domingo, 13 de agosto de 2017

TUDO QUE PASSA NA CABEÇA ANTES DE UMA NOITE DE AMOR, de Lucas Barroso







A vida é um processo de espera. Às vezes, as coisas simplesmente não acontecem no tempo esperado. Era angustiante aguardar. Teria tempo para? Pensava nisso enquanto refogava a cebola e o alho na manteiga, como orientava a receita. Cebola é a alma da comida, dizia sua mãe, metida a poeta. Quinhentos gramas de camarão. Duas xícaras de arroz arbóreo. Alho-poró. Um cálice de vinho branco seco. Um toque de laranja. Sal e pimenta a gosto. Será que risoto é uma boa escolha? Pelo menos, é prático. Deixou uma fresta na tampa. As panelas ficariam descansando, com o risoto já pronto, enquanto ia ao banheiro se maquiar. 


Fez o contorno dos olhos com cuidado. Batom vermelho, no tom que todo homem gosta. Pernas depiladas. Meia-calça e espartilho pretos. Salto alto – o pé esquerdo, sabe-se lá por que razão, apertou um pouco. Unhas e cílios postiços – será que ele notaria? E se notasse, qual seria sua opinião sobre? Vestido discreto, preto – para combinar com a meia-calça –, curto, mas não demais. A intenção era valorizar sua bunda, redondinha, tamanho que quase cabe na mão de um homem. Sutiã com bojo – outra tática além dos cílios – para preencher o decote. Nas costas, as alças finas e uma abertura até o cóccix davam luz a sua pele limpa, lisa, apenas com algumas pintinhas, sem protuberância alguma. 


Todo esse esforço, essa apresentação, óbvio, era para valorizar aquele momento, demonstrar a reverência que a noite merecia. Sabia que não passava de artimanha, estratagema, clichê, entretanto, queria agradar. Tudo que as pessoas fazem é para agradar as outras. Essa era outra lição de sua mãe. Os homens gostam de se sentir especiais, sabia muito bem disso. A ocasião era propícia para ressaltar e mostrar explicitamente sua intenção: não queria só sexo. 


Gostava dele. Nunca estiveram a sós como ficariam hoje. Quando se beijaram, foi no trabalho, onde eram colegas. A partir disso, desencadearam-se diversos eventos que resultaram nessa noite. Eis a razão da tensão, pois havia ali, naquele apartamento de uma pessoa só, uma ânsia em ver tudo dando certo. Pouco importava o fato dele ser casado, com filhos – e qual será a desculpa que um homem casado e com filhos inventa para conseguir uma noite fora de casa? Futebol? Trabalho? Amigos? Não sabia, nem imaginava ao certo. O problema era dele, pensou. Também pensou o que essa noite traria como consequências para o futuro de ambos. Fim do casamento? Seriam somente amantes? Uma noite apenas? E no trabalho, não se falariam mais? Tinha o jantar, a casa e outros afazeres importantes para aquela noite que careciam de atenção. Era melhor parar com os devaneios tolos. 


Seu telefone tocou. Era ele avisando que estava em um táxi. Dentro de alguns minutos, poderia descer para recebê-lo. A resposta, porém, foi negativa, pois estragaria a surpresa – toda a preparação, o vestido. O porteiro estava avisado. Bastava anunciar o nome e acessar o elevador. Segundo ele, aquilo estava errado, o porteiro poderia desconfiar. Porém, os dois concordaram que era uma bobagem. Afinal, qual era o problema em receber um amigo para jantar? É a coisa mais normal do mundo, falou. Mesmo assim, ele tentou retomar seu discurso estranho, dizendo que as pessoas não são trouxas, mas, enfim, tudo bem.


Ao desligar, a ânsia havia se transformado em um nervosismo absurdo, que tomava conta da situação. Já não se sentia mais confortável com as atitudes que tomou. Todo aquele clima e ambiente queriam dizer exatamente o quê? Não sabia a resposta. Não sabia e isso lhe afligia. Correu ao espelho. E a principal dúvida veio: por que, afinal, se vestiu de mulher? Se fora beijado como homem, por que se fantasiou para o principal momento? O principal motivo foi ter ouvido dele que seu rosto tinha traços femininos e que isso o atraía. Essa foi a razão, segundo seu colega de trabalho que estava a poucos instantes de entrar naquele apartamento, que o fez beijar um homem pela primeira vez em sua vida – agora, em um momento de serenidade, refletiu e teve dúvida se seria verdade ou algum tipo de mentira que homens casados atraídos por outros homens sempre contam. De qualquer forma, foi baseado nisso que resolveu se vestir de mulher, assumindo então seus traços. Acreditou que o baque seria menor. Entretanto, já não tinha certeza se a decisão foi correta, porque a surpresa poderia ser um risco. E se não o agradasse? Teria como consertar tudo e receber uma segunda chance? O sapato lhe apertava. Sentou no sofá. Retirou o pé esquerdo que o estava incomodando. O alívio de estar descalço – o pé vestido com a meia-calça ao tocar o laminado trazia uma sensação muito agradável – lhe fez esquecer um pouco de tudo. Até que a campainha tocou. Não conseguiu se erguer do sofá. O toque se repetiu mais duas vezes. Respirou fundo. Calçou outra vez os sapatos e foi até a porta atender o homem que tanto esperava.




