domingo, 28 de abril de 2019

WORLD’S END / FIM DO MUNDO, de Laura Riding







The tympanum is worn thin.

The iris is become transparent.

The sense has overlasted.

Sense itself is transparent.

Speed has caught up with speed.

Earth rounds out earth.

The mind puts the mind by.

Clear spectacle: where is the eye?



All is lost, no danger

Forces the heroic hand.

No bodies in bodies stand

Oppositely. The complete world

Is likeness in every corner.

The names of contrast fall

Into the widening centre.

A dry sea extends the universal.



No suit and no denial

Disturb the general proof.

Logic has logic, they remain

Locked in each other’s arms,

Or were otherwise insane,

With all lost and nothing to prove

That even nothing can live through love.



Tradução de Rodrigo Garcia Lopes: 




O tímpano está no fim.

A íris ficou transparente.

O sentido se desgasta.

Até o sentido está transparente.

A pressa alcança a pressa.

A terra arredonda a terra.

A mente encosta a mente.

Claro espetáculo: cadê o olho?



Tudo perdido, nenhum perigo

Força a mão heroica.

Corpos não se opõem mais

Um contra o outro. O mundo acabado

É semelhança em toda parte.

Caem os nomes do contraste

No centro que se expande.

O mar seco estende o universal.



Nem súplica nem negativa

Perturbam a evidência geral.

A lógica tem lógica, e eles ficam

Trancados nos braços um do outro,

Senão seriam loucos,

Com tudo perdido e nada que prove

Que até o nada sobrevive ao amor. 





(Ilustração: Edvard Munch - the death and the young girl)

quinta-feira, 25 de abril de 2019

ESTÃO APENAS ENSAIANDO, de Bernardo Carvalho





Estão apenas ensaiando. Ao mesmo tempo em que os dois atores avançam pelo palco, saindo das coxias à esquerda para o centro da cena, um homem entra na sala escura, e com ele uma nesga da luz das cinco pela fresta da porta que entreabriu ao fundo e que separa a plateia do hall e da rua, onde o dia segue o seu curso com um burburinho de buzinas, motores e sirenes. O diretor, na quinta fila, procura com a mão, tateando, a coxa de sua assistente, para lhe dizer alguma coisa ao ouvido, e o iluminador interrompe a piada que ia sussurrando ao técnico a seu lado, no mezanino, já que retomam a cena. Quando os dois atores colocam os pés de novo no palco, avançando das coxias à esquerda para o centro, e interrompendo também o que sussurravam um ao outro nos bastidores, para passar em alto e bom som ao diálogo que decoraram, o homem que acabou de entrar ao fundo é ainda menos que um vulto sem rosto, porque já não tem nem mesmo a nesga de luz das cinco para destacá-lo da penumbra, agora que a porta que separa a sala escura do hall e da rua se fechou. O diretor com a mão na coxa da assistente, depois de lhe sussurrar qualquer coisa ao ouvido, que a faz rir baixinho, controlada, espera ansioso, e pela enésima vez, que a fala seja dita pelo ator com a entonação desejada, e o iluminador, no mezanino, aguarda por seu turno uma nova interrupção - no fundo, mesmo que inconscientemente, torce por mais um fracasso da interpretação, para poder terminar de uma vez por todas a piada que contava ao técnico. Um ator diz ao outro, no centro do palco: "Você é o malfeitor; e por isso preciso saber quem é você, onde está, de onde vem, do que é capaz para ter tamanho poder e me provocar sem prevenir, devastando o meu pasto verdejante, e minando, para derrubá-lo, o meu muro de arrimo." E é quando o outro, que embora sem a foice ou o manto (estão apenas ensaiando) responde pela morte, vai abrindo a boca, que o diretor mais uma vez, tirando a mão da coxa da assistente, interrompe a cena com um gesto, para perguntar num tom propositalmente inaudível, de tão irritado que está, quantas vezes mais vai ter de explicar. Ele repete, como se falasse para dentro, que se trata de um texto do século XV, que o humilde lavrador invoca a morte (aqui representada por um homem) com as palavras que lhe restam como último recurso, quer que ela se compadeça dele e lhe devolva a mulher adorada, vítima das atrocidades da guerra. O diretor repete irritado que falta vigor à interpretação do ator, e desespero, não parece que o humilde lavrador esteja realmente sofrendo ou indignado pela injustiça da morte da mulher na flor da idade. Diz isso aos dois atores e depois, enquanto eles voltam para as coxias, sussurra a mesma coisa ao ouvido da assistente, arrematando com uma gracinha que a faz sacudir num risinho sincopado. De volta às coxias, o ator que interpreta o humilde lavrador aproveita para retomar com o outro que interpreta a morte o sussurro que havia interrompido. Desanca o diretor, diz que não dá para mostrar desespero com um texto daqueles, inverossímil, ninguém vai falar com a morte daquele jeito depois de perder a mulher de uma maneira violenta. Resmunga baixinho qualquer coisa sobre o tipo de representação que aquela cena exige, na sua opinião, e que tem a ver com um certo distanciamento. De repente, no meio da frase sussurrada, olhando o relógio (não precisa tirá-lo, estão apenas ensaiando), exclama a hora num murmúrio, fala qualquer coisa sobre o atraso da própria mulher, que ela já devia ter chegado, e ao mesmo tempo em que diz isso, o iluminador no mezanino tenta inutilmente sussurrar o final da sua piada, porque mal esboça o desenlace cômico e os dois atores já estão de volta ao palco, seguindo os sinais mudos da assistente do diretor, e o homem ao fundo da sala, após uns instantes parado indistinto dentro da sombra, já avança alguns passos pelo corredor lateral da plateia. O ator que interpreta o humilde lavrador vira-se para o outro, que interpreta a morte, embora sem foice ou manto (estão apenas ensaiando), e vai abrir a boca quando percebe que, em vez de olhá-lo, o diretor, sempre com a mão na coxa da assistente, cochicha algo ao seu ouvido que a faz levar a mão aos lábios para impedir que o riso transborde. Percebe o diretor, que está no centro da sala, na quinta fila, mas não o vulto que avança pelo lado, na penumbra. Irritado, o ator repete a cena idêntica à que tinha feito antes, declamando sua fala com o mesmo distanciamento que lhe parece tão apropriado, ao que o diretor enfurecido se levanta e, balançando os braços e sacudindo a cabeça, mudo, dá a entender que está péssimo. Com a nova interrupção, o iluminador trata de retomar do início a piada que contava ao técnico, porque, a cada vez que a retoma, volta sempre ao começo com medo de que a quebra interfira no efeito cômico. Seu sussurro agora é mais corrido, tentando fazer caber a piada inteira no espaço de tempo entre a interrupção do diretor e o retorno dos atores ao palco. Nas coxias, enquanto olha o relógio (estão apenas ensaiando), o ator que faz o humilde lavrador repete baixinho ao outro, que faz a morte, que a mulher a esta altura já devia ter chegado, como tinham combinado, porque ele próprio lhe dissera que tudo terminaria às cinco, não podia imaginar que o diretor se revelasse um tamanho idiota justamente com esse texto inverossímil, e que o ensaio se arrastasse tanto. A assistente dá o sinal mudo para que recomecem e o iluminador interrompe inconformado, mais uma vez, já quase no fim, a piada que sussurrava ao técnico no mezanino, e que corre o risco de perder a graça pela repetição. O homem que vinha avançando lentamente pelo corredor lateral agora para à altura da quinta fila ao ver os dois atores de novo no palco. O humilde lavrador vira-se para a morte e diz: "Você é o malfeitor." O diretor pede que parem. O tom compreensivo de sua voz é apenas um disfarce que o ator está cansado de conhecer e em geral precede uma crise de nervos. O diretor está tentando se controlar, sussurra: "Será que você não compreende? Ele perdeu a mulher, na flor da idade, está desesperado, indignado contra a injustiça da morte e dos homens e por isso a invoca, ainda acredita que pode convencê-la a lhe devolver a mulher adorada. Ninguém diz isso com distanciamento. Os dois saem do palco. Olhando o relógio, o humilde lavrador sussurra de novo à morte sem foice ou manto algo sobre o atraso da mulher, que a esta altura já devia estar sentada na plateia. Não entende por que ela ainda não chegou, como se já não bastasse o atraso do ensaio, graças à imbecilidade do diretor. E enquanto o humilde lavrador sussurra a sua indignação, o homem que antes era apenas um vulto já avança pela quinta fila, agora de lado, na direção do diretor e de sua assistente, que só o veem quando já está a apenas algumas poltronas deles. Senta-se para se fazer menos notado quando a assistente já está com o braço levantado, indicando aos atores que podem recomeçar, e enquanto ele lhes revela num murmúrio o que veio anunciar sobre o mundo do lado de fora, e que os petrifica, o iluminador no mezanino se aproxima num sussurro da conclusão da piada. O humilde lavrador de relógio e a morte sem foice ou manto (estão apenas ensaiando) entram no palco. O lavrador vira-se para a morte e reinicia a sua ladainha com a mesma entonação e o distanciamento que lhe parecem mais apropriados. Mas desta vez, para sua surpresa, o diretor não o interrompe, porque tem os olhos arregalados e está lívido enquanto o homem, antes apenas um vulto, lhe sussurra algo ao ouvido. E ao ver o homem que sussurra ao ouvido do diretor, e o olhar deste e de sua assistente, que pela primeira vez não o interrompem, mas permanecem a encará-lo com os olhos aterrados e arregalados (a assistente com os olhos cheios de lágrimas diante da súplica que o lavrador faz à morte) enquanto escutam o que o outro lhes diz ao ouvido, curvado na poltrona ao lado, embora a entonação no palco tenha sido a mesma e devesse portanto, pela lógica, ser mais uma vez interrompida, o próprio ator interrompe a ação e por fim compreende aterrorizado e a um só tempo a sinistra coincidência da cena e do momento, o que aquele vulto veio anunciar sobre o mundo do lado de fora, com buzinas, motores e sirenes; compreende por que a mulher não apareceu e afinal o que sente o humilde lavrador; compreende por que o diretor não o interrompeu desta vez, porque por fim esteve perfeito na pele do lavrador em sua súplica diante da morte; compreende que por um instante encarnou de fato o lavrador, que involuntária e inconscientemente, por uma trapaça do destino, tornou-se o próprio lavrador pelo que aquele vulto veio anunciar; compreende tudo num segundo, antes mesmo de saber dos detalhes do acidente que a matou atravessando a rua a duas quadras do teatro, diante dos olhos arregalados do diretor e da assistente, sob as gargalhadas incontidas do iluminador e do técnico no mezanino, chegando ao fim da piada. 



