domingo, 27 de junho de 2010

O VAMPIRO DA ALAMEDA CASABRANCA, de Márcia Denser








A não ser pelo filme japonês em cartaz, não havia nenhum interesse em sair com aquele sujeito, poeta, que se ostentava como "maldito" só para poder filar seu canapezinho de caviar nas altas rodas. Um guru de fachada, meio sobre o charlatão cósmico, adepto que era de uma esotérica seita oriental, babaca como tantas outras, e usando tudo isso em proveito próprio. Pelo menos não era burro. Disso resultavam as sessões de massagem transcendental nas madames com hora marcada, ou mesmo sem ela, ao sabor das prisões de ventre, dores de corno e outras piorréias. Não era mesmo burro. Feioso, devia viver faminto de carne fresca mas, passando-se por espiritual, ia tirando suas casquinhas. A conversa era inconsistente, cheia de expressões pedantes e, até pela sintaxe, tão emaranhada em meandros que obviamente não levavam a parte alguma, notava-se a eterna fome do cara. Uma espécie de vaga ansiedade piedosa de algo que rodeia e rodeia aquilo que seria um alvo não tivesse ele em mira outra coisa. Por exemplo: enquanto sua boca passeava pela evolução da energia cósmica, seus olhos hipnotizavam-se (bem como toda a sua alma) num ponto qualquer entre meus seios, e a energia cósmica ia e vinha, subia e descia, jamais se perdia, enrolava e se desenrolava, mas não chegava a nenhum lugar, uma vez que o verdadeiro objeto daquele papo estéril permanecia fora de alcance. A arenga também seria hipnotizante: eu me sentia como uma criança birrenta que não quer dormir ou um animal relutante em cair na armadilha.O tal filme japonês fora realmente bom, um monumento poético, um estudo profundo sobre as paixões humanas, etc. e assim eu poderia falar sobre ele ad nauseam, mas o Poeta apenas emitiu suas impressões assim: "É barra! Que barra! É uma barra!" dizendo-as de maneiras diferentes e impostando a voz num diapasão enfático que partia da traquéia, explodindo num ruído seco e rouco, feito um peido bucal, e como se a palavra "barra" contivesse, não digo o significado de todo o universo, mas, pelo menos, de todo o filme. Isso no fim da fita. Durante esteve todo o tempo tentando pegar no meu braço. Um verdadeiro saco. Então eu me perguntava: por que sair com aquele cara? Era desses feriados tediosos, todos os amigos queridos, todos os sujeitos interessantes, todas as amigas disponíveis viajando, restando os neuróticos, os chatos e os vampiros na cidade. Já era uma boa razão. Depois, eu apenas desconfiava de tudo isso, ainda não configurara uma imagem nítida do Poeta na minha cabeça. Na hora "H" fico possuída duma puxa-saquice pânica por agradar, mais preocupada com o efeito que com o objeto propriamente dito. Posso acabar fascinando Drácula em pessoa, sem dar pela coisa. Daí me livrar do monstro já é outra estória.Como nesses clássicos de horror, ao sairmos do cinema "um vento gélido açoitou-nos os ossos". Confesso que não fiquei surpreendida quando o Poeta sugeriu passarmos no seu apartamento para pegar um pulôver, coitadinho. Antes tentei aliciá-lo para uma cave de queijos e vinhos, mas ele não entrou. Também não queria ser grossa ou passar por retrô ou sei lá. No fundo, no fundo, estava querendo ver até onde ia o meu fascínio — e eu sei onde vai o meu fascínio — com o Poeta. Sabe-se lá.No apartamento (não fosse pelo excesso de cartazes politicosos, até que bem jeitoso. Um tanto "artístico-displicente" demais, eu acho, como tantos outros onde eu estivera, de poetinhas, atores de teatro, bichas. São todos iguais. Deve ser a fada madrinha) eu aproveitei meu fascínio ao máximo. Munida dos meus trabalhos, submeti o Poeta a uma intermitente sessão de leitura dos melhores trechos por umas duas horas. Minhas estórias são boas, mas lidas assim, no tapete, bebendo um bom vinho tinto, um fogo aqui dentro, ar condicionado, almofadas e mantas peruanas, música suave e um sujeito querendo me comer ali do lado, não há talento que resista. Então, ele me submeteu a mais duas horas de suas poesias, aliás inéditas. Se fossem boas até que valeria o esforço, o fascínio, a atenção fingida (tinha ganas de estourar de rir cada vez que ele pigarreava, afivelando um ar circunspeto, como se preparando para ler um discurso, um obituário, um testamento, enfim, algo muitíssimo sério), o vinho, aquele apartamento, o filme japonês, os feriados, aquelas profundas crateras que lhe sulcavam o rosto, o ligeiro cheirinho oleoso e adocicado que se desprendia delas, a mania de falar de si próprio na terceira pessoa, como se fosse um fantasma, o fato de ser careca de um lado só, daí o cabelo restante se amontoar num topete atrás da orelha esquerda, enfim, mas não eram. Não eram mesmo. Ocas, delírios vagos, desconexos, de um concretismo de cabeça dura e reticências. Na mesma construção e com a mesma ênfase conviviam vísceras e sangue, cosmos e eternidade, como se essas palavras não significassem nada além de meros sons poéticos convencionais. Quando a coisa começava a esquentar, ele sempre botava as tais palavras definitivas como Deus, Espaço, Eternidade, Morte, e esquecia as preposições, tornando tudo assim delirantemente obscuro, como se possuísse uma chave, um código para sua decifração. Para os leigos, as garotas bonitas e os novos-ricos, quanto menos se entende mais a coisa deve ser boa. Palavras bonitas é igual a idéias bonitas. É gongórico, é elementar. O Poeta conhecia muito bem esse princípio e aplicava-o até à exaustão. A minha, por exemplo. Na verdade, algumas eram até sofríveis, mas parece que o sujeito tinha um cadeado no cérebro. Estava prisioneiro. Não se enfrentava. E se começava a botar a mão na merda, lá vinha ele com seus deuses e demônios anti-sépticos, para levar todos os pecados. Pelo menos os dele. Se achava que os tinha. Ser feio, por exemplo, era um. Equilibrava-se definindo-se "pedante e sofisticado". Supunha-se, dessa forma, inacessível. Enganava só os trouxas.Na conversa, Poeta mencionou uma festa. Amigos intelectuais, etc. Então vamos, me animei, e fui emergindo das almofadas, procurando as botas debaixo do sofá, espantando cobertores, relanceando um olhar melancólico para as garrafas vazias, mas ele me reteve. Ainda não, disse, fixando-me um olhar tigrino cor de petróleo. Era como um aquário, a exposição, atrás do vidro córneo, do que havia no interior de suas espinhas mortas: óleo diesel.O pequeno deus Caracol, o deus dos covardes, deve habitar em mim, pois foi ele que me fez encolher, puxando consigo todas as terminais nervosas, todas as sensações de prazer e dor, toda alegria, todo pranto, e me transformar num penhasco árido, num terreno baldio entregue às varejeiras, aos cacos de vidro, lixo, mato ralo, aos cães vira-latas, e aos teus beijos, Poeta.Uma zoeira distante no ouvido, uma sensação incômoda nas costelas, a boca seca avisaram-me que bastava. Fui me desprendendo aos poucos. Tarefa, aliás, bastante embaraçosa. Eu diria hilariante, se não fosse parte ativa. Parecíamos atores de um filme do Harold Lloyd. Eu puxando de cá, ele de lá. Um escorregão providencial da minha parte (estávamos em pé) decidiu a contenda. Fomos à festa.A primeira coisa que chamou minha atenção foi que o dono da casa — por sinal, um belíssimo rapaz — usava, atadas na manga da camisa, duas fitas de seda nas cores da bandeira nacional. Assim como os rapazes da TFP, a juventude de Hitler, os pupilos de Mussolini. Como um ungido, a marca da distinção, do bem-nascido, bem-dotado, bem rico, a nata, a perfeição e vocês fora! E viva Nietzsche e o quarto Reich, logo, o General Pinochet, Idi Amin, Pol Pot, Gengis Khan e a Revolução