sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

AMOR, de Irene Lisboa

 




Aqueles olhos aproximam-se e passam.

Perplexos, cheios de funda luz,

doces e acerados, dominam-me.

Quem os diria tão ousados?

Tão humildes e tão imperiosos,

tão obstinados!



Como estão próximos os nossos ombros!

Defrontam-se e furtam-se,

negam toda a sua coragem.

De vez em quando,

esta minha mão,

que é uma espada e não defende nada,

move-se na órbita daqueles olhos,

fere-lhes a rota curta,

Poderosa e plácida.



Amor, tão chão de Amor,

que sensível és...

Sensível e violento, apaixonado.

Tão carregado de desejos!



Acalmas e redobras

e de ti renasces a toda a hora.

Cordeiro que se encabrita e enfurece

e logo recai na branda impotência.



Canseira eterna!

Ou desespero, ou medo.

Fuga doida à posse, à dádiva.

Tanto bater de asas frementes,

tanto grito e pena perdida...

E as tréguas, amor cobarde?

Cada vez mais longe,

mais longe e apetecidas.

Ó amor, amor,

que faremos nós de ti

e tu de nós?



(Antologia Poética)



(Ilustração: Edvard Munch - the kiss - 1892)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

A FILOSOFIA COMO INVESTIGAÇÃO, de Waldomiro José da Silva Filho

 


Todos sabem que o cético duvida de tudo. E todos sabem que duvidar de tudo não tem sentido: as ideias céticas podem ser sedutoras, mas dizer que não sabemos nada, que não temos certeza de nada é algo exagerado, absurdo e auto refutável. O ceticismo, usualmente, é tido como algo negativo, enquanto, na filosofia, frequentemente é descrito como uma posição que deve ser desafiada, enfrentada e vencida.

Essa atitude negativa que se atribui ao filósofo cético, porém, não é mais que um aspecto incidental e parcial do ceticismo. Na verdade, tal dúvida universal é inventada por filósofos modernos. Por isso, muitos autores que lidam com a questão cética são responsáveis pela difusão de uma imagem do ceticismo que não faz plena justiça à tradição intelectual que lhe deu origem. Oswaldo Porchat, um dos mais importantes filósofos brasileiros, já disse que a filosofia moderna e contemporânea costuma recorrer a "caricatas figurações" da filosofia cética: "cada filósofo fabrica seu inimigo cético particular e atribui-lhe esdrúxulas doutrinas ad hoc forjadas de modo que melhor sejam refutadas".

Quando nos defrontamos diretamente com os escritos e as ideias dos céticos, em especial dos céticos gregos antigos que sobreviveram ao tempo, encontramos uma imagem surpreendentemente rica e interessante do ceticismo, bem como uma maneira peculiar de questionar as doutrinas filosóficas. Há, assim, uma diferença crucial entre o cético moderno e o cético antigo. O primeiro lança uma dúvida radical sobre todos os domínios do conhecimento. Lembremo-nos, por exemplo, dos cenários onde são traçados os argumentos do sonho e do gênio maligno nas Meditações de Descartes: tenho o pensamento de que estou aqui, neste momento, sentado nesta cadeira, segurando uma folha de papel, mas posso estar sonhando ou sendo enganado por um deus poderoso. Por essa razão, uma questão central da epistemologia moderna é a seguinte: já que um pensamento que eu tomo como verdadeiro pode ser falso ou ilusório, o que deve ocorrer a um pensamento para lhe conferir a qualidade de conhecimento? O cético antigo, por sua vez, não supõe que todas as nossas crenças são ou podem ser simultaneamente falsas. A postura dubitativa do cético é ainda mais radical, pois a sua questão cética central não seria "é possível conhecer?" ou "como conhecemos?", mas a pergunta mais fundamental: "temos alguma razão para acreditar?"

