quinta-feira, 28 de junho de 2012

HÄLFTE DES LEBENS/ METADE DA VIDA, de Friedrich Hölderlin





Mit gelben Birnen hänget
Und voll mit wilden Rosen
Das Land in den See,
Ihr holden Schwäne,
Und trunken von Küssen
Tunkt ihr das Haupt
Ins heilignüchterne Wasser.
Weh mir, wo nehm ich, wenn
Es Winter ist, die Blumen, und wo
Den Sonnenschein,
Und Schatten der Erde?
Die Mauern stehn
Sprachlos und kalt, im Winde
Klirren die Fahnen.


Tradução de Manuel Bandeira:


Pêras amarelas
E rosas silvestres
Da paisagem sobre a 
Lagoa.

Ó cisnes graciosos,
Bêbedos de beijos,
Enfiando a cabeça 
Na água santa e sóbria!

Ai de mim, aonde, se
É inverno agora, achar as
Flores? e aonde 
O calor do sol
E a sombra da terra?
Os muros avultam
Mudos e frios; à fria nortada
Rangem os cata-ventos.



(Ilustração: Cézanne - Leda e o cisne)


segunda-feira, 25 de junho de 2012

UM EXORCISMO EM POÇOS DE CALDAS, de Jurandir Ferreira





- Então o senhor conversou com o diabo?

- Conversei muitas vezes. Não foi esta a primeira. Em matéria de conversa com o demônio eu já tenho uma folha de serviços bem comprida. Mas é uma espécie de conversa de que não gosto. Posso contar como foi, o que não quero é dar entrevista. Os jornais já abusaram desse caso.

Frei Bertoldo falava com sotaque italiano. Tinha muita gravidade e austeridade nas suas inflexões e nos seus gestos. [...]

- Eu estava deitado em minha cela quando o irmão porteiro me veio bater na porta, dizendo que estava lá um homem que queria me ver. "Quem é?" perguntei. "É um macchione, um caipira", respondeu. "Mas como posso falar com esse homem? Estou com febre. Diga a ele que não posso." O irmão saiu e logo tornou a voltar. "Ele insiste", falou o porteiro.  "Diz que é urgente, que veio de longe e tem de contar coisa importante." Pelo visto o homem andava em grandes apuros.

Que havia eu de fazer com semelhante importuno? "Traga-o aqui." Então se chegou a mim o tal caipira e me disse que o diabo estava na casa dele e que fazia desordens a ponto de não dar sossego a ninguém. Nem mesmo aos bichos do sítio. A mulher e a filha já estavam doentes. Até o doutor lá fora numa visita. E o médico saiu impressionado com o que lhe aconteceu, pois levou também suas pancadas e ficou sem a maleta. "É diabo batedor, seu frade, gosta de machucar", disse o caipira. "E que cara tem esse teu diabo?" perguntei-lhe. O caipira respondeu que não tinha cara de nada. Não se via. A coisa tinha começado de repente. O caipira ia voltando para o seu sítio e quando já estava perto da casa, debaixo duma figueira velha, tomou tamanho tranco que o atirou por terra. Pensou que fosse uma pedrada, mas não havia ninguém no pasto nem na figueira. Não podia ser pedrada nem paulada. Levantou-se meio ressabiado, ainda olhou de toda banda, olhou pra baixo, olhou pra cima. Nem vulto de gente. Experimentou as pernas. Estavam firmes. O tranco parece que tinha sido no cangote. Qual cangote! Vai ver que tinha dado era uma topada nalgum toco, pensou ele. Pegou o picuá caído no chão e não andou mais de dez passos que lá veio novo tranco, novo tombo. E era levantar e tomar outro. Até que a pancadaria choveu nele caído ou nele de pé. E apanhava sem ver quem estava lhe batendo, embora ainda fosse dia claro. O medo foi tanto que ele desabalou e em poucos minutos estava dentro de casa, onde chegou ofegando e tremendo. Deram-lhe logo água com açúcar e vários chás de casa para acalmá-lo. Porém, não se dava muito crédito ao que o homem dizia, pois a coisa se passara sem testemunhas. Pensaram que ele estava delirado da ideia. Uma semana se passou, e a história começava a ser esquecida, quando uma noite o caipira acordou com alguém que o chamava. "Ô Domingo! Ô Domingo!" lhe gritavam. "Vai ajuntar a vacaria!" Domingo, desconfiado de coisa tão sem propósito numa hora daquelas, perguntava "quem é? quem é?" Não respondiam. Depois a mesma voz continuava a chamá-lo. " Ô Domingo! Ô Domingo! Acode a criação, Domingo." A voz era ao mesmo tempo longe e perto. Parecia vir do oitão da casa e do assoalho, de dentro do quarto e do curral. E era uma voz grossa e possante. A galinhada no galinheiro se punha em rebuliço, os porcos balavam as tábuas do chiqueiro, e os cachorros ganiam miúdo. Todo mundo na casa acordou, acendeu as lamparinas. Eram nove e meia da noite. E nessa altura é que a voz continuou a aparecer nas noites seguintes, embora também aparecesse às vezes de dia, com sol de rachar. Chamava todo pelo nome, como se fosse íntimo. Mostrava-se muito divertido com o susto deles. Debochava as rezas e os terços que faziam para esconjurá-lo e dizia os palavrões mais porcos. Era o demônio, tinha dúvida que não era outro senão o demônio. Em lugar nenhum estavam livres dele. Nem fazer as suas necessidades as pobres mulheres já não podiam. Foi por causa disso que a mulher de Domingo ficou doente, pois o diabo dava a dor de barriga e ele mesmo impedia de aliviar. Mas com a filha a coisa foi pior. Uma noite ele apareceu dizendo: " Ô Domingo, vou ser teu genro. Resolvi casar com a Nhenha. Ô Nenha, vou casar c'ocê, Nhenha." Então a coitada da Nhenha teve um desmaio e acessos de nervos que duraram a noite toda, enquanto na casa e em roda da casa cheia de imagens, de velas acesas e de defumações o povo rezava as rezas de esconjuro. Dessa data em diante, embora ainda fosse violento e assustasse muito a criação, desse pancada nas pessoas e chegasse a atirar as panelas de comida no meio do terreiro, às vezes aparecia bonzinho, lá a modo dele. Um dia de sol claro, com cigarra cantando nos paus de cerca, e o pasto rescendendo de tão quente, as donas lavavam roupas de várias semanas. Um mundo de roupa molhada, enxaguada e torcida em várias bacias e gamelas, à beira do corgo, já na hora de estender pra secar. Nisso veio o diabo. "Ah, coitadinhas", ele disse, "quero ajudar vosmecê". As donas, que não viam quem lhe falava e reconhecendo aquela voz, ajuntaram saias e espavoridas fugiram. Mas quando chegaram em casa já encontraram toda a roupa em cima da mesa, não apenas seca, mas também dobrada e passada. Ao verem aquilo as mulheres se arrependeram de ter tido medo, pois era coisa mais de santo que alma danada. E já estavam a desejar que o diabo as ajudasse de igual modo em outros serviços, quando a roupa foi aparecer de novo junto ao corgo e mais suja do que antes. A infeliz da Nhenha, noiva à força, e a futura sogra do diabo, cada vez piores. A gente que chegava das vizinhanças para assistir à partes dos satanás ainda aumentava os embaraços e prejuízos para o Domingo. Na confusão que se estabelecia todas as noites, com o diabo de um lado e o ajustamento de curiosos do outro, o sítio do caipira ia ficando cada vez mais pobre. As poucas reses escapavam, os porcos e leitões eram roubados ou sangrados para dar de comer ao mundo de visitas, o mesmo acontecendo com as galinhas. Foi nesse ponto que o Domingo me apareceu no convento.

