quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

DO OUTRO LADO, de Javier Ortega







  - Diga-me, mestre, acha que o consegue encontrar?

  - Minha senhora; já lhe disse que ele é que me vai encontrar. Mas só falará se assim o quiser. Não tenho qualquer poder sobre ele.

 - Mas já aqui estamos há meia hora...

 - Diga-me; a sua amiga que me recomendou disse-lhe que isto era automático? Comunicar com o Além demora tempo e requer concentração. Se não mantiver o silêncio, vamos demorar ainda mais umas quantas meias horas.

 - Queira desculpar, Mestre, mas compreenda: tenho tantas saudades do meu pai.

 - ... 

  - ...

 - Filha, és mesmo tu?

 - Papá!?

  - Estás com mau aspecto. Estou farto de te dizer que esses cremes só servem para gastar dinheiro. Água e sabão azul... não precisas de mais nada.

- Mas, diga-me: como é que está, como é a vida... como é que são as coisas aí?

- Água e sabão azul. É o que eu sempre disse.

- Sim. Água e sabão azul. Eu lembro-me. Mas temos tantas coisas para falar... eu não o devia ter posto no lar. Mas era tão difícil tomar conta de si, papá!

  - Papá?? Deve estar a fazer confusão. Os meus filhos são pequenos. E são todos louros. Vivemos numa casa linda, no meio das montanhas...

 - Papá; isso é a Música no Coração. Eu sei que era o seu filme preferido, mas...

 - Devias pôr os olhos na tua prima Cristina. Aquilo é que é uma rapariga cuidada. E casou bem, com o tal rapaz dos Correios. Não com um inútil como o teu marido.

 - Deixe lá o Carlos. Conte-me antes o que faz, o que vê...

- Água e sabão azul... nunca deixei a tua mãe usar outra coisa e olha se ela não continua uma bonita mulher.

-Viu a mãe?

- Que pergunta. Então não havia de ver a minha mulher? Mas agora não lhe falo. Imagina que me faltou ao respeito! Começou a falar do mal que eu tratava o pai dela, por estar sempre a babar-se e ser surdo que nem uma porta... e depois riu-se! Disse que era bem feito. Que era bem feito eu passar o resto da eternidade assim, completamente senil. Mas o que é que ela queria dizer? E imagina que me veio à ideia que ela já tinha morrido... e há muitos anos! A memória prega-me cada partida!

- Por favor, conte-me como é esse lado!

- Só sei que não gosto nada deste lar. As pessoas não são simpáticas; e está sempre escuro e nunca me deixam ver televisão... e não consigo encontrar os meus óculos. Quero ir para casa. Quando é que me vêm buscar?

- Mas não faz mesmo ideia de onde está??

- ...

- Papá!

 - ...

 - Papá!!



(Últimas Palavras, tradução de Luís Rainha)



(Ilustração: James Ensor)


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

CANTO-TE, de Ana Hatherly






Canto-te       para que tu definitivamente
existas
Canto o teu nome porque só as coisas cantadas
realmente são e só o nome pronunciado inicia
a mágica corrente
Canto o teu nome como o homem fazia eclodir
o fogo do atrito das pedras
Canto o teu nome como o feiticeiro invoca
a magia do remédio
Canto o teu nome como um animal uiva
de
Como os animais pequenos bebem nos regatos depois
das grandes feras
Canto-te
e tu definitivamente existes nos meus olhos
Sempre abertos porque é sempre e os meus olhos
são os olhos da criança que nós somos sempre
diante da imensidão do teu espaço

