domingo, 30 de outubro de 2011

A VOLTA POR BAIXO, de Carlito Maia







De dom José Cavaca(*), humorista inesquecível: "Criminosos brasileiros brilham na Inglaterra, cuja polícia só está preparada para crimes inteligentes".


Verdade: somos especialistas em crimes burros, irreparáveis; tal a grandeza das perdas que acarretam. Sem falar da impunidade. Crimes contra a Pátria, contra o povo, contra a Humanidade. Como no tempo da Intentona de 1° de abril de 64, quando a ditadura militar deitou e rolou, sem que os criminosos fossem punidos e, em muitos casos, sequer identificados. Caso de Sete Quedas, hoje só uma saudade para os que conheceram aquela maravilha da Natureza, que foi por água abaixo, literalmente, porque os milicos no poder (e bota poder nisso) assim o quiseram. Resolveram (resolviam tudo) fazer a hidrelétrica de Itaipu, de parceria com os donos do Paraguai, e mandaram alagar tudo. O fim da picada. Em nome do sinistro binômio "segurança & desenvolvimento", que os levou também à loucura das usinas atômicas, feitas só para salvar da falência a indústria nuclear alemã, jogando fora (boa parte na Suíça) bilhões de dólares.


Os jovens que me honram com a sua leitura não fazem ideia do que foi aquele tempo, embora estejam sofrendo como todo mundo — as consequências do desvario do "Brasil potência". Ou onde vocês acham que teve início a rebordosa em que estamos, heim? E o pior é que a pusilanimidade aqui reinante botou uma pedra em cima da imundície e nunca mais se tocou no assunto.


Outro crime monstruoso, e igualmente irreparável: a morte de Henfil. Paradigma da dignidade, da coragem, do patriotismo, Henfil foi assassinado. Hemofílico, como seus irmãos homens, submetia-se a frequentes (e caríssimas) transfusões de sangue para sobreviver. Numa dessas — em busca da salvação — encontrou foi a morte. Injetaram nele sangue contaminado pela Aids. Também em Chico Mário e Betinho, seus manos. Mas a viúva de Chico Mário acaba de ser reconhecida pela Justiça, que condenou a União e o Estado do Rio pelo seu desaparecimento. E, claro, também pelo de Henfil.


Mas o juiz teve uma recaída e não reconheceu o direito de Lúcia Lara, brava e digna companheira de Henrique por mais de dez anos, impedindo-a de fazer jus a indenização pela brutal perda sofrida. A verdade é que Lucinha não cogitou jamais de receber dinheiro em troca da vida de Henfil, o que não o traria de volta. Mesmo que — num acesso de loucura, dando uma de amoral nato — exigisse a execução dos responsáveis pelo crime nefando, não teríamos de novo o exemplar cidadão. Crime irreparável e, portanto, impunível. Mas Henfil acaba de dar a volta por baixo, se deu! Henfil vive! "Se não houver frutos/ valeu a beleza das flores/ Se não houver flores/ valeu a sombra das folhas/ E, se não houver folhas, valeu a intenção da semente". Suas lições não serão esquecidas jamais. Valeu, Henfil!



(*) - Dom Rossé Cavaca.



(Vale o escrito)


(Ilustração: Henfil)



sexta-feira, 28 de outubro de 2011

SEIO DE VIRGEM, de Álvares de Azevedo




Quand on te voit, il vient à maints
Une envie dedans les mains
De te tâter, de te tenir..
.
Clément Marot


O que eu sonho noite e dia,
O que me dá poesia
E me torna a vida bela,
O que num brando roçar
Faz meu peito se agitar,
E' o teu seio, donzela!


Oh! quem pintara o cetim
Desses limões de marfim,
Os leves cerúleos veios,
Na brancura deslumbrante
E o tremido de teus seios!


Quando os vejo, de paixão
Sinto pruridos na mão
De os apalpar e conter...
Sorriste do meu desejo?
Loucura! bastava um beijo
Para neles se morrer!


Minhas ternuras, donzela,
Votei-as à forma bela
Daqueles frutos de neve...
Aí duas cândidas flores
Que o pressentir dos amores
Faz palpitarem de leve.


Mimosos seios, mimosos,
Que dizem voluptuosos:
"Amai-nos, poetas, amai!
"Que misteriosas venturas
"Dormem nessas rosas puras
E se acordarão num ai!"


Que lírio, que nívea rosa,
Ou camélia cetinosa
Tem uma brancura assim?
Que flor da terra ou do céu,
Que valha do seio teu
Esse morango ou rubim?


Quantos encantos sonhados
Sinto estremecer velados
Por teu cândido vestido!
Sem ver teu seio, donzela,
Suas delícias revela
O poeta embevecido!


Donzela, feliz do amante
Que teu seio palpitante
Seio d'esposa fizer!
Que dessa forma tão pura
Fizer com mais formosura
Seio de bela mulher!


Feliz de mim... porém não!...
Repouse teu coração
Da pureza no rosal!
Tenho eu no peito um aroma
Que valha a rosa que assoma
No teu seio virginal?...



(Ilustração: Andrzej Malinowski - Virginie)


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O DESTINO LATE ANTES DA HORA, de Cida Pedrosa






Joly foi amarrado ao meio-dia. Só olhos e sede. O pé de juazeiro era pouco para a impaciência e o silêncio. A tarde era castanha e corria em um abril sereno, desses sem nuvens e de brisa rasteira a balançar as saias.

Joly foi amarrado ao meio-dia. A menina se aproximou da corda e foi puxada bruscamente pelo pai. Sem entenderem nada, o encontro de quatro olhos aflitos, partido apenas por um leve grunhido e um suave balançar de rabo.

Joly foi amarrado ao meio-dia. Olhos vidrados, baba na boca. Não quis o pão embebido em leite, nem o almoço tirado da mesa e longe das sobras.

Joly foi executado ao meio-dia. Um pai uma única mão um único tiro misericórdia nos olhos. Duas cabeças dois corações. Um destino que parou. A menina não tinha palavras na boca e correu estrada afora. Tarde sem dentes, água entre as pernas e um latido encravado no ouvido.

A mulher parou no sinal ao meio-dia. Só olhos e cansaço. A sombra da alameda era pouca para a impaciência e o barulho. A tarde era castanha e corria em um abril apressado, cheio de nuvens e de um vento ligeiro.

A mulher parou no sinal ao meio-dia. O menino se aproximou do carro e puxou bruscamente a arma contra o vidro. Sem entenderem nada, se repete o encontro de quatro olhos aflitos, partido apenas pelo suave levantar do cão.

A mulher parou no sinal ao meio-dia. Estava com fome e na mesa posta pratos e filhos à sua espera.

A mulher foi executada ao meio-dia. Um menino duas mãos vários tiros uma bolsa. Duas cabeças dois corações dois destinos. O menino não tinha misericórdia nos olhos vidrados e correu rua afora sem amarras. Tarde sem dentes, baba na boca, água entre as pernas e um barulho de sirene no ouvido.



(Ilustração: Oswaldo Sagastegui)


sábado, 22 de outubro de 2011

OROPA, FRANÇA E BAHIA, de Ascenso Ferreira









Para os 3 Manuéis:


Manuel Bandeira
Manuel de Souza Barros
Manuel Gomes Maranhão




Num sobradão arruinado,
Tristonho, mal-assombrado,
Que dava fundos prá terra.
( "para ver marujos,
Ttituliluliu!
ao desembarcar").

...Morava Manuel Furtado,

português apatacado,
com Maria de Alencar!
Maria era uma cafuza,
cheia de grandes feitiços.
Ah! os seus braços roliços!
Ah! os seus peitos maciços!
Faziam Manuel babar...

