quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

DO OUTRO LADO, de Javier Ortega







  - Diga-me, mestre, acha que o consegue encontrar?

  - Minha senhora; já lhe disse que ele é que me vai encontrar. Mas só falará se assim o quiser. Não tenho qualquer poder sobre ele.

 - Mas já aqui estamos há meia hora...

 - Diga-me; a sua amiga que me recomendou disse-lhe que isto era automático? Comunicar com o Além demora tempo e requer concentração. Se não mantiver o silêncio, vamos demorar ainda mais umas quantas meias horas.

 - Queira desculpar, Mestre, mas compreenda: tenho tantas saudades do meu pai.

 - ... 

  - ...

 - Filha, és mesmo tu?

 - Papá!?

  - Estás com mau aspecto. Estou farto de te dizer que esses cremes só servem para gastar dinheiro. Água e sabão azul... não precisas de mais nada.

- Mas, diga-me: como é que está, como é a vida... como é que são as coisas aí?

- Água e sabão azul. É o que eu sempre disse.

- Sim. Água e sabão azul. Eu lembro-me. Mas temos tantas coisas para falar... eu não o devia ter posto no lar. Mas era tão difícil tomar conta de si, papá!

  - Papá?? Deve estar a fazer confusão. Os meus filhos são pequenos. E são todos louros. Vivemos numa casa linda, no meio das montanhas...

 - Papá; isso é a Música no Coração. Eu sei que era o seu filme preferido, mas...

 - Devias pôr os olhos na tua prima Cristina. Aquilo é que é uma rapariga cuidada. E casou bem, com o tal rapaz dos Correios. Não com um inútil como o teu marido.

 - Deixe lá o Carlos. Conte-me antes o que faz, o que vê...

- Água e sabão azul... nunca deixei a tua mãe usar outra coisa e olha se ela não continua uma bonita mulher.

-Viu a mãe?

- Que pergunta. Então não havia de ver a minha mulher? Mas agora não lhe falo. Imagina que me faltou ao respeito! Começou a falar do mal que eu tratava o pai dela, por estar sempre a babar-se e ser surdo que nem uma porta... e depois riu-se! Disse que era bem feito. Que era bem feito eu passar o resto da eternidade assim, completamente senil. Mas o que é que ela queria dizer? E imagina que me veio à ideia que ela já tinha morrido... e há muitos anos! A memória prega-me cada partida!

- Por favor, conte-me como é esse lado!

- Só sei que não gosto nada deste lar. As pessoas não são simpáticas; e está sempre escuro e nunca me deixam ver televisão... e não consigo encontrar os meus óculos. Quero ir para casa. Quando é que me vêm buscar?

- Mas não faz mesmo ideia de onde está??

- ...

- Papá!

 - ...

 - Papá!!



(Últimas Palavras, tradução de Luís Rainha)



(Ilustração: James Ensor)


