segunda-feira, 29 de maio de 2017

MINHA NAMORADA, de Ascânio Lopes








Seu nome era besta e ela também

mas quase não falava e só sabia olhar.

Gostei dela

fiz versos puxados

gastei tempo nas rimas raras

e na colocação de pronomes

porque ela era normalista

e gostava de gramática e não perdoava galicismos.

Mas um dia ela descobriu meus versos modernos

e percebeu que fingia

e gostava de errar nos pronomes

e que meus sonetos eram só pra ela.

Então me deu o fora e arranjou um poeta sincero

que a comparava a Marília

e que sabia de cor a "Ceia dos Cardeais"

e que sapecava todos os ritmos novos

e as poesias sem geometria e compasso.



E ficavam cinicamente amando no portão

quando não iam ao cinema delirar com as fitas dramáticas italianas 12 atos.

Ela me deu o fora.

Também nunca mais fiz sonetos.





(Ilustração: Portinari - Maria)



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