sábado, 30 de dezembro de 2017

O MILAGRE DA TÉCNICA, de Hermann Hesse






Nosso amigo Olavo é um sujeito bom, mas um pouco esquisito, que já nos causou muita preocupação. Uma de suas muitas singularidades é uma repulsa fantasticamente exagerada contra pequenas descobertas e resultados práticos da técnica moderna. Fica doido quando vê um isqueiro niquelado, e considera invenções de Satã aqueles pequenos milagres da técnica, como lanternas elétricas em miniatura. Essa repulsa esteve sempre na sua personalidade, fundada na sua maneira de pensar, mas só se manifestou plenamente há pouco tempo, sob a pressão de várias experiências, uma das quais me interessa especialmente, pois, ainda que inocente, participei dela. Vou poupar-me de introduções e, sem qualquer comentário, relato a triste história, assim como Olavo descreveu numa longa carta de Rapallo.


Rapallo, 15 de março

Pois ainda estou vivo, e quero contar-te resumidamente o que me aconteceu nesta viagem. No começo estive muito decepcionado e desconsolado com ela, mas agora as coisas piores se acamaram, e em caso de necessidade posso pensar em toda essa história sem bater a cabeça nas paredes. Começo até a aprender, com meu triste destino.

Quanto às viagens em si, nunca tive muita sorte. Já quando jovem, quando ainda lia Schopenhauer, anotei na minha agenda de viagens as seguintes sentenças:

1) Procura evitar qualquer viagem, mesmo a mais curta!

2) Aquele jornalista que pela primeira vez introduziu o nosso lamentável idioma a expressão “viagem de diversão”, deve ter sido louco. Viajar e divertir-se são conceitos que se excluem totalmente.

3) Nunca te apaixones, muito menos em viagens!

Agora estou em condições de acrescentar a essas recomendações algumas novas, nascidas de recentes experiências. Não te contarei todas elas, mas uma diz: “Protege-te de todos os aparelhos, máquinas e objetos de uso que foram criados por inventores, são recomendados por vendedores, e patenteados pelo Ministério de Patentes, imperial, real ou republicano!” Confesso que com isso, infelizmente, também devo pensar na caneta automática que me deste de presente antes da viagem. Foi bondade tua, e tuas intenções podem ter sido as mais nobres, mas devo dizer-te: amaldiçoei com terríveis palavras tua caneta e a ti. Espero que continues com saúde.

Mas agora basta, quero contar o que houve.

Já sabes mais ou menos por que iniciei aquela maldita viagem. Posso agora confessar, calmamente, foi por causa da Meta Hagemann. Vocês tentaram estragar a coisa com bons conselhos dizendo que a bela moça era uma perigosa flertadora. Bem, soubera que que seus pais queriam viajar com ela para Rapallo, e também sabia em que trem. Preparei minha viagem, comprei um terno novo e um novo chapéu, passei adiante minha motocicleta e preparei-me como pude. Como sabes, tenho um fabuloso respeito por aqueles jovens invejáveis que andam sempre tão elegantes e impecáveis, e fiz novas tentativas nessa direção. Bem, sabia que podia fazer o que quisesse, que comigo sempre alguma coisa havia de dar errado e falhar. Mas, dessa vez, desafiei meu destino. Quando, pouco antes da viagem, ao fazer a barba, me cortei, ocorreu-me que eu deveria possuir um aparelho mais moderno. Comprei um, da marca Siegfried. Era um aparelho misterioso, prateado, num fino estojo de couro preto. No estoja havia a imagem dum homem jovem e elegante, exatamente como eu sonhava ser; esse jovem estava num automóvel em movimento, e barbeava-se com sorriso frio. Embaixo estavam impressas em ouro as seguintes palavras: “Nós alemães tememos a Deus, e a nada mais neste mundo”. Aí, ocorreu-me que esses jovens elegantes sempre têm na boca, ou na mão, um cachimbo inglês de cano curto. Eu sabia que gosto horrível o fumo tem nessas coisas, e que só ingleses e americanos são capazes de aguentá-lo, mas estava disposto a me sacrificar. Comprei um ousado cachimbo, tão curto que a fumaça penetrava diretamente nos meus olhos. Na mesma loja deixei-me atrair por um cortador mecânico de charutos, patente do Reich alemão. Eu também possuía um gorro de seda para viagens, tinha corrente de outro no relógio, e para ocasiões especialmente festivas levava comigo meu distintivo do clube de esqui de Verarlberg.

Assim, apareci na estação. Odeio aquela pressa nojenta que domina a maioria das pessoas antes da partida, por isso comprara a passagem no dia anterior. A carruagem encomendada chegou pontualmente, o carregador botou minha mala no ombro e saiu com ela, mas eu – havia ainda vinte minutos de tempo – tomei calmamente uma xícara de café no restaurante. Quando o trem chegou, fui até lá, lento e indiferente. A mala estava guardada, não havia nada a carregar senão bengala e o guarda-chuva, e podia procurar com calma o melhor lugar no trem. Quase me sentia como um boa-vida. Nisso chegou o condutor, e eu estava sem passagem! Assustei-me, então toda a minha previdência fora em vão, essa viagem começava também com uma calamidade! Nada continham, nem o bolso do casaco, do colete nem das calças. Por fim, pensei que deixara a passagem na mala. Mas esta há muito estava no trem. Demorou um terrível quarto de hora até recebe-la de novo. O funcionário contemplava com infinito desprezo o meu nervosismo crescente. O carregador, que tivera de buscar de novo minha mala, deu-me, com aplauso dos que nos rodeavam, o conselho de levar minha mãezinha comigo, caso viajasse de novo.

Enquanto eu abria a pobre mala no chão de cimento sujo, diante de toda aquela gente, enquanto remexia roupa e pantufas, livros e escova de cabelo, para achar a passagem, enquanto o suor me escorria do rosto e os visitantes mie rodeavam com irônico interesse, chegou a família Hagemann, e percebi as mulheres rindo. Mas ainda assim esperava não ter sido reconhecido. Entre minhas mãos, que remexiam desesperadas, apareceu o estojo de barbear, que caiu da bolsa, rolando pela plataforma.

- Olha aí, marca Siegfried! – exclamou um caixeiro viajante, e todos riram.

No último instante ainda consegui entrar no trem com minha mala. Coberto de suor, exausto, arrastei aquele peso pelo corredor, abri a primeira porta de cabine, e forcei a mala à minha frente, entre as pernas dos passageiros. Com minhas últimas forças tentei colocar a mala no bagageiro, num desesperado impulso, mas meu movimento foi curto demais, e a mala bateu no peito dum senhor, que caiu para trás, apavorado. Por instante, julguei-o morto. Mas ele se ergueu logo, berrando comigo, indignado. Eu o reconheci, era o senhor Hagemann. Não era nada agradável, mas enfim, a gente se conhecia e se desculpou, e furiosos fizemos as pazes. Depois saudei as damas, e só então percebi como parecia desmazelado com meu chapéu amassado, meu rosto suado, meus punhos descolados e a calças sujas de ajoelhar-me na gare. Pois as damas me receberam frias e distantes.

Como o senhor Hagemann acendesse um charuto, pedi permissão para fumar. Tirei meu novo cachimbo esportivo, e o tabaco e enchi-o cuidadosamente. O brilhante cachimbo, como como todo o aparato de enchê-lo, e acendê-lo, interessou à senhorita. Mas o cachimbo não puxava, cheirava horrivelmente, e quando, depois de desgastar toda a força dos meus pulmões e incontáveis fósforos, ele ainda não acendesse, soprei desesperado. Todo o conteúdo do tabaco, cinza, fuligem e fogo espalhou-se pelos ares, enchendo a cabine com uma infernal chuva de cinzas. Por essa cortina acinzentada ainda pude ver a senhora Hagemann esfregando desesperada os olhos, seu marido lutando com um acesso de tosse, enquanto a filha tentava afastar com os dedos alguns restos de tabaco em fogo, que tinham caído sobre seus sapatos de tecido cor de creme. Gaguejei uma palavra de desculpa, e fugi para o corredor, amaldiçoando a mim, ao cachimbo e à viagem.

