segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

HISTÓRIA DAS MENTALIDADES, de Eduardo Marques da Silva

 



De acordo com Jacques Le Goff, temos novas maneiras de ler a História, principalmente a social. Tudo havia sido transformado, e novamente a maneira de perceber a História se modificava metodologicamente. Saber como se deu tudo acabava sendo mais um novidadeiro e estrondoso desafio, com novos pensadores do tempo historiográfico no mundo e para o mundo, com foco na História das Mentalidades. Para ele, mentalidade vai além da história. É, inicialmente, ir ao encontro de outras ciências humanas.

Segundo Le Goff, Marc Bloch reconhece no estudo das mentalidades da Idade Média uma ampla gama de crenças e de práticas – algumas legadas por magias milenares, outras nascidas em épocas relativamente recentes no seio da civilização animada de grande fecundidade mítica.

O historiador das mentalidades aproximar-se-á, pois, do etnólogo, visando a alcançar o nível mais estável das sociedades. Ernest Labrousse diz que o social é mais lento que o econômico e o mental mais ainda do que o social. Do estudo dos ritos, das práticas cerimoniais, o etnólogo remonta para as crenças, os sistemas de valores. Assim, os historiadores da Idade Média, após Marc Bloch, Percy Ernst Schramm, Ernst Kantorovicz, Bernard Guenée, por meio das sagrações, das curas milagrosas, das insígnias do poder, das recepções reais, descobriram uma mística monárquica, uma mentalidade política e renovaram a história política medieval.

Próximo do etnólogo, o historiador das mentalidades deve também se duplicar em sociólogo. Seu objeto é o coletivo. A mentalidade de um indivíduo histórico, sendo esse um grande homem, é justamente o que ele tem de comum com outros homens de seu tempo. O historiador de mentalidades encontra-se particularmente muito próximo do psicólogo social. As noções de comportamento ou de atitude são para este e para aquela essência.

A Psicologia social inclina-se para a Etnologia e desta para a História. Dois domínios manifestam essa inclinação recíproca da história das mentalidades: os marginais e desviados nas épocas passadas e o progresso paralelo das sondagens de opinião e de análises históricas de comportamentos eleitorais. Desse ponto de vista, um dos interesses da história das mentalidades revela-se: as possibilidades que oferece à Psicologia histórica de ligar-se a outra grande corrente da pesquisa histórica de hoje: a História quantitativa.

Ciência aparentemente do movente e do matizado, a história das mentalidades pode, com certas adaptações, utilizar os métodos quantitativos aperfeiçoados pelos psicologistas sociais. Da mesma maneira, seus vínculos com a etnologia permitirão que recorra a outro grande arsenal das ciências humanas atuais: os métodos estruturalistas.

Mas a história das mentalidades não se define somente pelo contrato com as outras ciências humanas e pela emergência de um domínio repelido pela história tradicional. Ela é o lugar de encontro de exigências opostas que a dinâmica própria à pesquisa histórica atual força ao diálogo. Situa-se no ponto de junção do individual e do coletivo, do longo tempo e do quotidiano, do inconsciente e do intencional, do estrutural e do conjuntural, do marginal e do geral. Quando Huizinga chama Jean de Salisbury de “espírito pré-gótico”, reconhecia-lhe uma superioridade de antecipação com respeito à evolução histórica, pela expressão em que o espírito evoca a mentalidade, fazendo desta a testemunha coletiva de uma época, como Lucien Febvre fez de um Rabelais arrancado ao anacronismo dos eruditos das ideias para voltar à historicidade concreta dos historiadores das mentalidades.

O discurso dos homens, em qualquer tom em que tenha sido pronunciado – o da convicção, o da emoção, o da ênfase –, é frequentemente apenas um amontoado de ideias feitas, de lugares comuns, de restos de culturas e de mentalidades de diversas origens e várias épocas. André Varagnac fala de arqueocivilização, restos sendo reunidos por coerências mentais, senão lógicas, seguindo o deciframento de sistemas psíquicos próximos da bricolage intellectuel em que Claude Lévi-Strauss reconhecia o pensamento selvagem.

A história das mentalidades obriga o historiador a interessar-se por alguns fenômenos essenciais de seu domínio: as heranças (das quais os estudos ensinam a continuidade), as rupturas, a tradição, as maneiras pelas quais se reproduzem mentalmente as sociedades, as defasagens, produto do retardamento dos espíritos em se adaptar às mudanças e a inegável rapidez com que evoluem os diferentes setores da história, um campo de análise privilegiado para a crítica das concepções lineares a serviço histórico.

Os homens servem-se das máquinas conservando as mentalidades anteriores a elas. Os automobilistas têm vocabulário de cavaleiros; os operários das fábricas do século XIX, a mentalidade dos camponeses. A mentalidade é aquilo que muda mais lentamente. História das mentalidades, história da lentidão na história.

Qual a origem da história das mentalidades? Mental que se refere ao espírito e tem origem no vocabulário da escolástica clássica medieval. O aparecimento de mental (no século XV) e mentalidade (no século XIX) indica que o substantivo corresponde a outras necessidades, decorre de uma conjuntura que não o adjetivo. Mentalidade, filha da filosofia inglesa do século XVII, designa a coloração coletiva do psiquismo, a maneira particular de pensar e de sentir “de um povo, de certo grupo de pessoas etc.”. Confinado em inglês, a língua técnica da filosofia, em francês torna-se logo de uso corrente, surgido no século XVIII no domínio científico do campo de uma nova concepção da história. Inspira Voltaire (Essai sur lês moeurs et l’espirit des nations (1754), como está no dicionário Robert, 1842).

Em 1900, Proust sublinha a novidade e a palavra toma seu sentido corrente. É o sucedâneo popular da Weltanschauung alemã, a visão do mundo, de tudo um pouco, um universo mental ao mesmo tempo estereotipado e caótico. É uma visão corrompida do mundo, o entregar-se à propensão dos maus instintos psíquicos. Fatalidade pejorativa, direto ou antífrase. Uma vil ou bela mentalidade, ou que mentalidade. O inglês a conservou no caso do adjetivo: mental (subentendendo-se deficiente).



REFERÊNCIAS

LE GOFF, Jacques. História nova. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

HOBSBAWM, E. J. Bandidos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1976. SILVA, Eduardo Marques da. As neoamazonas e o moderno mundo econômico em transformação: onde surgem? Disponível em: www.educacaopublica.rj.gov.br. Publicado em 3 de março de 2009.

SILVA, Eduardo Marques da. Raízes de uma escola de inclusão social e sociocultural cidadã para apresados recuperáveis: uma sugestão. Disponível em: www.educacaopublica.rj.gov.br. Publicado em 16 de janeiro de 2007.

SILVA, Eduardo Marques da. Pós-escravidão, a educação submissa na cibercidadania. Disponível em: www.educacaopublica.rj.gov.br. Publicado em 21 de agosto de 2007.



