domingo, 29 de setembro de 2013

GOL, de Ferreira Gullar







A esfera desce
do espaço
         veloz
ele a apara
no peito
e a para
no ar
         depois
como o joelho
a dispõe à meia altura
onde
iluminada
a esfera
         espera
o chute que
         num relâmpago
a dispara
         na direção
         do nosso
         coração. 




(Ilustração: Tim Lane - entering the mainstream)



quinta-feira, 19 de setembro de 2013

ESTRANHOS ITÁLICOS NA BÍBLIA INGLESA, de Henry Miller







Fui à cozinha e iniciei uma carta. "Querida Mara - Todos os nossos problemas estão resolvidos..." Continuei como se tudo estivesse claro e definitivo. Mara me parecia diferente agora. Eu me via debaixo das grandes árvores falando com ela de uma maneira que me surpreendia. Caminhávamos de braços dados através das folhagens densas, conversando como seres humanos. Havia uma grande lua amarela e os cães ganiam atrás de nós. Ela desejava um casal de cisnes para o laguinho dos fundos da casa. Nenhuma conversa de dinheiro, nada de luzes neon ou de comida chinesa. Que maravilha simplesmente respirar com naturalidade, jamais se apressar, jamais ir a parte alguma, jamais fazer algo importante - exceto viver! Ela também pensava assim. Tinha mudado, Mara. Seu corpo estava mais cheio, pesado; movia-se lentamente, falava com calma, guardava silêncio durante longos períodos, tudo com um ar tão real e natural. Se acaso desaparecesse, eu tinha a certeza de que voltaria inalterada, com um aroma ainda mais doce, pisando com maior segurança...

- Será que você percebe, Mara, como vai ser bom?

E lá ia eu, pondo tudo no papel tão sinceramente, quase chorando diante do maravilhoso cenário, quando ouvi Maude caminhando de um lado para outro no vestíbulo. Juntei as folhas de papel e dobrei-as. Botei a mão sobre elas e esperei que ela dissesse alguma coisa.

- Para quem está escrevendo? - perguntou, com toda a objetividade e segurança.

- Uma pessoa conhecida - respondi calmamente.

- Uma mulher, imagino?

- Sim, uma mulher. Uma jovem, para ser mais exato... Eu disse isso pesadamente, solenemente, ainda preso ao transe, à imagem de Mara debaixo das grandes árvores, dos dois cisnes boiando sem rumo no lago sereno. Se ela quiser saber, pensei comigo mesmo, eu acabo contando. Não vejo por que continuar mentindo. Não a odeio, como antigamente. Gostaria que ela pudesse amar como eu amo - as coisas seriam tão mais fáceis. Não quero magoá-la. Só quero que me deixe em paz.

- Você está apaixonado por ela. Não precisa responder: eu sei.

- Sim, é verdade: estou apaixonado. Encontrei alguém que realmente amo.

- Talvez você a trate melhor do que me tratou.

- Espero que sim - disse eu, ainda calmo, ainda esperando que me escutasse até o fim. - Na verdade nunca nos amamos, não é verdade, Maude?

- Você nunca teve o menor respeito por mim, como ser humano - replicou ela. - Insulta-me na frente de seus amigos; sai por aí com outras mulheres; nem chega a mostrar qualquer interesse por sua filha.

- Maude, eu queria que pelo menos uma vez você não falasse assim. Gostaria muito que pudéssemos conversar sobre o assunto sem amargura.

- Você pode, porque é feliz. Encontrou um novo brinquedo.

- Não é isso, Maude. Escute, supondo que tudo o que você diz seja verdade, que diferença faz agora? Supondo que estivéssemos num navio e ele estivesse afundando...

- Não vejo por que a gente tenha que supor coisas. Você vai recomeçar a vida com outra pessoa e eu vou ficar com toda a trabalheira, todas as responsabilidades.

- Eu sei - disse eu encarando-a com ternura sincera. - Quero que você tente me perdoar por isso; seria capaz? Que adiantaria eu ficar? Jamais aprenderíamos a nos amar. Não podemos nos separar como amigos? Não pretendo deixá-la no abandono. Vou tentar contribuir com a minha parte: prometo.

- É fácil dizer isso. Você está sempre prometendo coisas que não é capaz de cumprir. Se esquecerá de nós assim que puser o pé fora desta cada. Eu o conheço bem. Não posso me dar ao luxo de ser generosa com você. Decepcionou-me amargamente desde o início. Você foi egoísta, extremamente egoísta. Nunca pensei que fosse possível a um ser humano tornar-se tão cruel, tão insensível, tão desumano. Mas o reconheço agora. É a primeira vez que age como um...

- Maude, é cruel o que vou dizer, mas tenho que dizer. Quero que você entenda uma coisa. Talvez eu tivesse que atravessar tudo isso com você para aprender como se trata uma mulher. Não sou inteiramente culpado: o destino também teve a ver com isso. Sabe, no momento em que botei os olhos nela eu sabia...

- Onde foi que a conheceu? - disse Maude, cedendo subitamente à sua curiosidade feminina.

- Num salão de danças. É uma taxi-girl. A referência não é boa, eu sei. Mas se você a visse...

- Não quero vê-la. Não quero saber mais nada sobre ela. Só estava um pouco curiosa... Lançou-me um rápido olhar de compaixão. - E você acha que esta é a mulher que o fará feliz?