(Ilustração: Carlos Barahona Possollo)

segunda-feira, 22 de abril de 2019

NACHTCAFE / CAFÉ NOTURNO, de Gottfried Benn






824: Der Frauen Liebe und Leben.

Das Cello trinkt rasch mal. Die Flöte

rülpst tief drei Takte lang: das schöne Abendbrot.

Die Trommel liest den Kriminalroman zu Ende.



Grüne Zähne, Pickel im Gesicht

winkt einer Lidrandentzündung.



Fett im Haar

spricht zu offenem Mund mit Rachenmandel

Glaube Liebe Hoffnung um den Hals.



Junger Kropf ist Sattelnase gut.

Er bezahlt für sie derei Bierre.



Bartflechte kauft Nelken,

Doppelkinn zu erweichen.



B-molI: die 35. Sonate.

Zwei Augen brüllen auf:

Spritzt nicht das Blut von Chopin in den Saal,

damit das Pack drauf rumlatscht!

Schluß! He, Gigi! –



Die Tür fließt hin: Ein Weib.

Wüste ausgedörrt. Kanaanitisch braun.

Keusch. Höhlenreich.

Ein Duft kommt mit.

Kaum Duft.



Es ist nur eine süße Vorwölbung der Luft

gegen mein Gehirn.



Eine Fettleibigkeit trippelt hinterher



Tradução de Cilene Rohr:

824: a vida e o amor das mulheres.

O violoncelo bebe de uma vez. A flauta

arrota três profundos longos compassos: o belo jantar.

O tambor lê um romance policial até o fim.



Dentes Verdes, espinhas no rosto

acenam a uma conjuntivite.



Gordura no cabelo

fala para a boca aberta com adenoides

Fé, amor e esperança em volta da garganta.



O jovem papo é uma boa deformação de nariz.

Ele paga a ela três cervejas.



A eczema da barba compra cravos.

Para suavizar a papada.



Bemol: a sonata 35.

Dois olhos gritam:

Não derramem o sangue de Chopin na sala,

para a multidão pisar!

Basta! Ei, Gigi! –



Abre-se a porta: uma fêmea.

Árido deserto. Morena canaãnense.

Casta. Cheia de curvas. Um aroma se aproxima.

Difícil distinguir.



É apenas uma colisão de ar doce

contra o meu cérebro.



Um corpo obeso salta de trás.




(Ilustração: Alfedo López -  l'univers de l'autre)



sexta-feira, 19 de abril de 2019

CONTO (NÃO CONTO), de Sérgio Sant’Anna





Aqui, um território vazio, espaços, um pouco mais que nada. Ou muito, não se sabe. Mas não há ninguém, é certo. Uma cobra, talvez, insinuando-se pelas pedras e pela pouca vegetação. Mas o que é uma cobra quando não há nenhum homem por perto? Ela pode apenas cravar seus dentes numa folha, de onde escorre um líquido leitoso. Do alto desta folha, um inseto alça voo, solta zumbidos, talvez de medo da cobra. Mas o que são os zumbidos se não há ninguém para escutá-los? São nada. Ou tudo. Talvez não se possa separá-los do silêncio ao seu redor. E o que é também o silêncio se não existem ouvidos? Perguntem, por exemplo, a esses arbustos. Mas arbustos não respondem. E como poderiam responder? Com o silêncio, lógico, ou num imperceptível bater de suas folhas. Mas onde, como, foi feita essa divisão entre som e silêncio, se não com os ouvidos? Mas suponhamos que existissem, um dia, esses ouvidos. Um homem que passasse, por exemplo, com uma carroça e um cavalo. Podemos imaginá-los. O cavalo que passa um dia e depois outro e depois outro, cumprindo sua missão de cavalo: passar puxando uma carroça. Até que um dia veio a cobra e zás: o sangue escorrendo da carne do cavalo. O cavalo propriamente dito – isto é, o cérebro do cavalo – sabe que algo já não vai tão bem quanto antes. Onde estariam certos ruídos, o eco de suas patas atrás de um morro, o correr do riacho muito longe, o cheiro de bosta, essas coisas que dão segurança a um cavalo? Onde está tudo isso, digam-me? O carroceiro olha tristemente para o cavalo: somos apenas nós dois aqui neste espaço, mas o cavalo morre. Relincha, geme, sem entender. Ou entendendo tudo, com seu cérebro de cavalo. Diga-me, cavalinho: o que sente um cavalo diante da morte? 

Diga-me mais, cavalinho: o que é a dor de um homem quando não há ninguém por perto? Um homem, por exemplo, que caiu num buraco muito fundo e quebrou as duas pernas. Talvez essa dor devore a si mesma, como uma cobra se engolindo pelo rabo. 