(Ilustração: Hieronymus Bosch (ca. 1450-1516)

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

OS DOIS GATOS, Bocage

  

 




Dois bichanos se encontraram

Sobre uma trapeira um dia:

(Creio que não foi no tempo

Da amorosa gritaria).



De um deles todo o conchego

Era dormir no borralho;

O outro em leito de senhora

Tinha mimoso agasalho.



Ao primeiro o dono humilde

Espinhas apenas dava;

Com esquisitos manjares

O segundo se engordava.



Miou, e lambeu-o aquele

Por o ver da sua casta;

Eis que o brutinho orgulhoso

De si com desdém o afasta.



Aguda unha vibrando

Lhe diz:” Gato vil e pobre,

Tens semelhante ousadia

Comigo, opulento, e nobre?



Cuidas que sou como tu?

Asneirão, quanto te enganas!

Entendes que me sustento

De espinhas, ou barbatanas?



Logro tudo o que desejo,

Dão-me de comer na mão;

Tu lazeras, e dormimos

Eu na cama, e tu no chão.



Poderás dizer-me a isto

Que nunca te conheci;

Mas para ver que não minto

Basta-me olhar para ti.”



”Ui! (responde-lhe o gatorro,

Mostrando um ar de estranheza)

És mais que eu? Que distinção

Pôs em nós a Natureza?



Tens mais valor? Eis aqui

A ocasião de o provar.”

”Nada (acode o cavalheiro)

Eu não costumo brigar.”



”Então (torna-lhe enfadado

O nosso vilão ruim)

Se tu não és mais valente,

Em que és sup’rior a mim?



Tu não mias?” – ”Mio.” – ”E sentes

Gosto em pilhar algum rato?”

”Sim.” – E o comes?” – ”Oh! Se como!…”

”Logo não passas de um gato.



Abate, pois, esse orgulho,

Intratável criatura:

Não tens mais nobreza que eu;

O que tens é mais ventura.”





(Ilustração : Jean-Baptiste Oudry - Les deux chats, 1725)

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

O VELÓRIO DE IVAN ILITCH, de Leon Tolstói

 


  No prédio do Tribunal, durante um intervalo do julgamento do caso Melvinsky, os membros da Corte e o promotor reuniram-se no gabinete de Ivan Yegorovich Shebek e a conversa recaiu sobre o famoso caso Krasovsky. Fiodr Vassilyevich insistia em que o caso não estava sob sua jurisdição, Ivan Yegorovich argumentava o contrário, enquanto Piotr Ivanovich, como não estava na discussão desde o início, não tomava o partido de ninguém, mas passava os olhos pelo Gazette, que tinham acabado de entregar.

– Senhores – exclamou. – Morreu Ivan Ilitch.

– Não é possível!

– Está aqui. Pode ler – disse Piotr Ivanovich, passando o jornal que ainda cheirava a tinta a Fiodr Vassilyevich.

Cercadas por uma borda preta, liam-se as seguintes palavras:

É com profundo pesar que Praskovya Fiodorovna participa a amigos e parentes a passagem de seu estimado esposo, Ivan Ilitch Golovin, membro da Corte Suprema, que deixou esta vida no dia 04 de fevereiro do ano da graça de 1882. O enterro acontecerá na sexta-feira, à uma hora da tarde.

Ivan Ilitch havia sido colega deles e era muito querido por todos. Sabia-se que sofrera em cima de uma cama, meses a fio, com uma doença diagnosticada como incurável. Seu posto ficara em aberto, mas corria que, no caso de sua morte, provavelmente Alexeyev seria nomeado seu sucessor e Vinnikov ou Shtabel ocupariam o lugar de Alexeyev. De modo que, ao ouvirem a notícia da morte de Ivan Ilitch, a primeira coisa que lhes passou pela cabeça foi o possível efeito na rodada de transferências e promoções para eles ou seus companheiros.

“Tenho certeza de que agora eu pego o lugar de Shtabel, ou de Vinniko!”, pensou Fiodr Vassilyevich. “Já me prometeram há horas e essa promoção significa um salário de oitocentos rublos por ano, mais ajuda de custo.”

“Vou tentar conseguir a transferência de Kalugo para o meu cunhado!”, pensou Piotr Ivanovich. “Minha mulher vai adorar e não vai poder dizer que eu nunca faço nada pelos parentes dela!”

– Bem que eu achei, o tempo todo, que ele não ia mais sair daquela cama – disse Piotr, em voz alta. – Que coisa triste.

– O que era mesmo que ele tinha?

– Os médicos não conseguiram chegar a uma conclusão, ou pelo menos não à mesma conclusão. A última vez em que o vi me pareceu que estava melhorando.

– E eu que nunca mais apareci, desde as férias. Pensei em ir várias vezes.

– Ele tinha bens?

– Acho que sua esposa tem alguma coisa. Mas não muita.

– Bem, acho que devemos ir até lá vê-la. Eles moram um bocado longe!

– Você quer dizer um bocado longe de você. Qualquer lugar é longe da sua casa!

– Ouviram essa? Ele não me perdoa por viver do outro lado do rio! – disse Piotr Ivanovich, sorrindo, para Shebek. E voltaram para o Tribunal comentando animadamente sobre as distâncias de um e de outro lado da cidade.

Além das elucubrações sobre possíveis transferências e mudanças no departamento, resultantes da morte de Ivan Ilitch, a simples ideia da morte de um companheiro tão próximo fazia surgir naqueles que ouviram a notícia aquele tipo de sentimento de alívio ao pensar que “foi ele quem morreu e não eu”.

“Agora era ele quem tinha de morrer. Comigo vai ser diferente – eu estou vivo”, pensava cada um deles, enquanto as pessoas mais próximas, os assim chamados amigos, lembravam que agora teriam de cumprir todos aqueles cansativos rituais que exigiam as normas de bom comportamento, assistindo ao funeral e fazendo uma visita de condolências para a viúva.

Fiodr Vassilyevich e Piotr Ivanovich tinham sido seus amigos mais próximos. Piotr Ivanovich fora seu colega na Escola de Direito e lhe devia obrigações.

Em casa, depois de contar para a esposa sobre a morte de Ivan Ilitch, e sua esperança de que talvez conseguisse a transferência de seu cunhado, Piotr Ivanovich abriu mão de sua sesta habitual, vestiu o casaco e saiu.

Do lado de fora da casa de Ivan Ilitch havia uma carruagem e dois trenós de aluguel.

Encostado na parede do hall, ao lado do porta-chapéus, via-se a tampa de um caixão coberta por um manto em cujas franjas haviam acabado de borrifar um pó dourado. Havia duas mulheres de preto recolhendo os casacos, e uma delas, a irmã de Ivan Ilitch, Piotr Ivanovich já conhecia, mas a outra era-lhe totalmente estranha.