Canto-te
e os meus olhos sempre abertos são a pergunta
instante pendente de eu te interrogar

e interrogo as coisas em seu ser noctumo
em seu estar sombriamente presentes na tua claridade
obscura
E como é sempre
meus olhos abertos prescrutam-te

símbolo de tudo o que me foge
como apertar o ar dentro das mãos
e querer agarrar-te

oh substância
Canto-te

com a fragilidade de tudo que existe perante
uma eternidade demasiado nocturna para os nossos
olhos infantis perante a tua antiguidade
futura
E a nossa voz é uma pequena onda no dorso
do teu oceano de matéria
Um leve arrepio apenas na espantosa espessura
de teu éter
Ah no ar é que tudo acontece
no ar nocturno das idades esquecidas
que previamente desconheceremos
No espaço é que tudo acontece
e o espaço é uma grande        muito quieta
onde os nossos olhos penetram
no não sabermos até onde
ali
além
no além onde tudo acontece
Oh
oh espaço de tudo ser tão ligeiro e impalpável
e sermos nós a respiração da
teu bafo ritmado
imperceptível distância
Oh       augusta majestática dignidade do silêncio
Oh impassibilidade da tua mecânica celeste
Oh organismo primeiro de todos os fins secretos
da compreensão das coisas
Oh inorgânico organismo dos seres
que se devoram
Oh       diz
a quem servimos nós de pasto
Canto-te
como quem pronuncia o Mantra esotérico do teu nome
Canto-te e grito
para que a poeira que se infiltra em todas as
coisas se erga de ti como um plâncton
Oh Madre
matriz das criaturas inferiores que rastejam
a teus pés cobertas de pó
esse pó que a cada momento ameaça submergir-nos
Oh aranha enorme tecendo tua teia de pó
Oh       que desintegras tudo e tudo tu constróis
Ah       como nós lambemos tuas duras mãos
Oh       que fustigas nossos olhos com tua sombra
Enorme
Oh
         que deixas tanto espaço para o silêncio
         das mil pétalas
         dos mil braços esplendorosos em seu abandono
         dos murmúrios
          dos afagos
          sangue derramado sobre o mundo
Oh
Porque és sempre tão premente?
e sempre estás ausentemente
na tua constância em todas as coisas?

Oh sono
Oh         morte tão desejada e longa
         mágica povoada de átomos
milhões de espíritos enchem o teu sopro
E penetras em nós como uma bala
E tudo morre quando tu chegas
E tudo se dilui e se transforma em ti
            alada presciência de tudo acontecer
tão longe de nós e tão antigamente
e tudo nos ultrapassar com soberana indiferença
ante os nossos olhos cegos pelo teu negrume
Oh
brilha para dentro de mim
Acende teus luzeiros em meus olhos
Ergue teus braços oh            prenhe de tudo
Oh vaso
Oh via láctea de nos amamentares com teu leite
de sombra
Oh       úbere e pródiga
Aleita tua ninhada faminta
Grande fera luzidia
Grande mito
Grande deus antigo
Oh         urna onde todos dormimos
Oh
Meus olhos choram já de tanto prescrutar-te
E canto-te
Canto-te
Para que tu existas
E eu não veja mais nada além de ti
E nada mais deseje senão que venhas outra vez
levar-me para dentro do teu ventre
de nunca mais haver
E nada mais haver que


Oh tu         definitivamente além




(Poemas de Eros Frenético e Contemporâneos)


(Ilustração: João Ruas)




sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

ROUXINOL E A ROSA, de Oscar Wilde






– Ela disse que dançaria comigo se eu lhe levasse rosas vermelhas – exclamou o Estudante – mas não vejo nenhuma rosa vermelha no jardim.

Por entre as folhas, do seu ninho, no carvalho, o Rouxinol o ouviu e, vendo-o ficou admirado...

– Não há nenhuma rosa vermelha no jardim! – repetiu o Estudante, com os lindos olhos cheios de lagrimas. – Ah! Como depende a felicidade de pequeninas coisas! Já li tudo quanto os sábios escreveram. A filosofia não tem segredos para mim e, contudo, a falta de uma rosa vermelha é a desgraça da minha vida.

- E eis, afinal, um verdadeiro apaixonado! – disse o Rouxinol. Gorjeei-o noite após noite, sem conhecê-lo no entanto; noite após noite falei dele às estrelas, e agora o vejo... O cabelo é negro como a flor do jacinto e os lábios vermelhos como a rosa que deseja; mas o amor pôs-lhe na face a palidez do marfim e o sofrimento marcou-lhe a fronte.