(Um silêncio avassalador)




(Ilustração: René Magritte - the lovers)



sexta-feira, 11 de agosto de 2017

INFERNOS I, de Gil Jorge







o que não você sim me diz na sua suada língua de verdades na minha cara na minha boca de contradições e desconverso em sentido contrário em insinuações como beijá-la e deixá-la nua vazia e calma fazê-la esquecer o que você não e eu sim simulo um acordo frágil entre nossos nomes em nome de um deus inventado na hora da nossa morte amém sim eu digo sim uma comunhão de bens e malas a fazer numa impensada concordância de senões até um porto mais próximo mas trata-se de um aborto de um parto de um pacto sem conjecturas de juras profanadas estupros estúpidos escrúpulos terminais e óbvios contratos de retardo latente trata-se de alcançar com sua língua as minhas amígdalas de me amordaçar e presente fugir para um ponto neutro de abstração em que os olhos veem um significado absurdo de silêncio concentrado e impenetrável digamos impermeável de propostas impróprias e você sim sem a menor dúvida grita seu pulmão seu hálito de “bourbon” e me implora de joelhos ah como eu rezava por isso por esta cinta liga por esta putaria religiosa de sim/não ordinário cretino canalha desgraçado filho da puta ridículo a mandíbula travada de quem cheirou todas te amarro te rasgo e você pede pra eu te comer te lamber me foda me morda e sinto o momento exato em que você deságua seminua semininfa semiputa te como te chupo te como te fodo te bato na cara na bunda e você perde o tesão para sim instantes segundos depois pedir mais e como se estivesse em carne viva engole todo o meu pau a minha porra as minhas cordas vocais estouram e iniciam uma hemorragia que vai à ferrugem uma dopamina que vai ao tétano eu amordaçado você amarrada desmaios múltiplos impuros como devem ser e nós sim sinistros sob as minhas barbas e eu imberbe e você sim cínica irônica descarada sem beijos ou bises me castiga me deixa ao onanismo e ri e rindo se delicia com a minha punheta depravada desesperada e dolorida com meu priapismo perpétuo mas não suporta o meu não gutural e narcótica lambe o meu períneo e entra numa vertigem vaginal de correntes por corredores estreitos por pés direitos altos saltos de sapatos finos e você sim condenada à síntese exerce o autoexorcismo e animicida animal perde-se totalmente de Virgílio eu não te perdoo mas te salvo da castidade perene à qual você quer se impor te trago ao sim simétrico da copulação doentia e sã blasfemo e digo talvezes diversas vezes quantas desnecessárias são e os nervos levados à fervura e ali petrificados pigmaleão a sua secreção sobre meu ventre enfio meu pau em sua angina (sobre) você nua de ver dentro endríaco e omófago como tua buceta e definitivamente te digo sim com todos os sintomas da besta do anticristo do antissanto e humano levo o amor a sua perfeição íntima e última e te transformo em um anjo carnal sem asas decretos e culpas ao sexo único e tantos sim tanato. fobia.





(Ilustração: Kris Kuski The-Plague)








terça-feira, 8 de agosto de 2017

CARTA AOS BRASILEIROS, de Goffredo Telles Júnior




 (Goffredo Silva Teles by Pedro Martinelli /Veja)


Das Arcadas do Largo de São Francisco, do “Território Livre” da Academia de Direito de São Paulo, dirigimos, a todos os brasileiros esta Mensagem de Aniversário, que é a Proclamação de Princípios de nossas convicções políticas.



Na qualidade de herdeiros do patrimônio recebido de nossos maiores, ao ensejo do Sesquicentenário dos Cursos Jurídicos no Brasil, queremos dar o testemunho, para as gerações futuras, de que os ideais do Estado de Direito, apesar da conjuntura da hora presente, vivem e atuam, hoje como ontem, no espírito vigilante da nacionalidade.



Queremos dizer, sobretudo aos moços, que nós aqui estamos e aqui permanecemos, decididos, como sempre, a lutar pelos Direitos Humanos, contra a opressão de todas as ditaduras.



Nossa fidelidade de hoje aos princípios basilares da Democracia é a mesma que sempre existiu à sombra das Arcadas: fidelidade indefectível e operante, que escreveu as Páginas da Liberdade, na História do Brasil.



Estamos certos de que esta Carta exprime o pensamento comum de nossa imensa e poderosa Família - da Família formada, durante um século e meio, na Academia do Largo de São Francisco, na Faculdade de Direito de Olinda e Recife, e nas outras grandes Faculdades de Direito do Brasil - Família indestrutível, espalhada por todos os rincões da Pátria, e da qual já saíram, na vigência de Constituições democráticas, dezessete Presidentes da República. 



1. O Legal e o Legítimo



Deixemos de lado o que não é essencial.



O que aqui diremos não tem a pretensão de constituir novidade. Para evitar interpretações errôneas, nem sequer nos vamos referir a certas conquistas sociais do mundo moderno. Deliberadamente, nada mais diremos do que aquilo que, de uma ou outra maneira, vem sendo ensinado, ano após ano, nos cursos normais das Faculdades de Direito. E não transporemos os limites do campo científico de nossa competência.