Seu colega Schwartz já estava descendo, mas ao ver Piotr Ivanovich parou no topo da escada e deu uma piscada, como quem diz: “Veja só que confusão foi arrumar nosso amigo Ivan Ilitch – tão diferente de nós!”.

O rosto de Schwartz, com aquelas costeletas, sua figura esguia naquele casaco, tinham como sempre, um ar elegante e solene que contrastava com sua natureza jovial, mas que nessa situação parecia a Piotr Ivanovich adquirir um tempero todo especial.

Piotr Ivanovich deixou que as duas mulheres passassem e as seguiu. Schwartz não fez menção de descer e Piotr Ivanovich sabia por quê: certamente queria combinar o local do whist[1] naquela noite. As mulheres subiram para falar com a viúva, enquanto Schwartz, com os lábios cerrados, mas um olhar malicioso, indicava a Piotr Ivanovich o quarto à direita onde estava o corpo. Piotr Ivanovich entrou, em dúvida, como as pessoas sempre se sentem nessas ocasiões, quanto à melhor atitude a tomar ali dentro. A única coisa que lhe ocorria era que fazer o sinal-da-cruz nunca vinha mal nessas horas. Mas como não tinha certeza se era necessário curvar-se ou não, optou por um meio-termo: ao entrar no quarto, começou o sinal-da-cruz e fez um movimento que lembrava vagamente uma inclinação; ao mesmo tempo, tanto quanto o permitiram os movimentos de mão e de cabeça, deu uma checada no ambiente em volta. Dois rapazes, um deles estudante, que deviam ser sobrinhos, vinham saindo do quarto fazendo o sinalda-cruz e ele aproveitou e fez o mesmo. Uma senhora de idade estava parada, enquanto uma outra com as sobrancelhas arqueadas cochichava-lhe alguma coisa. Um membro da igreja lia em voz alta, com sinceridade e determinação e uma expressão que não admitia discordâncias.

Gerassim, o criado, caminhando com seu passo suave em frente a Piotr Ivanovich, espalhava alguma coisa pelo chão. Ao ver isso, Piotr Ivanovich sentiu imediatamente um cheiro de corpo em decomposição. Na sua última visita a Ivan Ilitch, Piotr Ivanovich vira Gerassim no quarto, fazendo as vezes de enfermeiro, e percebia-se que Ivan Ilitch gostava muito dele.

Piotr Ivanovich continuou fazendo o sinal-da-cruz e inclinando a cabeça numa direção intermediária entre o caixão, o orador e as imagens sobre a mesa do canto. Em seguida, quando achava que o sinal da cruz já havia durado tempo suficiente, parava e punha-se a olhar para o defunto.

O morto jazia, como os mortos sempre jazem, pesadamente, seus membros endurecidos afundados dentro do caixão, a cabeça recostada eternamente no travesseiro, sua testa de cera amarelada, com sulcos acima das têmporas afundadas, sobressaía-se, como acontece nos mortos, e o nariz proeminente parecia pressionar fortemente o lábio superior. Estava bastante diferente e ainda mais magro do que da última vez que o vira, mas, como sempre acontece com os mortos, o rosto estava mais bonito e principalmente mais expressivo do que quando vivo. A expressão do rosto parecia dizer que tudo o que podia ter sido feito fora feito e da melhor maneira possível. Havia também reprovação nessa expressão e uma espécie de advertência para os vivos, advertência esta que parecia completamente sem propósito para Piotr Ivanovich, ou, pelo menos, não ser dirigida a ele. Teve uma sensação desagradável e, mais do que depressa, fez outro sinal-da-cruz e, ainda que lhe parecesse depressa demais e incompatível com a ocasião, virou as costas e saiu. Schwartz o esperava de pé no corredor, com as pernas afastadas e as duas mãos mexendo no chapéu às suas costas. A simples visão daquela figura leve e jovial reanimou Piotr Ivanovich. Sentia que Schwartz estava acima desse tipo de acontecimento, que jamais se deixaria dominar por qualquer ambiente depressivo. Seu olhar dizia que o mero incidente de um velório para Ivan Ilitch não poderia, em hipótese alguma, constituir motivo suficiente para interromper o curso natural das coisas – em outras palavras, nada poderia interferir no desembrulhar e cortar de um novo pacote de cartas naquela mesma noite. Na verdade, não havia razão alguma para supor que este simples contratempo os impediria de passar uma noite tão agradável quanto as outras.

– Absolutamente – cochichou Schwartz para Piotr Ivanovich que passava, propondo que se encontrassem para um joguinho na casa de Fiodr Vassilyevich.

Mas pelo jeito não era o destino de Piotr Ivanovich jogar naquela noite. Praskovya Fiodorovna, uma mulher de estatura baixa, gorda, que apesar de todos os esforços em contrário continuara a alargar resolutamente dos ombros para baixo, toda de preto, com um véu cobrindo-lhe a cabeça, as sobrancelhas tão arqueadas quanto as da mulher ao lado do caixão, saiu do seu quarto com outras senhoras e, conduzindo-as até a porta do quarto onde estava o morto, falou: “A cerimônia já vai começar. Entrem, por favor”.

Schwartz, inclinando-se levemente, lembrou de onde estava, sem obviamente aceitar ou declinar do convite. Praskovya, reconhecendo Piotr Ivanovich, suspirou, aproximou-se dele, pegou sua mão e falou: “Eu sei o quanto vocês eram amigos...!” e fixou-o esperando uma resposta adequada ao que acabava de dizer. Piotr Ivanovich sabia que, assim como minutos antes, naquela mesma sala, adequado era se benzer, agora fazia-se necessário apertar a mão da viúva, suspirar e dizer: “Sim, é verdade!”. E foi o que fez, sentindo que alcançava o resultado esperado: ambos estavam comovidos.

– Venha – disse a viúva. – Eles ainda não começaram. Preciso falar com você. Me dê o braço.

Piotr Ivanovich ofereceu-lhe seu braço e saíram em direção a um apartamento interno passando por Schwartz, que piscou solidário. “Tudo acertado para o nosso jogo. Não reclame se arrumarmos outro parceiro. Talvez você possa se juntar a nós quando conseguir escapar!,” dizia seu olhar provocador.

