sábado, 30 de janeiro de 2016

UN LLORO, UN MORO, UN MICO, I UN SENYOR DE PUERTO RICO, / UM LOURO, UM MOURO, UM MICO E UM SENHOR DE PORTO RICO, de Anônimo catalão do século XIX









Un senyor de Puerto Rico


al balcó tenia un lloro


de rica ploma i bon pico:


un lloro dels que fan oro,


dels lloros que costen pico.


Un veí seu, que era moro,


de Tetuan, va rebre un mico.


Amarra aquest mico, el moro,


al balcó, quedant el lloro


a l’altre, però lluny del mico.


Mes tan i tan xerrà el lloro,


que un dia s’empipa el mico,


i amb rabiós alè de toro


l’embesteix. S’amaga el lloro,


trenca la cadena el mico,


salta a la gàbia del lloro,


surt el lloro, pica al mico,


xiscla el mico, xerra el lloro


i, amb l’esvalot, surt el moro


i el senyor de Puerto Rico.


– Per què no tanca el seu lloro?


– Per què no amarra el seu mico? –


Exclamen els dos fent coro,


volguent l’un agafar el lloro


i estirant-li, l’altre, el mico.


Cau el mico sobre el lloro.


El lloro li clava el pico.


Reganya les dents el mico


i, esbarat, mossega el moro


i el senyor de Puerto Rico.


Aquest renega del lloro,


prometent matar el mico,


mentre que, furiós, el moro


provoca l’amo del lloro


i embesteix a lloro i mico.


Cap amunt s’enfila el lloro,


cap avall s’escorre el mico


i, faltant tots al decoro,


agarrats queden el moro


i el senyor de Puerto Rico.


– ¡Ay, moro, si pierdo el loro!


li diu el de Puerto Rico.


Replica, cremat, el moro:


- Pagaràs ben car el lloro,


oh, cristià!, si es perd el mico.


A dalt l’escarneix el lloro,


a baix, fa mueques el mico,


i no se sap si és el moro


el que parla, o be és el lloro,


o el senyor de Puerto Rico.


Creix el brogit; vola el lloro,


cau al carrer sobre el mico...


Burrango el de Puerto Rico,


veient-se amb perill el lloro,


altre volta sobre el mico!


Es desfà com pot del moro.


Entra i pega un tiro al mico,


però l’erra i mata el lloro.


Cau desmaiat. Riu el moro


i fuig a buscar el mico.


Eixerit, retorna el moro


amb el lloro mort i el mico.


Auxilia el de Puerto Rico...


I després li envia el lloro


amb una carta, pel mico,


que diu: “Seis onzas en oro


per l’atemptat contra el mico,


d’un cristià reclama un moro.


Guardi’s, dissecat, el lloro.


Pagui’m ara, a mi, aquest pico”.


Veu això l’amo del lloro.


Es tira damunt del mico.


Mata el mico, mata el moro,


i, mort moro, mico i lloro,


fa un farcell... i a Puerto Rico!




Tradução de Fábio Aristimunho Vargas:





Um senhor de Porto Rico


na sacada tinha um louro


emplumado e bom de bico:


um louro a peso de ouro,


desses que só compra um rico.


Um vizinho, que era mouro


de Tetuan, ganhou um mico.


Amarra o mico, o mouro,


na sacada, e fica o louro


na outra, bem longe do mico.


Mas tanto gritava o louro


que um dia se irrita o mico,


e enlouquece como um touro


raivoso... Esconde-se o louro,


destrói a corrente o mico,


salta à gaiola do louro,


sai o louro e bica o mico,


grita o mico, grasna o louro


e, com os berros, sai o mouro


e o senhor de Porto Rico.


– Por que não tranca seu louro?


– Por que não prende seu mico?,


reclamam os dois em coro,


querendo um pegar seu louro


e puxando, o outro, seu mico.


Cai o mico sobre o louro.


O louro lhe crava o bico.