Foi esse o começo da minha viagem italiana. Através de longa experiência conheço as armadilhas e obstinação com que nesses dias o destino persegue suas vítimas, e decidi resignar-me por aquele dia. Estou absolutamente convencido: tivesse voltado à minha cabine, outras desgraças teriam acontecido, uma após as outras e eu teria me prejudicado para sempre com a família. Teria pisado nos pés da mãe e furado o olho da filha com meu cotovelo, e ao pai, em vez de conhaque, teria oferecido meu frasco com a loção de barba. Ou, tentando abrir a janela para as damas, teria puxado o alarme de emergência, causado um escândalo, teria lançado a mim e à inocente família em opróbrio, perigo e infinito embaraço. Conheço tudo isso.

Por isso enfiei-me quieto num corredor lateral, depois numa outra cabine, onde passei, triste e sozinho, as 12 horas até Milão, entre comerciantes que jogavam cartas, mas ali não causei nenhuma desgraça. Joguei pela janela o cachimbo inglês junto com o tabaco. Só na alfândega revi os Hagemann, por um momento. Os velhos me ignoraram, e ainda pareciam furiosos, mas mocinha me presentou um olhar compassivo, sorrindo com simpatia, ao ver minha tristeza e contrição. Afinal eu dançara com ela algumas vezes, e recebera dela muitos pequenos sinais de simpatia. Colocara toda a minha esperança em Rapallo. Meu azar teria de ter um fim.

Mas não pensei que levava comigo na mala um instrumento do diabo. Por sorte o cachimbo inglês se fora, mas devia ter logo jogado fora também o aparelho de barba, o cortador de charutos e a caneta-tinteiro. Mas tudo aconteceu como tinha de acontecer.

Em Rapallo, pedi um quarto e desfiz a mal. Na primeira manhã quis usar o aparelho Sigfried, inaugurar o terno e chapéu novos, e assegurar uma estreia decente. Mas, ou porque o aparelho estava mal montado, ou por ter sofrido com a queda da mala, minha tentativa com o Siegfried não deu certo. Li ainda uma vez a inscrição: “Nós alemães tememos a Deus” etc. Depois comecei a agir. Foi uma terrível catástrofe. Sangrando de cima abaixo, cortado e esfolado, fitava-me meu rosto no desbotado espelho do hotel. Com dores, tive que permanecer no quarto alguns dias. Depois, deformado e desanimado, reapareci pela noite, dando meu primeiro passeio, ainda com alguns esparadrapos no rosto.

Mas eis que chegou a boa sorte. Na praia encontrei o senhor Hagemann com sua filha sem a mãe. Embevecidos com a paisagem tão bonita, estavam tão contentes e bem-dispostos, que me saudaram com a maior amabilidade. A senhorita Meta nunca fora tão gentil comigo. Obviamente sentia, por instinto, que eu estava em Rapallo só por causa dela, e veio tão abertamente ao encontro do meu silencioso cortejar, que imediatamente esqueci todas as desgraças.

Foi um anoitecer lindo, eles queriam sair de barco para o mar. Como eu soubesse italiano, aceitaram gratos minha ajuda, convidando-me para acompanha-los. Tratei tudo com o barqueiro, dei-lhe às escondidas seis francos, mentido ao encantado senhor Hagemann que barganhara até chegar a dois francos. Tornara-me quase um herói, e de qualquer modo era considerado amigo da família.

Mas devo mencionar uma pequena perturbação dessa felicidade. Enquanto passeávamos de barco sobre as águas azuis, o pai de Meta se preparara para um prazer todo especial. Conforme me contou em muitos detalhes, contrabandeara pela fronteira finos charutos importados, e guardara o último para aquela hora. Mas esquecera o canivete, e não podia cortar a ponta do charuto e isso o aborrecia. Entusiasmado, tirei do bolso o meu cortador de charutos patenteado, oferecendo-o ao senhor Hagemann. Ele contemplou o moderno instrumento, expressando desconfiança, mas depois pediu que eu lhe cortasse o charuto. Lembrava-me exatamente das instruções, e metendo a ponta do charuto no pequeno orifício, segurei-o e lancei sobre Hagemann um olhar triunfante, enquanto este olhava em expectativa. Despois, exatamente segundo as instruções, apertei a mola, rapidamente. O resultado foi horrível. O belo charuto rachou ao meio em todo o comprimento, ficando estragado, enquanto o meu indicador, prensado no aparelho, inchava, todo azul, com violentas dores.

Devo dizer que meu amigo se portou de modo brilhante. Naturalmente, ficou furioso, mas dominou-se e conseguiu esboçar um sorriso azedo, enquanto Meta ecoava uma clara gargalhada. Mordi os dentes, disfarçando a dor, que só me teria envergonhado ainda mais, e o passeio prosseguiu. O sol mergulhava no mar, tudo estava violeta e ouro, e por trás das costas do pai subitamente a mão de Meta colocara-se sobre a minha. Por mim, naquela hora, o mundo todo poderia acabar, tão feliz eu estava. Começava a escurecer, eu segurava a mão de Meta e brincava com seus dedos, e quando o senhor Hagemann disse que ele mesmo queria remar um pouco, ajudei-o a passar para o banco do remador, instruindo o barqueiro com o meu melhor italiano. Agora eu estava bem junto de Meta, seu vestido branco rebrilhava fosco no azul-escuro, e quando coloquei o casaco nos seus ombros, beijei-lhe rápida e secretamente os cabelos.

O velho sentava-se à nossa frente, na penumbra, e tínhamos de ter cuidado. No começo fiquei rígido e longe da moça, com as mãos nos bolsos do casaco, onde por nervosismo brinquei com o porta-moedas, a caixa de fósforos e depois com um pauzinho arredondado, que entrou nos meus dedos e parecia ser um lápis.

Mas quando escureceu, e infelizmente, já nos aproximávamos de novo da terra, não pude me conter mais. Tirei as mãos dos bolsos, fiz de conta que queria ajeitar meu colarinho, depondo suavemente, por trás, o braço direito em volta da cintura de Meta. Assim seguimos, felizes, sentindo-nos no paraíso, mas a praia iluminada se aproximava cada vez mais, finalmente tivemos de nos levantar e desembarcar. Ajudei a moça a passar sobre os bancos e a pequena ponte até à terra, o velho pagou ao barqueiro suas duas liras, e eu fiquei junto dos dois Hagemanns, para acompanha-los até seu hotel.

Passávamos por uma vitrina bem iluminada quando um senhor, saindo da loja, parou fitando Meta, depois a mim, depois de novo a moça. Ela percebera tudo, ficou inquieta, e olhou para si mesma. Por um momento parou, empalidecendo, depois num louco nervosismo fechou mais seu casaco, lançou-me do belo rosto branco um olhar cheio de raiva e mortal desprezo, e começou a correr, a correr o mais que podia. O pai, pensando que ela estava doente, seguiu-a destemperado com o olhar, e começou a trotar também. Fiquei atrás, perplexo e paralisado. O que acontecera agora?

Nisso aproximou-se o senhor que tanto assustara Meta, e apontou com discreto sorriso para a minha mão direita. Meu Deus, ela estava preta como a noite. Primeiro pensei nalgum terrível castigo de Deus, até que devagar entendi todo o triste acontecimento. A coisa com que eu brincara, em nervosa distração, no meu bolso, fora a tua caneta-tinteiro, que vasara, enchendo minha mão e punho de uma indestrutível tinta azul-escuro. Essa minha mão com tinta eu pusera na cintura de Meta, onde ficara, eternizado preto no branco, cada delicado aperto dos meus dedos!

Tombei junto da primeira mesinha de mármore, mandei trazer um vermute, depois outro, voltei à praia dos barcos, olhei longa e iradamente o mar escuro. Depois pesquei a caneta que pingava do bolso molhado, jogando-a nas ondas. Teria gostado de estar junto dela, pois teria me sentido melhor.

