domingo, 31 de maio de 2009

AS DUAS RÃS, de Leo Vaz









Era uma vez duas rãs.



Não tinham nada de extraordinário, que as distinguisse de outras rãs, passadas ou pósteras.

Duas rãs vulgaríssimas.


Mas, para moralizar o nosso conto, vamos supor que elas eram dotadas de caracteres respectivos e que esses caracteres eram avessamente o contrário um do outro. Uma era ativa, esperta e diligente, enquanto a outra não passava de uma acabada mandriona.



As duas ranzinhas iam, porém, vivendo a sua vidoca como Deus era servido; pula que pula, aqui, papa uma mosca, ali, sem maiores sobressaltos, nem preocupações.



Até que um belo dia, não se sabe por que fantásticas razões, resolveram sair a correr mundo.



E saíram.



Abandonando a lagoa natal, entraram, campo afora, aos trancos e arremessos de uma viagem sem destino.



Esqueci-me de avisar que eram duas rãs completamente analfabetas em matéria de geografia.



Assim, a arrancadas tantas, foram dar com os costados à casa de campônio, guardador de cabras. Esse campônio, talvez para me ajudar se algum dia me desse na veneta escrever esta mui exemplar e edificante história, estava amavelmente fora e longe no exato momento em que nossas heroínas chegavam à parta do seu tugúrio.



Ora, uma das pouquíssimas características que as nossas rãs tinham em comum, por um milagre, era a curiosidade. Vai daí, entrando pela cabana a dentro, não se puseram quietinhas e com modos, às espera de seu hospedeiro, como competiria a duas rãs escoteiras. Não! Começaram a esquadrinhar tudo, como se a casa estivesse para alugar.



Foi assim que logo depararam com um velho armário, a um canto, com as duas portas entreabertas. Donde se verá que o tal campônio, se guardava as cabras ao relento e o leito delas em casa, não contava, nesse dia pelo menos, com nenhumas esporádicas visitas...



A curiosidade é um vício que desconhece termos. Vendo o armário, imediata, simultânea e maquinalmente, sem trocar uma só palavra de consulta mútua, idearam as duas intrusas ir verificar de perto o que lá por dentro havia.



Zep!... De um salto ligeiro, ei-las ambas no interior do traste. Uma vez ali, a cócega de tudo querer inspecionar pô-las a remexer o móvel com a sem-cerimônia com que haviam devassado a habitação.



Foi quando começou a catástrofe. Ao espirar para dentro de uma larga e bojuda terrina, com tal açodamento o fizeram que, perdendo o equilíbrio, precipitaram-se, de cabeça, no mar de leite que enchia o vaso!



Então, é que principiou-se a fazer-se notar a diversidade de índoles a que se aludiu atrás. Porque, enquanto a rã dinâmica se pôs logo a pernear e a bracejar como uma doida, na superfície do líquido, para ver se se salvava, a outra, preguiçosa, deixou-se ir para o fundo, desenganada de qualquer recurso, sem mesmo tentar o menor esforço para minorar os riscos da situação.



Todo mundo sabe que um dos melhores processos de fabricar manteiga consiste justamente em agitar o leite, numa terrina, mediante umas perninhas de rã. Era o que estava, talvez, fazendo certo sábio, quando, sem querer e muito espantado, veio a descobrir a eletricidade. Por isso, com a rã laboriosa e perseverante veio acontecer coisa muito parecida. Ao fazer as suas tentativas de salvamento, sem querer foi ela executando inconscientemente a tarefa que a mulher do cabreiro só dali a uma hora pretendia levar a efeito.



Com o que, ao cabo de uns tantos minutos, tinha-se formado à flor do líquido um compacto bloco de nata, o qual, aumentando cada vez mais, foi dificultando os movimentos natatórios da desventurada batráquia. E então, esgotadas as forças e arrefecido o ânimo pugnaz, a pobrezinha disse adeus à vida e ao mundo e mergulhou para todo o sempre.



Ninguém ignora que toda rã que se preza e comporta tem a singular capacidade de conservar-se viva, mesmo quando por longo tempo imersa. De sorte que, ao afundar-se a companheira militante, lá estava a outra, vivinha da silva, no fundo da terrina. Mas embora disposta ao último sacrifício, não lhe aprazia esticar as canelas com outro defunto às costas. Assim, pois, com duas braçadas preguiçosas, resolveu, afinal, subir à tona.



Aí chegando, logo viu a ilhota de manteiga construída pela morta. De um pulo rápido, o único pulo rápido de sua vida, ela galgou o cimo daquele aisbergue.



