quinta-feira, 23 de abril de 2026

SUNDAY MORNING / MANHÃ DE DOMINGO, de Wallace Stevens

 



I



Complacencies of the peignoir, and late

Coffee and oranges in a sunny chair,

And the green freedom of a cockatoo

Upon a rug mingle to dissipate

The holy hush of ancient sacrifice.

She dreams a little, and she feels the dark

Encroachment of that old catastrophe,

As a calm darkens among water-lights.

The pungent oranges and bright, green wings

Seem things in some procession of the dead,

Winding across wide water, without sound.

The day is like wide water, without sound,

Stilled for the passing of her dreaming feet

Over the seas, to silent Palestine,

Dominion of the blood and sepulchre.



II



Why should she give her bounty to the dead?

What is divinity if it can come

Only in silent shadows and in dreams?

Shall she not find in comforts of the sun,

In pungent fruit and bright, green wings, or else

In any balm or beauty of the earth,

Things to be cherished like the thought of heaven?

Divinity must live within herself:

Passions of rain, or moods in falling snow;

Grievings in loneliness, or unsubdued

Elations when the forest blooms; gusty

Emotions on wet roads on autumn nights;

All pleasures and all pains, remembering

The bough of summer and the winter branch.

These are the measures destined for her soul.



III



Jove in the clouds had his inhuman birth.

No mother suckled him, no sweet land gave

Large-mannered motions to his mythy mind.

He moved among us, as a muttering king,

Magnificent, would move among his hinds,

Until our blood, commingling, virginal,

With heaven, brought such requital to desire

The very hinds discerned it, in a star.

Shall our blood fail? Or shall it come to be

The blood of paradise? And shall the earth

Seem all of paradise that we shall know?

The sky will be much friendlier then than now,

A part of labor and a part of pain,

And next in glory to enduring love,

Not this dividing and indifferent blue.



IV



She says, “I am content when wakened birds,

Before they fly, test the reality

Of misty fields, by their sweet questionings;

But when the birds are gone, and their warm fields

Return no more, where, then, is paradise?”

There is not any haunt of prophesy,

Nor any old chimera of the grave,

Neither the golden underground, nor isle

Melodious, where spirits gat them home,

Nor visionary south, nor cloudy palm

Remote on heaven’s hill, that has endured

As April’s green endures; or will endure

Like her remembrance of awakened birds,

Or her desire for June and evening, tipped

By the consummation of the swallow’s wings.



V



She says, “But in contentment I still feel

The need of some imperishable bliss.”

Death is the mother of beauty; hence from her,

Alone, shall come fulfilment to our dreams

And our desires. Although she strews the leaves

Of sure obliteration on our paths,

The path sick sorrow took, the many paths

Where triumph rang its brassy phrase, or love

Whispered a little out of tenderness,

She makes the willow shiver in the sun

For maidens who were wont to sit and gaze

Upon the grass, relinquished to their feet.

She causes boys to pile new plums and pears

On disregarded plate. The maidens taste

And stray impassioned in the littering leaves.



VI



Is there no change of death in paradise?

Does ripe fruit never fall? Or do the boughs

Hang always heavy in that perfect sky,

Unchanging, yet so like our perishing earth,

With rivers like our own that seek for seas

They never find, the same receding shores

That never touch with inarticulate pang?

Why set the pear upon those river banks

Or spice the shores with odors of the plum?

Alas, that they should wear our colors there,

The silken weavings of our afternoons,

And pick the strings of our insipid lutes!

Death is the mother of beauty, mystical,

Within whose burning bosom we devise

Our earthly mothers waiting, sleeplessly.



VII

Supple and turbulent, a ring of men

Shall chant in orgy on a summer morn

Their boisterous devotion to the sun,

Not as a god, but as a god might be,

Naked among them, like a savage source.

Their chant shall be a chant of paradise,

Out of their blood, returning to the sky;

And in their chant shall enter, voice by voice,

The windy lake wherein their lord delights,

The trees, like serafin, and echoing hills,

That choir among themselves long afterward.

They shall know well the heavenly fellowship

Of men that perish and of summer morn.

And whence they came and whither they shall go

The dew upon their feet shall manifest.



VIII



She hears, upon that water without sound,

A voice that cries, “The tomb in Palestine

Is not the porch of spirits lingering.

It is the grave of Jesus, where he lay.”