Piotr Ivanovich deu um suspiro ainda mais profundo e desalentado e Praskovya Fiodorovna apertou seu braço em sinal de gratidão. Assim que chegaram ao quarto dela, todo forrado em cretone cor-de-rosa e fracamente iluminado sentaram, ela em um sofá e Piotr Ivanovich em um pufe baixinho, com as molas quebradas, que volta e meia afundava sob seu peso. Praskovya Fiodorovna esteve a ponto de avisá-lo que pegasse outra cadeira, mas sentiu que uma observação como essa destoaria de toda a atmosfera criada pela situação e mudou de ideia. Logo que sentou no pufe, Piotr Ivanovich começou a lembrar de Ivan Ilitch decorando aquele quarto e consultando-o exatamente sobre este cretone cor-de-rosa com folhas verdes. O quarto estava repleto de móveis e objetos e, enquanto se encaminhava para o sofá, a viúva prendeu a ponta do manto na quina da mesa, toda trabalhada. Piotr Ivanovich levantava-se para desprendê-lo quando o pufe, livre de seu peso, inflou novamente e o fez saltar. A viúva tentou ela própria desprender o laço e Piotr Ivanovich sentou outra vez, abafando as molas rebeldes sob seu corpo. Mas Praskovya Fiodorovna ainda não havia conseguido se libertar e, mais uma vez, Piotr Ivanovich levantou, e, mais uma vez, o pufe se rebelou e saltou, com estrondo. Ao final de tudo isso, Praskovya tirou um lenço limpo de cambraia e começou a chorar. Mas o episódio com o laço e toda a batalha com o pufe haviam esgotado Piotr Ivanovich e ele sentou-se, sem forças. Essa estranha situação foi interrompida por Sikolov, o mordomo de Ivan Ilitch, que entrava para dizer que a cova que Praskovya havia escolhido custaria duzentos rublos. Ela parou de chorar e, olhando Piotr Ivanovich com ar de vítima, queixou-se em francês sobre como tudo isso era terrível para ela. Piotr Ivanovich fez um gesto em silêncio, que queria dizer que, sem dúvida alguma, ele acreditava que certamente deveria ser.

Com uma voz ao mesmo tempo magnânima e desconsolada, Praskovya começou a discutir com o mordomo a questão do preço da cova.

Piotr Ivanovich acendeu um cigarro e pôs-se a ouvir interessadamente, perguntando preços de diferentes covas, e finalmente decidiram por qual optar. Assim que terminaram, ela deu instruções ao mordomo para que se juntasse ao corpo e ele saiu.

– Sou eu quem tem de decidir tudo sozinha – disse ela, pondo de lado os álbuns que estavam em cima da mesa e, notando que a cinza do cigarro dele em breve cairia em cima desta, imediatamente alcançou-lhe um cinzeiro dizendo: – Seria hipocrisia minha fingir que o sofrimento me impede de dar atenção aos assuntos práticos. Ao contrário, se fosse possível não digo me consolar, mas me distrair, seria cuidando dos objetos que me fazem lembrar dele! – E pegou seu lenço outra vez, preparando-se para chorar, mas, de repente, como quem luta com seus sentimentos, se recompôs e começou a falar calmamente: – Sabe, tem uma coisa que eu gostaria de conversar com você.

Piotr Ivanovich inclinou-se, tentando não perder o controle das molas do pufe, que começou imediatamente a vibrar.

– Seus últimos dias foram terríveis, ela disse.

– Ele sofreu muito?

– Sim, horrivelmente. No final ele gritava, já não era por minutos, mas horas a fio. Gritou durante três dias e três noites sem parar. Era insuportável. Não sei como eu consegui aguentar, podia se ouvir três quartos adiante. Ah, você não imagina o que eu passei.

– Ele estava lúcido o tempo todo?

– Sim – ela sussurrou. – Até o final. Despediu-se de nós quinze minutos antes de morrer e até pediu que levássemos Volodya dali.

A ideia do sofrimento do homem que ele havia conhecido tão intimamente, primeiro como uma criança irresponsável, depois como o jovem estudante e, mais tarde, já adulto, como parceiro de jogo, encheu Piotr Ivanovich de horror, apesar da desagradável consciência do quanto ele e aquela mulher estavam sendo hipócritas. Visualizou outra vez aquela testa e o nariz pressionando o lábio e essa visão encheu-lhe de um sentimento de pavor em relação a si próprio.

“Três dias e três noites de sofrimentos terríveis e depois a morte. Ora, isso pode acontecer comigo, de uma hora para outra”, pensou aterrorizado. Mas, imediatamente, sem que ele soubesse explicar, veio em seu auxílio a velha ideia de que isso havia acontecido a Ivan Ilitch e não a ele, de que isso não iria e nem poderia acontecer a ele e que o fato de pensar que algo assim pudesse lhe acontecer só significava que estava se deixando levar por pensamentos depressivos, o que era um erro, como bem demonstrava a expressão no rosto de Schwartz. Piotr Ivanovich animou-se outra vez e passou a perguntar interessadamente sobre os detalhes da morte de Ivan Ilitch, como se a morte fosse uma fatalidade à qual somente Ivan Ilitch estivesse sujeito e ele não.

Depois de descrever os terríveis sofrimentos físicos por que passara Ivan Ilitch (cujos detalhes Piotr Ivanovich só soube através do efeito que esses tinham nos nervos de Praskovya), a viúva achou que já estava mais do que na hora de tratar de negócios.

– Ah, Piotr Ivanovich, que sofrimento, isso tudo... Que terrível sofrimento... – e caiu em prantos novamente.

Piotr Ivanovich suspirou e esperou que ela assoasse o nariz. Assim que ela terminou, ele conseguiu dizer: “Acredite-me...”, e, mais uma vez ela começou a falar, chegando no ponto que era, evidentemente, o que lhe interessava: perguntar como poderia conseguir algum dinheiro do governo por ocasião da morte de seu marido. Ela, na verdade, quis dar a impressão de estar pedindo a Piotr Ivanovich conselhos sobre a sua pensão, mas ele logo percebeu que sobre isso ela já sabia tudo que precisava saber, talvez até mais do que ele. Sabia exatamente quanto tinha direito de receber do governo em consequência da morte do marido, mas queria descobrir se não haveria possibilidade de extorquir um pouquinho mais. Piotr Ivanovich até tentou pensar em alguma sugestão, mas, depois de ponderar um instante, optou por, em sinal de delicadeza, criticar o governo por sua atitude mesquinha, mas dizer que lhe parecia não haver nada a fazer. Depois disso, Praskovya suspirou e pôs-se resolutamente a procurar um meio de se libertar de seu visitante. Ao percebê-lo, ele apagou o cigarro, levantou, apertou a mão da viúva e entrou na antessala.