Partimos de uma distinção necessária. Distinguimos entre o legal e o legítimo.



Toda lei é legal, obviamente. Mas nem toda lei é legítima. Sustentamos que só é legítima a lei provinda de fonte legítima.



Das leis, a fonte legítima primária é a comunidade a que as leis dizem respeito; é o Povo ao qual elas interessam - comunidade e Povo em cujo seio as ideias das leis germinam, como produtos naturais das exigências da vida.



Os dados sociais, as contingências históricas da coletividade, as contradições entre o dever teórico e o comportamento efetivo, a média das aspirações e das repulsas populares, os anseios dominantes do Povo, tudo isto, em conjunto, é que constitui o manancial de onde brotam normas espontâneas de convivência, originais intentos de ordenação, às vezes usos e costumes, que irão inspirar a obra do legislador.



Das forças mesológicas, dos fatores reais, imperantes na comunidade, é que emerge a alma dos mandamentos que o legislador, na forja parlamentar, modela em termos de leis legítimas.



A fonte legítima secundária das leis é o próprio legislador, ou o conjunto dos legisladores de que se compõem os órgãos legislativos do Estado. Mas o legislador e os órgãos legislativos somente são fontes legítimas das leis enquanto forem representantes autorizados da comunidade, vozes oficiais do Povo, que é a fonte primária das leis.



O único outorgante de poderes legislativos é o Povo. Somente o Povo tem competência para escolher seus representantes. Somente os Representantes do Povo são legisladores legítimos.



A escolha legítima dos legisladores só se pode fazer pelos processos fixados pelo Povo em sua Lei Magna, por ele também elaborada, e que é a Constituição.



Consideramos ilegítimas as leis não nascidas do seio da coletividade, não confeccionadas em conformidade com os processos prefixados pelos Representantes do Povo, mas baixadas de cima, como carga descida na ponta de um cabo.



Afirmamos, portanto, que há uma ordem jurídica legítima e uma ordem jurídica ilegítima. A ordem imposta, vinda de cima para baixo, é ordem ilegítima. Ela é ilegítima porque, antes de mais nada, ilegítima é a sua origem. Somente é legítima a ordem que nasce, que tem raízes, que brota da própria vida, no seio do Povo.



Imposta, a ordem é violência. Às vezes, em certos momentos de convulsão social, apresenta-se como remédio de urgência. Mas, em regra, é medicação que não pode ser usada por tempo dilatado, porque acaba acarretando males piores do que os causados pela doença.



2. A Ordem, o Poder e a Força



Estamos convictos de que há um senso leviano e um senso grave da ordem.



O senso leviano da ordem é o dos que se supõem imbuídos da ciência do bem e do mal, conhecedores predestinados do que deve e do que não deve ser feito, proprietários absolutos da verdade, ditadores soberanos do comportamento humano.



O senso grave da ordem é o dos que abraçam os projetos resultantes do entrechoque livre das opiniões, das lutas fecundas entre ideias e tendências, nas quais nenhuma autoridade se sobrepõe às Leis e ao Direito.



Ninguém se iluda. A ordem social justa não pode ser gerada pela pretensão de governantes prepotentes. A fonte genuína da ordem não é a Força, mas o Poder.



O Poder, a que nos referimos, não é o Poder da Força, mas um Poder de persuasão.



Sustentamos que o Poder Legítimo é o que se funda naquele senso grave da ordem, naqueles projetos de organização social, nascidos do embate das convicções e que passam a preponderar na coletividade e a ser aceitos pela consciência comum do Povo, como os melhores.



O Governo, com o senso grave da ordem, é um Governo cheio de Poder. Sua legitimidade reside no prestígio popular de quase todos os seus projetos. Sua autoridade se apoia no consenso da maioria.



Nisto é que está a razão da obediência voluntária do Povo aos Governos legítimos.



Denunciamos como ilegítimo todo Governo fundado na Força. Legítimo somente o é o Governo que for órgão do Poder.



Ilegítimo é o Governo cheio de Força e vazio de Poder.



A nós nos repugna a teoria de que o Poder não é mais do que a Força. Para nossa consciência jurídica, o Poder é produto do consenso popular e a Força um mero instrumento do Governo.



Não negamos a utilidade de tal instrumento. Mas o que afirmamos é que a Força é somente útil na qualidade de meio, para assegurar o respeito pela ordem jurídica vigente e não para subvertê-la ou para impor reformas na Constituição.



A Força é um meio de que se utiliza o Governo fiel aos projetos do Povo. Desgraçadamente, também a utiliza o Governo infiel. O Governo fiel a utiliza a serviço do Poder. O Governo infiel, a serviço do arbítrio.



Reconhecemos que o Chefe do Governo é o mais alto funcionário nos quadros administrativos da Nação. Mas negamos que ele seja o mais alto Poder de um País. Acima dele, reina o Poder de uma Ideia: reina o Poder das convicções que inspiram as linhas mestras da Política nacional. Reina o senso grave da Ordem, que se acha definido na Constituição.