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

CANTO-TE, de Ana Hatherly








Canto-te para que tu definitivamente


existas


Canto o teu nome porque só as coisas cantadas


realmente são e só o nome pronunciado inicia


a mágica corrente


Canto o teu nome como o homem fazia eclodir


o fogo do atrito das pedras


Canto o teu nome como o feiticeiro invoca


a magia do remédio


Canto o teu nome como um animal uiva


de


Como os animais pequenos bebem nos regatos depois


das grandes feras


Canto-te


e tu definitivamente existes nos meus olhos


Sempre abertos porque é sempre e os meus olhos


são os olhos da criança que nós somos sempre


diante da imensidão do teu espaço






Canto-te


e os meus olhos sempre abertos são a pergunta


instante pendente de eu te interrogar






e interrogo as coisas em seu ser noctumo


em seu estar sombriamente presentes na tua claridade


obscura


E como é sempre


meus olhos abertos prescrutam-te






símbolo de tudo o que me foge


como apertar o ar dentro das mãos


e querer agarrar-te






oh substância


Canto-te






com a fragilidade de tudo que existe perante


uma eternidade demasiado nocturna para os nossos


olhos infantis perante a tua antiguidade


futura


E a nossa voz é uma pequena onda no dorso


do teu oceano de matéria


Um leve arrepio apenas na espantosa espessura


de teu éter


Ah no ar é que tudo acontece


no ar nocturno das idades esquecidas


que previamente desconheceremos


No espaço é que tudo acontece


e o espaço é uma grande muito quieta


onde os nossos olhos penetram


no não sabermos até onde


ali


além


no além onde tudo acontece


Oh


oh espaço de tudo ser tão ligeiro e impalpável


e sermos nós a respiração da


teu bafo ritmado


imperceptível distância


Oh augusta majestática dignidade do silêncio


Oh impassibilidade da tua mecânica celeste


Oh organismo primeiro de todos os fins secretos


da compreensão das coisas


Oh inorgânico organismo dos seres


que se devoram


Oh diz


a quem servimos nós de pasto


Canto-te


como quem pronuncia o Mantra esotérico do teu nome


Canto-te e grito


para que a poeira que se infiltra em todas as


coisas se erga de ti como um plâncton


Oh Madre


matriz das criaturas inferiores que rastejam


a teus pés cobertas de pó


esse pó que a cada momento ameaça submergir-nos


Oh aranha enorme tecendo tua teia de pó


Oh que desintegras tudo e tudo tu constróis


Ah como nós lambemos tuas duras mãos


Oh que fustigas nossos olhos com tua sombra


Enorme


Oh


que deixas tanto espaço para o silêncio


das mil pétalas


dos mil braços esplendorosos em seu abandono


dos murmúrios


dos afagos


sangue derramado sobre o mundo


Oh


Porque és sempre tão premente?


e sempre estás ausentemente


na tua constância em todas as coisas?






Oh sono


Oh morte tão desejada e longa


mágica povoada de átomos


milhões de espíritos enchem o teu sopro


E penetras em nós como uma bala


E tudo morre quando tu chegas


E tudo se dilui e se transforma em ti


alada presciência de tudo acontecer


tão longe de nós e tão antigamente


e tudo nos ultrapassar com soberana indiferença


ante os nossos olhos cegos pelo teu negrume


Oh


brilha para dentro de mim


Acende teus luzeiros em meus olhos


Ergue teus braços oh prenhe de tudo


Oh vaso


Oh via láctea de nos amamentares com teu leite


de sombra


Oh úbere e pródiga


Aleita tua ninhada faminta


Grande fera luzidia


Grande mito


Grande deus antigo


Oh urna onde todos dormimos


Oh


Meus olhos choram já de tanto prescrutar-te


E canto-te


Canto-te


Para que tu existas


E eu não veja mais nada além de ti


E nada mais deseje senão que venhas outra vez


levar-me para dentro do teu ventre


de nunca mais haver


E nada mais haver que





Oh tu definitivamente além



(Poemas de Eros Frenético e Contemporâneos)




(Ilustração: João Ruas)




sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

ROUXINOL E A ROSA, de Oscar Wilde






– Ela disse que dançaria comigo se eu lhe levasse rosas vermelhas – exclamou o Estudante – mas não vejo nenhuma rosa vermelha no jardim.

Por entre as folhas, do seu ninho, no carvalho, o Rouxinol o ouviu e, vendo-o ficou admirado...

– Não há nenhuma rosa vermelha no jardim! – repetiu o Estudante, com os lindos olhos cheios de lagrimas. – Ah! Como depende a felicidade de pequeninas coisas! Já li tudo quanto os sábios escreveram. A filosofia não tem segredos para mim e, contudo, a falta de uma rosa vermelha é a desgraça da minha vida.

- E eis, afinal, um verdadeiro apaixonado! – disse o Rouxinol. Gorjeei-o noite após noite, sem conhecê-lo no entanto; noite após noite falei dele às estrelas, e agora o vejo... O cabelo é negro como a flor do jacinto e os lábios vermelhos como a rosa que deseja; mas o amor pôs-lhe na face a palidez do marfim e o sofrimento marcou-lhe a fronte.

– Amanhã à noite o Príncipe dá um baile, murmurou o Estudante, e a minha amada se encontrará entre os convidados. Se levar uma rosa vermelha, dançará́ comigo até a madrugada. Se levar-lhe uma rosa vermelha, hei de tê-la nos braços, sentir-lhe a cabeça no meu ombro e a sua mão presa a minha. Não há rosa vermelha em meu jardim... e ficarei só́; ela apenas passará por mim... Passará por mim... e meu coração se despedaçará́.

– Eis, na verdade, um apaixonado... – pensou o Rouxinol. – Do que eu canto, ele sofre. Aflige-o o que me alegra. Grande maravilha, na verdade, o Amar! Mais precioso que esmeraldas e mais caro que opalas finas. Pérolas e granada não podem comprá-lo, nem se oferece nos mercados. Mercadores não o vendem, nem o conferem em balanças a peso de ouro.