We live in an old chaos of the sun,

Or old dependency of day and night,

Or island solitude, unsponsored, free,

Of that wide water, inescapable.

Deer walk upon our mountains, and the quail

Whistle about us their spontaneous cries;

Sweet berries ripen in the wilderness;

And, in the isolation of the sky,

At evening, casual flocks of pigeons make

Ambiguous undulations as they sink,

Downward to darkness, on extended wings.



Tradução de Paulo Henriques Britto:



1.



Complacência de penhoar, café

E laranjas ao sol das onze horas,

Verde indolência de uma cacatua

No tapete – isso ajuda a dissipar

O santo silêncio do sacrifício.

Mas ela sonha, e sente aproximar-se,

Escura e lenta, a catástrofe antiga,

Como o descer da noite sobre as águas.

O odor das frutas, o brilho de asas verdes

Virão talvez da procissão dos mortos,

Que atravessa as águas, silenciosa.

Aquietou-se para dar passagem

A seus pés sonhadores sobre os mares

A Terra Santa de sangue e sepulcro.



2.



Por que legar aos mortos o que é seu?

O que é o divino, se se manifesta

Somente em sonhos, sombras silenciosas?

Por que não encontrar prazer no sol,

No odor das frutas, brilho de asas verdes,

Em qualquer outro bálsamo terreno,

Tão caro quanto o próprio paraíso?

É nela que o divino há de viver:

Paixões chuvosas, cismas de nevascas,

Negras solidões, gozos incontidos

Quando a floresta se abre em flor; lufadas

De emoção em noites frescas de outono;

Toda dor e delícia; gordos ramos

De verão, galhos desnudos de inverno.

Estes, os ritmos próprios de sua alma.



3.



Nas nuvens nasceu Jove, o não-humano,

Que mãe não aleitou, e em relva fresca

Com passos divinais jamais pisou.

Caminhou entre nós, um rei absorto,

Magnífico, portento entre os humildes,

Até que sangue humano e virginal

Mesclou-se ao céu, anseio tão intenso

Que o viram os mais humildes, numa estrela.

Quem sabe nosso sangue ainda virá

A ser do paraíso? Será a terra

O único paraíso possível?

O céu ainda será nosso aliado,

Na dor e no cansaço, quase igual

Em glória ao próprio amor imorredouro,

Não mais um muro indiferente e azul.



4.



Diz ela: “Quando os pássaros questionam

Com cantos matinais a realidade

Dos campos enevoados, sou feliz;

Mas quando vão-se embora, e vai-se junto

Toda a paisagem, onde o paraíso?”.

Não há nenhuma negra profecia,

Não há quimera sepulcral tampouco,

Nem ilha melodiosa, habitada

Por espíritos, nem doce eldorado

No sul, nem palmeira em longínqua névoa

De outeiro no céu, que perdure mais

Do que o verdor da primavera, mais

Que a lembrança de uma manhã com pássaros,

Ou um desejo de tarde de verão

Consumada em asas de andorinhas.



5.



Diz ela: “Ainda assim, sei que preciso

De alguma alegria imperecível”.

A morte é a mãe do belo, e só a morte

Satisfaz nossos sonhos e desejos.

Ainda que ela espalhe as folhas secas

Do aniquilamento a nossa frente

Pelo caminho da dor, pelos muitos

Caminhos onde exultou a vitória,

Ou onde o amor sussurrou sua ternura,

Faz o salgueiro estremecer ao sol,

Para moças que antes sonhavam na relva

E agora se levantam. Faz rapazes

Juntarem maçãs e ameixas novas

Num prato esquecido. As moças provam,

E apaixonadas andam sobre folhas.



6.



Não haverá morte no paraíso?

Não cairá a fruta madura? Os galhos

Hão de ficar para sempre carregados

Naquele céu perfeito e imutável,

E ao mesmo tempo semelhante ao mundo

Mortal, com rios que buscam sempre mares

Que nunca hão de tocar com lábios mudos?

De que servem as maçãs nessas margens?

Por que adoçar com ameixas aquelas praias?

Que triste, lá brilharem nossas cores,

Tecer-se a seda de nossas manhãs,

Soarem nossos violões insípidos!

A morte é a mãe de todo o belo, mística,

E no seu seio cálido sonhamos

A mãe terrena, insone, a nossa espera.



7.