Estava salva.





(O Misterioso Caso de Ritinha)


(Ilustração: autor não identificado)







sábado, 30 de maio de 2009

PINK DOG / CADELA ROSADA, de Elizabeth Bishop








                        
                         [Rio de Janeiro]

The sun is blazing and the sky is blue.
Umbrellas clothe the beach in every hue.
Naked, you trot across the avenue.

Oh, never have I seen a dog so bare!
Naked and pink, without a single hair...
Startled, the passersby draw back and stare.

Of course they're mortally afraid of rabies.
You are not mad; you have a case of scabies
but look intelligent. Where are your babies?

(A nursing mother, by those hanging teats.)
In what slum have you hidden them, poor bitch,
while you go begging, living by your wits?

Didn't you know? It's been in all the papers,
to solve this problem, how they deal with beggars?
They take and throw them in the tidal rivers.

Yes, idiots, paralytics, parasites
go bobbing int the ebbing sewage, nights
out in the suburbs, where there are no lights.

If they do this to anyone who begs,
drugged, drunk, or sober, with or without legs,
what would they do to sick, four-legged dogs?

In the cafés and on the sidewalk corners
the joke is going round that all the beggars
who can afford them now wear life preservers.

In your condition you would not be able
even to float, much less to dog-paddle.
Now look, the practical, the sensible

solution is to wear a fantasía.
Tonight you simply can't afford to be a-
n eyesore... But no one will ever see a

dog in máscara this time of year.
Ash Wednesday'll come but Carnival is here.
What sambas can you dance? What will you wear?

They say that Carnival's degenerating
— radios, Americans, or something,
have ruined it completely. They're just talking.

Carnival is always wonderful!
A depilated dog would not look well. 
Dress up! Dress up and dance at Carnival!




Tradução de Paulo Henriques Brito:




[Rio de Janeiro]


Sol forte, céu azul. O Rio sua.
Praia apinhada de barracas. Nua,
passo apressado, você cruza a rua.

Nunca vi um cão tão nu, tão sem nada,
sem pelo, pele tão avermelhada...
Quem a vê até troca de calçada.

Têm medo da raiva. Mas isso não
é hidrofobia — é sarna. O olhar é são
e esperto. E os seus filhotes, onde estão?

(Tetas cheias de leite.) Em que favela
você os escondeu, em que ruela,
pra viver sua vida de cadela?

Você não sabia? Deu no jornal:
pra resolver o problema social,
estão jogando os mendigos num canal.

E não são só pedintes os lançados
no rio da Guarda: idiotas, aleijados,
vagabundos, alcoólatras, drogados.

Se fazem isso com gente, os estúpidos,
com pernetas ou bípedes, sem escrúpulos,
o que não fariam com um quadrúpede?

A piada mais contada hoje em dia
é que os mendigos, em vez de comida,
andam comprando bóias salva-vidas.

Você, no estado em que está, com esses peitos,
jogada no rio, afundava feito
parafuso. Falando sério, o jeito

mesmo é vestir alguma fantasia.
Não dá pra você ficar por aí à
toa com essa cara. Você devia

pôr uma máscara qualquer. Que tal?
Até a quarta-feira, é Carnaval!
Dance um samba! Abaixo o baixo-astral!

Dizem que o Carnaval está acabando,
culpa do rádio, dos americanos...
Dizem a mesma bobagem todo ano.

O Carnaval está cada vez melhor!
Agora, um cão pelado é mesmo um horror...
Vamos, se fantasie! A-lá-lá-ô...!

[1979]


(O Iceberg Imaginário e Outros Poemas



(Ilustração: Beatriz Milhazes)


quinta-feira, 28 de maio de 2009

NAMORADOS, de Manuel Bandeira









O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
- Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com a sua cara.
A moça olhou de lado e esperou:
- Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listrada?
A moça se lembrava:
- A gente fica olhando...
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
- Antônia, você parece uma lagarta listrada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
- Antônia, você é engraçada! Você parece louca.



(Estrela da Vida Inteira)



(Ilustração: João Bosco Campos)




quarta-feira, 27 de maio de 2009

O DUELO, de Dalton Trevisan









José foi morar na velha casa desabitada há muitos anos, o quintal cheio de gatos. Ele não gostava de bichos. Nos cantos espalhava à noite iscas de carne envenenada. Descobriu uma ninhada de gatinhos, meteu-os no saco e, com as costas do machado, malhou os pobres diabos. Furada de unhas, a bola de estopa arrastava-se pelo chão, espirrando de sangue as paredes. Quando acertava numa cabeça ela explodia feito laranja podre ao cair do galho.