Mas tudo isso é nada. Não se param as coisas por causa de um cavalo. Não se param as coisas nem mesmo por causa de um homem. Esse homem que enterrou o cavalo, não sem antes cortar um pedaço de sua carne, para comer mais tarde. E agora o homem tinha que puxar ele mesmo a carroça. E logo afastou do pensamento a dor por causa de seu cavalinho querido. O homem agora tinha até raiva do cavalo, por ele ter morrido. O homem estava com vergonha de que o vissem – ele, um ser humano – puxando uma carroça. Mas por que seria indigno de um ser humano puxar uma carroça? Por que não seria indigno também de um cavalo? Ora, um cavalo não liga para essas coisas, vocês respondem. No que têm toda razão. 

E afinal, não podemos saber se o viram ou não, o homem puxando sua carroça, pois nos ocupamos apenas do que se passa aqui, neste espaço, onde nada se passa. Mas de uma coisa temos certeza: esse homem também encontrou um dia sua hora. E talvez – porque não tinha mãe, nem pai, nem mulher, nem filhos nem amigos – ele haja se lembrado, na hora da morte, de seu cavalo. O homem pensou, talvez, que agora iria encontrar-se com o cavalo, do outro lado. Sim, do outro lado: de onde vêm os ecos e o vento e onde se encontram para sempre homens e cavalos. 

Por esse outro lado há uma linha tênue, que às vezes se atravessa – uma fronteira. Essa linha, você atravessa, retorna; atravessa outra vez, retorna, recua de medo. Até que um dia vai e não volta mais. 

Aquele homem, no tempo em que atravessava este espaço aqui, beirando a fronteira do outro lado, gritava para escutar o eco e sorria para o cavalo. O homem tinha certeza de que o cavalo sorria de volta, com seus enormes dentes amarelos. O homem era louco. Mas o que é a loucura num espaço onde só existem um homem e um cavalo? E talvez o cavalo sorrisse de verdade, sabendo que ali não poderiam acusá-lo de animal maluco e chicoteá-lo por causa isso. 

Depois foram embora o homem e o cavalo. O cavalo, para debaixo da terra, alimentar os vermes que também ocupam este espaço, apesar de invisíveis. Principalmente porque não há olhos para vê-los. Já o homem foi morrer mais longe. E ficou de novo este território vazio, espaços, um pouco mais que nada. Não sabemos por quanto tempo, porque não existe tempo quando não existem coisas, homens, movimentando-se no espaço. 

Mas, subitamente, eis que este território é de novo invadido. Vieram outros homens e máquinas, e acenderam fogo, montaram barracas, coisas desse tipo, que os homens fazem. Tudo isso, imaginem, para estender fios em postes de madeira. (Fios telegráficos, explicamos, embora aqui se desconheçam tais nomes e engenhos.) Então o silêncio das noites e dias era quebrado por um tipo diferente de zumbidos. Mas para quem esses zumbidos, se aqui ninguém escuta, a não ser insetos? E de que valem novos zumbidos para insetos, que já os produzem tão bem? Sim, vocês estão certos: os zumbidos destinavam-se a pessoas mais distantes, talvez no lugar onde morreu o dono do cavalo. O que não nos interessa, pois só cuidamos daqui, deste espaço. 

Mas, de qualquer modo. Todos eles (insetos, cobras, animaizinhos cujo nome não se conhece, sem nos esquecermos dos vermes, que haviam engordado com a carne do cavalo) sentiram-se melhor quando vieram outros homens – bandidos, com certeza – e roubaram os postes, fios e zumbidos. Agora tudo estava novamente como antes, tudo era normal: um território vazio, espaços, um pouco mais que nada. Ou muito, não se sabe. Mas não há ninguém, é certo. Uma pequena cobra, talvez, insinuando-se pelas pedras e pela pouca vegetação – e a cravar seus dentes numa folha. 

Às vezes, porém, aqui é tão monótono que se imagina ver um vulto que se move por detrás dos arbustos. Alguém que passa, agachado? Um fantasma? Mas como, se há soluços? Por acaso soluçam, os fantasmas? Mas o fato é que, de repente, escutam-se (ou se acredita escutar) esses lamentos, uma angústia quase silenciosa. 

Ah, já sei: um menino perdido, a chorar de medo. Ou talvez um macaquinho perdido, a chorar de medo. Ah, apenas um macaquinho, vocês respiram aliviados. Mas quem disse que a dor de um macaquinho é mais justa que a dor de um menino? 

Mas o que estão a imaginar? Isso aqui é apenas um menino – ou um macaquinho – de papel e tinta. E, depois, se fosse verdade, o menino poderia morrer pela cobra. Ou então matar a cobra e tornar-se um homem. No caso do macaquinho, tornar-se um macacão. Um desses gorilas que batem no peito cabeludo, ameaçando a todos. Talvez porque se recordasse do medo que sentiu da cobra. Mas não se esqueçam, são todos de papel e tinta: o menino, o macaquinho, o macacão, seus urros e os socos que dá no próprio peito cabeludo. Cabelos de papel, naturalmente. E, portanto, não há motivos para sustos. 

Pois aqui é somente um território vazio, espaços, um pouco mais que nada. Quase um deserto, onde até os pássaros voam muito alto. Porque depois, em certa ocasião, houve uma aridez tão terrível que os arbustos se queimaram e a cobra foi embora, desiludida. No princípio, os insetos se sentiram muito aliviados, mas logo perceberam como é vazia de emoções a vida dos insetos quando não existe uma cobra a persegui-los. E também se mandaram, no que logo foram seguidos subterraneamente pelos vermes, que já estavam emagrecendo na ausência de cadáveres. 

Então ficou aqui um território ainda mais vazio, espaços, um pouco mais que nada. Ou muito, não se sabe. Mas não há ninguém, é certo. Nem mesmo uma cobra a insinuar-se pelas pedras e pela vegetação. Pois não há vegetação e, muito menos, cobras. 

Mas digam-me: se não há ninguém, como pode alguém contar essa história? Mas isto não é uma história, amigos. Não existe história onde nada acontece. E uma coisa que não é uma história talvez não precise de alguém para contá-la. Talvez ela se conte sozinha. 

Mas contar o que, se não há o que contar? Então está certo: se não há o que contar, não se conta. Ou então se conta o que não há para se contar. 



(Os cem melhores contos brasileiros do século XX



(Ilustração: Robert Fisher - Lake Eyre - A Geologist Trek)




terça-feira, 16 de abril de 2019

O DIA EM QUE GOTTFRIED BENN PEGOU ONDA, de Alberto Pucheu








(Tauchen mußt du können, mußt du lernen[…]) 




É preciso aprender a ficar submerso

por algum tempo. É preciso aprender.

Há dias de sol por cima da prancha,

há outros, em que tudo é caixote, vaca,

caldo. É preciso aprender a ficar submerso

por algum tempo, é preciso aprender

a persistir, a não desistir, é preciso,

é preciso aprender a ficar submerso,

é preciso aprender a ficar lá embaixo,

no círculo sem luz, no furacão de água

que o arremessa ainda mais para baixo,

onde estão os desafiadores dos limites

humanos. É preciso aprender a ficar submerso

por algum tempo, a persistir, a não desistir,

a não achar que o pulmão vai estourar,

a não achar que o estômago vai estourar,

que as veias salgadas como charque

vão estourar, que um coral vai estourar

os miolos – os seus miolos –, que você

nunca mais verá o sol por cima da água.

É preciso aprender a ficar submerso, a não

falar, a não gritar, a não querer gritar

quando a areia cuspir navalhas em seu rosto,

quando a rocha soltar britadeiras

em sua cabeça, quando seu corpo

se retorcer feito meia em máquina de lavar,

é preciso ser duro, é preciso aguentar,

é preciso persistir, é preciso não desistir.