– Os músicos da galeria – prosseguiu o Estudante – tocarão nos seus instrumentos de corda e, ao som de harpas e violinos, minha amada dançará́. Dançará́ tão leve, tão ágil, que seus pés mal tocarão o assoalho e os cortesões, com suas roupas de cores vivas, reunir-se-ão em torno dela. Mas comigo não bailará, porque não tenho uma rosa vermelha para dar-lhe... – e atirando-se à relva, ocultou nas mãos o rosto e chorou.

– Por que está chorando? – perguntou um pequeno lagarto ao passar por ele, correndo, de rabinho levantado.

– É mesmo! Por que será́? – Indagou uma borboleta que perseguia um raio de sol.

– Por quê? – sussurrou uma linda margarida à sua vizinha.

– Chora por causa de uma rosa vermelha, - informou o Rouxinol. 

– Por causa de uma rosa vermelha? – exclamaram – Que coisa ridícula! 

E o lagarto, que era um tanto irônico, riu à vontade. Mas o Rouxinol compreendeu a angústia do Estudante e, silencioso, no carvalho, pôs-se a meditar sobre o mistério do Amor.

Subitamente, abriu as asas pardas e voou. Cortou, como uma sombra, a alameda, e como uma sombra, atravessou o jardim.

Ao centro do relvado, erguia-se uma roseira. Ele a viu. Voou para ela e posou num galho.

– Dá-me uma rosa vermelha – pediu – e eu cantarei para ti a minha mais bela canção!

– Minhas rosas são brancas; tão brancas quanto a espuma do mar, mais brancas que a neve das montanhas. Procura minha irmã̃, a que enlaça o velho relógio-de-sol. Talvez te ceda o que desejas.

Então o Rouxinol voou para a roseira, que enlaçava o velho relógio-de-sol.

– Dá-me uma rosa vermelha – pediu – e eu te cantarei minha canção mais linda.

A roseira sacudiu-se levemente.

– Minhas rosas são amarelas como a cabeleira dourada das sereias que repousam em tronos de âmbar, e mais amarelas que o trigo que cobre os campos antes da chegada de quem o vai ceifar. Procura a minha irmã, a que vive sob a janela do Estudante. Talvez te possa ajudar.

O Rouxinol então, dirigiu o voo para a roseira que crescia sob a janela do Estudante.

– Dá-me uma rosa vermelha – pediu - e eu te cantarei minha canção mais linda.
A roseira sacudiu-se levemente.

–  Minhas rosas são vermelhas, tão vermelhas quanto os pés das pombas, mais vermelhas que os grandes leques de coral que oscilam nos abismos profundos do oceano. Contudo, o inverno regelou-me até as veias, a geada queimou-me os botões e a tempestade quebrou-me os galhos. Não darei rosas este ano.

– Eu só quero uma rosa vermelha, repetiu o Rouxinol, – uma só rosa vermelha. Não haverá meio de obtê-la?

–  Há, respondeu a Roseira, mas é meio tão terrível que não ouso revelar-te.

–  Dize. Não tenho medo.

–  Se queres uma rosa vermelha, explicou a roseira, hás de fazê-la de música, ao luar, tingi-la com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim com o peito junto a um espinho. Cantarás toda a noite para mim e o espinho deve ferir teu coração e teu sangue de vida deve infiltrar-se em minhas veias e tornar-se meu.

– A morte é um preço exagerado para uma rosa vermelha – exclamou o Rouxinol – e a Vida é preciosa... É tão bom voar, através da mata verde e contemplar o sol em seu esplendor dourado e a lua em seu carro de pérola... O aroma do espinheiro é suave, e suaves são as campânulas ocultas no vale, e as urzes tremulantes na colina. Mas o Amor é melhor que a Vida. E que vale o coração de um pássaro comparado ao coração de um homem?

Abriu as asas pardas para o voo e ergueu-se no ar. Passou pelo jardim como uma sombra e, como uma sombra, atravessou a alameda.

O Estudante estava deitado na relva, no mesmo ponto em que o deixara, com os lindos olhos inundados de lagrimas.

–  Rejubila-te – gritou-lhe o Rouxinol – Rejubila-te; terás a tua rosa vermelha. Vou fazê-la de música, ao luar. O sangue de meu coração a tingirá. Em consequência só te peço que sejas sempre verdadeiro amante, porque o Amor é mais sábio do que a Filosofia, embora sábia; mais poderoso que o poder, embora poderosa. Tem as asas da cor da chama e da cor da chama tem o corpo. Há doçura de mel em seus braços e seu hálito lembra o incenso.

O Estudante ergueu a cabeça e escutou. Nada pôde entender, porém, do que dizia o Rouxinol, pois sabia apenas o que está escrito nos livros.

