segunda-feira, 29 de maio de 2017

MINHA NAMORADA, de Ascânio Lopes








Seu nome era besta e ela também

mas quase não falava e só sabia olhar.

Gostei dela

fiz versos puxados

gastei tempo nas rimas raras

e na colocação de pronomes

porque ela era normalista

e gostava de gramática e não perdoava galicismos.

Mas um dia ela descobriu meus versos modernos

e percebeu que fingia

e gostava de errar nos pronomes

e que meus sonetos eram só pra ela.

Então me deu o fora e arranjou um poeta sincero

que a comparava a Marília

e que sabia de cor a "Ceia dos Cardeais"

e que sapecava todos os ritmos novos

e as poesias sem geometria e compasso.



E ficavam cinicamente amando no portão

quando não iam ao cinema delirar com as fitas dramáticas italianas 12 atos.

Ela me deu o fora.

Também nunca mais fiz sonetos.





(Ilustração: Portinari - Maria)



sexta-feira, 26 de maio de 2017

FAZENDO AS MINAS FUGIREM DA BOLÍVIA, de Augusto Céspedes









Fazia frio na sala da gerência do Banco de Oruro. Foram chegando, às 10 horas da manhã, o Dr. Dávalos, o Senador Guamán e o Dr. Gustavo Cuéllar. Entraram esfregando as mãos.


Chegou o Sr. Omonte, acompanhado do gerente Writt e do anunciado Mr. Ahpeld, cor de cenoura, vestido de flanela muito clara, com um permanente havana a um lado da boca, fazendo contrapeso ao gesto do outro lado.


O Dr. Cuéllar, apresentado a Omonte, apressou-se a tirar-lhe o abrigo e a pendurá-lo cuidadosamente. Omonte sentou-se num amplo sofá de couro, e nas duas poltronas que faziam o jogo sentaram-se Dávalos e Writt. Ahpeld colocou-se à escrivaninha, onde depositou sua pasta de papéis e, em umas cadeiras, distanciados como colegiais castigados, os Drs. Cuéllar e Guamán.


Omonte tossiu e começou expressando seu desgosto:


“Na Bolívia não encontro senão quebradores de cabeça. Tenho de atender a tudo pessoalmente, porque tudinho está descuidado. E eu pago salários, milhares e milhares, centenas de milhares... e os senhores nem sequer puderam pôr nos trilhos o governo. De Paris tive de ver essas coisas, eu mesmo. Por isso está aqui Mr. Ahpeld, agora, para explicar-lhes o plano, que já conhecem por escrito.”


Os conselheiros escutaram a reprimenda e o péssimo castelhano, e logo voltaram os olhares para Mr. Ahpeld, que começou a falar:


“Perdoem minha má pronúncia, primeiramente. Segundamente: a situação da empresa é esta: as questões judiciais estão praticamente ganhas. Produzem-se 40 mil toneladas; formou-se um grupo mineiro; exploraram-se minas de volfrâmio até que a cotação baixou; instalaram-se novas sucursais bancárias, de modo que o banco que era fundado para fazer cédulas com destino a salários, atualmente e o primeiro banco comercial do país. A empresa tem também a maior parte das ações do Banco do Estado, que é praticamente dirigido por nós.”


No silêncio, só se ouvia o rangido da cadeira em que estava sentado o Dr. Guamán.


“Terceiramente: o Sr. Omonte adquiriu maioria das ações da Anglo-Chilena, que agora deve ser refundida com o grupo “A Providência”. A exploração deve agora ser por galeria Contato, para sair por Llallagua, devendo ser beneficiado o minério no engenho de Barsola, ampliado. Me faço entender?


Unânime sinal de assentimento.


“O Sr. Omonte recebeu proposta para comprar minas nos Estreitos Malaios e ações de fundições de William Harvey. Isto terá muita grandeza: formar grande truste do estanho. Minas da Bolívia com maior acionista o Sr. Omonte e fundições de estanho com acionista também o Sr. Omonte. Sempre se ganha: se compram estanho barato as fundições, ganham as fundições, e se compram estanho caro, ganham os vendedores, quer dizer, a empresa ganha sempre porque pode fixar com o truste três coisas: quantidade de produção, preço da barrilha e preço do minério fundido, em todo o mundo.”


Omonte ouvia, as mãos cruzadas sobre o abdômen, em atitude aborrecida. Mr. Ahpeld acendeu outro havana e continuou:


“O estanho não é indústria para país pequeno. O grande capital é internacional e deve dirigir-se dos grandes centros, para manejar a indústria de todo o mundo. Então, é absolutamente necessário radicar desde agora a Empresa Omonte nos Estados Unidos, formando sociedade anônima lá.”


O Dr. Guamán, em cuja cara branca e ventruda não se desenhavam feições, formando um conjunto de calvície no qual só se percebiam os olhinhos de porco, achou oportuno fazer notar:


- Uma palavrinha, permita-me... Será preciso pagar dividendos aos acionistas...


Ahpeld sorriu depreciativamente:


- As ações serão inventadas, imaginárias! No mercado, só se fará aparecer umas poucas ações! Tudo seguirá pertencendo ao Sr. Omonte, entende? Além disso, ao fixar-se determinado valor às ações para pagar o capital da mina, eleva-se nominalmente o capital. Com isto, a Empresa pode mostrar lucros menores que a realidade, tanto para o dividendo como para pagar impostos. Além disso, nos balanços calcula-se uma soma para amortização do capital, embora não haja nada que amortizar, porque todo o capital da mina é seu estanho.


Omonte passou repetidas vezes o nariz por entre o indicador e o polegar.


- Magnífico, magnífico – disse o Dr. Guamá, dirigindo-se ao milionário. – Com um pequeno número de ações estrangeiras, pode-se invocar ante o Governo a qualidade internacional da companhia, para que nos respeite!


Omonte tossiu e olhou para seus advogados:


- Bem, doutores, tiveram três dias para estudar este plano. Agora o que preciso é que me digam como vão obter a autorização do Governo para a transferência do capital para... a ... para que a empresa se torne sociedade anônima.


Dávalos acendeu um cigarro, que levou a seus lábios de negroide por entre os bigodes amarelos, e falou lentamente:


- Aqui estamos, meu senhor Dom Zenon, sempre trabalhando, fazendo o possível. Mas é que... em Paris, perdoe-me o senhor, as coisas se veem mais simples, simples... mas aqui é diferente. Tudo o que disse Mr. Ahpeld sobre a prosperidade da empresa é o fruto do talento do Sr. Omonte. Mas nós, aqui, temos de lutar com o Governo. Tudo estaria bem, os minérios iriam da mina até as fundições, mas no meio se colocou o Governo com seus impostos. A Bolívia não é só as minas. Há outros centros, cidades, especialmente La Paz, onde há demagogos que pensam que o Estado deve viver às custas da mineração. Não lhe ocorre desenvolver outras indústrias, a madeira, por exemplo, a coca.


“Nós – deu outra chupada no cigarro – temos apoiado o Partido Liberal e o Partido Republicano Genuíno. Porque respeitavam os direitos do capital. Não nos descuidamos, Sr. Omonte” Até pensamos, como lhe escrevi, que embora tivéssemos certos vínculos pessoais com o liberalismo, a empresa continuava apolítica e então podia olhar sem temor, no caso de uma revolução, que fosse eleito presidente o chefe da oposição. Homem equânime que é, jamais teria lançado uma lei antiliberal como a da participação do Estado nos lucros mineiros. Mas, com o novo golpe de Estado, subiu o segundo chefe, que, como sabemos, desculpando a palavra, é um cholo rebelde, ambicioso e atrabiliário. "

O qualificativo de cholo soou imprudentemente no conciliábulo.


- Eu não o conheço – comentou Omonte. – Nunca o vi.


- Eu sim – continuou Dávalos. – É um advogado de má fé. Defrontamo-nos em algumas questões. Ele é liberal e teoricamente não aceita esses golpes do Governo contra o capital. Mas, na prática, como precisa de dinheiro para sustentar-se, adere ao assalto. A gente bem o ignora, e ele se irrita, porque sua ambição tem sido formar parte da elite liberal, conosco, desculpando a imodéstia. Não pôde. Encontra-se só, cheio de raiva. Isto é o que se tem de explorar! No fundo, o Governo quer é dinheiro.


- O Governo quer é Omonte – observou, com voz melíflua o Dr. Cuéllar.


- Mas eu – exclamou, rindo, Omonte – assim, prefiro que o Governo não me queira!


Riram todos, e Writt reiterou sua opinião, expressada uma semana antes:


- É que, como amigo, o Governo pode tirar menos dinheiro que como inimigo. Isso é o que quer dizer o Dr. Cuéllar.


- É preciso ver, antes, como anda o Governo.


Dávalos sacudiu com os dedos a cinza que caía sobre sua lapela e afirmou:


- Em poucas palavras: o Governo não durará mais de seis meses.


- Depende do Sr. Omonte – observou o Dr. Guamán. 