– Amanhã à noite o Príncipe dá um baile, murmurou o Estudante, e a minha amada se encontrará entre os convidados. Se levar uma rosa vermelha, dançará́ comigo até a madrugada. Se levar-lhe uma rosa vermelha, hei de tê-la nos braços, sentir-lhe a cabeça no meu ombro e a sua mão presa a minha. Não há rosa vermelha em meu jardim... e ficarei só́; ela apenas passará por mim... Passará por mim... e meu coração se despedaçará́.

– Eis, na verdade, um apaixonado... – pensou o Rouxinol. – Do que eu canto, ele sofre. Aflige-o o que me alegra. Grande maravilha, na verdade, o Amar! Mais precioso que esmeraldas e mais caro que opalas finas. Pérolas e granada não podem comprá-lo, nem se oferece nos mercados. Mercadores não o vendem, nem o conferem em balanças a peso de ouro.

– Os músicos da galeria – prosseguiu o Estudante – tocarão nos seus instrumentos de corda e, ao som de harpas e violinos, minha amada dançará́. Dançará́ tão leve, tão ágil, que seus pés mal tocarão o assoalho e os cortesões, com suas roupas de cores vivas, reunir-se-ão em torno dela. Mas comigo não bailará, porque não tenho uma rosa vermelha para dar-lhe... – e atirando-se à relva, ocultou nas mãos o rosto e chorou.

– Por que está chorando? – perguntou um pequeno lagarto ao passar por ele, correndo, de rabinho levantado.

– É mesmo! Por que será́? – Indagou uma borboleta que perseguia um raio de sol.

– Por quê? – sussurrou uma linda margarida à sua vizinha.

– Chora por causa de uma rosa vermelha, - informou o Rouxinol. 

– Por causa de uma rosa vermelha? – exclamaram – Que coisa ridícula! 

E o lagarto, que era um tanto irônico, riu à vontade. Mas o Rouxinol compreendeu a angústia do Estudante e, silencioso, no carvalho, pôs-se a meditar sobre o mistério do Amor.

Subitamente, abriu as asas pardas e voou. Cortou, como uma sombra, a alameda, e como uma sombra, atravessou o jardim.

Ao centro do relvado, erguia-se uma roseira. Ele a viu. Voou para ela e posou num galho.

– Dá-me uma rosa vermelha – pediu – e eu cantarei para ti a minha mais bela canção!

– Minhas rosas são brancas; tão brancas quanto a espuma do mar, mais brancas que a neve das montanhas. Procura minha irmã̃, a que enlaça o velho relógio-de-sol. Talvez te ceda o que desejas.

Então o Rouxinol voou para a roseira, que enlaçava o velho relógio-de-sol.

– Dá-me uma rosa vermelha – pediu – e eu te cantarei minha canção mais linda.

A roseira sacudiu-se levemente.

– Minhas rosas são amarelas como a cabeleira dourada das sereias que repousam em tronos de âmbar, e mais amarelas que o trigo que cobre os campos antes da chegada de quem o vai ceifar. Procura a minha irmã, a que vive sob a janela do Estudante. Talvez te possa ajudar.

O Rouxinol então, dirigiu o voo para a roseira que crescia sob a janela do Estudante.

– Dá-me uma rosa vermelha – pediu - e eu te cantarei minha canção mais linda.
A roseira sacudiu-se levemente.

–  Minhas rosas são vermelhas, tão vermelhas quanto os pés das pombas, mais vermelhas que os grandes leques de coral que oscilam nos abismos profundos do oceano. Contudo, o inverno regelou-me até as veias, a geada queimou-me os botões e a tempestade quebrou-me os galhos. Não darei rosas este ano.

– Eu só quero uma rosa vermelha, repetiu o Rouxinol, – uma só rosa vermelha. Não haverá meio de obtê-la?

–  Há, respondeu a Roseira, mas é meio tão terrível que não ouso revelar-te.

–  Dize. Não tenho medo.