A vida de Manuel,

que louco alguém o dizia,
era vigiar das janelas
toda noite e todo o dia,
as naus que ao longe passavam,
de "Oropa, França e Bahia"!
— Me dá uma nau daquelas,
lhe suplicava Maria.
— Estás idiota, Maria.
Essas naus foram vintena
Que eu herdei da minha tia!
Por todo o ouro do mundo
eu jamais a trocaria!
Dou-te tudo que quiseres:
Dou-te xale de Tonquim!
Dou-te uma saia bordada!
Dou-te leques de marfim!
Queijos da Serra Estrela,
perfumes de benjoim...
Nada.
A mulata só queria
que seu Manuel lhe desse
uma nauzinha daquelas,
inda a mais pichititinha,
prá ela ir ver essas terras
"De Oropa, França e Bahia"...
— Ó Maria, hoje nós temos
vinhos da quinta do Aguirre,
uma queijadas de Sintra,
só prá tu te distraíres
desse pensamento ruim...
— Seu Manuel, isso é besteira!
Eu prefiro macaxeira
com galinha de oxinxim!
"Ó lua que alumias
esse mundo de meu Deus,
alumia a mim também
que ando fora dos meus..."
Cantava Seu Manuel
espantando os males seus.
"Eu sou mulata dengosa,
linda, faceira, mimosa,
qual outras brancas não são"...
Cantava forte Maria,
pisando fubá de milho,
lentamente no pilão...

Uma noite de luar,

que estava mesmo taful,
mais de 400 naus,
surgiram vindas do Sul...
— Ah! Seu Manuel, isso chega...
Danou-se de escada abaixo,
se atirou no mar azul.

— "Onde vais mulhé?"

— Vou me daná no carrosé!
— Tu não vais, mulhé,
— mulhé, você não vai lá..."
Maria atirou-se n´água,
Seu Manuel seguiu atrás...
— Quero a mais pichititinha!
— Raios te partam, Maria!
Essas naus são meus tesouros,
ganhou-as matando mouros
o marido da minha tia!
Vêm dos confins do mundo...
De "Oropa, França e Bahia"!
Nadavam de mar em fora...
(Manuel atrás de Maria!)
Passou-se uma hora, outra hora,
e as naus nenhum atingia...
Faz-se um silêncio nas águas,
cadê Manuel e Maria?!
De madrugada, na praia,
dois corpos o mar lambia...
Seu Manuel era um "Boi Morto",
Maria, uma "Cotovia"!
E as naus de Manuel Furtado,
herança de sua tia?

— continuam mar em fora,

navegando noite e dia...
Caminham para "Pasárgada",
para o reino da Poesia!
Herdou-as Manuel Bandeira,
que, ante a minha choradeira,
me deu a menor que havia!

— As eternas naus do Sonho,

de "Oropa, França e Bahia"...



(Ilustração: Fritz Aigner)


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

COSIFICAÇÃO DOS BÚFALOS, de Joseph Campbell






CAMPBELL: O animal tem poderes que o ser humano não tem. O xamã, por exemplo, frequentemente manterá um animal consigo, isto é, o espírito de alguma espécie de animal, que lhe dará sustentação e o guiará.

MOYERS: Mas quando começam a ser capazes de imaginar e ver beleza, e a criar beleza, fora dessa relação, então os seres humanos se tonam superiores aos animais, não se tornam?

CAMPBELL: Bem, não creio que o xamã pense tanto em superioridade quanto em igualdade. Ele pede conselho aos animais, e o animal se torna um modelo para a vida. Nesse caso, é superior. Às vezes o animal se torna o doador de um ritual, como nas lendas sobre a origem do búfalo. Por exemplo, você pode ver essa igualdade na lenda básica da tribo dos pés negros, que é a lenda da origem das suas danças rituais do búfalo, por meio das quais eles invocam a cooperação dos animais no jogo da vida.

MOYERS: Que lenda é essa?

CAMPBELL: Bem, essa história se origina das dificuldades de encontrar alimento para um grupo tribal de grande porte. Um modo de conseguir carne para o inverno é conduzir uma manada de búfalos até o alto de um rochedo, de modo que todos eles caiam e possam ser facilmente esquartejados no PE do rochedo. Isso é conhecido como “cachoeira de búfalo”.

Esta história, muito, muito antiga, sobre uma tribo de pés negros que não conseguia levar os búfalos até o alto do rochedo. Os búfalos se aproximavam e, então mudavam de direção. Assim parecia que a tribo não teria nada para comer, no inverno.

Um dia, uma jovem levantou-se cedo, para buscar água para a família, e por acaso olhou para o rochedo onde estavam os búfalos. Ela então disse: “Ah, se vocês chegarem lá em cima, eu me casarei com um de vocês”.

Para sua surpresa, todos se puseram em marcha. Bem essa foi a surpresa número 1. A surpresa número 2 foi quando um dos búfalos, o xamã da manada, se aproximou e disse: “Muito bem, menininha, agora vamos”.

“Oh, não”, ela diz.

“Oh, sim, diz ele, “você fez uma promessa. Nós mantivemos nossa parte do trato. Olhe para todos os meus parentes aqui – mortos. Agora nós iremos”.

Bem, quando a família acorda, olha ao redor e... onde está Minnehaha? O pai se abaixa para examinar o chão – você sabe, os índios podem ver pelas marcas dos pés – e diz: “Ela se foi com um búfalo. E eu vou trazê-la de volta”.

Então ele veste seus mocassins, apanha arco e flecha, e tudo o mais, e parte na direção das planícies. Já tinha caminhado uma boa distância quando acha melhor sentar e descansar um pouco. Ele então se senta, e enquanto pensa no que deveria fazer, aparece-lhe uma pega, um daqueles pássaros espertos que têm qualidades xamânicas.

MOYERS: Qualidades mágicas.

CAMPBELL: Sim. E o índio diz à pega: “Ó belo pássaro, minha filha fugiu com um búfalo? Você a viu? Poderia procurar aí ao redor, para ver se a encontra em algum lugar nas planícies?”

E a pega diz: “Bem, há uma bela jovem com um búfalo, agora mesmo, logo ali, bem perto”.

“Bem”, diz o homem, “você poderia ir dizer a ela que seu pai está aqui, no lamaçal do búfalo?”

Então a pega sai voando e encontra a jovem lá entre os búfalos, que estão todos dormindo, enquanto ela costura, ou algo parecido. A pega se aproxima e diz: “Seu pai está ali no lamaçal, à sua espera”.

“Oh”, ela diz, “isso é terrível. Isso é muito perigoso. Esses búfalos vão matar-nos. Diga-lhe para esperar, e eu aparecerei. Tentarei dar um jeito nisso.”

Então o búfalo seu esposo, que estava atrás dela, acorda, pega o próprio chifre e diz: “Vá até o lamaçal e me traga algo para beber”.

Ela apanha o chifre e vai, e ali está seu pai. Ele a toma pelo braço e diz: “Venha!”

Mas ela diz: “Não, não, não! Isto é um tremendo perigo. Toda a manada viria logo atrás de nós. Eu vou dar um jeito nisso. Agora deixe-me voltar”.

Assim ela apanha a água e volta. E o búfalo diz: “Fe, fi, fo, fum, eu sinto o cheiro do sangue de um índio” – você sabe, esse tipo de coisas. E ela diz: “Não, nada disso”. E ele diz: “Ah, sim, com certeza”! Então ele dá um berro de búfalo, e todos os búfalos se levantam, começam a executar uma lenta dança de búfalos com as caudas erguidas, e depois se põem em marcha e pisoteiam aquele pobre homem até a morte, até que ele desapareça inteiramente, transformado num monte de pedaços. E se vão. A jovem chora e seu esposo búfalo diz: “Você está chorando?”

“Sim”, ela diz, “ele é meu papai”.

“Bem”, ele diz, “e nós? As nossas crianças lá estão, ao pé do rochedo, nossas esposas, nossos pais... e você chora por causa do seu paizinho.” Bem, ele aparentemente era um tipo de búfalo que se compadecia, e disse: “Está bem, se você conseguir trazer seu papai de volta à vida eu os deixarei ir”.

Então ela se volta para a pega e diz: “Por favor, saia bicando por aí e veja se encontra um pedacinho do papai”. A pega assim o faz e retorna, por fim, com uma vértebra, apenas um ossinho. E a jovem diz “Isto é o bastante”. Então ela coloca o osso no chão, cobre-o com sua manta e canta uma canção vivificadora, uma canção mágica, muito poderosa. E então... isso mesmo, surge um homem de sob a manta. Ela espia: “É papai, e está bem!” Mas ela ainda não está respirando. Ela canta mais algumas estrofes da canção que estava cantando e ele se ergue.

Os búfalos ficam espantados, e dizem: “Bem, por que você não faz isso para nós? Ensinaremos a vocês a nossa dança de búfalo, e quando vocês tiverem matado nossas famílias, vocês dançarão essa dança e cantarão essa canção, todos voltaremos a viver de novo”.