- Eu acredito que não durará seis meses! Está sendo combatido por todos os lados e, embora tenha fechado os jornais da oposição, inclusive o nosso, é atroz a propaganda acusando-o de esbanjamento e violências. Os desterrados escreveram um folheto terrível contra a tirania. Nós o fizemos editar no Chile, em número de vinte mil exemplares que foram introduzidos na Bolívia em caixotes de maquinaria da empresa.


- Então – argumentou Omonte, levantando a parte da pele que correspondia às sobrancelhas – declaramos guerra ao Governo?


- A empresa não pode estar contra o Governo, senhor. Não tem partido.


Isso disse o Dr. Gustavo de Cuéllar, sentado na ponta de uma cadeira, brincando com uma leopoldina do bolsinho do colete e jogando para frente seu enrugado pescoço, estreito embaixo e mais largo em cima, onde se convertia em cabeça, pois o maxilar inferior só salientava-se como um machucado na flácida pele que desde a cara o suspendia. Debaixo da testa semicalva, seus olhos miúdos na ossuda órbita, com pestanas de meia-lua, nunca olhavam de frente, mas, ao falar, projetavam-se até a ponta do nariz de cartucho. Sua postura, dobrado para a frente, das costas curvadas até o nariz, aprecia ter sido adquirida no exercício da humilde audição.


Disse isso e calou-se. Então o Dr. Marín Guamán tomou a palavra:


- A situação é esta. Eu tive uma atuação parlamentar muito elogiada pela imprensa e paridos opositores, esmiuçando o projeto sobre lucros mineiros. Disse, Sr. Omonte, que a única tese financeira que o Governo tem é conseguir dinheiro para sustentar-se no poder. Mas, a lei foi aprovada. Tinha de ser. Mas, acabou-se tudo aí? Não, senhor. Agora vem o bem. Essa lei nos servirá para embolsarmos o Governo! Qual é atitude com que, não tendo força, pode-se amansar um assaltante? Oferecer-lhe, adormecê-lo. Mas... somente até que chegue a Polícia. Para isso temos gente suficientemente hábil. Eu não me ofereço, porque estou qualificado como inimigo do Governo. Mas, aí está o Dr. Cuéllar, que não se mete em política, aí estão tantos amigos que podem entender-se com o senhor Presidente. O cortês não elimina o valente.


- Como é isto?


- Não é nada de altas finanças. É algo bem conhecido. Assim como se prende um operário à empresa mediante adiantamentos no barracão, podemos fazer empréstimos ao Governo e assim o teremos no bolso.


- Empréstimo? A um Governo que me quer roubar? – murmurou Omonte.


O Dr. Guamán esfregou as mãos para esquentá-las e continuou:


- Empréstimo, sim senhor. Mas, em que condições! Prazos curtos, empréstimo GARANTIDO (remarcou a palavra com sua voz de orador), garantido contra os mesmos impostos que em pagamento irá computando por conta da empresa, e com o compromisso de não elevá-los, pois que seu montante já estaria comprometido numa obrigação bilateral.


- Mas, o Governo aceitaria isso?


- E para que existimos nós, senhor?


Interveio o Dr. Cuéllar:


- Eu sou chuquisaquenho. Conheço o ambiente de lá. O Governo recebe5rá de joelhos um empréstimo, porque as reivindicações regionais de Sucre e do Oriente, para a estrada de ferro, estão sendo terrivelmente agitadas pela oposição naqueles lugares. É preciso continuar agitando.


- Hum... – exclamou Omonte, em dúvida, olhando Ahpeld.


- Isto é apenas o começo – continuou Cuéllar. – Isto é o engodo para que o Governo vire a cara para o outro lado, enquanto a empresa leva seus capitais para o estrangeiro.


Bruscamente, o Dr. Dávalos interrompeu, para evitar que Cuéllar lhe roubasse a originalidade do plano:


- Este é o grande plano que estudamos, Mr. Writt, os Drs. Guamán e Cuéllar e este servidor: consiste numa dupla manobra. De acordo com as demais empresas mineiras e os Bancos, sitiamos o Governo pela fome. Então lhe oferecemos um empréstimo... prudente.


- E se tenta nos meter mais impostos?


Interveio, rapidamente, Guamán:


- Para isso já teremos os capitais no exterior. O Governo, comprometido a não aumentar impostos, não pode violar o contrato subscrito com uma empresa estrangeira. Além disso, ao tempo de fazer o empréstimo, a empresa deve pedir garantias de tranquilidade política, sugerir, insinuar que acordos financeiros só cabem a um Governo respeitável, o que só pode haver quando se cumprem as duas condições clássicas: gabinete de todos os partidos e suspensão do estado de sítio. Um gabinete assim seria integrado, com aplaudo do país, por homens da confiança da empresa, em especial a Pasta da Fazenda, à qual podemos emprestar um grande elemento técnico. Gabinete de coalizão, ministros conscientes, não atropelariam a indústria mineira.


- E se o presidente não aceita tal gabinete?


- Diminuímos os embarques de estanho, impugnamos os impostos ante o Supremo, negamos empréstimo ao Governo, colaboramos com a oposição. Com menos dinheiro e mais oposição, o Governo cai...


- Mas, e se não cai?


- Então lhe emprestaremos mais dinheiro. Sr. Omonte: o senhor é um homem admirável; disse que a empresa não deve intervir em política, a não ser quando o Governo nos prejudica com suas leis. Isto aconteceu. Em defesa da mineração, conseguimos que este Governo fosse classificado como bolchevique, odiado pela opinião sensata. Agora damos-lhe uma injeção, só para que aceite a transformação da empresa, mas não nos comprometemos muito, porque cairá, de qualquer modo. Fiquemos bem com o presidente, aparentemente, mas guardando a oportunidade para aparecer à cabeça da revolução, no momento oportuno, fazendo pacto desde este momento, em segredo, com os dirigentes opositores. Todos estão ansiosos por tratar com a empresa. Então, em lugar de cair junto com este Governo, seremos os criadores do seguinte, os eixos. Teremos libertado o país da tirania!....


O Dr. Cuéllar adiantou o nariz:


- Agora, permita-me que eu fale, doutor, para reforçar sua brilhante ideia. Como temos de resguardar os interesses da empresa, comerciamos eventualmente com o Governo. O empréstimo, está muito bem. Um ministro nosso, está muito bem. Mas, sem mostrar que é nosso., ele deve permanecer um breve tempo ao lado do déspota e... fazer renúncia sensacional, no momento que a empresa o notificar, às vésperas de um golpe...


Com os polegares nos bolsos do colete, ostentando uma corrente de ouro, o Sr. Omonte tamborilava com seus outros dedos sobre o ventre. Olhou para todos. O Dr. Cuéllar voltou a avançar até a beira da cadeira, ficando seus joelhos pontiagudos quase à altura de seu nariz semítico.


- Eu me comprometo a propor o empréstimo ao Governo. Como sou neutro em política, posso fazê-lo.


- Muito bem – Ahpeld. O primeiro passo é o empréstimo. Com empréstimo, obteremos o Ministro da Fazenda. Com o Ministro da Fazenda, a autorização para a transferência do capital para Nova Iorque e a transformação da empresa em sociedade anônima. É perfeito. Já me haviam dito que o senhor tinha excelentes advogados, Sr. Omonte.


- Obrigado, obrigado...


- Só uma observação – advertiu o Dr. Cuéllar, engolindo saliva por seu pescoço de lagartixa. – Opinou o Dr. Guamán que se deve pedir a suspensão do estado de sítio. Não! Agora, mais do que nunca, a imprensa deve estar calada. Não faltará um jornal para pôr a boca no mundo, dizendo que queremos fazer as minas fugirem da Bolívia!


- Isso é, isso é...


A conferência havia durado duas horas. Omonte pôs-se de pé e deu palmadas amáveis nos ombros de Guamán e Cuéllar; este, por sua vez, limpou-lhe um ombro com um lenço. O Dr. Dávalos arrependeu-se de o haver chamado a La Paz. 


Saíram do salão do Banco para comparecer ao almoço que a Associação dos Pequenos Mineiros oferecia a Omonte. Ao colocar-lhe o abrigo, o Dr. Dávalos, sorrindo, disse-lhe ao ouvido:


- Parece os Drs. Guamán e Cuéllar querem ser ministros, mesmo que seja do tirano.



(Metal do Diabo; tradução de Ana Arruda)



(Ilustração: REAL SOCAVÓN – MINAS DE PLATA Y ESTAÑO – POTOSÍ; BOLÍVIA; início do século XX)


terça-feira, 23 de maio de 2017

A MAÇÃ, O PUNHO, O ÚTERO, de Bárbara Lia









Pêndulo invisível em um mundo palco

Não sou a poeta pop

Meu útero é do tamanho da primeira maçã

E confundo as lendas

E esmurro o primeiro homem (não o seduzo)

E esmurro o segundo e o terceiro

A serpente enlouquece

Diz alguma coisa como

“A mulher nasceu para conquistar”

Conquisto apenas os passarinhos

Eles assediam-me nas manhãs

Um deles prometeu ensinar-me

Os benefícios de ser fêmea

E a receita do pecado válido

O pecado abençoado

O pássaro diz…

Um punho é um punho

Um útero é um útero

Uma maçã é uma maçã



(creio mais nos passarinhos que nos poetas)





(Onde andará Esmeralda Green?)