Homens ágeis e alegres, de mãos dadas,

Numa manhã de verão, em plena orgia,

Hão de cantar em devoção ao sol,

Não como deus, mas como um deus seria,

Nu entre eles, uma fonte bárbara.

E seu canto há de ser paradisíaco,

Saído do seu sangue para o céu;

E em seu canto entrará, em cada voz,

O lago que deleita o seu senhor,

As árvores seráficas, e os montes

Por muito tempo a repetir sua música.

Conhecerão a sagrada irmandade

De homens mortais e estivais manhãs.

E de onde vieram, e para onde irão,

O orvalho em seus pés indicará.



8.



Ela ouve, nas águas silenciosas,

Uma voz gritar: “O Santo Sepulcro

Não é alpendre onde repousem espíritos,

É o túmulo onde jazeu Jesus”.

Vivemos nesse velho caos de sol,

Ou velha servidão de noite e dia,

Ou solidão de ilha, livre e solta,

De águas silenciosas e implacáveis.

Cervos andam pelos montes; codornas

Assobiam, espontâneas; e nas matas

Amoras silvestres amadurecem.

E, no isolamento do azul,

Ao entardecer, pombas revoam a esmo,

Fazendo ondulações ambíguas, vagas,

Em direção à sombra, com suas asas.



(Ilustração : George Henry Grenville Manton - Isabella and the pot of basil)

segunda-feira, 20 de abril de 2026

A MORTE DE TÂNIA RADEK, de Rita Coitinho



Há um grupo de insetos presente em todo o planeta cujo tempo de vida adulta é de vinte e quatro horas. São os efemerópteros. Com suas asas transparentes, voam em busca de um parceiro, deixam seus ovos e morrem. Comparada à efêmera vida desses pequenos insetos, a existência humana é longa. Esta, no entanto, frente à idade das estrelas, não passa de um raio de luz. Mas há vidas humanas cuja duração é suficiente para uma experimentação satisfatória. Alguns indivíduos são capazes de imprimir sua marca em nossa memória, por força de seus feitos, prolongando sua existência além da vida. A maioria das vidas humanas, porém, sequer tem a chance de empenhar-se na busca da imortalidade da memória, pois têm suas existências subsumidas no turbilhão das engrenagens sociais e comem, dormem, despertam e amam conforme os usos de sua época ou de acordo com os usos que a época lhes destina. Essa é, aliás, a regra. Humanos são também efemerópteros, empurrados pelo ritmo da natureza e das forças sociais, do nascimento até a morte. Assim viveu e morreu Tânia Radek. Uma existência efêmera, como tantas outras e como é a desta que escreve. Dela tenho notícias não por sua obra ou por algo que a destaque em meio à revoada de seres humanos que vaga pelo planeta em nossos dias, mas por essas coincidências que se atravessam em nosso caminho e que moldam, sem que tenhamos condições de interferir, o fluxo de nossas vidas. Tânia foi, por mais de dez anos, minha colega de sala na repartição pública. Compartilhávamos o vidro de biscoitos, a conta do pó de café e comentários sobre o cotidiano e o trabalho. Nessa convivência eu soube que ela não gostava de lugares fechados. Nunca entrava em um elevador. Embora pareça irrelevante, essa informação acerca da claustrofobia de Tânia será importante para o desfecho de sua breve existência. Antes, é preciso rememorar os acontecimentos provocados por gente do tipo que teima em deixar marcas. Alguns o fazem por seu brilhantismo. Outros não têm nada a oferecer, mas são lembrados pelo horror.

Não sou estudiosa dos fenômenos da mente, mas estou convencida de que se tratou de uma patologia coletiva o fervor que, de um ano para o outro, levou a uma tal situação de frenesi político que setenta e um por cento dos eleitores elegeu presidente um candidato bizarro, vil, mal vestido e autoritário, cercado de fanáticos. O novo governo declarava-se “adversário das luzes”, pois todo esclarecimento é ilusório, turva a moral e afasta os homens de Deus. A perseguição que se seguiu à eleição levou ao abandono completo das universidades e centros de pesquisa. Os poucos cientistas renitentes foram perseguidos pela massa em transe. Os museus foram apinhados de obras sacras, queimou-se a arte considerada herética. Cinemas e teatros foram fechados. No mundo das artes, o medievo ascendeu como tendência estética irresistível. Em pouco mais de cinco anos do novo Governo Supremo, estavam instituídas as fogueiras para livros, obras de arte e indivíduos desviantes. Foi escrita uma nova constituição e tribunais televisionados ocupados por religiosos animavam o povo com julgamentos em tempo real que quase sempre terminavam com sentença condenatória. A carta magna instituía um quarto poder: o da cúpula religiosa.

