quinta-feira, 28 de setembro de 2023

O ANO EM QUE EU VIREI BRANCO, de Rubens Akira Kuana

 




eu nasci em uma cidade do interior de Santa Catarina

onde até meados dos anos 2000 eu e meu pai éramos os únicos

japoneses na cidade (minha mãe descende de alemães e italianos)

desde criança eu lembro que ninguém nunca soube escrever

o nome do meu pai corretamente: Siogi, Xiogui, Chiodi

quando eu lia um recibo um bilhete uma anotação

ninguém acertava seu nome: Sioji às vezes eu ouvia

meu pai soletrar no telefone s de serpente

i de ilha o de olho j de jiboia i de ilha de novo

anos mais tarde quando eu assisti um filme de Akira Kurosawa

(Tengoku to jigoku / High and Low / Céu e Inferno)

eu aprendi que ninguém nunca acertou sequer a pronúncia de seu nome

em japonês o jota se pronuncia quase como um dê: Si-ô-di

anos mais tarde eu descubro que no Japão Sioji seria escrito como Shoji, Shouji ou Shohji

mas como filhos de imigrantes pobres meus avós fazendeiros não tinham acesso a um cartório

que compreendesse esses detalhes ou quem sabe

nem mesmo meus pobres avós soubessem como escrever o nome do meu pai

durante os anos em que cresci na cidade do interior eu também perdi o meu nome

ninguém me chamava de Rubens (meus pais me chamavam de ‘mano’)

me chamavam de: japonês, japa, japa-japa-girl, japinha, china-in-box, china (com a pronúncia em inglês mesmo)

e toda vez que ouvia esses nomes eu me sentia extremamente consciente

do meu corpo dos meus olhos do meu nariz dos meus pelos das minhas genitais

mas eu me acostumei a esse nome e esse nome passou a me definir

da mesma maneira com que um prego define um martelo

batendo batendo e batendo

foi só quando eu me mudei para Curitiba uma cidade onde há mais do que uma

família japonesa (quem diria) é que da noite para o dia as pessoas que ia conhecendo lá

passaram a me chamar de Rubens e quando eu tentava explicar para elas

podem me chamar de japa (pois esse era o meu nome até aquele momento)

elas me olhavam confusas e diziam: mas você nem é japonês

(aparentemente meus olhos não são puxados o suficiente)

foi então que eu soube que podia ser branco isto é meu corpo continuou o mesmo

mas foi então que passei a ser tratado como um branco e ter direito a um nome próprio

o ano foi 2010





(Digestão; 2014)



(Ilustração:Manabu Mabe - autorretrato, 1950)

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

A SEGUIR, EM OPRAH, de Michael Sherman

 


Na segunda-feira, 2 de outubro de 1995, pela primeira vez em seus dez anos de existência, o Oprah Winfrey Show apresentou um sensitivo como convidado principal. Era Rosemary Altea (um pseudônimo), que afirma se comunicar com os mortos. O seu livro sobre essa extraordinária afirmação – The Eagle and the Rose: a Remarkable True Story – ficou várias semanas na lista dos mais vendidos do The New York Times e do The Wall Street Journal (The Eagle, “A Águia”, é um nativo americano – o espírito-guia de Altea – e Altea é “the Rose”). Oprah começou se justificando, dizendo que trazia a convidada apenas porque vários amigos seus de confiança haviam descrito Altea como alguém de excelência no mundo da paranormalidade. Em seguida, a produção passou um vídeo de vários minutos, gravado no dia anterior, que mostrava Altea com uma pequena plateia num flat de Chicago, fazendo inúmeras perguntas, tecendo considerações e às vezes fornecendo algumas informações específicas sobre os entes queridos falecidos daquelas pessoas. Altea passou então a lidar com a plateia do estúdio. “Alguém aqui perdeu um ente querido por afogamento?” “Vejo um homem atrás de você.” “Havia um barco no acidente?” E assim por diante.

Ao contrário de muitos sensitivos que tenho visto, Altea estava indo mal. A plateia não dava as dicas de que ela precisava para “adivinhar” a sua informação. Por fim, já no meio do programa, ela descobriu um veio fértil. Recorrendo a uma mulher de meia-idade parcialmente escondida atrás de uma câmera do estúdio, Altea disse que a mulher havia perdido a mãe dela, que morrera de câncer. A mulher soltou um grito e começou a chorar. Além disso, Altea observou, o rapaz perto da mulher era filho dela e estava com problemas na escola e indeciso quanto à carreira. O rapaz confirmou a observação e contou a sua história triste. A plateia ficou assombrada. Oprah, em silêncio. Altea desencavou mais detalhes e previsões. Após a gravação, uma mulher ficou em pé e anunciou que havia vindo ao estúdio para desmascarar Altea, mas que agora passara a acreditar.

Entra o cético. Três dias antes da gravação do programa, uma das produtoras de Oprah me ligou. Mostrando-se chocada por ver que o editor da revista Skeptic nunca ouvira falar de Rosemary Altea, a produtora já se preparava para convidar outra pessoa a participar do programa quando eu lhe disse, sem ter visto nada, exatamente de que maneira Altea trabalhava. A produtora me mandou uma passagem de avião. Nos poucos minutos que me foram dados, expliquei que aquilo que a plateia acabara de testemunhar podia ser visto no Magic Castle em Hollywood, em qualquer dos shows noturnos que apresentasse um leitor de pensamentos capaz de trabalhar bem uma plateia. Quando digo “trabalhar” me refiro à velha técnica de leitura a frio, em que o leitor de pensamentos faz perguntas gerais até descobrir alguém que se mostre generoso em dar respostas. As perguntas contínuas acabam acertando o alvo. “Foi câncer de pulmão? É, porque estou sentindo uma dor aqui no peito.” A pessoa então diz: “Foi ataque cardíaco”. “Ataque cardíaco? Sim, isso explica as dores no peito”. Ou: “Estou vendo um afogamento. Havia um barco no local? Estou vendo algo parecido com um barco na água, acho que está num lago ou num rio, talvez”. E assim por diante. Numa plateia de 250 pessoas, todas as principais causas de morte estarão representadas.

Os princípios da leitura a frio são simples: comece pelo geral (acidentes de carro, afogamentos, ataques do coração, câncer), mantenha o diálogo positivo (“Ele quer que você saiba que ele a ama muito”, “Ela pede para lhe dizer que não está mais sofrendo”, “A dor dele já foi embora agora”) e leve em conta que sua plateia vai lembrar dos acertos e esquecer dos erros (“Como é que ela sabia que era câncer?” “Como é que descobriu o nome dela?”). Mas como foi que Rosemary Altea, sem perguntar, soube que a mãe daquela mulher morrera de câncer e que o filho dela estava indeciso em relação à carreira? Para Oprah, para 250 testemunhas oculares no estúdio e para milhões de espectadores da tevê, Altea deu a impressão de ter uma linha direta com o mundo espiritual.