(Ilustração: Saturno Buttò)





sábado, 20 de maio de 2017

ÁGUAS VERTIGINOSAS ATIRARAM-LHE AOS PÉS UMA VASILHA QUEBRADA E UMA PALHINHA, de Virginia Woolf






A noite estava escura; a treva era profunda; mas era por uma noite assim que tinham esperado. Era por uma noite assim que tinham planejado fugir. Recordava tudo. O tempo chegara. Num transporte de paixão, atraiu Sacha e sussurrou-lhe ao ouvido:


- Jour de ma vie*! - Era a senha. À meia-noite, deviam encontrar-se numa pousada próximo a Blackfriars. Os cavalos esperavam aí. Tudo estava preparado para a sua fuga. Assim se separaram, cada um para sua tenda. Faltava ainda uma hora.


Muito antes da meia-noite, Orlando já estava à espera. A noite era de um negrume de tinta: um homem podia assaltar outro, antes de poder ser visto - o que afinal era melhor; mas era também do mais solene silêncio, de modo que a pata de um cavalo ou o choro de uma criança podiam ser ouvidos a uma distância de meia milha. Por várias vezes, medindo com os seus passos o pequeno pátio, Orlando suspendeu o bater do seu coração aos estrépitos do firme passo de um cavalo nas pedras, ou ao sussurrar de um vestido de mulher. Mas o transeunte era apenas algum mercador, que voltava tarde para casa, ou alguma mulher do bairro, cuja missão era menos inocente. Passavam, e a rua ficava mais silenciosa que antes. Então, aquelas luzes que ardiam pelo rés do chão, nas pequenas, intrincadas habitações onde viviam os pobres da cidade, subiam para os quartos de dormir, e depois iam sendo apagadas, uma por uma. Eram poucos os lampiões da rua, nesse remoto sítio, e a negligência do guarda-noturno muitas vezes permitia que se apagassem muito antes da madrugada. A treva tornava-se então ainda mais profunda. Orlando olhou para o pavio da sua lanterna; examinou a cilha; escorvou as pistolas; examinou os coldres; e fez todas essas coisas pelo menos uma dúzia de vezes, até não encontrar mais nada que necessitasse a sua atenção. Embora faltassem ainda uns vinte minutos para a meia-noite, não se decidia a entrar na sala da pousada, onde a estalajadeira estava ainda servindo vinho seco e o mais barato vinho das Canárias a alguns marítimos que se instalavam ali, arrastando suas canções e contando suas histórias de Drake, Hawkins e Grenville até virarem os bancos e rolarem adormecidos na areia do chão. A obscuridade se compadecia mais do seu dilatado e violento coração. Prestava atenção a cada passo; investigava cada som. Cada grito de ébrio e cada gemido de algum desgraçado deitado na palha ou em alguma outra angústia cortava-lhe o coração num golpe súbito, como se anunciasse maus presságios para a sua aventura. Contudo, não se inquietava por Sacha. A aventura não era nada para a sua coragem. Chegaria sozinha, com sua capa, suas calças, e de botas, como um homem. Tão leve era o seu passo que não seria ouvido, mesmo naquele silêncio.


Assim esperava na escuridão. De repente, uma pancada macia, embora pesada, lhe caiu no rosto. Tal era a tensão da sua expectativa que deu um salto e levou a mão à espada. A pancada repetiu-se uma dúzia de vezes na testa e na face. A geada tinha durado tanto tempo que levou um minuto para compreender que aquilo eram gotas de chuva caindo; as pancadas eram pancadas de chuva. A princípio, caíam vagarosamente, deliberadamente, uma a uma. Mas em breve as seis gotas eram sessenta, logo eram seiscentas; e depois correram todas juntas, num forte aguaceiro. Era como se o próprio céu, firme e maciço, se derramasse todo numa profusa catarata. Em cinco minutos, Orlando estava ensopado até os ossos.


Abrigando apressadamente os cavalos, procurou refúgio sob o dintel da porta, de onde podia ainda observar o pátio. O ar estava agora mais grosso do que nunca, e da torrente se elevavam um vapor e uma zoada que abafavam o som de qualquer passo de gente ou de animal. As estradas, crivadas de grandes buracos, deviam estar inundadas e impraticáveis. Ele, porém, quase não dava atenção ao efeito que isso pudesse ter sobre a sua fuga. Todos os seus sentidos estavam concentrados, espreitando pelo caminho empedrado - que cintilava à luz da lanterna - a chegada de Sacha. Às vezes, na escuridão, parecia vê-la, envolta nas pancadas de chuva. Mas o fantasma se desvanecia. De repente, com uma voz terrível e agourenta, uma voz cheia de horror e sobressalto, que arrepiou cada pelo de angústia na alma de Orlando, bateu em São Paulo a primeira pancada da meia-noite. Implacável, bateu quatro vezes mais. Com a superstição de um amante, Orlando tinha estabelecido que ela chegaria ao soar a sexta pancada. Mas a sexta pancada esmoreceu, e vibraram a sétima e a oitava, e à sua mente apreensiva apareceram notas anunciando, primeiro, e proclamando, depois - morte e desgraça. Quando soou a décima segunda, viu que sua sentença estava selada. Era inútil que a sua parte de razão raciocinasse; podia estar atrasada; podia estar detida; podia ter errado o caminho. O apaixonado e sensível coração de Orlando sabia a verdade. Outros relógios soaram, discordantes, e sucessivamente. O mundo inteiro parecia repicar com a notícia da sua ilusão e da sua humilhação. As velhas suspeitas que nele trabalhavam subterrâneas, levantaram-se do seu esconderijo, abertamente. Foi picado por uma multidão de víboras, cada qual mais venenosa. Permaneceu à entrada da porta, imóvel, sob a chuva tremenda. Com o passar dos minutos, afrouxaram-se-lhe um pouco os joelhos. O aguaceiro continuava. Dentro dele parecia troarem canhões. Grandes barulhos, como um despedaçar e abater de florestas, podiam ser ouvidos. E também gritos selvagens, e terríveis lamentos inumanos. Mas Orlando ficou ali imóvel, até o relógio de São Paulo bater duas horas, e então, bradando com uma horrível ironia, com todos os dentes à mostra: "Jour de ma vie!", arrojou a lanterna ao chão, montou a cavalo e galopou sem saber para onde.


Algum cego instinto, porque estava incapaz de raciocínio, deve tê-lo conduzido pela margem do rio, em direção ao mar. Pois, quando rompeu a aurora, com uma rapidez fora do comum, com o céu volvendo-se amarelo-pálido, e a chuva quase acabada, achou-se na margem do Tâmisa, para além de Wapping. Seus olhos deram, então, com o mais extraordinário espetáculo. Aquilo que, por mais de três meses, tinha sido sólido gelo, de tal grossura que parecia permanente como pedra e no qual uma alegre cidade tinha estado toda edificada, era agora uma torrente de turbulentas águas amarelas. O rio conquistara, aquela noite, a sua liberdade. Era como se um jorro de enxofre (e muitos filósofos se inclinavam a pensar assim) se tivesse levantado de regiões vulcânicas inferiores, rompendo o gelo em pedaços, com tal veemência que varria e apartava os enormes e maciços fragmentos. O simples espetáculo da água era suficiente para entontecer. Tudo era tumulto e confusão. O rio estava juncado de avalanchas de gelo. Algumas eram amplas como um relvado e altas como uma casa; outras não eram maiores que um chapéu de homem, porém fantasticamente retorcidas. Agora descia um comboio inteiro de blocos de gelo, derrubando tudo o que encontrava em seu caminho. Agora, redemoinhando e rodando como uma torturada serpente, o rio parecia estar-se arremessando a si próprio entre os fragmentos e sacudindo-os de margem a margem, de modo que podiam ser ouvidos a esfacelar-se contra diques e pilares. Mas o mais terrível, e que inspirava mais horror, era o espetáculo das criaturas humanas que tinha sido colhidas de surpresa, durante a noite, e agora caminhavam por aquelas tortuosas e precárias ilhas, na maior agonia de espírito. Saltassem na correnteza ou ficassem no gelo, sua sentença era certa. Às vezes, um bando inteiro dessas pobres criaturas descia junto, umas ajoelhadas, outras amamentando os filhos. Um velho parecia ler em voz alta um livro sagrado. Outras vezes, e essa era talvez a sorte mais pavorosa, um infeliz solitário caminhava pela sua estreita habitação deserta. Ao serem arrastados para o mar, podia-se ouvir a inútil súplica de alguns, fazendo desesperadas promessas de corrigir-se, confessar seus pecados e doar altares e bens, se Deus ouvisse suas imprecações. Outros estavam tão estonteados de terror que se sentavam imóveis e silenciosos, olhando firme para a frente. Uma multidão de barqueiros ou estafetas, a julgar por suas librés, rugindo e berrando as mais baixas cantigas de taverna, como por bravata, foi de encontro a uma árvore e afundou, com blasfêmias nos lábios. Um velho nobre - como o proclamavam seu traje de peles e sua corrente de ouro - submergiu perto do lugar onde estava Orlando, pedindo vingança contra os rebeldes irlandeses, que - gritava com o seu último alento - haviam tramado aquela coisa diabólica. Muitos pereceram apertando ao peito algum jarro de prata ou qualquer outro tesouro; e pelo menos uma vintena de pobres infelizes se afogou pela sua própria cupidez, preferindo arrojar-se da margem à torrente do que deixar escapar algum cálice de ouro ou ver desaparecer alguma roupa de peles. Porque móveis, valores, objetos de toda espécie eram arrastados para longe pelas avalanchas. Entre outros estranhos espetáculos, via-se uma gata amamentando os filhotes; uma mesa suntuosamente preparada para a ceia de vinte convivas; um casal na cama, junto com um extraordinário número de utensílios de cozinha.