Logo notamos o desaparecimento de alguns colegas da repartição. O primeiro foi o Oliveira, do sindicato. Depois Maria Antônia, do protocolo, que era atriz nas horas de folga. Já Tânia e eu nos adaptávamos aos novos tempos e acatávamos as ordens. Levávamos nossas vidas como observadoras e sentíamo-nos seguras, pois éramos invisíveis. No oitavo ano do novo regime as coisas entraram em um novo patamar. Novos decretos tratavam das vestimentas da população. Estavam proibidas as roupas curtas, as blusas deveriam ter gola até a altura do queixo, as mangas deviam abotoar-se nos punhos, as calças deveriam ser largas e compridas. Estavam banidas as cores heréticas: vermelho, amarelo, rosa, verde, azul, laranja e violeta. Somente o preto e o cinza escuro estavam autorizados. O fervor popular favorável às novas medidas morais levou ao incêndio das coleções de moda. Grandes fogueiras espalharam-se pelas cidades e cerca de cinquenta modistas que planejavam um manifesto foram condenados à prisão. Pela primeira vez em muitos anos ouvi uma queixa de Tânia: sentia-se sufocada com aquelas golas. No décimo ano, veio o decreto fatal. Para comemorar uma década de combate às luzes, o governo determinava o aumento das golas: deveriam cobrir completamente o rosto, até a testa. Era permitida apenas uma leve transparência na área dos olhos. A justificativa era que somente o Criador era digno de contemplação. Impunha-se ainda um toque de recolher, das dez da noite às seis da manhã, e uma prece pública, transmitida por aparelhos de som espalhados nas cidades, deveria preencher o caminho dos cidadãos até o trabalho. Estavam proibidas as músicas não religiosas e os fones de ouvido.

No dia marcado para a entrada em vigor do novo traje obrigatório, Tânia não apareceu no escritório. Saí a sua procura, pois ela vivia só, tendo apenas um gato como companhia. Imaginei que estivesse enferma. Depois de alguns dias apurei que fora vista saindo da sua casa de manhã, no horário de sempre. As câmeras de vigilância das ruas flagraram sua corrida em meio à multidão de golas pretas. Seus movimentos evidenciavam pavor. Desviava de toda gente e, aos gritos, atravessou uma avenida movimentada, causando um engavetamento de carros. Fecho meus olhos e consigo imaginar o pavor de Tânia. Vejo a multidão de golas à sua volta, verdadeiros seres sem rosto, os murmúrios, a prece nos alto-falantes, o zunir dos carros. Ouço seus gritos e sinto sua desorientação. Desfaleceu em meio à confusão. Foi recolhida sem vida e descartada em um incinerador público. Adotei seu velho gato. Está ao meu lado enquanto redijo essa pequena memória, minha revolta particular contra o esquecimento. A invisibilidade não manteve Tânia Radek a salvo do horror e da escuridão. Todos os dias perecem outras Tânias, efemerópteros surpreendidos pela chuva. O regime não nos teme, e cedo ou tarde atinge a todos. Ninguém contabiliza nossas efêmeras vidas. Enquanto escrevo, acompanho as notícias na rádio clandestina, deixei de ser indiferente. O regime está caindo. Tenta manter-se, feroz, mas será derrotado. Haverá luzes no futuro.



(Revista Zunái; 25 de dez. de 2021)



(Ilustração: Andrea Kowch; 1986 simbolista)

sexta-feira, 17 de abril de 2026

THE LOVECRAFTER / ARTESÃ DO AMOR, de Patti Smith





I saw you who was myself

slightly stopped whistling mouth

with leather sack and breeches brown

striding the naked countryside



with summer bones long and dry

into the breadth of our glad day

mid afternoon the longer night

as you tread bareheaded bright



I saw you a wraith bemoan

stir the fires of ancien tones

scarred with sticks pome and haw

as the néctar for their script



I saw you walk the length of fields

Far as the finger of Providence

far as the mouns we call hills

ranges cut from the heart of slate



I saw you dip into your sack

scattering seed where they may

as the woodsman hews his way

through oak ash and variant pines



for writing desks that shall reflect

a sheaf of lines that speak of trees

all sober hopes requires within

all drunkenness as sacred swims





I saw the book upon the shelf

I saw you who was myself

I saw the empty sack at last

I saw the branch your shadow cast



Tradução de Fergath (Fernanda Burgath):