de 64. Puxei-o pela manga: o que é isso? Sorriu com seus olhos azuis de água doce: Não é um belo país? É. Olhei a mesa: vinhos franceses, queijos suíços, baixela húngara, guarnições de renda austríaca, charutos cubanos, vodca russa, cigarros americanos. Belíssimo país. Belo mesmo é você, pensei cinicamente, cobiçando a belezinha de jovem fascista e seus brinquedinhos, entre eles uma linda esposa loura e psicóloga formada pelo período da tarde do Cursinho Objetivo, altura e peso ideais segundo a revista Cláudia e preocupadíssima com seus encargos de anfitriã (repetiu neuroticamente a noite toda que "a previsão falhou" a propósito de haver terminado o queijo de nozes antes das duas da matina). E os intelectuais? Da "festa" constavam exatamente dez pessoas. Além dos anfitriões, eu e o Poeta/Profeta, havia um outro casal composto de um sujeito enorme, estilo CroMagnon, filho de general, com o curioso nome de Ciro, faixa preta em caratê e que me foi apresentado como um pintor maravilhoso, porém desiludido (o pessoal devia ser positivamente cego) e cocainômano ativo, acompanhado por uma garota misto de Dama das Camélias e Madrasta da Branca de Neve: profundas olheiras azuladas, cabelos crespos e negros acentuando oleosamente o rosto pálido, ossudo, lunar, quase transparente, usando uma camisa branca também transparente (seios nada transparentes) sem sutiã e, a chamar a atenção de todos para os seus pés feridos pelas sapatilha de bailarina? Não sei. A cidade está cheia desses cursinhos de balé e bordado, frequentados por jovens em idade de casar e manter a forma. Para compensar as festinhas movidas a vinho, coca e mau humor de suas excelências, seus namorados, pelos quais elas são capazes de se foder por toda eternidade, em troca de um sobrenome enganchado no rabo e um apartamento nos Jardins: os homens têm as angústias, as mulheres, os interesses, e por aí vai. Roger, o intelectual oficial, amigo do Poeta de proveta, um sujeitinho magricela, insignificante, (essa palavra é enorme!), apagado na minha memória, acompanhava uma cooperante do governo americano junto ao Brasil, uma garota da Califórnia com cara de porto-riquenha. Ela deveria detestar aquela cara tropical, a pele morena, cabelos negros cortados rente, como se pagando uma pena, os olhos escuros feito morcegos assustados, encolhidos no fundo da fisionomia. Que fazer se sua mãe havia pulado o muro do México? Roger, o colonizado, desmanchava-se em atenções para com o produto de Tio Sam, mas eu imagino que, para ele, bastaria qualquer coisa, uma lata de sopa Campbell, digamos. Que representasse a civilização, a cultura superior, etc. Razões inconfessáveis. Não via nela apenas uma garota assustada num país estranho. Assim como eu não enxergava o aspecto repugnante do meu guru-poeta. Tampava o nariz, os olhos, a boca, e o engolia em nome de uma vaidade idiota. Presentes também um par de primos dentuços e noivos que se despediram cedo. Eu aposto que pra ver televisão e se agarrar no sofá.
A madrugada evoluiu naquele apartamento neoclássico, com ativa movimentação de garrafas de vinho, rodadas de coca, camembert rançoso e conversas idiotas. Já estava amanhecendo e restavam os donos da casa, Ciro, Branca de Neve, Poeta e eu, já me sentindo completamente onipotente. Sentimento provavelmente compartilhado por todos, uma vez que a conversa girava sobre vida extraterrena, enquanto Brinquedinho raspava com uma pazinha de sorvete os restos de pó grudados no bumbum da garota na capa da revista Playboy. Excelente anfitriã. Belo Fascista inquiria o Poeta:—Você, Klaus, que é um cara ligado nessas coisas, e entende paca, já deve ter tido revelações, não?— Bem — começou o outro — pode-se dizer que nós (falava sempre no plural, aludindo estranhamente uma cumplicidade invisível. Quem sabe com os deuses.) chegamos a fazer vários contatos realmente inexplicáveis, eu diria, por exemplo, quando morreu a Dorinha...— A Dorinha não morreu trovejou Ciro, olhos vidrados numa faca de cortar frios.— Talvez sim, talvez não condescendeu misteriosamente Klaus — muitos de nós já chegaram a...— Besteiras, não há nada — cortei. Estive lá em cima e vi: estão todos mortos. E voltando-me para o meu anfitrião: Um trechinho de seu autor predileto, beleza...— Como? — Belo Fascista arregalava os doces olhos azuis.— Ela divaga — Poeta endereçou-me um olhar enviesado — mas como eu dizia, a Dorinha...— Agora que estou vendo — interrompi novamente. De repente, Ciro e Branca de Neve me pareceram estranhíssimos: ele enorme, truculento, ela frágil, meio amalucada...— Vocês não têm nada a ver, não é? Sorria para ambos como abençoando-os. Klaus, desorientado, arreganhava os dentes, desculpando sua convidada.— Terrível, terrível, arfava Branca de Neve.— Pensando bem, acho que a garota tem razão, Ciro não tirava os olhos da faca,—E como é que vocês tre. . . Um violento cutucão do Guru, debaixo da mesa, fez-me engolir o resto da frase.Depois disso, fui mergulhando cada vez mais fundo num burburinho ácido e esbranquiçado. As frases se sucediam de cá para lá, e eu as acompanhava como bolinhas num jogo de ping-pong, apenas como bolinhas, que não são nada além de bolinhas brancas.Levantei-me e fui até a janela: É isso, pensei, sufocar a ressaca, afogá-la na boca cinzenta e azeda da manhã como num cesto de roupa suja. Esse é o preço pago pela droga consumida durante a madrugada, porque a droga tem o segredo que afoga a náusea, o vômito, a acidez desse vinho escuro injetado nas veias desde a noite anterior, então, ao amanhecer, foi puxada a descarga, sentido um só tranco, o estômago a brecar e a gemer no alto de um prédio no Pacaembu e isso foi quase tudo. Quase porque eu ainda não terminara. Porque o vazio, após a descarga, é insuportável. O vaso sanitário ficar deserto e se tem medo de tornar a usá-lo e infectar o mundo inteiro. A náusea que se instala expulsa a razão, amedronta as palavras, e eu precisava falar que daquela madrugada ficou um gosto arrepanhado de sal de fruta, a efervescência cinza pérola do antiácido diante dos olhos e uma tristeza secreta e corrompida por me saber mole, dobrável, e ainda uma vez voltar a fazer coisas que não quero, não preciso, não desejo, todavia o álcool e a droga me levam lá, uma espécie de morte incluída nos serviços de buffet; a cada episódio eu morro, e eu morro, e eu morro de novo, e volto a me assassinar, porque contar essa estória é o mesmo que atacar a mesma mulher há anos, violentamente, por trás, e como se ela fosse virgem, então, o toque no ombro, o hálito amanhecido às minhas costas: Klaus. Haviam escurecido a sala. Silenciosamente, colocou-me o casaco e, na condição de irmãozinho mais velho, carregou-me para longe daqueles perigos. Seu apartamento, por exemplo.Lembro de um café da manhã numa mesa com toalha de plástico, e um enorme queijo de Minas. Eu estava chapadíssima, achando o queijo muito engraçado e porque não podia aparecer em casa de modo algum naquele estado. Klaus, este então parecia esmagado sob o peso da recompensa. Ele tinha mesmo uma cara amassada de vilão do faroeste depois da última briga, versão piorada entre Jack Palance e John Carradine. Cara picada pelo ressentimento e pela varíola, obtinha dormir com a mocinha sem mais aquela. Era demais. Ele vai brochar, pensei.Havia sol, mas estava frio e úmido e Poeta, muito solícito, uniu duas camas gêmeas, cobriu-as com mantas, enquanto eu me despia, obedientemente, cumprindo um ritual sem escapatória, filha de Maria, sacerdotisa de Astarté, coroinha alimentado e fodido secretamente pelo padre, eu obedecia, apenas. Fiquei de bruços, fechei