Aterrado e atônito, Orlando não pôde fazer nada, durante algum tempo, senão observar a medonha corrida das águas que se desencadeavam a seus pés. Por fim, como voltando a si, deu de esporas ao cavalo e galopou firme, ao longo do rio, em direção ao mar. Dobrando uma curva, chegou defronte àquele sítio onde, havia menos de dois dias, os navios dos embaixadores pareciam imobilizados para sempre. Contou-os apressadamente: o francês, o espanhol, o austríaco, o turco. Todos flutuavam ainda, embora ao francês se houvessem quebrado as amarras e o turco, com uma grande fenda no costado, estivesse fazendo água. Mas o navio russo não se avistava em parte alguma. Por um momento, Orlando pensou que tivesse afundado; mas, erguendo-se nos estribos e sombreando os olhos, que tinham o alcance dos de um falcão, conseguiu distinguir a forma de um navio no horizonte. As águias negras flutuavam no mastro principal. O navio da Embaixada Moscovita fazia-se ao largo.


Atirou-se do cavalo, como se, na sua cólera, quisesse acometer a corrente. Com água até os joelhos, lançou à infiel mulher todos os insultos que sempre tem recebido o seu sexo. Falsa, inconstante, volúvel, chamou-a: demônio, adúltera, traidora; e as águas vertiginosas receberam suas palavras e atiraram-lhe aos pés uma vasilha quebrada e uma palhinha. 



(Orlando; tradução de Cecília Meireles)




(Ilustração: Sergei Aparin)


quarta-feira, 17 de maio de 2017

EROS ES EL ÁGUA / EROS É A ÁGUA, de Gioconda Belli






Entre tus piernas

el mar me muestra extraños arrecifes

rocas erguidas corales altaneros

contra mi gruta de caracolas concha nácar

tu molusco de sal persigue la corriente

el agua corta me inventa aletas

mar de la noche con lunas sumergidas

tu oleaje brusco de pulpo enardecido

acelera mis branquias los latidos de esponja

los caballos minúsculos flotando entre gemidos

enredados en largos pistilos de medusa.

Amor entre delfines

dando saltos te lanzas sobre mi flanco leve

te recibo sin ruido te miro entre burbujas

tu risa cerco con mi boca espuma

ligereza del agua oxigeno de tu vegetación de clorofila

la corona de luna abre espacio al océano

De océano los ojos plateados

fluye larga mirada final

y nos alzamos desde el cuerpo acuático

somos carne otra vez

una mujer y un hombre

entre las rocas.



Tradução de José Agostinho Baptista:



Entre as tuas pernas

o mar revela-me estranhos recifes

rochas erguidas corais altaneiros

contra a minha gruta de búzios concha nácar

o teu molusco de sal persegue a corrente

a pequena água inventa-me barbatanas

mar da noite com luas submersas

tua ondulação brusca de polvo congestionado

acelera nas minhas guelras um latejar de esponja

e os cavalos minúsculos flutuam entre gemidos

enredados em longos pistilos de medusa.

Amor entre golfinhos

aos altos lança-te sobre o meu flanco leve

recebo-te sem ruído olho-te entre bolhas

cerco o teu riso com a minha boca espuma

ligeireza da água oxigênio de tua vegetação de clorofila

a coroa de lua abre espaço ao oceano.

Dos olhos prateados

flui longo olhar final

e erguemo-nos do corpo aquático

somos carne outra vez

uma mulher e um homem

entre as rochas.





(Ilustração:  Jean-Marie Poumeyrol - Les_Amants de la veranda)



domingo, 14 de maio de 2017

O POETA DOS 1001 AMORES, de Humberto Werneck






Pode ser que eu, sem me dar conta, tenha topado com Jésu de Miranda, o Poeta Soldado (ele gostaria dessa rima). É até bem provável, pois, no acanhado carrossel dos bares, cafés e livrarias da Belo Horizonte de meio século atrás, você topava com todo mundo, quisesse ou não. O fato é que só muito mais tarde fui tomar conhecimento da existência de Jésu, personagem da periferia da literatura que durante um tempo desfrutou de notoriedade municipal, nem sempre pelos sonetos que produzia aos borbotões. Hoje apagado até do folclore literário, chegou a merecer atenção de confrades graúdos como Monteiro Lobato, ou Vinicius de Moraes, para quem estava “longe de ser mau sonetista”.

Quem primeiro me falou de Jésu de Miranda foi outro poeta, Hélio Pellegrino, que não precisava de muito uísque para tronitruar em tom hilariante o decassílabo de abertura do soneto Eu, a seu ver perfeito: “Nasci em Guaxupé, no Sul de Minas!”. Hélio guardava com avareza de bibliófilo seu exemplar de Veritas Veritatis, e, quando Fernando Sabino pediu emprestado, não obteve mais que um xerox. Do qual fez bom uso, seja dito, pois o poema comparece, na íntegra, como “joia do soneto”, em O Grande Mentecapto, na voz do maluquinho Geraldo Viramundo. 

O romance de Sabino saiu em 1979, meses depois da morte do Poeta Soldado, assim chamado por ter pertencido aos quadros da Polícia Militar. Tinha 69 anos e seu desaparecimento passou de raspão pelo noticiário. Sobre o túmulo, a família pôde finalmente colocar a lápide que ele mandara fazer com larga antecedência, na qual se lê o soneto Meu Epitáfio: “Aqui jaz o cantor da própria sorte, / que no mundo só teve a triste lida: / cantar, chorando, até chegar a morte”. 

Foi de fato o que fez: no final da vida, Jésu de Miranda escrevia um poema cujo título, As Jesíadas, dá a medida de sua ambição, e do qual a família não tem notícia. Deixou, segundo o filho e xará, 17 livros, que ele mesmo se encarregava de camelotar pela cidade. O que despertou o interesse de Monteiro Lobato foi Agonia de um Poeta. Com ele, escreveu, o autor lhe “fez o coração abrir-se em lágrimas, diante de seu rio de dores”. Lobato tomou ao pé da letra o verso “Ninguém morrendo padeceu assim” - e, supondo no mínimo uma tuberculose, mandou ajuda de São Paulo. Caiu das nuvens quando, em visita a Belo Horizonte, se deparou com “um mulato mais robusto como nunca pensávamos”. Havia mais: o novo livro do “garimpeiro das rimas agônicas” se chamava As 100 Mulheres Que Eu Amei. “É muita mulher para quem se achava agonizando”, avaliou Lobato.

A obra em questão, por sinal, deu temerária fama a Jésu de Miranda, e mais de um marido julgou reconhecer a mulher entre as 100 cantadas nos sonetos. Um deles foi tomar satisfação. “O poeta quis explicar-se”, contou o cronista Moacir Andrade. “Não foi possível. O marido estava irado demais. Engalfinharam-se. Rolaram no chão. E o poeta foi processado e condenado”. Por lesões corporais, o 2º tenente reformado pegou um ano de prisão, pena que não chegou a cumprir integralmente. 

“Estou certo de que Jésu não acrescentará nenhuma outra mulher às 100 do livro”, apostou o cronista, naquele momento em que, segundo os gozadores, estaria a caminho uma edição revista, agora com o título As 99 Mulheres Que Eu Amei. Mas qual: 5 anos mais tarde, o poeta reincidiu em dose decuplicada com As 1001 Mulheres Que Eu Amei. “901 novos amores em 5 anos”, contabilizou Moacir Andrade, “seria um recorde universal”. 