A explicação, porém, é bem mais deste mundo. Leitores de pensamento chamam de leitura quente aquela feita quando eles dispõem de informação prévia sobre a pessoa. Naquele dia, antes do programa, eu dividi uma limusine do hotel até o estúdio com vários outros convidados, entre eles a tal mulher e o filho dela. No trajeto, eles mencionaram que já haviam encontrado Altea antes e tinham sido convidados pelas produtoras do Oprah para compartilhar a sua experiência com o público da televisão. Como quase ninguém sabia desse pequeno fato, Altea conseguiu usar esse conhecimento prévio da mulher e do filho para transformar uma derrota em vitória. Naturalmente eu apontei esse fato, mas, por incrível que pareça, a mulher negou que já conhecia Altea e essa observação simplesmente foi cortada do programa na edição final.

Duvido que Altea engane as suas plateias usando propositadamente as técnicas de leitura a frio. Ao contrário, acho que ela desenvolveu de boa fé uma crença em seus “poderes psíquicos” e de boa fé aprendeu a leitura a frio por tentativa e erro. Ela diz que tudo começou em novembro de 1981, quando “acordei de manhã cedo e o vi em pé junto à minha cama, olhando para mim. Embora eu estivesse ainda meio dormindo, soube que não era uma aparição, um espectro na noite” (1995, pág. 56). A partir daí, como o seu livro revela, foi um longo processo de se abrir para a possibilidade de um mundo espiritual por meio do que os psicólogos chamam de alucinações hipnopômpicas – visões de fantasmas, alienígenas ou entes queridos já falecidos que ocorrem conforme a pessoa emerge do sono profundo – e interpretações místicas de experiências incomuns.

Mas, quer falemos de ratos pressionando uma barra para conseguir comida, quer de humanos jogando nos caça-níqueis de Las Vegas, basta um acerto ocasional para que eles voltem querendo mais. A crença e o comportamento de Altea foram moldados por um condicionamento operante num programa de reforço de índice variável – montes de erros, mas com acertos suficientes para moldar e manter o comportamento. Um feedback positivo na forma de clientes felizes pagando até 200 dólares por sessão era um mecanismo suficiente para reforçar a própria crença nos seus poderes e para estimulá-la a aprimorar as suas habilidades psíquicas.



(Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas; tradução de Luís Reyes Gil)




(Ilustração: Salvador Dalí)

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

BEIJO ETERNO, de Olavo Bilac

         





Diz tua boca: "Vem!"

"Inda mais!" diz a minha, a soluçar...Exclama

Todo o meu corpo que o teu corpo chama:

"Morde também!"

Ai! morde! que doce é a dor

Que me entra as carnes, e as tortura!

Beija mais! morde mais! que eu morra de ventura,

Morro por teu amor!

Ferve-me o sangue: acalma-o com teu beijo!

Beija-me assim!

O ouvido fecha ao rumor

Do mundo, e beija-me, querida!

Vive só para mim, só para a minha vida,

Só para o meu amor!






(Ilustração:escultura de William Zadig - o idílio ou o beijo eterno dedicada a Olavo Bilac)

terça-feira, 19 de setembro de 2023

O PASSA-PAREDES, de Marcel Aymé

 


Havia em Montmartre, no 3º andar do 75 bis da rua Orchampt, um excelente homem chamado Dutilleul que possuía o dom singular de passar através de paredes sem ser incomodado. Ele portava um pincenês , uma pequena barbicha negra e era empregado da terceira divisão do Ministério de Registro. No inverno, ele ia para seu escritório de ônibus, e na bela estação, fazia o trajeto a pé, sob seu chapéu-coco.

Dutilleul acabava de fazer 43 anos quando teve a revelação de seu poder. Certa noite, uma breve pane elétrica o surpreendera no vestíbulo de seu pequeno apartamento de solteiro. Ele tateou um momento na escuridão e, restabelecida a corrente, encontrou-se na escada do 3º andar. Como sua porta de entrada estava trancada a chave por dentro, o incidente o fez refletir e, apesar das advertências de sua razão, decidiu entrar novamente em casa como tinha saído, passando através da parede. Essa estranha faculdade, que não responde a nenhuma de suas aspirações, não deixava de contrariá-lo um pouco, e no sábado seguinte, aproveitando a semana inglesa, foi consultar o médico do bairro para expor-lhe seu caso. O doutor pôde-se convencer que ele dizia a verdade e, após o exame, descobriu a causa do mal no endurecimento helicoidal da parede estrangulada do corpo tireóideo. Ele prescreveu que se afadigasse mais no trabalho, e à razão de dois comprimidos ao ano, a absorção do pó de píretro tetravalente, mistura de farinha de arroz e de hormônio de centauro.

Engolido o primeiro comprimido, Dutilleul guardou o medicamento na gaveta e não pensou mais nisso. Quanto à recomendação de cansar-se mais no trabalho, sua atividade de funcionário era regrada por hábitos não complacentes a nenhum excesso, e suas horas de lazer, consagradas à leitura do jornal e à sua coleção de selos, tampouco o obrigavam a um gasto insensato de energia. No início do ano, guardava intacta a capacidade de passar através de paredes, mas nunca a utilizava, salvo por descuido, sendo pouco curioso por aventuras e resistente à sedução da imaginação. Nem mesmo lhe ocorria a ideia de entrar em sua casa de outra maneira, a não ser pela porta e depois de tê-la devidamente aberto fazendo mover a maçaneta. Talvez teria envelhecido na paz de seus hábitos sem ter a tentação de colocar seus dons a prova, se um acontecimento extraordinário não viesse de repente agitar sua existência. O Sr. Mouron, seu subchefe de escritório, chamado para outras funções, foi substituído por um certo Sr. Lécuyer, que tinha a palavra breve e o bigode em escova. Desde o primeiro dia, o novo subchefe viu com maus olhos Dutilleul por portar um monóculo com corrente e uma barbicha negra, e começou a tratá-lo como uma velha coisa incômoda e um pouco asquerosa. O mais grave, porém, era que ele pretendeu introduzir em seu serviço, reformas, de um alcance considerável e feitas expressamente para perturbar a quietude de seu subordinado.

Durante vinte anos, Dutilleul começava suas cartas pela fórmula seguinte: ―Referindo-me à vossa honrada correspondência do dia tal e tendo como memorando nossa troca de cartas anteriores, tenho a honra de vos informar... Fórmula que Sr. Lécuyer pretende substituir por outra de aspecto mais americano: ―Em resposta à carta do dia tal, eu lhe informo... Dutilleul não pôde acostumar-se a essas maneiras epistolares. Ele voltava, contudo, à sua maneira tradicional com uma obstinação mecânica que lhe valeu antipatia crescente do subchefe. O ambiente do Ministério de Registro tornava-se quase pesado para ele. De manhã, entregava-se ao seu trabalho com apreensão e à noite, na cama, chegava frequentemente a meditar um quarto de hora inteira antes de encontrar o sono.