os olhos, pensando: o prazer puro, o prazer puro. Não poderia ver aquele rosto agora, seria insuportável, seria inconcebível, e eu acho que ele me ficou agradecido. Mesmo assim não conseguia. Estava submerso em droga e álcool, uma chaga viva de excitação que pulsava e gemia, rilhando os dentes, pobre animal sonâmbulo imaginando-se um ser humano de carne, ossos e fezes, se esvaindo entre minhas nádegas numa tortura aplicada de movimentos ineficientes; uma vez que ele não conseguia, o animal depositava-se como um pedaço morto de carne fria junto ao meu corpo. Vamos liquidar isso, pensei. Sentia-me cansada, nauseada, azeda. A excitação esticava-se como um cordão frouxo contudo sem arrebentar. Vi pela janela a manhã alta, cor de magnésia, e disse: chega, vamos dormir. Às minhas costas, ele desabou, barraquinha de campanha, como se o tempo todo estivesse aguardando a ordem que o libertasse da prontidão. Segundos depois ressonava eloquentemente. Adormeci pensando onde havia me metido, aquele apartamento de solteiro da Alameda Casabranca tinha algo a ver com um túmulo, gente adormecendo ao nascer do sol, falta só o punhal de prata, mas, por alguma razão maluca, não queria ir para casa e não queria ficar ali. O sono me colocou no lugar certo. Estaria sonhando com um jardineiro espanhol ou com tesouras, não sei, e acordei salgadamente sentindo algo vivo se mover, quente e alerta, entre minhas coxas. Pulei da cama, como se impulsionada por retrofoguetes: fugir, pensava, fugir, correr, vomitar, se vestir. E fui apanhando os destroços das roupas atiradas pelo quarto. Ao subir as meias, espiei com o canto do olho a cara atônita, amassada de Klaus, parecendo um pedaço carbonizado de casca de árvore na brancura de areia dos lençóis. A boca entreaberta não ousava protestar, articular nenhum som, com aquele ar de bagre estúpido, aquele ar de fóssil humano: a qualquer palavra minha, viria a réplica de bernardo-eremita na voz de fariseu sufocado e eu não queria deixar nada claro. A coisa, naquele pé, já parecia suficientemente ridícula, uma pornochanchada sinistra: ele, de pau duro debaixo das cobertas, cara de idiota, observando a mocinha se vestir num desespero vertiginoso, como se perseguida por Jack, O Estripador. Faltava vestir o casaco e me lancei para fora do quarto. Uma empregada velhíssima e cheia de varizes abriu-me a porta da rua. Desci pelas escadas. Nem cogitei estar no 15° andar. Alcançando finalmente a rua, parei ofegante. Porra, estava livre. Leve. Livre. Comecei a rir sozinha: até que fora bem gozado. Cambaleante e feliz, ri por dois quarteirões. As pessoas se voltavam, espantadas. Um perfume de pãezinhos frescos me atraiu para uma padaria cheia de colegiais e empregadinhas. Mastigando um enorme sanduíche de presunto, pedi ao vendedor a lista telefônica. Forrando página por página com lascas de pão fresco, procurei o número do Belo Fascista. Não sabia por que, mas precisava salvar a noite. Alô, uma vozinha sonada gemeu do outro lado. Reconheci Brinquedinho. Escute, princesa, falei, diga ao seu marido que preciso fazer uma substituição (era necessário ir direto ao assunto, nada de formalismos idiotas com a família e os cachorros. Tratamento de choque). O quê? A voz prosseguia estremunhando. Uma outra, de homem, metralhava abafadamente qualquer coisa. Era seca e urgente; falando aos soquinhos parecia martelar ordens. Brinquedinho explicava confusamente algo sobre a namorada de Klaus e uma substituição. Afinal, era uma objetiva formada pelo Objetivo. O que está havendo? Belo Fascista pegara o aparelho. Parecia um bocado irritado. Expliquei da melhor forma. Por fim, convidei-o para tomar café da manhã comigo, ali, na Padaria Flor de Lys, que ficava na rua... Pedi para esperar na linha enquanto ia ver. Quanto retomei o fone, apenas o ruído de discar respondeu melancolicamente ao meu apelo. Belo Fascista não tinha mesmo nenhum senso de humor. Tão bonitinho, murmurei cheia de pena. O pão terminara e enquanto esperava o troco, espiei meu rosto no espelho da balança. Borrado de rímel preto, o rouge coloria mais a face esquerda, olheiras azuladas. Igualzinha Branca de Neve. Esfregar o dedo acentuou a palidez, mas servia. Ainda não dava para espantar as crianças. Na saída, resolvi comprar outro sanduíche para ir comendo no caminho. Esquentara e eu amarrei o casaco na cintura — um casaco lindo, de veludo caramelo — e o pessoal continuou me encarando. Sempre comendo o pão, fui subindo a rua cheia de árvores verdinhas e rendilhada de sol. Lembrei de uma passagem de Faulkner no Som e a Fúria. Afinal, alcancei a Avenida Paulista suando e arrotando salame. Em frente à Casa Vogue — que não é mais a Casa Vogue — tentei pegar um táxi. Nada. Decidi ir andando. Até o Paraíso são quatro quilômetros, mas no plano. Achei razoável. Entrei no Jardim do Trianon. Um pouco de ar puro, pensei, ecologia, patos, marrecos, galinhas, desocupados. Ecologia. Comprei um saquinho de pipoca. Um garoto de seus 17 anos atirava farelo aos perus — detesto esse ar superiormente abestalhado que têm as aves em geral — e perguntei a ele se valia atirar pipoca. Lógico, disse, e enfiando a mão no meu saquinho, retirou um punhado e atirou-o aos bichos. Era um encanto de garoto, um ninfeto dos bosques, cabelos alourados de sol e piscina do clube, a camisa xadrez aberta exibia o peito liso, moreno e uma medalhinha de San Genaro. Perguntei se era italiano. Meu pai, respondeu sorrindo. Falava com simplicidade e delicadeza. Como se fosse a coisa mais natural do mundo topar num domingo com uma garota, às onze da manhã, cara toda borrada de pintura, casaco de veludo amarrado nos quadris, um pão semicomido na mão, um saco de pipoca na outra. Ele era a própria manhã: jovem, fresco, belo, puro. Me senti mal. Queria lavar o rosto, tomar um banho, convidá-lo a passear comigo no Ibirapuera, que é o maior parque que eu conheço, sei lá onde. Melhor ir andando. Ele ficou olhando eu me afastar com simpatia, assim, também sem perguntar nada. Uma névoa de cansaço descia sobre o jardim. Senti-me longe, minha casa longíssimo, o apartamento de Klaus ainda mais longe, em outro país, outro tempo. Ajeitei-me num banco de pedra limosa e dormi. Um segundo depois acordei: alguém me cutucava as costas com um objeto duro e pontudo. Outra vez, pensei. Mas era só uma vassoura e o homem devia ser o zelador do parque. Percebi vagamente que anoitecia.— Levaram sua bolsa e seu casaco, dona, é bom dar parte na polícia, falava com uma voz monótona, anasalada, repetindo sempre sobre o roubo e a polícia.— Pra que a vassoura?, murmurei idiotamente, ainda aturdida pelo sono. O corpo dolorido. Meu casaco e a bolsa?— Você tá mal, hein? Deu moleza, já viu, nego passa a mão mesmo, acho bom dar parte na...— Já vou, já vou. Como fazê-lo calar? Estiquei as pernas. Intactas ainda minha calça de veludo e a camisa de seda. Bem, foi-se, pensei. No que deu o vampirismo poético. Judas, o obscuro, estaria agora em seu lindo apezinho ouvindo Beethoven e jantando carneiro ensopado com legumes, preparado por Lady Varizes, a copeira. Aquela cara amassada, descomposta, mastigando a sobremesa, aqueles olhos duros, machucados, e o animal adormeceria tranquilamente entre seus panfletos comunistas, fumando cigarros mentolados. Era demais. Vomitei espasmodicamente num canteiro de hortênsias. Resolvi voltar para casa. Lá pagariam o táxi. Então lembrei: estavam todos viajando. Todos os amigos, todos os sujeitos, todas as amigas, etc. Eu estava sem a bolsa, sem as chaves, com frio, fome e precisando de um banho. No táxi, suspirando, dei o endereço de Klaus.