- Você a chama mulher; não é uma mulher, é apenas uma garota.

- Pior ainda. Meu Deus, como você é bobo!

- Maude, não é nada do que você está pensando. Você não deve julgar, na verdade. Como poderia saber? De qualquer modo, não me interessa. Já tomei minha decisão.

Deixou cair a cabeça. Parecia indescritivelmente triste e cansada, como um farrapo humano pendente de um gancho de carne. Baixei a vista até o chão, incapaz de suportar a visão de seu rosto.

Ficamos sentados assim durante uns poucos minutos carregados, nenhum de nós ousando erguer a vista. Ouvi um choro, e quando levantei os olhos vi o seu rosto contraído pela dor. Botou os braços na mesa e, chorando e soluçando, deitou a cabeça, encostando o rosto contra a madeira. Eu a tinha visto chorar muitas vezes, mas esta era a mais penosa  irresistível forma de derrota. Enervou-me. Inclinei-me sobre ela e pus a mão no seu ombro. Tentei dizer alguma coisa mas as palavras me ficaram presas na garganta. Sem saber o que fazer passei a mão sobre seus cabelos, acariciei-os tristemente, e também de um modo distante, como se fosse a cabeça de um estranho animal ferido que eu encontrasse no escuro.

- Vamos, vamos - consegui balbuciar - isto não vai adiantar nada.

Os soluços redobraram. Eu sabia que tinha dito a coisa erra. Mas não havia nada a fazer. Não importa o que pretendesse fazer: mesmo que quisesse se matar, eu não podia mudar a situação. Esperava as lágrima. Esperava também fazer o que estava fazendo: afagar-lhe os cabelos enquanto chorava e dizer a coisa errada. Se ela quisesse supera a crise e ir para a cama, eu poderia sentar-me e terminar a carta. Poderia acrescentar um post scriptum sobre a cauterização da ferida. Poderia dizer com um misto de alegria e tristeza: "Terminou".

Era o que me passava pela cabeça enquanto acariciava seus cabelos. Nunca estivera tão distante dela. Sentia as convulsões do seu corpo, mas sentia também prazer ao pensar em como estaria serena uma semana depois de minha partida. - Você vai se sentir uma nova mulher - pensava comigo mesmo. - Agora você atravessa toda essa angústia. É natural, e não a censuro por isto: só peço que acabe logo! Acho que lhe dei uma sacudidela para sublinhar o pensamento, pois naquele instante ela subitamente se aprumou e, olhando com olhos selvagens, desesperançados, congestionados pelas lágrimas, abraçou-me e puxou-me para ela num abraço frenético e sentimental. - Diga que não vai me deixar - soluçava ela, beijando-me com lábios salgados e famintos. - Ponha os braços em volta de mim, por favor. Me abrace com força. Meu Deus, sinto-me perdida!... Beijava-me com uma paixão que eu jamais sentira nela. Punha nisso corpo e alma - e todas as mágoas que existiam entre nós. Deslizei as mãos até suas axilas e a botei de pé suavemente. Estávamos unidos como amantes, oscilando como só o animal humano pode oscilar quando se entrega profundamente ao outro. Seu quimono resvalou e estava nua por baixo. Levei a mão a suas costas, a suas nádegas carnudas, mergulhei os dedos até o fundo da grande rachadura, apertando-a contra mim, mordendo seus lábios, mordendo os lóbulos de suas orelhas, o pescoço, lambendo-lhe os olhos, fechando o pensamento. Curvou-se como se fosse cair ao chão. Agarrei-a e levei-a pelo vestíbulo, subindo as escadas e jogando-a na cama. Caí em cima dela, meio entorpecido, e deixei que me arrancasse as roupas. Deitei-me de costas como um morto, com uma só coisa viva, a pica. Senti sua boca engolindo-a e a meia do pé esquerdo saindo lentamente. Passei os dedos por seu longos cabelos, deslizei-os em volta de seus seios, apalpei sua buceta que estava macia como borracha. Ela fazia uma espécie de movimento rotativo no escuro. Suas pernas desceram por cima de meus ombros e a buceta encostou em meus lábios. Manipulei sua bunda sobre minha cabeça, assim como levantaria um balde de leite para mitigar uma sede preguiçosa, e bebi e mordi e me saciei como uma ave de rapina. Ela estava num cio tão violento que seus dentes mordiam perigosamente a cabeça do meu pau. Naquela paixão frenética e lacrimosa a que tinha chegado, eu temia que afundasse mais os dente e me arrancasse a ponta numa só mordia. Tive que lhe faze cócegas para obrigar seus maxilares a relaxarem. Depois disto foi serviço rápido e limpo: nenhuma lágrima, nenhuma história de amor, nenhuma promessa disto ou daquilo. Me ponha no bloco da foda e me foda! - era o que ela pedia. E lá fui eu com uma fúria premeditada. Esta poderia ser a última das fodas. Maude já era uma estranha para mim. Estávamos cometendo adultério, do tipo apaixonado e incestuoso que a Bíblia adora relatar. Abraão aproximou-se de Sarah, ou de Leandra e a conheceu. (Estranhos itálicos na Bíblia inglesa.) Mas a maneira como aqueles velhos patriarcas tesudos trepavam suas esposas novas e velhas, irmãs, vacas e ovelhas, era de profundo conhecimento. Deviam mergulhar de cabeça, com todo o engenho e habilidade de velhos libertinos. Eu me sentia como Isaac fornicando com um coelho no templo. Ela era um coelhinho branco de orelhas compridas. Tinha ovinhos de Páscoa dentro dela e os deixava cair um por um numa cestinha. Eu enfiei uma coisa comprida dentro dela, estudando cada fissura, cada talho e ruptura, cada uma das saliências redondas que tinham crescido até adquirir o tamanho de uma ostra enrugada. Ela se afastou e fez um descanso, lendo o pau como Braille (Ponto Nova Iorque) com seus dedos indagadores. Agachou-se de quatro como um animal-fêmea, tremendo e relinchando com indisfarçado prazer. Nenhuma palavra humana dela, nenhum sinal de que conhecia alguma língua a não ser esta da foda desenfreada a todo vapor. O cavalheiro do Mississípi tinha-se apagado completamente; tinha-se recolhido ao limbo pantanoso que forma a superfície permanente dos continentes. Um cisne permanecia,, um octorum com lábios rubis de pato colados numa cabeça azul-pálido. Cedo estaremos na abundância, as coisas vão jorrar com ameixas e abricós caindo do céu. Um último empurrão, o arrastar de cinzas brancas de calor, abafadas, e então dois lenhos deitados lado a lado esperando pela machadinha. Belo final. Royal flush. Eu a conheci e ela me conheceu. A primavera vai voltar e o verão e o inverno. Ela dançará nos braços de outro, praticará com ele uma foda cega, relinchando, jorrando, agachada e flexionada - mas não comigo. Já cumpri meu dever, ministrando-lhe os últimos rituais. Fechei os olhos e fiz que estava morto para o mundo. Sim, aprenderíamos a viver uma nova vida, Mara e eu. Preciso acordar cedo e esconder a carta no bolso do casaco. Às vezes é estranho como a gente termina um caso. Sempre se pensa em por a última palavra no livro de contas com um floreio largo; nunca se pensa no autômato que fecha a conta enquanto dormimos. Isso acontece segundo o tipo mais rigoroso de lançamento contábil. Dá calafrios na gente, tudo tão bem calculado.