A família Hagemann viajou, e eu, há muito, não estaria mais aqui, mas ainda não tive coragem de me confiar de novo a um trem.


(por volta de 1908)



(Vivências; tradução de Lya Luft)



(Ilustração: James Tissot, Jeune fille dans une barque)





quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

AFTER “LES FLEURS”* / DEPOIS DE “LES FLEURS”, de Anne Waldman








Paul Éluard


I am 20 years old and holding on

Knowing I’m still young, I love you world

I am not 20 years old. My past is deaf, deaf

I dream a life of crystals and lie down in the grass

You think I’m crying; I don’t

Don’t hurt me — let me be



My eyes a strength the color of my wounds,

Love, what is the sun when it rains?

I tell you there are things as true as this story

When I close my eyes I kill you.





Tradução de André Caramuru Aubert:






Paul Éluard


Eu tenho 20 anos e vou levando

Sabendo que ainda sou jovem, eu te amo, mundo

Eu não tenho 20 anos. Meu passado é surdo, surdo

Eu sonho com uma vida de cristais e me deito na grama

Você pensa que eu estou chorando; eu não estou

Não me machuque — deixe-me ser


Meus olhos uma força da cor de minhas feridas,

Amor, o que é o sol quando chove?

Eu te digo que há coisas tão verdadeiras quanto esta história

Quando eu fecho os meus olhos eu te mato.




(*) Inspirado no poema do surrealista francês Paul Éluard (1895-1952), cujos últimos versos são: “Eu te asseguro que há coisas tão claras quanto esta história de amor; se eu morrer,/eu não mais saberei quem é você.”



(Ilustração: Tamara de Lempicka)









domingo, 24 de dezembro de 2017

VIVER OUTRA VEZ – Márcio Barbosa








Com o solzinho da tarde, ela entrou no apartamento. Sábado.

– A entrevista, lembra?

Olhou as roupas espalhadas, móveis empoeirados e ele desculpou-se:

– Poucos vêm aqui. Achava que minha próxima visita seria a morte.

Observou-a. Pequena, inquieta, mãozinhas curiosas nos discos e livros. Depois, pernas cruzadas – gravador ligado – murmurou, voz rouca:

– O terreiro do bairro quer fazer um trabalho sobre memória.

Ele, aborrecido, negou depoimento. Tentava esquecer o passado – fantasma que se escondia sob a cama.

– O senhor ajudou a fundar associações, a desmascarar a ideologia da falsa democracia racial – ela insistiu.

Um dia fora professor. Mas ela não sabia que agora não era mais nada? Que, há algum tempo, o coração vinha ameaçando parar?

– Minha filha, esqueça-se de mim.

Com o esforço de levantar-se arregalou os olhos. Ela assustou-se:

– Que foi?

– Tonturas, já passa.

Caiu, sem dizer mais nada.

Apavorada, ela procurou vizinhos. Um taxista veio. Gordo, dirigia com a barriga encostada ao volante. No pronto-socorro lotado, brigaram para serem atendidos. Um jovem médico os recebeu, perguntando:

– Seu pai? É só pressão um pouco alta. Vocês da raça negra são muito sujeitos a ter hipertensão.

Receitou maleato de enalapril e mandou-os embora. Na volta, no táxi, ela ouviu-o, voz trêmula de velho, sussurrar “obrigado”.

– Por fazer o senhor ficar nervoso – sorriu -, ir para o hospital?

– Por se preocupar comigo. Sabe, já estou no fim…

Ele olhou pela janela do carro. Viu crianças sem camisas jogando futebol nas ruas.

– Só não pensei – continuou – que fosse terminar viúvo, sem filhos, aqui, neste bairro, que é quase outra cidade. Quem povoou Perdizes, Bela Vista? A negrada. Minha família sempre morou lá.

– Nasci aqui – ela afirmou. – É legal. Um pouco perigoso, ultimamente. Uns amigos morrendo por causa de drogas. Dezesseis, dezessete anos. Não lhe parece que existe um plano para exterminar nosso povo?

O que o tocou, quando ela ergueu o rosto e fitou-o? Os olhos úmidos? Quase menina, tão preocupada com sua gente. Queria dizer-lhe para não se iludir, mas a frase ficou presa dentro do peito, mesmo quando ela voltou outras vezes, depois do trabalho, para ver como estava. Um dia chegou, tirou o walk-man, passou os dedos nos móveis e exclamou:

– Tem tanto pó!

– Foi acumulando com as decepções – ele brincou.

No dia seguinte, de bermudas, coxas roliças à mostra, ela espanou, varreu. Não podia ver nada envelhecer? Pensava, com a alegria de menina, em remoçá-lo? Num domingo, chegou com discos:

– Racionais, conhece? Bom pra caramba.

Ouviu e gostou. Parecia escutar a si mesmo nos versos dos raps, rapaz crescendo revoltado nos cortiços do Bixiga. Mas o que a moça queria, enchendo o lugar com música, verificando se comia direito, arrumando as camisas no guarda-roupa?

– Vê-lo recuperar-se – ela dizia. – Já está mais moço.

Acreditava no poder de cura de mãos movidas por carinho. Deu-lhe as suas e levou-o a bares onde pagodeiros punham a alma para percutir os instrumentos. Dançou com ele, sob olhares curiosos, diferentes daqueles que os vizinhos lhes dirigiam, quando passavam nas ruas, mãos entrelaçadas.

Ouvia-os dizer: Podia ser sua filha, que sem-vergonha.

Ela nem ligava. O velho mais desiludido tornava-se o mais animado. O homem que ajudara seu povo a se organizar despertava, às vezes, no trovão da gargalhada. Mas, num sábado, tristezas de outrora emergiram no poço dos olhos. Ao vislumbrá-las, fez de tudo para levá-lo à praia. Pularam sete ondas, despachando as coisas ruins que pesavam nos ombros. Gotas de água em seus cabelos eram minúsculos sóis. Deitadinhos na areia, contou a ele sobre o pai, disse que jamais o conhecera. Os olhos marejaram, uma sombra passou por seu rosto. Então, mudou de assunto e puxou-o para brincar na água.

Voltaram da viagem à noite. Entraram no pequeno apartamento rindo de tudo, de nada. Dono ainda de olhos tristes, mas animado. Bateu-lhe no peito sem feri-lo. Acariciou sua carapinha. Depois, olhou-o durante um bom tempo e beijou sua boca sorridente. Idade pra ser o pai?

– Sou virgem – ela murmurou. – Não posso engravidar.

As roupas ficaram sobre o tapete, espalhadas.

De mãos dadas na padaria, no mercado, ouviam os vizinhos:

É a sobrinha?- uns perguntavam.

Amante. – outros diziam, baixinho.

Ele ia receber a aposentadoria e ficava no ponto de ônibus meia hora. Enquanto outros reclamavam, permanecia impassível, dono de um segredo.

É a concubina. – Parecia escutar alguém sussurrando.

Sentia-se leve, até ser acometido por uma dorzinha besta no peito.

No centro da sala, o homem sentado no sofá é uma pálida lembrança daquele que, outrora, acreditara na sua gente. Que fantasmas o acompanhariam ao cemitério? Ela assustou-se, ao vê-lo com as mãos sobre o peito.

– Coração?

– Um coração enfraquecido pelas desilusões.

Por que não falava desses fantasmas?

– Não confia em mim? Quer dizer que eu não sou nada?

– O gravador – ele pediu, imediatamente após ouvi-la falar.

Esperou-a tirar o sony da bolsa e continuou:

– No início do século, previa-se o desaparecimento da nossa, não digo raça, que só existe a raça humana. É melhor etnia. As elites brasileiras queriam um país sem negros e mulatos. Quando soube dessas ideias, a luz da revolta me iluminou. Uns amigos falaram-me sobre Zumbi, sobre os quilombos, sobre união. Acreditei que a união fosse possível. Mas o sonho se desfez tão rápido! Os amigos se cansaram. O nosso povo? Desinteressado, apático. Não sei – enxugou uma lágrima – como não desapareceu.