Acabou com os gatos do quintal, menos um – era afeiçoado à casa, não antigo dono.

Preparou bolinhas de carne com arsênico, o gato não comeu. Por muitos dias não viu o inimigo. Seguia seu rastro: a cabeça crua de galinha, ali a seus pés, roubada da lata de lixo. José ia lidar nas roseiras e, na terra fofa, a maldição dos cocos enterrados. De noite, chegava da rua; na lata de lixo avistou o bichano: espantoso, negro, belo.

Deitado na cama, reconhecia as unhas lá na tampa da lata – engordava às suas custas. O gato bebia a sua água do balde, enrolado no seu tapete da porta. José era o terror da família, achou-se desafiado por um vagabundo, que o considerava seu dono. Se estalasse a língua, viria se arrastando, pelo chão a roçar-lhe a perna... Ah, esmagar-lhe a cabeça que nem uma ponta de cigarro. Planejando assassiná-lo, não dormia. A mulher comentou: “Você parece louco, José. O gato não lhe fez mal. É bicho de Deus”.

Antes do gato, ela não se atreveria a falar naquele tom. José tossia: os pêlos do outro no ar... Certa feita encurralou-o no canto da casa. Avançou de cacete em riste, o diabo agarrou-se à parede e foi ao chão, de unhas quebradas. A pancada rebentou um dos quadris obscenos. Mal ferido, ainda se arrastava pelo jardim.

Na noite seguinte ele esperou o homem, a perna aleijada, arrimado na lada de lixo. José teve azar nos negócios. Um filho adoeceu. A carne estragou na geladeira.

No verão, José cobria a cabeça com o lençol para não ouvir os gritos de uma gata amorosa. Eram muitos bichanos, reconhecia a voz do seu entre todos. Uns olhos fosfóreos alumiavam o quarto. Garras subiam-lhe pela roupa, enterravam-se na carne e o despertavam com um miado horrendo.

A casa era pequena para os dois. Bebia no botequim noite após noite. Ao outro a mulher elegera campeão da família. Com a mão na porta, ele ainda escutara um dos filhos: “Mamãe, o pai tem raiva do nosso gato?”

Cantando, voltou de madrugada. Não o encontrava há três dias; deveria estar morto, no fundo de algum porão, um bico de galinha enterrado na negra garganta. Ao pé da escada, olhou para cima: duas luas no último degrau. Era o gato, vivo, comendo...

Atirou-se para estripar com unhas e dentes. O maldito fugiu. José tropeçou e rolou pela escada. Choramingava, de pescoço quebrado, a boca mergulhada no lixo.

A porta da cozinha não se abriu. A família escolhera o partido do outro, que miava em torno do moribundo – o gato da casa a carpir o dono querido.


(Desastres do amor)


(Ilustração: Aldemir Martins)



terça-feira, 26 de maio de 2009

CULTURA E CIVILIZAÇÃO, de Friedrich Nietzsche










Os pontos culminantes da cultura e da civilização encontram-se separados: impõe-se não nos desviemos do antagonismo abissal que existe entre cultura e civilização. Os grandes momentos da cultura foram sempre, sob o aspecto moral, épocas de corrupção; e, por outra parte, épocas de domesticação desejada e forçada ao homem (“civilização”) foram períodos de intolerância para com as naturezas mais intelectuais e mais audaciosas. A civilização quer algo diferente do que deseja a cultura: talvez seus fins sejam opostos...






(Vontade de Potência)

(Ilustração: Gottardo Ciapanno - Oloferne)


segunda-feira, 25 de maio de 2009

MENORES, de Cristiane Neder








Os menores fumam maconha
na Praça da Sé,
Já perderam a vergonha
e também a fé.

Tomam leite das prostitutas,
suas mães da noite e do dia,
encantados com o berço da rua
acreditam em uma saída.

Sonham debaixo do frio
com mulheres penduradas em bancas,
e sentem um espaço vazio
de todas serem escravas brancas.

Penduram-se no vidro do meu carro
todas as manhãs,
pedindo um trocado,
me oferecendo balas de hortelã.

Os menores
não foram crianças,
sempre foram maiores
desde a infância.