A machadinha está descendo. Últimas ruminações. O Expresso. Lua de Mel e todos a bordo: Memphis, Chattanooga, Nashville, Chickamauga. Passando por campos nevados de algodão... crocodilos bocejando na lama... o último abricó apodrecendo no gramado... a lua está cheia, a vala profunda, a terra é negra, negra, negra.


(Sexus; tradução de Roberto Muggiati)



(Ilustração: Jack Vetriano - the embrace of the spider)



segunda-feira, 16 de setembro de 2013

HAI-KAIS, de Alice Ruiz







 apaga a luz
 antes de amanhecer
 um vagalume


                vento seco
                entre os bambus
                barulho d' água


 tanta poesia no gesto
 nenhum poema
 o diria


                o relógio marca
                48 horas sem te ver
                sei lá quantas para te esquecer


 circuluar
 sonho ímpar
 acordo par


                desacerto
                entre nós
                só etceteras




            (Desorientais)


(Ilustração: Wesley Duke Lee - this is easy)





sexta-feira, 13 de setembro de 2013

SETEMBRO É DE ALLENDE, de Antonio Skarmeta







Salvador Allende não era um guerrilheiro que um dia desceu da montanha, nem um profeta alucinado que desembarcou de uma arca com anjos armados até os dentes, nem um poeta irrealista que confundia nuvens com tanques. Era mais parecido com um cidadão comum. Não uma aparição súbita, mas alguém que esteve aí perto de sua vida todos os dias.


O mundo o recorda nos 40 anos de sua morte no palácio presidencial La Moneda, do Chile, como um revolucionário. Para os chilenos, sua "revolução" não era o exercício da violência para "fazer parir" a história, mas a paciente e trabalhosa luta de uma vida para alcançar a presidência da república, em 1970, que lhe permitisse dar uma forma a seu sonho e ao da sociedade que representava: promover um socialismo democrático - com todas as liberdades permitidas - original em seu desenho e, portanto, diferente dos socialismos e comunismos estabelecidos no mundo. Com voz marcadamente folclórica, Allende a chamou de "uma revolução com gosto de empanada e vinho tinto".

Sua carreira política era a de um funcionário exemplar - havia percorrido todas as instituições da república. Foi ministro de Estado, deputado, senador e, antes de ser eleito para governar o país, havia sido nada menos do que presidente do Senado, a suprema instituição que cria as leis, o foco luminoso de legitimidade democrática onde estão representados os diversos partidos para dar ao país uma condução republicana e consensual. Antes de ser presidente do Chile, ele percorreu as instituições da república e se sentia orgulhoso do país onde a Constituição regia a vida do povo e queria acatar essas leis que a república criava.