Dentes arreganha o mico


e, arrepiado, morde o mouro


e o senhor de Porto Rico


Este renega seu louro,


jurando matar o mico,


enquanto, furioso, o mouro


provoca o dono do louro


e enfurece louro e mico.


Vai, cabeça erguida, o louro;


sai, cabeça baixa, o mico;


e a eles todos o decoro


faltando, atracam-se o mouro


e o senhor de Porto Rico.


– ¡Ay, moro, si pierdo el loro!,


lhe diz o de Porto Rico.


Responde, ultrajado, o mouro:


– Pagará bem caro o louro,


ó cristão, se perco o mico!


Do alto desafia o louro,


faz careta, embaixo, o mico,


e não se sabe se é o mouro


quem fala, ou então se é o louro,


ou o senhor de Porto Rico.


Cresce a zorra; voa o louro,


cai na rua sobre o mico...


Se assusta o de Porto Rico,


ao ver em perigo o louro


novamente pelo mico!


Escapa às pressas do mouro.


Entra e dá um tiro no mico,


porém erra e mata o louro...


Cai desmaiado. Ri o mouro,


que corre buscar seu mico.


Esperto, retorna o mouro


com o louro morto e o mico.


Ajuda o de Porto Rico...


E depois lhe envia o louro,


com uma carta, pelo mico,


que diz: “Seis onças em ouro


pelo ataque contra o mico,


de um cristão exige um mouro.


Guarde, dissecado, o louro.


Mas agora pague o mico”.


Vê isso o dono do louro


e se volta contra o mico.


Mata o mico, mata o mouro.


Mortos mouro, mico e louro,


vai-se embora... a Porto Rico!





(Poesia Catalã, das Origens à Guerra Civil)




(Ilustração: Roger Giménez Tomeo - 2008)



quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A MORTE DE LINDOIA, de Basílio da Gama







(...) na mais remota, e interna
Parte do antigo bosque, escuro e negro,
Onde ao pé de uma lapa cavernosa
Cobre uma rouca fonte que murmura,
Curva latada de jasmins, e rosas.
Este lugar delicioso, e triste,
Cansada de viver tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindoia.
Já reclinada, como que dormia,
Na branda relva e nas mimosas flores,
Tinha a face na mão, e a mão no tronco
De um fúnebre cipreste, que espelhava
Melancólica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia, e cinge
Pescoço, e braços, e lhe lambe o seio.
Fogem de ver assim, sobressaltados,
E param cheios de temor ao longe;
E nem se atrevem a chamá-la e temem
Que desperte assustada, e irrite o monstro,
E fuja, e apresse no fugir a morte.
Porém o destro Caitutu, que treme
Do perigo da irmã, sem mais demora
Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes
Soltar o tiro, e vacilou três vezes
Entre a ira, e o temor. Enfim sacode
O arco e faz voar a aguda seta,
Que toca o peito de Lindoia e fere
A serpente na testa, e a boca e os dentes
Deixou cravados no vizinho tronco.
Açoita o campo coa ligeira cauda
O irado monstro, e em tortuosos giros
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno.
Leva nos braços a infeliz Lindoia
O desgraçado irmão, que ao despertá-la
Conhece, com que dor! no frio rosto
Os sinais do veneno, e vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito.
Os olhos, em que Amor reinava, um dia
Cheios de morte; e muda aquela língua,
Que ao surdo vento, e aos ecos tantas vezes
Contou a larga história de seus males.
Nos olhos Caitutu não sofre o pranto,
E rompe em profundíssimos suspiros,
Lendo na testa da fronteira gruta
De sua mão já trêmula gravado
O alheio crime e a voluntária morte.
E por todas as partes repetido
O suspirado nome de Cacambo.
Inda conserva o pálido semblante
Um não sei que de magoado, e triste,
Que os corações mais duros enternece.
Tanto era bela no seu rosto a morte!