Mas o Carvalho entendeu e ficou melancólico, porque amava muito o pássaro que construíra ninho em seus ramos.

– Canta-me um derradeiro canto – segredou-lhe – sentir-me-ei tão só depois da tua partida.

Então o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz fazia lembrar a água a borbulhar de uma jarra de prata.

Quando o canto finalizou, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderninho de notas e um lápis.

– Tem classe, não se pode negar – disse consigo – atravessando a alameda. Mas terá sentimento? Não creio. É igual à maioria dos artistas. Só estilo, sinceridade nenhuma. Incapaz de sacrificar-se por outrem. Só pensa em cantar e bem sabemos quanto a Arte é egoísta. No entanto, é forçoso confessar, possui maravilhosas notas na voz. Que pena não terem significação alguma, nem realizarem nada realmente bom!

Foi para o quarto, deitou-se e, pensando na amada, adormeceu.

Quando a lua refulgia no céu, o Rouxinol voou para a Roseira e apoiou o peito contra o espinho. Cantou a noite inteira e o espinho mais e mais enterrou-se- lhe no peito, e o sangue de sua vida lentamente se escoou...

Primeiro descreveu o nascimento do amor no coração de um menino e uma menina; e, no mais alto galho da Roseira, uma flor desabrochou, extraordinária, pétala por pétala, acompanhando um canto e outro canto.

Era pálida, a principio, qual a névoa que esconde o rio, pálida qual os pés da manhã e as asas da alvorada. Como sombra de rosa num espelho de prata, como sombra de rosa em água de lagoa era a rosa que apareceu no mais alto galho da Roseira.

Mas a Roseira pediu ao Rouxinol que se unisse mais ao espinho. – Mais ainda, Rouxinol, – exigiu a Roseira, – senão o dia raia antes que eu acabe a rosa. O Rouxinol então apertou ainda mais o espinho junto ao peito, e cada vez mais profundo lhe saía o canto porque ele cantava o nascer da paixão na alma do homem e da mulher. E tênue nuance rosa nacarou as pétalas, igual ao rubor que invade a face do noivo quando beija a noiva nos lábios.

Mas o espinho não lhe alcançava ainda o coração e o coração da flor continuava branco – pois somente o coração de um Rouxinol pode avermelhar o coração de uma rosa.

– Mais ainda, Rouxinol, – clamou a Roseira – ou o dia vai raiar antes que eu finalize a rosa.

E o Rouxinol, desesperado, calcou-se mais forte no espinho, e o espinho lhe feriu o coração, e uma punhalada de dor o traspassou. Amarga, amarga lhe foi a angústia e cada vez mais fremente foi o canto, porque ele cantava o amor que a morte aperfeiçoa, o amor que não morre nem no túmulo.

E a rosa maravilhosa tornou-se purpurina como a rosa do céu oriental. Suas pétalas ficaram rubras e, vermelho como um rubi, seu coração.

Mas a voz do Rouxinol se foi enfraquecendo, as pequeninas asas começaram a estremecer e uma névoa cobriu-lhe o olhar, o canto tornou-se débil e ele sentiu qualquer coisa apertar-lhe a garganta.

Então, arrancou do peito o derradeiro grito musical.

Ouviu-o a lua branca, esqueceu-se da Aurora e permaneceu no céu. A rosa vermelha o ouviu, e tremula de emoção, abriu-se à aragem fria da manhã. Transportou-o o Eco, à sua caverna purpurina, nos montes, despertando os pastores de seus sonhos. E ele levou-os através dos caniços dos rios e eles transmitiram sua mensagem ao mar.

– Olha! Olha! Exclamou a Roseira. – A rosa está pronta, agora. Ao meio dia o Estudante abriu a janela e olhou. – Que sorte! – disse – Uma rosa vermelha! Nunca vi rosa igual em toda a minha vida. É tão linda que tem certamente um nome complicado em latim. E curvou-se para colhê-la.

Depois, pondo o chapéu, correu à casa do professor.

- Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha, - lembrou-se o Estudante. – Aqui tens a rosa mais vermelha de todo o mundo. Hás de usá-la, hoje a noite, sobre ao coração, e quando dançarmos juntos ela te dirá quanto te amo.

Mas a moça franziu a testa.

- Talvez não combine bem com o meu vestido, disse. Ademais, o sobrinho do Camareiro mandou-me joias verdadeiras, e joias, todos sabem, custam muito mais do que flores...

 - És muito ingrata! – exclamou o Estudante, zangado. E atirou a rosa à sarjeta, onde a roda de um carro a esmagou.