Essa Constituição permitiu que, em 1970, Salvador Allende fosse eleito com uma maioria relativa e depois ratificado pelo Senado como presidente do Chile. Àquela altura, o povo o conhecia bem: era um político tarimbado e voluntarioso, fora candidato a presidente três vezes, em 1952, em 1958 e em 1964. Às vezes, perdeu por muito, mas às vezes, por muito pouco. Jamais desenhou outra estratégia senão as urnas e o voto popular para chegar ao governo. Antes de ser eleito presidente, ele emitiu sua mais célebre autoironia. Ele traçou seu próprio epitáfio: "Aqui jaz Salvador Allende, futuro presidente do Chile".

Allende foi personagem de meus romances em várias ocasiões. Destacadamente em A Garota do Trombone, obra que justamente culmina com a celebração popular de seu triunfo eleitoral, em 1970, e se dedica contundentemente a outros momentos mais íntimos e mais cálidos do "mito". Allende, médico por profissão, visita a jovem protagonista e narradora do romance, que está enferma, muito antes de ser o trágico herói mundial de 1973.

A ação desse romance transcorre no ano de 1958, justamente quando a popularidade do candidato socialista é enorme e a direita vê com pavor o fato de um "comunista" ter tantas chances de vencer a eleição que desenha uma estratégia audaciosa para tirar-lhe votos. Ela "inventa" um candidato de pitoresca atração popular, armado com um discurso não menos esquerdista que Allende, mas com a vantagem de não ser um tribuno marxista, mas um simpático padre de povoado, Catapilco, absolutamente inofensivo, mas com um carisma na esquerda "inocente" que serve às maravilhas a seu objetivo eleitoral.

Os números finais dos concorrentes de 1958 que realmente importam são estes: o candidato da direita, Jorge Allessandri, teve 31,2% dos votos. Salvador Allende obteve 28,5%. E o padre de Catapilco, 3,3%. Milimetricamente o necessário para derrotar Allende. Era um tempo de maquiavelismo folgazão. Eram os dias amáveis de A Garota do Trombone. A hábil guerra das urnas. Allende está vivamente ativo no coração das disputas eleitorais e acata a derrota amarga por pequena margem. Em 1973, porém, o maquiavelismo lúdico se esfumaça: a direita conquistará com bombardeios, tanques, ruptura institucional e ódio psicopata o que não pôde conseguir pelo voto.

Allende tinha um físico - digamos, uma expressão corporal - que transmitia calidez e certeza. Era uma pose soberana: o olhar alerta, dentro de óculos de aros grossos e o peito inchado de pombo orgulhoso. Era uma figura familiar e rotunda, a de alguém que representa a história de um país ao qual serviu em tantas funções - talhado na nobreza dessa tradição. Agora, aspirava conduzir essa tradição republicana para uma transformação profunda que desse ao Chile soberania sobre seus recursos naturais e aos trabalhadores uma porção maior na injusta repartição da riqueza.

Quando ele promoveu a nacionalização do cobre, o Senado apoiou a medida por unanimidade. Ninguém queria ser renegado como antipatriota. No entanto, quando veio o golpe de Augusto Pinochet, com a consequente supressão do Senado, a primeira coisa que se decretou foi a "desnacionalização" do cobre. Isto é, o "soldo do Chile" passou de novo para companhias privadas e investidores estrangeiros.

Alguém poderia perguntar espantado por que se tem do Chile uma memória tão viva e emocional em quase todo o mundo ocidental, quando há tantos outros países que sofreram atropelos, repressões bárbaras e violações dos direitos humanos semelhantes. Países que também praticaram o "terrorismo de Estado" tal como o de Pinochet.

Minha resposta é que quando Allende se tornou o primeiro "marxista" eleito democraticamente, os países europeus, afetados por fortes crises e destinos incertos, viram nos episódios do pequeno e longínquo Chile sinais que poderiam ser significativos na Europa. Na Espanha ainda estava Franco. Na França, Mitterrand estava muito longe de chegar ao poder. Na Alemanha, os "verdes" ainda não haviam se constituído como partido. A atenção da Europa se concentrou em meu país com curiosidade, simpatia e ternura. O que ele oferecia não poderia ser mais desejável, um "socialismo democrático e pela via pacífica". E, quando esse sonho foi arrebentado a canhonaços, eclodiu também a tristeza e a ira dos cidadãos do mundo.

Grande parte dessa nobre imagem do Chile como um país que quis percorrer com dignidade e alegria um caminho rumo a um aprofundamento democrático tem a ver com a figura de Allende. Enfrentando um mar de turbulências, ele tratou de levar em frente seu programa revolucionário sem restringir a liberdade de ninguém, sem suprimir a oposição e sem reprimir com violência os grupos insurreccionais que paralisavam o país.

Uma semana antes do golpe, eu fiz parte do 1 milhão de pessoas que desfilou diante dele para mostrar apoio e apreço. Entre essa multidão era fácil distinguir um grupo de 500 jovens com passos marciais gritando palavras de ordem de violência revolucionária e carregando sobre os ombros um pedaço de madeira, no caso, um cabo de vassoura. Jovens que tinham a ilusão de que poderiam defender seu presidente quando o golpe iminente chegasse com armas. Os cabos que carregavam poderiam ter sido a metáfora de fuzis. Não. Eram apenas isso: cabos de vassoura. A batalha de Pinochet foi contra um povo desarmado.