Aborrecido por esta vontade retrógrada que comprometia o sucesso de suas reformas, M. Lécuyer deportou Dutilleul para um reduto meio escuro, muito próximo ao seu escritório. Podia-se acessá-lo por uma porta baixa e estreita dando para o corredor e trazendo ainda em letras grandes a inscrição, Depósito. Dutilleul tinha aceitado de coração conformado esta humilhação sem precedente, mas em casa, lendo no seu jornal a notícia de algum feito sangrento, surpreendeu-se sonhando que M. Lécuyer era a vítima.

Certo dia, o subchefe irrompeu no reduto agitando no ar uma carta e se pôs a berrar:

― Refaça este lixo! Refaça esta inominável porcaria que desonra meu serviço! Dutilleul queria protestar, mas M. Lécuyer, em voz tonante, tratou-o de barata rotineira e antes de sair, amassando a carta que tinha na mão, jogou-a na cara de Dutilleul. Este era modesto, porém orgulhoso. Sozinho, no seu reduto, o sangue lhe esquentou e, de repente, sentiu-se atormentado por uma inspiração. Deixando seu assento entrou pela parede que separava o seu escritório do subchefe, mas entrou com prudência, de tal maneira que somente sua cabeça surgiu do outro lado. O Sr. Lécuyer sentado em sua mesa de trabalho, com uma pena ainda nervosa deslocava uma vírgula no texto de um funcionário submetido à sua aprovação, quando escutou tossir em seu escritório. Levantando os olhos, descobriu com um susto indescritível a cabeça de Dutilleul colada na parede como um troféu de caça. E esta cabeça estava viva. Através do monóculo com corrente, ela lançava sobre ele um olhar de ódio. Mais do que isso, a cabeça se pôs a falar:

― Senhor, diz ele, o senhor é um canalha, um estúpido e um moleque de rua.

Pasmo de horror, o Sr. Lécuyer não podia desprender os olhos daquela aparição. Enfim, arrancou-se de sua poltrona, saltou para o corredor e correu para o reduto. Dutilleul, com a pena na mão, estava acomodado em seu lugar habitual, em atitude pacífica e laboriosa. O subchefe o olhou longamente e, após ter balbuciado algumas palavras, voltou ao seu escritório. Bastava sentar-se que a cabeça reaparecia na parede.

― Senhor, o senhor é um canalha, um estúpido e um moleque de rua.

No decurso desse dia de trabalho, a temida cabeça apareceu vinte e três vezes na parede e, no dia seguinte, continuou no mesmo ritmo. Dutilleul, que tinha adquirido certa facilidade nesse jogo, não se contentava somente em praguejar contra o subchefe. Ele proferia ameaças obscuras gritando, por exemplo, em uma voz sepulcral, pontuada de risos verdadeiramente demoníacos:

― Bicho do mato! Bicho do mato! Pelo de gato! (risos) Ronda um calafrio a descornar qualquer corujinha-do-mato! (risos)

Ouvindo isso, o pobre subchefe tornava-se cada vez mais pálido, mais sufocado, arrepiavam-se os cabelos e escorria pelas costas um horrível suor de agonia. No primeiro dia, ele emagreceu uma libra. Na semana seguinte, começou a emagrecer rapidamente, pegou o hábito de comer sopa com o garfo e saudar militarmente os policiais. No início da segunda semana, uma ambulância veio pegá-lo em seu domicílio e levá-lo a um hospital.

Dutilleul, livre da tirania do Sr. Lécuyer, pôde voltar à suas queridas fórmulas:

―Referindo-me a vossa honrada correspondência do dia tal... Porém, estava insatisfeito. Alguma coisa reclamava uma necessidade nova e irresistível, que não era nada menos do que a necessidade de passar através das paredes. Sem dúvida poderia fazê-lo facilmente, por exemplo, em sua casa, e assim o fez. Mas, o homem que possui dons brilhantes não pode satisfazer-se por muito tempo em exercê-los num objeto medíocre. Passar através de paredes não poderia, aliás, constituir um fim em si. É o começo de uma aventura, que invoca uma conclusão, um desenvolvimento e, em suma, uma retribuição. Dutilleul compreendeu-o muito bem. Sentia em si uma necessidade de expansão, um desejo crescente de se realizar, de superar a si mesmo, e certa nostalgia que era alguma coisa como o chamado detrás da parede. Infelizmente, faltava-lhe um propósito. Procurou inspiração na leitura do jornal, particularmente nos cadernos de política e de esporte, que lhe pareciam ser atividades honradas, mas finalmente compreendendo que não ofereciam nenhuma solução às pessoas que passam através de paredes, voltou-se sobre as notícias que se revelaram mais sugestivas. O primeiro roubo ao qual se entregou teve lugar em um grande estabelecimento de crédito na margem direita do Sena. Tendo atravessado uma dezena de paredes e divisórias, adentrou em vários cofres-fortes, encheu os bolsos de notas e, antes de se retirar, assinou no local do roubo, com giz vermelho, o pseudônimo Garou-Garou , com uma forte e bonita rubrica que foi reproduzida no dia seguinte por todos os jornais. Ao final da semana, este nome Garou-Garou conheceu uma extraordinária fama. A simpatia do público dirigia-se sem reservas a este prestigioso ladrão que desafiava tão bem a polícia. Ele se destacava a cada noite por uma nova façanha executada, seja em detrimento de um banco, de uma joalheria, ou de um rico particular. Em Paris como na província, não havia mulher um pouco sonhadora que não tivesse o ardente desejo de pertencer de corpo e alma ao terrível Garou-Garou. Após o roubo do famoso diamante de Burdigala e o furto do banco municipal, que tiveram lugar na mesma semana, o entusiasmo da multidão atingiu o delírio. O ministro do Interior teve que se demitir e arrastou em sua queda o ministro dos Registros. Apesar de Dutilleul ter-se tornado um dos homens mais ricos de Paris, estava sempre pontualmente em seu escritório e falavam dele para as palmas acadêmicas. De manhã, no ministério do Registro, seu prazer era escutar os comentários que faziam os colegas sobre suas façanhas da véspera.

― Este Garou-Garou, diziam, é um homem formidável, um super-homem, um gênio.

Ao escutar tais elogios, Dutilleul ficava vermelho de embaraço e por trás do monóculo com corrente, seu olhar brilhava amigavelmente e com gratidão. Certo dia, este ambiente de simpatia deixou-o tão confiante que não acreditou poder guardar o segredo por mais tempo. Com um resto de timidez, considerou seus colegas reunidos ao redor do jornal que relatava o roubo do Banco da França e declarou com uma voz modesta.