(Diana Caçadora)

(Ilustração: Martin Eder – passion)


sexta-feira, 25 de junho de 2010

HOW DO I LOVE THEE? / AMO-TE..., de Elizabeth Barret Browning








How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of being and ideal grace.

I love thee to the level of every day’s
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for right.
I love thee purely, as they turn from praise.

I love thee with the passion put to use
In my old griefs, and with my childhood’s faith.
I love thee with a love I seemed to lose

With my lost saints. I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life; and, if God choose,
I shall but love thee better after death.




Tradução de Manuel Bandeira:




Amo-te quanto em largo, alto e profundo


Minhalma alcança quando, transportada,


Sente, alongando os olhos deste mundo,


Os fins do Ser, a Graça entressonhada.





Amo-te em cada dia, hora e segundo:


À luz do Sol, na noite sossegada.


E é tão pura a paixão de que me inundo


Quanto o pudor dos que não pedem nada.





Amo-te com o doer das velhas penas;


Com sorrisos, com lágrimas de prece,


E a fé da minha infância, ingênua e forte.





Amo-te até nas coisas mais pequenas.


Por toda a vida. E, assim Deus o quiser,


Ainda mais te amarei depois da morte.






(Ilustração:  Magritte - o beijo)






quarta-feira, 23 de junho de 2010

GIOVANNI, de James Baldwin





Conheci Giovanni em meu segundo ano em Paris, quando estava sem dinheiro. Na manhã daquele dia, em que nos conhecemos, eu fora expulso de meu quarto. Não tinha um montão de dinheiro comigo, apenas perto de seis mil francos, mas o hoteleiros parisienses têm faro aguçado para a pobreza, e quando o mesmo acusa alguma coisa, eles fazem o que faz qualquer outra pessoa que sinta um mau cheiro – atiram para fora o que esteja fedendo.

Meu pai tinha, em sua conta bancária, dinheiro que me pertencia, mas mostrava-se muito relutante em enviá-lo para mim, pois queria que eu regressasse para casa – voltasse para casa, como dizia, e me estabelecesse, e sempre que ele dizia isso eu pensava no fundo lodoso de um poço estagnado. Àquela altura eu não conhecia muitas pessoas em Paris, e Hella encontrava-se na Espanha. A maioria dos que eu conhecia em Paris era, como às vezes os parisienses dizem, gente de le milieu, e embora esse meio certamente estivesse pronto a me chamar, eu me encontrava decidido a provar, tanto a eles quanto a mim próprio, que não pertencia à sua companhia. Fazia isso estando em companhia deles bastante tempo e manifestando para com todo os seu componentes uma tolerância que supunha situar-me acima de qualquer desconfiança. Escrevera pedindo dinheiro a amigos, é claro, mas o Oceano Atlântico é coisa bem profunda e larga, e o dinheiro não se apressa em vir da outra margem.

Assim é que percorri meu caderninho de endereços, sentado diante de uma xícara, num café de bulevar, e resolvi chamar um velho conhecido que sempre me pedia que o chamasse, um businessman norte-americano, nascido na Bélgica, madurão e chamado Jacques. Tinha um apartamento grande e confortável, muita coisa para beber e dinheiro em quantidade. Manifestou surpresa ao receber meu telefonema, como eu sabia que ia acontecer, e antes que essa surpresa e seu sabor se dissipassem, dando-lhe tempo para acautelar-se, já me convidara para jantar. Podia estar xingando quando desligava, e pondo a mão na carteira, mas era tarde demais. Jacques não é criatura das piores. Talvez seja um idiota e um covarde, mas quase todos são uma coisa ou outra, e a maioria incorre em ambas as categorias. Por certos aspectos, eu gostava dele. Era um bobo, mas vivia muito solitário. Seja como for, compreendo agora que o desdém que sentia por ele estava preso ao desdém que sinto por mim mesmo. Podia mostrar-se incrivelmente generoso, e sabia ser inenarravelmente sovina. Embora quisesse confiar em todos, não conseguia confiar em pessoa alguma, e para compensar isso gastava o dinheiro com os outros, seguindo-se daí que era invariavelmente esbulhado. Tendo ocorrido isso, abotoava a carteira, fechava a porta e retirava-se para aquela forte autocomiseração que talvez constituísse a única coisa realmente sua. Por muito tempo achei que ele, com seu apartamento enorme, suas promessas de boa intenção, seu uísque, sua maconha, suas orgias, ajudara a matar Giovanni. E talvez tenha, mesmo. Mas é certo que as mãos de Jacques não estão mais manchadas de sangue do que as minhas.

A bem da verdade, vi Jacques logo depois de Giovanni ser condenado. Estava sentado no terraço de um café, envolto em seu sobretudo, tomando um vin chaud, e inteiramente sozinho naquele lugar. Quando passei por ali, ele me chamou.

Não tinha bom aspecto, seu rosto estava mosqueado e os olhos por trás dos óculos pareciam os de um homem à morte, que procura salvação em toda parte.

- Já soube – disse em murmúrio, quando me sentei à sua mesa – a respeito de Giovanni?

Com a cabeça, fiz que sim. Lembro-me do sol de inverno, brilhando no céu, e lembro também que me sentia tão frio e distante quanto ele.

- É terrível, terrível, terrível! – disse Jacques entre gemidos. – Terrível!

- Sim – respondi, incapaz de dizer outra coisa.