Outro fator que contribuiu para a imensa memória de Allende foi a dignidade de sua morte. Quando o Palácio de la Moneda ficou à mercê dos aviões que o bombardeavam, ele fez seu último discurso. "Pagarei com minha vida a defesa dos princípios que são caros a esta pátria". No entanto, nenhuma me calou mais fundo que esse sentido de homenagem à paz, à ética e à responsabilidade republicana quando ele finalizou dizendo: "Tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão, que pelo menos será uma lição moral que castigará a felonia, a covardia e a traição".

"Pelo menos"... Ah, presidente. Quanto "mais" há nesse "menos"! Os generais que o derrotaram hoje fazem parte da ignomínia universal: seus nomes foram esquecidos e, quando são recordados, o são apenas como ícones de horror e desumanidade. E seu nome, Allende, seu "menos" continua inspirando homens e mulheres do mundo que querem mais justiça, mais inclusão social, melhor repartição da riqueza e verdadeira soberania nacional.

Os "golpistas", depois de seu triunfo de 1973 sobre o povo desarmado, batizaram a avenida principal do bairro mais rico do Chile de "Avenida 11 de Septiembre" para comemorar sua façanha. Quarenta anos depois, até esse setor direitista e endinheirado da população deu as costas ao mais fanático dos prefeitos pinochetistas, o coronel Cristian Labbé, e elegeu uma vizinha do bairro, Josefa Errazuriz, que conseguiu mudar o nome que ofendia os chilenos por sua designação tradicional, "Nueva Providencia". Hoje, na memória dos chilenos, setembro não pertence a Pinochet, mas a Allende.



(Tradução de Celso Paciornik; OESP - 11.9.2013)




(Ilustração: Salvador Allende; foto da internet, sem indicação de autoria)



terça-feira, 10 de setembro de 2013

AN ANCIENT GESTURE / UM GESTO ANTIGO, de Edna St. Vincent Millay








I thought, as I wiped my eyes on the corner of my apron:
Penelope did this too.
And more than once: you can’t keep weaving all day
And undoing it all through the night;
Your arms get tired, and the back of your neck gets tight;
And along towards morning, when you think it will never be light,
And your husband has been gone, and you don't know where, for years.
Suddenly you burst into tears;
There is simply nothing else to do.

And I thought, as I wiped my eyes on the corner of my apron:
This is an ancient gesture, authentic, antique,
In the very best tradition, classic, Greek;
Ulysses did this too.
But only as a gesture, — a gesture which implied
To the assembled throng that he was much too moved to speak.
He learned it from Penelope...
Penelope, who really cried.


Tradução de Carlos Machado:


Pensei, enquanto secava os olhos na ponta do avental:
Penélope também fez isto.
E mais de uma vez: não podes seguir tecendo o dia inteiro
e desfazendo tudo durante a noite.
Os braços se cansam, e a nuca se enrijece.
E a manhã se aproxima, quando pensas que nunca haverá luz,
e teu marido partiu, faz anos, não sabes para onde.
De repente, explodes em lágrimas;
não há outra coisa a fazer.

E pensei, enquanto secava os olhos na ponta do avental:
este é um gesto remoto, autêntico, antigo,
na melhor tradição clássica, grega.
Ulisses também fez isto.
Mas apenas como um gesto — um gesto que indicava
à plateia, que ele estava muito comovido para falar.
Aprendeu com Penélope...
Penélope, que realmente chorava.




(Ilustração: Francesco Primaticcio - Odysesus und Penelope)



sábado, 7 de setembro de 2013

LEMBRAS-TE?, de Olinda Beja






Migu d’omê, sá kloson dê

(O amigo do homem é o seu coração)


Trazias nos olhos a longidão de um outro Atlântico, frio e brumoso, oceano profundo que deixaste na amurada de teus pensamentos lusos, viagem de emoções e expectativas. E nesse trajecto trouxeste cheiros de outros corpos e de outras plantas, retalhos de vidas que se aninharam na tua mente  entristecida e só, fruto de uma latinidade enregelada e fatalista.

Chegaste um dia. Lembras-te? Era Primavera no teu longe. Aqui, sabes, não há Primavera, não há o primeiro Verão. Aqui só vive e canta a chuva e o sol embrulhados em folhas de gravana ou desnudados em noites acaloradas como romances de amores proibidos, amores acasulados apenas com a nossa dimensão arquipelágica.

Trazias o voo dos teus pássaros migrantes, dicionário alado que tentaste reproduzir no solo ilhéu onde teus pés feridos e calejados de outros chãos repousaram por fim. Mas as tuas aves não vieram no teu peito nem na proa do navio grande que te trouxe nem se aninharam em tuas mãos rudes e prósperas de sonhos como de sonhos se despojaram teus braços. E abraços. E as aves não migraram nem cantaram nos teus dedos. Apenas ouviste delas o bater de asa, plumas de frio que não se habituam nunca a sóis tórridos nem a sombras quentes de cacauzais alaranjados.