–  Sou ingrata? E o senhor não passa de um grosseirão. E, afinal de contas, quem és? Um simples estudante... não acredito que tenhas fivelas de prata, nos sapatos, como as tem o sobrinho do camareiro... – e a moça levantou-se e entrou em casa.

– Que coisa imbecil, o Amor! – Resmungou o estudante, afastando-se. – Nem vale a utilidade da Lógica, porque não prova nada, está sempre prometendo o que não cumpre e fazendo acreditar em mentiras. Nada tem de prático e como neste século o que vale é a prática, volto à Filosofia e vou estudar metafísica. Retornou ao quarto, tirou da estante um livro empoeirado e pôs-se a ler...


(O príncipe feliz e outras estórias; tradução de Luciana Salgado)



(Ilustração: xfig Nataly Abramovich)





terça-feira, 22 de dezembro de 2015

STILL I RISE / MESMO ASSIM EU ME REERGO / AINDA ASSIM, EU ME LEVANTO, de Maya Angelou









You may write me down in history


With your bitter, twisted lies,


You may trod me in the very dirt


But still, like dust, I’ll rise.






Does my sassiness upset you?


Why are you beset with gloom?


‘Cause I walk like I’ve got oil wells


Pumping in my living room.






Just like moons and like suns,


With the certainty of tides,


Just like hopes springing high,


Still I’ll rise.






Did you want to see me broken?


Bowed head and lowered eyes?


Shoulders falling down like teardrops,


Weakened by my soulful cries?






Does my haughtiness offend you?


Don’t you take it awful hard


‘Cause I laugh like I’ve got gold mines


Diggin’ in my own backyard.






You may shoot me with your words,


You may cut me with your eyes,


You may kill me with your hatefulness,


But still, like air, I’ll rise.






Does my sexiness upset you?


Does it come as a surprise


That I dance like I’ve got diamonds


At the meeting of my thighs?






Out of the huts of history’s shame


I rise


Up from a past that’s rooted in pain


I rise


I’m a black ocean, leaping and wide,


Welling and swelling I bear in the tide.






Leaving behind nights of terror and fear


I rise


Into a daybreak that’s wondrously clear


I rise


Bringing the gifts that my ancestors gave,


I am the dream and the hope of the slave.


I rise


I rise


I rise.




Tradução de Brenda Nepomuceno (Mesmo Assim Eu Me Reergo):



Você pode me menosprezar na história,


Com suas mentiras distorcidas e amargas,


Você pode me pisotear nessa lama,


Mas mesmo assim, como poeira, eu me reerguerei.






A minha impertinência lhe incomoda?


Por que você está perturbado em melancolia?


Porque eu ando como se tivesse poços de óleo


Jorrando na minha sala de estar.






Bem como luas e como sóis,


Com a certeza das marés,


Bem como esperanças brotando alto,


Mesmo assim eu me reerguerei.






Você queria me ver quebrada?


Cabeça inclinada e olhos para baixo?


Ombros caindo como lágrimas.


Fraquejando pelos gritos do meu âmago.






A minha arrogância lhe ofende?


Não leve isso tão a sério


Porque eu rio como se tivesse minas de ouro


Sendo escavadas no meu quintal.






Você pode atirar em mim com as suas palavras,


Você pode me cortar com os seus olhos,


Você pode me matar com o seu ódio,


Mas mesmo assim, como o ar, eu me reerguerei.






A minha sensualidade lhe ofende?


É realmente uma surpresa


Eu dançar como se tivesse diamantes


Onde minhas coxas se encontram?






Das tocas da vergonha da história


Eu me reergo


Saindo de um passado enraizado na dor


Eu me reergo


Eu sou um oceano negro, borbulhante e vasto,


Vertendo e me expandindo eu aguento a maré.


Deixando para trás noites de terror e medo


Eu me reergo


Rumo a um amanhecer que é surpreendentemente claro


Eu me reergo


Trazendo os presentes que meus ancestrais deram,


Eu sou o sonho e a esperança do escravo.


Eu me reergo


Eu me reergo


Eu me reergo.”





Tradução de Mauro Catopodis (Ainda assim, eu me levanto):




Você pode me riscar da História


Com mentiras lançadas ao ar.


Pode me jogar contra o chão de terra,


Mas ainda assim, como a poeira, eu vou me levantar.






Minha presença o incomoda?


Por que meu brilho o intimida?


Porque eu caminho como quem possui


Riquezas dignas do grego Midas.