Pirro - que, como Sócrates, nada escreveu - é reconhecidamente o precursor de uma atitude intelectual que tempos depois da sua morte fora chamada de sképsis: o termo significa, ao pé da letra, "observação", "investigação", "exame". Aqueles que se filiavam às ideias de Pirro se designaram como skeptikoí, "aqueles que examinam", "os que investigam". Enquanto os outros filósofos (os dogmáticos) pensam ter descoberto a verdade ou sabem que a verdade não existe, o cético persiste na investigação da verdade. Diferente das "caricatas figurações", este leva às últimas consequências o ideal da filosofia como uma investigação racional por meio de uma argumentação rigorosa e imparcial. Aplicando vários procedimentos chamados tropos ou modos, argumenta que nenhuma das nossas crenças está plenamente justificada, imune à crítica e numa posição melhor que as posições contrárias.

Quando critica as filosofias que chama de dogmáticas, não o faz por soberba. Sexto Empírico, nas Hipotiposes pirrônicas, nossa principal fonte para o ceticismo antigo, diz o seguinte: "O cético, por amar a humanidade, quer curar pelo discurso, na medida de suas forças, a presunção e a precipitação dos dogmáticos". Além disso, o cético não pode evitar a estranheza diante da absoluta falta de acordo entre os filósofos: há um conflito insuperável dos dogmatismos, uma perpétua diaphonía, já que os filósofos não se põem de acordo sobre nada, nem mesmo sobre o objeto, a natureza ou o método da filosofia. O cético, assim, não afirma, a respeito de qualquer doutrina filosófica, que esta é verdadeira ou falsa, nem que um conceito está mais próximo ou mais distante da realidade. Ele apenas perscruta as filosofias, examina cautelosamente cada um dos seus argumentos e mostra suas falhas, incoerências e contradições.

Posto que não imaginar uma posição humana que garanta como as coisas realmente são, ele só pode conceber como parecem ou como são percebidas num lugar, num tempo e em certas circunstâncias. Para o cético, um "fenômeno" ou "aparência" é qualquer coisa que se imponha à sua sensibilidade e ao seu intelecto - e isso diz respeito tanto à experiência sensória e aos objetos físicos, como a questões científicas, éticas ou políticas. O cético não diria que "O mel é doce" ou "Não se deve roubar", mas "parece-me que o mel é doce", "parece-me que não se deve roubar". Dada a condição humana, não está em questão o acordo ou desacordo de nossas representações com o mundo, pois não seria possível saltar do círculo do que nos parece para o círculo do que é em si. Em vista disso, o pirrônico é levado a suspender o juízo sobre a realidade. No fundo, não temos razões mais fortes para acreditar numa doutrina sobre a natureza das coisas que para não acreditar nessa doutrina. Ao não dar seu assentimento a uma doutrina qualquer, nem à doutrina que lhe é contrária, o cético suspende seu juízo. O estado mental que a suspensão do juízo pode levar é a ataraxia, a tranquilidade, quando então o cético não mais se preocuparia com questões que estejam além do fenômeno e do que lhe aparece.

A filosofia pirrônica é uma filosofia com inegável dimensão prática, que deve ser vivida, não constituindo um simples exercício acadêmico. Suspendendo o juízo sobre todo conhecimento do absoluto, procura o que é útil e benéfico para os homens. Ele substitui a metafísica pelo saber da experiência: "Não temos mais uma realidade a conhecer - demos, na prática, nosso adeus a esse mito -, o que temos é um mundo experienciado com o qual precisamos lidar: diante dele e de seus desafios, não temos como permanecer inativos."