3. A Soberania da Constituição



Proclamamos a soberania da Constituição.



Sustentamos que nenhum ato legislativo pode ser tido como lei superior à Constituição.



Uma lei só é válida se a sua elaboração obedeceu aos preceitos constitucionais, que regulam o processo legislativo. Ela só é válida se, em seu mérito, suas disposições não se opõem ao pensamento da Constituição.



Aliás, uma lei inconstitucional é lei precária e efêmera, porque só é lei enquanto sua inconstitucionalidade não for declarada pelo Poder Judiciário. Ela não é propriamente lei, mas apenas uma camuflagem da lei. No conflito entre ela e a Constituição, o que cumpre, propriamente, não é fazer prevalecer a Constituição, mas é dar pela nulidade da lei inconstitucional. Embora não seja razoável considerá-la inexistente, uma vez que a lei existe como objeto do julgamento que a declara inconstitucional, ela não tem, em verdade, a dignidade de uma verdadeira lei.



Queremos consignar aqui um simples mas fundamental princípio. Da conformidade de todas as leis com o espírito e a letra da Constituição dependem a unidade e coerência do sistema jurídico nacional.



Observamos que a Constituição também é uma lei. Mas é a Lei Magna. O que, antes de tudo, a distingue nitidamente das outras leis é que sua elaboração e seu mérito não se submetem a disposições de nenhuma lei superior a ela. Aliás, não podemos admitir como legítima lei nenhuma que lhe seja superior. Entretanto, sendo lei, a Constituição há de ter, também, sua fonte legítima.



Afirmamos que a fonte legítima da Constituição é o Povo.



4. O Poder Constituinte



Costuma-se dizer que a Constituição é obra do Poder. Sim, a Constituição é obra do Poder Constituinte. Mas o que se há de acrescentar, imediatamente, é que o Poder Constituinte pertence ao Povo, e ao Povo somente.



Ao Povo é que compete tomar a decisão política fundamental, que irá determinar os lineamentos da paisagem jurídica em que deseja viver.



Assim como a validade das leis depende de sua conformação com os preceitos da Constituição, a legitimidade da Constituição se avalia pela sua adequação às realidades socioculturais da comunidade para a qual ela é feita.



Disto é que decorre a competência da própria comunidade para decidir sobre o seu regime político; sobre a estrutura de seu Governo e os campos de competência dos órgãos principais de que o Governo se compõe; sobre os processos de designação de seus governantes e legisladores.



Disto, também, é que decorre a competência do Povo para fazer a Declaração dos Direitos Humanos fundamentais, assim como para instituir os meios que os assegurem.



Em consequência, sustentamos que somente o Povo, por meio de seus Representantes, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte , ou por meio de uma Revolução vitoriosa, tem competência para elaborar a Constituição; que somente o Povo tem competência para substituir a Constituição vigente por outra, nos casos em que isto se faz necessário.



Sustentamos, igualmente, que só o Povo, por meio de seus Representantes no Parlamento Nacional, tem competência para emendar a Constituição.



E sustentamos, ainda, que as emendas na Constituição não se podem fazer como se fazem as alterações na legislação ordinária. Na Constituição, as emendas somente se efetuam, quando apresentadas, processadas e aprovadas em conformidade com preceitos especiais, que a própria Constituição há de enunciar, preceitos estes que têm por fim conferir à Lei Magna do Povo uma estabilidade maior do que a das outras leis.



Declaramos ilegítima a Constituição outorgada por autoridade que não seja a Assembleia Nacional Constituinte, com a única exceção daquela que é imediatamente imposta por meio de uma Revolução vitoriosa, realizada com a direta participação do Povo.



Declaramos ilegítimas as emendas na Constituição que não forem feitas pelo Parlamento, com obediência, no encaminhamento, na sua votação e promulgação, a todas as formalidades do rito, que a própria Carta Magna prefixa, em disposições expressas.



Não nos podemos furtar ao dever de advertir que o exercício do Poder Constituinte, por autoridade que não seja o Povo, configura, em qualquer Estado democrático, a prática de usurpação de poder político.



Negamos peremptoriamente a possibilidade de coexistência, num mesmo País, de duas ordens constitucionais legítimas, embora diferentes uma da outra. Se uma ordem é legítima, por ser obra da Assembleia Constituinte do Povo, nenhuma outra ordem, provinda de outra autoridade, pode ser legítima.



Se, ao Poder Executivo fosse facultado reformar a Constituição, ou submetê-la a uma legislação discricionária, a Constituição perderia, precisamente, seu caráter constitucional e passaria a ser um farrapo de papel.



A um farrapo de papel se reduziria o documento solene, em que a Nação delimita a competência dos órgãos do Governo, para resguardar, zelosamente, de intromissões cerceadoras dos poderes públicos, o campo de atuação da liberdade humana.



5. O Estado de Direito e o Estado de Fato



Proclamamos que o Estado legítimo é o Estado de Direito, e que o Estado de Direito é o Estado Constitucional.



O Estado de Direito é o Estado que se submete ao princípio de que Governos e governantes devem obediência à Constituição.