É preciso aprender a ficar submerso

por algum tempo, é preciso aprender

a aguentar, é preciso aguentar

esperar, é preciso aguentar esperar

até se esquecer do tempo, até se esquecer

do que se espera, até se esquecer da espera,

é preciso aguentar ficar submerso

até se esquecer de que está aguentando,

é preciso aguentar ficar submerso

até que o vulcão de água, voluntarioso,

arremesse você de volta para fora dele.



[...]Você deve ser capaz de mergulhar, você deve aprender (primeiros versos de um poema de Gottfried Benn)



(Ilustração: Raoul Hausmann - autorretrato - 1920)





sábado, 13 de abril de 2019

DA FINLÂNDIA, LENIN CHEGA A MOSCOU, de Edmund Wilson






O terminal ferroviário no qual chegam os trens provenientes da Finlândia é hoje em dia um prediozinho de estuque mal conservado, de um cinzento cor de borracha e um tom de rosa sujo, com um galpão para trens sustentado por colunas finas que se ramificam ao encostarem no teto. Por um dos lados os trens chegam; no outro ficam as portas que dão para as salas de espera, o restaurante e o depósito de bagagens. É um prédio, cujo tamanho e forma seriam considerados, em qualquer país europeu mais moderno, apropriados para uma cidade de província e não para os esplendores de uma capital; porém, com seus bancos desgastados pelos muitos passageiros que neles esperaram, seus bolos e pães expostos com etiquetas em vitrines, é uma típica pequena estação ferroviária europeia, com aquela mesmice que caracteriza todas as instituições úteis que se espalharam por todos os lugares onde impera a classe média. Hoje em dia, as camponesas, com seus embrulhos e cestas e lenços amarrados na cabeça, esperam sentadas nos bancos, pacientes. Mas na época sobre a qual estou escrevendo, havia uma sala especial, com banheiro, reservada para o czar, e foi para lá que os camaradas que receberam Lenin o levaram quando seu trem chegou, tarde da noite, no dia 16 de abril. Na plataforma, ele fora recebido por homens que haviam saído de prisões ou voltado do exílio, em cujas faces escorriam lágrimas. Um socialista não bolchevique, N. Sukhanov, nos deixou um relato em primeira mão da chegada de Lenin. Ele entrou quase correndo na sala do czar. 