—Vocês sabem, Garou-Garou, sou eu.

Um riso enorme e interminável acolheu a confidência de Dutilleul que recebeu, por escárnio, o cognome de Garou-Garou. À noite, na hora de deixar o ministério, ele era objeto de zombaria sem fim da parte dos seus camaradas e a vida parecia-lhe menos bela.

Alguns dias mais tarde, Garou-Garou foi apanhado por uma ronda militar noturna em uma joalheria na Rua da Paz. Ele deixou sua assinatura sobre o balcão e se pôs a cantar uma canção de bêbado despedaçando diversas vitrines com a ajuda de uma taça em ouro maciço. Ter-lhe-ia sido fácil penetrar na parede e escapar, assim, da ronda noturna, mas tudo leva a crer que ele gostaria de ser pego e provavelmente com a única finalidade de confundir seus colegas cuja incredulidade o mortificara. Estes, de fato, ficaram bem surpreendidos quando os jornais do dia seguinte publicaram na primeira página a fotografia de Dutilleul. Eles lastimaram amargamente por ter subestimado seu genial camarada e lhe prestaram uma homenagem, deixando crescer uma barbicha. Alguns, até mesmo, levados pelo remorso e admiração, tentaram lançar mão na carteira ou no mostruário de família de seus amigos e conhecidos.

Julgaram sem dúvida que o feito de se deixar prender pela polícia para causar admiração em alguns colegas mostra uma grande volubilidade, nada digna de um homem excepcional, mas a força aparente da vontade é muito pouca coisa em tal determinação. Renunciando à liberdade, Dutilleul acreditava ceder a um orgulhoso desejo de revanche, quando na realidade deslizava simplesmente sobre a ladeira de seu destino. Para um homem que passa através de paredes, não há carreira pouco arrojada se ele não experimentou, ao menos uma vez, a prisão. Quando Dutilleul adentrou a prisão de Santé, teve a impressão de ser adulado pelo destino. A espessura dos muros era para ele um verdadeiro festim. No dia seguinte ao seu encarceramento, os guardas descobriram, com assombro, que o prisioneiro tinha fixado um prego na parede de sua cela e que havia pendurado nele um relógio de ouro legítimo do diretor da prisão. Ele não pôde ou não quis revelar como obteve este objeto. O relógio foi entregue ao seu proprietário e, no dia seguinte, foi achado na cabeceira da cama de Garou-Garou com o primeiro tomo dos Três Mosqueteiros emprestado da biblioteca do diretor. O pessoal da Santé estava extremamente cansado. Os guardas se queixavam, além disso, de receber pontapés no traseiro, cuja origem era inexplicável. Parecia que as paredes tinham, não só orelhas, mas também pés. A prisão de Garou-Garou já durava uma semana, quando o diretor da prisão, entrando em uma manhã em seu escritório, encontrou sobre sua mesa a seguinte carta:

― Senhor diretor, reportando-me à nossa conversa do último dia 17 e tendo, por memorando, vossas instruções gerais de 15 de maio do ano passado, eu tenho a honra de lhe informar que vim acabar a leitura do segundo tomo dos Três Mosqueteiros e que espero escapar esta noite entre onze e vinte e cinco e onze e meia. Eu lhe peço, senhor diretor, aceitar a expressão de meu profundo respeito. Garou-Garou.

Apesar da estreita vigilância da qual foi objeto naquela noite, Dutilleul escapou às onze e meia. Ao ser conhecida pelo público, na manhã seguinte, a notícia provocou em toda parte um entusiasmo magnífico. Entretanto, tendo efetuado um novo roubo que levou ao auge da sua popularidade, Dutilleul parecia pouco preocupado em esconder-se e circulava em Montmartre sem nenhuma precaução. Três dias depois de sua fuga, ele parou na rua Caulaincourt, no café Rêve, um pouco antes do meio-dia, enquanto bebia vinho branco cítrico com os amigos.

Reconduzido à prisão e trancado a triplo ferrolho no calabouço sombrio, Garou-Garou fugiu na mesma noite e foi dormir no apartamento do diretor, no quarto de visitas. Na manhã seguinte, por volta das nove horas, ele soava a campainha para criada trazer seu café da manhã e deixou-se ser pego na cama, sem resistência, pelos guardas alertados. Enfadado, o diretor colocou um posto policial na porta do seu calabouço e o deixou a pão e água. Por volta do meio-dia, o prisioneiro foi almoçar no restaurante vizinho à prisão e, depois de ter bebido seu café, telefonou para o diretor.

— Alô! Senhor diretor, eu estou confuso, mas há pouco, na hora de sair, esqueci-me de pegar sua carteira, tanto que eu me encontro constrangido no restaurante. O senhor quer ter a bondade de mandar alguém para pagar a conta?

O diretor foi lá pessoalmente e enfureceu-se a ponto de proferir ameaças e injúrias. Atingido em seu orgulho, Dutilleul fugiu na noite seguinte e para não voltar mais. Desta vez, ele tomou a precaução de fazer a barba e substituir seu monóculo com corrente por óculos de tartaruga. Uma boina esporte e um paletó de largos xadrezes com calça de golfe terminaram de transformá-lo. Instalou-se no pequeno apartamento da avenida Junot, para onde, desde antes de sua primeira prisão, mandara transportar uma parte de sua mobília e os objetos que mais apreciava. O ruído de sua fama começava a deixá-lo. E desde sua estadia na Santé, ele estava desanimado em relação ao prazer de passar através da parede. As mais espessas, as mais orgulhosas lhe pareciam, agora, simples biombos, e sonhava entranhar-se no coração de alguma maciça pirâmide. Amadurecendo o projeto de uma viagem ao Egito, ele levava uma vida mais pacífica, dividido entre sua coleção de selos, o cinema e os longos passeios por Montmartre. Sua metamorfose era tão completa que passava calvo com óculos de tartaruga, ao lado do melhor amigo sem ser reconhecido. Somente o pintor Gen Paul, a quem não escaparia uma mudança repentina na fisionomia de um velho habitante do bairro, tinha percebido sua verdadeira identidade. Uma manhã deparou-se com Dutilleul na esquina da Rua Abreuvoir, ele não pôde deixar de lhe dizer em sua grosseira gíria:

— Diz, então, eu te vejo de Cafetão para enrolar aqueles trutas.

Isto significa mais ou menos em linguagem vulgar:

— Eu vejo que você se disfarçou de elegante para confundir os inspetores da segurança.

— Ah! murmurou Dutilleul, você me reconheceu!