- Por que será que ele fez uma coisa dessas? – insistiu Jacques. – Por que não pediu ajuda aos amigos?

Olhou para mim, e sabíamos ambos que na última vez em que Giovanni pedira dinheiro Jacques o negara. Fiquei em silêncio, e ele prosseguiu:

- Dizem que ele começara a tomar ópio, que precisava de dinheiro para o ópio. Você ouviu falar nisso?

Eu ouvira, sim. Tratava-se de uma especulação apresentada em jornal, mas eu tinha motivos para crer nela, lembrando a a medida do desespero de Giovanni, sabendo até onde ele fora levado por aquele terror, tão grande que simplesmente se transformara em vácuo. “Eu quero fugir”, dissera-me. “Je veux m’evader deste mundo sujo, deste corpo sujo. Nunca mais quero amar com outra coisa além do corpo”.

Jacques aguardava minha resposta, e eu fiquei de olhos presos na rua. Estava começando a pensar em Giovanni morrendo – e onde Giovanni estivera, não haveria mais coisa alguma.

- Espero que não tenha sido por minha culpa – disse Jacques, finalmente. – Não lhe dei o dinheiro que me pedia. Se eu soubesse... teria dado tudo quanto possuo.

Mas nós dois sabíamos que isso não era verdade.

- Vocês dois juntos... – sugeriu Jacques – Não eram felizes juntos?

- Não – respondi e levantei-me. – Talvez fora melhor que ele ficasse lá naquela aldeia dele, na Itália, plantasse suas oliveiras e tivesse filhos, e espancasse a mulher. Ele, antes, gostava muito de cantar – recordei de repente. – Talvez pudesse ter ficado por lá e cantado por toda a vida, e morrido na cama.

Foi então que Jacques disse alguma coisa surpreendente. As pessoas estão cheias de surpresas, até para si mesmas, quando agitadas o suficiente.

- Ninguém pode ficar no jardim do Paraíso – disse Jacques, aduzindo em seguida: - Por que será?



(Giovanni – tradução de Affonso Blacheyre)



(Ilustração: Matisse – luxe calme et volupté)


segunda-feira, 21 de junho de 2010

VAI ALTA NO CÉU A LUA DA PRIMAVERA, de Alberto Caeiro







Vai alta no céu a lua da Primavera.
Penso em ti e dentro de mim estou completo.

Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome: e não sou eu: sou feliz.

Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo.
E eu andarei contigo pelos campos a ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos.
Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.


(Ilustração: Monet – The Stroll)


quinta-feira, 17 de junho de 2010

O SUJEITO QUE BUSCA UM CAFÉ, de Toni D’Agostinho









Chegou, enfim, o dia pelo qual seu Fialho sonhara desde a entrada na casa dos 40: foi promovido de “sujeito que busca um café” a assessor de gabinete do vereador - como certificava o memorando em sua mão. A glória pessoal asseverada pelos pormenores institucionais inflava seu íntimo de circunstâncias. Se antes, as aves de rapina, ávidas por mordiscar um naco do dinheiro público, pediam café e sequer olhavam nos olhos de quem as servia, doravante, para usufruir das benesses que a casa da vereança oferece, seria preciso mostrar os dentes num largo sorriso e apertar amistosamente a mão de seu Fialho, assessor de gabinete do vereador, conforme explicita o memorando - não custa repetir.

Coincidindo com a estreia no cargo, eis que o prefeito resolveu visitar a assembleia para os tratos da política; assim que deu as caras no gabinete do vereador, foi recebido pelo próprio que, devido ao automatismo do hábito, perdeu de vista as hierarquias:


- Vam’bora, Fialho... busca um café pro prefeito.


Seu Fialho vestiu a desilusão. Serviu. Tamanha a fragilidade de seu estado mental, tremeu ao passar a xícara à mão do prefeito e gotejou café no chão; acidente mínimo e sem grandes consequências para chamar a atenção dos protagonistas do poder, que saíram do gabinete entre risos e abraços. Seu Fialho sentiu-se parvo, sem motivação para esboçar qualquer pensamento que lhe fosse útil; movido por um impulso primitivo, foi prestimoso. Limpou o café que havia caído. Usou o memorando.


(Ilustração: Odilon Redon - The egg)



terça-feira, 15 de junho de 2010

80. W.H. AUDEN FICCIONA SOBRE CHRISTOPHER ISHERWOOD, de Amadeu Baptista







1.


Ignoro o paradeiro de Christopher Isherwood,


há muito que o outro lado do muro do internato o fascinava,


muitas vezes me perguntou que poderia pensar-se


da separação das águas e também pelas ignotas terras


do mundo e sobre quais seriam as melhores embarcações


para atravessar o mar. Não raro o observei a perscrutar


o infinito, cada noite procurava uma determinada estrela


no firmamento, enquanto fazia rodar a caneta


entre os dedos a uma velocidade inverosímil, uma velocidade


que me deixava atónito. – " Wystan, você acredita


na grande máquina? ". E ficava


a olhar além do vazio, além de tudo, como se a existência


fosse algo bem mais significativo que o tédio intensíssimo


de todos os fins de tarde e a dúvida apenas esboçada


no seu rosto fosse o único objectivo da sua vida. – " Wystan,


não tenho notícias de Manchester há cinco meses, é bem


provável que tal sítio do mundo já não exista." E ficava a olhar


o verde brilhante que inundava os limites da janela


do nosso quarto comum. Esta manhã saiu cedo, não havia


qualquer sussuro que me pudesse ter despertado mas ouvi-o


a saltar da cama cautelosamente e a fechar a porta


com suave gentileza. – " Wystan, hoje não teremos


um pequeno-almoço delicioso ", disse, entredentes,


e partiu para sempre ainda mais só do que me habituei a vê-lo,


recordando talvez Manchester ou alguma escuna branca


que tivesse sonhado nessa mesma noite e o tivesse levado


mais longe, a regiões mais vastas,


do que esta infernal preparação para o precário mercado


de commodities.





2.



Vim a saber que lhe bateram com uma correia de transmissão


quanto tinha oito anos e que sempre que aceita um desafio


é como se voltasse a esse tempo de surda revolta. Compreendo


que se sinta infeliz, mais a mais tendo outras pérfidas


recordações a persegui-lo,


vitimou-o a morte da avó com essa tristeza imparável,


onde entra irradia uma premonição de algo que irá desabar


e uma corrente de ar gelado que é impossível conter.


Também soube que perdeu os pais muito cedo, num incêndio,


ao que creio,


essas tragédias abatem-se sobre nós e não nos atrevemos a olhar


para trás sem que algo estale dentro da cabeça, uma explosão


no espírito que faz com que inclinemos a cabeça para o peito


e uma pequena barragem se levante para a lágrima que ameaça


chorar


enquanto o estremecimento atravessa o corpo e se prolonga


além do olhar com o poder de transfigurar a realidade


e nos devolver


a esse passado avassalador onde tudo aconteceu. Presumo


que o fascínio tem desses sedimentos, as marcas indeléveis


acossam a memória e tudo é irremediável, fugaz


mas irremediável, uma fita de imagens lentíssimas


desenrola-se sob os olhos,


amplia-se na distância do tempo, é uma dor mais forte


que não dói já, mas há-de continuar a doer além do imaginável,


além dos ossos,


além da morte,


além do feroz instinto de prevalecer.






3.




Estou agora professor de poesia em Oxford


e o meu amigo Christopher Isherwood flutua no espaço


inter-estelar,


se me olho ao espelho coro de vergonha


pela traição a que me submeti,


o meu amigo Christopher Isherwood flutua no espaço


inter-estelar.