O traço característico da filosofia praticada pelo cético não é postular um conjunto preciso de teses (sejam positivas ou negativas), mas o cultivo de uma atitude crítica diante da pretensão dogmática de ter descoberto a verdade - o que torna o ceticismo "uma forma atual de filosofar". O cético estuda filosofia com o intuito de descobrir a verdade sobre as coisas; ele é levado a filosofar, porque percebe uma série de problemas teóricos que se revelam nas contradições entre os discursos que pretendem descrever a natureza das coisas. Mas o ceticismo é algo como um purgante que elimina tudo, inclusive a si mesmo. Por isso, o cético pratica a-dogmaticamente (adoxástos) a observância não-filosófica da vida comum, seguindo suas inclinações naturais e o que lhe aparece. O cético faz-se um estudioso da filosofia dogmática para, logo depois, como aquela famosa imagem da escada, lançá-la fora e viver sem dogmatismos.



NOTAS

1 A tradição cética se inicia com Pirro de Elis (que viveu no século 4 antes de Cristo e integrou a famosa expedição de Alexandre, o grande, à Índia), passando principalmente por filósofos como Timão, Carnéades, Arcésilas, Enesidemo até chegar a Sexto Empírico que supõe-se ter vivido no século 2 da era cristã.

2 Cf. J. Annas e J. Barnes, The modes of scepticism: Ancient texts and modern interpretations (Cambridge: Cambridge University Press, 1985).

3 O. Porchat, "A Autocrítica da Razão no Mundo Antigo", in: W. Silva Filho (org.), O ceticismo e a possibilidade da filosofia (Ijuí: Editora Unijuí, 2005), p. 42.

4 P. Smith, Ceticismo (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004).



(Ilustração: Caravaggio - st. Thomas)

sábado, 20 de fevereiro de 2021

À SEPULTURA DE UM ESCRAVO, de Bernardo Guimarães

 



Também do escravo a humilde sepultura

Um gemido merece de saudade:

Uma lágrima só corra sobre ela

De compaixão ao menos....

Filho da África, enfim livre dos ferros

Tu dormes sossegado o eterno sono

Debaixo dessa terra que regaste

De prantos e suores.



Certo, mais doce te seria agora

Jazer no meio lá dos teus desertos

À sombra da palmeira, não faltara

Piedoso orvalho de saudosos olhos

Que te regasse a campa;

Lá muita vez, em noites d'alva lua,

Canção chorosa, que ao tanger monótono

De rude lira teus irmãos entoam,

Teus manes acordara:

Mas aqui - tu aí jazes como a folha

Que caiu na poeira do caminho,

Calcada sob os pés indiferentes

Do viajor que passa.



Porém que importa - se repouso achaste,

Que em vão buscavas neste vale escuro,

Fértil de pranto e dores;

Que importa - se não há sobre esta terra

Para o infeliz asilo sossegado?

A terra é só do rico e poderoso,

E desses ídolos que a fortuna incensa,

E que, ébrios de orgulho,

Passam, sem ver que co 'as velozes rodas

Seu carro d'ouro esmaga um mendigante

No lodo do caminho!...

Mas o céu é daquele que na vida

Sob o peso da cruz passa gemendo;

É de quem sobre as chagas do inditoso

Derrama o doce bálsamo das lágrimas;

E do órfão infeliz, do ancião pesado,

Que da indigência no bordão se arrima;

do pobre cativo, que em trabalhos

No rude afã exala o alento extremo;

- O céu é da inocência e da virtude,

O céu é do infortúnio.



Repousa agora em paz, fiel escravo,

Que na campa quebraste os ferros teus,

No seio dessa terra que regaste

De prantos e suores.

E vós, que vindes visitar da morte

O lúgubre aposento,

Deixai cair ao menos uma lágrima

De compaixão sobre essa humilde cova;

Aí repousa a cinza do Africano,

- O símbolo do infortúnio.





(Canto da solidão)

(Ilustração: Hands up - Basil Kincaid - 

instalação nas principais ruas de Ferguson USA)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

A CRÔNICA, de Ivan Lessa

 



Crônica, do grego chrónos, tempo, cronicar, feito Tácito, relatar o tempo ou tempos.

Por que nós, brasileiros, fizemos do gênero especialidade da casa — feito moqueca de peixe ou tutu à mineira?