–  Se queres uma rosa vermelha, explicou a roseira, hás de fazê-la de música, ao luar, tingi-la com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim com o peito junto a um espinho. Cantarás toda a noite para mim e o espinho deve ferir teu coração e teu sangue de vida deve infiltrar-se em minhas veias e tornar-se meu.

– A morte é um preço exagerado para uma rosa vermelha – exclamou o Rouxinol – e a Vida é preciosa... É tão bom voar, através da mata verde e contemplar o sol em seu esplendor dourado e a lua em seu carro de pérola... O aroma do espinheiro é suave, e suaves são as campânulas ocultas no vale, e as urzes tremulantes na colina. Mas o Amor é melhor que a Vida. E que vale o coração de um pássaro comparado ao coração de um homem?

Abriu as asas pardas para o voo e ergueu-se no ar. Passou pelo jardim como uma sombra e, como uma sombra, atravessou a alameda.

O Estudante estava deitado na relva, no mesmo ponto em que o deixara, com os lindos olhos inundados de lagrimas.

–  Rejubila-te – gritou-lhe o Rouxinol – Rejubila-te; terás a tua rosa vermelha. Vou fazê-la de música, ao luar. O sangue de meu coração a tingirá. Em consequência só te peço que sejas sempre verdadeiro amante, porque o Amor é mais sábio do que a Filosofia, embora sábia; mais poderoso que o poder, embora poderosa. Tem as asas da cor da chama e da cor da chama tem o corpo. Há doçura de mel em seus braços e seu hálito lembra o incenso.

O Estudante ergueu a cabeça e escutou. Nada pôde entender, porém, do que dizia o Rouxinol, pois sabia apenas o que está escrito nos livros.

Mas o Carvalho entendeu e ficou melancólico, porque amava muito o pássaro que construíra ninho em seus ramos.

– Canta-me um derradeiro canto – segredou-lhe – sentir-me-ei tão só depois da tua partida.

Então o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz fazia lembrar a água a borbulhar de uma jarra de prata.

Quando o canto finalizou, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderninho de notas e um lápis.

– Tem classe, não se pode negar – disse consigo – atravessando a alameda. Mas terá sentimento? Não creio. É igual à maioria dos artistas. Só estilo, sinceridade nenhuma. Incapaz de sacrificar-se por outrem. Só pensa em cantar e bem sabemos quanto a Arte é egoísta. No entanto, é forçoso confessar, possui maravilhosas notas na voz. Que pena não terem significação alguma, nem realizarem nada realmente bom!

Foi para o quarto, deitou-se e, pensando na amada, adormeceu.

Quando a lua refulgia no céu, o Rouxinol voou para a Roseira e apoiou o peito contra o espinho. Cantou a noite inteira e o espinho mais e mais enterrou-se- lhe no peito, e o sangue de sua vida lentamente se escoou...

Primeiro descreveu o nascimento do amor no coração de um menino e uma menina; e, no mais alto galho da Roseira, uma flor desabrochou, extraordinária, pétala por pétala, acompanhando um canto e outro canto.

Era pálida, a principio, qual a névoa que esconde o rio, pálida qual os pés da manhã e as asas da alvorada. Como sombra de rosa num espelho de prata, como sombra de rosa em água de lagoa era a rosa que apareceu no mais alto galho da Roseira.

Mas a Roseira pediu ao Rouxinol que se unisse mais ao espinho. – Mais ainda, Rouxinol, – exigiu a Roseira, – senão o dia raia antes que eu acabe a rosa. O Rouxinol então apertou ainda mais o espinho junto ao peito, e cada vez mais profundo lhe saía o canto porque ele cantava o nascer da paixão na alma do homem e da mulher. E tênue nuance rosa nacarou as pétalas, igual ao rubor que invade a face do noivo quando beija a noiva nos lábios.

Mas o espinho não lhe alcançava ainda o coração e o coração da flor continuava branco – pois somente o coração de um Rouxinol pode avermelhar o coração de uma rosa.