(Revolution)


(ilustração: Brueghel - child - detalhe)



domingo, 24 de maio de 2009

OS TRÊS ESPELHOS, de Djair Pinheiro










“Eu tinha três espelhos enormes em meu quarto, 
quando criança, 
e sentia um medo profundo deles, 
porque eu via a mim mesmo triplicado, 
e tinha muito medo ao pensar 
que talvez as três formas 
começassem a se mover sozinhas”. 

 Jorge Luis Borges



Quando aceitei a encomenda descambei num pesadelo. Dei para declamar quadras anônimas. Discurso de mascate. Lengalenga de benzedeira. Rabisquei esboços no canto do caderno. Não veio mais que rudimentos descorados de estúpidos adjetivos.



Amassei papéis. Entupi lixeiras. Por fim retirei do espelho o lençol de resguardo da Semana Santa e quebrei o jejum. Cumpriria via-sacra. Vagaria esquinas. Da Paixão. Tomaria absinto. Losna remissiva. Redentora. E me arrebento na madrugada perseguindo uma estrela cadente. E acabo chorando como estrela decadente de uma fita do Cinema-Recreio.



Ocupei-me naqueles dias em destruir todas as personagens que tivessem a cor dos meus olhos. Tive que fazer um esforço enorme para não iniciá-las no hábito de tia solteira que sabe naftalinas de gaveta de casa paroquial. Reprovei-me também quando por camaradagem vinham de picadeiros com purpurinas despendidas de outras praças.



O editor no prelo. Prélio de escritor – acordei na madrugada. E reclamei prostitutas em arquivos e e-mails. Assomei sites e insultos. Sem anuências. E inventei nomes pra ela. Descrevi camisolas. Fiei rendas. Desfio sem recato. E adormeço sem respostas. Nem retrato.



Embriagado da urgência telefonaria ao Macedo. Que emprestasse fórmulas de folhetins. Convocaria cantores de gestas. E enfrentaria multidões. Em estações de metrô. Declamaria uma primeira estrofe confiando que me pedissem a sequência. Como novela das oito.



Já é tarde. A jardineira faria o último trem da noite. Embarco nela para ver o trem passar. A moça que lia sorte aguardava na plataforma sua encomenda. Cuidei que fosse rendas, quinquilharias. Pagas por previsões. Me animei, a troco de um sonho-de-valsa, a estender minha mão. Das linhas embaralhadas feito desvio de trem desembarcaram mil e uma mulheres. Todas com porte de romances publicados. Vi rostos e dentes. Abatidos.



Acordo de boca acre. A navalha rastreia insônia. E como uma pancada do taco a bola de bilhar, ela intercepta meu espelho. Atrevida dita palavras. Edita segredos. Se eu perguntasse quem é ela inventaria mentiras. Diria que já brincou no meu quintal... mas não reconheço nela o cheiro de goiaba.



Não sei se abro janelas. Desconheço o seu truque. Mas o editor exige rabiscos. E eu sem lápis. E ela sinopse. Não custa fingir folguedos de quintal. Falo da caramboleira. Dando intimidades ela fatia carambolas em estrelas. Me impressiona. Tempero com sal. Ela acrescenta vinagre. Me rendo.



Foi um período de tormentas. A presença dela tornava-se cada vez mais habitual. Eu saía com os companheiros para a cerveja experimentando incômodo. Ela no encalço. Então faço o convite. Mas insurgente arremessa os parênteses de minha história. Tento alinhavá-la no meu lençol de cambraia. Ela se esgarça. Me puxa pelas meadas de outras anedotas. Sem resenha. Nem minuta. Procuro adivinhar travessões. Ela não faz caso de minha pretensão. Ainda insisto como ponto de fundo de palco. Não dá ouvidos. E improvisa.



Já vinham se fechando as águas de março. Eu havia decidido não fazer confidências com os companheiros de cerveja. E resoluto ameaço pegar a borracha. Apagar o borrão. Mais esperta ela toma meu lápis e escreve outro refrão. No episódio sequente me arrasta para regatas no Tietê. E eu com barquinhos de dobradura na barranca do meu Ribeirão.



Passei dias pensativo. Andei madrugadas. Cinemas e corredores. Folheio poemas de meu avô. Lápis atávico. Penso em sua navalha. E nos espelhos que enfrentou...





(Ilustração: Clovis Trouille - matinée)





sábado, 23 de maio de 2009

O DESCOBRIDOR, de Mário Quintana








Vem vindo o Abril, tão belo em sua
barca de ouro!
Vou contando os teus dedos:
um...dois...três...quatro...
Cinco!
Amor, eu quero navegar-te!... toda,
de norte a sul... Enquanto
Sentado à proa
Vestido de arlequim
Abril ponteia bem devagarinho
Com um dedo só - seu bandolim
azul.