Eu, pela parte que me cabe — e é pouquíssima a parte que me cabe —, eu tenho minhas teoriazinhas.

Primeiro lugar, porque nós trabalhamos bem com poucas armas, isto é, Euclides da Cunha à parte, nosso fôlego literário é curto.

Não há nenhum demérito nisso.

Se a América Latina fornece caudalosos escritores, como Vargas Llosa, Roa Bastos e Alejo Carpentier, nós, por outro lado, somos excelentes no pinga-pinga do conto: o próprio Machado de Assis, Lima Barreto, Alcântara Machado, Dalton Trevisan, Clarice Lispector, Rubem Fonseca.

Segundo lugar, porque nós temos consciência da extraordinária violência com que o tempo vai levando as coisas e as gentes, daí a necessidade de registrar, de alguma forma, o que se passou e passa no âmbito pessoal e intransferível.

Terceiro lugar, em consequência disso que acabei de falar: somos muito pessoais, vemos e vivemos muito a nossa vida e a celebramos quase que no próprio instante em que ela se passa.

A crônica é a nossa autobustificação, por assim dizer.

Ou, em termos da realidade atual: é a nossa autonomeação para assessor disso ou secretário daquilo outro.

E em quarto e último lugar: dinheiro.

Não há motivo nenhum para se ficar encabulado.

Quem não escreve por dinheiro não é digno da profissão.

Um romance vende cinco mil exemplares e o autor, com alguma sorte, pega o equivalente a uns tantos salários mínimos.

Se dividirmos tempo gasto no trabalho e na vida de estante do livro, vai dar nisso mesmo: salário mínimo.

O cronista, por outro lado, mesmo mal pago — e quando é bom não é esse o caso —, tem uns cobres garantidos no fim do mês, se o empregador for bom pagador.

Consequentemente: aí está, viva e atuante, a crônica do cronista brasileiro.

Pouco importa que o cronista ou a cronista limite-se a relatar seu encontro no bar ou sua ida ao cabeleireiro.

Tanto faz que seja elitista ou literariamente limitador.

E daí que tenha menos profundidade que mergulhadores mais audazes como Milan Kundera e Marion Zimmer Bradley?

A crônica vai registrando, o cronista vai falando sozinho diante de todo mundo.



(Ivan vê o mundo)



(Ilustração: Pablo Picasso - deux filles lisant)

domingo, 14 de fevereiro de 2021

OUÇO UMA FONTE, de Augusto Frederico Schmidt


  

Ouço uma fonte

É uma fonte noturna

Jorrando.

É uma fonte perdida

No frio.



É uma fonte invisível.

É um soluço incessante,

Molhado, cantando.



É uma voz lívida.

É uma voz caindo

Na noite densa

E áspera.



É uma voz que não chama.

É uma voz nua.

É uma voz fria.

É uma voz sozinha.



É a mesma voz.

É a mesma queixa.

É a mesma angústia,

Sempre inconsolável.



É uma fonte invisível,

Ferindo o silêncio,

Gelada jorrando,

Perdida na noite.

É a vida caindo

No tempo!



(Fonte invisível, 1949)

(Ilustração: Giacomo Jaquerio - foutain of life)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

PARA LÚCIO CARDOSO, de Clarice Lispector


 


Lúcio, estou com saudade de você, corcel de fogo que você era, sem limite para o seu galope.

Saudade eu tenho sempre. Mas, saudade tristíssima, duas vezes.

A primeira quando você repentinamente adoeceu, em plena vida, você que era vida. Não morreu da doença. Continuou vivendo, porém era homem que não escrevia mais, ele que até então escrevera por uma compulsão eterna gloriosa. E depois da doença, não falava mais, ele que já me dissera das coisas mais inspiradas que ouvidos humanos poderiam ouvir. E ficara com o lado direito todo paralisado. Mais tarde usou a mão esquerda para pintar: o poder criativo nele não cessara.