E aí está a ideia básica – através do ritual, atinge-se aquela dimensão que transcende a temporalidade, aquela dimensão da qual a vida provém e para a qual retorna.

MOYERS: O que aconteceu há cerca de cem anos, quando o homem branco veio e dizimou esse animal que era objeto de reverência?

CAMPBELL: Foi uma violação sacrílega. Em muitas das pinturas que George Catlin fez, no início do século passado, das grandes planícies do oeste, você vê centenas, milhares de búfalos, por toda parte. Então, em cinquenta anos, os desbravadores de fronteiras, equipados com rifles de repetição, dizimaram manadas inteiras, tomando só as peles, para vender, e abandonando os corpos ali, apodrecendo. Isso foi um sacrilégio.

MOYERS: Isso transformou o búfalo, de “alguém”...

CAMPBELL: ... em “coisa”.

MOYERS: Os índios se dirigiam aos búfalos como “vós”, em sinal de reverência.

CAMPBELL: Os índios se dirigiam a todo ser vivente como “vós” – as árvores, as pedras, tudo. Você também pode se dirigir a qualquer coisa como “vós”, e se o fizer sentirá a mudança na sua própria psicologia. O ego que vê um “vós” não é o mesmo que vê uma “coisa”. E quando se entra em guerra com outro povo, o objetivo da empresa é transformar esse povo em “coisas”.




(O Poder do Mito, com Bill Moyers – tradução de Carlos Felipe Moisés)



(Ilustração: George Catlin)



terça-feira, 18 de outubro de 2011

ELOGIO DO PECADO, de Bruna Lombardi








Ela é uma mulher que goza
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza

você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.
É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa

Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada
retorna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa.


(Ilustração: Andrea Kemp – Mia)


domingo, 16 de outubro de 2011

QUE TRATA DA CONDIÇÃO E EXERCÍCIO DO FAMOSO FIDALGO D. QUIXOTE DE LA MANCHA, de Miguel de Cervantes







Num lugar de la Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, vivia, não há muito, um fidalgo, dos de lança em cabido, adarga antiga, rocim fraco, e galgo corredor. Passadio, olha seu tanto mais de vaca do que de carneiro, as mais das ceias restos da carne picados com sua cebola e vinagre, aos sábados outros sobejos ainda somenos, lentilhas às sextas-feiras, algum pombito de crescença aos domingos, consumiam três quartos do seu haver. O remanescente, levavam-no saio de velarte (1), calças de veludo para as festas, com seus pantufos do mesmo; e para os dias de semana o seu vellori(2) do mais fino. Tinha em casa uma ama que passava dos quarenta, uma sobrinha que não chegava aos vinte, e um moço da poisada e de porta afora, tanto para o trato do rocim, como para o da fazenda. Orçava na idade o nosso fidalgo pelos cinquenta anos. Era rijo de compleição, seco de carnes, enxuto de rosto, madrugador, e amigo da caça. Querem dizer que tinha o sobrenome de Quijada ou Quesada, que nisto discrepam algum tanto os autores que tratam da matéria; ainda que por conjeturas verossímeis se deixa entender que se chamava Quijana. Isto, porém, pouco faz para a nossa história; basta que, no que tivermos de contar, não nos desviemos da verdade nem um til.

É, pois, de saber que este fidalgo, nos intervalos que tinha de ócio, que eram os mais do ano, se dava a ler livros de cavalaria, com tanta afeição e gosto, que se esqueceu quase de todo do exercício da caça, e até da administração dos seus bens; e a tanto chegou a sua curiosidade e desatino neste ponto, que vendeu muitos trechos de terra de semeadura para comprar livros de cavalarias que ler, com o que juntou em casa quantos pôde apanhar daquele gênero. Dentre todos eles, nenhuns lhe pareciam tão bem como os compostos pelo famoso Feliciano da Silva(3), porque a clareza da sua prosa e aquelas intrincadas razões suas lhe pareciam de pérolas, e mais, quando chegava a ler aqueles requebros e cartas de desafio, onde em muitas partes achava escrito: “A razão da sem-razão que à minha razão se faz, de tal maneira a minha razão enfraquece, que com razão me queixo da vossa formosura”. E também quando lia: “... os altos céus que de vossa divindade divinamente com as estrelas vos fortificam, e vos fazem merecedora do merecimento que merece a vossa grandeza” (4).

Com estas razões perdia o pobre cavaleiro o juízo, e desvelava-se por entendê-las, e desentranhar-lhes o sentido, que nem o próprio Aristóteles o lograria, ainda que só para isso ressuscitara. Não se entendia lá muito bem com as feridas que D. Belianis dava e recebia, por imaginar que, por grandes facultativos que o tivessem curado, não deixaria de ter o rosto e todo o corpo cheio de cicatrizes e costuras. Porém, contudo louvava no autor aquele acabar o seu livro com a promessa daquela inacabável aventura, e muitas vezes lhe veio desejo de pegar na pena, e finalizar ele a coisa ao pé da letra, como ali se promete; e sem dúvida alguma o fizera, e até o sacara à luz, se outros maiores e contínuos pensamentos lho não estorvaram. Teve muitas vezes testilhas com o cura do seu lugar (que era homem douto, graduado em Siguenza (5)) sobre qual tinha sido melhor cavaleiro: se Palmeirim de Inglaterra, ou Amadis de Gaula; Mestre Nicolau, barbeiro do mesmo povo, dizia que nenhum chegava ao Cavaleiro do Febo; e que, se algum se lhe podia comparar, era Dom Galaor, irmão do Amadis de Gaula, o qual era para tudo, e não cavaleiro melindroso nem tão chorão como seu irmão, e que em pontos de valentia lhe não ficava atrás.

Em suma, tanto naquelas leituras se enfrascou, que passava as noites de claro e os dias de escuro em escuro, e assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro, de maneira que chegou a perder o juízo. Encheu-se-lhe a fantasia de tudo que achava nos livros, assim de encantamentos, como pendências, batalhas, desafios, feridas, requebros, amores, tormentas, e disparates impossíveis; e assentou-se-lhe de tal modo na imaginação ser verdade toda aquela máquina de sonhadas invenções que lia, que para ele não havia história mais certa no mundo. Dizia ele que Cid Rui Díaz fora mui bom cavaleiro; porém que não tinha que ver com o Cavaleiro da Ardente Espada (6), que de um só revés tinha partido pelo meio a dois feros e descomunais gigantes. Melhor estava com Bernardo del Cárpio, porque em Roncesvales havia morto a Roldão, o Encantado, valendo-se da indústria de Hércules, quando afogou entre os braços a Anteu(7), filho da Terra. Dizia muito bem do gigante Morgante, porque, com ser daquela geração dos gigantes, que todos são soberbos e descomedidos, só ele era afável e bem criado. Porém sobre todos estava bem com Reinaldo de Montalvão(8), especialmente quando o via sair do seu castelo, e roubar quantos topava, e quando em além de(9) se apossou daquele ídolo de Mafoma, que era de ouro maciço, segundo refere a sua história. Para poder pregar um bom par de pontapés no traidor Galalão(10), dera ele a ama, e de crescenças a sobrinha.

Afinal, rematado já de todo o juízo, deu no mais estranho pensamento em que nunca jamais caiu louco algum do mundo, e foi: parecer-lhe convinhável e necessário, assim para aumento de sua honra própria, como para proveito da república, fazer-se cavaleiro andante, e ir-se por todo o mundo, com as suas armas e cavalo, à cata de aventuras, e exercitar-se em tudo em que tinha lido se exercitavam os da andante cavalaria, desfazendo todo o gênero de agravos, e pondo-se em ocasiões e perigos, donde, levando-os a cabo, cobrasse perpétuo nome e fama. Já o coitado se imaginava coroado pelo valor do seu braço, pelo menos com o império de Trapisonda; e assim, com estes pensamentos de tanto gosto, levado do enlevo que neles trazia, se deu pressa a pôr por obra o que desejava. E a primeira coisa que fez foi limpar umas armas que tinham sido dos seus bisavós, e que, desgastadas de ferrugem, jaziam para um canto esquecidas havia séculos. Limpou-as e consertou-as o melhor que pôde; porém viu que tinham uma grande falta, que era não terem celada de encaixe, senão só morrião simples(11); a isto porém remediou a sua habilidade: arranjou com papelões uma espécie de meia celada, que encaixava com o morrião, representando celada inteira. Verdade é que, para experimentar se lhe saíra forte e poderia com uma cutilada, sacou da espada e lhe atirou duas, e com a primeira para logo desfez o que lhe tinha levado uma semana a arranjar; não deixou de parecer-lhe mal a facilidade com que dera cabo dela, e, para forrar-se a outra que tal, tornou a corregê-la, metendo-lhe por dentro umas barras de ferro, por modo que se deu por satisfeito com a sua fortaleza; e, sem querer aventurar-se a mais experiências, a despachou e teve por celada de encaixe das mais finas.