(O Uraguai)




(Ilustração: José Maria de Medeiros - Lindóia, 1882)







domingo, 24 de janeiro de 2016

MONÓLOGO, de Novalis








 
O que se passa com o falar e o escrever é propriamente uma coisa maluca; o verdadeiro diálogo é um mero jogo de palavras. Só é de admirar o ridículo erro: que as pessoas julguem falar em intenção das coisas. Exatamente o específico da linguagem, que ela se aflige apenas consigo mesma, ninguém sabe. Por isso ela é um mistério tão prodigioso e fecundo - de que quando alguém fala apenas por falar pronuncia exatamente as verdades mais esplêndidas, mais originais. Mas se quiser falar de algo determinado, a linguagem caprichosa o faz dizer o que há de mais ridículo e arrevesado. Daí nasce também o ódio que tem tanta gente séria contra a linguagem. Notam sua petulância, mas não notam que o desprezível tagarelar é o lado infinitamente sério da linguagem. Se apenas se pudesse tornar compreensível às pessoas que com a linguagem se dá o mesmo que com as fórmulas matemáticas - elas constituem um mundo por si - jogam apenas consigo mesmas, nada exprimem a não ser sua prodigiosa natureza, e justamente por isso são tão expressivas - justamente por isso espelha-se nelas o estranho jogo de proporções das coisas. Somente por sua liberdade são membros da natureza e somente em seus livres movimentos a alma cósmica se exterioriza e faz delas um delicado metro e compêndio das coisas. Assim também com a linguagem - quem tem fino tato para seu dedilhado, sua cadência, seu espírito musical, quem percebe em si mesmo o delicado atuar de sua natureza interna, e move de acordo com ela sua língua ou sua mão, esse será o profeta; em contrapartida, quem sabe bem disso, mas não tem ouvido ou sentido bastante para ela, escreverá verdades como estas, mas será feito de palhaço pela própria linguagem e escarnecido pelos homens, como Cassandra pelos troianos. Se com isso acredito ter indicado com a máxima clareza a essência, a função da poesia, sei no entanto que nenhum ser humano é capaz de entendê-lo e disse algo totalmente palerma, porque quis dizê-lo, e assim nenhuma poesia resulta. Mas, e se eu fosse obrigado a falar? e se esse impulso a falar fosse o sinal da instigação da linguagem em mim? e minha vontade só quisesse tudo a que eu fosse obrigado, então isso, no fim, sem meu querer e crer, poderia sim ser poesia e tornar inteligível um mistério da linguagem? e então seria eu um escritor por vocação, pois um escritor é bem, somente, um arrebatado da linguagem?
 



(Pólen; Fragmentos; Diálogos; Monólogo; tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho)


(Ilustração: Kandinsky - Late)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A MORTE DE MOEMA, de Santa Rita Durão

  





É fama então que a multidão formosa
Das damas, que Diogo pretendiam,
Vendo avançar-se a nau na via undosa,
E que a esperança de o alcançar perdiam:
Entre as ondas com ânsia furiosa
Nadando o Esposo pelo mar seguiam,
E nem tanta água, que flutua vaga,
O ardor que o peito tem, banhando apaga.


Copiosa multidão da nau francesa
Corre a ver o espetáculo assombrada;
E ignorando a ocasião da estranha empresa,
Pasma da turba feminil, que nada.
Uma, que às mais precede em gentileza,
Não vinha menos bela, do que irada;
Era Moema, que de inveja geme,
E já vizinha à nau se apega ao leme.


“Bárbaro (a bela diz:) tigre e não homem...
Porém o tigre, por cruel que brame,
Acha forças, amor, que enfim o domem;
Só a ti não domou, por mais que eu te ame.
Fúrias, raios, coriscos, que o ar consomem,
Como não consumis aquele infame?
Mas pagar tanto amor com tédio, e asco...
Ah! que o corisco és tu... raio... penhasco!.


Bem puderas, cruel, ter sido esquivo,
Quando eu a fé rendia ao teu engano;
Nem me ofenderas a escutar-me altivo,
Que é favor, dado a tempo, um desengano.
Porém, deixando o coração cativo
Com fazer-te a meus rogos sempre humano,
Fugiste-me, traidor, e desta sorte
Paga meu fino amor tão crua morte?