Como a lua e como o sol no céu,


Com a certeza da onda no mar,


Como a esperança emergindo na desgraça,


Assim eu vou me levantar.






Você não queria me ver quebrada?


Cabeça curvada e olhos para o chão?


Ombros caídos como as lágrimas,


Minh’alma enfraquecida pela solidão?


Meu orgulho o ofende?


Tenho certeza que sim


Porque eu rio como quem possui


Ouros escondidos em mim.


Pode me atirar palavras afiadas,


Dilacerar-me com seu olhar,


Você pode me matar em nome do ódio,


Mas ainda assim, como o ar, eu vou me levantar.






Minha sensualidade incomoda?


Será que você se pergunta


Por que eu danço como se tivesse


Um diamante onde as coxas se juntam?


Da favela, da humilhação imposta pela cor






Eu me levanto


De um passado enraizado na dor


Eu me levanto


Sou um oceano negro, profundo na fé,


Crescendo e expandindo-se como a maré.


Deixando para trás noites de terror e atrocidade


Eu me levanto


Em direção a um novo dia de intensa claridade


Eu me levanto


Trazendo comigo o dom de meus antepassados,


Eu carrego o sonho e a esperança do homem escravizado.


E assim, eu me levanto


Eu me levanto


Eu me levanto.





(Ilustração: Larry Poncho Brown - every round goes higher)





sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

CONTRABANDISTA, de João Simões Lopes Neto

1





— Batia nos noventa anos o corpo magro mas sempre teso do Jango Jorge, um que foi capitão duma maloca de contrabandistas que fez cancha nos banhados do Ibirocaí.

Esse gaúcho desabotinado levou a existência inteira a cruzar os campos da fronteira: à luz do sol, no desmaiado da lua, na escuridão das noites, na cerração das madrugadas...; ainda que chovesse reiunos acolherados ou que ventasse como por alma de padre, nunca errou vau, nunca perdeu atalho, nunca desandou cruzada!...

Conhecia as querências, pelo faro: aqui era o cheiro do açouta-cavalo florescido, lá́ o dos trevais, o das guabirobas rasteiras, do capim-limão; pelo ouvido: aqui, cancha de graxains, lá os pastos que ensurdecem ou estalam no casco do cavalo; adiante, o chape-chape, noutro ponto, o areão. Até pelo gosto ele dizia a parada, porque sabia onde estavam águas salobres e águas leves, com sabor de barro ou sabendo a limo.

Tinha vindo das guerras do outro tempo; foi um dos que peleou na batalha de Ituzaingo; foi do esquadrão do general José de Abreu. E sempre que falava no Anjo da Vitória ainda tirava o chapéu, numa braçada larga, como se cumprimentasse alguém de muito respeito, numa distância muito longe.

Foi sempre um gaúcho quebralhão, e despilchado sempre, por ser muito de mãos abertas.

Se numa mesa de primeira ganhava uma ponchada de balastracas, reunia a gurizada da casa, fazia — pi! pi! pi! pi! — como pra galinhas e semeava as moedas, rindo-se do formigueiro que a miuçalha formava, catando as pratas no terreiro.

Gostava de sentar um laçaço num cachorro, mas desses laçaços de apanhar da paleta à virilha, e puxado a valer, tanto, que o bicho que o tomava, ficando entupido de dor, e lombeando-se, depois de disparar um pouco é que gritava, num — caim! caim! caim! — de desespero.

Outras vezes dava-me para armar uma jantarola, e sobre o fim do festo, quando já estava tudo meio entropigaitado, puxava por uma ponta da toalha e lá vinha, de tirão seco, toda a traquitanda dos pratos e copos e garrafas e restos de comidas e caldas dos doces!...

Depois garganteava a chuspa e largava as onças pras unhas do bolicheiro, que aproveitava o vento e le echaba cuentas de gran capitán...

Era um pagodista!

Aqui há poucos anos — coitado! — pousei no arranchamento dele. Casado ou doutro jeito, estava afamilhado. Não nos víamos desde muito tempo.

A dona da casa era uma mulher mocetona ainda, bem parecida e mui prazenteira; de filhos, uns três matalotes já emplumados e uma mocinha — pro caso, uma moça —, que era o — santo-antoninho-onde-te-porei! — daquela gente toda.

E era mesmo uma formosura; e prendada, mui habilidosa; tinha andado na escola e sabia botar os vestidos esquisitos das cidadãs da vila.

E noiva, casadeira, já era.

E deu o caso, que quando eu pousei, foi justo pelas vésperas do casamento; estavam esperando o noivo e o resto do enxoval dela.