– Mais ainda, Rouxinol, – clamou a Roseira – ou o dia vai raiar antes que eu finalize a rosa.

E o Rouxinol, desesperado, calcou-se mais forte no espinho, e o espinho lhe feriu o coração, e uma punhalada de dor o traspassou. Amarga, amarga lhe foi a angústia e cada vez mais fremente foi o canto, porque ele cantava o amor que a morte aperfeiçoa, o amor que não morre nem no túmulo.

E a rosa maravilhosa tornou-se purpurina como a rosa do céu oriental. Suas pétalas ficaram rubras e, vermelho como um rubi, seu coração.

Mas a voz do Rouxinol se foi enfraquecendo, as pequeninas asas começaram a estremecer e uma névoa cobriu-lhe o olhar, o canto tornou-se débil e ele sentiu qualquer coisa apertar-lhe a garganta.

Então, arrancou do peito o derradeiro grito musical.

Ouviu-o a lua branca, esqueceu-se da Aurora e permaneceu no céu. A rosa vermelha o ouviu, e tremula de emoção, abriu-se à aragem fria da manhã. Transportou-o o Eco, à sua caverna purpurina, nos montes, despertando os pastores de seus sonhos. E ele levou-os através dos caniços dos rios e eles transmitiram sua mensagem ao mar.

– Olha! Olha! Exclamou a Roseira. – A rosa está pronta, agora. Ao meio dia o Estudante abriu a janela e olhou. – Que sorte! – disse – Uma rosa vermelha! Nunca vi rosa igual em toda a minha vida. É tão linda que tem certamente um nome complicado em latim. E curvou-se para colhê-la.

Depois, pondo o chapéu, correu à casa do professor.

- Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha, - lembrou-se o Estudante. – Aqui tens a rosa mais vermelha de todo o mundo. Hás de usá-la, hoje a noite, sobre ao coração, e quando dançarmos juntos ela te dirá quanto te amo.

Mas a moça franziu a testa.

- Talvez não combine bem com o meu vestido, disse. Ademais, o sobrinho do Camareiro mandou-me joias verdadeiras, e joias, todos sabem, custam muito mais do que flores...

 - És muito ingrata! – exclamou o Estudante, zangado. E atirou a rosa à sarjeta, onde a roda de um carro a esmagou.

–  Sou ingrata? E o senhor não passa de um grosseirão. E, afinal de contas, quem és? Um simples estudante... não acredito que tenhas fivelas de prata, nos sapatos, como as tem o sobrinho do camareiro... – e a moça levantou-se e entrou em casa.

– Que coisa imbecil, o Amor! – Resmungou o estudante, afastando-se. – Nem vale a utilidade da Lógica, porque não prova nada, está sempre prometendo o que não cumpre e fazendo acreditar em mentiras. Nada tem de prático e como neste século o que vale é a prática, volto à Filosofia e vou estudar metafísica. Retornou ao quarto, tirou da estante um livro empoeirado e pôs-se a ler...


(O príncipe feliz e outras estórias; tradução de Luciana Salgado)



(Ilustração: xfig Nataly Abramovich)





terça-feira, 22 de dezembro de 2015

STILL I RISE / MESMO ASSIM EU ME REERGO / AINDA ASSIM, EU ME LEVANTO, de Maya Angelou









You may write me down in history


With your bitter, twisted lies,


You may trod me in the very dirt


But still, like dust, I’ll rise.






Does my sassiness upset you?


Why are you beset with gloom?


‘Cause I walk like I’ve got oil wells


Pumping in my living room.






Just like moons and like suns,


With the certainty of tides,


Just like hopes springing high,


Still I’ll rise.






Did you want to see me broken?


Bowed head and lowered eyes?


Shoulders falling down like teardrops,


Weakened by my soulful cries?






Does my haughtiness offend you?


Don’t you take it awful hard


‘Cause I laugh like I’ve got gold mines


Diggin’ in my own backyard.






You may shoot me with your words,


You may cut me with your eyes,


You may kill me with your hatefulness,


But still, like air, I’ll rise.






Does my sexiness upset you?