(Pequena Antologia de Poemas Eróticos)



(Ilustração: Anthony Christian - Eve)




sexta-feira, 22 de maio de 2009

A MORTE DO PORTEIRO, de Albert Camus







Os vendedores dos jornais da tarde anunciavam que a invasão dos ratos tinha parado. Mas Rieux encontrou o seu doente meio deitado para fora do leito, com uma das mãos no ventre e a outra em volta do pescoço, vomitando, com grandes arrancos, uma bílis rosada numa lata de lixo. Após grandes esforços, sem fôlego, o porteiro voltou a deitar-se. A temperatura era de trinta e nove e meio, os gânglios do pescoço e os membros tinham inchado, duas manchas escuras alastravam-se pelo flanco. Queixava-se agora de uma dor interna.

- Está ardendo - dizia ele -, esta porcaria está ardendo.

A boca fuliginosa obrigava-o a mastigar as palavras e voltava para o médico uns olhos protuberantes, dos quais a dor de cabeça fazia correr lágrimas. A mulher olhava com ansiedade para Rieux, que continuava mudo.

- Doutor - perguntou ela -, que é isto?

- Pode ser uma série de coisas. Mas não há ainda nada de certo. Até esta noite, dieta e depurativo. Deve tomar bastante líquido.

Precisamente, o porteiro sentia-se devorado pela sede. Ao voltar à casa, Rieux telefonou ao seu colega Ríchard, um dos médicos mais importantes da cidade.

- Não - dizia Richard -, não vi nada de extraordinário.

- Nem febre com inflamações locais?

- Ah! Sim, na verdade, dois casos de gânglios muito inflamados.

- Anormalmente?

- Sim - respondeu Richard -, o normal, você sabe. . .

A noite, de qualquer forma, o porteiro delirava e, com quarenta graus, queixava-se dos ratos. Rieux tentou um abscesso de fixação. Sob a queimadura da terebintina, o porteiro berrou:

- Ah, são uns safados.

Os gânglios tinham aumentado, estavam duros e fibrosos ao tato. A mulher do porteiro afligia-se:

- Fique junto dele - ordenou o médico - e, se for necessário, pode me chamar.

No dia seguinte, 30 de abril, uma brisa já morna soprava sob um céu azul e úmido. Trazia um cheiro de flores que vinha dos bairros mais afastados. Nas ruas, os ruídos da manhã pareciam mais vivos, mais alegres do que habitualmente. Em toda a nossa pequena cidade, liberta da apreensão em que tinha vivido durante a semana, esse era o dia da renovação. O próprio Rieux, tranquilizado por uma carta da mulher, desceu até a casa do porteiro. E na verdade, de manhã, a febre caíra para trinta e oito graus. Enfraquecido, o doente sorria no leito.

- Está melhor, não é verdade, doutor? - perguntou a mulher.

- Vamos esperar um pouco.

Ao meio-dia, porém, a febre subira bruscamente a quarenta graus, o paciente delirava sem cessar e os vômitos tinham recomeçado. Os gânglios do pescoço eram dolorosos ao tato, e o doente parecia querer manter a cabeça o mais afastada possível do corpo. A mulher estava sentada aos pés da cama, segurando levemente os pés do doente. Olhava para Rieux.

- Ouça - disse ele -, é preciso isolá-lo e tentar um tratamento mais radical. Vou telefonar para o hospital e vamos levá-lo de ambulância.

Duas horas depois, na ambulância, o médico e a mulher curvavam-se sobre o doente. Da boca, coberta de fungosidades, saíam fragmentos de palavras: ”Os ratos”, dizia ele. Esverdeado, com lábios descorados, pálpebras pesadas, respiração entrecortada e breve, dilacerado pelos gânglios, abatido no fundo da maca, como se quisesse fechá-la em torno dele ou como se qualquer coisa, vinda do fundo da terra, o chamasse sem descanso, o porteiro sufocava sob um peso invisível. A mulher chorava.

- Não há mais esperança, doutor?

- Está morto - disse Rieux.