Seu casaco estava desabotoado; seu rosto parecia congelado; carregava um grande buquê de rosas que havia acabado de receber. Ao defrontar-se com o menchevique Tchkheidze, presidente do Soviete de Petrogrado, parou de repente, como se esbarrasse num obstáculo inesperado. Tchkheidze, mantendo a expressão contrariada com a qual havia esperado a chegada de Lenin, dirigiu-se a ele no tom sentencioso de quem faz um discurso de boas-vindas convencional. Disse ele: “Camarada Lenin, em nome do Soviete de Petrogrado e de toda a revolução, damos-lhe as boas-vindas à Rússia... porém consideramos que no momento atual a principal tarefa da democracia revolucionária é defender nossa revolução contra todo tipo de ataque, tanto interno quanto externo. (...) Esperamos que você colabore conosco no sentido de trabalhar para este fim”. Segundo Sukhanov , Lenin ficou parado, “com uma expressão no rosto que parecia indicar que o que estava ocorrendo alguns metros a sua frente nada tinha a ver com ele; olhava de um lado para o outro; corria a vista pelo público a seu redor, e chegou mesmo a examinar o teto da ‘sala do czar’, ao mesmo tempo em que endireitava o buquê em suas mãos (o qual destoava bastante de sua figura)”. Por fim, desviando o rosto do comitê e sem responder diretamente ao discurso, dirigiu-se à multidão: “Caros camaradas, soldados, marinheiros e trabalhadores, tenho o prazer de congratulá-los pela vitória da revolução russa, saudá-los como a vanguarda do exército proletário internacional. (...) A guerra do banditismo imperialista é o começo da guerra civil na Europa. (...) Não tarda a hora em que, atendendo ao chamado de nosso camarada Karl Liebknecht, o povo apontará suas armas para os exploradores capitalistas. (...) Na Alemanha, tudo já está fermentando! Não hoje, mas amanhã, qualquer dia, pode ocorrer o colapso geral do capitalismo europeu. A revolução russa que vocês realizaram deu o golpe inicial e inaugurou uma nova era (...) Viva a Revolução Social Internacional!” Saiu da sala. Lá fora, na plataforma, um oficial aproximou-se e bateu continência. Lenin, surpreso, retribuiu a continência. O oficial deu a ordem, e um destacamento de marinheiros com baionetas ficou em posição de sentido. Holofotes iluminavam o local, e bandas tocavam a “Marselhesa”. Uma grande aclamação brotou de uma multidão que se formava ao redor da plataforma. “O que é isso?”, perguntou Lenin, dando um passo atrás. Disseram-lhe que eram as boas-vindas dos trabalhadores e marinheiros revolucionários: haviam gritado a palavra “Lenin”. Os marinheiros apresentaram armas, e seu comandante apresentou-se a Lenin. Cochicharam-lhe que queriam ouvi-lo falar. Lenin deu alguns passos e tirou o chapéu-coco. Começou: “Camaradas marinheiros, eu os saúdo sem saber ainda se vocês têm acreditado ou não em todas as promessas do Governo Provisório. Porém estou certo de que, quando eles lhes falam com palavras açucaradas, quando prometem mundos e fundos, estão enganando a vocês e a todo o povo russo. O povo precisa de paz; o povo precisa de pão; o povo precisa de terra. E eles lhes dão guerra, fome, nada de pão — deixam os proprietários continuarem controlando a terra. (...) Precisamos lutar pela revolução social, lutar até o fim, até a vitória completa do proletariado. Viva a revolução social mundial!”. “Foi extraordinário!”, afirma Sukhanov. “Para nós, que estávamos incessantemente ocupados, totalmente imersos no trabalho cotidiano da revolução, as necessidades do dia a dia, as coisas imediatamente urgentes que se tornam invisíveis ‘na história’”, foi como se uma luz deslumbrante se acendesse de repente. “A voz de Lenin, emergindo diretamente do vagão do trem, era uma ‘voz de fora’. Sobre nós, no meio da revolução, explodiu — a verdade, de modo algum dissonante, de modo algum violando seu contexto, porém uma nota nova, brusca, algo estonteante.” Foram surpreendidos pela consciência de “que Lenin estava inegavelmente com razão, não apenas ao nos afirmar que havia iniciado a revolução socialista mundial, não apenas ao ressaltar o vínculo indissolúvel entre a guerra mundial e o colapso do sistema imperialista, mas também ao enfatizar e destacar a própria ‘revolução mundial’, insistindo que deveríamos nos orientar por ela, e avaliar em termos dela todos os eventos da história contemporânea”. Tudo isso eles compreendiam agora, era inquestionável; porém o que não sabiam era se Lenin sabia de que modo essas ideias podiam ser postas em prática na política da revolução. Teria ele um conhecimento real da situação da Rússia? Mas no momento isso não importava. Tudo era tão extraordinário! A multidão carregou Lenin nos ombros até um dos carros blindados que aguardavam fora da estação. O Governo Provisório, que havia feito o possível no sentido de impedir a formação de multidões nas ruas, havia proibido a utilização desses carros, que se podiam transformar em fatores decisivos numa manifestação de massa; porém os bolcheviques não se importaram com a proibição. Lenin teve que fazer mais um discurso, em pé, sobre o carro blindado. A praça à frente da estação ficou abarrotada de gente: eram trabalhadores da indústria têxtil, metalúrgicos, soldados e marinheiros de origem camponesa. Não havia luz elétrica na praça, mas os holofotes iluminavam bandeiras vermelhas com dizeres em ouro. O carro blindado partiu da estação acompanhado de um séquito. Os outros carros diminuíram suas luzes para destacar as do carro de Lenin. Os faróis, mostravam a ele a guarda operária, enfileirada dos dois lados da estrada. Disse Krupskaia: “Aqueles que não presenciaram a revolução não podem imaginar sua beleza solene e grandiosa”. Os marinheiros eram da guarnição de Kronstadt; os holofotes eram da Fortaleza de Pedro e Paulo. Estavam indo para o Palácio Kchessinskaia, a casa da bailarina que fora amante do czar, da qual os bolcheviques, num gesto calculadamente simbólico que indignou a moradora, haviam se apropriado, transformando-a em sede do partido. Lá dentro havia uma profusão de espelhos grandes, candelabros de cristal, afrescos nos tetos, estofamentos de cetim, amplas escadarias e grandes armários brancos. Muitas das estátuas de bronze e dos cupidos de mármore haviam sido quebrados pelos invasores; porém os móveis da bailarina haviam sido cuidadosamente guardados e substituídos por mesas, cadeiras e bancos simples, colocados onde necessários, aqui e ali. Apenas um ou outro vaso chinês, perdido no meio dos jornais e manifestos, ainda atrapalhava a passagem. Queriam servir chá a Lenin e fazer discursos de boas-vindas, porém ele os fez falar sobre táticas. O palácio estava cercado por uma multidão que lhe pedia aos gritos um discurso. Lenin caminhou até uma sacada para ver as pessoas. Foi como se toda a rebelião sufocada sobre a qual se assentava aquela grande cidade plana e pesada, desde os tempos dos artesãos que Pedro, o Grande, enviara lá para trabalhar até morrer naqueles pântanos, numa única noite tivesse entrado em ebulição. E Lenin, que antes só havia falado em reuniões de partidos, perante plateias de estudantes marxistas e que desde 1905 quase nunca havia aparecido em público, agora falava à multidão com uma voz cheia de autoridade que canalizaria toda a energia dispersa daquela gente, conquistaria sua confiança abalada e seria subitamente ouvida em todo o mundo. Porém, de início, quando o ouviram naquela noite — diz Sukhanov , que estava no meio da multidão — havia indícios de que as pessoas estavam chocadas e assustadas. À medida que a voz rouquenha de Lenin falava de “capitalistas ladrões”, da “destruição dos povos europeus para engordar os lucros de uma quadrilha de exploradores”, e dizia que “a defesa da pátria significa na verdade a defesa dos capitalistas em detrimento de todos os outros” — à medida que estas frases explodiam como obuses, os próprios soldados da guarda de honra murmuravam: “O que é isso? O que ele está dizendo? Se ele descesse aqui, ele ia ver!”. Porém, diz Sukhanov, quando Lenin veio falar-lhes face a face, eles não cumpriram suas ameaças, e jamais tentaram fazê-lo posteriormente. Lenin entrou no palácio, porém teve de voltar à sacada para fazer um segundo discurso. Quando voltou para dentro, decidiu-se realizar uma assembleia. No grande salão de festas, os longos discursos de boas-vindas se repetiram. Segundo Trotski, Lenin suportou aquela torrente de retórica “como um pedestre impaciente parado à porta de um edifício esperando que a chuva pare”. De vez em quando consultava seu relógio. Quando chegou sua vez, falou durante duas horas, e encheu sua plateia de confusão e terror. Disse ele: “Na viagem para cá com meus camaradas, eu julgava que fôssemos levados da estação diretamente para a Fortaleza de Pedro e Paulo. Pelo visto, nossa situação é bem outra. Mas não vamos perder a esperança de que ainda venhamos a passar por essa experiência”. Fez pouco caso dos planos de reforma agrária e outras medidas legais propostas pelo Soviete, e afirmou que os próprios camponeses deveriam se organizar e se apossar da terra sem intervenção governamental. Nas cidades, os operários armados deviam assumir o controle das fábricas. Ignorou a maioria do Soviete, e repreendeu severamente os próprios bolcheviques. A revolução proletária estava iminente: não deviam dar o menor apoio ao Governo Provisório. “Não precisamos de nenhuma república parlamentar. Não precisamos de nenhuma democracia burguesa. Não precisamos de nenhum governo além do Soviete de Delegados de Trabalhadores, Soldados e Camponeses!” O discurso, segundo Sukhanov, apesar de seu “conteúdo desconcertante e sua eloquência lúcida e brilhante”, não apresentava, contudo, “uma coisa: uma análise das ‘premissas objetivas’ das fundações socioeconômicas para o socialismo na Rússia”. Porém Sukhanov acrescenta: “Saí na rua como se tivesse acabado de levar uma pancada na cabeça. Apenas uma coisa estava clara: não havia como eu, que não era membro do partido, concordar com Lenin. Deliciado, enchi os pulmões de um ar que já continha o frescor da primavera. Estava prestes a amanhecer; o dia já havia chegado”. Um jovem oficial de marinha bolchevique que participou da assembleia escreveu: “As palavras de Ilitch abriram um Rubicão entre as táticas de ontem e as de hoje”. Porém os líderes, em sua maioria, ficaram estupefatos. O discurso não foi discutido naquela noite; mas a indignação explodiria no dia seguinte, quando Lenin soltou outra bomba numa assembleia geral dos social-democratas. Declarou um dos bolcheviques: “Lenin acaba de apresentar sua candidatura a um trono europeu que está vago há trinta anos: o trono de Bakunin. Com novo fraseado, Lenin está nos contando a mesma velha história de sempre: as velhas ideias desacreditadas do anarquismo primitivo. O Lenin social-democrata, o Lenin marxista, o Lenin líder de nossa social-democracia militante — este Lenin não existe mais!”. E o esquerdista Bogdanov, que estava sentado bem junto à plataforma, repreendeu a plateia com fúria: “Vocês deviam se envergonhar de aplaudir essas tolices! Vocês estão agindo de modo vergonhoso! E ainda se dizem marxistas!”. O objetivo do discurso de Lenin fora impedir que se concretizasse a proposta de fusão dos bolcheviques com os mencheviques; porém naquele momento a impressão que se tinha era a de que o efeito seria justamente o de empurrar os bolcheviques para o lado oposto. A muitos dos próprios bolcheviques parecia — tal como parecera a muitos dos adversários de Lenin após o cisma de 1903 — que Lenin havia simplesmente conseguido colocar-se num beco sem saída. 

Na noite da chegada, escreve Krupskaia, após a recepção no Palácio Kchessinskaia, ela e Lenin foram “para casa, onde nos esperavam os nossos, Anna Ilinichna e Mark Timofeievitch”. Maria Ilinichna estava morando com a irmã e o cunhado. Deram a Vladimir Ilitch e Nadia um quarto separado; e lá encontraram, penduradas sobre as camas pelo filho de criação de Anna, as palavras finais do Manifesto comunista: “Proletários de todo o mundo, uni-vos!”. Krupskaia comenta que praticamente não falou com Ilitch. “Tudo foi compreendido sem palavras.” 