– O que vocês fizeram foi bonito.

– São coisas que eu preciso esquecer.

– Hoje os problemas são os mesmos. Mas há pessoas jovens, querendo aprender, como eu. Quero acreditar em algo. Nosso povo sobreviveu porque acreditou na vida.

– É verdade. Parece que nós temos de adquirir uma força tão grande, parece que um amor pela vida se enraíza tão fundo dentro da gente, que nada nos abala com facilidade. E se a gente cai, é pra levantar mais forte; se apanhamos, voltamos a brigar com mais garra; se choramos, também aprendemos a extrair, lá de dentro, uma gargalhada tão gostosa, que é como se toda a alegria do mundo coubesse em nosso peito. Somos negros e temos essa força. Isso é maravilhoso.

Ela abraçou-o, beijou-o. Só então ele se deu conta de que falara com entusiasmo. Uma parte do sonho ainda vivia. Mas as dores no peito persistiram. Ela vinha mais vezes, preparava arroz integral, moderou no sal e tirou o açúcar branco.

– A pinga com carqueja eu não jogo fora – ele protestou.

Era para diabetes, um amigo tinha ensinado.

Ficava irritado com os excessos de cuidados. No fundo, sentia falta quando ela não vinha. A menina de uma geração tão diferente, com quem reaprendia a viver. A moça que acreditava nas coisas em que ele acreditara.

Num domingo, sentindo o relógio no peito se acelerar, disse-lhe:

– Não vou durar muito. Só lamento não ter tido filhos.

Notou que ela ficou calada, pensativa. Escondia algo?

Veio na segunda-feira. Preocupada, tensa. Acusou-o de cerceá-la. Tensão pré-menstrual? Que havia?

– Estou grávida – disse, por fim. – Não posso. Tenho estudos. Também não quero um filho pra crescer como eu, sem pai.

Foi até a janela. Suas lágrimas rolavam como a chuva lá fora.

– Um filho? – ele perguntou, incrédulo. – A soma do meu e do teu sonho. Olhe – pegou-lhe a mão e pôs sobre seu próprio peito – parou de doer. Podemos criar esse filho, se você quiser. – Então abraçou-a e, com a voz embargada, soluçando, falou: – Te amo.

Quando eles passavam, grávidos, ouviam os vizinhos comentarem:

É o filho – uns diziam.

O neto – outros apostavam.

– É o amor nos recriando – diziam um ao outro.




(Ilustração: Frank Morrison)



quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

DREAMING THE BREASTS / SONHANDO OS SEIOS, de Anne Sexton







Mother,

strange goddess face

above my milk home,

that delicate asylum,

I ate you up.

All my need took

you down like a meal.



What you gave

I remember in a dream:

the freckled arms binding me,

the laugh somewhere over my woolly hat,

the blood fingers tying my shoe,

the breasts hanging like two bats

and then darting at me,

bending me down.



The breasts I knew at midnight

beat like the sea in me now.

Mother, I put bees in my mouth

to keep from eating

yet it did no good.

In the end they cut off your breasts

and milk poured from them

into the surgeon’s hand

and he embraced them.

I took them from him

and planted them.



I have put a padlock

on you, Mother, dear dead human,

so that your great bells,

those dear white ponies,

can go galloping, galloping,

wherever you are.



Tradução de Beatriz Regina Guimarães Barboza:



Mãe,

estranha face divina

sobre meu lar leitoso,

aquele delicado asilo,

te comi toda.

Toda minha falta te

engoliu como um prato.



O que você ofertou

eu lembro em um sonho:

os braços sardentos me enlaçando,

o riso n’algum lugar sobre meu chapéu de lã,

os dedos de sangue atando meu sapato,

os seios pendurados como dois tacos

e então me atingindo assim,

me curvando.



Os seios que eu soube à meia-noite

soam como o mar em mim agora.

Mãe, ponho abelhas em minha boca

para me impedir a comida

mas isso de nada adiantou.

No fim cortaram fora seus seios

e o leite derramou deles

nas mãos do cirurgião

e ele os abraçou.

Eu os tomei dele

e plantei-os.



Coloquei um cadeado

em você, Mãe, querida humana morta,

para que seus grandes sinos,

aqueles queridos pôneis brancos,

sigam galopando, galopando,

onde quer que você esteja.



Tradução de Jorge Sousa Braga:



Mãe,

estranho rosto de deusa

sobre a minha casa de leite,

esse delicado asilo,

devorei-te.

Todas as minhas necessidades tragaram-te

como se fosses comida.





O que me deste

recordo-o num sonho:

os braços sardentos envolvendo-me,

o riso algures sobre o meu chapéu de lã,

os dedos de sangue atando os meus sapatos,

os seios suspensos como dois morcegos,

precipitando-se depois sobre mim,

até me dobrar.





Agora os seios que conheci à meia-noite

batem em mim como o mar.

Mãe enchi a boca de abelhas

para evitar comer

e isso não foi nada bom para ti.

Finalmente amputaram os teus seios

e o leite derramou-se

nas mãos do cirurgião

e ele abraçou-os

e eu retirei-lhos

e plantei-os.





Coloquei-te um cadeado,

mãe, querida morta humana,

para que as tuas grandes campânulas,

aqueles queridos póneis brancos,

possam galopar, galopar,

aonde quer que estejas.





(Ilustração: Frida Kahlo - My Nurse And I; 1937)