Chegaste. Lembras-te? Dançavam puíta no quintal de Sam Gidiba, mulata sem idade como todas as mulatas, herdeira de uma juventude inacabada, sensual e provocadora, blága penaconhecida na Trindade e arredores mas que ainda saracoteava  suas ancas num ritmo tão frenético e endemoinhado quanto a dança de konóbia ao tomar seu banho matinal nas águas sobrantes das margens dos rios. E ficaste extasiado ao ouvir o som frenético dos batuques. Que sons seriam aqueles?! Que ritmos? Que requebros? Tudo soava a novo para teus ouvidos lusos onde o arrastar triste e melódico de uma guitarra era a única ressonância que trazias na tua caixinha de música, sons de montes escarpados e nus, flauta de guardador de gado em terras de neve e gelo, sons frios como o teu corpo franzino que um grosso casaco de lã revestia. Depois teus etéreos passos te levaram por toda a ilha que foi tão gentil contigo! A ilha e os seus produtos, misturaste-te com eles, comeste kalulu, d’jógó, sôo, manga d’ôbô, bebeste café de Bom Jesus, até no dia das cinzas comeste “bôcadu” em casa da velha avó Sam Zinha e quando enfim, despertaste do teu encantamento, já sob as ramadas dos velhos cacaueiros corriam, descalços e seminus, teus filhos  meninos.

Não vinhas para ficar… lembras-te? Vinhas para encher teu baú (que viajou no porão) de fortunas, especiarias, tecidos raros, vinhas para dar ordens, ensinar, amealhar e partir de novo como quem cumpre um roteiro escolhido numa qualquer conversa de amigos ou numa agência de viagens. Sabias ler, escrever, fazer contas, o que era um trunfo a teu favor naquele tempo em que eram muito poucos os que podiam exibir tais artes. Por isso vinhas, tal como Sandokan, conquistar facilmente um reino do qual um outro antepassado teu te contara maravilhas sem fim, maravilhas que passavam de boca em boca, se dispersavam em semicírculo às lareiras fumarentas de povos distantes. Era uma teia aquele contar e recontar de estórias da terra-mãe, da ilha onde a fortuna era fácil para qualquer homem de pele clara que nela aportasse… E tu trazias essas estórias coladas ao corpo, pregadas na alma como as mãos de Cristo no madeiro, e foi com elas que entraste no barco grande que te trouxe a esta terra. Que depois foi tua. Que amaste logo nessa noite em que o ritmo desenfreado da puíta se colou à tua alma como mais tarde se colou também ao teu corpo o corpo sempre sedento de Sam Gidiba…

Como foi importante para ti essa noite… Tu, meu longeavô, tu que vinhas colonizar e acabaste colonizado! Aceitaste os sons, a alegria exuberante, os cheiros intensos, o calor desmesurado e húmido, as doenças, os amores, sim, os amores, as nossas gargalhadas sibilantes, os nossos gestos futuristas como quem quer abraçar o mundo… Tudo tu entranhaste no teu ser como se tudo já fosse teu desde o dia em que viste pela primeira vez a claridade. Por isso dizias sempre que esta era a tua terra, que aqui estava o teu coração, aqui viviam os teus filhos, os teus netos e bisnetos, a tua posteridade…Nunca regressaste nem mais falaste da tua lusa gente e foi neste chão de basalto e de areia que se diluíram teus ossos pálidos e teus cabelos lisos e direitos como fio de prumo. Que estranho quando me olho ao espelho! Que estranho quando vejo a minha pele, quando sei que todo eu sou negro acetinado, negro carvão, pletu lu, lu, lu, como forro diz… Pois é, meu longeavô, quando me olho de alto a baixo quase quase me esqueço que sou um mosaico de raças, um cruzamento de terras de além do horizonte, um aventureiro de diferentes credos, um fruto de uma maré viva da nossa História tão pequena e afinal tão grande.

Hoje, meu longeavô,  hoje tenho mais do dobro da idade que tu tinhas,  quando aqui aportaste e estou exactamente no mesmo local onde pela primeira vez puseste teu pé em terra firme. Devo ser a tua quarta ou quinta geração, nem sei bem, bisneto de um filho teu que sempre falou de ti como de ti falaram as outras gerações que me antecederam. Que te conheceram e te amaram como tu os conheceste e amaste. Também fizeste erros, e muitos. Mas… quem os não faz?!

Fui ontem ao Arquivo Histórico. Foi o meu coração que me levou até lá. Como tu sempre disseste “ o amigo do homem é o seu coração”. Por isso estou feliz. Fui acertar contas com o meu e o teu destino, fui fazer as pazes com todas as raças do mundo porque com todas elas estamos entrelaçados. Quis ver de meus próprios olhos as letras redondas que desenhaste para os nomes dos contratados, escravos afinal, que durante tempos infindos aportaram nesta ilha. E, pela primeira vez, sim, pela primeira vez, meu longeavô, senti que estavas perto de mim, não pelo tempo cronológico que deixa suas marcas em nossos rostos mas pelos nomes que a tua mão direita desenhou nas linhas dos grandes cadernos das roças. Numa dessas linhas escreveste “Benguelino, contratado vindo numa leva de homens oriundos de Angola.” Quem seria este Benguelino, que histórias traria para contar nas ilhas, que roça o esperava?! Teria existido amizade entre ti e ele? Mas de certeza que dele muito falaste… Agora pergunto, meu longeavô, porque tenho eu o mesmo nome?! Seria mais lógico então ter o teu, António, tradicionalmente português, serrano, beirão, mas não, o teu nome e sobrenome diluíram-se em ti próprio pois não os deste a teus dois filhos mestiços. Sempre foi assim nas nossas ilhas, filhos mestiços com pai e sem nome. Mas eles, pelos vistos, pouco se importaram com isso e com a tua branquidão que se foi esbatendo até dela não restar senão lívida lembrança. Cruzaram-se com mulheres tongas, angolares, forras, todas elas de uma negrura que só a noite sem lua lhes iguala a cor. No entanto falaram sempre de ti aos teus vindouros, sussurraram o teu nome em sílabas dispersas na boca de minha avô Plácida, de minha bisavó Franzinha, de outras mais distantes ainda… Foste homem de muitas mulheres, disseram-me, mas de poucos filhos, segundo consta.