Eu vi você, que era eu

boca assobiando em entretom

sacola de couro e calça marrom

caminhando longe pelo campo nu



por debaixo da roupa, vi seus ossinhos

eram eles e eu, mas não sozinhos

no meio da tarde da noite mais longa

brilha no céu a sua careca redonda



te vi como um fantasma lamurioso

por detrás do grande fogo ancestral

suas cicatrizes ainda visíveis e frescas

tão necessárias a sua narrativa



galgando o campo todo

até o limite da Providência

às montanhas, que chamamos de colinas

corações de ardósia cortados em lâminas



Eu vi você meter a mão em sua sacola

e deixar cair sementes estrada afora

como o lenhador que segue seu caminho

por freixos de carvalho e pinheiros variados

por escrivaninhas que devem refletir

um feixe de linhas que falam de árvores

todas as esperanças sóbrias requerem

a embriaguez como nado sagrado



um livro na estante, no quase breu

eu vi você, que era eu

por fim, em sua sacola vazia

eu vi sua sombra que me estendia



(Ilustração: Remedios Varo - el trovador, 1959)

terça-feira, 14 de abril de 2026

DIÁLOGO SOBRE A NATUREZA DO UNIVERSO, de Albert Einstein e Rabindranath Tagore



[...] duas conversas que poderiam ser facilmente classificadas como os maiores duelos intelectuais do século XX. Essa colisão épica de duas visões de mundo distintas começou no dia 14 de julho de 1930, quando o poeta, filósofo e prêmio Nobel de Literatura Rabindranath Tagore visitou Albert Einstein em Berlim. Durante o encontro, o seguinte diálogo foi registrado:



EINSTEIN: Existem duas concepções distintas sobre a natureza do universo: 1) o mundo como entidade dependente da humanidade e 2) o mundo como realidade independente do fator humano.

TAGORE: Quando o universo está em harmonia com o homem, o eterno, referido por nós como a Verdade, nós o experimentamos como beleza.

EINSTEIN: Essa é a concepção puramente humana do universo.

TAGORE: Não pode haver outro tipo de concepção. Este é um mundo humano – a visão científica dele também é a do homem científico. Existe um padrão de razão e prazer que nos dá a Verdade, o padrão do Homem Eterno cujas experiências são experimentadas pelas nossas experiências. EINSTEIN: Essa é a realização da entidade humana.

TAGORE: Sim, uma entidade eterna. Devemos percebê-la através das nossas emoções e atividades. Percebemos o Homem Supremo que não tem limitações individuais com as nossas próprias limitações. A ciência se preocupa com aquilo que não se restringe aos indivíduos; o mundo humano impessoal de verdades. A religião percebe essas verdades e as liga com as nossas necessidades mais profundas; a nossa consciência individual da Verdade ganha significância universal. A religião aplica valores para a Verdade, e nós reconhecemos esta Verdade como sendo boa por meio da nossa harmonia com ela.

EINSTEIN: A Verdade, então – ou a Beleza –, não é independente do homem?

TAGORE: Não.

EINSTEIN: Se não houvesse mais nenhum ser humano, o Apollo de Belvedere não seria mais belo.

TAGORE: Não.

EINSTEIN: Concordo no que diz respeito ao conceito de beleza, mas não com o que se refere à Verdade.

TAGORE: Por que não? A Verdade é percebida pelo homem.

EINSTEIN: Eu não posso provar que a minha concepção é verdadeira, mas essa é a minha religião.

TAGORE: A beleza é o ideal de perfeita harmonia que está presente no Ser Universal; a Verdade como a perfeita compreensão da Mente Universal. Nós, como indivíduos, a abordamos através de erros e enganos, através de experiências acumuladas, de consciência iluminada – como, de outra forma, reconheceríamos a Verdade?

EINSTEIN: Não posso provar cientificamente que a Verdade deve ser concebida como uma Verdade válida independentemente da humanidade; mas acredito nisso firmemente. Acredito, por exemplo, que o teorema de Pitágoras em estados geométricos é aproximadamente verdadeiro, independentemente da existência do homem. De qualquer forma, se existe uma realidade independente do homem, deve existir também uma Verdade relativa a essa realidade – e, da mesma forma, a negação da primeira levaria à negação da existência da segunda.