Bem simples é este princípio, mas luminoso, porque se ergue, como barreira providencial, contra o arbítrio de vetustos e renitentes absolutismos. A ele as instituições políticas das Nações somente chegaram após um longo e acidentado percurso na História da Civilização. Sem exagero, pode dizer-se que a consagração desse princípio representa uma das mais altas conquistas da cultura, na área da Política e da Ciência do Estado.



O Estado de Direito se caracteriza por três notas essenciais, a saber: por ser obediente ao Direito; por ser guardião dos Direitos; e por ser aberto para as conquistas da cultura jurídica.



É obediente ao Direito, porque suas funções são as que a Constituição lhe atribui, e porque, ao exercê-las, o Governo não ultrapassa os limites de sua competência.



É guardião dos Direitos, porque o Estado de Direito é o Estado-Meio, organizado para servir o ser humano, ou seja, para assegurar o exercício das liberdades e dos direitos subjetivos das pessoas.



E é aberto para as conquistas da cultura jurídica, porque o Estado de Direito é uma democracia, caracterizado pelo regime de representação popular nos órgãos legislativos e, portanto, é um Estado sensível às necessidades de incorporar à legislação as normas tendentes a realizar o ideal de uma Justiça cada vez mais perfeita.



Os outros Estados, os Estados não constitucionais, são os Estados cujo Poder Executivo usurpa o Poder Constituinte. São os Estados cujos chefes tendem a se julgar onipotentes e oniscientes, e que acabam por não respeitar fronteiras para sua competência. São os Estados cujo Governo não tolera crítica e não permite contestação. São os Estados-Fim, com Governos obcecados por sua própria segurança, permanentemente preocupados com sua sobrevivência e continuidade. São Estados opressores, que muitas vezes se caracterizam por seus sistemas de repressão, erguidos contra as livres manifestações da cultura e contra o emprego normal dos meios de defesa dos direitos da personalidade.



Esses Estados se chamam Estados de Fato. Os otimistas lhes dão o nome de Estados de Exceção. Na verdade, são Estados Autoritários, que facilmente descambam para a Ditadura.



Ilegítimos, evidentemente, são tais Estados, porque seu Poder Executivo viola o princípio soberano da obediência dos Governos à Constituição e às leis.



Ilegítimos, em verdade, porque seus Governos não têm Poder, não têm o Poder Legítimo, que definimos no início desta Carta.



Destituídos de Poder Legítimo, os Estados de Fato duram enquanto puderem contar com o apoio de suas forças armadas.



Sustentamos que os Estados de Fato, ou Estados de Exceção, são sistemas subversivos, inimigos da ordem legítima, promotores da violência contra Direitos Subjetivos, porque são Estados contrários ao Estado Constitucional, que é o Estado de Direito, o Estado da Ordem Jurídica.



Nos países adiantados, em que a cultura política já organizou o Estado de Direito, a insólita implantação do Estado de Fato ou de Exceção - do Estado em que o Presidente da República volta a ser o monarca lege solutus - constitui um violento retrocesso no caminho da cultura.



Uma vez reimplantado o Estado de Fato, a Força torna a governar, destronando o Poder. Então, bens supremos do espírito humano, somente alcançados após árdua caminhada da inteligência, em séculos de História, são simplesmente ignorados. Os valores mais altos da Justiça, os direitos mais sagrados dos homens, os processos mais elementares de defesa do que é de cada um, são vilipendiados, ridicularizados e até ignorados, como se nunca tivessem existido.



O que os Estados de Fato, Estados Policiais, Estados de Exceção, Sistemas de Força apregoam é que há Direitos que devem ser suprimidos ou cerceados, para tornar possível a consecução dos ideais desses próprios Estados e Sistemas.



Por exemplo, em lugar dos Direitos Humanos, a que se refere a Declaração Universal das Nações Unidas, aprovada em 1948; em lugar do habeas corpus; em lugar do direito dos cidadãos de eleger seus governantes, esses Estados e Sistemas colocam, frequentemente, o que chamam de Segurança Nacional e Desenvolvimento Econômico.



Com as tenebrosas experiências dos Estados Totalitários europeus, nos quais o lema é, e sempre foi, Segurança e Desenvolvimento, aprendemos uma dura lição. Aprendemos que a Ditadura é o regime, por excelência, da Segurança Nacional e do Desenvolvimento Econômico. O Nazismo, por exemplo, tinha por meta o binômio Segurança e Desenvolvimento. Nele ainda se inspira a ditadura soviética.



Aprendemos definitivamente que, fora do Estado de Direito, o referido binômio pode não passar de uma cilada. Fora do Estado de Direito, a Segurança, com seus órgãos de terror, é o caminho da tortura e do aviltamento humano; e o Desenvolvimento, com o malabarismo de seus cálculos, a preparação para o descalabro econômico, para a miséria e a ruína.



Não nos deixaremos seduzir pelo canto das sereias de quaisquer Estados de Fato, que apregoam a necessidade de Segurança e Desenvolvimento, com o objetivo de conferir legitimidade a seus atos de Força, violadores frequentes da Ordem Constitucional.



Afirmamos que o binômio Segurança e Desenvolvimento não tem o condão de transformar uma Ditadura numa Democracia, um Estado de Fato num Estado de Direito.