Mudo ou grunhindo, só os olhos se estrelavam, eles que sempre haviam faiscado de um brilho intenso, fascinante e um pouco diabólico.

De sua doença restaria também o sorriso: esse homem que sorria para aquilo que o matava. Foi homem de se arriscar e de pagar o alto preço do jogo. Passou a transportar para as telas, com a mão esquerda (que, no entanto, era incapaz de escrever, só de pintar) transparência e luzes e levezas que antes ele não parecia ter conhecido e ter sido iluminado por elas: tenho um quadro, de antes da doença, que é quase totalmente negro. A luz lhe viera depois das trevas da doença.

A segunda saudade já foi perto do fim.

Algumas pessoas amigas dele estavam na antessala de seu quarto no hospital e a maioria não se sentiu com força de sofrer ainda mais ao vê-lo imóvel, em estado de coma.

Entrei no quarto e vi o Cristo morto. Seu rosto estava esverdeado como um personagem de El Greco. Havia a Beleza em seus traços.

Antes, mudo, ele pelo menos me ouvia. E agora não ouviria nem que eu gritasse que ele fora a pessoa mais importante da minha vida durante a minha adolescência. Naquela época ele me ensinava como se conhecem as pessoas atrás das máscaras, ensinava o melhor modo de olhar a lua. Foi Lúcio que me transformou em “mineira”: ganhei diploma e conheço os maneirismos que amo nos mineiros.

Não fui ao velório, nem ao enterro, nem à missa porque havia dentro de mim silêncio demais. Naqueles dias eu estava só, não podia ver gente: eu vira a morte.

Estou me lembrando de coisas. Misturo tudo. Ora ouço ele me garantir que eu não tivesse medo do futuro porque eu era um ser com a chama da vida. Ora vejo-nos alegres na rua comendo pipocas. Ora vejo-o encontrando-se comigo na ABBR, onde eu recuperava os movimentos de minha mão queimada e onde Lúcio, Pedro e Miriam Bloch chamavam-no à vida. Na ABBR caímos um nos braços do outro.

Lúcio e eu sempre nos admitimos: ele com sua vida misteriosa e secreta, eu com o que ele chamava de “vida apaixonante”. Em tantas coisas éramos tão fantásticos que, se não houvesse a impossibilidade, quem sabe teríamos nos casado.

Helena Cardoso, você que é uma escritora fina e que sabe pegar numa asa de borboleta sem quebrá-la, você que é irmã de Lúcio para todo o sempre, por que não escreve um livro sobre Lúcio? Você contaria de seus anseios e alegrias, de suas angústias profundas, de sua luta com Deus, de suas fugas para o humano, para os caminhos do Bem e do Mal. Você, Helena, sofreu com Lúcio e por isso mesmo mais o amou.

Enquanto escrevo levanto de vez em quando os olhos e contemplo a caixinha de música antiga que Lúcio me deu de presente: tocava como em cravo a Pour Élise. Tanto ouvi que a mola partiu. A caixinha de música está muda? Não. Assim como Lúcio não está morto dentro de mim.



(A Descoberta do Mundo)



(Ilustração: Georges de la Tour - 1640)


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

ÚNICO POEMA DE AMOR, de Lúcio Cardoso

 



tudo tão calmo

a vida dormindo

como agora que tombasse sem murmúrio

na planície do meu pensamento ...

folhas mortas que não voam,

pássaros imóveis que não cantam,

água parada que não corre ...



e teu corpo como um lírio sobre a terra,

e a terra muda impregnada de perfume,

teus olhos grandes como flores noturnas,

flores que se abrem na doçura do silêncio

e minha sombra como uma nuvem perdida

debruçada sobre teus cabelos imóveis

que boiam na água da planície...



(Ilustração: Georges De La Tour)



sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

A PRIMEIRA VEZ DE LENITA, de Júlio Ribeiro


 

Lenita mudava de posição, revolvia-se na cama, não dormia, não podia adormecer.