Ele ficou incomodado e decidiu apressar sua partida para o Egito. Foi na tarde do mesmo dia que se apaixonou por uma formosura loura vista duas vezes na rua Lepic em quinze minutos de intervalo. Ele esqueceu imediatamente sua coleção de selos, o Egito e as pirâmides. Do seu lado, a loura o olhara com muito interesse. Não há nada que fale mais à imaginação das jovens de hoje do que calças de golfe e um par de óculos de tartaruga. Isso cheira a cineasta e faz sonhar com coquetéis e noites da Califórnia. Infelizmente, a bela ― Dutilleul foi informado disso por Gen Paul ― era casada com homem bruto e ciumento. Este marido desconfiado que levava, aliás, uma vida agitada, deixava regularmente sua mulher entre dez horas da noite e quatro da manhã, mas antes de sair, tomava a precaução de trancá-la no quarto, com duas voltas de chave, todas as janelas fechadas a cadeado.

Durante o dia, ele a vigiava estreitamente, chegando mesmo a segui-la pelas ruas de Montmartre.

― Sempre vesgo que é. É da grossa natureza de vadio que não admite galhos enfeitando sua cabeça.

Mas este aviso de Gen Paul não conseguiu inflamar Dutilleul. No dia seguinte, cruzando a jovem, na Rua Tholozé, ousou segui-la até uma leiteria e, enquanto, ela esperava sua vez de ser atendida, ele lhe disse que a amava respeitosamente e que sabia de tudo: o marido perverso, a porta trancada a chave e as janelas, mas que ele estaria nesta mesma noite, em seu quarto. A loira corou, o litro de leite tremeu na sua mão e, com os olhos molhados de ternura, ela suspirou debilmente:

― Ai de mim, senhor, é impossível.

Na noite deste dia radiante, por volta das 10 horas, Dutilleul estava de sentinela na Rua Norvins e vigiava um robusto muro, atrás do qual se encontrava uma pequena casa da qual ele avistava somente o catavento e a chaminé. Uma porta se abriu neste muro e um homem, após tê-la fechado cuidadosamente a chave atrás de si, desceu em direção à Avenida Junet. Dutilleul esperou até vê-lo desaparecer, bem longe na curva da descida, e contou ainda até dez. Então, atirou-se, entrou no muro a passo de ginasta e, sempre correndo através dos obstáculos, penetrou no quarto da bela reclusa. Ela o acolheu com embriaguez e eles se amaram até uma hora tardia.

No dia seguinte, Ditilleuil teve a contrariedade de sofrer de violentas dores de cabeça. A coisa era sem importância e ele não iria, por tão pouco, faltar a seu encontro. Entretanto, tendo, por acaso, descoberto os comprimidos espalhados no fundo da gaveta, ele tomou um de manhã e um ao meio-dia. À noite, suas dores de cabeça estavam suportáveis e a exaltação fez com que ele as esquecesse. A jovem o esperava com toda a impaciência que as lembranças da véspera haviam provocado nela, e eles se amaram, esta noite, até as três horas da manhã. Quando foi embora, Dutilleul, atravessando as divisórias e as paredes das casas, teve a impressão de uma fricção incomum nos quadris e nos ombros. Contudo, ele acreditou que não era necessário dar atenção a isso. Aliás, foi penetrando no muro que sentiu claramente uma sensação de resistência. Parecia-lhe mover-se em uma matéria ainda fluida, mas que se tornava pastosa e adquiria, a cada um de seus esforços, mais consistência. Tendo êxito ao se alojar na espessura do muro, percebeu que não avançava mais e lembrou-se com terror dos dois comprimidos que ele havia tomado durante o dia. Esses comprimidos, que ele tinha acreditado ser aspirinas continham, na realidade, o pó de píretro tetravalente prescrito pelo doutor no ano passado. O efeito dessa medicação unido a esta intensa fatiga por excesso de trabalho, manifestava-se de uma maneira súbita.

Dutilleul estava petrificado no interior do muro. Até hoje ele está lá, incorporado à pedra. Os noctâmbulos que descem a rua Norvins, na hora em que o rumor de Paris se acalma, escutam uma voz abafada que parece vir d’além túmulo e que tomam por lamentos do vento sibilante nas esquinas da Colina. É Garou-Garou Dutilleul que lamenta o fim de sua gloriosa carreira e o pesar dos amores breves demais. Certas noites de inverno, ocorre que o pintor Gen Paul, tomando sua guitarra, aventura-se, na solidão sonora da rua Norvins, para consolar com uma canção o pobre prisioneiro, e as notas, voando de seus dedos enrijecidos, penetram no coração da pedra como as gotas de luar.



(Tradução de Jacqueline Silva Cidreira)

(Ilustração: Jean Marais - Le passe-muraille, Montmartre – Paris)


sábado, 16 de setembro de 2023

NOITE CLARA DEPOIS DA PRIMEIRA NOITE, de Iara Rennó

 




ainda sinto seu cheiro que me compele

suspiros e arrepios à flor da pele

pois ele veio em cheio lobo e homem

quando só com mais fome se mata a fome

porque olhos nos olhos penetrou-me

enquanto mordíamos ambos os lábios

carnudos doces úmidos e cálidos



entre as ancas beijou-me com calma

como se quisesse penetrar minh’alma

como quem reza se ajoelha e agradece

reverencia a lua cheia que desce

recebe a luz do novo dia que nasce



me deito só mas em sua companhia

em meio a bruma da memória viva

minha vulva pulsa e se regozija

excita-se e seus licores regurgita

toco meu seio esquerdo que se entumece

por onde andará quem já não aparece?

largo-me nos braços largos da lembrança

e caio em sono bendito feito criança



(Língua brasa carne flor)



(Ilustração: George Hendrik Breitner - mujer dormida)

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

NO TEMPO DA MORTE, A MORTE DO TEMPO, de Julián Fuks



E então, num momento indefinível entre os primeiros raios do amanhecer e a luz ofuscante do meio-dia, o tempo deixou de fazer sentido. Não houve alarde, não houve ruído, nenhum estrondo que anunciasse algo tão atípico. Alguém poderia imaginar relógios paralisados, calendários embaralhados, dias e noites fundindo os seus limites e tingindo o céu de cinza, mas não houve nada disso. O tempo desprovido de sentido era um acontecimento coletivo, mas estritamente íntimo. Não provocava mais que um torpor, uma indiferença, um tipo peculiar e profundo de desalento.

Difícil conceber a variedade de maneiras como a inexistência do tempo afetou cada casa, cada indivíduo detido numa hora infinita. Uns aumentaram o ritmo de suas tarefas corriqueiras, cobrindo o silêncio com um automatismo de gestos, lavando as mãos incessantemente, limpando com obsessão salas, cozinhas, banheiros. Outros não conseguiram impedir que o torpor tomasse conta dos seus corpos, e assim se mantiveram atirados nos sofás, inertes e impotentes — acompanhando com atenção difusa as notícias sempre semelhantes a si mesmas, toda a matemática da tragédia. Era possível que algum resquício do tempo ainda se deixasse mensurar, não por minutos, horas, dias, mas por acumulação de mortos nos gráficos televisivos.