Declaramos falsa a vulgar afirmação de que o Estado de Direito e a Democracia são “a sobremesa do desenvolvimento econômico”. O que temos verificado, com frequência, é que desenvolvimentos econômicos se fazem nas mais hediondas ditaduras.



Nenhum País deve esperar por seu desenvolvimento econômico, para depois implantar o Estado de Direito. Advertimos que os Sistemas, nos Estados de Fato, ficarão permanentemente à espera de um maior desenvolvimento econômico, para nunca implantar o Estado de Direito.



Proclamamos que o Estado de Direito é sempre primeiro, porque primeiro estão os direitos e a segurança da pessoa humana. Nenhuma ideia de Segurança Nacional e de Desenvolvimento Econômico prepondera sobre a ideia de que o Estado existe para servir o homem.



Estamos convictos de que a segurança dos direitos da pessoa humana é a primeira providência para garantir o verdadeiro desenvolvimento de uma Nação.



Nós queremos segurança e desenvolvimento. Mas queremos segurança e desenvolvimento dentro do Estado de Direito.



Em meio da treva cultural dos Estados de Fato, a chama acesa da consciência jurídica não cessa de reconhecer que não existem, para Estado nenhum, ideais mais altos do que os da Liberdade e da Justiça.



6. A Sociedade Civil e o Governo



O que dá sentido ao desenvolvimento nacional, o que confere legitimidade às reformas sociais, o que dá autenticidade às renovações do Direito, são as livres manifestações do Povo, em seus órgãos de classe, nos diversos ambientes da vida.



Quem deve propulsionar o desenvolvimento é o Povo organizado, mas livre, porque ele é que tem competência, mais do que ninguém, para defender seus interesses e seus direitos.



Sustentamos que uma Nação desenvolvida é uma Nação que pode manifestar e fazer sentir a sua vontade. É uma Nação com organização popular, com sindicatos autônomos, com centros de debate, com partidos autênticos, com veículos de livre informação. É uma Nação em que o Povo escolhe seus dirigentes, e tem meios de introduzir sua vontade nas deliberações governamentais. É uma Nação em que se acham abertos os amplos e francos canais de comunicação entre a Sociedade Civil e o Governo.



Nos Estados de Fato, esses canais são cortados. Os Governos se encerram em Sistemas fechados, nos quais se instalam os “donos do Poder”. Esses “donos do Poder” não são, em verdade, donos do Poder Legítimo: são donos da Força. O que chamam de Poder não é o Poder oriundo do Povo.



A órbita da política não vai além da área palaciana, reduto aureolado de mistério, hermeticamente trancado para a Sociedade Civil.



Nos Estados de Fato, a Sociedade Civil é banida da vida política da Nação. Pelos chefes do Sistema, a Sociedade Civil é tratada como um confuso conglomerado de ineptos, sem discernimento e sem critério, aventureiros e aproveitadores, incapazes para a vida pública, destituídos de senso moral e de idealismo cívico. Uma multidão de ovelhas negras, que precisa ser continuamente contida e sempre tangida pela inteligência soberana do sábio tutor da Nação.



Nesses Estados, o Poder Executivo, por meio de atos arbitrários, declara a incapacidade da Sociedade Civil, e decreta a sua interdição.



Proclamamos a ilegitimidade de todo sistema político em que fendas ou abismos se abrem entre a Sociedade Civil e o Governo.



Chamamos de Ditadura o regime em que o Governo está separado da Sociedade Civil. Ditadura é o regime em que a Sociedade Civil não elege seus Governantes e não participa do Governo. Ditadura é o regime em que o Governo governa sem o Povo. Ditadura é o regime em que o Poder não vem do Povo. Ditadura é o regime que castiga seus adversários e proíbe a contestação das razões em que ela se procura fundar.



Ditadura é o regime que governa para nós, mas sem nós.



Como cultores da Ciência do Direito e do Estado, nós nos recusamos, de uma vez por todas, a aceitar a falsificação dos conceitos. Para nós a Ditadura se chama Ditadura, e a Democracia se chama Democracia.



Os governantes que dão o nome de Democracia à Ditadura nunca nos enganaram e não nos enganarão. Nós saberemos que eles estarão atirando, sobre os ombros do povo, um manto de irrisão.



7. Os Valores Soberanos do Homem, Dentro do Estado de Direito



Neste preciso momento histórico, reassume extraordinária importância a verificação de um fato cósmico. Até o advento do Homem no Universo, a evolução era simples mudança na organização física dos seres. Com o surgimento do Homem, a evolução passou a ser, também, um movimento da consciência.



Seja-nos permitido insistir num truísmo: a evolução do homem é a evolução de sua consciência; e a evolução da consciência é a evolução da cultura.



A nossa tese é a de que o homem se aperfeiçoa à medida que incorpora valores morais ao seu patrimônio espiritual. Sustentamos que os Estados somente progridem, somente se aprimoram, quando tendem a satisfazer ansiedades do coração humano, assegurando a fruição de valores espirituais, de que a importância da vida individual depende.