Foi-se logo a ver o seu rocim; e dado tivesse mais quartos(12) que um real, e mais tachas que o próprio cavalo de Gonela(13), que tantum pellis et ossa fuit(14), pareceu-lhe que nem o Bucéfalo de Alexandre nem o Babieca do Cid tinham que ver com ele. Quatro dias levou a cismar que nome lhe poria; porque (segundo ele a si próprio se dizia) não era razão que um cavalo de tão famoso cavaleiro, e ele mesmo de si tão bom, ficasse sem nome aparatoso; barafustava por lhe dar um, que declarasse o que fora antes de pertencer a cavaleiro andante; pois era coisa muito de razão que, mudando o seu senhor de estado, mudasse ele também de nome, e o cobrasse famoso e de estrondo, como convinha à nova ordem e ao exercício que já professava; e assim, depois de escrever, riscar, e trocar muitos nomes, ajuntou, desfez, e refez na própria lembrança outros, até que acertou em o apelidar “Rocinante”, nome, em seu conceito, alto, sonoro, e significativo do que havia sido quando não passava de rocim, antes do que ao presente era, como quem dissera que era o primeiro de todos os rocins do mundo(15).

Posto a seu cavalo nome tanto a contento, quis também arranjar outro para si; nisso gastou mais oito dias; e ao cabo disparou em chamar-se D. Quixote; do que, segundo dito fica, tomaram ocasião alguns autores desta verdadeira história para assentarem que se devia chamar Quijada, e não Quesada, como outros quiseram dizer. Recordando-se, porém, de que o valoroso Amadis, não contente com chamar-se Amadis sem mais nada, acrescentou o nome com o do seu reino e pátria, para a tornar famosa, e se nomeou Amadis de Gaula, assim quis também ele, como bom cavaleiro, acrescentar ao seu nome o da sua terra, e chamar-se “D. Quixote de la Mancha”, com o que, a seu parecer, declarava muito ao vivo sua linhagem e pátria, a quem dava honra com tomar dela o sobrenome. Assim, limpas as suas armas, feita do morrião celada, posto o nome ao rocim, e confirmando-se a si próprio, julgou-se inteirado de que nada mais lhe faltava, senão buscar uma dama de quem se enamorar; que andante cavaleiro sem amores era árvore sem folhas nem frutos, e corpo sem alma. Dizia ele entre si: “Demos que, por mal dos meus pecados, ou por minha boa sorte, me encontro por aí com algum gigante como de ordinário acontece aos cavaleiros andantes, e o derribo de um recontro, ou o parto em dois, ou finalmente o venço e rendo; não será bem ter a quem mandá-lo apresentar, para que ele entre, e se lance de joelhos aos pés da minha preciosa senhora e lhe diga com voz humilde e rendida: ‘Eu, senhora, sou o gigante Caraculiambro, senhor da ilha Malindrânia(16), a quem venceu em singular batalha o jamais dignamente louvado cavaleiro D. Quixote de la Mancha, o qual me ordenou me apresentasse perante Vossa Mercê, para que a vossa grandeza disponha de mim como for servida’?" Como se alegrou o nosso bom cavaleiro de ter engenhado este discurso, e especialmente quando atinou com quem pudesse chamar a sua dama! Foi o caso, conforme se crê, que, num lugar perto do seu, havia certa moça lavradora de muito bom parecer, de quem ele em tempos andara enamorado, ainda que, segundo se entende, ela nunca o soube, nem de tal desconfiou. Chamava-se Aldonça(17) Lourenço; a esta é que a ele pareceu bem dar o título de senhora dos seus pensamentos; e, buscando-lhe nome que não desdissesse muito do que ela tinha, e ao mesmo tempo desse seus ares de princesa e grã-senhora, veio a chamá-la “Dulcineia del Toboso”, por ser Toboso(18) a aldeia da sua naturalidade; nome este, em seu entender, musical, peregrino, e significativo, como todos os que mais que a si e às suas coisas já havia posto.


Notas:


(1) Pano negro e lustroso, usado como agasalho.
(2) Pano de espessura média, da cor da lã, embora inferior ao velarte.
(3) Autor da Segunda comédia de Calixto e de vários livros de cavalaria, entre os quais Lisuarte de Grécia, Amadis de Grécia, Florisel de Niqueia e Rogel de Grécia.
(4) Este trecho é um exemplo das degenerações da linguagem cavaleiresca.
(5) Siguenza e Osuna eram universidades menores, citadas frequentemente nos clássicos espanhóis. Aqui, Siquenza é citada ironicamente.
(6) Amadis de Gaula tinha, estampada no peito, uma espada vermelha.
(7) Anteu perdia a força ao ser separado da terra.
(8) Personagem dos cantos de gesta franceses; em algumas versões, é indicado como participante da batalha de Roscenvales.
(9) Além do mar, em terra de mouros.
(10) Galalão foi o traidor que causou a derrota dos franceses em Roscenvales.
(11) O morrião simples cobria a parte superior da cabeça; a celada de encaixe levava uma peça grande e circular que se encaixava sobre a couraça.
(12) “Quarto”: moeda; e também nome de enfermidade nas patas dos cavalos.
(13) O cavalo de Gonela, bufão do Duque de Ferrara, foi famoso por sua fraqueza e extenuação.
(14) Frase da comédia de Plauto, Aululária. “Só pele e ossos foi.”
(15) O sentido é bem claro; o ante-rocim, o primeiro rocim do mundo.
(16) Caraculiambro, Malindrânia: nomes imaginários e depreciativos.
(17) Aldonça, nome considerado muito vulgar na época.
(18) Vila manchega, assim chamada por suas pedras muito porosas e leves, ou “tobas”. Famosa também pelas suas grandes vasilhas de barro cozido.




(Dom Quixote, tradução de Visconde de Castilho e Azevedo)

(Ilustração: dom Quixote; autor não identificado)


sexta-feira, 14 de outubro de 2011

TUA MÃO EM MIM, de Marina Colasanti







Você me acorda no meio da noite
e eu que navegava tão distante
cravada a proa em espumas
desfraldados os sonhos
afloro de repente entre as paradas ondas dos lençóis
a boca ainda salgada mas já amarga
molhada a crina
encharcados os pêlos
na maresia que do meu corpo escorre.
Cravam-se ao fundo os dedos do desejo.
A correnteza arrasta.
Só quando o primeiro sopro escapar
entre os lábios da manhã
levantarei âncora.
Mas será tarde demais.
O sol nascente terá trancado o porto
e estarei prisioneira da vigília.


(Ilustração: Aaron Coberly)


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O QUE DEFINE UM MEME, de James Gleick








“Aquilo que jaz no coração de todas as coisas vivas não é uma chama, nem um hálito quente, nem uma ‘faísca de vida’, e sim a informação, palavras, instruções”, declarou Richard Dawkins em 1986. Já consagrado como um dos maiores biólogos da evolução, ele tinha capturado o espírito de uma nova era. As células de um organismo são nódulos numa rede de comunicações, sempre transmitindo e recebendo, codificando e decodificando. A própria evolução é a encarnação de uma troca contínua de informações entre organismo e meio ambiente. “Se quiser compreender a vida”, escreveu Dawkins, “não pense nas gosmas e melecas pulsantes e fluidas, e sim na tecnologia da informação”.
A ascensão da teoria da informação foi facilitadora e cúmplice de uma nova forma de enxergar a vida. O código genético – não mais uma simples metáfora – estava sendo decifrado. Os cientistas falavam com grandiosidade numa biosfera: uma entidade composta por todas as formas de vida da Terra, transbordando de informação, replicando-se e evoluindo.