Tão dura ingratidão menos sentira
E esse fado cruel doce me fora,
Se a meu despeito triunfar não vira
Essa indigna, essa infame, essa traidora.
Por serva, por escrava, te seguira,
Se não temera de chamar senhora
A vil Paraguaçu, que, sem que o creia,
Sobre ser-me inferior, é néscia e feia.


Enfim, tens coração de ver-me aflita,
Flutuar, moribunda, entre estas ondas;
A um ai somente, com que aos meus respondas.
Bárbaro, se esta fé teu peito irrita,
Nem o passado amor teu peito incita
(Disse, vendo-o fugir) ah! não te escondas
Dispara sobre mim teu cruel raio...”
E indo a dizer o mais, cai num desmaio.


Perde o lume dos olhos, pasma e treme,
Pálida a cor, o aspecto moribundo;
Com mão já sem vigor, soltando o leme,
Entre as salsas escumas desce ao fundo.
Mas na onda do mar, que, irado, freme,
Tornando a aparecer desde o profundo,
- Ah Diogo cruel! - disse com mágoa,-
E sem mais vista ser, sorveu-se na água.


Choraram da Bahia as ninfas belas,
Que nadando a Moema acompanhavam;
E vendo que sem dor navegam delas,
À branca praia com furor tornavam:
Nem pode o claro herói sem pena vê-las,
Com tantas provas, que de amor lhe davam;
Nem mais lhe lembra o nome de Moema,
Sem que amante a chore, ou grato gema.


(Caramuru)



(Ilustração: Victor Meireles; Moema, 1866)






segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

A MINHA CAUSA É A CAUSA DE NADA! (*), de Max Stirner






    

Há tanta coisa a querer a ser a minha causa! A começar pela boa causa, depois a causa de Deus, a causa da humanidade, da verdade, da liberdade, do humanitarismo, da justiça; para além disso, a causa do meu povo, do meu príncipe, da minha pátria, e finalmente até a causa do espírito e milhares de outras. A única coisa que não está prevista é que a minha causa seja a causa de mim mesmo! “Que vergonha, a deste egoísmo que só pensa em si!”

Vejamos então como se comportam com a sua causa aqueles para cuja causa se espera que nós trabalhemos, nos sacrifiquemos e nos entusiasmemos.

Vós que sabeis dizer tanta coisa profunda sobre Deus e durante milênios haveis “sondado os enigmas da divindade” e lhes perscrutastes o âmago, vós sabereis decerto dizer-nos como é que o próprio Deus trata a “causa de Deus”, que nós estamos destinados a servir. E de fato vós não fazeis mistério nenhum do modo como o Senhor se comporta. Qual é então a sua causa? Terá ele, como de nós se espera, feito de uma causa estranha, da causa da verdade e do amor, a sua própria causa? A vós, este mal-entendido causa-vos indignação, e pretendeis ensinar-nos que a causa de Deus é sem dúvida a causa da verdade e do amor, mas que não se pode dizer que esta causa lhe seja estranha, já que Deus é, ele mesmo, a verdade e o amor; a vós, indigna-vos a suposição de que Deus possa, como nós, pobres vermes, apoiar uma causa estranha como se sua fosse. “Como poderia Deus assumir a causa da verdade se ele próprio não fosse a verdade?” Ele só se preocupa com sua causa, mas como é tudo em tudo, e a nossa é bem pequena e desprezível: é por isso que temos de “servir uma causa superior”. Do exposto fica claro que Deus só se preocupa com o que é seu, só se ocupa de si mesmo, só pensa em si e só se vê a si – e ai de tudo aquilo que não caia nas suas graças! Ele não serve nenhuma instância superior e só a si se satisfaz. A sua causa é uma causa... puramente egoísta.