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

ESTÃO APENAS ENSAIANDO, de Bernardo Carvalho







Estão apenas ensaiando. Ao mesmo tempo em que os dois atores avançam pelo palco, saindo das coxias à esquerda para o centro da cena, um homem entra na sala escura, e com ele uma nesga da luz das cinco pela fresta da porta que entreabriu ao fundo e que separa a plateia do hall e da rua, onde o dia segue o seu curso com um burburinho de buzinas, motores e sirenes. O diretor, na quinta fila, procura com a mão, tateando, a coxa de sua assistente, para lhe dizer alguma coisa ao ouvido, e o iluminador interrompe a piada que ia sussurrando ao técnico a seu lado, no mezanino, já que retomam a cena. Quando os dois atores colocam os pés de novo no palco, avançando das coxias à esquerda para o centro, e interrompendo também o que sussurravam um ao outro nos bastidores, para passar em alto e bom som ao diálogo que decoraram, o homem que acabou de entrar ao fundo é ainda menos que um vulto sem rosto, porque já não tem nem mesmo a nesga de luz das cinco para destacá-lo da penumbra, agora que a porta que separa a sala escura do hall e da rua se fechou. O diretor com a mão na coxa da assistente, depois de lhe sussurrar qualquer coisa ao ouvido, que a faz rir baixinho, controlada, espera ansioso, e pela enésima vez, que a fala seja dita pelo ator com a entonação desejada, e o iluminador, no mezanino, aguarda por seu turno uma nova interrupção - no fundo, mesmo que inconscientemente, torce por mais um fracasso da interpretação, para poder terminar de uma vez por todas a piada que contava ao técnico. Um ator diz ao outro, no centro do palco: "Você é o malfeitor; e por isso preciso saber quem é você, onde está, de onde vem, do que é capaz para ter tamanho poder e me provocar sem prevenir, devastando o meu pasto verdejante, e minando, para derrubá-lo, o meu muro de arrimo." E é quando o outro, que embora sem a foice ou o manto (estão apenas ensaiando) responde pela morte, vai abrindo a boca, que o diretor mais uma vez, tirando a mão da coxa da assistente, interrompe a cena com um gesto, para perguntar num tom propositalmente inaudível, de tão irritado que está, quantas vezes mais vai ter de explicar. Ele repete, como se falasse para dentro, que se trata de um texto do século XV, que o humilde lavrador invoca a morte (aqui representada por um homem) com as palavras que lhe restam como último recurso, quer que ela se compadeça dele e lhe devolva a mulher adorada, vítima das atrocidades da guerra. O diretor repete irritado que falta vigor à interpretação do ator, e desespero, não parece que o humilde lavrador esteja realmente sofrendo ou indignado pela injustiça da morte da mulher na flor da idade. Diz isso aos dois atores e depois, enquanto eles voltam para as coxias, sussurra a mesma coisa ao ouvido da assistente, arrematando com uma gracinha que a faz sacudir num risinho sincopado. De volta às coxias, o ator que interpreta o humilde lavrador aproveita para retomar com o outro que interpreta a morte o sussurro que havia interrompido. Desanca o diretor, diz que não dá para mostrar desespero com um texto daqueles, inverossímil, ninguém vai falar com a morte daquele jeito depois de perder a mulher de uma maneira violenta. Resmunga baixinho qualquer coisa sobre o tipo de representação que aquela cena exige, na sua opinião, e que tem a ver com um certo distanciamento. De repente, no meio da frase sussurrada, olhando o relógio (não precisa tirá-lo, estão apenas ensaiando), exclama a hora num murmúrio, fala qualquer coisa sobre o atraso da própria mulher, que ela já devia ter chegado, e ao mesmo tempo em que diz isso, o iluminador no mezanino tenta inutilmente sussurrar o final da sua piada, porque mal esboça o desenlace cômico e os dois atores já estão de volta ao palco, seguindo os sinais mudos da assistente do diretor, e o homem ao fundo da sala, após uns instantes parado indistinto dentro da sombra, já avança alguns passos pelo corredor lateral da plateia. O ator que interpreta o humilde lavrador vira-se para o outro, que interpreta a morte, embora sem foice ou manto (estão apenas ensaiando), e vai abrir a boca quando percebe que, em vez de olhá-lo, o diretor, sempre com a mão na coxa da assistente, cochicha algo ao seu ouvido que a faz levar a mão aos lábios para impedir que o riso transborde. Percebe o diretor, que está no centro da sala, na quinta fila, mas não o vulto que avança pelo lado, na penumbra. Irritado, o ator repete a cena idêntica à que tinha feito antes, declamando sua fala com o mesmo distanciamento que lhe parece tão apropriado, ao que o diretor enfurecido se levanta e, balançando os braços e sacudindo a cabeça, mudo, dá a entender que está péssimo. Com a nova interrupção, o iluminador trata de retomar do início a piada que contava ao técnico, porque, a cada vez que a retoma, volta sempre ao começo com medo de que a quebra interfira no efeito cômico. Seu sussurro agora é mais corrido, tentando fazer caber a piada inteira no espaço de tempo entre a interrupção do diretor e o retorno dos atores ao palco. Nas coxias, enquanto olha o relógio (estão apenas ensaiando), o ator que faz o humilde lavrador repete baixinho ao outro, que faz a morte, que a mulher a esta altura já devia ter chegado, como tinham combinado, porque ele próprio lhe dissera que tudo terminaria às cinco, não podia imaginar que o diretor se revelasse um tamanho idiota justamente com esse texto inverossímil, e que o ensaio se arrastasse tanto. A assistente dá o sinal mudo para que recomecem e o iluminador interrompe inconformado, mais uma vez, já quase no fim, a piada que sussurrava ao técnico no mezanino, e que corre o risco de perder a graça pela repetição. O homem que vinha avançando lentamente pelo corredor lateral agora para à altura da quinta fila ao ver os dois atores de novo no palco. O humilde lavrador vira-se para a morte e diz: "Você é o malfeitor." O diretor pede que parem. O tom compreensivo de sua voz é apenas um disfarce que o ator está cansado de conhecer e em geral precede uma crise de nervos. O diretor está tentando se controlar, sussurra: "Será que você não compreende? Ele perdeu a mulher, na flor da idade, está desesperado, indignado contra a injustiça da morte e dos homens e por isso a invoca, ainda acredita que pode convencê-la a lhe devolver a mulher adorada. Ninguém diz isso com distanciamento.” Os dois saem do palco. Olhando o relógio, o humilde lavrador sussurra de novo à morte sem foice ou manto algo sobre o atraso da mulher, que a esta altura já devia estar sentada na plateia. Não entende por que ela ainda não chegou, como se já não bastasse o atraso do ensaio, graças à imbecilidade do diretor. E enquanto o humilde lavrador sussurra a sua indignação, o homem que antes era apenas um vulto já avança pela quinta fila, agora de lado, na direção do diretor e de sua assistente, que só o veem quando já está a apenas algumas poltronas deles. Senta-se para se fazer menos notado quando a assistente já está com o braço levantado, indicando aos atores que podem recomeçar, e enquanto ele lhes revela num murmúrio o que veio anunciar sobre o mundo do lado de fora, e que os petrifica, o iluminador no mezanino se aproxima num sussurro da conclusão da piada. O humilde lavrador de relógio e a morte sem foice ou manto (estão apenas ensaiando) entram no palco. O lavrador vira-se para a morte e reinicia a sua ladainha com a mesma entonação e o distanciamento que lhe parecem mais apropriados. Mas desta vez, para sua surpresa, o diretor não o interrompe, porque tem os olhos arregalados e está lívido enquanto o homem, antes apenas um vulto, lhe sussurra algo ao ouvido. E ao ver o homem que sussurra ao ouvido do diretor, e o olhar deste e de sua assistente, que pela primeira vez não o interrompem, mas permanecem a encará-lo com os olhos aterrados e arregalados (a assistente com os olhos cheios de lágrimas diante da súplica que o lavrador faz à morte) enquanto escutam o que o outro lhes diz ao ouvido, curvado na poltrona ao lado, embora a entonação no palco tenha sido a mesma e devesse portanto, pela lógica, ser mais uma vez interrompida, o próprio ator interrompe a ação e por fim compreende aterrorizado e a um só tempo a sinistra coincidência da cena e do momento, o que aquele vulto veio anunciar sobre o mundo do lado de fora, com buzinas, motores e sirenes; compreende por que a mulher não apareceu e afinal o que sente o humilde lavrador; compreende por que o diretor não o interrompeu desta vez, porque por fim esteve perfeito na pele do lavrador em sua súplica diante da morte; compreende que por um instante encarnou de fato o lavrador, que involuntária e inconscientemente, por uma trapaça do destino, tornou-se o próprio lavrador pelo que aquele vulto veio anunciar; compreende tudo num segundo, antes mesmo de saber dos detalhes do acidente que a matou atravessando a rua a duas quadras do teatro, diante dos olhos arregalados do diretor e da assistente, sob as gargalhadas incontidas do iluminador e do técnico no mezanino, chegando ao fim da piada.



(Ilustração: Edvard Munch - The Death and the Young Girl, 1893)


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

L’INVETRIATA / A VIDRAÇA, de Dino Campana






La sera fumosa d’estate

Dall’alta invetriata mesce chiarori nell’ombra

E mi lascia nel cuore un suggello ardente.

Ma chi ha (sul terrazzo sul fiume si accende una lampada) chi ha

A la Madonnina del Ponte chi è chi è che ha acceso la lampada? – c’è

Nella stanza un odor di putredine: c’è

Nella stanza una piaga rossa languente.

Le stelle sono bottoni di madreperla e la sera si veste di velluto:

E tremola la sera fatua: è fatua la sera e tremola ma c’è

Nel cuore della sera c’è

Sempre una piaga rossa languente.



Tradução de Fábio Malavoglia:


Os fumos do ocaso estival

Pela alta vidraça mesclam luzes na sombra

E no peito deixam seu selo ardente.

Mas quem (no terraço sobre o rio há uma lâmpada acesa) quem foi

Que na Virgem da Ponte, quem foi que acendeu uma lâmpada? – há

No aposento um odor que apodrece: há

No aposento uma chaga lânguida e rubra.

As estrelas são botões nacarados, e anoitece envolta em veludo

A tarde fugaz e estremece: é fugaz e estremece mas lá

No peito da noite persiste

Sempre a chaga lânguida e rubra.