TAGORE: A Verdade, que é uma com o Ser Universal, deve essencialmente ser humana, de outra forma qualquer coisa que nós, indivíduos, percebemos como verdadeira não pode ser chamada de Verdade – pelo menos a Verdade que é descrita como científica e que somente pode ser alcançada pelo processo da lógica; em outras palavras, pelo órgão do pensamento (cérebro), que também é parte do ser humano. De acordo com a filosofia indiana, existe o Brahman, a Verdade absoluta, que não pode ser concebido pelo isolamento da mente individual nem descrito pelas palavras, somente pode ser experimentado com a completa imersão do indivíduo no seu infinito. E essa Verdade não pode pertencer à ciência. A natureza da Verdade que estamos discutindo é apenas uma aparência – quer dizer, aquilo que parece ser verdadeiro para a mente humana e, portanto, é humano e pode ser chamado maya, ou “ilusão”.

EINSTEIN: Assim, de acordo com a sua concepção, que pode ser considerada a concepção indiana, essa ilusão não é algo individual, mas da humanidade como um todo.

TAGORE: A espécie também pertence a uma unidade, à humanidade. Portanto, a mente humana coletiva percebe a Verdade; a mente indiana ou a europeia se encontram em uma percepção comum.

EINSTEIN: A palavra “espécie” é usada em alemão para descrever todos os seres humanos; na realidade, os símios e os sapos pertenceriam a ela também.

TAGORE: Na ciência, utilizamos o processo de eliminar as limitações da nossa mente individual para, então, alcançar a compreensão da Verdade que é a mente do Homem Universal.

EINSTEIN: O problema começa quando a Verdade independe da nossa consciência.

TAGORE: O que chamamos de “verdade” se encontra na harmonia racional entre os aspectos subjetivos e objetivos da realidade, e ambos pertencem ao homem superpessoal.

EINSTEIN: Mesmo na vida diária, nós nos sentimos compelidos a atribuir uma realidade independente do homem aos objetos que utilizamos. Fazemos isso para conectar as experiências dos nossos sentidos de forma razoável. Por exemplo, se ninguém se encontra nesta casa, a mesa permanece onde está.

TAGORE: Sim, ela permanece fora da mente individual, mas não da mente universal. A mesa que percebo é perceptível pelo mesmo tipo de consciência que eu possuo.

EINSTEIN: Contudo, se ninguém estivesse na casa, a mesa ainda existiria da mesma forma – e isso já é ilegítimo sobre o seu ponto de vista –, porque não podemos explicar o que significa que a mesa está lá, independente de nós. O nosso ponto de vista natural no que tange à existência de uma Verdade independente da humanidade não pode ser explicado ou provado, mas é uma crença que ninguém pode deixar de ter – nem mesmo seres primatas. Atribuímos a Verdade a uma objetividade superhumana; ela nos é indispensável, essa realidade independente da nossa existência e da nossa experiência e da nossa mente – embora não possamos dizer o que ela significa.

TAGORE: A ciência provou que a mesa como objeto sólido é uma aparência e, portanto, algo que a mente humana percebe como uma mesa não existiria se todas as mentes não existissem. Ao mesmo tempo, deve-se admitir que o fato de que a realidade física não passa de uma grade variedade de centros rotatórios de força elétrica também pertence à mente humana. Na compreensão da Verdade, existe um conflito eterno entre a mente universal e a mesma mente confinada em um indivíduo. O processo perpétuo de reconciliação está sendo executado pela nossa ciência, pela nossa filosofia e pela nossa ética. De qualquer forma, se existisse qualquer Verdade absolutamente dissociada da humanidade, para nós ela seria totalmente inexistente. Não é difícil imaginar uma mente em que a sequência das coisas acontece não no espaço, mas somente no tempo, como a sequência de notas de uma música. Para tal mente, essa concepção de realidade é semelhante à realidade musical na qual a geometria piTAGOREana não tem significado algum. Existe a realidade do papel, que é infinitamente diferente da realidade da literatura. Pois, para a mente de uma traça que come o papel, a literatura contida em uma folha é totalmente inexistente, enquanto para a mente do homem a literatura tem um valor muito maior de Verdade que o papel em que ela foi escrita. De forma similar, se existisse uma Verdade que não guardasse relação racional ou sensual com a mente humana, ela permaneceria sendo um nada irreconhecível enquanto formos seres humanos.