A poesia não me desobriga da vida


mas o meu amigo Christopher Isherwood flutua no espaço


inter-estelar,


desde a infância que me comovo com as estrelas,


o meu amigo Christopher Isherwood flutua no espaço


inter-estelar.




Onde quer que vá neste espaço exíguo lembro-me


que o meu amigo Christopher Isherwood flutua no espaço


inter-estelar,


ele estava fascinado pelo que havia além do muro,


o meu amigo Christopher Isherwood flutua no espaço


inter-estelar.




(Jornal de Letras, Artes e Ideias , nº. 640)


(Ilustração: Koslow - Cristopher Isherwood)


domingo, 13 de junho de 2010

A RESPEITO DA CONFISSÃO, de Judith Rossner








Gary Cooper White nasceu em Jersey City, Nova Jersey, mas foi para a Geórgia no mesmo ano em que entrou na escola, quando o terceiro marido de sua mãe, de uma série de cinco, conseguiu emprego numa usina local. Parte da impressão resultante da combinação de sotaques se perde na transcrição da gravação policial. Apesar disso, procurei anotar as perguntas, as interrupções e as alterações emotivas evidentes em sua voz.

A polícia encontrou nele uma testemunha muito cooperativa. Ficou algo violento e incoerente a bordo do avião em que foi trazido para Nova York, mas não ofereceu resistência aos policiais de Ohio que o encontraram. A essa altura, ele estava ansioso por tirar tudo aquilo de cima dele. De volta a Nova York, não negou o crime, mas quis que compreendessem as circunstâncias. Parecia acreditar que qualquer um na mesma situação teria cometido o mesmo crime.
A meu ver, esse foi o aspecto mais interessante da confissão: o fato de Gary White, que atacara e assassinara brutalmente Theresa Dunn, poucas horas após ele tê-la conhecido num bar de Manhattan, chamado Mr. Goodbar, considerar-se vítima da mulher que ele matara.

Tinha acabado de chegar da Flórida, onde deixara uma esposa muito jovem (dezesseis anos) e grávida. Havia um mandado de captura contra ele (assalto a mão armada) e não conseguia encontrar emprego lá. Na Carolina do Sul, um motorista descuidado dera-lhe carona e deixara o paletó no banco, entre os dois. White tirara do bolso do paletó uma carteira contendo mais de trinta dólares e documentos suficientes para arranjar trabalho na Carolina do Norte e na Virgínia. Caíra fora de ambos os lugares logo após receber o primeiro pagamento.
A julgar pelas fotos, era um rapaz bem-parecido, louro e de queixo bem marcado, lembrando, na sua roupa de brim desbotado, um figurante de filme de cowboy. Não lhe era difícil arranjar trabalho ou mulher.

Chegara a Nova York com a intenção de ficar morando com um cara que pertencera a sua unidade, no Vietnam, enquanto não conseguisse emprego. Mas o amigo já não morava no endereço de Greenwich Village que havia fornecido a White. Este perambulara pela cidade e, à noite, fora parar num bar frequentado, percebeu depois, por homossexuais. Conhecera ali George Prince (ou Príncipe George, como ele, às vezes, chamava a si mesmo), o qual, dias depois, forneceria à polícia as informações necessárias para pegarem Gary em Cleveland. White revelou a George como viera a Nova York à procura de emprego, contando com a hospedagem em casa de uma amigo até que pudesse arrumar trabalho, mas o amigo havia se mudado. George ofereceu-lhe um lugar onde ficar. Uma das poucas contradições na confissão de White é que, a princípio, ele diz não ter percebido que George era homossexual e estava de olho nele, enquanto, mais adiante, declara ter visto logo que George era fresco, mas que julgara poder lidar com ele.

O modo encontrado para “lidar” foi o de manter relações sexuais com George durante aproximadamente uma semana, sem jamais lhe dizer que o que ele realmente queria era um lugar para dormir enquanto procurava emprego. Só quando George levou outro homem para o apartamento foi que Gary se rebelou, e mesmo assim parece ter ficado mais perturbado com a ideia de o estranho tornar-se uma testemunha do que com a possibilidade de ser um terceiro parceiro sexual. Até então, encarara o que estava fazendo sob um aspecto prático. Redobrou seus esforços para arranjar trabalho, mas as festas de fim de ano estavam próximas, a maioria dos empregos temporários já estava tomada e, em Nova York, ele não contava com a vantagem automática que, no sul, qualquer um tem pelo simples fato de ser branco.

Mostrou-se cada vez mais hostil para com George, que se vingava caçoando de sua aparência e, na véspera do Ano Novo, insistindo para que Gary fosse de travesti a um baile de fim de ano. Contrastando com sua presteza em contar o que acontecera com Theresa, Gary gaguejou ao descrever, instado pela polícia, a peruca, a tiara, o longo de cetim branco e as sandálias prateadas que George lhe arrumara.

Como no caso de Theresa, Gary mostrou não sentir que tinha feito algo de errado ou evitável. Expressou raiva de George por tê-lo forçado a manter ralações sexuais com ele, ao mesmo tempo que confessava não ter sido coagido. Não achava que tivesse explorado George. (Posteriormente, sua resposta a um psiquiatra designado pelo tribunal, que lhe perguntou se não achava criticável aceitar dinheiro, comida e alojamento de alguém de quem ele não gostava, foi: “Ora, ele era apenas um veado!”)

A impressão que ele dá é de ter sempre vivido com a sensação de ter de lutar pela vida com a faca no peito, contexto no qual mesmo os anos tidos como insanos parecem perfeitamente normais. A suprema ironia de sua situação foi o fato de a polícia ter encontrado, escondido no forro de seu paletó, mais de cem dólares em notas de cinco e de dez. Ele ficou espantado quando o interrogaram a respeito.

Poupara esse dinheiro, dos pagamentos que recebera trabalhando aqui e ali,para dar à esposa grávida. Não quisera mandar o dinheiro pelo correio, nem arriscar-se a remeter uma ordem de pagamento do sul. Por isso, escondera o dinheiro no forro do paletó, com a intenção de mandá-lo de Nova York, com a ajuda do amigo quando lá chegasse.

Ao chegar a Nova York, tinha seis dólares nas calças e só se lembrou do dinheiro escondido no forro quando os policiais o descobriram, a 13 de janeiro, menos de duas semanas após o assassinato de Theresa Dunn.




(De Bar em Bar, tradução de Vera Pedroso)


(Ilustração: Francis Bacon – John)




sexta-feira, 11 de junho de 2010

UMA MULHER, de Bruna Lombardi









Uma mulher caminha nua pelo quarto


é lenta como a luz daquela estrela


é tão secreta uma mulher que ao vê-la


nua no quarto pouco se sabe dela




a cor da pele, dos pêlos, o cabelo


o modo de pisar, algumas marcas


a curva arredondada de suas ancas


a parte onde a carne é mais branca




uma mulher é feita de mistérios


tudo se esconde: os sonhos, as axilas,


a vagina


ela envelhece e esconde uma menina


que permanece onde ela está agora


o homem que descobre uma mulher


será sempre o primeiro a ver a aurora.



