a companhia dos animais! Por que não queres ser como eu, urso entre os ursos, ave entre as aves?”.


“E que faz o santo no bosque?” — perguntou Zaratustra.


O santo respondeu: “Faço cânticos e canto-os, e quando faço cânticos rio, choro e murmuro. Assim louvo a Deus. Com cânticos, lágrimas, risos e murmúrios louvo ao Deus que é meu Deus. Mas, deixa ver: que presente nos trazes?”.


Ao ouvir estas palavras, Zaratustra cumprimentou o santo e disse-lhe: “Que teria eu para vos dar? O que tens a fazer é deixar-me caminhar, correndo, para vos não tirar coisa nenhuma”.


E assim se separaram um do outro, o velho e o homem, rindo como riem duas criaturas.


Quando, porém, Zaratustra se viu só, falou assim, ao seu coração: “Será possível que este santo ancião ainda não ouvisse no seu bosque que Deus já morreu?”



(Assim Falava Zaratustra, tradução de José Mendes de Souza)




(Ilustração: tentazione di santo Antonio, de Gottardo Ciapanna)