"Que é que eu posso fazer? Estou com febre", disse logo. Estou com trinta e nove há uma semana, isso não é brinquedo. Além do mais não posso expulsar nenhum diabo de minha própria vontade, sem que o senhor bispo me dê ordem. Não dependo só de mim. Sem a ordem do palácio não me movo. Então o caipira Domingo saiu, subiu no jipe que o tinha trazido e foi-se embora. Eu voltei para a cama e imediatamente dormi. Dormi o sono mais pesado de toda a minha vida. Só acordei no dia seguinte como o mesmo irmão porteiro que me chamava. O caipira estava lá de novo. Mas não vinha sozinho. Trouxe na sua companhia um mulatinho moço, de calça americana e paletó de couro, que foi quem veio com a ordem do senhor bispo. Era dono do jipe esse moço, vizinho do Domingo e se chamava Alaor. Queria me levar imediatamente. Estava mais apressado que o próprio Domingo. E me dizia: "vamos, seu frade, que o tal diabo está fazendo um estrago". O cuidado dele me pareceu que era principalmente com a Nhenha. Enquanto o diabo ao mexeu com a Nhenha, o mulatinho assuntou o que acontecia. Mas desde a hora em que o demônio entrou com parte de noivado, o Alaor quis se fazer de valente e não se livrou dos achincalhes e também de algumas tundas do capeta invisível.

Entretanto em me sentia completamente bom e e curado naquela manhã, sem um pingo de febre. O que não podia era sair na mesma hora, conforme o Alaor me pedia. Tinha de me preparar para aquela espécie de luta, o que não é nada fácil para um pobre homem como sou eu e que tem por si apenas a fé a cruz de Nosso Senhor. No dia seguinte me vieram buscar. Chamei meu sacristão para ir comigo e que não é um sacristãozinho qualquer, veja lá, mas um peso-pesado de mais de cem quilos, capaz da abater um exército com meia queixada de burro. Botamos na mala os paramento e tudo o mais quanto exige o nosso ritual romano. À noite subimos ao jipe e tocamos. Fiquei tranquilo por ver a estrada que as chuvas haviam transformado numa sucessão de charnecas e lagoas. "Assim não teremos tanta gente a nos atrapalhar o ofício", pensei eu. E efetivamente o povo que havia estava dentro de casa. Todo mundo surpreso com os modos de Nhenha. Era moça de tranças compridas e de cara lavada como pedra de cachoeira. Não tinha requebrados nem jeitos saídos porque o pai a havia feito crescer no estilo das mulheres da roça. No entanto lá estava ela agora de cabelos curtos, retamada de tintas, cigarro na boca e decotada como uma artista de cinema. Depois da noite de nervos veio aquela mudança de maneiras, que ninguém se animava a impedir ou contrariar. Vi então que era necessário romper logo aquele noivado com o diabo. Mandei uma das mulheres rezadeiras que puxasse o terço. E o terço foi rezado por todos que lá estavam, menos a Nhenha, que só sabia vaguear sozinha pela casa. Terminado o terço. começamos o nosso ritual dentro dum grande silêncio, esperando que a qualquer momento o maligno se manifestasse. Porém nada de ele chegar. Domingo tinha me dito que a hora era a das nove e meia. O relógio chegou nas nove e meia. Ninguém se mexia. Não se escutava o mínimo ruído nesse momento. Nós continuávamos com as nossas orações e aspergíamos a água benta. Já ia o relógio para perto das nove e três quartos e quase que estávamos para acreditar que tudo não passava de mistificação e de alucinações, quando olho para o rosto do sacristão e o vejo empalidecer como um defunto, os seus cabelos se eriçarem, e tremer o turíbulo que ele tinha nas mãos. Os cachorros começaram a ganir fininho, como me haviam contado, e a correr para os cantos, de rabo entre as pernas. Nesse mesmo instante senti um peso enorme sobre todo o meu corpo, como se uma corrente elétrica me entrasse pelos ossos e pelos músculos. Aí lembro-me que em voz mais alta eu retomava a oração no ponto onde dizia: Omnipotentes, sempiternes Deus, qui in omni loco dominationis tuae totus assistes. A eletricidade se desvaneceu em seguida, não durou nada. Então se ouviu um palavrão, e o diabo começou a falar. A voz parecia descer mesmo do oitão da casa e não era voz humana de modo algum. Chegou insultando-me e insultando a Igreja e os seus santos, com um calão que me é penoso só de lembrar. "É hoje", repetia ele a cada passo, "você vai fazer meu casamento. Hoje caso com a Nhenha. E depois de casar eu enforco você, seu fradequinho bandido". E isso era das coisas mais amáveis que ele me dizia.

Terminada aquela oração, para experimentar com que espécie de entidade eu estava lidando, eu lhe retrucava em italiano, em espanhol, em alemão, em francês, em grego ou em hebraico. E a tudo ele dava resposta imediata e precisa, insistindo em dizer que ia me matar. O ambiente na casa era de terror absoluto. Nas caras que a luz das velas iluminava podia apalpar-se cada contorno do medo. A mim àquela hora nada me entibiava. Em nome de Cristo eu o desafiei. Foram duas horas de discussão e de embate em várias línguas e com aspectos desencontrados. Ora ele invectivava no jargão imundo, com ideias primárias, ora em língua sábia, sobre doutrina que estava muito acima daquele ambiente e daquele auditório. Retornamos por fim, eu e o sacristão, ao exorcismo e continuamos a orar a Deus, sem dar mais ouvidos ao praguento. E o que vociferava, ameaçava e bramia foi cedendo pouco a pouco. Até que ao cabo daquele tempo, o vozeirão deixou  a sua arrogância, para afinal cair num pranto patético, pedindo perdão de tudo o que fizera. O diabo chorava e os presentes puxavam as contas dos seus rosários e faziam o sinal da cruz. Ouviam-se cada vez mais as nossas orações e cada vez menos o choro horrível do demônio. O tal choro foi diminuindo, diminuindo, como se ele se afastasse para muito longe, até que não se ouviu absolutamente mais nada. Também eu terminava o meu ministério e pela última vez aspergi a água benta. Estava tão exausto, como se houvesse andado quinhentas léguas a pé não podia sequer mover-me do lugar. Trouxeram-me uma cadeira para que eu não caísse.

Passei ali mais alguns dias, pois a fraqueza continuou extrema e tão dolorido era todo o meu corpo que não se podia tocar em minha carne. Mas aos poucos cheguei a um estado em que me foi possível viajar. Voltei. Hoje penso que ainda não era hora de voltar.