A morte do porteiro, pode-se dizer, marcou o fim desse período, cheio de sinais desconcertantes, e o início de outro, relativamente mais difícil, em que a surpresa dos primeiros tempos se transformou, pouco a pouco, em pânico. Nossos concidadãos - a partir de agora eles se davam conta disso - nunca tinham pensado que nossa pequena cidade pudesse ser um lugar particularmente designado para que os ratos morressem ao sol e os porteiros perecessem de doenças estranhas. Sob esse ponto de vista, era evidente que estavam errados e que suas ideias precisavam ser revistas. Se tudo tivesse ficado por aí, os hábitos, sem dúvida, teriam vencido. Mas outros concidadãos nossos, que nem sempre eram porteiros nem pobres, tiveram de seguir o caminho que Michel fora o primeiro a tomar. Foi a partir desse momento que começou o medo e com ele a reflexão.


(A Peste)


(Ilustração: Casper David Friedrich)



quinta-feira, 21 de maio de 2009

PAISAGEM MINEIRA, de Augusto de Lima








Plenilúnio de maio em montanhas de Minas.
Canta, ao longe, uma flauta e um violoncelo chora.
Perfuma-se o luar nas flores das campinas,
subtiliza-se o aroma em languidez sonora.


Ao doce encantamento azul das cavatinas,
nessas noites de luz mais belas que a aurora,
as errantes visões das almas peregrinas,
vão evocando o cantar pela amplidão afora.


E chora o violoncelo e a flauta, ao longe, canta.
Das montanhas, cantando, a névoa se levanta,
banhada de luar, de sonhos, de harmonia.


Com profano rumor, porém, desponta o dia,
e na última porção da névoa transparente,
a flauta e o violoncelo expiram lentamente.



(Ilustração: Portinari - namorados)





quarta-feira, 20 de maio de 2009

OS JORNAIS, por Honoré de Balzac







O jornal em vez de ser um sacerdócio, tornou-se um meio para os partidos, e de um meio passou a ser um negócio. Não tem fé nem lei. Todo jornal é, como disse Blondet, uma loja onde se vendem ao público palavras da cor que deseja. Se houvesse um jornal dos corcundas, haveria de provar noite e dia a beleza, a bondade, a necessidade dos corcundas. Um jornal não é feito para esclarecer, mas para lisonjear as opiniões. Desse modo, todos os jornais serão, dentro de algum tempo, covardes, hipócritas, infames, mentirosos, assassinos. Matarão as idéias, os sistemas, os homens, e, por isso mesmo, hão de tornar-se florescentes. Terão a vantagem de todos os seres pensantes: o mal será feito sem que ninguém seja o culpado. Eu serei – eu, Vignon -, vocês serão, tu Lousteau, tu Blondet, tu Finot -, Aristides, Platões, Catões, homens de Plutarco; seremos todos inocentes, poderemos lavar-nos as mãos de toda infâmia. Napoleão explicou a causa desse fenômeno moral – ou imoral, como quiserem – numa frase sublime que lhe foi inspirada pelos seus estudos sobre a Convenção: “Os crimes coletivos não comprometem ninguém”. O jornal pode permitir-se o procedimento mais atroz, ninguém se julga pessoalmente conspurcado por isso.




(As Ilusões Perdidas; trad.: Ernesto Pelanda e Mário Quintana)


(Ilustração: Balzac; autoria não identificada)




terça-feira, 19 de maio de 2009

VEM!, de Rita Barém de Melo








Vem! Que t' importa que maldiga o mundo
O amor profundo que nos liga? vem;
Vem, que nos vales de cheirosas flores,
Nossos amores viçarão também.

Vem! de joelhos nos tapiz de nardo
Há de teu brado suspirar idílios,
Cantar-te a face rosejada em pranto,
O orvalho santo do frouxel dos cílios.

Pensa na sombra da floresta virgem...
Nesta vertigem ... nest'amor ali!...
Aves felizes no sendal dos ramos
Seremos: vamos, que o serei por ti!

Vamos unidos como a luz ao astro
O amor da Castro na soidão lembrá-lo,
Nas longas plumas que a palmeira agita
A alma palpita de Virgínia e Paulo.

Que mais tu queres, anjo e flor? Escuta:
Quem ama luta? Não lutemos, vem!
Vamos aos vales de cheirosas flores,
Que é flor d'amores meu amor também.

Olha, de tarde quando o sol se esconde
Diz-me tu onde mais poesia viste?
Calam-se os ventos - só a brisa arrula -
O céu se azula - mas o céu é triste.

Pois bem, o bardo na soidão exprime
Na voz sublime dum arcanjo a voz:
Hei de dos seios arrancar os lírios
Dos meus delírios, pra t'os dar - a sós. -

Perdidos ambos no deserto infinito
Que sonho lindo, que visões também!
E o éter puro como véu d'estrelas...
E a chama delas a tremer além!...