Na vida real, não se sabe, mas, na poesia, musas voluptuosas reinavam em regime de exclusividade. “Que me condene quem quiser / por eu sinceramente confessar / ser um homem tarado por mulher”, alardeava o poeta. Na chave de ouro do soneto Eu, deixou claro que neste mundo a sua “diversão” consistia em “briga de galos, versos e mulheres”, talvez não nesta ordem. Em outro poema, uma galante tomada de posição: “Quando de amor o coração palpita, / quero mil vezes um milhão de escândalos / do que perder uma mulher bonita”. Chegou a anunciar, num verso alexandrino: “Quero um dia morrer nos braços das mulheres”. A insistência na última palavra lhe custou uma observação sardônica de João Alphonsus: para não perder a rima, o tenente aceitava rebaixar-se a alferes. 

Engaiolado, o poeta-soldado sentiu que até para efeitos domésticos era prudente maneirar, e o fez em redondilhas maiores: “Tenham calma, meus senhores! / Vou revelar uma cousa: / o maior dos meus amores / é o amor da minha esposa!!!” O que não o impediu, candidato a vereador, de estender sua campanha a uma zona não propriamente eleitoral, indo pedir voto em redutos de profissionais do sexo. Se arrebanhou apenas 120, quando esperava milhares - decepção que o levaria a escrever mais um livro, A Traição de Meus Eleitores -, não foi por falta de slogan: “Dê de frente, dê de banda, / mas vote em Jésu de Miranda!”



(O Estado de São Paulo; 6 outubro 2015) 


(Ilustração: Eliana Martins)




quinta-feira, 11 de maio de 2017

DEL TIEMPO LARGO / DO LONGO TEMPO, de Fina García Marruz






A veces, en raros

instantes, se abre, talud

real y enorme, el tiempo

transcurrido.

Y no es entonces

breve el tiempo. Como el pájaro

al elevar se abarca con sus alas

un diminuto pueblo o costerío,

la inmensidad de lo vivido arrecia,

y se mira remoto el ayer próximo,

en que el pico ávido bajaba

en busca de alimento.

¡Qué eternidad

de soles ya vividos! ¡Y qué completa

ausencia de nostalgia! Para crecer

se vive. Para nacer de nuevo

y rehacer la mala copia original.

Para crecer, se sufre. No se quiere

volver atrás, ni tan siquiera al tiempo

rumoreante de la juventud.

Que no para que el rostro

luzca lozano y terso se ha vivido.

No para atraer por siempre con el fuego

de la mirada, no con el alma en vilo

por siempre se ha de estar.

De cierto modo

la juventud es también como una cierta

decrepitud: un ser informe,

larva, debatíase, qué peligrosamente

amenazado. Se vivió, se salió,

quién sabe cómo, del hueco,

de la trampa:

Valió el otro

del bosque de la vida, el pleno encanto

de los claros del sol entre lo umbrío

para pagar su precio: lo tanto

costó poco: poco el sufrir inmenso

para esta dádiva. Al rastro

orne la arruga como el pecho la cinta coloreada

de un guerrero

o como al niño la medalla premia

por la humilde labor.

Como el avaro

el peso de un tesoro) encorva

la espalda anciana el peso

del vivir.

Mas ya, arriba,

a la salida, ya, se mira

hacia atrás sonriendo, renacido,

como agrietada cáscara el polluelo,

ya se van desligando las amarras,

del extraño navío, y como navío trémulo

locamente lo incierto hace señales.



Costó dotar, muerte costó, la vida.

Y al tiempo) breve o largo, siempre corto,

como el relámpago del amor, se le mira

ya sin recelo ni amargura

como a las heridas de la mano, en el arduo

aprender de su oficio,

contempla el aprendiz.



Bella es toda partida.



Tradução de Alai Garcia Diniz e Luizete Guimarães Barros:



Às vezes, em raros

instantes, se abre, talude

real e enorme, o tempo

transcorrido.

E então não é

breve o tempo. Como o pássaro

ao elevar-se atinge com suas asas

uma diminuta vila ou encosta,

a imensidão do vivido se fortalece,

e se vê remoto o ontem próximo,

em que o bico ávido descia

em busca de alimento.

Que eternidade

de sóis já vividos! E que completa

ausência de saudade! Para crescer

se vive. Para nascer de novo

e refazer a má cópia original.

Para crescer, se sofre. Não se quer

voltar atrás, nem sequer ao tempo

rumorejante da juventude.

Não é para que o rosto

reluza viçoso e terso que se viveu.

Não para atrair para sempre com o fogo

do olhar, nem com a alma no ar

para sempre se há de estar.

De certo modo

a juventude é também como uma certa

decrepitude: um ser informe,

larva que se debatia, quando perigosamente

ameaçada. A gente viveu, saiu,

sabe Deus como, do oco,

da trapaça:

Serviu-se o outro

do bosque da vida, o encanto pleno

dos clarões do sol entre as sombras

para pagar seu preço: o muito

custou pouco; pouco o sofrer imenso

para esta dádiva. Ao rosto

orne a ruga como ao peito a cinta rubra

de um guerreiro

ou como ao menino premia a medalha

pelo humilde labor.

Como ao avaro

o peso de um tesouro, encurva

às costas velhas o peso

do viver.

Mas já, acima,

à saída, já se olha

para trás sorrindo, renascido,

como o pintinho agride a casca,

já se vão desfazendo as amarras

do estranho navio, e como noivo trêmulo

loucamente o acaso faz sinais.



Causou dor, morte causou, a vida.

Em seu tempo, breve ou longo, sempre curto,

como o relâmpago do amor, já é olhado

sem receio nem amargura

como às feridas da mão, no árduo

aprender de seu ofício,

contempla o aprendiz.



Bela é toda partida.



(Visitaciones)





(Ilustração: Nicolás Berlingieri - Dali time statue)




segunda-feira, 8 de maio de 2017

O DIREITO AO FODA-SE!, de Millôr Fernandes






Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzam com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o Povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia. Sem que isso signifique a "vulgarização" do idioma, mas apenas sua maior aproximação com a gente simples das ruas e dos escritórios, seus sentimentos, suas emoções, seu jeito, sua índole.

"Pra caralho", por exemplo. Qual expressão traduz idéia de maior quantidade do que "Pra caralho"? "Pra caralho" tende ao infinito, é quase uma expressão matemática, física. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto dela pra caralho, entende?

No gênero do "Pra caralho", mas no caso expressando a mais absoluta negação está o famoso e crescentemente utilizado "Nem fodendo!" Nem o "Não, não e não!" e nem tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, absolutamente não!" o substituem. O "Nem fodendo" é irretorquível, liquida o assunto. Te libera , com a consciência e o ego tranquilos, para outras atividades de maior interesse em sua vida.

Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo "Huguinho, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!" O impertinente se manca na hora e vai pro shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o novo CD do Lupicínio.

Por sua vez, o "porra nenhuma!" atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional.

Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um "é PhD porra nenhuma!", ou "ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!" O "porra nenhuma", como vocês veem, nos provê sensações de incrível bem-estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos "aspone", "chepone", "repone" e, mais recentemente, o "prepone" - presidente de porra nenhuma.

Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "Puta-que-pariu!", ou seu correlato "Puta-que-o-pariu!", falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba... Diante de uma notícia irritante qualquer um Puta-que-o-pariu! dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.

E o que dizer de nosso famoso "vai tomar no cu!"? E sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai tomar no olho do seu cu!" Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta:

"Chega! Quer saber mesmo de uma coisa? Vai tomar no olho do seu cu!" Pronto,você retomou as rédeas de sua vida, sua autoestima. Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor íntimo nos lábios.

Seria tremendamente injusto, em que pesem ainda inexplicáveis e preconceituosas resistências à sua palavra-raiz, não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do PV (Português Vulgar): "Embucetou!" E sua derivação mais avassaladora ainda: "Embucetou de vez!".

Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e autodefesa. Algo assim como o comentário de um vizinho para sua esposa ao sacar que no auge da violenta briga do casal da residência ao lado, chegam de súbito a amante, o filho espúrio e o cunhado bêbado com o resultado do exame de DNA: "Fecha a porta que embucetou de vez!" 

O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"? O "foda-se!" aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta." Não quer sair comigo? Então foda-se!." "Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!"

O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na constituição brasileira.

Liberdade, igualdade, fraternidade e FODA-SE!





(Ilustração: Dave Whitlam - the temptation of st  anthony)

sexta-feira, 5 de maio de 2017

O CORPO, de Eliana Iglesias








De que te serve um corpo que não tem prazer?

De que te serve um corpo que não dá prazer?

De que te serve esse corpo se não o sabes?

Se nunca o soubeste?

Por receio em tocá-lo não o despertaste

Por falta de sabedoria não o ensinaste

Tampouco aprendeste com ele

O que tem esse corpo que jamais o entregas a outro?

Que segredo há nele que outros não possam desvendar?

Por que não submetê-lo às encruzilhadas para que ele decida o que fazer?

Por que não expô-lo às sensações, aos arrepios, às mudanças de lua?

Para que o preservas tanto se conheces o destino final da carne humana?