Jacques Monod, biólogo parisiense que dividiu um Prêmio Nobel em 1965 – por desvendar o papel desempenhado pelo RNA mensageiro na transmissão das informações genéticas –, propôs uma analogia: assim como a biosfera paira sobre o mundo da matéria não viva, um “reino abstrato” paira sobre a biosfera. Os súditos deste reino? As ideias.



“As ideias retiveram algumas das propriedades dos organismos”, escreveu. “Como eles, as ideias tendem a perpetuar sua estrutura e a se reproduzir; elas também podem se fundir, se recombinar, segregar seu conteúdo; de fato, também elas podem evoluir e, nesta evolução, a seleção sem dúvida desempenha um papel importante.”



As ideias têm um “poder de contágio”, destacou – “poderíamos chamá-lo de capacidade de infecção” –, e nisso algumas são mais fortes do que outras. O neurofisiologista americano Roger Sperry tinha apresentado uma ideia parecida anos antes, defendendo que as ideias seriam “tão reais” quanto os neurônios que elas habitam: “Ideias interagem entre si e com outras forças mentais no cérebro, em cérebros vizinhos e, graças à comunicação global, em cérebros à distância. E elas também interagem com o meio externo que as cerca para produzir ao todo um rápido e imediato surto evolutivo que supera qualquer coisa que já tenha chegado à cena evolucionária.” E acrescentava: “Não me arrisco a propor uma teoria da seleção das ideias”. Não precisava. Outros o fariam.



Dawkins deu seu próprio salto da evolução dos genes para a evolução das ideias. Para ele, o papel de protagonista cabe ao replicador, e isso não tem nada a ver com química. “Um novo tipo de replicador surgiu recentemente neste mesmo planeta”, proclamou Dawkins em seu primeiro livro, O Gene Egoísta, em 1976. “Ele está nos encarando. Ainda em sua infância, vagando desajeitado em seu caldo primordial, mas já está atingindo um ritmo de mudanças evolucionárias que deixa o velho gene para trás.” Esse “caldo” é a cultura humana; o vetor de transmissão é a linguagem, e o ambiente de reprodução é o cérebro.



Dawkins propôs um nome para este replicador etéreo: o “meme”, a mais memorável de suas invenções. “Os memes propagam a si mesmos no pool dos memes ao saltarem de cérebro para cérebro por meio de um processo que, num sentido amplo, pode ser chamado de imitação”, escreveu. Eles concorrem uns com os outros pelos recursos limitados: tempo de atividade cerebral ou largura de banda. Disputam principalmente a atenção, sejam ideia, canções, frases de efeito ou imagens.



Durante a maior parte de nossa história biológica os memes existiram brevemente; sua principal forma de transmissão era a que chamamos de “boca a boca”. Depois, eles conseguiram aderir a substâncias sólidas: placas de argila, paredes nas cavernas, folhas de papel. Eles alcançam a longevidade por nossas canetas, rotativas, fitas e discos, torres de transmissão, redes digitais. São histórias e habilidades, lendas e modas. Os copiamos, uma pessoa de cada vez. Ou, na perspectiva memecêntrica de Dawkins, eles copiam a si mesmos. E os interesses dos memes não coincidem com os nossos.



“Um meme”, diz o filósofo Daniel Dennett, “é um pacote de informação com atitude”. A rima e o ritmo ajudam as pessoas a se lembrar de trechos de um texto. Ou: a rima e o ritmo ajudam trechos de um texto a serem lembrados. Rima e ritmo são qualidades que facilitam a sobrevivência de um meme, assim como força e velocidade facilitam a de um animal. A linguagem padronizada traz em si uma vantagem evolutiva. Rima, ritmo e sentido – pois o sentido também é padronização. A linguagem serviu como o primeiro catalisador da cultura. Ela substitui a imitação, transmitindo conhecimento por meio da abstração e da codificação.



Talvez a analogia com a doença fosse inevitável. Antes que alguém compreendesse minimamente a epidemiologia, sua linguagem foi aplicada a espécies de informação. Uma emoção pode ser infecciosa, uma música pode ser transmissível, um hábito pode ser contagioso. De acordo com o poeta John Milton, o mesmo se aplica à luxúria: “Eva, que bem o entende, está vibrando / Dos meigos olhos contagioso lume”. Mas foi somente no novo milênio, na era da transmissão global eletrônica, que a identificação se tornou natural. Nossa era é marcada pela viralidade: educação viral, marketing viral, e-mail viral, vídeos e redes virais. Os pesquisadores que estudam a própria internet enquanto suporte – crowdsourcing, atenção coletiva, redes sociais e alocação de recursos – empregam não apenas a linguagem como também os princípios matemáticos da epidemiologia.



Um dos primeiros a usar o termo “texto viral” parece ter sido um leitor de Dawkins chamado Stephen Walton, de Nova York, em correspondência com o cientista cognitivo Douglas Hofstadter. Pensando logicamente – como um computador – Walton propôs sentenças simples e autorreplicantes nos moldes de “Fale-me!”, “Copie-me!” e “Se me copiar, eu lhe concederei três desejos!”. Hofstadter, então colunista da Scientific American, considerou o próprio termo “texto viral” ainda mais sedutor: “Ora, como podemos ver diante de nossos olhos, o próprio texto viral de Walton foi capaz de comandar os recursos de um hospedeiro bastante poderoso – toda uma revista com suas rotativas e sistema de distribuição. Ele embarcou num salto e agora – mesmo enquanto você lê este texto viral – está se propagando loucamente pela ideiasfera!”



Hofstadter declarou-se alegremente infectado pelo meme do meme.



Uma fonte de resistência – ou de inquietação – foi o fato de nós, seres humanos, ficarmos em segundo plano. Já era ruim o bastante dizer que uma pessoa era simplesmente o veículo por meio do qual um gene produz mais genes. Dennett pergunta: “De acordo com essa visão, quem está no comando: nós ou os nossos memes?” Ele respondeu sua própria pergunta ao nos lembrar que, quer gostemos ou não, raramente estamos “no comando” de nossas próprias mentes. Dennett poderia ter citado Freud; em vez disso, citou Mozart (ou ao menos pensou tê-lo feito): “À noite, quando não consigo dormir, os pensamentos me invadem a mente… Como e de onde eles vêm? Não sei, e nada tenho a ver com isto”. Dennett foi posteriormente informado que esta conhecida citação não era de Mozart, afinal. Ela tinha ganhado vida própria; era um meme bem-sucedido.

E assim a paisagem foi se transformando mais rapidamente do que Dawkins poderia imaginar em 1976, quando escreveu: “Os computadores nos quais os memes vivem são os cérebros humanos”. Em 1989, época da segunda edição de O Gene Egoísta, depois de ter se tornado ele próprio um programador experiente, Dawkins teve de acrescentar que: “Era obviamente previsível que também os computadores eletrônicos fabricados se tornariam finalmente hospedeiros de padrões autorreplicantes de informação”. A informação estava passando de um computador ao outro “quando seus proprietários trocam disquetes uns com os outros”, e ele já enxergava outro fenômeno despontando no horizonte próximo: computadores ligados a redes.


“Muitos deles”, escreveu Dawkins, “são literalmente entrelaçados uns aos outros em trocas eletrônicas de correspondência. (…)Trata-se de um meio perfeito para o florescimento de programas autorreplicantes”. De fato, a internet estava sentindo as dores do seu próprio parto. Além de proporcionar aos memes um suporte cultural rico em nutrientes, ela também deu asas à ideia dos memes.



Em sua coluna publicada em 1983, Hofstadter propôs o óbvio rótulo memético para uma disciplina como essa: a memética. O estudo dos memes atraiu pesquisadores de campos tão distantes quanto a ciência da computação e a microbiologia. Na bioinformática, as correntes de correspondência são um objeto de estudo. Elas são memes; têm históricos evolutivos.



O próprio propósito das correntes de cartas é a replicação; independentemente do texto das correntes de cartas, elas encarnam uma mensagem: Copie-me. Um estudante da evolução das correntes de cartas, Daniel W. VanArsdale, listou muitas variantes, tanto nas correntes de cartas quanto em textos anteriores: “Faça sete cópias da carta exatamente como ela foi escrita” (1902); “Copie integralmente e envie para nove amigos” (1923); “E, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro” (Apocalipse 22:19).