Quanto à Nhenha, esta não teve melhora alguma, para grande desespero do pobre Alaor. Devo confessar que ela continuou sendo a noiva de satã, apesar de tudo. Um dia levaram-na a um especialista. O especialista considerou-a um caso difícil. Aconselhou que a internassem em um manicômio. Em vez disso, trouxeram-na de volta para casa. Alaor já não podia esconder o seu desgosto. E acabaram fazendo troça daquele infeliz. Um dia ele saiu pela estrada, embrenhou no mato e ninguém mais teve notícia dele.

Desta maneira, veem os senhores que não e muito exato o que sobre o tal diabo foi dado na imprensa. Vieram os repórteres, bateram chapas, fizeram perguntas e lá se foram apressados e divertidos. Quem lê as tais reportagens acha que fui eu o herói da peça. Eu, no entanto, sei que não venci. É preciso entender que ele é o Mentiroso. Não sou bastante puro para estar bastante perto da Verdade com que me haveria sido possível expulsá-lo. Quando o diabo se afastou foi para enganar a todos. A sua obra estava completa. Não tive inspiração, nem forças nem virtudes para destruí-lo. Isto é que é certo, concluiu frei Bertoldo, com o tom de quem fala no púlpito.



(Um Ladrão de Guarda-chuvas)



(Ilustração: Franz von Stuck - Scherzo)



sexta-feira, 22 de junho de 2012

AS NAMORADAS MINEIRAS, de Carlos Drummond de Andrade






Uma namorada em cada município,
e os municípios mineiros são duzentos e quinze,
mas o verdadeiro amor onde se esconderá:
em Varginha, Espinosa ou Caratinga?


Estradas de ferro distribuem a correspondência,
a esperança é verde como os telegramas,
uma carta para cada uma das namoradas
 e o amor vence a divisão administrativa.


Para Teófilo Otoni o beijo vai por via aérea,
os carinhos do sul pulam sobre a Mantiqueira,
mas as melhores, mais doces namoradas
são as de Santo Antônio do Monte e Santa Rita.


Enquanto na Capital um homem indiferente,
frio, desdobrando mapas sobre a mesa,
põe o amor escrevendo no mimeógrafo
a mesma carta para todas as namoradas.



(Brejo das Almas)



(Ilustração: Alfred Stevens - in the bath)

terça-feira, 19 de junho de 2012

O PALÁCIO DE CRISTAL, de Bill Bryson






No outono de 1850, no Hyde Park de Londres, surgiu um edifício extraordinário: uma gigantesca estrutura de ferro e vidro cobrindo mais de sete hectares de terreno, com um vasto espaço interior onde caberiam quatro igrejas do tamanho da catedral de Saint Paul. Durante sua breve existência, foi o maior edifício do mundo. Conhecido oficialmente como Palácio da Grande Exposição dos Trabalhos da Indústria de Todas as Nações, era decerto magnífico; porém mais ainda por ser tão repentino, tão surpreendente por ser todo de vidro, tão gloriosa e inesperadamente real. Douglas Jerrold, colunista da revista semanal Punch, apelidou-o de Palácio de Cristal, e o nome pegou.

Sua construção levara apenas cinco meses. O simples fato de ter sido construído já fora um milagre - menos de um ano antes ele não existia nem sequer como ideia. A exposição para a qual fora concebido foi o sonho de um funcionário público chamado Henry Cole, cujo outro feito histórico foi inventar o cartão de Natal (para incentivar as pessoas a usarem o novo selo de um penny). Em 1849 Cole visitou a Exposição de Paris - um evento relativamente provinciano, limitado a fabricantes franceses - e se apaixonou pela ideia de tentar algo semelhante na Inglaterra, porém mais grandioso. Conseguiu que muitas pessoas ilustres, inclusive o príncipe Albert, se entusiasmassem com a ideia de uma Grande Exposição, e em 11 de janeiro de 1850 foi realizada a primeira reunião, visando inaugurá-la em 1º de maio do ano seguinte. Isso lhes daria menos de quinze meses para projetar e construir o maior edifício jamais imaginado, atrair e instalar dezenas de milhares de estandes vindos de todas as partes do globo, equipar restaurantes e banheiros, contratar pessoal, conseguir seguros e proteção policial, imprimir panfletos e mais um milhão de coisas, em um país que ainda nem estava convencido de que desejava uma produção tão cara e complicada. Era claro que se tratava de uma ambição inatingível, e nos meses seguintes ficou evidente que eles não conseguiriam alcançá-la. Em um concurso público foram apresentados 245 projetos para o edifício da exposição. Todos foram rejeitados como impraticáveis.

Temendo um desastre, a comissão fez o que às vezes fazem as comissões em circunstâncias desesperadoras: encomendou outra comissão, com um título melhor. O Comitê da Edificação da Real Comissão para a Grande Exposição dos Trabalhos da Indústria de Todas as Nações se compunha de quatro homens - Matthew Digby Wyatt, Owen Jones, Charles Wild e o grande engenheiro Isambard Kingdom Brunel -, e recebeu uma única instrução: apresentar um projeto digno da maior exposição da história, a ser iniciada em dez meses, dentro de um orçamento limitado e já reduzido. Dos quatro membros da comissão, apenas o jovem Wyatt era arquiteto formado, e na prática ainda não havia construído nada; nessa fase da carreira, ganhava a vida como escritor. Wild era um engenheiro com experiência quase exclusiva com barcos e pontes. Jones era decorador. Apenas Brunel tinha experiência com projetos de grande escala. Era, sem dúvida, um gênio, mas um gênio irritante, pois quase sempre eram necessárias quantidades épicas de tempo e dinheiro para encontrar a intersecção entre suas visões grandiosas e a realidade viável.

A estrutura concebida pelos quatro homens era espantosa, e nada feliz: uma espécie de enorme galpão, baixo e escuro, prenhe de melancolia, de espírito tão vivaz e animado como um matadouro. Parecia algo concebido às pressas por quatro pessoas trabalhando separadamente. O custo mal podia ser calculado, mas de qualquer forma aquilo parecia irrealizável. A construção exigiria 30 milhões de tijolos, e ninguém garantia que essa quantidade pudesse ser adquirida, muito menos assentada, no prazo. O conjunto seria coroado pela contribuição de Brunel: uma cúpula de ferro de sessenta metros de diâmetro - uma estrutura notável, sem dúvida, mas bastante estranha em um edifício térreo. Ninguém jamais construíra algo tão maciço feito de ferro; e Brunel não podia, naturalmente, começar a experimentar e içar peças sem que antes houvesse um edifício embaixo. E tudo isso tinha que ser realizado e concluído em dez meses, para um projeto destinado a existir por menos de meio ano. Quem iria desmontar tudo aquilo depois, e o que seria feito da sua poderosa cúpula e dos seus milhões de tijolos? Eram perguntas incômodas demais para enfrentar.