Tudo eu observava pela janela, passeando o olhar entre os apartamentos vizinhos, me distraindo com aquela vida em frestas que a paisagem me oferecia. No exato momento da morte do tempo, se bem me lembro, eu estava deitado na rede contemplando apenas as ruas vazias. Senti que aquele instante se desgarrava do anterior e do seguinte, eternizava-se em sua insignificância, ganhava peso. O que se produzia era um inchaço do presente, como se seu vulto engordasse tanto que ocultasse o passado e bloqueasse a vista do futuro inteiro. Mesmo dos dias próximos, dias ensolarados de liberdade e inocência, já me restavam apenas lembranças remotas, carregadas de nostalgia, à beira do esquecimento. Quanto ao futuro, era tão incerto que se cancelava completamente, tornando insensato todo plano que eu concebesse, todo amor que cobiçasse, todo livro que almejasse escrever. A paralisia do tempo, eu percebia, tomava de uma vez as casas e os corpos, condenando à imobilidade também as pernas, os braços, as mãos, a existência.

Naquele dia, ou em outro qualquer, o Brasil contabilizava mil e uma mortes. Suponho que o simbolismo do número tenha contribuído à falência do tempo, pois lhe roubava até mesmo os ponteiros fatais, esgotava a unidade de medida derradeira. As mil e uma mortes eram como as mil e uma noites, eram mil mortes e mais uma morte, eram infinitas mortes e mais uma, eram infinitas mortes. Uma população inteira descobria, num mesmo interminável instante, que era capaz de experimentar em vida o caráter extemporâneo da morte. Que não era nem preciso vivenciar a dor e a infelicidade para se encontrar fora do tempo, que bastava a iminência da dor e da infelicidade — bastava que essa iminência se tornasse ampla e impessoal para que toda a ordem temporal colapsasse.

E então, quando já não restava mensuração possível, quando tudo era desnorteio e temor e tédio, vi que não demoraram a aparecer os aproveitadores, os que queriam fazer da ausência do tempo um tempo velho. Pouco a pouco, embora tudo se assimilasse num só momento, os rostos mais frequentes nos jornais foram ganhando feições sinistras, suas vozes se fazendo mais sombrias, suas expressões se assemelhando cada vez mais às de outras décadas. Quem observasse com atenção podia ver nas maiores autoridades do país a imagem quase caricata de figuras anacrônicas — sob os ternos o contorno das fardas, na sombra dos sapatos a forma dos coturnos, em suas mãos canetas longas como cassetetes.

Ouvi-los podia ser mais desesperador do que examinar seus gestos e vestimentas. Suas declarações eram o eco de outras declarações, sempre estapafúrdias e violentas. Começavam por desdenhar mortes e medidas preventivas, e contradizer pesquisas científicas, e pregar o uso de um elixir capaz de extinguir a pandemia. Passavam pela necessidade de retomar o regime de trabalho em detrimento de toda consequência, o desejo de produzir e cortar salários e derrubar a mata e, assim, abrir terreno para crescer. Culminavam, sempre, na perseguição de toda voz que se alçasse contra eles, na afronta direta a críticos e dissidentes, no anseio de subjugar seus inimigos políticos, todos comunistas, terroristas, subversivos.

Quando se calavam, produzia-se algo mais do que silêncio. Naquele dia, ou em outro qualquer, o que se produziu em mim foi um princípio de claustrofobia e a necessidade irreprimível de partir, subitamente. Deixar para trás o apartamento no qual me encerrei, deixar para trás aquela inércia coletiva em que eu me subsumia com passividade e inconsciência. Lembro que percorri as ruas a passos rápidos, e que os passos pareciam fabricar segundos, devolver à existência o compasso do tempo. Lembro que sentia alguma austeridade nas ruas vazias, nas sombras que se alongavam ominosamente, como se algo de obscuro e antigo pudesse me atacar a cada esquina. Ainda assim, ansiava por ver o rosto de alguém, o rosto de outro que não fosse eu, de quem quer que fosse, um estranho, um desconhecido — qualquer rosto humano despido de máscara ou janela me seria suficiente.

Foi sem surpresa que cheguei à casa dos meus pais, embora aquele não tivesse sido um destino consciente. Toquei a campainha com a mão protegida pela manga do agasalho, e me afastei uns passos para guardar a distância recomendável. Meus pais saíram sem pressa, cada um carregando sua cadeira dobrada debaixo do braço, dispondo-a no jardim, a poucos metros da calçada. Em seus movimentos havia serenidade, quase paz, como se o encontro não tivesse nada de excepcional. Mesmo sendo esses seres pacatos, já foram eles os dissidentes, já foram eles os subversivos, militantes clandestinos erguendo-se contra a ditadura de outras décadas. São eles agora os mais vulneráveis à doença, e, no entanto, ali resistem, sobrevivem calmamente ignorando o meu medo.

Não lembro o que conversamos, mas é vívida a lembrança da imagem que compunham diante dos meus olhos, seus rostos pálidos vincados pelas décadas, ao fundo a casa da minha infância, suas paredes manchadas pelos anos de desatenção alegre, acima do telhado a copa da árvore que plantamos juntos, num dia remoto que se fazia presente. Naquela casa morava o tempo, e só de estar ali pude sentir que ele seguiria correndo, numa cadeia incontível de acontecimentos, e que um dia o tempo apagaria os obscuros homens que nos governam, e apagaria os meus pais, e apagaria também a mim, e seguiria correndo pelas ruas, pelas praças, pela cidade inteira, deixando em seu rastro um futuro inteiro. Podia haver algo de vertiginoso e terrível no pensamento, mas, não sei, naquele instante, a certeza do tempo só me ofereceu um apaziguamento.



(O projeto Decamerão – 29 histórias da pandemia selecionadas pelos editores da New York Times Magazine)



(Ilustração: Rafal Oblinski – relógio)

domingo, 10 de setembro de 2023

O POETA DISSE, de Renato Augusto Farias de Carvalho

 




"De tudo fica um pouco. (...)

este vidro de relógio

partido em mil esperanças. (...)

De tudo fica um pouco:

de mim; de ti; de Abelardo."



Carlos Drummond de Andrade





Nós ainda não tínhamos atravessado a baía

e adivinhávamos

céus, luas,



um pouco de riso, um pouco de dor.

Tudo apressava o nosso amor

às longas noites

de Paquetá.



Quanto tempo faz?



Uma toalha bordada,

o paredão de concreto,

pernas trémulas de medo

e a ansiedade



na intermitência do cansaço.



Cadê o menino esbelto com lentes grossas

escavando mentiras

no gozo dos afagos?