As correntes de correspondência prosperaram com a ajuda de uma nova tecnologia do século 19: o papel carbono, ensanduichado entre as folhas de um bloco de papel. Então o papel carbono estabeleceu uma parceria simbiótica com outra tecnologia, a máquina de escrever. Epidemias virais de correntes de correspondência ocorreram ao longo do início do século 20. Duas tecnologias subsequentes, quando seu uso se tornou generalizado, trouxeram benefícios que ampliaram em ordens de magnitude a fecundidade da corrente de correspondência: as fotocópias (em 1950) e o e-mail (em 1995).
Inspirados por uma conversa casual durante uma caminhada pelas montanhas de Hong Kong, os cientistas da informação Charles H. Bennett, da IBM de Nova York, Ming Li e Bin Ma, de Ontário, Canadá, começaram a analisar um conjunto de correntes de correspondência reunido durante a era da fotocopiadora.
Eles tinham 33 cartas, todas elas variantes de uma mesma carta original, com mutações sob a forma de erros de ortografia, omissões e palavras e frases transpostas. “Essas cartas passaram de hospedeiro para hospedeiro, sofrendo mutações e evoluindo”, relataram em 2003.


“Como um gene, seu comprimento médio é de aproximadamente 2 mil caracteres. Como um potente vírus, a carta ameaça matar o destinatário e o induz a repassá-la aos seus ‘amigos e parceiros’ – alguma variante desta carta deve provavelmente ter chegado a milhões de pessoas. Como uma característica herdada, ela promete benefícios ao destinatário e às pessoas às quais ela for repassada. Como os genomas, as correntes de correspondência sofrem seleção natural e às vezes partes delas chegam a ser transferidas entre ‘espécies’ coexistentes.”



Ainda assim, a maioria dos elementos culturais muda com demasiada facilidade para que possam ser classificados como replicadores estáveis. O próprio Dawkins enfatizou que jamais imaginara fundar algo parecido com uma nova ciência memética. Uma publicação chamada Journal of Memetics ganhou vida em 1997 – online, naturalmente – e então desapareceu gradualmente após oito anos parcialmente gastos num debate autocentrado envolvendo questões de status, missão e terminologia. Mesmo quando comparados aos genes, os memes são difíceis de compreender matematicamente e até de serem definidos com precisão. Assim, se a analogia entre genes e memes provoca inquietação, e a entre genética e memética inquieta ainda mais.



Genes, contam ao menos com um alicerce numa substância física. Memes são abstratos, intangíveis e imensuráveis. Se replicam com fidelidade quase perfeita, e a evolução depende disto: algum grau de variação é essencial, mas as mutações precisam ser raras. Os memes raramente são copiados com exatidão; suas fronteiras são sempre pouco claras, e eles sofrem mutações com uma flexibilidade livre que seria fatal na biologia. O termo meme poderia ser aplicado a uma suspeita cornucópia de entidades, grandes e pequenas. Para Dennett, as primeiras quatro notas da Quinta Sinfonia de Beethoven foram “claramente” um meme, bem como a Odisseia, de Homero (ou ao menos a ideia da Odisseia), a roda, o antissemitismo e a escrita. “Os memes ainda não encontraram sua dupla Watson e Crick”, disse Dawkins; “não tiveram nem mesmo o seu Mendel”. (Watson e Crick descreveram a dupla-hélice do DNA. E Mendel, o das ervilhas, é o fundador dos estudos da genética.)

Ainda assim, aqui estão eles. Conforme o arco do fluxo da informação se curva na direção de uma conectividade cada vez maior, os memes evoluem mais rápido e chegam mais longe. Sua presença é sentida, ainda que não seja vista, no comportamento coletivo, corridas aos bancos, cascatas de informação e bolhas financeiras. Alguns memes falsos se disseminam com falsa assistência, como a aparentemente indestrutível ideia de que Barack Obama não nasceu no Havaí. E, no ciberespaço, cada nova rede social se torna uma incubadora de memes. Quem desempenhou este papel no Facebook durante meados de 2010 e o segundo semestre daquele ano foi um clássico de roupagem nova:
“Às vezes tenho vontade de simplesmente copiar o status de outra pessoa, palavra por palavra, e ver se ela percebe.”


Então a frase sofreu outra mutação e, em janeiro de 2011, o Twitter viu uma epidemia de: “Um dia quero copiar o tweet de outra pessoa palavra por palavra e ver se ela percebe.”



Naquela época um dos hashtags mais populares do Twitter (o “hashtag” consiste numa espécie de marcador genético – ou melhor, memético) era simplesmente a palavra #Viral. Na concorrência pelo espaço nos nossos cérebros e na cultura, os combatentes eficazes são as mensagens. A visão dos genes e memes – nova, oblíqua, em looping – nos enriqueceu. Ela nos dá paradoxos que podem ser escritos sobre fitas de Möbius. “O mundo humano é feito de histórias, e não de pessoas”, escreve o romancista David Mitchell. “As pessoas que as histórias usam para contar a si mesmas não devem ser responsabilizadas.” Margaret Atwood escreve: “Assim como ocorre com todo tipo de conhecimento, depois que o conhecemos, não somos mais capazes de imaginar como foi possível não tê-lo conhecido antes. Como a magia praticada nos palcos, o conhecimento antes de ser apreendido pela pessoa ocorria diante de seus próprios olhos, mas a pessoa tinha o olhar voltado para outra coisa”. Perto da morte, John Updike refletiu a respeito de “uma vida vertida em palavras – aparente desperdício dedicado a preservar aquilo que foi consumido”.



Fred Dretske, filósofo da mente e do conhecimento, escreveu em 1981: “No princípio havia a informação. O verbo veio depois”. E acrescentou a explicação: “A transição foi obtida por meio do desenvolvimento de organismos com a capacidade de explorar seletivamente essa informação para sobreviver e perpetuar a espécie”. Agora poderíamos acrescentar, graças a Dawkins, que a transição foi possibilitada pela informação, perpetuando sua espécie e explorando seletivamente os organismos.



A maior parte da biosfera não enxerga a infosfera; ela é invisível, um universo paralelo zumbindo com habitantes etéreos. Mas esses não são etéreos para nós – não mais. Nós, humanos, sozinhos entre as criaturas orgânicas, vivemos em ambos os mundos simultaneamente. É como se, depois de coexistir durante muito tempo com o invisível, tenhamos começado a desenvolver a percepção extrassensorial necessária. Temos consciência das muitas espécies de informação. Nomeamos seus tipos sardonicamente, como se quiséssemos nos assegurar de que compreendemos: mitos urbanos e mentiras zumbis. Nós os mantemos vivos em torres de servidores com ar-condicionado. Mas não podemos ser os donos deles. Quando um jingle gruda no nosso ouvido, ou uma nova tendência vira a moda de cabeça para baixo, ou uma farsa domina a conversa mundial durante meses e desaparece tão rapidamente quanto surgiu, quem é o mestre e quem é o escravo?





(Revista Smithsonian / OESP 1.8.2011; tradução de Augusto Calil)





(Ilustração: Giger – flikr)




segunda-feira, 10 de outubro de 2011

CEREJAS, MEU AMOR, de Renata Pallottini








Cerejas, meu amor,
mas no teu corpo.
Que elas te percorram
por redondas.

E rolem para onde
possa eu buscá-las
lá onde a vida começa
e onde acaba

e onde todas as fomes
se concentram
no vermelho da carne
das cerejas...


(Ilustração: Jean-Pierre Ceytaire)


sábado, 8 de outubro de 2011

A LUZ DA OUTRA CASA, de Luigi Pirandello







Foi numa tarde de domingo, ao voltar de um longo passeio.

Túlio Buti alugara aquele quarto havia dois meses apenas. A dona da casa, Senhora Nini, boa velhota à antiga, e a filha, solteirona, desiludida, não o viam nunca. Ele costumava sair de casa, todos os dias, de manhã cedo, e só voltava à noite, a horas mortas. Sabiam que era funcionário do Ministério de Graça e Justiça; sabiam também que era advogado. Mais nada.