"Mas quando um dia desbotar-se o prado?
Quando o valado se cobrir de gelos?
Ai! tu só vives - beija-flor - de orvalhos
Em verdes galhos de sonhares belos!

Qu' importa o prado de cheirosas flores
Se teus amores morrerão também!
"Quando morrerem, morrerão comigo
E ao céu contigo voarei - Oh! vem!

"Oh! não! Minh'alma se coroa em flores;
Nos esplendores de celeste aurora;
Deus abençoa só amores santos
Cala teus cantos: morrerás agora?"

(Sorrisos & Prantos)

(Ilustração: Fragonard)


segunda-feira, 18 de maio de 2009

ASSASSINATO NO AQUÁRIO, de Cármen Rocha







Estava recostada no sofá, observando o aquário, meu passatempo favorito. A peixinha preta estava barrigudinha, por isso nadava pesadamente, e a todo instante escondia-se no seu canto favorito, no meio das pedras. Olhava-me com certa preocupação. Era lá que ela iria ter seus filhotes.

O aquário era uma beleza. Estava repleto de peixes, todos criados ali há uns três anos mais ou menos. Procriavam sem parar. Nenhum morria. Ambiente propício, equilibrado, o que me dava prazer e calma.

As algas verdes flutuavam e balançavam conforme o ar do oxigenador empurrasse a água.
As pedrinhas de tons claros: cinza, rosa e verde formavam passagens, reentrâncias e vãos. E no meio delas, peixinhos vermelhos e pretos mostravam uma convivência amena, bem sei, mas até certo ponto.

Para assegurar a vinda tranquila dos filhotes, comecei a aumentar a ração para que, satisfeitos, os peixes não abocanhassem os pequeninos.

Deveriam nascer uns cinco ou seis. Se sobrevivessem nas primeiras horas estariam garantidos por uns três anos. Fiz tudo para isso. No canto preferido da mamãe peixe, empilhei mais pedras, como um ninho, e forrei as pedras ásperas com plantinhas para não arranharem os filhotes e propiciar-lhes maior chance de escapar dos grandes. Medi a temperatura e verifiquei o oxigênio, estavam perfeitos.

A peixinha preta me seguia e observava. Seus olhos agradecidos não piscavam e ela não evitava minha mão que se movimentava lentamente pelo aquário. Os caramujos ajudavam a enfeitar aquele pequeno mundo. Eles seguiam sua eterna brincadeira de armazenar oxigênio, desprender-se de onde estivessem grudados, quer no fundo, em uma planta ou vidro, e subir flutuando e rebolando até atingir a superfície. Na tona, deixavam-se levar pela correnteza provocada pelas bolhas de ar e agarravam-se novamente a outras plantinhas. Soltavam o ar, desciam, para logo mais flutuarem novamente. E foi nesse momento que notei algo diferente, estranho, que alguém mais partilhava da festa, mas de uma maneira especialmente má. E não era o papai peixe, que despreocupadamente passeava de um canto para outro, ora ciscando o fundo, ora comendo alguma plantinha mais tenra. Enxuguei as mãos e os braços. O resto da criançada e mesmo os adultos seguiam suas vidinhas plácidas e frias, na mais perfeita harmonia, não fosse alguma coisa estranha - senti novamente - o que eriçou meus pêlos do braço. Isto era um verdadeiro aviso. Então vi o brilho maligno dos olhos da peixinha vermelha. Suas escamas eram ruivas e brilhantes. Ela era linda! Mesmo assim não conseguiu atrair o macho - pensei. E seus olhos faiscavam! Bati o dedo no vidro do aquário e sussurrei:

— Psiu! Vá com calma, minha pequena.

Ela me olhou, voltou-se e foi embora nadando displicentemente. Estranhei, mas no momento não pude perceber todo o mal que se desencadeava ali. Enfim, cansada, esperando pelo evento, deixei o aquário em equilíbrio e, com a consciência tranquila, apaguei a luz artificial. Somente restou a luz da lua que brilhava pelo vão da janela. Os peixinhos deveriam nascer nesta noite. Fui dormir.