Uma obsessão mordente subia-lhe da periferia do corpo, comprimia-lhe o coração, atordoava-lhe o cérebro.

Sentia picadas na pele, tinha calefrios, zuniam-lhe os ouvidos.

Sugando-lhe as feridas feitas pelos aguilhões da cobra, Barbosa retirara um veneno, mas deixara outro. Lenita nunca mais cessara de sentir a sucção morna, demorada, forte, dos lábios de Barbosa em torno às picadas, no peito do pé. A sensação estranha, deliciosa, incomportável que produzira essa sucção perdurava, vivia; mais ainda, multiplicava-se, alastrava. Era um formigamento circular que lhe trepava pelas pernas, que lhe afagava o ventre, que lhe titilava os seios, que lhe comichava os lábios.

E ela queria Barbosa, desejava Barbosa, gania por Barbosa.

Esperar até amanhecer: uma! duas! três! quatro! cinco! seis horas! Ouvir o tique-taque do relógio, lento, medido, regular, igual, metálico; monótono, impiedoso; ouvi-lo sessenta vezes por minuto, três mil e seiscentas vezes por hora, vinte e uma mil e seiscentas vezes nas seis horas que faltavam para amanhecer? Impossível!

Ergueu-se e, descalça, em camisa, inconsciente, louca, abriu a porta, atravessou a sala, abriu a outra porta, saiu na antessala, enfiou pelo corredor, parou junto à porta do quarto de Barbosa, a escutar.

E nada ouvia.

Dentro, fora, dominava um silêncio profundo, quebrado apenas pelas pulsações violentas do seu próprio coração.

Encostou o ouvido à fechadura, nada.

O seu ombro fez uma ligeira pressão sobre a folha da porta, e esta cedeu, entreabriu-se, chiando ligeiramente.

Uma lufada de ar quente, saturada de aroma de charuto havana veio afagar-lhe o rosto, os seios, o busto quase desnudo no decote grande da camisa. Lenita perdeu completamente a cabeça, entrou: em bicos de pés, sem fazer rumor, escorregando, deslizando, como um fantasma, abeirou-se da cama de Barbosa.

Curvou-se, apoiou a mão no respaldo da cabeceira, aproximou a sua cabeça do peito do homem adormecido, escutou-lhe a respiração igual, hauriu-lhe o cheiro másculo do corpo, sentiu-lhe a tepidez da pele.

Quedou-se por muito tempo nesse ambiente entorpecedor.

De súbito o braço com que se encostava falseou; ela caiu pesadamente sobre o leito.

Barbosa deu um estremeção, acordou sobressaltado, sentou-se, estendeu as mãos, encontrou-a, perguntou assustado:

– Quem é? quem é?

A cútis morna, cetinosa da moça, a macieza da cambraia que a envolvia em parte, o perfume de Peau d’Espagne que de seu corpo exalava, não lhe permitiam dúvidas; mas ele recusava a evidência dos sentidos, não podia crer. Achava absurda, monstruosa, impossível a presença de Lenita em seu quarto, àquela hora, naquela quase nudez.

E, contudo, era real, ela ali estava: ele sentia-lhe a carne quente, dura, apalpava-lhe a pele híspida(1) pelo desejo, escutava-lhe o estuar do sangue, o pulsar do coração.

Um tropel de ideias desordenadas agitou-se-lhe, confundiu-se-lhe no cérebro excitado; o raciocínio ausentou-se, venceu o desejo, triunfou a sugestão da CARNE.

Sentou-se rápido à beira da cama sem largar a moça, puxou-a para si, cingiu-a ao peito, segurou-lhe a cabeça com a mão esquerda, e, nervoso, brutal, colou-lhe a boca na boca, achatou os seus bigodes ásperos de encontro aos lábios macios dela, bebeu-lhe a respiração. Lenita tomou-se de um sentimento inexplicável de terror, quis fugir, fez um esforço violento para desenlaçar-se, para soltar-se.