O quarto, pequeno e estreito, modestamente mobiliado, não conservava nenhum vestígio seu, como se ele, de propósito, quisesse aí permanecer ignorado, como num quarto de hotel. Uma caixa de madeira para a roupa branca; um armário para os ternos; mas nas paredes, sobre os outros móveis, nada; nem um estojo, nem um livro, nem um retrato; nada, nem nunca, sobre alguma cadeira, uma peça de roupa branca esquecida, um colete, uma gravata, nada enfim que pudesse confirmar a sua existência naquela casa.

Mãe e filha temiam que ele aí não permanecesse muito tempo. Fora tão difícil alugar aquele quarto! Vieram vê-lo muitos, mas ninguém o quis. Realmente, não era muito cômodo, nem muito alegre. Tinha só uma janela, que dava para uma ruazinha estreita, privada, e da qual não recebia luz nem ar, devido à casa fronteira, que o impedia.

Mãe e filha estudavam e preparavam atenções e cuidados para prender o inquilino tão almejado: "Faremos isto... diremos isto..." — e mais isto e mais aquilo; sobretudo a filha, Clotildinha... Quantas delicadezas, quantas finezas! Tudo, porém, desinteressadamente, sem malícia, sem segundas intenções... Mas como, se ele não aparecia nunca?

Se acaso o vissem, compreenderiam logo quanto era infundado o seu receio. Aquele quartinho triste, escuro, tapado pela casa fronteira, condizia bem com o temperamento do inquilino.

Túlio Buti andava sempre sozinho, sem mesmo os dois companheiros dos solitários mais equívocos: a bengala e o cigarro. Com as mãos enterradas nos bolsos do capote de ombros encolhidos, taciturno, dir-se-ia que incubasse o ódio mais profundo contra a vida.

Na repartição não trocava nem uma palavra com os seus colegas, os quais hesitavam entre os dois apelidos que lhe enquadrassem melhor: urso ou coruja.

Ainda ninguém o vira entrar, à tarde, num café; em compensação, muitos o tinham visto evitar, à pressa, as ruas mais frequentadas e iluminadas, para mergulhar na sombra das longas alamedas, direitas e solitárias, dos arrabaldes distantes, afastando-se dos muros, toda vez que encontrava o círculo de luz que os faróis projetam sobre a calçada.

Nem um gesto involuntário, nem mesmo a mínima contração dos músculos da face, nem um movimento dos olhos ou dos lábios traíam nunca os pensamentos em que parecia absorto, o secreto pesar em que se fechava. Mas deste secreto pesar e dos lúgubres pensamentos que se lhe aninhavam no cérebro estava toda impregnada a sua fisionomia. A devastação, que eles deviam produzir naquela alma, estava flagrante na fixidez espasmódica dos olhos claros, agudos, na lividez do rosto desfigurado, nos precoces fios grisalhos da barba crespa e desleixada.

Túlio Buti não escrevia nem recebia cartas; não lia jornais; não parava nem se virava para ver o que quer que acontecesse pela rua e que atraísse a alheia curiosidade, e, se .alguma vez a chuva o colhia de improviso, continuava caminhando, no mesmo passo, como se nada tivesse acontecido.

Por que insistisse em viver desse modo, era o que ninguém sabia... Nem ele mesmo, talvez. Vivia... Nem sequer suspeitava que fosse possível viver de modo diverso, ou então, que, vivendo-se diversamente, se poderia diminuir o peso da tristeza e do tédio.

Não tivera infância; não fora moço. As cenas selvagens a que assistira, no lar, desde os mais tenros anos, motivadas pela brutalidade e pela tirania feroz do pai, lhe haviam crestado no espírito todos os germes de vida.

Morta a mãe, vítima de atrozes sevícias do marido, a família se dispersara: uma irmã entrou para o convento, um irmão fugiu para a América, ele também fugira e, errante, graças a incríveis sacrifícios, tinha conseguido alcançar a posição que hoje ocupava.

Agora, não sofria mais. Parecia que sofresse; mas até o sentimento da dor se obliterara nele. Parecia que estivesse absorto sempre em pensamento; engano; já nem sequer pensava. O espírito ficara-lhe como que suspenso numa espécie de atônita obscuridade, que só lhe permitia perceber um quê de amargo na garganta. À noite, passeando pelas ruas solitárias, contava, mentalmente, os lampiões; mais nada; ou olhava para a sua sombra ou escutava o som dos seus passos, ou, alguma vez, parava diante dos jardins das vilas, a contemplar os ciprestes mudos e fechados como ele, mais noturnos do que a própria noite.

Naquele domingo, cansado do longo passeio pela rua Ápia antiga, e contra os seus hábitos, decidiu recolher-se. Era ainda cedo para a ceia. Ficaria esperando, no quarto, que o dia acabasse de morrer.

Para as Nini, mãe e filha, foi uma surpresa bastante agradável. Clotildinha até bateu as mãos de contente. Quais dos muitos cuidados e atenções estudados e preparados, quais das muitas finezas e distinções particulares, dispensar-lhe em primeiro lugar? A mãe e a filha confabularam, e de repente, Clotildinha firmou um pé e bateu com a mão na testa. Ó, santo Deus, antes de tudo, a luz! Era preciso levar-lhe o lampião, o melhor, o que estava guardado de propósito, que tinha umas papoulas pintadas na porcelana, e era de globo esmerilhado. Acendeu-o, e foi bater discretamente à porta do inquilino. Tremia tanto, de emoção, que o globo, oscilando, batia no tubo, que ameaçava esfumaçar-se.

— Com licença? O lampião...

— Não, muito obrigado — respondeu Buti, do outro lado. — Eu saio já.

A solteirona fez uma careta, e, de olhos abaixados, como se o inquilino a estivesse vendo, insistiu:

— Tenho-o aqui... É para não deixá-lo no escuro...

Buti, porém, repetiu secamente:

— Não, muito obrigado.

Estava sentado no pequeno canapé, em frente à mesa, e escancarava os olhos na sombra que, a pouco e pouco, se ia adensando no quartinho, enquanto nos vidros da janela tristemente desmaiava o último reflexo do crepúsculo.

Quanto tempo esteve assim, inerte, com os olhos escancarados, sem pensar, sem perceber as trevas que já o tinham envolvido?

De repente, os seus olhos viram. Olhou em torno de si, espantado. O quarto se havia, realmente, iluminado, de improviso; como se um sopro misterioso o tivesse enchido de um brando lume discreto.

Que era? Que acontecera?

Isto: a luz da outra casa. Acendera-se, na casa fronteira, um lampião. Era o hálito de uma vida exterior que vinha desfazer as trevas, o vácuo, o deserto de sua existência...

Ficou, longo tempo, contemplando aquele clarão, como se fosse efeito de magia; e uma angústia intensa lhe apertou a garganta, ao .notar com que suave carícia ele se pousava sobre o seu leito, sobre a parede, e sobre as suas mãos pálidas abandonadas sobre a mesa. Surgiu-lhe no meio daquela angústia a lembrança do seu lar destruído, da sua infância oprimida, de sua mãe; foi como se a luz de uma alvorada, de uma alvorada distante, expirasse na noite do seu espírito.

Ergueu-se, foi à janela e, furtivamente, por trás dos vidros, olhou para a casa fronteira, para a janela de onde lhe vinha aquele raio de luz.

Viu uma família pequena reunida em torno da mesa de jantar: três meninos, o pai, que estava sentado, e a mãe, que, ainda de pé, os estava servindo, e procurando — segundo o que ele deduzia dos movimentos — refrear a impaciência dos dois maiores, que brandiam a colher e se sacudiam na cadeira. O último esticava o pescoço, agitava a cabecinha loira: evidentemente, lhe haviam amarrado com muita força o guardanapo; mas se a mãe se apressasse em servir-lhe a sopa, ele não mais se queixaria daquele nó muito forte. Era isso mesmo. Com que voracidade começou a comer! Enfiava a colher inteira na boca... E o pai, através do fumo que se erguia do seu prato, ria. Agora, a mãe também se havia sentado ao lado deles, ali mesmo, em frente.... Túlio Buti tentou recuar, instintivamente, vendo que ela, ao sentar-se, erguera os olhos para a janela; mas lembrou-se de que, estando no escuro, não podia ser visto, e continuou a assistir à ceia daquela pequena família, esquecendo-se prontamente da sua.