Does it come as a surprise


That I dance like I’ve got diamonds


At the meeting of my thighs?






Out of the huts of history’s shame


I rise


Up from a past that’s rooted in pain


I rise


I’m a black ocean, leaping and wide,


Welling and swelling I bear in the tide.






Leaving behind nights of terror and fear


I rise


Into a daybreak that’s wondrously clear


I rise


Bringing the gifts that my ancestors gave,


I am the dream and the hope of the slave.


I rise


I rise


I rise.




Tradução de Brenda Nepomuceno (Mesmo Assim Eu Me Reergo):



Você pode me menosprezar na história,


Com suas mentiras distorcidas e amargas,


Você pode me pisotear nessa lama,


Mas mesmo assim, como poeira, eu me reerguerei.






A minha impertinência lhe incomoda?


Por que você está perturbado em melancolia?


Porque eu ando como se tivesse poços de óleo


Jorrando na minha sala de estar.






Bem como luas e como sóis,


Com a certeza das marés,


Bem como esperanças brotando alto,


Mesmo assim eu me reerguerei.






Você queria me ver quebrada?


Cabeça inclinada e olhos para baixo?


Ombros caindo como lágrimas.


Fraquejando pelos gritos do meu âmago.






A minha arrogância lhe ofende?


Não leve isso tão a sério


Porque eu rio como se tivesse minas de ouro


Sendo escavadas no meu quintal.






Você pode atirar em mim com as suas palavras,


Você pode me cortar com os seus olhos,


Você pode me matar com o seu ódio,


Mas mesmo assim, como o ar, eu me reerguerei.






A minha sensualidade lhe ofende?


É realmente uma surpresa


Eu dançar como se tivesse diamantes


Onde minhas coxas se encontram?






Das tocas da vergonha da história


Eu me reergo


Saindo de um passado enraizado na dor


Eu me reergo


Eu sou um oceano negro, borbulhante e vasto,


Vertendo e me expandindo eu aguento a maré.


Deixando para trás noites de terror e medo


Eu me reergo


Rumo a um amanhecer que é surpreendentemente claro


Eu me reergo


Trazendo os presentes que meus ancestrais deram,


Eu sou o sonho e a esperança do escravo.


Eu me reergo


Eu me reergo


Eu me reergo.”





Tradução de Mauro Catopodis (Ainda assim, eu me levanto):




Você pode me riscar da História


Com mentiras lançadas ao ar.


Pode me jogar contra o chão de terra,


Mas ainda assim, como a poeira, eu vou me levantar.






Minha presença o incomoda?


Por que meu brilho o intimida?


Porque eu caminho como quem possui


Riquezas dignas do grego Midas.






Como a lua e como o sol no céu,


Com a certeza da onda no mar,


Como a esperança emergindo na desgraça,


Assim eu vou me levantar.






Você não queria me ver quebrada?


Cabeça curvada e olhos para o chão?


Ombros caídos como as lágrimas,


Minh’alma enfraquecida pela solidão?


Meu orgulho o ofende?


Tenho certeza que sim


Porque eu rio como quem possui


Ouros escondidos em mim.


Pode me atirar palavras afiadas,


Dilacerar-me com seu olhar,


Você pode me matar em nome do ódio,


Mas ainda assim, como o ar, eu vou me levantar.






Minha sensualidade incomoda?


Será que você se pergunta


Por que eu danço como se tivesse


Um diamante onde as coxas se juntam?


Da favela, da humilhação imposta pela cor






Eu me levanto


De um passado enraizado na dor


Eu me levanto


Sou um oceano negro, profundo na fé,


Crescendo e expandindo-se como a maré.


Deixando para trás noites de terror e atrocidade


Eu me levanto


Em direção a um novo dia de intensa claridade


Eu me levanto


Trazendo comigo o dom de meus antepassados,


Eu carrego o sonho e a esperança do homem escravizado.


E assim, eu me levanto


Eu me levanto


Eu me levanto.





(Ilustração: Larry Poncho Brown - every round goes higher)