domingo, 24 de maio de 2009

OS TRÊS ESPELHOS, de Djair Pinheiro










“Eu tinha três espelhos enormes em meu quarto, 
quando criança, 
e sentia um medo profundo deles, 
porque eu via a mim mesmo triplicado, 
e tinha muito medo ao pensar 
que talvez as três formas 
começassem a se mover sozinhas”. 

 Jorge Luis Borges



Quando aceitei a encomenda descambei num pesadelo. Dei para declamar quadras anônimas. Discurso de mascate. Lengalenga de benzedeira. Rabisquei esboços no canto do caderno. Não veio mais que rudimentos descorados de estúpidos adjetivos.



Amassei papéis. Entupi lixeiras. Por fim retirei do espelho o lençol de resguardo da Semana Santa e quebrei o jejum. Cumpriria via-sacra. Vagaria esquinas. Da Paixão. Tomaria absinto. Losna remissiva. Redentora. E me arrebento na madrugada perseguindo uma estrela cadente. E acabo chorando como estrela decadente de uma fita do Cinema-Recreio.



Ocupei-me naqueles dias em destruir todas as personagens que tivessem a cor dos meus olhos. Tive que fazer um esforço enorme para não iniciá-las no hábito de tia solteira que sabe naftalinas de gaveta de casa paroquial. Reprovei-me também quando por camaradagem vinham de picadeiros com purpurinas despendidas de outras praças.



O editor no prelo. Prélio de escritor – acordei na madrugada. E reclamei prostitutas em arquivos e e-mails. Assomei sites e insultos. Sem anuências. E inventei nomes pra ela. Descrevi camisolas. Fiei rendas. Desfio sem recato. E adormeço sem respostas. Nem retrato.



Embriagado da urgência telefonaria ao Macedo. Que emprestasse fórmulas de folhetins. Convocaria cantores de gestas. E enfrentaria multidões. Em estações de metrô. Declamaria uma primeira estrofe confiando que me pedissem a sequência. Como novela das oito.



Já é tarde. A jardineira faria o último trem da noite. Embarco nela para ver o trem passar. A moça que lia sorte aguardava na plataforma sua encomenda. Cuidei que fosse rendas, quinquilharias. Pagas por previsões. Me animei, a troco de um sonho-de-valsa, a estender minha mão. Das linhas embaralhadas feito desvio de trem desembarcaram mil e uma mulheres. Todas com porte de romances publicados. Vi rostos e dentes. Abatidos.



Acordo de boca acre. A navalha rastreia insônia. E como uma pancada do taco a bola de bilhar, ela intercepta meu espelho. Atrevida dita palavras. Edita segredos. Se eu perguntasse quem é ela inventaria mentiras. Diria que já brincou no meu quintal... mas não reconheço nela o cheiro de goiaba.



Não sei se abro janelas. Desconheço o seu truque. Mas o editor exige rabiscos. E eu sem lápis. E ela sinopse. Não custa fingir folguedos de quintal. Falo da caramboleira. Dando intimidades ela fatia carambolas em estrelas. Me impressiona. Tempero com sal. Ela acrescenta vinagre. Me rendo.



Foi um período de tormentas. A presença dela tornava-se cada vez mais habitual. Eu saía com os companheiros para a cerveja experimentando incômodo. Ela no encalço. Então faço o convite. Mas insurgente arremessa os parênteses de minha história. Tento alinhavá-la no meu lençol de cambraia. Ela se esgarça. Me puxa pelas meadas de outras anedotas. Sem resenha. Nem minuta. Procuro adivinhar travessões. Ela não faz caso de minha pretensão. Ainda insisto como ponto de fundo de palco. Não dá ouvidos. E improvisa.



Já vinham se fechando as águas de março. Eu havia decidido não fazer confidências com os companheiros de cerveja. E resoluto ameaço pegar a borracha. Apagar o borrão. Mais esperta ela toma meu lápis e escreve outro refrão. No episódio sequente me arrasta para regatas no Tietê. E eu com barquinhos de dobradura na barranca do meu Ribeirão.



Passei dias pensativo. Andei madrugadas. Cinemas e corredores. Folheio poemas de meu avô. Lápis atávico. Penso em sua navalha. E nos espelhos que enfrentou...





(Ilustração: Clovis Trouille - matinée)





Um comentário:

  1. Isaias, que surpresa agradável ver meus contos por aqui. Obrigado e saudade dos tempos do Grupo de Escritores de São Paulo.
    Abração,

    Djair Lázaro Pinheiro de Almeida
    djair_lazaro@yahoo.com.br

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