(Cantos Órficos)


(Ilustração: Sergio Davanzo - L'Angelo Nero)


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

VOZES DO DESERTO, de Nélida Piñon






Sentado no chão, com as pernas cruzadas em posição de lótus, prescrita para a leitura do Corão, o ancião profere palavras aos passantes, atraindo-os para a sua sorte. Quase à beira da morte, ele é rijo, chama a atenção de Jasmine.

Ela não sabe o que dizer para atraí-lo. Teme que sua pele trigueira, os cabelos encaracolados, ofendam o homem com lembranças amargas. Seguindo as pautas do coração, ajoelha-se no chão, ao seu lado. Em rigoroso silêncio, dispõe de tempo para ouvi-lo.

O dervixe finge ignorar sua presença, mas, seguindo seu instinto apurado, demonstra conhecer a razão de sua visita. Não faz falta que o menino a seu serviço advirta-o sobre a jovem, para quem suas palavras iriam salgar e dar sabor à sua comida. O que poderia querer dele uma mulher sem liteira ou escravos, a caminhar sozinha pelo bazar?

Com gesto incisivo, insiste que ela lhe fale. Não lhe inflija um silêncio que é prerrogativa sua. Jasmine reconhece que vale capitular mediante a confissão de estar ali com o intuito de cobrar-lhe uma tarefa. Alterna mentiras e verdades até admitir, ao final, ter vindo à cata de peripécias. Carecia de ouvir aventuras que transportar para casa dentro do alforge, como pão fresco. Viera com a ilusão de escutar o que ele diria ao próprio Harum al-Rachid, caso este abássida ainda vivesse.

Jasmine elegera-o entre tantos pobres pela sua cegueira. Nota, de perto, a expressão de cupidez que invade o rosto do velho frente às suas promessas. Aquele homem ama o ouro que as histórias lhe podem trazer. A perda da inocência acrescentara-lhe certa perversão e realismo aos dotes de contador. Para aliciar-lhe, pois, o desejo, a escrava deixa tombar alguns dinares no vasilhame de latão.

O dervixe sobressalta-se ao ruído das moedas tilintando, ainda que não tivesse apurado os ouvidos a tempo de saber o valor da contribuição, quantos pratos de comida aquelas moedas lhe cobririam. Ele recolhe uma moeda e a acaricia com um gozo talvez devido à sua condição de cego. Uma cegueira que lhe viera como castigo. Há muito anos, no deserto, a caminho de Samarra, apostara que poderia afastar-se da caravana sem perigo de perder-se, retornando a ela graças ao talento de farejar o caminho de volta. Sem medir as consequências do acto imprevidente, afastou-se dando risadas. Em pouco tempo, perambulando pelas areias exposto longamente ao sol, gritava pedindo socorro. Sem rumo, com crescente dificuldade de enxergar em torno, não atinava como regressar à caravana. Ao ser recuperado muito depois por uma tribo nómada, tinha perdido a visão. Os olhos, queimados, pareciam uma cratera vazia. Quando o deixaram em Bagdad, onde nunca estivera antes, imergiu na mais profunda miséria.

Interrompeu a sequência dos factos para confessar a Jasmine que, ao descobrir-se cego, chorara, lamuriando-se. Além de ser um homem afundado na absoluta escuridão, era pobre, inculto, despojado do saber existente nos centros de estudos das urbes islâmicas.

No início, confrontado com aquela situação, pensara em matar-se. Imprecara, furioso, contra os homens, não poupando Maomé. Em total desespero, suplicou que o santo homem o dotasse de algum talento capaz de atá-lo de novo à vida. Pois, abandonado à própria sorte, um mendicante a mais entre tantos em Bagdad, custava-lhe entender o que havia por trás do castigo.

Aguardou a primeira semana para o Profeta responder-lhe. Certa manhã, ao despertar, faminto e sujo, aflorou-lhe um ânimo inusitado. De repente, surgiu de dentro dele um homem a quem Maomé, perdoando-lhe as ofensas, oferecia inesperados recursos. Como a capacidade de recuperar detalhes preciosos da realidade circundante, de traduzir enigmas antes insolúveis, de desvendar a natureza secreta dos homens e dos objectos, mesmo não os podendo enxergar, de contar histórias afastando da boca resumos tristes que, apenas iniciados, prontamente se esgotam. Enquanto uma voz dizia-lhe que escutasse sobretudo os uivos imperativos da imaginação. Daí lhe resultando a faculdade de falar por horas sem dar prova de cansaço.

Mas com que história agora cativar uma mulher que lhe pagara antes mesmo de estipular o valor do seu trabalho? Embora seu repertório se tivesse ampliado nos últimos anos, conhecia suas limitações. Frequentemente, devido à sua escassa familiaridade com a Medina, evitava situar seus personagens no califado, não se atrevia a descrever a configuração urbana de Bagdad, que só conhecia por meio de descrições. Em suas histórias, os personagens percorriam apenas as quatro vias básicas, que davam acesso à urbe, a parte leste conhecida como Rusafah, navegando, ainda, até o estuário do rio Tigre.

Ao pagar-lhe bom preço, Jasmine aguardava recompensa. Premido, portanto, por uma curiosidade feminina que lhe cobrava, além de uma história, detalhes anteriores à sua cegueira, o ancião declinou-lhe sua outrora condição de oleiro. Um artesão a reclamar das privações e da argila grudada à pele, custando a sair. Desde a adolescência havendo nele uma amargura que se reflectia na qualidade de seu trabalho. O que o fazia produzir potes, pratos, travessas quebrando-se a qualquer toque, a ponto de já nem conseguir vendê-los. A despeito, no entanto, de talento tão escasso, ele tinha a veleidade de riscar na superfície do barro, à guisa de expressão artística, traços da arte caligráfica, sempre com resultados finais nada tendo a ver com a arte islâmica da escritura.

Não lhe mencionara, porém, que, igual ao oleiro, seu ofício actual, de contador de histórias, obrigava-o a combinar palavras, a incrustá-las no barro da fantasia e levá-las ao forno. Em busca de figuras que, variando de peixe, cavalo, pedras preciosas a silhuetas femininas, ensejassem a criação de símbolos que, sem função aparente, representavam metáforas ou o aprimoramento de experiências místicas, como era o caso dos sufis.

A miséria do dervixe leva-o a deplorar em público o seu destino. Como se, esquecido das graças recebidas, houvesse perdido a fé no Profeta que operara em seu favor. Enquanto falava, quase não se mexia. Com movimentos limitados, no afã de explorar a emoção de Jasmine, passa seguidas vezes o dorso da mão nos olhos queimados pelo sol, atraindo atenção ao centro da sua dor. Reminiscências, porém, que pareciam molestá-lo.

Atenta às comiserações do dervixe, Jasmine controla a sede. Acompanha como cria um quotidiano ao qual ela deve associar-se se quer, de verdade, ouvir suas histórias. Aguarda, pois, que comece o relato. Mas logo diz-lhe que tem pressa, o marido a aguarda em casa. Homem desconfiado, que lhe cobra seguidas provas de fidelidade.

O dervixe, em cujos ouvidos ainda ecoa o ruído das peças de ouro caindo no vasilhame de latão, respira fundo, na expectativa de outras moedas lhe fartarem o estômago. Começa a contar, a voz soa-lhe aguda, não é o timbre desejado. Abranda o tom, o momento requer sussurro. Seu escopo é chegar ao fim e corresponder ao pagamento que Jasmine efectuara.



(Vozes do Deserto)



(Ilustração: Etienne Dinet - Blind Meddah singing The Tale of The Prophete)






sábado, 9 de dezembro de 2017

VIUUAMUS... / VAMOS VIVER..., de Caio Valério Catulo







Viuuamus, mea Lesbia, atque amemus,

rumoresque senum serueuiorum

omnes unius aestimemus assis.

soles occidere et redire possunt;

nobis curn semel occidit breuis lux,

nox est perpetua una dormienda.

da mi basia mille, deinde centum,

dein mille altera, dein secunda centum,

deinde usque altera mille, deinde centum.