(Rumo à Estação Finlândia; tradução de Paulo Henrique Britto) 



(Ilustração: Lenin discursa para operários)





quarta-feira, 10 de abril de 2019

GO ON SISTER SING YOUR SONG / VAI IRMÃZINHA CANTA TUA MELODIA / VAMOS LÁ MANA CANTE A CANÇÃO / E AÍ MANA CANTE SUA CANÇÃO, de Harryette Mullen





go on sister sing your song

lady redbone señora rubia

took all day long

shampooing her nubia



she gets to the getting place

without or with him

must I holler when

you’re giving me rhythm



members don’t get weary

add some practice to your theory

she wants to know is it a men thing

or a him thing



wishing him luck

she gave him lemons to suck

told him please dear

improve your embouchure



Tradução de Wagner Moura Brasil:



vai irmãzinha canta tua melodia

lady castanho-rubro señora rubia [1] [2]

passou o dia

lavando a sua núbia [3]



ela vai ao lugar de sempre[4]

sem ou com ele

devo gritar enquanto

você vai dando o ritmo



membros não ficam cansados

acrescente alguma prática à sua teoria

ela indaga isso é coisa de homem

ou uma coisa dele



desejando-lhe sorte

deu-lhe limões pra chupar

disse-lhe seja gentil amor

melhore a sua embocadura



Tradução de Ricardo Domeneck:





vamos lá mana cante a canção

blond miss dona rubrosa

passou a manhã toda

ensaboando seu sudão



ela chega à linha de chegada

sozinha ou consigo

hei de esgoelar enquanto

você me dá o ritmo



não se canse diretoria

dê prática à sua teoria

ela pergunta se é coisa de homem

ou coisa de pronome



desejando a ele sorte

deu-lhe os limões que chupa

disse-lhe benzinho ao cangote

melhore sua embocadura





Tradução de Isaias Edson Sidney:



e aí mana cante sua canção

falsa loira dona rubia

passou o dia inteiro

dando um trato na sua núbia



ela sabe o lugar é o de sempre

com ou sem ele

é preciso gritar quando

você dita o entra-e-sai



quem dança não cansa

dê prática à sua teoria

ela quer saber é coisa de homem

ou coisa sua



desejando-lhe sorte

ela lhe dá limões para chupar

e lhe diz vamos lá querido

melhore sua embocadura



Notas:

[1] Redbone: Cão norte-americano de pelagem avermelhada. No falar das comunidades negras do sul dos Estados Unidos, pele ou cabelo castanho de matiz avermelhada

[2] Rubia: (espanhol) loura

[3] Núbia: A poeta diz que encontrou a palavra em uma série de cartas trocadas entre duas mulheres negras do século XIX. Embora a palavra se refira a um colarinho rendado usado pelas mulheres no período vitoriano, Mullen a aprecia por sua sonoridade “afrocêntrica”, com invocações à Núbia, região do vale do Nilo hoje partilhada pelo Egito e o Sudão; no verso, a palavra encerra uma óbvia conotação erótica.

[4] Getting place: No sul dos Estados Unidos, local de encontros amorosos. No português, o que antes era chamado de "rendez-vous", ou ponto de encontro.

[5] "Members don't get weary" pode ser, como sugere meu parceiro de tradução, uma referência irônica a um spiritual norte-americano, cuja letra deve ter passado pela mente da autora ao fazer uso de seu título no verso



(Recyclopedia)


(Ilustração: Frank Morrison – dynasty)




domingo, 7 de abril de 2019

COMO NASCEM OS MONSTROS, de Paula Giannini









Click 

Do que fui testemunha naquele quarto, jamais pude dizer palavra. Eu era muda. Não surda ou cega, mas apenas muda. E quieta. Ou melhor, paralisada. A mim não foi dada a dádiva do grito no momento do desespero, tampouco a capacidade da fuga, no instante exato do pânico. Não. Tudo o que eu podia fazer era assistir, impotente. 

E inerte, porém jamais omissa, presenciava a chegada daquilo que, inominável, surgia na noite sem pedir licença, deixando-se entrever apenas, através de uma brecha no véu com que me cobria os olhos. 

Deixe a luz do quarto acesa, papai. 

A menina choramingava baixinho no instante em que ele, o pai, escorregando a mão para dentro do quarto, alcançava o interruptor na parede. 

Click 

Deixe a luz acesa. 

Dizia quase em um sussurro de medo confesso. Tinha pânico das sombras e da noite, e daqueles sons terríveis. Roncos que, partindo do quarto ao lado, insistiam em se manifestar no exato instante em que ela, menina, descobria o quanto, realmente, estava só. 

Deixe a luz… 

Ainda tentava implorar, sem suspeitar que é justamente a claridade que permite que se projetem os vultos em uma parede branca. Mais que isso, que sem luz não haveria manifestação alguma daquilo que os humanos entendem em chamar de sombras. 

Deixe… 

Era tudo que conseguia dizer antes que a porta se fechasse em um baque firme, abandonando-a na cama, envolta em cobertas e na mais terrível escuridão. 

Nesse instante, a garotinha se certificava de estar bem enrolada em sua manta. Pés, cabeça, corpo, tudo apertado em uma espécie de casulo, seguro firme com as duas mãos pelo lado de dentro. A respiração ritmada. O ouvido em riste. E o calor aumentando aos poucos a temperatura naquele envelope de pano, insinuando pequenas gotas de suor que brotavam tímidas, primeiro nas mãos, depois na testa, para em seguida, caudalosas, escorrerem pelas costas, ensopando a camisola de flanela. 

Quem sabe, cogitava, devesse colocar o nariz para fora de seu refúgio. Só o nariz. Desse modo, poderia sentir um pouco do ar fresco que circulava no exterior de seu esconderijo. E assim o fazia, cuidadosamente. Só o nariz. Mas, os olhos teimando em espiar o medo, lembravam-se logo daquele breu terrível que a envolvia em um outro casulo, ainda mais opressor que o de sua fortaleza de cobertores. Seu quarto. 

Assim, era preciso que se enchesse de uma coragem urgente, a fim de conseguir insinuar a mão para fora da coberta. Uma só. E abrir espaço por um caminho já há muito conhecido, alcançando o fio que ficava ao lado de sua mesinha de cabeceira. 

Click 

Só então, apertando o botão, suspirava. 

E pela fresta no tecido, um fio de luz amarelado e débil me revelava, finalmente, aquele seu inexprimível olhar. 

Era nesta hora que ele surgia. 

Sempre. 

O Monstro. 

A inominável criatura sem rosto que nos visitava todas as noites. 

Todas. 

Click 

Mas pela manhã não. 

Pela manhã erámos outras, as duas. Eu sem utilidade alguma e ela, a menina, um anjo doce a brincar sentada no topo mais alto de sua casinha improvisada na árvore. 

Durante o dia, de nosso quarto, com a janela escancarada, eu conseguia espiar os seus brinquedos de panelinhas e historietas cantadas baixinho, no ouvido de suas bonecas. Quem saberia dizer que segredos confessava ali tão doce e meiga criança? 

Papai? 

Eu a via buscar no adulto que passava apressado e carregado de compras, a certeza cúmplice de que tudo estava bem. Ela olhava para o pai e acenava em um gesto rápido, quase de animação. Ele, por sua vez, devolvia-lhe o aceno, sem interromper o que fazia. E suspiravam. Ele, imaginávamos, pelo peso das compras em suas mãos. Ela, por supor que em seu mundo, ao menos nessa hora, tudo parecia bem. Tudo em seu lugar. Papai no trabalho e cuidando da casa. A menina entretida em seu modo de brincar. E eu, espiando atenta, o movimento do quintal. Tudo certo. Tudo como deveriam ser as coisas no pequeno mundo de uma criança. 

E assim era. 

Ou ao menos durante o dia. 

Na casa da árvore não havia lugar para monstros ou roncos assustadores. Ali, caminha, mesinha, cadeirinha, pratinho, fogão. Réplica perfeita de sua vida em um mundinho particular onde ela era a mamãe. E protegia a todos prometendo-lhes sempre que, ao contrário do que fizera a sua, jamais desapareceria dali. 

Click 

O primeiro sinal da aproximação da aberração, era o silêncio. No quarto ao lado, antes invadido por roncos capazes de fazer tremer toda a casa, uma espécie de vácuo antecedia o ranger das primeiras tábuas do assoalho. Uma a uma, as madeiras gemiam, denunciando a proximidade cadenciada daqueles passos. 

Um, dois, três… 

Ela contava baixinho. 

Um a um, pouco a pouco, eles vinham. 

Quatro… 

Mais altos. 

Cinco. 

Mais próximos… 

Seis. 