Na sala de jantar onde ficava o relógio que Ivan Ilitch comprara em um antiquário, e do qual gostava tanto, Piotr Ivanovich encontrou o padre e alguns conhecidos que vieram para assistir ao funeral. Havia também uma jovem muito bonita, que era a filha de Ivan Ilitch. Estava toda de preto e sua figura esguia parecia ainda mais esguia agora. Tinha uma expressão quase agressiva. Olhou na direção de Piotr Ivanovich como se ele fosse de algum modo culpado. Atrás da filha, com a mesma expressão de mágoa, estava um jovem rico que Piotr Ivanovich também conhecia e um magistrado com a noiva, de quem ele ouvira falar. Piotr Ivanovich inclinou-se com ar triste na direção deles e ia seguir adiante quando surgiu o filho adolescente de Ivan Ilitch, cuja semelhança com o pai era impressionante. Ali estava Ivan Ilitch outra vez, tal como Piotr Ivanovich lembrava dele dos tempos de estudantes. Tinha os olhos vermelhos de tanto chorar e aquele olhar pervertido dos garotos de treze ou quatorze anos. Ao ver Piotr Ivanovich, endereçou-lhe um olhar ao mesmo tempo desanimado e de pouco caso. Piotr Ivanovich balançou a cabeça e entrou no quarto do morto. O serviço estava começando: velas, suspiros, incenso, lágrimas e soluços. Piotr Ivanovich ficou ali, olhando para os próprios pés. Não olhou uma única vez para o corpo, recusando-se, até o fim, a deixar-se dominar pela depressão, e foi um dos primeiros a partir. Não havia ninguém na antessala, mas Gerassim, o criado da casa, veio rapidamente de dentro do quarto, pegou um por um todos os casacos até encontrar o de Piotr Ivanovich e ajudou-o a vesti-lo.

– Bem, meu amigo Gerassim – disse Piotr Ivanovich, só para dizer alguma coisa. – Que coisa triste, não é?

– É a vontade de Deus. Nós todos vamos passar por isso um dia – respondeu Gerassim, mostrando seus dentes brancos e parelhos de camponês. E como se tivesse que terminar um trabalho urgente, em seguida abriu a porta da frente, chamou o cocheiro, levou Piotr Ivanovich até a carruagem e voltou rapidamente para a varanda, como quem já está pensando na próxima tarefa a ser cumprida.

Piotr Ivanovich achou aquele ar fresco particularmente agradável depois de todo o cheiro de incenso, de cadáver e de desinfetante.

– Para onde, senhor? – perguntou o cocheiro.

– Não é tão tarde, ainda dá tempo de dar uma passada na casa de Fiodr Vassilyevich.

E Piotr Ivanovich foi para lá e, de fato, encontrou-os recém terminando a primeira rodada, de modo que chegou em tempo de entrar no jogo.



(A morte de Ivan Ilitch ; tradução de Vera Karam)



(Ilustração: Anna Ancher - A funeral – 1891)

domingo, 21 de janeiro de 2024

TEMPO, de Mabel Velloso

 





Tempo vamos fazer uma troca?

eu lhe dou as minhas rugas

você me devolve o rosto

jovem e limpo como ontem.

Eu lhe dou cabelos brancos

você me devolve os cachos

negros, longos, bem sedosos

assim como antigamente.

Eu lhe dou a minha agenda

cheia de notícias e horários

e você me dá de volta

meu álbum de figurinhas

toma de mim a caneta,

cadernos para corrigir

me dá de volta os meus lápis

e quadros pra eu colorir.

Eu lhe dou toda essa roupa

que devo agora lavar

você me dá outra vez

bonecas para eu brincar.

Eu lhe dou a pia cheia

de pratos engordurados

e você me dá em troca

caxixis para eu brincar.

Eu lhe dou esses transportes

que sou obrigada a usar

e você me dá de volta

bicicleta para eu montar.

Eu lhe dou esses meus óculos

que da cara já não tiro

e você me dá de volta

os meus olhos com o seu brilho

Eu lhe dou as minhas pernas

que já andam lentamente

e você devolve em troca

as grossas de antigamente.

Eu lhe entrego os meus braços

cansados de trabalhar

você me dá os meus braços

relaxados de folgar.



(Poesia Mabel)



(Ilustração: Alyssa Monks)

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Os Tambores de São Luís, de Josué Montello

 


Até ali os tambores da Casa-Grande das Minas tinham seguido seus passos, e ele via ainda os três tamboreiros, no canto esquerdo da varanda, rufando forte os seus instrumentos rituais, com o acompanhamento dos ogãs e das cabaças, enquanto a nochê Andreza Maria deixava cair o xale para os antebraços, recebendo Toi-Zamadone, o dono do lugar.

Por vezes, no seu passo firme pela calçada deserta, deixava de ouvir o tantantã dos tambores, calados de repente no silêncio da noite, com o vento que amainava ou mudava de direção. Daí a pouco Damião tornava a ouvi-los, trazidos por uma rajada mais fresca, e outra vez a imagem da nochê, cercada pelas noviches vestidas de branco, lhe refluía à consciência, magra, direita, porte de rainha, a cabeça começando a branquear.

Fora ela que viera buscá-lo, à entrada do querebetã. A intenção dele era apenas ouvir um pouco os tambores e olhar as danças, sentado no comprido banco da varanda, de rosto voltado para o terreiro pontilhado de velas. Já o banco estava repleto. Muitas pessoas tinham sentado no chão de terra batida, com as mãos entrelaçadas em redor dos joelhos; outras permaneciam de pé, recostadas contra a parede. Mas a nochê, que o trouxera pela mão, fez cair do banco um dos assistentes, e ele ali se acomodou, em posição realmente privilegiada, podendo ver de perto os tambores tocando e as noviches dançando, por entre o tinir de ferro dos ogãs e o chocalhar das cabaças.

Vez por outra sentia necessidade de ir ali, levado por invencível ansiedade nostálgica, que ele próprio, com toda a agudeza de sua inteligência superior, não saberia definir ou explicar. O certo é que, ouvindo bater os tambores rituais, como que se reintegrava no mundo mágico de sua progênie africana, enquanto se lhe alastrava pela consciência uma sensação nova de paz, que mergulhava na mais profunda essência de seu ser. Dali saía misteriosamente apaziguado, e era mais leve o seu corpo e mais suave o seu dia, qual se voltasse a lhe ser propício o vodum que acompanha na Terra os passos de cada negro.

Embora só houvesse no céu uma fatia de lua nova, por cima da igreja de São Pantaleão, uma tênue claridade violácea descia sobre a cidade adormecida, com a multidão de estrelas que faiscavam na noite de estio. Em cada esquina, a sentinela de um lampião, com seu bico de gás chiante. Todas as casas fechadas. Perto, para os lados da Rua da Inveja, o apressado rolar de um carro, com o ruído do cavalo a galope nas pedras do calçamento. E sempre o baticum dos tambores, ora fugindo, ora voltando, sem perder a cadência frenética, muito mais ligeira que o retinir das ferraduras.

No canto da Rua do Passeio com a Rua do Mocambo, antes de passar para a calçada fronteira, Damião parou um momento, batido em cheio pela claridade do gás.

Resguardado do sereno pelo chapéu de feltro inglês, presente do Governador Luís Domingues no último Natal, parecia mais comprido, a espinha dorsal direita, o corpo seco e rijo, os ombros altos. Aos oitenta anos, dava a impressão de ter sessenta, ou talvez menos, com muita luz nos olhos, o passo seguro, a cabeça levantada. Até o começo do século, não dispensava a bengala de castão de prata com que entrou pela primeira vez no sobrado do Foro, sobraçando a sua pasta de solicitador, para defender outro negro. Agora, trajava com simplicidade, muito limpo, a barba escanhoada, o paletó abotoado acima do peito, um alfinete de ouro junto ao laço da gravata.