(Ilustração: John William Godward – Venus binding her hair)



quarta-feira, 9 de junho de 2010

UMA CARTA DE RANDOLPH HENRY ASH(*), de A. S. Byatt






Prezada sra. Cropper:



Agradeço-lhe a comunicação que a senhora me fez de sua experiência com a planchette. De fato, interessa-me todo e qualquer escrito que tenha vindo da pena de Samuel Taylor Coleridge. Devo confessar, porém, o que farei sem rodeios, que me repugna em extremo a ideia de que o espírito magnífico deste poeta, finda sua cansativa e opressora jornada neste mundo, veja-se agora obrigado a arrastar mesas de mogno, ou pairar no ar em salas penumbrosas, parcialmente materializado, ou desperdiçar sua inteligência finalmente liberta da carne em parvoíces constrangedoras e ridículas como as que a senhora me enviou. Não deverá estar Coleridge agora – para citar seu “Kublai Khan” – bebendo o leite do Paraíso?

Falo sério, minha senhora. Eu próprio tenho participado de sessões como as que a senhora descreve – nihil humanum a me alienum puto é meu lema, tal como deveria ser também de todos os meus colegas de profissão –, e creio que a explicação mais provável é um misto de fraude deslavada e uma espécie de histeria coletiva, um miasma de ansiedade espiritual e agitação febril que infesta saraus e chás na nossa melhor sociedade atualmente. Poder-se-ia aventar a hipótese de que a causa deste miasma é o materialismo crescente de nossa sociedade, bem como o questionamento rigoroso – ao mesmo tempo natural e inevitável, dado o atual estado de nosso desenvolvimento intelectual – de nossas narrativas religiosas históricas. De fato, neste capítulo tudo são incertezas, de modo que o historiador e o cientista cada vez mais minam nossa fé simples. Ainda que o resultado final destas investigações infatigáveis venha a ser o fortalecimento desta fé, tal resultado será doloroso e dificilmente se dará ainda em nosso tempo. Isto não implica, porém, que as panaceias oferecidas a um público faminto de certezas sejam eficazes ou tenham bases sólidas.

Tanto o historiador quanto o cientista, pode-se dizer, vivem em consórcio com os mortos. Cuvier investiu de carne, movimento e apetites o extinto Megatério, e os ouvidos vivos dos senhores Mechelet e Rena, Carlyle e Irmãos Grimm ouviram os gritos já silentes dos desparecidos e a eles deram vozes. Quanto a mim, tenho também, com a ajuda da imaginação, atuado neste sentido, como ventríloquo, emprestando minha voz e minha vida àquelas vidas e vozes do passado que todo homem e mulher pensante têm obrigação de ressuscitar em suas próprias vidas, como advertências e exemplos, como a vida do passado sobrevivendo em nós. Mas há maneiras muito diversas de fazer tal coisa, como a senhora bem sabe; algumas são consagradas pela experiência, enquanto outras estão carregadas de perigos e decepções. Tudo o que é lido, compreendido, meditado e intelectualmente apreendido é nosso, minha senhora e pode ser usado em nossas vidas. Nem toda uma vida dedicada ao estudo nos poderá dar acesso a mais que um fragmento de nosso passado ancestral, quanto mais aos milênios que transcorreram antes da formação da espécie humana. Mas este fragmento, cabe a nós apossar-se dele e legá-lo às gerações futuras. Hoc opus, hic labor est. Sou levado a afirmar que não há atalhos, não há vias fáceis: todo aquele que tenta encontrar um tal caminho assemelha-se à personagem de Bunyan que encontra um caminho para o Inferno bem junto aos portões da Cidade Celestial: e o nome desta personagem é Ignorância.

Pense bem, minha senhora, no que resultam estas tentativas de dirigir-se aos mortos, este seres venerandos e terríveis, diretamente. Que pérolas de sabedorias eles lhe proporcionaram, depois de tanto tempo desperdiçado? Que vovó deixou seu broche novo dentro daquele carrilhão, ou que uma tia remota reclama, do além-túmulo, de lhe terem colocado um caixão de criança sobre o seu no jazigo da família. Ou, como o seu Coleridge lhe afirmou, que “há beatitude eterna para aquelas que merecem-na e há um tempo de correção para aqueles que não merecem-na” no Além. (Coleridge, que jamais errou na colocação de pronomes em sete idiomas!) Para nos dizer isto, minha senhora, não é necessário vir um fantasma do além.

É possível que haja espíritos errantes, bolhas emanadas da terra, criaturas do ar, que de vez em quando cruzam com nossas correntes usuais de apreensão, enquanto seguem em seu caminho incognoscível. Também há vagos indícios de que lembranças angustiadas permaneçam sob alguma forma mental em certos lugares terríveis. Há, sem dúvida, mais cousas entre o céu e a terra do sonha nossa vã filosofia. Porém tais cousas há de ser descobertas, creio eu, não por meio de estalidos e ruídos ou apalpações, ou pelo ser Home a flutuar em torno do candelabro de braços levantados, nem tampouco por meio das escrevinhações de sua planchette, e sim por meio da contemplação demorada e paciente da complexa interação entre mentes mortas e organismos vivos, por meio da sabedoria que examina o antes e o depois, por meio do microscópio e do espectroscópio, e não de perguntas dirigidas a espectros eternamente obcecados com a vida terrena. Conheci alguém de boa alma e mente sã que foi totalmente destruído por tais invencionices.

Se me estendi tanto nesta carta, foi para que a senhora não pense que faço pouco de seu interesse por mim, nem que nutro em relação a sua pessoa quaisquer sentimentos hostis. Porém tenho convicções profundas – e tenho tido certas experiências pessoais – que me impedem de receber sua comunicação espiritual com interesse ou prazer. Peço-lhe que não me mande mais tais escritos. Todavia, em relação à sua pessoa, à sua busca desinteressada pela verdade, não poderia eu sentir senão respeito e entusiasmo. Sua luta pela emancipação da mulher é uma nobre causa, que certamente há de ter sucesso, mais cedo ou mais tarde. Muito me interessaria receber notícias sobre esta luta. Aceite os protestos de estima e consideração de


R. H. Ash


(*) Randolph Henry Ash é um poeta vitoriano, criação fictícia da autora.


(Possessão – tradução de Paulo Henriques Britto)



(Ilustração: Emile Nolde - dance around the golden calf)










segunda-feira, 7 de junho de 2010

CHUVA DE CAJU, de Joaquim Cardozo










Como te chamas, pequena chuva inconstante e breve?


Como te chamas, dize, chuva simples e leve?


Teresa? Maria?


Entra, invade a casa, molha o chão,


Molha a mesa e os livros.


Sei de onde vens, sei por onde andaste.


Vens dos subúrbios distantes, dos sítios aromáticos


Onde as mangueiras florescem, onde há cajus e mangabas,


Onde os coqueiros se aprumam nos baldes dos viveiros


e em noites de lua cheia passam rondando os maruins:


Lama viva, espírito do ar noturno do mangue.


Invade a casa, molha o chão,


Muito me agrada a tua companhia,


Porque eu te quero muito bem, doce chuva,


Quer te chames Teresa ou Maria.