Dein, cum millia multa fecerinus,

conturbabimus illa, ne sciamus,

aut ne quis malus inuidere possit,

cum tantum sciat esse basiorum.



Tradução de João Angelo Oliva Neto:


Vamos viver, minha Lésbia, e amar,

e aos rumores dos velhos mais severos,

a todos, voz nem vez daremos. Sóis

podem morrer ou renascer,

mas nós quando breve morrer a nossa luz,

perpétua noite dormiremos, só.

Dá mil beijos, depois outros cem, dá

muitos mil, depois outros sem fim, dá

mais mil ainda e enfim mais cem – então

quando beijos beijarmos (aos milhares!)

vamos perder a conta, confundir,

p’ra que infeliz nenhum possa invejar,

se de tantos souber, tão longos beijos.





(Antologia de Poetas Gregos e Latinos)



(Ilustração: Gustav Klimt - Der Kuss)



quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

UMA AVENTURA EM ISTAMBUL, de Lawrence Durrell






O pôr do sol é a hora melhor; com a cidade descaindo suavemente para as trevas, enquanto o sol trava a sua batalha leonina contra a linha do horizonte, impelindo a densa neblina cada vez mais para o alto, transformando-a em breves e preciosas cores e formas. Sentar-se no jardim escurecido do hotel, bebendo calmamente um aperitivo e esperando que o muezim cego subisse ao seu poleiro entre os edifícios e lançasse o seu grito de coruja para os fiéis – era essa a melhor maneira de passa a hora do crepúsculo, vendo as luzes começar a piscar sobre o Taxim e os barcos roçagar e mugir na água escura.

Naquela tarde, particularmente eloquente, estávamos muito calados; o expresso partia pouco antes da meia-noite, ela já tinha as malas prontas. Estávamos sentados entre dois mundos, nem deprimidos nem animados: existindo numa curiosa abstração de certeza a respeito do futuro. Uma parte da mente voltava-se para o chamado que não tardaria a vir da mesquita – o rosto cego e velho de uma ave pronunciando o grasnido nasal do Ebed. Foi então que vi, em meio ao lusco-fusco, um vulto magro, de branco, arrastando-se por entre as árvores distantes; caminhava com um leve traço de falta de firmeza, mas resolutamente, como se para um destino predeterminado. Reconheci o meu amigo, embora não comentasse o fato; e o mesmo, creio, aconteceu com ela, pois seguiu o meu olhar. Não teria nada demais naquilo; mas então, para minha surpresa, vi-o parar, olhar para o céu e entrar na escada em caracol da mesquita. Agora, o ritmo dos seus passos mudara; caminhava lentamente, cansado, como se dobrado sob um grande peso. Vi-o aparecer à janelinha existente na metade da subida e não pude conter uma exclamação de espanto. – Que diabos, o velho Sacrapant!... – Ela olhou para o relógio e depois para o céu.

Ainda era cedo para o muezim. A frágil figura surgiu finalmente na balaustrada, erguendo mãos pequenas, qual avencas, como se numa invocação, mas débil e incoerente; o sentido das suas palavras mal penetrava as pesadas camadas do ar úmido da noite. Pareceu-me ouvir algo como “encontrareis recompensa na firma. Dai-lhe o melhor do vosso esforço, que recebereis cem vezes mais”. Não se podia ter a certeza mas, por entre as oscilantes encantações, julguei ouvir isso. E então pus-me de pé, de um salto, pois a frágil figura começara a inclinar-se para a frente e a pender. O Sr. Sacrapant começou a cair pelo céu noturno, num lento voo em direção ao solo escuro. O esmagar de uma folha de palmeira e depois um estrondo de inconfundível irremediabilidade, seguido pelo ruído de vidro quebrado e moedas espalhadas. A rapidez de tudo aquilo transfixara-me. Fiquei ali, de pé, sem fala. Mas já se ouvia o barulho de pés correndo e vozes; não tardou que uma pequena multidão se juntasse, qual moscas de uma artéria aberta. – Meu Deus! – exclamei. Benedicta mantinha-se sentada, perfeitamente imóvel, a cabeça inclinada. Voltei-me para ela e murmurei-lhe o nome; mas ela não se moveu.

Sacudi-a suavemente pelos ombros, como se sacode um relógio que parou de funcionar, e ela olhou para mim com uma intensa tristeza. – Venha comigo, depressa – falou, agarrando-me a mão. Entre as árvores, os sons eram agora mais distintos – estavam juntando os restos mortais. Sangue sobre o mármore. Estremeci. Atravessamos o jardim escuro, de mãos dadas, encaminhamo-nos para os terraços iluminados e os salões do hotel. Benedicta disse: - Jocas deve tê-lo despedido. Oh, por que será que as pessoas vão aos extremos? – Por quê, realmente? Pensei no rosto pálido e humilde de Sacrapant, brilhando contra o céu na noite. Sem dúvida uma tal explicação era convincente, mas... A noite jazia em ruínas à nossa volta. O jantar em silêncio, o acomodar da bagagem ao carro da firma que aparecera – tudo isso foi feito automaticamente, em meio ao torpor causado pela tristeza daquela morte inesperada. O meu pensamento voltava-se continuamente para a lembrança daquele rosto pálido, inclinando-se para baixo, do alto da torre; Sacrapant dera a impressão de alguém cuidadosamente privado de psicologia individual por alguma experiência com faca ou droga. Por um breve momento, as abas do seu paletó lhe tinham dado a forma de um dardo – de um pato caindo do céu. Mas ele caíra, por assim dizer, bem no meio das nossas emoções; as ondas crescentes da sua morte espalhavam-se agora pelos nossos espíritos, alienando-se um do outro.

Abraçamo-nos, separamo-nos quase com repulsa. A horrenda estação, com seu enxame de turcos de cara de tartaruga, felizmente proibia falas de despedida. Limitei-me a lhe segurar as mãos, enquanto não encontravam o seu vagão e a bagagem não era arrumada pelo motorista. – Ou então, - disse ela gravemente, como se continuando um monólogo interior – ele de repente soube que tinha câncer, ou que a mulher tinha um amante, ou que sua filha preferida... – Compreendi que qualquer explicação serviria e que tudo permaneceria para sempre no campo das especulações, das improvisações. Seria isso também aplicável a todos nós, a todas as nossas ações? Sim, era. Examinei-lhe o rosto novamente, com cuidado, quase com uma atenção tinta de pânico, percebendo finalmente como era inútil amá-la; ela subira para o vagão e olhava-me da janela aberta com uma tristeza hesitante. Não poderíamos estar mais distanciados, naquele momento; uma nuvem de aflição ofuscara todas as nossas emoções. Senti o meu desespero aumentar. Amanhã regressaria a Atenas – ficaria livre de todos, livre até de Benedicta. Meu Deus, a única palavra de cinco letras que interessa! O trem começara a andar. Caminhei ao lado dele durante algum tempo. Ela também parecia quase aliviada – pelo menos era a impressão que me dava. Talvez por se sentir segura de mim – segura de seu poder sobre mim? Puxou para cima a vidraça e, num impulso, exalou sobre ela a fim de escrever a palavra “Brevemente” na pequena mancha de condensação. Imediatamente a dor da separação voltou.

Afastei-me, para ver se conseguia fazer os meus pensamentos se dispersarem por entre aquelas multidões de rostos indistintos. O carro esperava-me para levar de volta ao hotel. Nessa noite, dormi só e, pela primeira vez, experimentei a sufocante sensação de solidão que me avassalou com a convicção de que nunca mais deveria ver Benedicta. Todo aquele episódio permanecera na minha memória, cuidadosamente emoldurado e pendurado, completamente isolado em si: e completamente sem relevância ou continuidade em relação a qualquer outra coisa que eu já tivesse feito ou experimentado. Uma aventura em Istambul!



(Tunc; tradução de Vera Neves Pedroso)



(Ilustração: WJ Rathbone – Istanbul)



domingo, 3 de dezembro de 2017

ESSE PERFUME..., de Emiliano Perneta







Esse perfume ― sândalo e verbenas ―

De tua pele de maçã madura,

Sorvi-o quando, ó deusa das morenas!