E sabíamos que, embora lentos e arrastados como os pés de um velho em seus chinelos pelo chão, aproximavam-se mais excitados e ansiosos. A cada noite mais. A cada segundo. A cada passo. 

Mas era só quando a maçaneta girava que a pequena se agarrava ao lençol em uma tentativa vã de, em uma batalha contra a criatura, impedir que esta lhe arrancasse a proteção. E apertava os lábios, os olhos e as unhas, com tal vigor, que o resultado, muitas vezes, era o de fazer com que o sangue brotasse fácil das palmas de suas mãos. 

Sete, oito, nove… 

E nada mais podia ser feito. 

Por que não trancava a porta ou gritava, ou fugia buscando esconderijo em outros cantos de sua casa? Jamais saberei ao certo. Talvez imaginasse que ninguém escapa das garras de seu destino. Talvez temesse que a onipresença da criatura penetrasse furiosa os espaços ocultos de sua vida, o buraco da fechadura. Fazendo-se presente em cada canto e ainda mais furioso. Ainda mais demorado. Ainda mais. 

E então se rendia. 

Contando novamente, não mais os passos, mas dessa vez o tempo, abstraindo-se dele e daquilo que havia de mais lúgubre em sua existência. O inominável. 

Click 

A primeira coisa que a abominação fazia, era passar por mim com os seus dedos apressados, na tentativa vã de me desligar. Não queria luz. Talvez quisesse ocultar nas trevas, aquilo que fazia. Talvez tentasse apenas esconder seu rosto feio. Trazia o peito nu e a cabeça coberta com a própria camisa. 

E era horrendo. Tanto quanto nos parece aquilo que não podemos enxergar. Ou mais. 

Passava-me os dedos. Mas na pressa de obter o que vinha caçar, atrapalhava-se. 

Click 

E voltava a me ligar em um descuido, iluminando tudo, com raiva. 

No atropelo, virava a menina de costas em sua cama e retirava da cabeça a camisa ensopada de um suor pegajoso que me nauseava a alma, jogando-a sobre mim. 

Me encobria a visão, sem imaginar sequer que, naquelas horas, eu só teria meus olhos para ela. 

E para os vultos infames que minha própria luz projetava na parede branca. 

E assim era, durante todo o verão. 

E em todas as noites. 

E há muito tempo. 

Em todas. 

Click 

Exceto em uma. 

Naquela noite algo estava diferente. Chovia e um forte vento batia na janela, fazendo a persiana dançar com força contra o vidro. Era verão, mas o inesperado frio pegou a todos desavisados. 

Papai fez sopa. 

E a menina deitou mais cedo. 

Deixe a luz… 

Papai deixou. 

Naquela noite, não houve roncos no quarto ao lado, tampouco passos excitados no ranger das tábuas corridas e velhas. Só o vento. E o bater contínuo da persiana contra o vidro, fazendo com que a pequena se levantasse e fosse até à janela. 

Dali, ela podia divisar o pátio encharcado e a árvore com sua casinha, balançando forte e sem trégua. Puxou o fio da persiana a fim de amarrá-la firme, impedindo que se chocasse ao basculante com tanta violência. 

E foi nesse instante que o encontrou. 

Envolto em muita poeira, o papel se enrolava no vão entre o trilho e a vidraça. Puxou a ponta do canudo com um grampo de cabelo e o desenrolou. Era um bilhete, eu especulava enquanto a via examinar seu conteúdo. 

Um desenho. 

No rodapé, a assinatura. 

Com amor, mamãe. 

Pude ver quando aquelas pequenas mãos trêmulas depositaram o papel sobre a mesinha onde eu ficava. 

Um desenho. 

Mamãe fora embora há mais de um ano. Diziam que morreu, que sumiu, que não se falasse mais nela. Mas a menina sabia que não. Fora embora e apenas isso. Saíra pelo portão do pátio, carregando maleta e se detendo apenas por um minuto para olhar para trás. Para o quarto da pequena. Para ela. Para mim. Rápida e pálida. Para nunca mais. 

Com amor, mamãe. 

E agora, aquele desenho era tudo que tínhamos dela. Riscos esquemáticos em forma talvez de um mapa. Talvez de um tesouro. Quem sabe, o caminho para uma saída secreta que nos salvaria das garras da besta. Talvez, apenas riscos desconexos, atestando em sua loucura o real motivo da fuga. Talvez. 

Click 

Naquela manhã, a pequenina não foi até à árvore. Chovia ainda mais e papai, sempre zeloso, não queria que sua filhinha ficasse doente ou com febre. 

Ficou no quarto. 

Algo, de fato, estava diferente. 

Pude ver quando a criança puxou a cadeira e abriu cuidadosamente a gaveta de sua escrivaninha. Ali, algo que, quando a mãe ainda vivia com ela, costumava ser o maior de seus tesouros. Seu brinquedo preferido em todo o mundo. Lápis de colorir, estilete para fazer a ponta, borracha e papel. 

Na época, costumavam ficar sentadas por horas a fio. Juntas, desenhavam de tudo. Coisas lindas, anjos e fadas. E outras coisas. Bichos que, naquele tempo, eram os únicos monstros presentes na vida da pequenina. Minúsculos insetos, aranhas que eclodiam de ovos depositados em teias inacessíveis, grudadas ao teto alto da casa. 

A garotinha temia aqueles ovos negros e cabeludos. E a mãe ensinava-lhe que ali, dentro dos ovinhos, viviam apenas pequenos bebês. Bichos de oito patas que eclodiriam para a vida no momento certo. Aranhas que povoavam histórias, que povoavam ilustrações. Monstrinhos de uma espécie sem veneno e cujo único mal era o de atrair mosquitos e outros seres alados, que grudavam em suas teias a fim de alimentar e proteger seus bebês. 

Puxou uma folha em branco. Uma só. Se me perguntassem por que ela deixara de desenhar após a partida de mamãe, eu diria não saber. Talvez aquilo a deixasse triste. Talvez tivesse perdido o sentido, a graça. Talvez, não tivesse mais um adulto com quem se conectar através da cor. 

O desenho. 

Esticou o bilhete enigmático ao lado da folha branca. 

Com amor, mamãe. 

Contornou as letras com os dedinhos e puxou o lápis de dentro do estojo. Um a um. Vermelho, preto, marrom. 

E desenhou. 

No papel, como em um surto furioso, fazia brotar figuras sombrias. Pai e filhinha de mãos atadas, iluminados por um sol marrom. Em um outro, mamãe segurava sua maleta no portão. Tinha os olhos tristes pintados de vermelho. Depois desenhou seu quarto, escuro. E sobre a mesinha, ao lado da cama, eu, com uma luz tremulante e coberta por uma camisa. Pelo buraco da fechadura, o peito nu e cabeludo do monstro. E, enfim, em um espasmo, desenhou a criatura. Não uma aranha, mas aquela sem cabeça e vertendo suor pelo pescoço, em um esguicho pútrido, violento, inumano. 

Foi então que, súbita, puxou o bilhete da mãe para mais perto de si e se deteve por alguns minutos, examinando-o. E começou a reproduzi-lo. Primeiro uma cópia, depois outra, e outra mais, para, em seguida, produzir uma variante sem fim de desenhos em cores e tamanhos diversos. 

Aquele esquema parecia-lhe uma espécie de recado em código. Um mapa. Uma teia de amor deixada pela mãe a fim de lhe dizer algo. 

Mas o quê? 

Na trama, viam-se linhas retas formando caminhos, em um tipo de labirinto. Lembrava da história que a mãe contava sobre Ariadne, a heroína que escapara do intrincado espaço, esticando um fio que percorria o caminho até à saída. Seu caminho. 

Um labirinto era uma espécie de teia. 

Sua vida também. 