Fui ontem ao Arquivo Histórico, meu longeavô, e vi a tua mão direita deslizar firme e jovem, a caneta de aparo reluzente, a escrever “Benguelino, contratado vindo numa leva de homens oriundos de Angola”. Nesse dia, sem o saberes, passaste para o meu mundo… Serei eu, meu longeavô, serei eu, Benguelino da Costa Ferreira, condutor de táxi a tempo inteiro e plantador de cacau nas horas vagas, portador do teu sangue luso no meu corpo negro, serei eu que porei o teu nome ao meu filho que vai nascer pela lua cheia que se aproxima.



(Estórias da Gravana; escritora de São Tomé e Príncipe)



(Ilustração: Clotilde Fava)

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

CORAÇÃO, de Francisco José Tenreiro







Caminhos trilhados na Europa
de coração em África.
Saudades longas de palmeiras vermelhas verdes amarelas
tons fortes da paleta cubista
que o sol sensual pintou na paisagem;
saudade sentida de coração em África
 ao atravessar estes campos do trigo sem bocas
das ruas sem alegria com casas cariadas
pela metralha míope da Europa e da América
da Europa trilhada por mim negro de coração em África.
De coração em África na simples leitura dominical
dos períodos cantando na voz ainda escaldante da tinta
e com as dedadas de miséria dos ardinas das cities boulevards e baixa da Europa
trilhada por mim Negro e por ti ardina
cantando dizia eu em sua voz de letras as melancolias do orçamento que não equilibra
do Benfica venceu Sporting ou não
ou antes ou talvez seja que desta vez vai haver guerra
para que nasçam flores roxas de paz
com fitas de veludo e caixões de pinho;
oh as longas páginas do jornal do mundo
são folhas enegrecidas de macabro clube
com mourarias de facas e guernicas de toureiros.
Em três linhas (sentidas saudades de África) –
Mac Gee cidadão da América e da democracia
Mac Gee cidadão Negro e da negritude
Mac Gee cidadão Negro da América e do Mundo Negro
Mac Gee fulminado pelo coração endurecido feito cadeira eléctrica
(do cadáver queimado de Mac Gee do seu coração em África e sempre vivo
floriram flores vermelhas flores vermelhas flores vermelhas
e também azuis e também verdes e também amarelas
na gama policroma da verdade do Negro
na inocência de Mac Gee) – ;
três linhas no jornal como falso cartão de pêsames.
Caminhos trilhados na Europa
de coração em África.
De coração em África com o grito seiva bruta dos poemas de Guillén
de coração em África com a impetuosidade viril de I tôo am América
de coração em áfrica com as árvores renascidas em todas estações nos belos poemas de Diop
de coração em África nos rios antigos que o Negro conheceu e no mistério do Chaka-Senghor
de coração em África contigo amigo Joaquim quando em versos incendiários
cantaste a África distante do Congo da minha saudade do Congo de coração em África
de Coração em África ao meio-dia do dia de coração em África
com o Sol sentado nas delícias do zênite
reduzindo a pontos as sombras dos Negros.
Amodorrando no próprio calor da reverberação os mosquitos da nocturna picadela.
De coração em África em noites de vigília escutando o olho mágico do rádio
e a rouquidão sentimento das inarmonias de Armstrong.
De coração em África em todas as poesias gregárias ou escolares que zombam
e zumbem sob as folhas de couve da indiferença
mas que têm a beleza das rodas de crianças com papagaios garridos
e jogos de galinha branca vai até França
que cantam as volutas dos seios e das coxas das negras e mulatas
de olhos rubros como carvões verdes acesos.
De coração em África trilho estas ruas nevoentas da cidade
de África no coração e um ritmo de be bop be nos lábios
enquanto que à minha volta sussura olha o preto (que bom) olha um negro (óptimo) olha um mulato (tanto faz) olha um moreno (ridículo)
e procuro no horizonte cerrado da beira-mar
cheiro de maresias distantes e areias distantes
com silhuetas de coqueiros conversando baixinho à brisa da tarde
De coração em África na mão deste Negro enrodilhado e sujo de beira-cais
vendendo cautelas com a incisão do caminho da cubata perdida na carapinha alvinitente;
de coração em África com as mãos e o pés trambolhos disformes
e deformados como os quadros de Portinari dos estivadores do mar
e dos meninos ranhosos viciados pelas olheiras fundas das fomes de Pomar
vou cogitando na pretidão do mundo que ultrapassa a própria cor da pele
dos homens brancos amarelos negros ou às riscas
e o coração entristece à beira-mar da Europa
da Europa por mim trilhada de coração em África;
e chora fino na arritmia de um relógio cuja corda vai estalar
soluça a indignação que fez os homens escravos dos homens
mulheres escravas de homens crianças escravas de homens negros escravos dos homens
e também aqueles que ninguém fala e eu Negro não esqueço
como os pueblos e os xavantes os esquimós os ainos eu sei lá
que são tantos e todos escravos entre si.
Chora coração meu estala coração meu enternece-te meu coração
de uma só vez (oh órgão feminino do homem)
de uma só vez para que possa pensar contigo em África
na esperança de que para o ano vem a monção torrencial
que alagará os campos ressequidos pela amargura da metralha e adubados pela cal dos ossos de Taszlitzki
na esperança de que o Sol há-de prenhar as espigas de Trigo para os meninos viciados
e levará milho às cabanas destelhadas do último rincão da Terra
distribuíra o pão o vinho e o azeite pelos alíseos;
na esperança de que às entranhas hiantes de um menino antípoda
haja sempre uma túlipa de leite ou uma vaca de queijo que lhe mitigue a sede da existência.
Deixa-me coração louco
Deixa-me acreditar no grito de esperança lançado pela paleta viva de Rivera
E pelos oceanos de ciclones frescos das odes de Neruda;
deixa-me acreditar que do desespero másculo de Picasso sairão pombas
que como nuvens voarão os céus do mundo de coração em África.