Tu o castigas, diariamente, deixando-o apartado de ti, como desconhecidos que devem coabitar sem trocar palavra.

Tu o exilas, o relegas às sombras.

Um corpo que não tem ciência da alvorada que se anuncia, do despertar da natureza, do clarão do mundo?

Por que não deixar essa tua pele suar, extrair dela gotas de orvalho, relva macia, sumos adocicados?

O que imaginas? Por que tamanho embotamento?

Talvez, não queiras ferir esse teu corpo! Mas, se o feres ainda mais trancando-o a si mesmo? Como aqueles pais que proíbem a criança de sair à rua para brincar.

Como não deixar teu corpo, brincar um pouco? Ganhar as ruas? As gentes? A ter notícia das intenções alheias? Pois que o mundo é recheado delas, as intenções. Sejam elas boas, ou más, ingênuas, demoníacas.

Tens um corpo bem cuidado, agradável, passível de prazer, pois que prazer na verdade é prerrogativa de qualquer corpo vivo, mas teu corpo nada sabe, nada contaste a ele. Teu corpo é virgem do gozo por força da tua vontade, que ao invés de facilitá-lo, toma-o como adversário, batendo forças com ele.

Criaste para ele masmorra, cela solitária, a travar tuas mãos, tolher teus gestos, recolher teu sexo. Nada ensaias a não ser sublimação e angústia?

És escravo de ti mesmo e teu algoz. Há em ti um carrasco que não te abandona, porque assim o permites.

És o opositor de ti mesmo. Protagonista e antagonista da tua própria história, censurada desde sempre por tua consciência, ninguém mais. Censurada por uma moral pegajosa da qual não consegues te livrar (Há sempre tempo!)

Há sempre tempo de arrancares a mortalha em que te arrastas para lançares-te no vácuo do mundo, ouvires por fim teus instintos, acolheres teus humores e de forma indubitável, renasceres de uma vez por todas para ti.





(Ilustração: Ray Caesar – blackbird)






quarta-feira, 3 de maio de 2017

A IDADE DA RAZÃO, de Jean-Paul Sartre






Parou diante de um edifício atarracado da Rua Réaumur e leu agastado, como lhe acontecia sempre: Jacques Delarue, tabelião, 2º andar. Tabelião! Entrou, tomou o elevador. "Espero que Odette não esteja, pensou".

Estava. Mathieu percebeu-a através da porta envidraçada da sala de estar. Estava sentada num sofá, elegante, alta e limpa até a insignificância. Lia. Jacques dizia de bom grado: "Odette é uma das poucas mulheres de Paris que acham tempo para ler".

- O Sr. Mathieu quer falar com madame? - indagou Rosa.

- Sim, quero dizer-lhe bom dia, mas previna meu irmão de que irei vê-lo no escritório dentro de alguns minutos.

Empurrou a porta. Odette ergueu seu belo rosto ingrato e pintado.

- Bom dia, Thieu - disse contente. - É minha visita que você veio fazer?

- Sua visita?

Ele contemplava com uma simpatia confusa aquela fronte alta e calma e aqueles olhos verdes. Era bela, sem dúvida, mas de uma beleza que parecia sonegar-se ao olhar. Acostumado a rostos como o de Lola, cuja sentido se impunha de imediato, brutalmente, Mathieu tentara cem vezes reter em conjunto aqueles traços escorregadios, mas escapavam, o conjunto desfazia-se a cada instante e o rosto de Odette guardava seu decepcionante mistério burguês.

- Gostaria que visita fosse para você - disse -, mas tenho que ver Jacques, preciso de um favor.

- Não tenha tanta pressa assim - disse Odette. - Jacques não vai fugir. Sente-se.

Arranjou-lhe um lugar ao lado dela.

- Cuidado - acrescentou sorrindo. - Um desses dias vou zangar-me. Você me esquece. Tenho direito de uma visita pessoal. Você prometeu.

- Você é que prometeu receber-me um destes dias.

- Como é delicado - disse ela, sorrindo -, não deve estar com a consciência tranquila.

Mathieu sentou-se. Gostava de Odette, mas não sabia nunca o que dizer-lhe.

- Como vai, Odette?

Pôs certo calor na voz para dissimular a vulgaridade da pergunta.

- Muito bem. Sabe aonde fui esta manhã? A Saint-Germain, com o carro, para ver Françoise. Isso me encantou.

- E Jacques.

- Muito trabalho, ultimamente. Quase não o vejo mais. Porém, sua saúde é extraordinária. Como sempre.

Mathieu sentiu bruscamente um profundo desprazer. "Ela pertence a Jacaques", pensou. Contemplava com mal estar o braço moreno e fino que saía de um vestido muito simples, apertado na cintura por um cordão vermelho, quase um vestido de mocinha. O braço, o vestido, o corpo por baixo do vestido, tudo pertencia a Jacques, como os móveis, a secretária de mogno, o sofá. Essa mulher discreta e pudica recendia a posse. Houve um silêncio e em seguida Mathieu voltou à voz quente e ligeiramente nasal que conservava para Odette.

- Muito lindo o seu vestido - observou.

- Oh! escute - disse Odette com um riso indignado -, deixe esse vestido sossegado. Todas as vezes que você me vê, fala de meus vestidos. Deixe isso e diga-me o que fez esta semana.

Mathieu riu. Sentia-se agora bem disposto.

- Pois é justamente a propósito desse vestido que quero falar.

- Meu Deus, que será?

- Estou pensando se você não deveria usar brincos com eles.

- Brincos?

Odette olhou-o de um modo singular.

- Acha vulgar? - indagou Mathieu.

- Não, absolutamente. Mas tornam o rosto indiscreto. - E acrescentou, sem transição, numa risada: - Você estaria por certo muito mais à vontade comigo se usasse brincos.

- Por quê? Não creio - disse Mathieu vagamente.

Estava surpreendido, pensava: "Realmente não é nada tola". Mas a inteligência de Odette era como sua beleza. Tinha algo esquivo.

Houve um silêncio. Mathieu não soube mais o que dizer. No entanto, não tinha vontade de sair. Gozava uma espécie de quietude. Odette disse gentilmente:

- Não devo retê-lo mais. Vá ver Jacques. Você parece preocupado.

Mathieu levantou-se. Pensou que ia pedir dinheiro a Jacques e sentiu um formigamento na ponta dos dedos.

- Até logo, Odette - disse afetuosamente. - Não, não se levante. Voltarei para me despedir.

"Até que ponto será uma vítima?", indagava, batendo à porta de Jacques. "Com esse gênero de mulheres nunca se sabe".

- Entre - disse Jacques.

Levantou-se, atento e muito empertigado, e avançou para Mathieu.

- Bom dia, velho - disse com entusiasmo. - Como vais?

Parecia muito mais jovem do que Mathieu, embora fosse mais velho. Mathieu achava que ele estava engordando na cintura. No entanto, devia usar cinta.

- Bom dia - disse Mathieu com um sorriso afável.

Sentia-se em falta. Há vinte anos se sentia em falta quando via o irmão ou pensava nele..

- Então, Mathieu, que bons ventos?

Mathieu fez um gesto de aborrecimento.

- Alguma coisa não vai? - indagou Jacques. - Senta. Um uísque?

- Que vá - disse Mathieu. Sentou-se com um nó na garganta. Pensava: "Bebo o uísque e dou o fora sem dizer nada". Mas já era tarde. Jacques sabia muito bem o que ele queria e pensaria "Não teve coragem de dar a facada". Jacques permanecia de pé. Pegou a garrafa e serviu duas doses.

- É a última garrafa - disse -, mas não comprarei outra antes do outono. Digam o que quiserem, um bom gin fizz é bem melhor com calor, não acha?

Mathieu não respondeu. Olhava sem doçura aquele rosto rosado e fresco do rapaz. Jacques sorria inocentemente, toda a sua pessoa recendia a inocência, mas os olhos eram duros. "Banca o inocente", pensou Mathieu com raiva. "Sabe muito bem por que vim e está se fazendo de desentendido."

Disse rispidamente:

- Não te iludes, por certo, sabes que vim pedir-te dinheiro.

Agora não podia mais recuar. Já seu irmão arqueava as sobrancelhas com um ar de profunda surpresa. "Não me perdoará nada", pensou Mathieu irritado.

- Não, não imaginava isso, por que o suspeitaria? Queres insinuar que é esse o único fim de tuas visitas?

Sentou-se, sempre muito correto, cruzou as pernas com certa moleza como para compensar a rigidez do busto. Vestia um magnífico terno esporte de casimira inglesa.

- Não quero insinuar coisa alguma - disse Mathieu. Piscou e acrescentou apertando com força o copo: - Mas preciso de quatro mil francos de hoje para amanhã.

"Vai dizer não. Que recuse logo e que eu possa dar o fora!" Mas Jacques não se apressava. Era tabelião, tinha tempo.

- Quatro mil - disse, meneando a cabeça como um conhecedor. - Puxa!

Estendeu as pernas e olhou os sapatos com satisfação.