O noivo chegou no outro dia; grande alegria; começaram os aprontamentos, e como me convidaram com gosto, fiquei pro festo.

O Jango Jorge saiu na madrugada seguinte, para ir buscar o tal enxoval da filha.

Aonde, não sei; parecia-me que aquilo devia ser feito em casa, à moda antiga, mas, como cada um manda no que é seu...

Fiquei verdeando, à espera, e fui dando um ajutório na matança dos leitões e no tiramento dos assados com couro.

Nesta terra do Rio Grande sempre se contrabandeou, desde em antes da tomada das Missões.

Naqueles tempos o que se fazia era sem malícia, e mais por divertir e acoquinar as guardas do inimigo: uma partida de guascas montava a cavalo, entrava na Banda Oriental e arrebanhava uma ponta grande de eguariços, abanava o poncho e vinha a meia rédea; apartava-se a potrada e largava-se o resto; os de lá faziam conosco a mesma cousa; depois era com gados, que se tocava a trote e galope, abandonando os assoleados.

Isto se fazia por despique dos espanhóis e eles se pagavam desquitando-se do mesmo jeito.

Só se cuidava de negacear as guardas do Cerro Largo, em Santa Tecla, do Haedo... O mais, era várzea!

Depois veio a guerra das Missões; o governo começou a dar sesmarias e uns quantíssimos pesados foram-se arranchando por essas campanhas desertas. E cada um tinha que ser um rei pequeno... e aguentar-se com as balas, as lunares e os chifarotes que tinha em casa!...

Foi o tempo do manda-quem-pode!... E foi o tempo que o gaúcho, o seu cavalo e o seu facão, sozinhos, conquistaram e defenderam estes pagos!

Quem governava aqui o continente era um chefe que se chamava o capitão-general; ele dava as sesmarias mas não garantia o pelego dos sesmeiros...

Vancê tome tenência e vá vendo como as cousas, por si mesmas, se explicam.

Naquela era, a pólvora era do el-rei nosso senhor e só por sua licença é que algum particular graúdo podia ter em casa um polvarim...

Também só na vila de Porto Alegre é que havia baralho de jogar, que eram feitos só na fábrica do rei nosso senhor, e havia fiscal, sim senhor, das cartas de jogar, e ninguém podia comprar senão dessas!

Por esses tempos antigos também o tal rei nosso senhor mandou botar pra fora os ourives da vila do Rio Grande e acabar com os lavrantes e prendistas dos outros lugares desta terra, só pra dar flux aos reinóis...

Agora imagine vancê se a gente lá de dentro podia andar com tantas etiquetas e pedindo louvado pra se defender, pra se divertir e pra luxar!... O tal rei nosso senhor, não se enxergava, mesmo!...

E logo com quem!... Com a gauchada!...

Vai então, os estancieiros iam em pessoa ou mandavam ao outro lado, nos espanhóis, buscar pólvora e balas, pras pederneiras, cartas de jogo e prendas de ouro pras mulheres e preparos de prata pros arreios... e ninguém pagava dízimos dessas cousas.

Às vezes lá voava pelos ares um cargueiro, com cangalhas e tudo, numa explosão da pólvora; doutras uma partida de milicianos saía de atravessado e tomava conta de tudo, a couce d’arma: isto foi ensinando a escaramuçar com os golas-de-couro.

Nesse serviço foram-se aficionando alguns gaúchos: recebiam as encomendas e pra aproveitar a monção e não ir com os cargueiros debalde, levavam baeta, que vinha do reino, e fumo em corda, que vinha da Baía, e algum porrão de canha. E faziam trocas, de elas por elas, quase.

Os paisanos das duas terras brigavam, mas os mercadores sempre se entendiam...

Isto veio mais ou menos assim até a guerra dos Farrapos; depois vieram as califórnias do Chico Pedro; depois a guerra do Rosas.

Aí inundou-se a fronteira da província de espanhóis e gringos emigrados.

A cousa então mudou de figura. A estrangeirada era mitrada, na regra, e foi quem ensinou a gente de cá a mergulhar e ficar de cabeça enxuta...; entrou nos homens a sedução de ganhar barato: bastava ser campeiro e destorcido. 

Depois, andava-se empandilhado, bem armado; podia-se às vezes dar um vareio nos milicos, ajustar contas com algum devedor de desaforos, aporrear algum subdelegado abelhudo...

Não se lidava com papéis nem contas de cousas: era só levantar os volumes, encangalhar, tocar e entregar!...

Quanta gauchagem leviana aparecia, encostava-se.