Nessa crise que se desenrolava entrou a figura calma de Joseph Paxton, jardineiro-chefe de Chatsworth House, mansão principal do duque de Devonshire (mas localizada, à peculiar maneira inglesa, em Derbyshire). Paxton era um assombro. Nascido em 1803 em Bedfordshire, filho de uma família rural pobre, aos catorze anos foi mandado para trabalhar como aprendiz de jardineiro, mas distinguiu-se de tal maneira que em seis anos estava dirigindo um arboreto experimental na nova e prestigiosa Horticultural Society (que logo se tornaria a Royal Horticultural Society), no oeste de Londres - cargo de responsabilidade surpreendente para alguém que era ainda apenas um rapazola. Certo dia ele teve uma conversa com o duque de Devonshire, que possuía a vizinha Chiswick House e mais uma grande parte das Ilhas Britânicas - cerca de 80 mil hectares de terras produtivas estendendo-se ao pé de sete grandes mansões senhoriais. O duque gostou de Paxton de imediato, não tanto porque este demonstrasse qualquer talento especial mas, ao que consta, porque falava com voz forte e clara. O duque ouvia mal e apreciava a clareza da fala. Em um impulso, convidou Paxton para ser jardineiro-chefe de Chatsworth, e Paxton aceitou. Tinha 22 anos de idade.

Foi a iniciativa mais sábia jamais tomada por um aristocrata. Paxton mergulhou no trabalho com uma energia e dedicação que a todos deslumbrava. Projetou e instalou a famosa Fonte do Imperador, que lançava um jato de água a oitenta metros no ar - proeza de engenharia hidráulica que até hoje só foi superada uma vez na Europa; construiu o maior jardim de pedras ornamentais do país; projetou um novo bairro residencial na propriedade; tornou-se o maior especialista mundial em dálias; ganhou prêmio por produzir os melhores melões, figos, pêssegos e nectarinas do país; e criou uma enorme estufa tropical, conhecida como "Grande Fogão", que cobria 4 mil metros quadrados de terreno e era tão espaçosa que em 1843, durante uma visita, a rainha Vitória excursionou dentro dela em uma carruagem com cavalos. Melhorando a administração das propriedades, eliminou dívidas do duque num total de 1 milhão de libras esterlinas. Com as bênçãos do duque, lançou e dirigiu duas revistas de jardinagem e um jornal diário nacional, o Daily News, que durante um breve período foi editado por Charles Dickens. Escreveu livros sobre jardinagem; investiu tão sabiamente em ações de empresas ferroviárias que foi convidado para o conselho de três delas; e, em Birkenhead, perto de Liverpool, projetou e construiu o primeiro parque municipal do mundo. O parque encantou de tal maneira o americano Frederick Law Olmsted que este o tomou como modelo para construir o Central Park em Nova York. Em 1849, o botânico-chefe do jardim botânico Kew Gardens enviou a Paxton um raro espécime de lírio atacado de doença, perguntando se ele poderia salvá-lo. Paxton projetou uma estufa especial e - você não ficaria surpreso ao saber - em três meses o lírio entrou em floração.

Quando soube que os responsáveis pela Grande Exposição estavam com dificuldades para encontrar um projeto para o salão, ocorreu-lhe que algo como a sua estufa poderia dar certo. Enquanto presidia uma reunião de um comitê da ferrovia Midland, rabiscou um esboço em um pedaço de mata-borrão e em duas semanas completou os desenhos prontos para apresentação. O projeto infringia todas as regras da concorrência pública. Foi apresentado após a data de encerramento; e, apesar de todo o seu vidro e ferro, incorporava muitos materiais combustíveis, como milhares de metros quadrados de pisos de madeira, estritamente proibidos pelas regras. Os consultores arquitetônicos observaram, não sem razão, que Paxton não era arquiteto e nunca tinha tentado nada nessa escala. Nem ele nem ninguém, claro. Por essa razão, ninguém podia afirmar com total confiança que o projeto daria certo. Muitos temiam que o edifício ficaria insuportavelmente quente com o sol e a multidão de visitantes. Outros temiam que as barras de ferro fossem expandir-se no calor do verão e os gigantescos painéis de vidro se soltariam, silenciosamente, despencando sobre os visitantes lá embaixo. A preocupação mais profunda era com que todo o edifício, de aparência tão frágil, seria simplesmente derrubado por uma tempestade.

Assim, os riscos eram consideráveis e agudamente sentidos; mas, depois de alguns poucos dias de hesitação e impaciência, a comissão aprovou o plano de Paxton. Não há nada - absolutamente nada - mais revelador sobre a Inglaterra vitoriana e o seu ocasional brilho do que o fato de o edifício mais ousado e mais emblemático do século ter sido confiado a um jardineiro. O Palácio de Cristal de Paxton não necessitava de tijolo algum - tampouco de cimento, argamassa ou alicerces. Foi apenas montado aparafusando-se as peças, e assentado no solo como uma tenda. Mais que uma solução engenhosa para um desafio monumental, era uma mudança radical a partir de qualquer coisa já tentada.

A virtude básica do arejado palácio de Paxton era ser pré-fabricado a partir de peças padronizadas. Sua peça-chave era um único componente: uma treliça de vigas de ferro fundido, com sete metros de comprimento e noventa centímetros de largura, que podia ser montada com outras treliças correspondentes, formando uma armação na qual se encaixavam os painéis de vidro - mais de 90 mil metros quadrados de painéis, ou seja, um terço de todo o vidro normalmente produzido na Grã-Bretanha em um ano. Foi projetada uma plataforma móvel especial que se movia ao longo dos suportes do teto, permitindo que os operários instalassem 18 mil painéis de vidro por semana - uma produtividade que era, e ainda é, uma maravilha de eficiência. Para dar conta da enorme quantidade de calhas necessárias - cerca de trinta quilômetros ao todo -, Paxton projetou uma máquina, operada por uma pequena equipe, capaz de instalar seiscentos metros de calhas por dia - quantidade que normalmente exigiria um dia de trabalho de trezentos homens. Em todos os sentidos, o projeto era uma maravilha.

Paxton teve muita sorte, pois justamente na época da Grande Exposição o vidro de repente se tornou bastante disponível, como nunca acontecera. O vidro sempre fora um material complicado. Não era fácil de fazer, e muito difícil de fabricar com qualidade, por isso, em grande parte da sua história foi artigo de luxo. Felizmente, dois recentes avanços tecnológicos mudaram a situação. Em primeiro lugar, os franceses inventaram a chapa de vidro - assim chamada porque o vidro derretido era espalhado em cima de chapas. Isso permitiu, pela primeira vez, a criação de grandes painéis de vidro, possibilitando o surgimento das vitrines. Os painéis, porém, tinham que ser resfriados por dez dias depois de fabricados, e assim cada chapa de apoio ficava sem uso a maior parte do tempo; depois disso o vidro tinha que ser lixado e polido. Isso tudo, naturalmente, encarecia o produto. Em 1838 foi desenvolvido um refinamento mais barato - a placa de vidro. Esta tinha a maioria das virtudes das chapas, mas esfriava mais depressa e exigia menos polimento, barateando a produção. De repente, placas de vidro de bom tamanho podiam ser produzidas economicamente, em volumes ilimitados.