- Faça favor...

Damião assustou-se com a voz rouca que lhe vinha por trás do ombro direito, do lado da Rua do Mocambo. Não tinha sentido rumor de passos. E deu de frente com o Sátiro Cardoso, pequenino, enxuto, metido na sua sovada casaca de mágico, o colarinho alto, o rosto encovado, bigode, nos negros olhos uma faísca de loucura, e que logo lhe disse, com um pedaço de papel impresso na ponta dos dedos:

- É o convite para o meu próximo espetáculo:

- Outra vez A queda da Bandeira?

- É. O pessoal pede sempre. E o público é quem manda.

Damião quis ainda saber por que o velho mágico preferia aquela hora da noite, com as casas fechadas, para distribuir os seus convites.

- De dia - redarguiu ele, dando-lhe outro convite - os moleques vêm atrás de mim, me chamando de Troíra. Chegam a atiçar cachorros para me morder. De noite é mais calmo: os moleques estão dormindo.

E lá se foi, Rua do Mocambo abaixo, a enfiar o papelucho por baixo das portas, sem ruído, apenas roçando o chão da calçada com seu passo macio.

Já fazia alguns anos que Damião vira aparecer na cidade aquela figura caricata, debaixo de uma cartola preta, casaca, sapatos cambados, a andar acima e abaixo, com uma pasta de couro, também preta, e apresentando-se no Largo do Carmo, no Palácio do Governo, na redação dos jornais, no Liceu, no Paço Episcopal, e também à porta das igrejas, nas missas dominicais e nos casamentos, como - o Ilusor Maranhense. Dias depois, apenas por curiosidade, tinha ido assistir, no Teatro São Luís, ao seu primeiro espetáculo, que daí em diante se repetia todos os anos: a caprichada mágica intitulada A queda da Bandeira. Sátiro subia uma escada, até o último degrau, bem no centro do palco, e dali, com uma bandeira desfraldada, recitava comprido bestialógico, cheio de palavras abstrusas, numa suposta língua de sua invenção, o gramazino, da qual proporcionava antes um pano de amostra com esta explicação: "O A do alfabeto gramazino é a mesma coisa que o A do alfabeto em português, com a diferença de que se escreve de cabeça para baixo e tem o som de bé." Em seguida, enrolava-se na bandeira. Um tiro de pólvora seca estrondava, assustando a plateia. E eis que o mágico se atirava lá do alto, em arremesso, como se fosse voar, e caía pesadamente cá embaixo, nas tábuas do chão.

- Bis, bis - gritava-lhe da torrinha.

E Sátiro repetiu o monólogo, uma, duas, várias vezes, com o mesmo tiro e a mesma queda, até que Damião, compadecido de sua insânia, começou a reclamar - Chega! Chega! - e o mágico afinal se retirou, manquejando, uma das mãos no quadril machucado, enquanto o pano do teatro vinha descendo, debaixo de gritos e assobios.

Antes que ele desaparecesse, sempre a enfiar o impresso por baixo das portas, Damião mudou de calçada, ainda ouvindo o baticum dos tambores. Para trás, em linha reta, ficava o Cemitério do Gavião, com o Padre Policarpo, a Genoveva Pia, a Aparecida, o Dr. Celso de Magalhães, a Dona Bembém, a Dona Páscoa, a Dona Calu, o amigo Barão, cada qual no seu jazigo ou na sua cova rasa, na santa paz do Senhor. A frente, era o Largo do Quartel; em seguida, torcendo para a direita, a Rua das Hortas, o Largo da Cadeia, a Praia do Jenipapeiro e por fim a Gamboa, com a casa de sua bisneta, num cômoro verde que escorregava para o mar.



(Os Tambores de São Luís, 1975)



(Ilustração: Enzo Ferrara - Bumba meu boi de Sao Luís do Maranhão)

domingo, 14 de janeiro de 2024

INVOCATION / INVOCAÇÃO, de Kathleen Raine

 

 


 

There is a poem on the way,

There is a poem all round me,

The poem is in the near future,

The poem is in the upper air

Above the foggy atmosphere

It hovers, a spirit

That I would make incarnate.

Let my body sweat

Let snakes torment my breast

My eyes be blind, ears deaf, hands distraught

Mouth parched, uterus cut out,

Belly slashed, back lashed,

Tongue slivered into thongs of leather

Rain stones inserted in my breasts,

Head severed,



If only the lips may speak,

If only the god will come.



Tradução de Fabio Malavoglia:



Há um poema a caminho,

há todo um poema a meu redor,

o poema está perto no futuro,

o poema está no alto ar

acima das neblinas da atmosfera

ele paira, espírito

que por mim se encarnará.

Deixem meu corpo suar,

que serpentes torturem meu peito

que meus olhos fiquem cegos, os ouvidos surdos, as mãos desamparadas

a boca ressecada, o útero extirpado,

o ventre dilacerado, as costas açoitadas,

a língua fatiada em tiras de couro

pedras de feitiço enfiadas nos meus seios,

a cabeça partida,



contanto que os lábios falem,

contanto que o deus venha.



(Ilustração: Elisa Riemer)

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

CONSTANTINOPLA (1439-1452): ANNA, de Anthony Doerr

           



Na quarta colina da cidade que chamamos de Constantinopla, mas cujos habitantes na época chamavam simplesmente de Cidade, em frente ao convento de Santa Teofania, a Imperatriz, no outrora grande ateliê de bordado de Nicholas Kalaphates, mora uma órfã chamada Anna. Ela só começa a falar aos três anos. Daí em diante, são só perguntas o tempo todo.

— Por que respiramos, Maria? Por que os cavalos não têm dedos, Maria? Se eu comer um ovo de corvo, meu cabelo vai ficar preto? A Lua cabe dentro do Sol, Maria, ou é o contrário?

As freiras de Santa Teofania a chamam de Macaca, porque ela está sempre subindo nas árvores frutíferas, os meninos da Quarta Colina a chamam de Mosquito, porque ela não os deixa em paz, e a bordadeira-chefe, a Viúva Teodora, diz que ela deve ser chamada de Caso Perdido, porque é a única criança que conheceu em toda a sua vida capaz de aprender um ponto em um dado momento e logo em seguida esquecê-lo completamente.

Anna e sua irmã mais velha, Maria, dormem em uma cela com apenas uma janela, ao lado da copa, em que mal cabe um colchão de crina. As duas juntas têm quatro moedas de cobre, três botões de marfim, um cobertor de lã e um ícone de santa Corália que pode ou não ter pertencido à mãe delas. Anna nunca provou creme de leite doce, nunca comeu uma laranja e nunca pôs os pés fora das muralhas da cidade. Quando completar catorze anos, todas as pessoas que conhece estarão escravizadas ou mortas.