EINSTEIN: Então sou mais religioso que você.

TAGORE: A minha religião é a reconciliação do Homem Superpessoal, o espírito universal humano, no meu próprio ser.


Em um segundo encontro, no dia 19 de agosto de 1930, o diálogo extraordinário continuou:


TAGORE: Eu estava discutindo… Hoje as descobertas matemáticas, que nos dizem que, no mundo dos átomos infinitesimais, a chance tem o seu papel, o drama da existência não é predestinado de uma forma absoluta.

EINSTEIN: Os fatos que fazem com que a ciência se mova nessa direção não dizem adeus à causalidade.

TAGORE: Talvez não, mas parece que a ideia de causalidade não está nos elementos, e sim que outra força constrói com eles o universo organizado.

EINSTEIN: Tentamos entender como a ordem se estabelece no plano superior. A ordem está lá, onde os grandes elementos se combinam e guiam a existência; nos elementos diminutos, todavia, essa ordem não é perceptível.

TAGORE: Essa dualidade está na profundeza da existência – as contradições do impulso livre e o desejo direcionado que se impõem sobre ele e criam um esquema ordenado das coisas.

EINSTEIN: A física moderna não diz que eles são contraditórios. As nuvens parecem de uma forma a distância, mas, ao observá-las de perto, elas se apresentam como gotas de água desordenadas.

TAGORE: Identifico um paralelo na psicologia humana. As nossas paixões e os nossos desejos são indisciplinados, mas o nosso caráter submete esses elementos em um todo harmonioso. Seriam os elementos rebeldes, dinâmicos, com o impulso individual? Existe algum princípio no mundo físico que os domina e os coloca em uma organização estruturada?

EINSTEIN: Nem mesmo os elementos existem sem ordem estatística; os elementos do radium sempre mantêm a sua ordem específica, da mesma forma como o fizeram anteriormente. Existe, então, uma ordem estatística dos elementos.

TAGORE: Senão o drama da existência seria por demais desordenado. É a harmonia constante da chance e do determinismo que faz com que ela seja eternamente nova e vivível.

EINSTEIN: Acredito que tudo o que fazemos ou vivemos tem uma causa por trás; é melhor, todavia, que possamos olhar através dela.



(O Verdadeiro Criador de Tudo; Miguel Nicolelis)



(Ilustração: Rabindranath Tagore and Albert Einstein in 1930)

sábado, 11 de abril de 2026

UNS & OUTROS, de Waly Salomão




Onde ouro e palmeiral, paisagens, mesas de altos manjares

Onde solares e ilusão, fazendas, castelos, pastagens

Onde braceletes, carrões, piscinas azul-turquesa

Nada melhor de se mirar

Neste rico mundo — para uns.

Onde, para mim, é conjugar contigo o verbo AMAR,

MARTA,

E, os dois, incarnar as pessoas, os tempos e os modos deste verbo.

Em contente união.

Uns

Outros

Tenho dito a mim mesmo repetidas vezes:

"E foi para isso que tu, ó Poeta, ouviste os profetas

Do Oriente e os hinos dos Gregos

E ainda há pouco o roncar dos trovões, para colocares

O Espírito em uso servil e ultrapassares em escárnio

A presença do bom, e negares o simples,

Sem coração e em jogo mercenário

Tangê-lo como animal cativo?"

Tenho dito.

E foi para isso que aprendes de cor e salteado, que decoraste

Que gravaste no coração as baladas de Villon, o Vagabundo

E pregaste nas paredes as canções de amor de Safo?

Tenho dito.

Tenho dito e aqui repito.

Que sou nefelibata nato.

Que antanho me supus uma máscara inscrita: "GIGOLÔ DE BIBELÔS".

Que sempre serei surrupiador de souvenirs.

E é assim, Poeta, que te indefines?

Assim te desenrolas das peçonhas e as malhas de lei não podem te

pescar.

Quem és, afinal? A qual espécie de peixe pertences?

Um mero embaralhador de cartas.

Um mero embaralhador de cartas pousadas sobre o veludo da mesa

deste profuso cassino.



(Ilustração: Pablo Picasso - the poet)