No outro dia, antes do café, corri para observar os filhotes - mas não havia nenhum! Tudo calmo no aquário, tudo estranhamente quieto, a não ser os olhos da mamãe peixe - já magrinha, pois os filhotes já haviam nascido. Seus olhos, porém, estavam arregalados de medo, aflitos, desesperados! Alguma coisa não estava bem. Senti novamente um arrepio. O peixe macho, indiferente seguia sua vida. Ah! A outra peixinha, a vermelha, pobrezinha, o que teria lhe acontecido? Toda machucadinha, suas escamas estavam raspadinhas. Corri para pegar um remédio e com o puçá puxei com delicadeza aquele corpinho todo arranhado. Foi aí que vi o ninho de algas todo desfeito, e as pedras ásperas esparramadas em volta. Os filhotes não nasceram em lugar seguro e resguardado! Por isso tinham sido comidos! Todos!

Num minuto entendi tudo! Continuei a puxar delicadamente o puçá com a peixinha vermelha dentro e descansei o seu cabo na beirada do aquário.

Fui tomar o meu café.


(Vinhos & Milongas)


(Ilustração: Fernando França)


domingo, 17 de maio de 2009

O TERRORISTA, ELE OBSERVA, de Wislawa Szymborska









A bomba explodirá no bar às treze e vinte.
Agora são apenas treze e dezesseis.
Alguns terão ainda tempo para entrar;
alguns, para sair.
O terrorista já está do outro lado da rua.
A distância o protege de qualquer perigo.
E, bom, é como assistir a um filme.
Uma mulher de casaco amarelo, ela entra.
Um homem de óculos escuros, ele sai.
Jovens de jeans, eles conversam
Treze e dezessete e quatro segundos.
Aquele mais baixo, ele se salvou, sai de lambreta.
E aquele mais alto, ele entra.
Treze e dezessete e quarenta segundos.
A moça ali, ela tem uma fita verde no cabelo.
Mas o ônibus a encobre de repente.
Treze e dezoito.
A moça sumiu.
Era tola o bastante para entrar, ou não?
Saberemos quando retirarem os corpos.
Treze e dezenove.
Ninguém mais parece entrar.
Um careca obeso, no entanto, está saindo.
Procura algo nos bolsos e
às treze e dezenove e cinqüenta segundos
ele volta para pegar suas malditas luvas.
São treze e vinte.
O tempo, como se arrasta
É agora.
Ainda não.
Sim, agora.
A bomba, ela explode.



(Tradução de Nelson Ascher)



(Ilustração: Dalí - at the age)



sexta-feira, 15 de maio de 2009

O POMBO ENIGMÁTICO, de Paulo Mendes Campos







Na inelutável necessidade do amor (era quase primavera) pombo e pomba marcaram um encontro galante quando voavam e revoavam no azul do Rio de Janeiro. Era bem de manhãzinha.


- Às quatro em ponto me casarei contigo no mais alto beiral – disse o pombo.



- Candelária? – perguntou a noiva.



- Do lado norte – respondeu ele.



Pois, às quatro azul em ponto, a pomba pontualíssima pousava pensativamente no beiral. O pombo? O pombo não.



A pombinha, que era branca sem exagero, arrulhava, humilhada e ofendida com o atraso, contemplando acima do campanário todas as possibilidades da rosa-dos-ventos. Mas na paisagem do céu voavam só velozes andorinhas garotas porque as andorinhas mais velhas enfileiravam-se nas cornijas, pensando na morte, como gente fina, lá dentro nos dias solenes de missa de réquiem.



Quatro e dez. Quatro e um quarto. Uma pomba sozinha, à mercê quem sabe de um gavião, lendário mas possível. Sol e sombra. Como custa a passar um quarto de hora para uma noiva que espera o noivo no mais alto beiral. Como a brisa é triste. Como se humilha em revolta a noiva branca.



Ah, arrulhou de repente a pomba, quando distinguiu, indignada, o pombo que chegava, o pombo que chegava caminhando pelo beiral mais alto, do outro lado, lá onde, um pouco além, gritavam esganadas as gaivotas do mar pardo do mercado. Irônica, perguntou a pomba:



- Perdeste a noção do tempo?



- Perdão, por Deus, perdão – respondeu o pombo: - Tardo mas ardo. Olha que tarde...



- Que tarde? – perguntou a pomba.



- Que tarde! Que azul! Que tarde azul!



- Mas e eu?! – disse a pomba. – Sozinha aqui em cima!



- A tarde era tão bonita – disse o pombo gravemente – a tarde era tão bonita, que era um crime voar, vir voando...



- Mas e eu?! Eu?! – queixava-se a pomba.



- A tarde era tão bonita – explicou o pombo com doce paciência – que eu vim andando, que eu tinha de vir andando, meu amor.



(Ilustração: Orlando de Sant'anna - Corcovado)