E que se passa com a humanidade, cuja causa nos dizem que devemos assumir como nossa? Será a sua causa a de um outro, e serve a humanidade um causa superior? Não, a humanidade só olha para si própria, a humanidade só quer incentivar o progresso da humanidade, a humanidade tem em si mesma a sua causa. Para que ela se desenvolva, os povos e os indivíduos têm de sofrer por sua causa, e depois de terem realizado aquilo de que a humanidade precisa, ela, por gratidão, atira-os para a estrumeira da história. Não será a causa da humanidade uma causa... puramente egoísta?

Nem preciso de demonstrar a todos aqueles que nos querem impingir a sua causa que o que os move são apenas eles mesmos, e não nós, o seu bem-estar, e não o nosso. Olhem só para o resto do lote. Será que a verdade, a liberdade, o humanitarismo, a justiça desejam outra coisa que não seja o vosso entusiasmo para os servir?

Por isso todos se sentem nas suas sete quintas quando zelosamente lhes são prestadas honras. Veja-se o que se passa com o povo, protegido por dedicados patriotas. Os patriotas tombam em sangrentos combates, ou lutando contra a fome e a miséria. E acham que o povo quer saber disso? O povo “floresce” com o estrume dos seus cadáveres! Os indivíduos morreram “pela grande causa do povo”, o povo despede-se deles com umas palavras de agradecimentos e... tira daí proveito. É o que se chama um egoísmo rentável.

Mas vejam só aquele sultão que tão delicadamente se ocupa dos “seus”. Não será isto o altruísmo em estado puro, não se sacrifica ele hora a hora  pelos seus? Exatamente, pelos “seus”. Tenta tu mostrar-te uma vez, não como seu, mas como teu, e vais parar às masmorras por teres fugido ao seu egoísmo. A causa do sultão não é outra senão ele próprio: ele é para si tudo em tudo, é único, e não tolera ninguém que ouse não ser um dos “seus”.

E todos estes brilhantes exemplos não chegam para vos convencer de que o egoísta leva sempre a melhor? Por mim, extraio daqui uma lição: em vez de continuar a servir com altruísmo aqueles grandes egoístas, sou eu próprio o egoísta.

Nada é causa de Deus e da humanidade, nada a não ser eles próprios. Do mesmo modo, Eu sou a minha causa, eu que, como Deus, sou o nada de tudo o resto, eu que sou o meu tudo, eu que sou o único.

Se Deus e a humanidade, como vos assegurais, têm em si mesmos substância suficiente para serem, em si, tudo em tudo, então eu sinto que a mim me faltará muito menos, e que não terei de me lamentar pela minha “vacuidade”. O nada que eu sou não o é no sentido da vacuidade, mas antes o nada criador, o nada a partir do qual eu próprio, como criador, tudo crio.

Por isso: nada de causas que não sejam única e exclusivamente a minha causa! Vocês dirão que a minha causa deveria, então, ao menos ser a “boa causa”. Qual bom, qual mau! Eu próprio sou a minha causa, e eu não sou nem bom nem mau. Nem uma nem outra coisa fazem para mim qualquer sentido. 

O divino é a causa de Deus, o humano a causa “do homem”. A minha causa não é nem o divino nem o humano, não é o verdadeiro, o bom, o justo, o livre etc., mas exclusivamente o que é meu. E esta não é uma causa universal, mas sim...
única, tal como eu.

Para mim, nada está acima de mim!


(*) “Ich hab’ mein Sach’ auf nichts gestellt”, literalmente “Fundei a minha  causa sobre o nada”, é a primeira linha do poema de Goethe intitulado Vanitas! Vanitatum vanitas!, de 1806.