Cogitava hipóteses, desenhando suas réplicas repetidas vezes e com pequenas variações. Por vezes, o final de uma linha se unia a outra, por outras, a borracha abria um novo caminho onde, antes, havia uma linha contínua. Em certos trechos, traços inclinados formavam um padrão de sobre desce, como em um monitor de coração e vida. 

Nesses monitores, sabia pois já vira com seu avô, a morte era representada por uma linha reta. A vida pelo sobe e desce das inclinações. 

Mas o que tudo aquilo queria dizer? 

Com amor, mamãe. 

Segurou firme o estilete a fim de apontar o lápis. E passando a lâmina diversas vezes pela madeira, tinha o olhar distante, quase fugidio. 

E não pareceu perceber quando, descascando toda a lapiseira, restou-lhe apenas um pequeno cotoco de madeira já sem ponta alguma. Tampouco percebeu que a chuva já cessara há algumas horas. E que, no horizonte, aos poucos, o arrebol já se insinuava tingindo o céu com seus tons avermelhados. 

Click 

Já estava escuro quando, sentando-se ao meu lado, trocou a lâmina do estilete por uma outra. Nova. Mais afiada. E puxou, delicadamente o bilhetinho da mãe, para perto de minha luz. 

Click 

Desligou-me. 

O fim de tarde, ainda permitia que a claridade penetrasse o espaço. Caminhou até à porta e fez algo terminantemente proibido naquela casa. Trancou a fechadura, dando um único giro na chave, resoluta. 

Pude perceber que tremia quando puxou a tomada que me conectava à parede. E, pela primeira vez em muitos anos pude notar que sorria. Não o sorriso escancarado da criança inocente, que vive seus dias sem preocupações ou temores. Não. Era um sorriso nervoso. Desses de quem sabe que em seu mundo existe algo a se temer, algo de que se fugir. 

Esticou o fio e, com cuidado, passou o estilete entre o canal que o dividia em duas metades. Dois polos separados e distintos entre si. Um positivo, o outro, negativo. E desencapou um deles. Depois o outro. Em seguida, abrindo o parafuso com a ponta do estilete, não teve problema algum para desmontar o interruptor. E encaixou ali, a parte desencapada de um dos fios. Um só. Separou o outro com a habilidade de um cirurgião. 

Trabalhava lenta e precisamente, a respiração acelerada, os olhos arregalados, as mãos firmes e atentas. 

Quando se deu por satisfeita, o trabalho por terminado, já era noite. 

Levantou-se com um ar estranho. Algo nela estava mudado, algo que não saberia dizer se era bom ou ruim. Caminhou até à porta e, em um movimento único, girou a chave liberando a tranca. 

Click 

Tomou seu banho. 

Deitou em sua cama. 

E esperou. 

Deixe a luz do quarto acesa, papai. 

Não deixou. 

E aguardou o momento de me apertar o botão, a fim de me manter acesa, como em todas as outras noites daqueles hediondos verões. Naquela, porém, não precisaria se enrolar em lençol ou proteção alguma. Naquela noite, sabia muito bem o que fazia. Como se protegeria. 

Na palma da mão, apertava com força, seu amuleto. O bilhete de mamãe dobrado dezenas de vezes, em um pequeno quadrado. 

E esperou ansiosa o momento em que os roncos no quarto ao lado cessariam, acompanhando atenta cada passo arrastado no ranger forte de nosso longo corredor. 

Sabia que não tinha mais volta. 

Um, dois… 

Não havia mais tempo para voltar atrás. A fera já vinha em seu encalço. 

Três, quatro… 

Finalmente o pegaria e poderia, enfim, contar tudo a papai, sem temer que desacreditasse dela. Talvez, quem sabe, a mãe pudesse voltar a viver com eles e seríamos, os quatro, felizes para sempre. 

Cinco, seis, sete… 

Olhou-me apreensiva temendo, talvez, a falha ou o medo no momento final. 

Oito, nove… 

E a maçaneta girava, afastando a porta e abrindo-a lenta, em direção à parede. 

Dez. 

A aberração estava lá. Presente e assustadora, como nunca. Parecia intuir que algo diferente pairava no ar daquele aposento. 

Passou por mim a mão apressada e pude sentir, naquele átimo, o suor frio que escorria por entre os pelos de seus dedos de demônio. Retirou a camisa molhada, pronto a atirá-la sobre mim. 

Mas minha luz já estava apagada. 

E foi nesse instante que aconteceu. 

Em um golpe rápido, a menina rolou para baixo da cama, empurrando a luminária em direção ao demônio. 

Pude sentir quando, no susto, seu polegar firme, sua garra de abominação, apertou-me o interruptor. E então, em um terrível puxão, pude sentir que se agarrava a mim. Firme. Frenético. Em pânico. Em dor. E o nosso mundo explodiu. 

Curto-circuito. 

Um corpo humano começa a perceber a passagem de uma corrente elétrica a partir de 1 mA. 

Quando atinge 14 mA, a eletricidade é capaz de excitar os nervos a tal ponto, que lhes provoca contrações musculares permanentes, criando um efeito de agarramento que impede a vítima de se soltar do circuito. 

O corpo humano é sensível à corrente elétrica. Seus efeitos, no organismo humano, passam rapidamente das contrações simples para as violentas, das queimaduras leves para as severas. E, logo, a dor terrível evolui para a morte. Nem sempre, antes disso, a vítima perde os sentidos. 

Click 

Naquela noite, a criança sabia o que estava fazendo. 

Naquela noite, quando o curto-circuito se precipitou, ela saiu de seu quarto fechando a porta, tentando não se preocupar com os urros lancinantes de bicho atrás de si. Não sabia dizer o que sentia. Medo, coragem, um misto de alívio e desespero. 

Talvez, quem sabe, sentisse pena da coisa. 

Talvez não sentisse nada. 

Mas, de algum modo, sabia exatamente aquilo que precisava ser feito. Sabia do que precisava. Sabia como. E o pior, sabia o porquê. 

E esperou até que tudo fosse silêncio. 

Naquela noite, chamas altas consumiram seu quarto. E o monstro. 

Click 

O dia já clareava no momento em que os bombeiros arrombaram a porta da casa. 

Encontraram a menina, já não mais uma criança, sentada na sala, olhando para o teto, absorta. E tiveram dificuldades para lhe abrir as mãos cerradas, segurando firme o bilhete da mãe. Um elaborado circuito elétrico desenhado fina e caprichosamente com lápis de colorir. 

Em seu quarto, restos mortais de um demônio carbonizado. No chão do aposento, ao lado da cama, grudada à luminária, a única coisa que sobrara da besta carbonizada. A arcada dentária. 

Do depoimento da pequena, não conseguiram apreender muita coisa. 

Quem conseguiria? 

Apenas eu comungava com ela cada momento de agonia e de dor. 

Tudo o que compreenderam foram frases soltas, ditas entre um soluço e outro. 

Que o monstro, por algum motivo, só aparecia no verão. 

Que quando tudo começou, tinha apenas 7 anos. 

Quando pôde se livrar do horror somava no dedo e ao todo, 12 anos. 

E finalmente, dito em uma voz fria de quem entende que a vida real pode ser milhares de vezes mais feia e dolorosa que a da fantasia. Que na casa, naquela noite, não havia adulto algum. 

E que, naquele instante, ali mesmo, nascia um monstro. 

Não pude ver minha garotinha, tampouco me despedir de seu amor, mas sei o que vi e jamais esquecerei daquele olhar, no momento exato em que, antes de fechar a porta, finalmente conseguimos encarar os olhos da agora suplicante abominação. 

Era papai. 

No teto da sala, só a menina percebeu quando a pequena aranha rompeu o ovo. 

Click 





(Ilustração: Henry Fuseli - an incubus leaving two sleeping girls)