- Você me diverte, Thieu, você me diverte e você me instrui. Oh! não leve a mal o que estou dizendo - atalhou diante de um gesto de Mathieu. - Não quero criticar, não quero censurar tua conduta, mas afinal eu reflito, me interrogo, vejo isso de cima, como "filósofo", diria, se não estivesse falando com um filósofo. Sabes, quando penso em ti, fico mais convencido ainda de que não se deve ser um um homem de princípios. Você está cheio de princípios, mas não se submete a eles. Em teoria não há ninguém mais independente. Isto é muito bom. Você está acima das classes. Mas eu pergunto: que aconteceria se eu não existisse? Observe-se que, para mim, eu não tenho princípios, é até uma felicidade poder ajudar-te de quando em vez. Mas parece-me que com as tuas ideias eu faria questão de não dever nada a um horroroso burguês. Porque eu sou um horroroso burguês - acrescentou, rindo alegremente.

Continuou, sem parar de rir:

- E há pior, você, que cospe na família, você se aproveita do parentesco para dar facadas. Sim, porque afinal não virias a mim se eu não fosse teu irmão.

Assumiu um ar de sincero interesse:

- No fundo, bem no fundo, isso não te aborrece um pouco?

- Que posso fazer? - disse Mathieu, rindo igualmente. 

Não ia travar uma discussão de ideias. Essas discussões acabavam sempre mal com Jacques. Mathieu perdia imediatamente o sangue-frio.

- Com efeito - disse Jacques secamente. - Mas não crês que com um pouco de organização...? É contrário a tuas ideias, sem dúvida. Não quero dizer que sejas culpado, veja bem. Para mim a culpa é dos teus princípios.

- Você sabe - retrucou Mathieu para dizer alguma coisa -, não ter princípios é ainda um princípio...

- Um mínimo! - disse Jacques.

"Agora", pensou Mathieu, "ele vai topar." Mas olhou o rosto cheio do irmão, sua fisionomia aberta, porém obstinada, e pensou inquieto. "Parece difícil". Felizmente Jacques retomava a palavra.

- Quatro mil - repetiu. - Uma necessidade súbita? Porque, enfim, na semana passada quando vieste aqui... me pedir um pequeno favor, não precisavas ainda.

- É - disse Mathieu - desde ontem...

Pensou rapidamente em Marcelle, reviu-a sinistra e nua no quarto cor de rosa e acrescentou num tom angustiado que surpreendeu a si próprio:

- Jacques, preciso do dinheiro.

Jacques encarou-o com curiosidade e Mathieu mordeu os lábios. Os dois irmãos não tinham por hábito exprimir assim com tanta vivacidade seus sentimentos.

- A esse ponto? Engraçado. Você... de costume pede dinheiro porque não sabe ou não quer organizar a sua vida, mas nunca teria imaginado... Naturalmente, não te pergunto nada - acrescentou com uma expressão ligeiramente interrogativa.

Mathieu hesitava. "Digo que é para os meus impostos? Não. Ele sabe que os paguei em maio."

- Marcelle está grávida - disse bruscamente.

Sentiu que corava e deu de ombros. Por que, afinal? Por que aquela vergonha súbita? Olhou o irmão de frente, com olhos agressivos. Jacques pareceu interessar-se.

- Vocês queriam um filho?

Fingia não compreender.

- Não - disse Mathieu, num tom ríspido. - Foi um acidente.

- Estava espantado - disse Jacques -, mas afinal você podia ter desejado levar até o fim tuas experiências à margem da ordem estabelecida.

- Pois não foi isso, em absoluto.

Houve um silêncio e Jacques indagou, muito à vontade:

- E quando será o casamento?

Mathieu enrubesceu de cólera. Como sempre, Jacques se recusava a encarar honestamente o problema, girava obstinadamente em torno, e durante esse tempo seu espírito procurava um ninho de águia de onde pudesse fixar um olhar agudo sobre a conduta dos outros. O que quer que se dissesse ou fizesse, o primeiro impulso dele era elevar-se acima do debate. Não sabia ver senão de cima, tinha a paixão dos ninhos de águia...

- Tomamos a decisão de fazê-la abortar - disse Mathieu com brutalidade.

Jacques não pestanejou.

- Já encontrou um médico? - indagou em tom neutro.

- Já.

- Um médico seguro? Segundo o que você me disse, a saúde dessa mulher é delicada.

- Tenho amigos que me garantem.

- Sim - disse Jacques -, sim, evidentemente.

Fechou os olhos um instante, abriu-os e juntou as mãos pelas pontas dos dedos.

- Em suma - disse -, se compreendo exatamente o que acontece é o seguinte: acabas de saber que tua amiga está grávida. Não queres casar por questões de princípios, mas te consideras com uma responsabilidade tão estrita quanto a do casamento. Não querendo nem casar nem prejudicar-lhe a reputação, resolveste fazê-la abortar nas melhores condições possíveis. Teus amigos recomendaram um médico de confiança, o qual exige quatro mil francos. Tens que arranjar o dinheiro. Não é isso?

- Exatamente! - disse Mathieu.

- E por que precisas do dinheiro de hoje para amanhã?

- O médico parte para a América dentro de oito dias.

- Bom - disse Jacques. - Compreendo.

Ergueu as mãos à altura dos olhos e encarou-as com a expressão precisa de quem fosse chegar às conclusões necessárias. Mas Mathieu não se iludiu. Um tabelião não conclui tão depressa assim. Jacques abaixara as mãos e as pousara nos joelhos. Afundara na poltrona e seus olhos já não brilhavam. Disse com voz mole:

- São muito severos neste momento na repressão ao aborto.

- Eu sei - disse Mathieu -, de vez em quando ficam severos. Põem na cadeia uns pobres-diabos sem proteção, mas os grandes especialistas nunca são atingidos.

- Queres dizer com isso que há uma injustiça. Sou da mesma opinião. Mas não desaprovo inteiramente os resultados. Pela própria força das circunstâncias, pobres-diabos são ervanários ou "fazedores de anjos", que liquidam uma mulher com seus instrumentos sujos. As batidas estabelecem uma seleção. Já é alguma coisa.

- Enfim... - disse Mathieu já irritado. - Venho pedir quatro mil francos.

- E... - atalhou Jacques - tens certeza de que o aborto está de acordo com os teus princípios?

- Por que não?

- Não sei, você é que deve saber. Você é pacifista por respeito à vida humana, e vai destruir uma vida.

- Estou decidido. Aliás, eu sou pacifista, mas não respeito a vida humana. Você está confundindo.

- Ah! Pensei... - disse Jacques.

Considerava Mathieu com uma serenidade divertida.

- Eis que te enfias na pele de um infanticida. Não te vai bem a fantasia, Mathieu.

"Tem medo que me peguem", pensou Mathieu, "não me dará um franco." Fora preciso dizer-lhe: "Se pagares não correrás nenhum risco, irei ver um médico hábil e que não figura nas listas da polícia. Se recusares terei de mandar Marcelle a um charlatão e não garanto mais nada, porque a polícia os conhece a todos e pode de um momento para outro botar-lhes as mãos". Mas tais argumentos eram diretos demais para terem influência sobre Jacques. Mathieu disse simplesmente:

- Um aborto não é um infanticídio.

Jacques pegou um cigarro e acendeu.

- Sim - disse com displicência. - Um aborto não é um infanticídio, é um assassínio "metafísico".

Acrescentou com seriedade:

- Meu pobre Mathieu, não tenho objeções contra o assassínio metafísico, como não tenho contra outros crimes perfeitos. Mas que você cometa um assassínio metafísico, você, assim como você é... - estalou a língua numa censura - isso não, seria um desafinamento...

Acabou, Jacques recusava. Mathieu ia poder sair. Limpou a voz e indagou por descargo de consciência:

- Então não me ajudas?

- Compreenda-me - disse Jacques. - Não recuso ajudar. Mas seria realmente ajudar? Estou persuadido, de resto, que encontrarás com facilidade o dinheiro.

Levantou-se subitamente como se tivesse tomado uma decisão e pousou amistosamente a mão sobre o ombro do irmão.

- Escuta, Thieu - disse com calor -, vamos dizer que recusei. Não quero ajudar-te a mentir a ti mesmo. Mas vou propor outra coisa.

Mathieu que já se levantara tornou a sentar e sua velha cólera fraternal o invadiu. Aquela suave e decidida pressão sobre o ombro era-lhe intolerável. Inclinou a cabeça para trás e viu o rosto diminuído de Jacques.

- Mentir a mim mesmo? Ora, Jacques, diga que não quer se meter num negócio de aborto, que não aprova isso, que não tem dinheiro, está no seu direito e não terei rancor. Mas para que falar em mentira? Não há mentira nisso. Não quero um filho, acontece-me um, suprimo-o, eis tudo.

Jacques retirou a mão, deu alguns passos, refletiu. "Vai me fazer um discurso", pensou Mathieu, "eu não deveria ter topado a discussão."