(Obra Poética de Francisco José Tenreiro, de São Tomé e Príncipe)



(Ilustração: Simon Mungai - hunter-out)



domingo, 1 de setembro de 2013

O DIA EM QUE MATAMOS JAMES CAGNEY, de Moacyr Scliar






Uma vez fomos ao Cinema Apolo.

Sendo matinê de domingo, esperávamos um bom filme de mocinho. Comíamos bala café-com-leite e batíamos na cabeça dos outros com nossos gibis. Quando as luzes se apagaram, aplaudimos e assobiamos; mas depois que o filme começou, fomos ficando apreensivos...

O mocinho, que se chamava James Cagney, era baixinho e não dava em ninguém. Ao contrário: cada vez que encontrava o bandido - um sujeito alto e
bigodudo chamado Sam - levava uma surra de quebrar os ossos. Era murro, e tabefe, e chave inglesa, e até pontapé na barriga. James Cagney apanhava, sangrava, ficava de olho inchado - e não reagia.

A princípio estávamos murmurando, e logo batendo os pés. Não tínhamos
nenhum respeito, nenhuma estima por aquele fracalhão repelente.

James Cagney levou uma vida atribulada. Muito cedo teve de trabalhar para se
sustentar. Vendia jornais na esquina. Os moleques tentavam roubar-lhe o dinheiro. Ele sempre se defendera valorosamente. E agora sua carreira promissora terminava daquele jeito! Nós vaiávamos, sim, nós não poupávamos os palavrões.

James Cagney já andava com medo de nós. Deslizava encostado às paredes. Olhava-nos de soslaio. O cão covarde, o patife, o traidor. Três meses depois do início do filme ele leva uma surra formidável do Sam e fica caído no chão, sangrando como um porco. Nós nem nos importávamos mais. Francamente, nosso desgosto era tanto, que por nós ele podia morrer de uma vez - a tal ponto chegava nossa revolta.

Mas aí um de nós notou um leve crispar de dedos na mão esquerda, um discreto ricto de lábios. Num homem caído aquilo podia ser considerado um sinal animador. Achamos que, apesar de tudo, valia a pena trabalhar James Cagney. Iniciamos um aplauso moderado, mas firme.

James Cagney levantou-se. Aumentamos um pouco as palmas - não muito, o suficiente para que ele ficasse de pé. Fizemos com que andasse alguns passos. Que chegasse a um espelho, que se olhasse, era o que desejávamos no momento.

James Cagney olhou-se ao espelho. Ficamos em silêncio, vendo a vergonha surgir na cara partida de socos.

- Te vinga! - berrou alguém. Era desnecessário: para bom entendedor nosso silêncio bastaria, e James Cagney já aprendera o suficiente conosco naquele domingo à tarde no Cinema Apolo.

Vagarosamente ele abriu a gaveta da cômoda e pegou o velho revólver do pai. Examinou-o: era um quarenta e cinco! Nós assobiávamos e batíamos palmas. James Cagney botou o chapéu e correu para o carro. Suas mãos seguravam o volante com firmeza; lia-se determinação em seu rosto. Tínhamos feito de James Cagney um novo homem.

Correspondíamos aprovadoramente ao seu olhar confiante.

Descobriu Sam num hotel de terceira. Subiu a escada lentamente. Nós marcávamos o ritmo de seus passos com nossas próprias botinas. Quando ele
abriu a porta do quarto, a gritaria foi ensurdecedora.

Sam estava sentado na cama. Pôs-se de pé. Era um gigante. James Cagney olhou para o bandido, olhou para nós. Fomos forçados a reconhecer: estava com medo. Todo o nosso trabalho, todo aquele esforço de semanas fora inútil. James Cagney continuava James Cagney. O bandido tirou-lhe o quarenta e cinco, baleou-o no meio da testa: ele caiu sem um gemido.

- Bem feito - resmungou Pedro, quando as luzes se acenderam. - Ele merecia. Foi o nosso primeiro crime. Cometemos muitos outros, depois.




(Ilustração: Reuben Negron - Tom)