Um brinde à moça da madrugada e às

mordidas do primeiro amor,

folhetim de canções

vividas com vagar



na vacilante e quente areia de Paquetá!



(Ilustração: Benedito Calixto - Ilha de Paquetá)


sexta-feira, 8 de setembro de 2023

A CANTADEIRA, de Mia Couto

 


Acabei a minha sessão de canto, estou triste, flor depois das pétalas. Reponho sobre meu corpo suado o vestido de que me tinha libertado. Canto sempre assim, despida. Os homens, se calhar, só me vêm ver por causa disso: sempre me dispo quando canto. Estranha-se? Eu pergunto: a gente não se despe para amar? Porquê não ficar nua para outros amores? A canção é só isso: um amor que se consome em chama entre o instante da voz e a eternidade do silêncio.

Outros cantadores, quando actuam em público, se trajam de enfeites e reluzências. Mas, em meu caso, cantar é coisa tão maior que me entrego assim pequenitinha, destamanhada. Dessa maneira, menos que mínima, me torno sombra, desenhável segundo tonalidades da música.

Cantar, dizem, é um afastamento da morte. A voz suspende o passo da morte e, em volta, tudo se torna pegada da vida. Dizem mas, para mim, a voz serve-me para outras finalidades: cantando eu convoco um certo homem. Era um apanhador de pérolas, vasculhador de maresias. Esse homem acendeu a minha vida e ainda hoje eu sigo por iluminação desse sentimento. O amor, agora sei, é a terra e o mar se inundando mutuamente.

Amei esse peroleiro tanto até dele perder memória. Lembro apenas de quanto estive viva. Minha vida se tornava tão densa que o tempo sofria enfarte, coagulado de felicidade. Só esse homem servia para meu litoral, todas vivências que eu tivera eram ondas que nele desmaiavam. Contudo, estou fadada apenas para instantes. Nunca provei felicidade que não fosse em taça que, logo após o lábio, se estilhaça. Sempre aspirei ser árvore. Da árvore serei apenas luar, a breve crença de claridade.

Em certo momento, me extraviei de sua presença, perdi o búzio e o mar que ecoava dentro. Ele embarcou para as ilhas de Bazaruto, destinado a arrancar riquezas das conchas. Apanhador de pérolas, certeiro a capturar, entre as rochas, os brilhos delas. Só falhou me apanhar a mim, rasteirinha que vivi, encrostada entre rochas.

Na despedida, ele me pediu que cantasse. Não houve choradeiras. Lágrima era prova gasta. Vejam se as aves quando migram. Choram? O que elas não prescindem é do canto.

— E porquê? — perguntou o peroleiro.

O gorjeio, explicou ele, é a âncora que os pássaros lançam para prenderem o tempo, para que as estações vão e regressem como marés. — Você cante para chamar meu regresso.

Minha vida foi um esperadouro. Estive assim, inclinada como praia, mar desaguando em rio, Índico exilado, mar naufragado. Estive na sombra mas não fiquei sombria. Pelo menos, nas primeiras esperas. Valia me cantar. Espraiei minha voz por mais lugares que tem o mundo. — Esse homem me lançou um bom olhado?

Demorasse assim sua ausência, a espera não se sujava com desespero. Me socorria a lembrança de seus braços como se fossem a parte do meu próprio corpo que me faltasse resgatar.

Para sempre me ficou esse abraço. Por via desse cingir de corpo a minha vida se mudou. Depois desse abraço trocou-se, no mundo, o fora pelo dentro. Agora, é dentro que tenho pele. Agora, meus olhos se abrem apenas para as funduras da alma. Nesse reverso, a poeira da rua me suja é o coração. Vou perdendo noção de mim, vou desbrilhando. E se eu peço que ele regresse é para sua mão peroleira me descobrir ainda cintilosa por dentro. Todo este tempo me madreperolei, me enfeitei de lembrança.

Mas o homem de minha paixão se foi demorando tanto que receio me acontecer como à ostra que vai engrossando tanto a casca que morre dentro de sua própria prisão. Certamente, ele passará por mim e não me reconhecerá. Minha única salvação será, então, cantar, cantar como ele me pediu. Entoarei a mesma canção da despedida. Para que ele me confirme entre as demais conchas e se debruce em mim para me levar.

Mas, na barraca do mercado, eu canto e não encanto ninguém. Ao invés, todos se riem de mim, toquinhando o dedo indicador nas respectivas cabeças. Sugerem assim que esteja louca, incapazes que são de me explicar.

Esta noite, como todas as noites antes desta, apanho minhas roupas enquanto escuto os comentários jocosos da assistência. Afinal, a mesma humilhação de todas as exibições anteriores. Desta vez, porém, aquela gozação me magoa como ferroada em minha alma.

Nas traseiras do palco, uma mulher me aborda, amiga, admirada do meu estado. Me estende uma folha de papel, pedindo que escrevesse o que sentia. Fico com a caneta gaguejando em meus dedos, incapaz de uma única letra. Pela primeira vez, me dói ser muda, me aleija ter perdido a voz na sucessiva convocação de meu amado. Me castigam não as gargalhadas dos que me fingiam escutar mas um estranho presságio. É então que, das traseiras do escuro, chega um pescador que me faz sinal, em respeitoso chamamento. Sabendo que não falo, ele também pouco fala. — Lhe trago isto.

Suas mãos se abrem na concha das minhas. Deixa tombar uma pequena luminosidade que rola entre os meus dedos. É uma pérola, luzinhando como gota de uma estrela. Lhe mostro o papel onde rabisquei a angustiosa pergunta: — Foi quando?

Ele apenas abana a cabeça. Interessava o quando? Aquela era a maneira de o mensageiro me dizer que o meu antigo amor se tinha desacontecido, exilado do tempo, emigrado do corpo. — Enterraram-no?

Mas a interrogação, rabiscada na folha, não cumpre seu destino. Silencioso, o pescador se afunda nas trevas com a educação de ave nocturna. Fico eu, enfrentando sozinha o todo firmamento, monteplicado em pequenas pérolas. E escuto, como se fosse vinda de dentro, a voz desse peroleiro: — Cante! Cante aquela canção em que eu parti.

E lanço, primeiro sem força, os acordes dessa antiga melodia. E me inespero quando noto que o mensageiro regressa, arrepiado do caminho que tomara. No seu rosto se acendia o espanto de me escutar, como se, em mim, voz e peito se houvessem reencontrado.