Aliada a isso veio a oportuna abolição dos dois antigos impostos: o imposto sobre as janelas e o imposto sobre o vidro (a rigor, um imposto sobre artigos de luxo). O imposto sobre as janelas datava de 1696 e era tão pesado que as pessoas realmente evitavam ao máximo colocar janelas nos edifícios. As aberturas de janelas tapadas com tijolos, tão características de muitas construções antigas e que ainda vemos na Grã-Bretanha de hoje, com frequência eram pitadas para parecerem janelas. (De certa forma, é pena que não sejam mais.) A população se ressentia extremamente do chamado "imposto sobre o ar e a luz", que condenava muitos criados e outros de poucos meios a viver em aposentos abafados e escuros.

O segundo imposto, introduzido em 1746, não se baseava no número de janelas, mas no peso do vidro que as compunha, de modo que durante todo o período georgiano se fabricou vidro fino e quebradiço, e os batentes das janelas tinham que ser mais resistentes para compensar. As conhecidas vidraças olho de boi também entraram na moda nesse momento. São consequência da fabricação do chamado vidro "coroa" (assim chamado por ser ligeiramente convexo, ou em forma de coroa). O olho de boi marcava o lugar da placa de vidro onde o artesão tinha fixado o pontil - o tubo metálico por onde se sopra o vidro. Como essa parte do vidro ficava danificada, escapava do imposto; e assim se tornou atraente como material econômico. As vidraças olho de boi se tornaram populares em pousadas e estabelecimentos menos nobres, e também na traseira das residências, onde não se exigia qualidade. Esse imposto foi abolido em 1845, pouco antes do seu centésimo aniversário; e logo se seguiu a abolição do imposto sobre o vidro - por uma feliz casualidade, em 1851. Justo no momento em que Paxton precisava de mais vidro do que jamais fora necessário, o preço caiu a menos da metade. Isso, somado às mudanças tecnológicas que aceleravam a produção, foi o impulso que possibilitou a construção do Palácio de Cristal.

Quando terminado, o edifício tinha exatamente 1851 pés de comprimento (em comemoração ao ano), ou seja, 564 metros; 124 metros de largura e quase 33 metros de altura ao longo da sua espinha dorsal central. Sua altura lhe permitia abrigar uma admirada alameda de olmos, que do contrário teriam que ser derrubados. Devido ao seu tamanho, a estrutura exigiu uma quantidade enorme de materiais: 293.655 painéis de vidro, 33 mil treliças de ferro e milhares de metros quadrados de pisos de madeira; contudo, graças aos métodos de Paxton, o custo final foi extremamente modesto: apenas 80 mil libras. Do início ao fim, a construção levou menos de 35 semanas. A catedral de Saint Paul necessitara de 35 anos.

A três quilômetros dali, o novo Parlamento já estava em construção havia uma década, ainda longe de ser terminado. Um escritor da Punch sugeriu meio brincando, meio a sério, que o governo encomendasse a Paxton o projeto de um "Parlamento de Cristal". Surgiu um clichê para qualquer problema que parecesse insolúvel: " Pergunte ao Paxton".

O Palácio de Cristal era ao mesmo tempo o maior edifício do mundo e o mais leve, o mais etéreo. Hoje estamos acostumados a encontrar grandes quantidades de vidro, mas para alguém que vivia em 1851 a ideia de passear dentro de um enorme espaço, iluminado e arejado, dentro de um edifício, devia ser deslumbrante - até vertiginosa. A imagem que os visitantes tinham ao ver de longe o Pavilhão de Exposições, todo transparente, a brilhar, vai além de nossa imaginação. Pareceria tão delicado e evanescente, tão implausível e miraculoso como uma bolha de sabão. Para quem chegasse ao Hyde Park, a primeira visão do Palácio de Cristal flutuando acima das árvores, faiscando ao sol, seria um momento de esplendor, de deixar qualquer um de pernas bambas.



                                                   
(Em casa, uma breve história da vida doméstica, tradução de Isa Mara Lando)


(Ilustração: Crystal Palace, from Dickinson's Comprehensive Pictures of the Great Exhibition of 1851, 1854)




sábado, 16 de junho de 2012

A INVENÇÃO DO HOMEM – I, de Lupe Cotrim Garaude








Tempo de estar, por muito tempo.
Depois, de prosseguir, de ultrapassar,
tempo concreto, de assegurar,
tempo de dança e luta, de deuses
construídos, tempo de desejo e posse,
corpos atentos, reunidos,
tempo de ser e vir a ser,
tempo abstrato, de conceituar.
Que tempo é o tempo real,
o tempo-rei, o tempo-estátua,
rotação de sentido em translação
ampliada? Tempo-planeta,
de estrela um outro tempo,
tempo de seiva e carne,
de pedra e de colheita, tempo
de fogo, de escrita, de leis
e religiões, tempo de arte,
a carne enraizada nos murais.
Tempo de trocas, tempo de terra
e mar, estradas percebidas,
tempo de conquistas, fratricida,
tempo de cidades erguidas,
destruídas, tempo palmilhado,
dividido, tempo de amar
– estar fora do tempo, tempo
de vida, dias pertencidos,
noites esquecidas, tempo de céu
e inferno, tempo de morte
sem nenhum sentido, tempo de cristo
sonhado irmão, sem pobre ou rico,
tempo-bomba, tempo suicida,
tempo de máquinas, de bens
não divididos,
e enfim o tempo-espaço,
o tempo relativo, do mistério
circundado e ainda vivo.




(Ilustração: Urszula Ciolkowska)


quarta-feira, 13 de junho de 2012

A PESCA DO SURUBIM, de Mário Palmério






Hora e tanto já, e nada de peixe. Mas o gostoso era ficar assim na canoa, pensando na vida, imaginando coisas. Passada aquela eleição, ia sossegar. A política matava, acabava com a pessoa. Depois que se metera nela, nunca mais pudera ter uma semana de descanso. Escravo dos outros, do partido, do eleitorado. E os adversários não dormiam, os concorrentes vigiavam. Todos os dias, uma notícia má, nomeações que não saíam, chefes do interior que ameaçavam romper por causa de pedidos impossíveis... E ter de mentir, de prometer...

Doutor, doutor... agora é a peixa... é a peixa, sim... engasgava o Gerôncio. Ferra, doutor, ferra!

Mas era Paulo quem estava no cabo da vara; sabia que precisava esperar, sentir primeiro aquele tranco surdo trazido das profundidades pela linha de aço e pelas fibras do bambu.

Calma...

Agora! O pescador abaixou a vara um pouco mais, mais um pouco ainda, para bambear o aço e voltou com ela, num golpe duro, seco, certo.

Ladrão! Paulo gritou quando sentiu a vara erguer-se frouxa, sozinha.

Lhe falei, doutor... O senhor dormiu no ponto...

Fora peixe grande, mesmo. Do muçum, nem notícia: o anzol sem um fiapo de isca...

Ferrou de mau jeito, Gerôncio. Mas antes escapar no começo que na hora de embarcar o bicho na canoa. Já-já o safado está de volta. Você trouxe alicate?

A idéia do alicate era desculpa. Paulo sabia que Gerôncio não se dava a esses luxos de carregar a porção de ferramentas que pescador de cidade costuma trazer nas capangas. Com a volta do anzol mais entortada ou exatamente como se achava, não seria por isso que o peixe ia escapar da fisgada. Falta de treino, isso sim. Errar logo um peixe de couro! Felizmente, o Rufino não estava perto. Se estivesse...