Desse dia em diante, todas as tardes, saindo da repartição, ao invés de se dirigir para os seus habituais passeios solitários, enveredava pelo caminho da sua casa; esperou, todas as tardes, que as trevas do seu quarto se desfizessem, suavemente, sob a luz da outra casa, e aí ficou, atrás dos vidros, como um mendigo, a saborear, com angústia infinita, aquela doce e amorável intimidade, de que os outros gozavam e de que ele, em criança, numa ou noutra rara tarde de paz, gozara também, quando a mãe... a sua mãe... como aquela... E chorava.

Sim. A luz da outra casa operou esse prodígio. A obscuridade atônita em que seu espírito permanecera suspenso durante tantos anos, se dissolveu sob o influxo daquela luz suave. Entretanto, Túlio Buti não pensou em todas as suposições estranhas que a sua atitude devia fazer nascer na dona da casa e na filha.

Por mais duas vezes, Clotildinha tentara oferecer-lhe o lampião. Tivesse, ao menos, acendido a vela! Não, nem isso. Porventura, sentia-se mal? Ousara perguntar-lhe Clotildinha, com voz meiga, na segunda vez que lhe fora bater à porta. Ele lhe havia respondido:

— Não; estou bem assim...

Mas, santo Deus! Não precisava, realmente, de luz... Clotildinha espiava pelo buraco da fechadura e vira, maravilhada, no quarto do inquilino, a luz difusa da outra casa, exatamente da casa da família Masci, e, o que é pior, vira-o a ele, por trás dos vidros da janela preocupado em contemplar a casa da família Masci... E Clotildinha correra toda sobressaltada, a anunciar à mãe a grande descoberta:

— Ele está enamorado de Margarida! de Margarida Masci!

Poucos dias depois, uma tarde, enquanto estava a contemplar, Túlio Buti viu, com surpresa, naquela sala fronteira, onde a pequena família habitualmente — (naquela tarde faltava o pai) — se reunia ao jantar, viu entrar a velhinha, sua dona de casa, e a filha, que foram acolhidas como amigas de longa data.

Num dado instante, Túlio Buti recuou, de um salto, ansioso, perturbado. A mãezinha e os três pequenos tinham erguido os olhos, na direção da sua janela. Sem dúvida, aquelas duas estavam falando dele.

E agora? Agora, talvez tudo estivesse acabado!

Na tarde seguinte, aquela mãezinha ou o marido, sabendo que no quartinho em frente havia um homem que, misteriosamente, os espiava, na escuridão, fechariam as janelas; e assim daí por diante, não lhe viria mais aquela luz de que vivia, aquela luz que era o seu gozo inocente, o seu consolo...

Mas não foi o que aconteceu.

Naquela mesma noite, assim que a luz da outra casa se apagou, e ele, chumbado na treva, depois de ter esperado ainda um pouco que a família se recolhesse, foi abrir cautamente a janela para renovar o ar, viu que a janela de lá estava também aberta, viu, pouco depois (e, mesmo no escuro, teve um estremecimento de espanto), viu assomar àquela janela a mulher, talvez curiosa de tudo quanto lhe haviam contado dele as Nini, mãe e filha.

Aquelas duas casas muito altas, que abriam, tão perto um do outro, os olhos das suas janelas, não deixavam ver, em cima, a faixa clara do céu, nem, embaixo, a faixa escura da terra, fechada numa das extremidades por um portão; não deixavam penetrar jamais nem um raio de sol, nem um raio de lua.

Ela, portanto, não podia ter assomado à janela senão por causa dele e, naturalmente, porque percebera que ele também se achava debruçado na sua janela apagada.

Na escuridão, mal se podiam distinguir. Ele, porém, sabia, desde algum tempo, que ela era formosa; já lhe conhecia todo o encanto dos seus movimentos, os lampejos dos seus olhos pretos, os sorrisos dos seus lábios vermelhos...

Antes de tudo, porém, naquela primeira vez, devido à surpresa que o revolvia todo e lhe tolhia a respiração, num frêmito de inquietude, ele teve pena; foi preciso fazer um esforço violento sobre si mesmo para não recuar, para esperar que ela se retirasse antes dele.

Aquele sonho de paz, de amor, de suave e doce intimidade, que ele imaginara reinar sobre aquela pequena família, e de que ele também, por reflexo, tinha até gozado, se desmanchava todo, se aquela mulher às escondidas, no escuro, vinha à janela por causa de um estranho... Mas este estranho não era ele? E antes de se retirar, antes de fechar a vidraça, ela lhe sussurrou:

— Boa noite!

Que coisas haviam fantasiado a seu respeito as duas mulheres que o hospedavam, e que excitaram e acenderam tanto a curiosidade daquela mulher? Que atração estranha, poderosa, operava sobre ela o mistério daquela sua vida enclausurada, se desde a primeira vez ela, deixando de lado os seus filhinhos, viera a ele, como que para fazer-lhe companhia?

Sim, um em frente ao outro, ainda que ambos tivessem evitado olhar-se e tivessem quase fingido, reciprocamente, que estavam à janela sem nenhuma intenção, ambos, sim, ambos — ele estava certo disso — tinham vibrado pelo mesmo frêmito de expectativa, ignorada, espantados da atração que, tão de perto, os envolvia no escuro.

Quando, muito tarde, ele fechou a janela, teve a certeza de que, na tarde seguinte, depois de apagada a luz, ela voltaria por causa dele. E foi, de fato, assim.

Daí por diante, Túlio Buti não esperou mais no seu quarto a luz da outra casa; ao contrário esperou com impaciência que a luz se apagasse.

A paixão do amor, ainda não experimentada, irrompeu, devoradora, tremenda, no coração daquele homem que estivera por tantos anos fora da vida, e investiu, absorveu, arrastou, como num turbilhão, aquela mulher.

No mesmo dia em que ele se retirou do quartinho da casa das Nini, explodiu como uma bomba a notícia de que a senhora do terceiro andar, ao lado, a Masci, tinha abandonado o marido e os três filhos.

Ficou vazio o quartinho que hospedara, durante quase quatro meses, ao Buti; ficou apagada, por algumas semanas, a sala da frente, onde a pequena família costumava reunir-se à hora do jantar.

Depois, acendeu-se de novo a luz sobre aquela mesa triste em torno da qual um pai apalermado pela desgraça contemplava os rostos espantados de três crianças, que não ousavam volver os olhos para a porta, por onde a mãe costumava entrar, todas as noites, com a sopeira fumegante.

Aquela luz reacendida sobre a mesa triste tornou, então, a clarear suavemente o quartinho fronteiro, vazio.

Lembraram-se dela, alguns meses após a sua cruel loucura, Túlio Buti e a amante?

Uma noite, as Nini, espantadas, viram aparecer, diante delas, desfigurado e convulso, o seu estranho inquilino. Que queria o quarto, se ainda estivesse desalugado!

Não, não para si, não para morar! mas poder ficar aí, todas as tardes, uma hora apenas, às escondidas! Ah, por piedade, por piedade daquela pobre mãe que desejava rever, de longe, sem ser vista, os seus filhinhos! Tomariam todas as precauções necessárias; se fosse preciso, se mascarariam; aproveitariam, todas as tardes, o momento em que não houvesse ninguém pelas escadas; ele pagaria o dobro, o triplo, pelo aluguel, só para aquele minuto breve...

Não. As Nini não quiseram consentir. Apenas enquanto o quartinho estivesse desalugado, consentiram que algumas vezes, muito raras...— oh, mas pelo amor de Deus! com a condição de que ninguém os descobrisse!...algumas raras vezes...

Na tarde seguinte, eles vieram, como dois ladrões. Entraram, quase cambaleando, no quartinho às escuras, e esperaram, e esperaram que ele alvorecesse de novo sob a luz da outra casa.

Dessa luz deviam viver eles, assim, de longe.

E a luz apareceu!

Túlio Buti, a princípio, não pôde suportá-la. Como lhe pareceu gelada agora, ríspida, cruel, espectral, criminosa! Ela, porém, com os soluços que lhe borbulhavam na garganta, teve sede daquela luz, bebeu-a de um hausto, precipitou-se para os vidros da janela, apertando o lenço contra a boca. Os seus filhinhos... os seus filhinhos... os seus filhinhos estavam lá... à mesa, inocentes...

Ele correu a ampará-la nos braços, e ambos ficaram ali, estreitamente unidos, como que pregados, espiando.


(Tradução de Francisco Pati)


(Ilustração: Gianni Strino)