(Ilustração: Zach Ladner – Brussels in the rain)



sábado, 5 de junho de 2010

ESCADARIAS, 1, de Georges Perec








Certo, a história poderia começar assim, aqui, desta forma, de maneira um tanto lerda e lenta, neste reduto neutro que é de todos e não é de ninguém, onde as pessoas se cruzam quase sem se ver, onde a vida do prédio repercute, distante e regular. Do que se passa por trás das pesadas portas dos apartamentos só se percebem no mais das vezes os ecos perdidos, os fragmentos, os esboços, os contornos, os incidentes ou acidentes que se desenrolam nas chamadas “partes comuns”, esses leves ruídos de feltro que os gastos tapetes de lã vermelha abafam, esses embriões de vida comunitária que vão sempre se deter nos patamares. Os habitantes de um mesmo prédio vivem a apenas alguns centímetros uns dos outros, uma simples divisória os separa, partilham os mesmos espaços que se repetem ao longo dos andares; fazem os mesmos gestos ao mesmo tempo, abrir a torneira, dar a descarga, acender a luz, pôr a mesa, algumas dezenas de existências simultâneas que se repetem de andar em andar, de prédio em prédio e de rua em rua. Eles se entrincheiram em suas partes privativas — pois é assim que se chamam — e gostariam que nada dali saísse, e o pouco que consentem em que saia, o cão na coleira, o menino que vai comprar pão, o recebido ou o expedido, é pela escadaria que sai. Pois tudo o que se passa passa pela escadaria, tudo o que chega chega pela escadaria, as cartas, os comunicados, os móveis que os carregadores trazem ou levam, o médico chamado com urgência, o viajante que volta de longa viagem. É por esse motivo que a escadaria permanece um lugar anônimo, frio, quase hostil.

Nos edifícios antigos, havia ainda degraus de pedra, balaústres de ferro fundido, esculturas, tocheiros, às vezes um banquinho para permitir que as pessoas idosas descansassem entre um andar e outro. Nos prédios modernos, há elevadores com os forros cobertos de pichações pretensamente obscenas e escadas ditas “de emergência”, de cimento bruto, sujas e sonoras. Neste prédio aqui, em que há um elevador quase sempre parado, a escadaria é um lugar vetusto, de asseio duvidoso, que de andar em andar se degrada conforme as convenções da respeitabilidade burguesa: tapete duplo até o terceiro andar, simples em seguida, e depois nenhum para os dois andares do alto.

Certo, a história vai começar aqui: entre o terceiro e o quarto andares do número 11 da rua Simon-Crubellier. Uma senhora de seus quarenta anos está subindo a escada; veste uma capa impermeável de vinil e traz na cabeça uma espécie de gorro de feltro, em forma de pão de açúcar, um pouco no estilo do que imaginamos seja um chapéu de duende, dividido em quadrados vermelhos e cinzentos. Uma grande bolsa à tiracolo, dessas chamadas vulgarmente patuá, pende-lhe do ombro direito. Um lencinho de cambraia de linho está amarrado em torno de um dos anéis de metal cromado que prendem a alça. Três motivos impressos a decalque repetem-se regularmente em toda a superfície da bolsa: um enorme relógio de pêndulo, um pão de forma partido ao meio e uma espécie de recipiente de cobre sem asas.

A mulher observa uma planta que tem na mão esquerda. É uma simples folha de papel cujos vincos ainda visíveis atestam ter sido dobrada em quatro, fixada por meio de um clipe a espesso volume de páginas mimeografadas: o regulamento do condomínio respeitante ao apartamento que esta mulher vai visitar. Na folha, estão desenhadas não uma, mas três plantas: a primeira, no alto e à direita, permite localizar o prédio, mais ou menos a meio da rua Simon-Crubellier, a qual divide obliquamente o quadrilátero que formam entre si, no quarteirão da Plaine Monceau, no xvii arrondissement, as ruas Médéric, Jadin, De Chazelles e Léon Jost; o segundo, ao alto e à esquerda, é um corte transversal do prédio, indicando esquematicamente a disposição dos apartamentos, precisando os nomes de alguns de seus moradores: senhora Nochère, porteira, senhora Beaumont, segundo à direita; Bartlebooth, terceiro à esquerda; Rémi Rorschash, produtor de televisão, quarto à esquerda; doutor Dinteville, sexto à esquerda, bem como o apartamento vago, no sexto à direita, que Gaspard Winckler, artífice, ocupou até morrer; a terceira planta, na metade inferior da folha, é a do apartamento de Winckler: três peças que dão para a rua, uma cozinha e um toalete que dão para a área de serviço, um quarto de despejo sem janelas.

A mulher retém na mão direita um volumoso molho de chaves, sem dúvida as de todos os apartamentos que visitou durante o dia; várias pendem de chaveiros de fantasia: uma miniatura de garrafa do licor Marie Brizard, um tee de golfe e uma vespa, um dominó que representa um seis duplo, uma ficha de plástico, octogonal, na qual foi incrustada uma flor de tuberosa.

Faz quase dois anos que Gaspard Winckler morreu. Não tinha filhos. Não se sabe se deixou outros familiares. Bartlebooth encarregou um tabelião de procurar seus eventuais herdeiros. Sua única irmã, a senhora Anne Voltimand, havia morrido em 1942. Seu sobrinho, Grégoire Voltimand, fora morto no Garigliano em maio de 1944, quando da ruptura da Linha Gustav. Foram necessários vários meses para que o tabelião descobrisse um primo em terceiro grau de Winckler; chamava-se Antoine Rameau e trabalhava numa fábrica de sofás moduláveis. Os direitos de sucessão, acrescidos das despesas decorrentes do estabelecimento de sucessores, revelaram-se tão elevados que Antoine Rameau precisou vender tudo em leilão. Há já meses, os móveis dispersaram-se pelas hastas e, faz algumas semanas, o apartamento foi adquirido por uma agência imobiliária.

A mulher que sobe as escadas não é a diretora da agência, mas sua adjunta; não se ocupa de assuntos comerciais nem das relações com a clientela, mas apenas dos problemas técnicos. Do ponto de vista imobiliário, o negócio foi bom, o bairro é interessante, a fachada é de pedra de cantaria, a escadaria é passável, apesar de o elevador ser bastante antiquado, e a mulher vem agora inspecionar com maior cuidado as condições do apartamento, traçar uma planta mais precisa das divisões, usando, por exemplo, traços mais espessos para distinguir das paredes as divisórias e empregando semicírculos pontilhados para indicar o sentido em que se abrem as portas, e prever as obras necessárias, a fim de preparar um orçamento inicial dos custos de remodelação: a divisória que separa do toalete o quarto de despejo será posta abaixo para permitir a construção de um banheiro com banheira e wc; o piso da cozinha será substituído; um boiler aquecido a gás, com função mista (aquecimento central e água quente), será posto em lugar do antigo sistema a carvão; o piso de taquinhos em zigue-zague das três peças será retirado e trocado por uma placa de cimento recoberta por forro e atapetada.

Das três pequenas peças onde durante quase quarenta anos viveu e trabalhou Gaspard Winckler não resta grande coisa. Seus poucos móveis, a pequena banca, a serra de vaivém, as limas minúsculas, tudo se foi. Já não existe ali na parede do quarto, ao lado da janela, aquele quadro retangular de que tanto gostava, representando uma antecâmara na qual se viam três senhores. Dois estavam em pé, de sobrecasaca, pálidos e gordos, encimados por cartolas que pareciam aparafusadas em seus crânios. O terceiro, também vestido de negro, estava sentado perto da porta, numa atitude de cavalheiro que espera por alguém e se ocupa em calçar luvas novas cujos dedos se moldam pelos seus.

A mulher sobe as escadas. Em breve, o velho apartamento se tornará uma habitação confortável, liv. duplo + qt., tudo refor., c/ vista, rua calma. Gaspard Winckler morreu, mas a longa vingança que urdiu com tanta paciência e tanta minúcia, vai levar ainda muito tempo para se cumprir.


(A Vida Modo de Usar, tradução de Ivo Barroso)


(Ilustração: Delaunay – City of Paris)