Paulo ajeitou outro torete de muçum no anzolão. Perfeita, aquela enguia preta e encontradiça em qualquer brejo ou resfriado dos rios do Sertão dos Confins. O Lobo, outro fanático pela pesca dos grandes peixes noturnos, tentara aclimá-la em Amburana, inventando um brejo artificial no quintal da casa dele, planejando até uma criação para vender as iscas vivas à companheirada. Mas o muçum só vivia mesmo era pelas bandas do Urucunã, nativo de lá, e tal criação dera em nada. Uma pena, pois, como o Lobo dizia, Deus quando inventou o mundo previu até a pesca do surubim. “Que outra serventia?” perguntava ele. “Prestem atenção na cobrinha: carne dura, sangrenta, o tubo digestivo num canudo só, de calibre certo para se ajustar aos anzóis fundo-de-agulha e revestido, ainda por cima, desse músculo contrátil, acomodatício, agarrando-se ao aço como guarnição de borracha..." Outro que gostava dum palavrório, o Lobo. E as discussões dele com Rufino? Os peixes em latim, os plecostomus, os bimaculatus...

Foi pena você não conhecer o Lobo, Gerôncio: companheirão estava ali! Paulo disse, depois que atirou novamente a isca no centro do rebojo.

O senhor fica conversando, Dr. Paulo, e daqui a pouco o peixe passa outra vez a perna no senhor... provocou o maldoso do Gerôncio.

Mas o pescador estava prevenido. Sustentava, agora, a vara com ambas as mãos, sem deixar que encostasse na borda da canoa, para que as mínimas vibrações do bambu lhe chegassem imediatas e perfeitas. Ferido na boca pela ferrada malsucedida, o peixe ainda demoraria a voltar e a sucumbir ante a presença do outro muçum carnudo e tentador... Mas havia outros: o rebojo da peroba-rosa nunca deixava ninguém de mãos abanando...

Tontura gostosa dava a pinga forte do Gerôncio. E o silêncio, o balançar maneiro do rebojo, o fresco da chuvinha manhosa, a escuridão do rio... Impossível fixar-se numa idéia só, ou concentrar-se apenas na ponta do caniço: os pensamentos libertavam-se naquelas horas de espera, as preocupações sumiam, vinha a suave sensação de leveza e bem-estar. Daí, o irresistível daquelas fugas para as beiras de rio, o vício em que elas se tornavam. Boa vida, a de antigamente! Mas metera-se de uma vez na política, e agora era tocar para diante, que jeito já não havia de recuar. Abandonar, por exemplo, o João Soares... E os compromissos com o Bernardino, esse quase convencido, afinal, da inutilidade da antiga e terrível oposição aos Rochas, já aceitando os argumentos de D. Candinha, já se afastando da briga, dedicando-se mais à clínica e à família... Impossível... Fora ele, Paulo, que aparecera em Santa Rita para açular o pobre, metê-lo em brios... Razão tinha, e de sobra, a mulher do Bernardino, em mostrar aquela má vontade, aquela quase hostilidade... E os outros? O pessoal de Amburana, de Pedra Branca, os companheiros dos vinte e tantos municípios onde fora fundar partido e reforçar a luta contra a situação? Recuar como? Fugir como?

Agora, doutor! Ixe, que monstra. Não dê a ponta, não, que a linha arrebenta! berrou de súbito o Gerôncio.

Desta vez, a ferrada fora certeira. Ao golpear a vara, Paulo sentiu o soco da fisgada, firme tal e qual machadada de machado novo em tora macia de cedro. E um despropósito de peixe, que a vara se arqueou em curva alta, fechada, atingindo até os gomos atarrancados do cabo.

Surubim! E dos manatas, olhe a vara! continuava o escandaloso do Gerôncio. Não dê a ponta, não, doutor!

E dos pintados! o deputado gaguejou. Está puxando de esguelha, o ladrão... Duas arrobas, no mínimo. Virgem, é um cavalo de peixe!

Sempre com razão, o Aleixo Telegrafista! Ferrada misteriosa. Sim, quem puxava o anzol com aquela força não podia ser bicho deste mundo. Era o caboclo-d’água. O chupão das profundas do rio levara quase metade da vara para dentro do rebojo. Mantê-la em pé, embodocada, as mãos destreinadas de Paulo já quase não o conseguiam e, se o peixe lograsse diminuir de mais um tico o ângulo que o bambu ainda mantinha com o nível do rio, aí então é que nada evitaria o desastre: linha, vara, pescador bastava que este caísse na bobagem de bancar o teimoso), tudo seria engolido de uma vezada pelo horrendo sumidouro....

Nos seus bons tempos, Paulo não admitiria aquilo mas teve de aceitar, agora, a demão do Gerôncio. O preto passara-lhe os dois braços rijos pela arca do peito, cruzando as mãos num arrocho definitivo, ajudando a fazer força. Pés calçados no reforço transversal que todo canoeiro prático já deixa pronto, inteiriço, na hora de ocar a tora de pau, o negro bufava:

’güente o galho do seu lado, patrão, que do meu lado eu ’güento!

O bambu estralava que nem taboca no fogo. O cabo de aço três fios doze trançados, decerto presente do Pe. Sommer ao Gerôncio parecia laço em cabeça de boi xucro. Zanzava, doido, cortando o rebojo de fora a fora, enfiando-se por baixo da canoa, procurando a água-braba, fugindo, voltando, regirando agora, desatinado...

Recolha a sua linha, Gerôncio! Me largue! Deixe o bicho sozinho por minha conta. Recolha a linha, senão o peixe se embaraça nela!

Mas o Gerôncio não largava. Conhecia o tamanho daqueles surubins do rebojo e, pelo tinido da linha, adivinhava o animal que o Dr. Paulo havia ferrado.

Tem perigo não, Dr. Paulo. Ei, linhinha macha! Fica pancrácio, fica, bigodeira de jauzão! Ixe, Nossa Senhora, bicho feroso este, cruz!

Linha às costas, agora, o peixe esbarrava velhaço, no centro do rebojo, onde a ventosa da água chupava irresistível como boca de sucuri. A vara envergava, envergava, ringia, estalava.

’güenta, doutor! Incomode com a canoa não isso é brinquedo para ela! Se entrar mais água, eu solto a poita...

Bicho desgraçado! O repuxo era tal que a canoa embicava, popa levantada, a proa apanhando água. Se o peixe se mantivesse empacado daquele jeito, que nem estorvo em boca de bueiro, o remédio era mesmo soltar a poita para aliviar a canoa e ficar rodando com ela por sobre o redemoinho, até que se cansasse e cuidasse de inventar outra moda. O tempo passava, Gerôncio sem se resolver alargar o companheiro, e a canoa pegando cada vez mais água.

Pode me largar, Gerôncio. Solte a poita!

Mas não foi preciso: o surubim desembestara, agora num volteio maluco de pião. Lá estava, porém, na argola de arame do cabresto, o girador. A linha de aço se destorcia quando chegava ali, afastando o perigo das crocas. Muito peixe escapa assim, em vara sem girador, a linha arrebentada no melhor da hora...