Rompeu a guerra do Paraguai.

O dinheiro do Brasil ficou muito caro: uma onça de ouro, que corria por trinta e dois, chegou a valer quarenta e seis mil réis!... Imagine o que a estrangeirada bolou nas contas!...

Começou-se a cargueirear de um tudo: panos, águas de cheiro, armas, minigâncias, remédios, o diabo a quatro!... Era só pedir por boca!

Apareceram também os mascates de campanha, com baús encangalhados e canastras, que passavam pra lá vazios e voltavam cheios, desovar aqui...

Polícia pouca, fronteira aberta, direitos de levar couro e cabelo e nas coletarias umas papeladas cheias de benzeduras e rabioscas...

Ora... ora!... Passar bem, paisano!... A semente grelou e está a árvore ramalhuda, que vancê sabe, do contrabando de hoje.

O Jango Jorge foi maioral nesses estropícios. Desde moço. Até a hora da morte. Eu vi.

Como disse, na madrugada véspera do casamento o Jango Jorge saiu para ir buscar o enxoval da filha.

Passou o dia; passou a noite.

No outro dia, que era o do casamento, até de tarde, nada.

Havia na casa uma gentama convidada; da vila, vizinhos, os padrinhos, autoridades, moçada. Havia de se dançar três dias!... Corria o amargo e copinhos de licor de butiá.

Roncavam cordeonas no fogão, violas na ramada, uma caixa de música na sala.
Quase ao entrar do sol a mesa estava posta, vergando ao peso dos pratos enfeitados.

A dona da casa, por certo traquejada nessas bolandinas do marido, estava sossegada, ao menos ao parecer.

Às vezes mandava um dos filhos ver se o pai aparecia, na volta da estrada, encoberta por uma restinga fechada de arvoredo.

Surgiu dum quarto o noivo, todo no trinque, de colarinho duro e casaco de rabo. Houve caçoadas, ditérios, elogios.

Só faltava a noiva; mas essa não podia aparecer, por falta do seu vestido branco, dos seus sapatos brancos, do seu véu branco, das suas flores de laranjeira, que o pai fora buscar e ainda não trouxera.

As moças riam-se; as senhoras velhas cochichavam.

Entardeceu.

Nisto correu voz que a noiva estava chorando: fizemos uma algazarra e ela — tão boazinha! — veio à porta do quarto, bem penteada, ainda num vestidinho de chita de andar em casa, e pôs-se a rir pra nós, pra mostrar que estava contente.

A rir, sim, rindo na boca, mas também a chorar lágrimas grandes, que rolavam devagar dos olhos pestanudos...

E rindo e chorando estava, sem saber porquê... sem saber porquê, rindo e chorando, quando alguém gritou do terreiro:

— Aí vem o Jango Jorge, com mais gente!...

Foi um vozerio geral; a moça porém ficou, como estava, no quadro da porta, rindo e chorando, cada vez menos sem saber porquê... pois o pai estava chegando e o seu vestido branco, o seu véu, as suas flores de noiva...

Era já lusco-fusco. Pegaram a acender as luzes.

E nesse mesmo tempo parava no terreiro a comitiva; mas num silêncio, tudo.

E o mesmo silêncio foi fechando todas as bocas e abrindo todos os olhos.

Então vimos os da comitiva descerem de um cavalo o corpo entregue de um homem, ainda de pala enfiado...

Ninguém perguntou nada, ninguém informou de nada; todos entenderam tudo...; que a festa estava acabada e a tristeza começada...

Levou-se o corpo pra sala da mesa, para o sofá enjeitado, que ia ser o trono dos noivos. Então um dos chegados disse:

— A guarda nos deu em cima... tomou os cargueiros... E mataram o capitão, porque ele avançou sozinho pra mula ponteira e suspendeu um pacote que vinha solto... e ainda o amarrou no corpo... Aí foi que o crivaram de bala.... parado... Os ordinários!... Tivemos que brigar, pra tomar o corpo!

A sia-dona mãe da noiva levantou o balandrau do Jango Jorge e desamarrou o embrulho; e abriu-o.

Era o vestido branco da filha, os sapatos brancos, o véu branco, as flores de laranjeira...

Tudo numa plastada de sangue... tudo manchado de vermelho, toda a alvura daquelas cousas bonitas como que bordada de cobrado, num padrão esquisito, de feitios estrambólicos... como flores de cardo solferim esmagadas a casco de bagual!...

Então rompeu o choro na casa toda.


(Contos Gauchescos)



(Ilustração: Alberto Scherer)