Era o medo do macho, esse terrível medo fisiológico que, nos pródromos(2) do primeiro coito, assalta a toda a mulher, a toda a fêmea.

Baldado intento!

Retinham-na os braços robustos de Barbosa: em suas faces, em seus olhos, em sua nuca os beijos dele multiplicavam-se: esses beijos ardentes, famintos, queimavam-lhe a epiderme, punham-lhe lava candente no sangue, flagelavam-lhe os nervos, torturavam-lhe a carne.

Cada vez mais fora de si, mais atrevido, ele desceu à garganta, chegou aos seios túmidos, duros, arfantes. Osculou-os, beijou-os, a princípio respeitoso, amedrontado, como quem comete um sacrilégio; depois insolente, lascivo, bestial como um sátiro.

Crescendo em exaltação, chupou-os, mordiscou-lhes os bicos arreitados(3).

– Deixe-me! deixe-me! Assim não quero! implorava, resistia Lenita, com voz quebrada, ofegante, esforçando-se por escapar, e presa, todavia, de uma necessidade invencível de se dar, de se abandonar.

De repente fraquearam-lhe as pernas, os braços descaíram-lhe ao longo do corpo, a cabeça pendeu-lhe, e ela deixou de resistir, entregou-se frouxa, mole, passiva.

Barbosa ergueu-a nos braços possantes, pô-la, na cama, deitou-se junto dela, apertou-a, cobriu-lhe os seios macios com o peito vasto, colou-lhe os lábios nos lábios.

Ela deixava-o fazer, inconsciente, quase em delíquio, mal respondendo aos beijos frementes que a devoravam.

E corria o tempo.

Barbosa não podia prestar fé ao que se estava dando.

Descrente de mulheres, divorciado da sua, gasto, misantropo, ele abandonara o mundo, retirara-se com seus livros, com seus instrumentos científicos, para um recanto selvagem, para uma fazenda do sertão. Abandonara a sociedade, mudara de hábitos, só conservara, como relíquias do passado, o asseio, o culto do corpo, o apuro despretensioso do vestir. Levava a vida a estudar, a meditar; ia chegando ao quietismo, à paz de espírito de que fala Plauto(4), e que só se encontra no convívio sincero, sempre o mesmo, dos livros, no convívio dos ausentes e dos mortos. E eis que a fatalidade das coisas lhe atira no meio do caminho uma mulher virgem, moça, bela, inteligente, ilustrada, nobre, rica. E essa mulher apaixona-se por ele, força-o também a amá-la, cativa-o, aniquila-o. Faz mais: contra a expectativa, tornando realidade o improvável, o absurdo, vem ao seu quarto, interrompe-lhe o sono, entrega-se-lhe... Ele a tem entre os seus braços, lânguida, mole, roída de desejos; aperta-a, beija-a...

E... nada mais pode fazer!

Não que o detenham preconceitos, receio de consequências; não tem preconceitos, já não receia consequências.

O que o detém é um esgotamento nervoso de momento, uma impossibilidade física inesperada.

Debalde procura na concentração da vontade o tom da fibra nervosa, o robustecimento do organismo...

Sente o ridículo da posição, desespera, tem as mãos frias, banha-se em suor, chega a chorar. Afastou-se de Lenita, dementado, louco, escalavrando o peito com as unhas.

– Não posso! não posso! exclamou, ululou desatinado.

Deu-se uma inversão de papéis: em vista dessa frieza súbita, desse esmorecimento de carícias, cuja causa não podia compreender, nem sequer suspeitar; no furor do erotismo que a desnaturava, que a convertia em bacante impudica, em fêmea corrida, Lenita agarrou-se a Barbosa, cingiu-o, enlaçou-o com os braços, com as pernas, como um polvo que aferra a preia; com a boca aberta, arquejante, úmida, procurou-lhe a boca; refinada instintivamente em sensualidade, mordeu-lhe os lábios, beijou-lhe a superfície polida dos dentes, sugou-lhe a língua...