Tempão lutou o peixe antes de pranchear, entregue. A espaços apontava a cabeça à superfície todo feioso de pau preto para, em seguida, remergulhar num último desespero. A vara, porém, empinada, quase a prumo, obrigava-o mais e mais a acercar-se da canoa. Gerôncio deixara, afinal, Paulo gozar sozinho a luta com o surubim já dominado.

Me apanhe a carabina, Gerôncio. Tome a vara, tome...

O surubim boiou por derradeiro quando boiou bem no centro do rebojo, lá onde as espumas não chegavam. Paulo atirou. Bruto tiro de morteiro que quis ameaçar um ror de iguais respostas nos barrancos mas que mal deu em tímido pingue-pongue de ecos frouxos, porque molhados e apagados logo pela chuvinha que apertava.


(Vila dos Confins)


 (Ilustração: Eros Kara - pêcheur pleine lune)


domingo, 10 de junho de 2012

NEVROSE, de Fontoura Xavier









Nessa tristeza mórbida, secreta,
Que te afugenta as sombras do repouso,
Eu vejo a hipocondria, a febre infecta
— Florescências do pântano do gozo.


Por uma noite de luar repleta,
Eu, contudo, quisera, fervoroso,
Sentir pulsar esta paixão discreta
No bronze do teu seio tormentoso!


Depois... morrer! beijando como o pária
Na liça da peleja sanguinária
A mortalha de lodo em que se cose!


És o perfume negro, a flor do pasmo,
Que no silêncio morno do marasmo
Faz-me sonhar os estos da nevrose!...




(Ilustração: Dino Valls)


quinta-feira, 7 de junho de 2012

DOMINUS TECUM, de Ana Miranda





P. Caldas 15.2.96


Nestes poucos dias fui sem conta vezes muitas à agência do correio vigiar a caixa postal, ansioso à espera da sua anunciada carta que não vinha, que não vinha, que não vinha, meu Deus, como se aquela sua carta fosse o ar que me faltasse, eu de alma sufocado, até parece que estava apaixonadíssimo por você e não estava, só posso me apaixonar agora por mim mesmo, pelo que ainda resta e que eu tenho de cuidar, estou é encantado perdidamente, como se você fosse a Minerva olímpica e eu o holipta geronto que nem mais aguenta o simples peso das suas armas... Mas afinal a carta chegou ontem e respirei salvo felizmente daquele sinistro vacuo ut supra, foi uma ronda de aleluias. Veio a carta de asas brancas sobre plumagem azul-celeste e com o seu muito oxigênio o que na minha euforia me pareceu acordes ao piano de um surdinado impromptu por George Sand à alma de Frederico Chopin. Me trouxe a sombra e também a água fresca e o oásis com suas tamareiras. As cartas sempre foram muito importantes também para mim. Agora mesmo estava lendo em A Condição de Homem, de Luiz Mumford, que o cristianismo dependeu muito delas. Dependeu doutrinariamente. Eu dependo como um adicto depende do traficante. Porém que isso, como dizia Shakespeare, não lhe esquente a cuca, você tem mais o que fazer e eu sou um clochard.

Com sua carta no bolso, que verifiquei interminavelmente se estava furado ou se não estava furado, amassando-a com meus dedos velhos e manchados pelas manipulações farmacêuticas, fui andar pela cidade, sous la lune, no parque entre as árvores meditando nos nossos assuntos, misticamente ligado à solidão de cada uma das pessoas do mundo, e àquelas de quem eu via a sombra detrás da persiana de uma janela, refletindo sobre nossa longa e triste vida em comum, querida, quando te conheci era mais fácil para mim me interessar por um inseto de Fabre do que por uma mulher, a minha vida era uma sucessão de cadeiras de balanço, chinelas, traças, plantar rosas e cortar rosas, uma assustadora vida de tédio e difusa inquietação, dias após dias devotados à inutilidade de folhear livros, a preencher fichas de cartolina recortadas por Cecília, minha pobre Cecília, eu a tirar o pó dos cinco tomos de Schopenhauer, de La Bretonne, que amor cundusse noi ad una morte, De consolatione philosophiae de Boecio, de dicionários, enciclopédias, essas relíquias sem sentido, quase morto nesta que é uma cidade que começa na água e termina na água, onde velhos e tuberculosos vagueiam nas ruas de manhã e de noite, velhos, tuberculosos e viciados em jogos, que saem dos hotéis, rijos por mulheres de longos vestidos de veludo, a cidade da ordem e da beleza e eu sempre fui um velho perambulando nela, o que me resta da vida é ter sido teu, é ter um dia sido arrebatado pelo caos indomável da paixão, minha deusa prostituta, o espectador de tua irresistível vida, como alguém adormecido que assiste não a seu próprio, mas a um sonho alheio a si. Eu queria ir à farmácia, mas quando vi estava na porta do cassino.

Sabes que o cassino não existe mais, quero dizer, há apenas o edifício, um teatro de recordações, com seu caráter de precariedade, de surpresa, de incerteza, de fluidez e de vertigem, acho que já te disse isso, estou ficando velho e os velhos esquecem o que disseram e se repetem e esquecem as suas lembranças recentes todas para se lembrar apenas do seu passado mais distante, isso se chama ecmnésia, acho que já te disse isso... fluidez e vertigem que o alimenta e que ele transmite ao único amor de sua vida, o dinheiro, a ambição paradoxal, a avareza dissipadora, mas também o encanto das peles de pêssego das mulheres e seus vestidos de canutilhos, as águas transparentes das piscinas de veneno, os caudais de ouro sempre ao alcance de nossas mãos. Tu gostavas tanto de jogar, me arrastavas ao cassino e eu tinha de vestir meu black-tie e improvisar uma gravata borboleta e ia desajeitado, um verdadeiro boticário da roça, cheirando a mofo embora ainda não fosse velho nem roído de traças, desajeitado, tímido... Sabes que sempre detestei cassinos. Tu aparecias linda naquele teu vestido de lã azul que te fazia demasiadamente humana e mulher, perfumada como uma flor de jarro, teus lábios pintados de vermelho que eu detestava tanto quanto detestava os cassinos, mas tu estavas me ensinando a amar o que eu sempre detestara, e o excesso de pintura no rosto que eu detestava e amava, e me perguntavas, Estou horrível, não estou, benzinho? Que roupa mais fora de moda, benzinho, Minha roupa está amassada, benzinho, Meu sapato não combina... não que fossem ideais de burgueses endinheirados, mas apenas uma vaidade feminina, se fossem ideais de burgueses endinheirados não terias amado um boticário matuto, me amavas? amavas? com tua beleza tão visível poderias ter escolhido qualquer burguês endinheirado mas me escolheste, a mim, e me arrastavas ao cassino no rastro do teu perfume e amarrado pelas pérolas falsas do teu colar e teu pandantife e rastejando por tua azulínea forma nas virações serranas, seguindo teu rastro com meu espírito tapera, e tinha ciúmes de teus olhares aos burgueses endinheirados, sei que era apenas um impulso feminino, não estavas interessada neles, estavas apenas interessada em medir teu poder de sedução, a atração que sentiam os homens por ti, mas eras minha, não eras?