Alvorada. Chuva cai sobre a cidade. Vinte bordadeiras sobem a escada até a oficina e encontram seus bancos, a Viúva Teodora vai de janela em janela abrindo as venezianas. Ela diz:

— Abençoado, proteja-nos da ociosidade.

E as bordadeiras completam:

— Pois cometemos inúmeros pecados.

A Viúva Teodora destranca o armário das linhas e pesa os fios de ouro e prata e as caixinhas de pérolas miúdas, registra os pesos em uma tabuleta de cera e, assim que o cômodo está suficientemente claro para distinguir uma linha preta de uma branca, elas começam.

A mais velha, com setenta anos, é Tecla. A mais jovem, com sete anos, é Anna. Ela está empoleirada ao lado da irmã e observa Maria desenrolar sobre a mesa uma estola de padre bordada pela metade. Ao longo das bordas do paramento, em círculos precisos, vinhas se contorcem em volta de cotovias, pavões e pombas.

— Agora que fizemos o contorno de João Batista — diz

Maria —, vamos acrescentar suas feições. — Ela enfia na agulha linhas de algodão de cores iguais, fixa um bastidor no centro da estola e executa uma série de pontos partidos. — Viramos a agulha e passamos sua ponta pelo centro do último ponto, dividindo as fibras assim, está vendo?

Anna não vê. Quem quer uma vida daquelas, curvada o dia todo em cima de agulhas e linhas, costurando santos e estrelas e grifos e vinhas nas vestimentas dos hierarcas? Eudóxia canta um hino sobre as três crianças sagradas, Ágata canta outro sobre as provações de Jó e a Viúva Teodora esquadrinha a sala de trabalho como uma garça atrás de peixinhos. Anna tenta seguir a agulha de Maria — pesponto, ponto pena —, mas, bem na frente da mesa delas, um pequeno cartaxo marrom pousa no parapeito, se sacode para secar as costas, canta uí-chaque-chaque e, em um piscar de olhos, Anna começa a se imaginar dentro daquele pássaro. Ela sai do parapeito batendo as asas, se esquiva dos pingos de chuva e alça voo rumo ao sul, sobrevoando o bairro e as ruínas da basílica de São Polieucto. Gaivotas revoam em volta da cúpula de Santa Sofia como preces rodeando a cabeça de Deus, o amplo estreito de Bósforo está repleto de ondas com cristas espumosas, o galeão de um mercador está dando a volta no promontório, as velas estufadas, e Anna voa ainda mais alto, até a cidade ser apenas uma treliça de telhados e jardins, até ela estar nas nuvens, até...

— Anna — sussurra Maria. — Qual fio de seda aqui?

Do outro lado da sala de trabalho, a atenção da Viúva Teodora se volta para elas.

— Carmesim? Enrolado em fio metálico?

— Não — suspira Maria. — Carmesim, não. E nada de fio metálico.

O dia inteiro ela vai buscar linha, vai buscar cambraia, vai buscar água, vai buscar o almoço de feijão e azeite das bordadeiras. À tarde, elas ouvem o tropel de um burro e a saudação do porteiro e os passos de Kalaphates na escada. Todas as mulheres se sentam um pouco mais eretas, costuram um pouco mais rápido. Anna rasteja sob as mesas recolhendo todos os retalhos de linha que consegue achar, sussurrando para si mesma:

— Sou pequena, sou invisível, ele não consegue me ver.

Com braços exageradamente compridos, um nariz que parece um bico e sua corcunda belicosa, Kalaphates, como qualquer outro homem que ela já viu, se parece com um abutre. Ele emite pequenos cliques de desaprovação enquanto passa mancando entre os bancos, escolhendo uma bordadeira atrás da qual finalmente parar, Eugênia hoje, e reclama da lentidão do trabalho dela, de como, no tempo do pai dele, nunca teriam permitido que uma incompetente como ela chegasse perto de um fardo de seda, e será que aquelas mulheres não entendem que cada dia mais províncias são perdidas para os sarracenos, que a cidade é a última ilha de Cristo em um mar de infiéis, que se não fosse pelas muralhas de proteção todas elas estariam à venda em um mercado de escravos em algum fim de mundo esquecido por Deus?

Kalaphates está ficando cada vez mais furioso, quando o porteiro toca o sino para indicar a chegada de um cliente. Ele enxuga a testa e põe sua cruz dourada sobre a abertura da camisa e desce as escadas oscilando, e todas suspiram aliviadas. Eugênia solta as tesouras; Ágata massageia as têmporas; Anna sai de baixo de um banco. Maria continua a costurar.

Moscas fazem acrobacias entre as mesas. Lá de baixo, sobem risadas masculinas.

Uma hora antes de escurecer, a Viúva Teodora a chama.

— Se Deus quiser, criança, ainda não está tarde demais para botões de alcaparras. Vão aliviar a dor nos pulsos de Ágata e melhorar a tosse de Tecla também. Procure os que estão prestes a florescer. Volte antes dos sinos das Vésperas, cubra a cabeça e tome cuidado com vagabundos e miseráveis.

Anna mal consegue manter os pés no chão.

— E não corra. Suas entranhas vão cair.

Ela se força a descer os degraus devagar, atravessar o pátio devagar, passar pelo vigia devagar — e depois voa. Passa pelos portões de Santa Teofania, passa pelos pedaços enormes de granito de uma coluna caída, passa por entre duas fileiras de monges que se arrastam pela rua com seus hábitos negros, como corvos que não podem voar. Poças brilham nos becos; três cabras pastam nas ruínas de uma capela destruída e levantam a cabeça para olhá-la exatamente naquele momento.

Provavelmente vinte mil alcaparreiras crescem mais perto do ateliê de Kalaphates, mas Anna percorre o quilômetro que a separa das muralhas da cidade. Ali, em um pomar sufocado por urtigas, na base da grande muralha interna, fica um postigo, mais antigo do que a memória de todos. Ela escala uma pilha de tijolos caídos, esgueira-se pelo vão e sobe uma escada sinuosa. Seis voltas até o topo, entre cortinas de teias de aranha, e ela entra na pequena torre de um arqueiro iluminada por duas seteiras em lados opostos. Há destroços por toda parte; areia filtra pelas rachaduras no chão sob seus pés em fluxos audíveis; uma andorinha assustada sai voando.

Sem fôlego, ela espera que os olhos se acostumem. Séculos atrás, alguém — talvez um arqueiro solitário, entediado pela sentinela — pintou um afresco na parede que dá para o sul. Tempo e intempéries descascaram boa parte do reboco, mas a imagem permanece clara.