E o prazer que ela sentia revelava-o na respiração açodada; no hálito curto, quente; era um prazer intenso, frenético, mas... sempre incompleto, falho.

Barbosa arquejante tinha ímpetos de levantar-se, de tomar uma pistola, de arrebentar o crânio.

Pouco a pouco operou-se uma reação.

Sentiu Barbosa que, menos agitado, lhe circulava o sangue, que um calor doce se lhe expandia pelos membros, que o desejo físico se despertava, dominante, imperativo.

Recobrou-se de vez da passageira fraqueza, achou-se forte, potente, varão.

Com o ímpeto irresistível do macho em cio, mais ainda, do homem que se quer desforrar de uma debilidade humilhosa, retomou o papel de atacante, estreitou a moça nos braços, afundou a cabeça na onda sedosa e perfumada de seus cabelos que se tinham soltado...

– Lenita!

– Barbosa!

E um beijo vitorioso recalcou para a garganta o grito dorido da virgem que deixara de o ser...

Depois foi um tempestuar infrene, temulento, de carícias ferozes, em que os corpos se conchegavam, se fundiam, se unificavam; em que a carne entrava pela carne; em que frêmito respondia a frêmito, beijo a beijo, dentada a dentada.

Desse marulhar orgânico escapavam-se pequenos gritos sufocados, ganidos de gozo, por entre os estos curtos das respirações cansadas, ofegantes.

Depois um longo suspiro seguido de um longo silêncio. Depois a renovação, a recrudescência da luta, ardente, fogosa, bestial, insaciável.

Pela frincha da janela esboçou-se um rastilho de luz tênue.

Era o dia que vinha chegando.

– Deixe-me! deixe-me, Barbosa! É preciso ir, está amanhecendo, está clareando.

– Não, não! ainda não! aquilo não é o dia, é o luar.

– Vou! deixe-me, deixe-me.

E, fazendo um esforço violento, Lenita escapou-se do leito e dos braços de Barbosa.

No desvão da porta entreaberta enquadrou-se, por um momento, a sua sombra indecisa. Desapareceu.

Barbosa ergueu-se, vestiu-se rapidamente, saiu, fechou a porta, tirou, guardou no bolso a chave.

Lenita do seu quarto ouviu-lhe, contou-lhe as passadas que ressoavam fortes.

A moça estava com febre; tinha a cabeça em fogo; sentia-se zonza, atordoada; via a todo o momento discos luminosos, com um núcleo que se alargava, cambiando de cores, passando do verde-escuro ao vermelho-cobre; ardia-lhe a garganta, a boca estava peganhenta.

No quarto deserto de Barbosa o rastilho de luz, coado pela frincha da janela, ia bater sobre a cama desarranjada: na alvura dos lençóis amarrotados punham notas muito vivas algumas manchas de sangue frescas, úmidas, rubras.



Notas:

(1) Arrepiada.

(2) Prenúncios.

(3) Estimulados sexualmente.

(4) Comediógrafo romano (254-184 a.C.).



(A carne)



(Ilustração: Tainá Maneschy)


terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

CRIADOR E CRIATURA, de Alexandra Lopes da Cunha

 


Criaste um demônio

ao pousar em mim teus olhos

escuros de pólvora.

Queimei, incandesci,

desabrochei em primavera antecipada,

rubra flor carnívora,

expectante de ti.

Deste luz a este ser faminto dos teus afetos

e te foste,

irresponsavelmente desavisado,

as mãos nos bolsos, aos lábios,

uma melodia sibilante.

Me fiz em teus olhares,

deste forma ao meu corpo

na dança de tuas mãos,

moldaste-me ao teu gosto

e te foste!

A cria que iluminaste

com o fogo do teu desejo

consome-se,

devora a si mesma,

grita, urra sua dor

de amante órfã.

Por que te foste?



(Ilustração: Marie Laurencin)