(Na Berma de Nenhuma Estrada)



(Ilustração: Sheikh Abd el-Qurna - tumba de Djeserkareseneb - Egito ca. 1400–1390 aC)

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

EVEN / ATÉ MESMO, de Anne Morrow Lindbergh

 





Him that I love I wish to be

Free:



Free as the bare top twigs of tree,

Pushed up out of the fight

Of branches, struggling for the light,

Clear of the darkening pall,

Where shadows fall –

Open to the golden eye

Of sky;



Free as a gull

Alone upon a single shaft of air,

Invisible there,

Where

No man can touch,

No shout can reach,

Meet

No stare;



Free as a spear

Of grass,

Lost in the green

Anonymity

Of a thousand seen

Piercing, row on row,

The crust of earth,

With mirth,

Through to the blue,

Sharing the sun

Although

Circled, each one,

In his cool sphere

Of dew.



Him that I love, I wish to be

Free –

Even from me.





Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta:





Aquele que amo, desejo que seja

livre:



Livre como um ramo despido

no alto de uma árvore,

alheio à luta entre os galhos

que se agitam em busca da luz.

Livre da escura mortalha,

onde tombam as sombras –

voltado para o olho dourado

do céu.



Livre como a gaivota,

sozinha num sopro de ar,

invisível,

onde

ninguém poderá tocá-la,

nenhuma voz alcançá-la,

ninguém vir

surpreendê-la.



Livre como uma folha

de grama,

em meio ao verde,

anônima,

entre inúmeras iguais,

que se espicham, se alinham,

recobrindo a terra,

felizes,

apontando o azul,

repartindo o sol,

envoltas,

ainda, uma a uma,

em frescas gotas

de orvalho.



Aquele que amo, desejo que seja

livre –

até mesmo de mim.



(O Unicórnio e outros poemas, 2015)



(Ilustração: Suzanne Valadon - Joy of Life, 1911)

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

NO MAR, MEDO, FOME, DOENÇA E O DESENCANTAMENTO DA ONÇA, de Micheliny Verunschk





No princípio eu era de carne e estava na terra.

Isabela Figueiredo, Caderno de memórias coloniais



Foram muitos de muitos dias por mar e terra. E o tempo em que eles estiveram no mar foi de medo, fome, doença. O mar, eles não sabiam, se afigurava como um grande ajuntamento de todos os rios, que os assustava com sua boca enorme, seu rugir mesmo na calmaria, sua respiração de bicho surdo e feroz por baixo de seus pés. Estremeciam. Tanta água não, nunca haviam conhecido, um espírito assustador em sua baba salgada, esturrando, mas onça é que não. Por vezes o próprio céu invertido em água. Sob seus pés, água que corria, despropositada jiboia; acima da cabeça deles, água exata em ferir, talvez borduna ou flecha em vertiginoso voo. Às vezes, sobre seus corpos, a água em cristais polidos, muito frio, coisas que cortam e matam.

Nenhum deles nunca vira um rio que falasse tantas águas, rio sem margens. Em nenhum dos rios que conheciam, tanta fúria, tanto mistério. Nem o Paranáhuazú, a mãe de todos os rios, a quem os brancos chamam de Amazonas, aquele que guarda o mundo que existe para a vida que se vive depois de morrer, nem ele se apresentava tão perigoso, tão ameaçador. Outrossim, cruzar aquela água infinita e perturbada, imenso rio sem margens, certamente era morrer sem chegar ao lugar dos antepassados. E embora o medo corresse por seus ossos e os fizesse tremer, havia ainda que a grande fera era mesmo a embarcação e aquilo que a colocava em movimento, a carne bruta e ameaçadora dos marinheiros, a força invisível, liame que lhe dera ânimo de existir e que permitia, no intestino do porão, a ânsia, o vômito, a merda já esverdeada e líquida que o lavava e rescendia a podre e, ainda, os insetos e ratos, pragas que alimentavam todo sortimento de moléstias.

O navio, pois bem, grande canoa da morte. Pessoas, plantas, bichos, macacos, kdiziba, tatus, gooi, tamanduás, heehi e, ainda, os Desencantados. Como chamá-los? Iñe-e pudera observar ainda em terra os cientistas em seu trabalho de desencantamento. E logo percebera que não se tratava apenas de matar o bicho. Era outra atividade. Primeiro, levavam sua alma para a pele do papel em tão perfeita conformidade que seria possível dizer que o bicho rastejaria, caso fosse cobra, ou voaria, caso fosse pássaro, para fora daquele frágil limite. Depois, o desencantamento prosseguia. E morrer era só uma parte muito pequena daquilo tudo. O bicho, o bicho mesmo, em força e sangue, era tornado em nada depois que tudo se dava por encerrado. Morto e destripado, o bicho era limpo, sendo raspada da pele a carne já desprovida de poder, e o corpo esvaziado de tudo o que tinha sido um dia, restando um saco mole e triste, que só depois seria reconstruído com palha ou qualquer tipo de enchimento que servisse, recebendo, pouco a pouco, a antiga forma, e sendo assoprada nele aquela outra cara, aquele outro corpo, aquela boca que, aberta, não mais comeria; que, fechada, não mais se abriria: e era daí que surgiria o novo bicho, o outro bicho, muitas vezes inventando um movimento que nunca poderia terminar, endurecido em uma posição, salto ou bote que a partir daquele momento jamais poderia se extinguir. Aos olhos de Iñe-e o desencantamento era uma coisa verdadeiramente assombrosa.

Que vida a deles, a dos Desencantados!

Iñe-e observava tudo aquilo com temor e, se em cada um daqueles bichos procurava uma voz, um movimento, procurava neles também reconhecer os olhos da mãe, do irmão, de qualquer parente que ficara para trás, como se isso fosse possível. Procurava neles até seus próprios olhos. Perguntando dentro de si mesma:

Será assim que tudo vai acabar? Iñe-e paralisada, fixada na mesma posição, eternamente, talvez com um olhar triste, talvez com um olhar surpreso, talvez com um sorriso ao mesmo tempo impassível e engraçado, ou quem sabe lábios apertados um contra o outro, numa tristeza capaz de embaraçar quem venha a me observar em qualquer tempo? E essa larga viagem, em que me levam, é também uma viagem de desencantamento, de destripamento?

Eram coisas que ela se perguntava como se já soubesse quais seriam as respostas, antevendo seu retrato na parede branca de um museu visto por centenas de pessoas que não a conheciam, que não sabiam seu nome ou o que sentira no dia em que seu captor se postara diante dela com material de desenho e tintas, muito pronto para roubar a sua alma e obrigando-a, quando já não era mais natural, a se despir. Pessoas que, mirando seu olhar cabisbaixo, ignoravam que muito dela ainda permanecia ali.

Na tarde em que vira uma grande onça destripada no terreiro, o coração se tornara muito pequeno dentro do peito, minúsculo coração de pássaro sem penas, reduzido a presa caída do ninho. Naquele dia, entre raiva e dor, chorou por si mesma pela primeira vez.



(O som do rugido da onça)



(Ilustração: Miranha e Juri - dois jovens da América do Sul que foram sequestrados e levados para Munique no século XIX, por volta de 1827 – retratos de autor desconhecido)