Por mim roçaste a cabeleira escura.



Mas ó perfídia negra das hienas!

Sabes que o teu perfume é uma loucura:

― E o concedes; que é um tóxico: e envenenas

Com uma tão rara e singular doçura!



Quando o aspirei — as minhas mãos nas tuas —

Bateu-me o coração como se fora

Fundir-se, lírio das espáduas nuas!



Foi-me um gozo cruel, áspero e curto...

Ó requintada, ó sabia pecadora,

Mestra no amor das sensações de um furto!





(Ilustração: Gustav Klimt - kiss)



quinta-feira, 30 de novembro de 2017

ULRICA, de Jorge Luis Borges



  



"Hann tekr sverthit Gram okk / legger i methal theira bert"(*)



Völsunga Saga, 27



Meu relato será fiel à realidade ou, em todo caso, à minha lembrança pessoal da realidade, o que é a mesma coisa.

Os fatos ocorreram faz muito pouco, porém sei que o hábito literário é assim mesmo, o hábito de intercalar traços circunstanciais e de acentuar as ênfases. Quero narrar o meu encontro com Ulrica (não soube seu sobrenome e talvez não venha a sabê-lo nunca) na cidade de York. A crônica abarcará uma noite e uma manhã.

Nada me custaria referir que a vi pela primeira vez junto às Cinco Irmãs de York, esses vitrais puros de toda imagem que os iconoclastas de Cromwell respeitaram, porém o fato é que nos conhecemos na salinha do Northern Inn, que está do outro lado das muralhas. Éramos poucos e ela estava de costas. Alguém lhe ofereceu uma bebida e ela recusou.

- Sou feminista – disse. – Não quero arremedar os homens. Desagradam-me seu tabaco e seu álcool.

A frase queria ser engenhosa e adivinhei que não era a primeira vez que a pronunciava. Soube depois que a frase não era característica sua, mas o que dizemos nem sempre se parece conosco.

Referiu que havia chegado tarde ao museu, mas que a deixaram entrar quando souberam que era norueguesa. 

Um dos presentes comentou: 

- Não é a primeira vez que os noruegueses entram em York.

- É verdade – disse ela. - A Inglaterra foi nossa e a perdemos, se é que alguém pode ter algo ou algo pode ser perdido.

Foi então que a olhei. Um verso de William Blake fala de moças de suave prata ou de furioso ouro, mas em Ulrica estavam o ouro e a suavidade. 

Era leve e alta, de traços afilados e olhos cinzentos. Menos que seu rosto me impressionou seu ar de tranquilo mistério. Sorria facilmente e o sorriso parecia afastá-la. Vestia-se de negro, o que é raro em terras do Norte, que tratam de alegrar com cores o apagado do ambiente. Falava um inglês nítido e preciso e acentuava levemente os erres. Não sou observador; essas coisas descobri pouco a pouco. 

Apresentaram-nos. Disse-lhe que era professor na Universidade dos Andes em Bogotá. Esclareci que era colombiano.

Perguntou-me de um modo pensativo:

- O que é ser colombiano?

- Não sei - respondi. - É um ato de fé.

- Como ser norueguesa - assentiu.

Nada mais posso recordar do que se disse essa noite. No dia seguinte desci cedo para a sala de jantar. Pelos cristais vi que havia nevado; os páramos se perdiam na manhã. Não havia ninguém mais. Ulrica me convidou para sua mesa. Disse-me que gostava de sair a caminhar sozinha.

Lembrei um chiste de Schopenhauer e respondi: 

- A mim também. Podemos sair juntos os dois.

Afastamo-nos da casa, sobre a neve recente. Não havia uma alma nos campos. Propus que fôssemos a Thorgate, que fica rio abaixo, a algumas milhas. Sei que já estava enamorado de Ulrica; não teria desejado a meu lado nenhuma outra pessoa. 

Ouvi subitamente o distante uivo de um lobo. 

Nunca ouvi um lobo uivar, mas sei que era um lobo. Ulrica não se alterou.

Daí a pouco disse como se pensasse em voz alta: 

- As poucas e pobres espadas que vi ontem em York Minster me comoveram mais que as grandes naves do museu de Oslo.

Nossos caminhos se cruzavam. Ulrica, essa tarde, prosseguiria a viagem em direção a Londres; eu, para Edimburgo.

- Em Oxford Street - me disse - repetirei os passos de De Quincey, que buscava a sua Ana perdida entre as multidões de Londres.

- De Quincey - respondi - deixou de buscá-la. Eu, ao longo do tempo, continuo a buscá-la.

- Talvez - disse em voz baixa - a tenhas encontrado.

Compreendi que uma coisa inesperada não me estava proibida e beijei-lhe a boca e os olhos. Afastou-me com suave firmeza e logo declarou:

- Serei tua na pousada de Thorgate. Peço-te, enquanto isto, que não me toques. É melhor que assim seja.

Para um celibatário entrado em anos o amor oferecido é um dom que já não se espera. O milagre tem direito a impor condições. Pensei em minha mocidade de Popayan e em uma moça do Texas, clara e esbelta como Ulrica, que me havia negado seu amor.

Não incorri no erro de lhe perguntar se me queria. Compreendi que não era o primeiro e que não seria o último. Essa aventura, talvez a derradeira para mim, seria uma de tantas para essa resplandecente e resoluta discípula de Ibsen.

De mãos dadas seguimos. 

- Tudo isto é como um sonho - disse eu - e eu nunca sonho.

- Como aquele rei - replicou Ulrica - que não sonhou até que um feiticeiro o fez dormir em uma pocilga.

Acrescentou em seguida:

- Ouve bem. Um pássaro está por cantar.

Pouco depois ouvimos o canto.

- Nestas terras - disse - pensam que quem está para morrer prevê o futuro.

- E eu estou para morrer - disse ela.

Olhei-a atônito.

- Cortemos pelo bosque – instei-a. - Chegaremos mais rápido a Thorgate.

- O bosque é perigoso - replicou.

Seguimos pelos paramos.

- Eu queria que esse momento durasse para sempre - murmurei.

- Sempre é uma palavra que não é permitida aos homens - afirmou Ulrica e, para minorar a ênfase, pediu-me que lhe repetisse meu nome que não ouvira bem.

- Javier Otárola – disse-lhe.

- Quis repeti-lo e não pôde. Fracassei, igualmente, com o nome de Ulrikke.

- Vou te chamar Sigurd - declarou com um sorriso.

- Se sou Sigurd – repliquei - tu serás Brynhild.

Havia atrasado o passo. 

- Conheces a saga? – perguntei-lhe.

- Naturalmente - disse. - A trágica história que os alemães desperdiçaram com seus tardios Nibelungos.

Não quis discutir e respondi:

- Brynhild, caminhas como se quisesses que entre nós houvesse uma espada.

Estávamos de repente diante da pousada. Não me surpreendeu que se chamasse, como a outra, Northern Inn. 

Do alto da escada, Ulrica me gritou:

- Ouviste o lobo? Já não há lobos na Inglaterra. Apressa-te.

Ao subir ao andar de cima, notei que as paredes estavam empapeladas à maneira de William Morris, com um vermelho muito profundo, com pássaros e frutos entrelaçados. Ulrica entrou primeiro. O aposento obscuro era baixo, com um teto de duas águas. O esperado leito se duplicava em um vago cristal e a caoba polida me recordou o espelho da Escritura. Ulrica já se havia despido. Chamou-me por meu verdadeiro nome, Javier. Senti que a neve aumentava. Já não havia móveis nem espelhos. Não havia uma espada entre nós. Como a areia, se ia o tempo. Secular na sombra fluiu o amor e possuí pela primeira e última vez a imagem de Ulrica.



(*) "Ele pegou sua espada, Gram, e colocou entre eles dois o aço nu."



(O livro de areia; tradução de Lígia Morrone Averbuck)




(Ilustração: aliens xfoto lápide do túmulo de jorge luis borges)