- Mathieu - disse Jacques, com clareza -, conheço-te melhor do que pensas e agora estou assustado. Há muito eu temia algo semelhante. Essa criança que vai nascer é o resultado lógico de uma situação em que te meteste voluntariamente e queres suprimi-la porque não desejas arcar com as consequências de teus atos. Queres que te diga a verdade? Não mentes talvez a ti mesmo neste instante preciso, mas é tua vida inteira que se constrói sobre uma mentira.

- Não faça cerimônia - disse Mathieu -, esclareça-me acerca do que escondo a mim mesmo. - Sorria.

- O que escondes - disse Jacques - é que és um burguês envergonhado. Eu voltei à burguesia depois de inúmeros erros, fiz um casamento de conveniência, mas você é burguês por gosto, por temperamento, e é teu temperamento que te empurra para o casamento. Porque você está casado, Mathieu - disse ele com força.

- Isso é novidade - disse Mathieu.

- Sim, está casado, só que pretende o contrário por causa de suas teorias. Adquiriste hábitos com essa mulher. Quatro vezes por semana vais tranquilamente encontrá-la e passas a noite com ela. E isso dura há sete anos. Não tem mais nada de aventura. Você a estima, sente que tem obrigações para com ela, não a quer abandonar. Estou certo de que não procuras unicamente o prazer; por maior que tenha sido, deve ter-se embotado. Na realidade, deves sentar-te à noite junto dela e contar longamente os acontecimentos do dia, pedir conselhos nos momentos difíceis.

- Evidentemente - disse Mathieu, erguendo os ombros.

- Pois bem, podes dizer-me em que isso defere do casamento? O fato de não morarem juntos?

- A abstenção da coabitação - disse Mathieu, ironicamente. - Um nada!

- Imagino muito bem que para você essa abstenção não deve ser um grande sacrifício.

"Nunca dissera tanto", pensou Mathieu, "é um revide." Devia sair batendo a porta. Mas Mathieu sabia que ficaria até o fim. Sentia um desejo combativo e maldoso de conhecer a opinião do irmão.

- Para mim... - disse. - Por que diz que não deve ser um sacrifício para mim?

- Porque com isso você ganha a comodidade, uma aparência de liberdade. Tens todas as vantagens do casamento e aproveitas os princípios para recusar os inconvenientes. Recusas regularizar a situação, o que é muito fácil e cômodo, pois, se alguém sofre, não é você.

- Marcelle partilha minha ideias acerca do casamento - disse Mathieu, arrogante. Ouvia-se pronunciando nitidamente cada palavra e se achava profundamente desagradável.

- Oh! - disse Jacques - se não as tivesse, o orgulho a impediria de confessá-lo. sabes o que não entendo? Você, tão disposto sempre a profligar uma injustiça, você humilha essa mulher há anos, pelo mero prazer de afirmar que estás de acordo com teus princípios. Se realmente subordinasses tua vida a tuas ideias! Mas eu te repito, estás casado, tens um apartamento agradável, recebes bons vencimentos em dia certo, não tens nenhuma inquietação quanto ao futuro, porque o Estado te garante uma aposentadoria. E gostas desta vida calma, regrada, uma vida de funcionário.

- Escuta - disse Mathieu -, há um mal-entendido entre nós; pouco me importa ser não burguês. O que eu quero, apenas... - acabou a frase entre os dentes - é conservar a minha liberdade.

- Eu imaginava - disse Jacques - que a liberdade consistia em olhar de frente as situações em que a gente se meteu voluntariamente e aceitar as responsabilidades. Não é por certo tua opinião: condenas a sociedade capitalista e, entretanto, és funcionário nessa sociedade. Proclamas uma simpatia de princípio pelos comunistas, mas tens cuidado em não te comprometeres. Nunca votaste. Desprezas a classe burguesa e, no entanto, és um burguês, filho e irmão de burgueses, e vives como um burguês.

Mathieu fez um gesto, mas Jacques não se deixou interromper.

- Estás, no entanto, na idade da razão, meu caro Mathieu - disse com uma piedade ralhadora. - Mas isso você também o esconde, quer fazer-se de mais moço. Aliás... talvez seja injusto. Talvez não tenhas ainda a idade da razão, é uma idade moral, a que cheguei antes de ti.

"Pronto", pensou Mathieu, "vai-me falar de sua mocidade." Jacques era muito orgulhoso de sua juventude, era sua garantia, permitia-lhe defender o partido da ordem em boa consciência. Durante cinco anos macaqueara com aplicação as loucuras em voga, fora surrealista, tivera algumas aventuras lisonjeiras e chegara mesmo a respirar por vezes, antes do amor, um lenço embebido em éter. Um belo dia acertara o passo. Odette trazia-lhe seiscentos mil francos de dote. Ele escrevera a Mathieu: "É preciso ter a coragem de fazer como todo mundo para não ser como ninguém". E comprara um cartório.

- Não censuro tua mocidade - disse - Ao contrário. Você teve a sorte de evitar alguns maus passos. Mas afinal não lamento a minha, tampouco. No fundo, tínhamos ambos que esbanjar os instintos daquele velho pirata que foi nosso avô. Só que eu os esbanjei por atacado e você os está gastando no varejo. Tens ainda que atingir o fundo. Acho que a princípio você não era muito menos pirata do que eu. É o que te perde. Tua vida não passa de um perpétuo compromisso entre teu pendor, embora modesto, pela revolta e pela anarquia, e tuas tendências profundas que te empurram para a ordem, a saúde moral, a rotina quase. O resultado? Ficaste um velho estudante irresponsável. Mas, meu caro, olha bem para mim. Você tem trinta e quatro anos, seus cabelos já estão grisalhos - não tanto quanto os meus, é certo -, você nada mais tem de mocinho, não te vai bem a vida boêmia. Aliás, o que é isso, a boêmia? Era muito divertido há cem anos, agora... um punhado de desajustados sem perigo para ninguém e que perderam o trem, simplesmente. Você está na idade da razão, Mathieu, está ou deveria estar - repetiu distraidamente.

- Ora - disse Mathieu -, a idade da razão é a idade da resignação. Não me interessa, creia.

Mas Jacques não o escutava. Seu olhar tornou-se límpido e alegre e ele acrescentou:

- Escuta. Como te disse, vou fazer uma proposta. Se recusares, não te será difícil encontrar os quatro mil francos, isso não me causa remorso. Ponho dez mil francos à tua disposição se casares com tua amiga.

Mathieu previra o golpe. De qualquer maneira aquilo lhe fornecia uma saída digna.

- Agradeço, Jacques - disse levantando-se -, você é realmente muito bom, mas não serve. Não quero dizer que você esteja inteiramente errado, mas, se tiver de casar-me um dia, será quando sentir vontade de fazê-lo; agora, seria uma cabeçada estúpida para sair do buraco.

Jacques levantou-se igualmente.

- Reflete. Não há pressa. Tua mulher será muito bem recebida aqui; não preciso dizê-lo. Confio na tua escolha e Odette se sentirá feliz em tratá-la como amiga. Aliás, minha mulher ignora por completo a tua vida íntima.

- Já refleti - disse Mathieu.

- Como queiras - observou Jacques, cordialmente. "Será que ele está muito aborrecido?", pensou. E acrescentou: - Quando apareces?

- Vou almoçar domingo - disse Mathieu. - Adeus.

- Adeus - disse Jacques. - E... você sabe, se voltar atrás, minha proposta fica de pé!

Mathieu sorriu e saiu sem responder. Desceu a escada correndo. "Até que enfim! Até que enfim!" Não estava alegre, mas tinha vontade de cantar. Agora Jacques devia estar sentado à escrivaninha, o olhar perdido no vago, com um sorriso triste e grave: "Esse rapaz me inquieta, entretanto está na idade da razão..." Ou talvez tivesse ido ver Odette. "Mathieu me inquieta. Não posso dizer-te por quê. Mas ele não é sensato." Que diria ela? Desempenharia o papel de esposa refletida ou se restringiria a aprovar discretamente sem tirar o nariz de cima do livro?

"Diabo!", pensou Mathieu, "esqueci de dizer adeus a Odette". Teve remorso: estava com predisposição para o remorso. "Será verdade, será que mantenho Marcelle numa posição humilhante!" Lembrou-se das violentas manifestações de Marcelle contra o casamento. "Aliás, eu lhe propus casamento certa vez... Há cinco anos." Marcelle caçoara dele. "Será que sinto um complexo de inferioridade diante do meu irmão?" Não, não era isso. Por maior que fosse seu sentimento de culpa, Mathieu nunca deixara de se considerar com razão perante Jacques. "Sim", pensou. "Mas eu gosto desse salafrário. Quando não me envergonho diante dele, sinto vergonha por ele. Ah! a família é como a varíola, a gente tem quando criança e fica marcada para o resto da vida".



(A Idade da Razão; tradução de Sérgio Millet)




(Ilustração: Virginia Derryberry)