Mas eu sentia ciúmes assim mesmo, senti meu peito arder quando as mãos enluvadas daquele danseur mondain tombeur de femmes seguraram tua cintura, lembras? e te levaram a bailar no salão do Palace Cassino, entre aqueles belos incansáveis dançarinos que queriam te namorar, e ele te arrastou para a sala da roleta. Fui destroçado caminhar pela cidade adormecida, enevoada, olhar as estrelas e tropeçar nos meus desencantos, quando ouvi teus gritos chamando por mim, corri e te encontrei chorando pelas ruas e disseste, Por que me deixaste sozinha benzinho? Por que não posso me divertir um pouco benzinho? Por que me fazes chorar benzinho? Achas que fiz alguma coisa errada? Na verdade não estavas ali ao meu lado, era apenas o meu desejo, estavas nos braços do dançarino no Cassino, e fomos caminhando, a ilusão de tua presença e eu, eu e minha alma tímida, eu que saí de Poços de Caldas pela primeira vez aos vinte e seis anos, para ir até a Estação de Cascata quinze quilômetros serra abaixo, teu fantasma e eu caminhamos de madrugada até a Fonte do Desejo onde tirei tua roupa e com teu magnífico corpo nu como se fosses fundida num arcabouço de caldasita aos rasgos do luar te beijei toda e em ti entrei como se fosses uma jazida e te fiz chorar ainda mais, de prazer, depois me fizeste confidências, caminhando nas ruas da cidade adormecida, sabias caminhar com grandeza e decoro, tinhas o ar grave de um ser injustiçado, mostravas teu caráter de quid ignotum, teu perfume, teu rastro, por que fico lembrando as coisas mais antigas? lembrando os anos que passei na prisão, não, por favor, não pense que estou falando nisso para te culpar, não era tão ruim na prisão, eu editava um jornal, quero que saibas que nunca, nem em meu mais íntimo pensamento, acreditei em uma só palavra do que disseram contra ti, meu amor, nada foi culpa tua, simplesmente eu fracassei, fracassei sozinho, fracassei porque nasci para perder, mas há uma dignidade no fracasso, há uma certa dignidade em ser esmagado sob o peso da existência e sucumbir elegante como aquele dançarino do Cabaré Gibimba, se não houvesse perdedores, se não existisse o fracasso, não haveria livros de romances nem cartas de amor, não haveria amor e nem morte.





(OESP/3.12.2012)



(Ilustração: Alia El-Bermani - nude seated)


segunda-feira, 4 de junho de 2012

ESFINGE, de Teófilo Dias







Tuas pupilas alaga 
Não sei que acerba ternura, 
Cuja luz cruel me afaga, 
Cujo afago me tortura. 
  
Unge-te o seio moreno 
Um perfume sufocante, 
Suave como um calmante, 
Pérfido como um veneno. 
  
Freme-te a alma fatal 
No frágil corpo nervoso, 
Como um filtro perigoso 
Numa prisão de cristal. 
  
Para estancar os desejos, 
Que teu sangue tantalizam, 
Teus lábios prodigalizam 
Dentadas por entre beijos. 
  
Com sarcasmo me apunhalas; 
Depois, as feridas cruas 
Ameigas com a luz que exalas 
Dos teus olhos, - negras luas. 
  
Tua palavra me é dura 
Às vezes, pelo sentido, 
E doce pela brandura 
Com que me trina no ouvido. 
  
Há uma alma que suspira 
Em cada ponto do espaço 
Quando caminhas: teu passo 
Murmura como uma lira. 
  
No movimento discreto 
Revelas, por entre gazes, 
Todo um poema correto 
Escrito em versos sem frases. 
  
Os teus lençóis apaixonas 
Com a gentileza que apuras 
Nas langorosas posturas 
Em que o teu corpo abandonas. 
  
Dos primores, de que és feita, 
A nenhum dou primazia: 
É do conjunto a harmonia 
Que os meus sentidos sujeita. 
  
E eu te amo, beleza fátua, 
Minha perpétua loucura, 
Como o verme a flor mais pura, 
E o musgo a mais bela estátua!



 (Antologia da Poesia Paulista)



(Ilustração: Gaston Casimir Saint-Pierre - dream of a believer)



sexta-feira, 1 de junho de 2012

O FUTURO DO BRASIL, de Afonso Celso






Com os elementos congregados em si, pode o Brasil, como nenhum outro país, caminhar desassombrado, o olhar alto, o passo firme. Desempenhará nos negócios humanos papel proporcional ao lugar que ocupa no Globo. Como José Bonifácio declarava em 1789, perante a Academia Real de Lisboa, está preparado para novo assento de ciências, para foco de nova civilização.

É verdade que a grandeza não deriva da simples posse de dons valiosos, mas do seu sábio aproveitamento. Porque, porém, deixaremos de pôr em ação os nossos prodigiosos recursos? Quando não o quiséssemos, seríamos forçados a isso pela ordem natural das cousas, à lei infalível do desenvolvimento das forças e das necessidades. Viveremos, cresceremos, prosperaremos. A educação, o aperfeiçoamento, hão de vir. Somos ainda uma aurora. Chegaremos necessariamente ao brilho e ao calor do meio dia. Ao terminar o século XIX, já constituímos a 2a. potência do Novo Mundo, a 1a. da América do Sul, a 1a. em extensão e a 3a. em população da raça latina. Seremos a 2a. ou a 1a. do orbe, quando a hegemonia se deslocar da Europa para a América, o que fatalmente sucederá. Encarnaremos então as qualidades, guardaremos as tradições, representaremos os serviços dos latinos no trabalho universal. Se tais qualidades, tradições e serviços são eminentes (e quem ousará negá-lo?) eminente será a nossa missão. Não temos o direito de desanimar nunca. Assiste-nos o dever de confiar sempre. Desanimar no Brasil equivale a uma injustiça, a uma ingratidão; é um crime. Cumpre que a esperança se torne entre nós, não uma virtude, mas estrita obrigação cívica.

Desanimar, porque? quando nada nos falta que não possamos conseguir? Penosíssima embora a situação atual, é incomparavelmente mais auspiciosa que a da Grécia, a da Itália, a de Portugal, a da França mesmo.

Quão menos grave que a dos Estados europeus! Neste, a população emigra; naquele decresce cada dia. Vive condenada em todos a não largar as armas, minada pela miséria, dividida por ódios implacáveis, explorada pelo argentarismo, ameaçada pelos anarquistas. Apesar de tudo, lá não desanimam. Havemos nós de desanimar?!

Não! Compenetremo-nos das nossas responsabilidades, ufanemo-nos do que somos, mostremo-nos dignos de tamanhas vantagens e benefícios, façamos, em suma, o nosso dever.

Confiemos. Há uma lógica imanente: de tantas premissas de grandeza só sairá grandiosa conclusão. Confiemos em nós próprios, confiemos no porvir, confiemos, sobretudo, em Deus que não nos outorgaria dádivas tão preciosas para que as desperdiçássemos esterilmente. Deus não nos abandonará. Se aquinhoou o Brasil de modo especialmente magnânimo, é porque lhe reserva alevantados destinos.





 (Porque me ufano do meu País, 1900)





(Ilustração: Romero Britto)