(O único e a sua propriedade; tradução de João Barrento)



(Ilustração: Keun Chul Jang - Wizard)



sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

MORTE DE MOEMA, de Olga Savary





A tempestade serenara
mas um cruel manitó
sobre o cortejo do vento
cravara a sombra da Morte.
Nem bem o raio da aurora
rasgara o luto do céu
um anhangá ou anhanguera
de luto os ares empanam
dando ao litoral o corpo
da índia que o amor
a vida entrega a Tupã.
Ainda paira a lembrança
dos olhos molhados,
dos seios emersos
e os lábios da jovem
– pelo branco apaixonada,
que enfastiado se vai-
soluçante a implorar
ao indiferente amado:
“Preciso de ti.
Chamei da manhã à noite,
o Sol ouviu-me chamar-te,
a Lua ouviu o teu nome
mas nem assim entendeste,
não atendeste ao chamado,
não pudeste me escutar.”
O barco a afastar-se,
pior que curare,
levou o ingrato
que  breve a esqueceu.
Atrás dele nada a índia
até já não ter mais fôlego
e desalentar.
E ouvia-se ainda
num vago murmúrio:
“Eu não te esqueci.”
Sua fala em voz baixa
o mar bravo devora.
Digo-lhe eu, a Autora:
Este amor te mata.
Tudo bem, o amor
é mais forte que o fogo
mais forte que a água,
o homem não destrói
nem pode apagar,
mas este amor te mata.
Repetiam ondas
às conchas de seus ouvidos:
“Te mata, te mata.”
Nadar assim que nem louca
desafia-lhe o limite
e eis os cabelos grossos.
igual crina de cavalo,
nem branca nem negra,
não sorri mais encantada
pra nossos guizos, miçangas,
facas, espelhinhos,
a pele toda pintada
de tinta preta e vermelha
(urucum e jenipapo).

Lentamente e rápido
o Brasil pra trás,
sua pátria agora é o mar.
Carrasca consigo,
mouca, não ouve a ressaca
das grandes massas de água:
está vestida de sonho.
Uma onda mais brava
pode lhe ser colar
ou forca.
De primazia terrestre,
desmancha-se na água
do Mar-Oceano,
Os olhos mortiços
da bela aimoré
(ou tupinambá)
abandonam o sonho
no sonho das águas,
fechando-se ao enleio
de um sono fatal.
Aquela que era moça
no mar vira peixe
mas peixe sem mexer,
peixe que não nada. Nada.
Do mar alto, altas ondas
a tomaram das águas,
espumas a arrebatam
do remoinho das vagas,
dedos ávidos erguiam
este âmbar encharcado
dos cabelos enluarados,
dedos se erguiam de espumas,
espumas cheias de dedos
tal gravura oriental.
Rolando nas ondas
da viva procela
por fim chega à praia
o corpo trigueiro
da índia já morta.
Maré negra veio dar
à praia, fera com ela.
E a praia a recebeu
com toda a fina pompa
das garras brancas.
Agarra-se à índia
a salsugem da praia,
cravando-a na areia.
E ali ela ficou
parada como a sonhar.
A vaga que a trouxe,
sem querer deixá-la,
a nudez lhe afaga
gemendo espumas.
As aves da mata,
crescidas com ela,
emudecem o canto,
chorando-lhe a sorte.
O orvalho da madrugada
alerta vira lágrima
de esperança na face
da jovem afogada.
Do flanco delgado
descera o enduape,
da fronte resvala
o acangatara
e desfazem-se as penas
num rito de dor.
Os cabelos de âmbar
colados à rocha
o rosto da índia
inda tornam mais pálido.
Os braços inertes,
fatal abandono,
suplicam ainda:
“Preciso de ti.”
E eu a Autora,
crítica, lhe digo:
Este amor te mata.
No ar consternado
da praia deserta
agora é só sombra
a natureza
antes em festa
e adeja a gaivota
na orgia da morte.
– Tupã, tu que a amaste,
revive-lhe o riso
que já te prendeu
E vós, ó irmãos,
cessai o festim!
Refreai os golpes
da ivirapema
e o canitar rompei
num rasgo de dor.
Tomai da cauaba
e ao chão atirai
o ardente cauim.
É finda a alegria
e aos pés de Tupã
jaz a taça partida:
sem mais vista, olfato,
audição ou tato,
esplendor da paixão,
Moema está morta.



(Ilustração: escultura de Rodolfo Bernardelli: Moema; foto da internet)