Na extremidade esquerda, um burro com olhos grandes e tristes está à beira-mar. A água é azul e está entrecortada por ondas geométricas; e na extremidade direita, flutuando sobre uma jangada de nuvens, mais alto do que Anna consegue alcançar, resplandece uma cidade com torres de bronze e prata.

Ela já olhou para aquela pintura meia dúzia de vezes e sempre algo se agita dentro dela, uma sensação inefável da atração dos lugares distantes, da imensidão do mundo e da sua pequenez dentro dele. O estilo é totalmente diferente do trabalho executado pelas bordadeiras no ateliê de Kalaphates, a perspectiva é mais estranha, as cores, mais elementares. Quem é o burro e por que ele parece tão infeliz? E o que é aquela cidade — Sião, paraíso, a cidade de Deus? A menina fica na ponta dos pés com muito esforço; entre rachaduras no reboco, ela consegue distinguir pilares, arcadas, janelas, pequenas pombas voando ao redor das torres.

Embaixo, nos pomares, rouxinóis estão começando a cantar. A luz desvanece, o chão range, a velha torre parece se aproximar cada vez mais do esquecimento e Anna se esgueira pela janela que dá para oeste e chega ao parapeito, onde uma fila de alcaparreiras estende as folhas para o pôr do sol.

Ela colhe os botões, jogando-os no bolso à medida que vai avançando. Mesmo naquele momento, o mundo exterior atrai sua atenção. Para além da muralha externa, para além do fosso entulhado de algas, ele a espera: olivais, trilhas de cabras, a figura minúscula de um homem conduzindo dois camelos ao longo da estrada. As pedras exalam o calor do dia; o sol desaparece no horizonte. Quando os sinos das Vésperas começam a tocar, só um quarto do seu bolso está cheio. Ela vai se atrasar; Maria vai ficar preocupada; a Viúva Teodora vai ficar zangada.

Anna entra novamente na torre e para mais uma vez embaixo da pintura. Mais um respiro. No crepúsculo, as ondas parecem se mover, a cidade parece cintilar; o burro anda para a frente e para trás na praia, desesperado para cruzar o mar.



(Cidade nas nuvens; tradução de Marcello Lino)



(Ilustração: James Webb – Constantinople)

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

MUERTE DE SOLEDAD BARRETT / MORTE DE SOLEDAD BARRETT, de Mario Benedetti (*)

 


  Viviste aquí por meses o por años

trazaste aquí una recta de melancolía

que atravesó las vidas y las calles



Hace diez años tu adolescencia fue noticia

te tajearon los muslos porque no quisiste

gritar viva Hitler ni abajo Fidel



Eran otros tiempos y otros escuadrones

pero aquellos tatuajes llenaron ele asombro

a cierto uruguay que vivía en la luna



y claro entonces no podías saber

que de algún modo eras

la prehistoria de ibero



Ahora acribillaron en Recife

tus veintisiete años

de amor templado y pena clandestina



Quizá nunca se sepa cómo ni por qué



Los cables dicen que te resististe

y no habrá más remedio que creerlo

porque lo cierto es que te resistías

con sólo colocárteles en frente

sólo mirarlos

sólo sonreír

sólo cantar cielitos cara al cielo



Con tu imagen segura

con tu pinta muchacha

pudiste ser modelo

actriz

miss Paraguay

carátula

almanaque

quién sabe cuántas cosas!



Pero el abuelo Rafael el viejo anarco

te tironeaba fuertemente la sangre

y vos sentías callada esos tirones



Soledad no viviste en soledad

por eso tu vida no se borra

simplemente se colma de señales



Soledad no moriste en soledad

por eso tu muerte no se llora

simplemente la izamos en el aire



desde ahora la nostalgia será

un viento fiel que hará flamear tu muerte

para que así aparezcan ejemplares y nítido

las franjas de tu vida



Ignoro si estarías

de minifalda o quizá de vaqueros

cuando la ráfaga de pernambuco

acabó con tus sueños completos



por lo menos no habrá sido fácil

cerrar tus grandes ojos claros

tus ojos donde la mejor violencia

se permitía razonables treguas

para volverse increíble bondad



y aunque por fin los hayan clausurado

es probable que aún sigas mirando

soledad compatriota de tres o cuatro pueblos

el limpio futuro por el que vivías

y por el que nunca te negaste a morir.



Tradução de Urariano Mota:



Viveste aqui por meses ou por anos

traçaste aqui uma reta de melancolia

que atravessou as vidas e a cidade



Faz dez anos tua adolescência foi notícia

te marcaram as coxas porque não quiseste

gritar viva Hitler nem abaixo Fidel



eram outros tempos e outros esquadrões

porém aquelas tatuagens encheram de assombro

a certo Uruguai que vivia na lua



e claro então não podias saber

que de algum modo eras

a pré-história do íbero



agora metralharam no recife

teus vinte e sete anos

de amor de têmpera e pena clandestina



talvez nunca se saiba como nem por quê



os telegramas dizem que resististe

e não haverá mais jeito que acreditar

porque o certo é que resistias

somente em te colocares à frente

só em mirá-los

só em sorrir



só em cantar cielitos com o rosto para o céu

com tua imagem segura

com teu ar de menina

podias ser modelo

atriz

miss Paraguai

capa de revista

calendário

quem sabe quantas coisas



porém o avô Rafael o velho anarco

te puxava fortemente o sangue

e tu sentias calada esses puxões



Soledad solidão não viveste sozinha

por isso tua vida não se apaga

simplesmente se enche de sinais



Soledad solidão não morreste sozinha

por isso tua morte não se chora

simplesmente a levantamos no ar



desde agora a nostalgia será

um vento fiel que flamejará tua morte

para que assim apareçam exemplares e nítido

as franjas de tua vida



ignoro se estarias

de minissaia ou talvez de jeans

quando a rajada de Pernambuco

acabou completo os teus sonhos



pelo menos não terá sido fácil

cerrar teus grandes olhos claros

teus olhos onde a melhor violência

se permitia razoáveis tréguas

para tornar-se incrível bondade



e ainda que por fim os tenham encerrado

é provável que ainda sigas olhando

Soledad compatriota de três ou quatro povos

o limpo futuro pelo qual vivias

e pelo qual nunca te negaste a morrer.



(*) Dia 8 de janeiro de 1973, a poetisa e intelectual paraguaia Soledad Barrett Viedma foi cruelmente torturada e assassinada pela ditadura militar, em Pernambuco. Ela estava grávida de Daniel, codinome do Cabo Anselmo, que a traiu e a entregou à sanha de seus algozes. Soledad foi encontrada nua, dentro de um barril numa poça de sangue, tendo aos pés o feto de quatro meses, expelido provavelmente durante as sessões de torturas. Este foi um dos mais hediondos crimes cometidos nos anos de regime militar no Brasil.

 

(Ilustração: foto da internet: Soledad Barrett Viedma - autoria não identificada)