Sustentamos que um Estado será tanto mais evoluído quanto mais a ordem reinante consagre e garanta o direito dos cidadãos de serem regidos por uma Constituição soberana, elaborada livremente pelos Representantes do Povo, numa Assembleia Nacional Constituinte; o direito de não ver ninguém jamais submetido a disposições de atos legislativos do Poder Executivo, contrários aos preceitos e ao espírito dessa Constituição; o direito de ter um Governo em que o Poder Legislativo e o Poder Judiciário possam cumprir sua missão com independência, sem medo de represálias e castigos do Poder Executivo; o direito de ter um Poder Executivo limitado pelas normas da Constituição soberana, elaborada pela Assembleia Nacional Constituinte; o direito de escolher, em pleitos democráticos, seus governantes e legisladores; o direito de ser eleito governante ou legislador, e o de ocupar cargos na administração pública; o direito de se fazer ouvir pelos Poderes Públicos, e de introduzir seu pensamento nas decisões do Governo; o direito à liberdade justa, que é o direito de fazer ou de não fazer o que a lei não proíbe; o direito à igualdade perante a lei que é o direito de cada um de receber o que a cada um pertence; o direito à intimidade e à inviolabilidade do domicílio; o direito à propriedade e o de conservá-la; o direito de organizar livremente sindicatos de trabalhadores, para que estes possam lutar em defesa de seus interesses; o direito à presunção de inocência, dos que não forem declarados culpados, em processo regular; o direito de imediata e ampla defesa dos que forem acusados de ter praticado ato ilícito; o direito de não ser preso, fora dos casos previstos em lei; o direito de não ser mantido preso, em regime de incomunicabilidade, fora dos casos da lei; o direito de não ser condenado a nenhuma pena que a lei não haja cominado antes do delito; o direito de nunca ser submetido à tortura, nem a tratamento desumano ou degradante; o direito de pedir a manifestação do Poder Judiciário, sempre que houver interesse legítimo de alguém; o direito irrestrito de impetrar habeas corpus; o direito de ter Juízes e Tribunais independentes, com prerrogativas que os tornem refratários a injunções de qualquer ordem; o direito de ter uma imprensa livre; o direito de fruir das obras de arte e cultura, sem cortes ou restrições; o direito de exprimir o pensamento, sem qualquer censura, ressalvadas as penas legalmente previstas, para os crimes de calúnia, difamação e injúria; o direito de resposta; o direito de reunião e associação.



Tais direitos são valores soberanos. São ideais que inspiram as ordenações jurídicas das nações verdadeiramente civilizadas. São princípios informadores do Estado de Direito.



Fiquemos apenas com o essencial.



O que queremos é ordem. Somos contrários a qualquer tipo de subversão. Mas a ordem que queremos é a ordem do Estado de Direito.



A consciência jurídica do Brasil quer uma cousa só: o Estado de Direito, já.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

LA PLUIE ET LES TYRANS / A CHUVA E OS TIRANOS, de Jules Supervielle









Je vois tomber la pluie

Dont les flaques font luire

Notre grave planète,

La pluie qui tombe nette

Comme du temps d'Homère

Et du temps de Villon

Sur l'enfant et sa mère

Et le dos des moutons,

La pluie qui se répète

Mais ne peut attendrir

La dureté de tête

Ni le cœur des tyrans

Ni les favoriser

D'un juste étonnement,

Une petite pluie

Qui tombe sur l'Europe

Mettant tous les vivants

Dans la même enveloppe

Malgré l’infanterie

Qui charge ses fusils

Et malgré les journaux

Qui nous font des signaux,

Une petite pluie

Qui mouille les drapeaux.





Tradução de Fabio Malavoglia:





Tombar a chuva eu vejo

Nas poças como lampejos

De nosso grave planeta,

Chuva que tomba ereta

Desde Villon e até antes

E sobre Homero primeiro,

Sobre o filho e a gestante

E no dorso dos carneiros,

A chuva que se repete

No entanto não enternece

Nem o duro capacete

Nem o peito dos tiranos

Nem pode lhes dar o favor

De um real e justo espanto,

Quando a chuva pequenina

Enfim a Europa ensope

E a todos os vivos enquanto

Isso no mesmo envelope

Ponha apesar dos soldados

Que atacam com seus fuzis

E apesar desses jornais

Que acenam com seus sinais,

Pequena chuva que molha

Bandeiras sobre quintais.





(Ilustração: Jane Gillespie - Paris Sous La Pluie,Paris in the rain)




quarta-feira, 2 de agosto de 2017

500 ANOS DE ILUSÃO, de José Murilo de Carvalho





Há cem anos, por ocasião do quarto centenário da chegada dos conquistadores portugueses a Pindorama, o conde de Afonso Celso publicou o "Por Que me Ufano de Meu País". O livro, dedicado aos filhos, visava a despertar neles e, por extensão, em toda a juventude brasileira, um ilimitado amor à pátria. O lema "right or wrong, my country", em inglês mesmo, foi colocado na primeira página, logo abaixo do título. Êxito editorial, o livro e, mais especificamente, a palavra ufanismo passaram a denotar o patriotismo acrítico, ingênuo, incondicional.

Por que deveriam os brasileiros ufanar-se de seu país? O conde apresentou 11 motivos para a superioridade de nosso país em relação aos outros. Os cinco primeiros retomavam a tradição edênica inaugurada por Pedro Álvares Cabral, continuada pelo autor dos "Diálogos das Grandezas do Brasil" e mantida até hoje: a grandeza territorial, a beleza da terra (a cachoeira de Paulo Afonso, o Amazonas, a baía do Rio de Janeiro, a floresta virgem), as riquezas naturais, a amenidade do clima e a ausência de calamidades naturais.

Os outros tinham a ver com o caráter do povo (bom, pacífico, caridoso, ordeiro, sensível, sem preconceitos), as relações cavalheirescas e generosas com os outros países e a história do país. O brasileiro, segundo o conde, devia ufanar-se por morar em um país privilegiado, dom da providência, superior a todos os outros. O que ainda não tínhamos, poderíamos conquistar, transformando-nos eventualmente na primeira potência do orbe.

Cem anos depois do livro do conde, às vésperas do quinto centenário do evento que entre nós muitos ainda chamam de descoberta, já pululam os novos ufanistas, oficiais ou semioficiais, ingênuos ou espertos, beneficiados todos pela eficiência dos modernos meios de comunicação. A onda do oba-oba ufano-turístico só fará aumentar nos próximos meses. Convém, por isso, retomar os motivos de ufanismo do conde e examinar sua pertinência cem anos depois.

Alguns deles continham inverdades, como a afirmação de termos sido o primeiro país autônomo da América Latina ou de nunca termos sido derrotados (o conde esqueceu-se da derrota de Ituzaingó, que acabou com a pretensão de incorporar o Uruguai a nosso território). Outros continham tolices, como dizer que desfrutávamos liberdades desconhecidas em outras nações (não fosse o conde muito católico, poder-se-ia talvez pensar que se referia à liberdade de pecar). Ou afirmar que os ex-escravos se incorporaram à população em perfeito pé de igualdade.

Quanto a considerar a natureza como motivo de orgulho, poderíamos responder com Machado de Assis que ela não é obra nossa e que, portanto, não nos cabe dela nos orgulharmos. Mas temos que acrescentar que, se não fizemos a natureza, muito a desfizemos.

Nossa grandeza física continua intacta, apesar do receio de alguns do que chamam de cobiça internacional sobre a Amazônia. Também ainda não temos terremotos, vulcões e furacões. Mas as belezas naturais, o paraíso em que Deus nos colocou, já foram quase todas destruídas: as florestas foram e continuam a ser queimadas, as praias, as baías (a da Guanabara à frente), as suaves brisas e os céus foram poluídos. Só mesmo os milagreiros autores do hino encomendado pelo ministro do Esporte e Turismo para o quinto centenário conseguem beber água fresca nas cacimbas do sertão.

As riquezas naturais, por sua vez, foram vítimas de predação incansável e ininterrupta.

A bondade, caridade e doçura de nosso caráter não impediram que construíssemos uma das sociedades mais desiguais e injustas do globo, na qual os descendentes dos escravos, contradizendo a afirmação do conde sobre as condições de igualdade de sua incorporação, são discriminados e ocupam os estratos mais baixos da hierarquia social. Não impediram também que nos tornássemos campeões de violência na casa e na rua, que os massacres se generalizassem nas grandes cidades, que a tortura -depois de ser rotina no tratamento de escravos- se integrasse à prática policial e, por 20 anos, tivesse a cobertura das próprias Forças Armadas.

Primeira potência do orbe? Talvez no futebol e no Carnaval. Mas é preciso perguntar se um gol de Pelé ou uma Copa do Mundo valem a Copa que também ganhamos da desigualdade social e da pobreza; se um carnaval de Joãosinho Trinta ou um desfile da Mangueira valem os 15% de brasileiros analfabetos, os 35% com menos de quatro anos de educação, os 36% infectados por parasitas. Nossa história nos últimos cem anos? Deles, 41 foram de governo oligárquico sem participação popular. Mais 15 foram de ditadura civil. Outros 21 de ditadura militar. Sobram apenas 23 de democracia assustada e tímida, que tem sido muito lenta e pouco eficaz na solução do problema da desigualdade.

Ao final do quinto século, é preciso admitir que nossos melhores sonhos têm sido sistematicamente frustrados por nossa incapacidade de torná-los realidade. A retórica do ufanismo só serve para encobrir nossa frustração como povo e como nação.

Povo e nação que, como disse Renan, só existem devido à realização de grandes obras comuns no passado e da vontade de fazer outras tantas no presente.

Os brasileiros que julgam não ser este o país de seus sonhos, que acham não haver nada a celebrar no quinto centenário, enfrentarão a agitação ruidosa do oba-oba ufanista e aproveitarão a data para uma profunda autocrítica e para a busca de novos rumos que nos deem no futuro melhores razões para nos orgulharmos de nós mesmos. Nesse distante futuro talvez deixemos de ser o país do futuro que hoje desapontaria Stefan Zweig.



(Folha ONLINE, 8/8/1999)



Ilustração: Tarsila do Amaral - paisagem com touro)