terça-feira, 29 de novembro de 2016

A SAGA DOS CÍRCULOS NAS PLANTAÇÕES, de Carl Sagan






A saga dos círculos nas plantações demonstra como são modestas nossas expectativas sobre os "alienígenas" e inferiores aos padrões que muitos de nós estão dispostos a aceitar. Originando-se na Grã-Bretanha e espalhando-se por todo o mundo, tratava-se de um fenômeno mais do que estranho.

Os fazendeiros ou os passantes descobriram círculos (e, anos mais tarde, pictogramas muito mais complexos) gravados sobre campos de trigo, aveia, cevada e colza. Começando por simples círculos na metade dos anos 70, o fenômeno progrediu ano a ano, até que no final dos 80 e início dos 90 a paisagem do campo, especialmente no sul da Inglaterra, estava ornamentada com imensas figuras geométricas, algumas do tamanho de um campo de futebol, gravadas com grãos de cereais antes da colheita - círculos tangentes a círculos ou conectados por eixos, linhas paralelas que se curvavam, "insetoides". Alguns dos padrões apresentavam um círculo central circundado por quatro círculos menores simetricamente posicionados - evidentemente causados, como se concluiu, por um disco voador e seus dispositivos de aterrissagem.

Uma fraude? Impossível, dizia quase todo mundo. Havia centenas de casos. Às vezes o círculo era feito em apenas uma ou duas horas, na calada da noite, e numa escala muito grande. Não se viam pegadas dos fraudadores aproximando-se ou afastando-se dos pictogramas. E, além disso, que motivo poderia haver para uma brincadeira dessas?

Conjeturas muito menos convencionais eram propostas. Pessoas com algum treinamento científico examinaram os locais, teceram argumentos, chegaram a criar periódicos dedicados ao assunto. Seriam as figuras causadas por estranhos redemoinhos chamados "vórtices colunares", ou por alguns ainda mais estranhos chamados "vórtices anulares"? E que dizer dos fogos de santelmo? Investigadores japoneses tentaram simular, no laboratório e em pequena escala, a física dos plasmas que eles achavam estar atuando na distante Wiltshire.

No entanto, especialmente à medida que as figuras nas colheitas se tornavam mais complexas, as explicações meteorológicas ou elétricas se tornavam mais forçadas. Não havia dúvida, o fenômeno era causado por UFOS, os alienígenas procuravam se comunicar conosco em linguagem geométrica. Ou talvez fosse o diabo, ou a Terra de tão longos sofrimentos queixando-se das depredações efetuadas pela mão do homem. Os turistas da Nova Era chegavam em bandos. Os entusiastas equipados com gravadores e instrumentos de visão infravermelha empreendiam vigílias a noite toda. A mídia eletrônica e impressa de todo o mundo acompanhava os intrépidos cerealogistas. Um público ansioso e admirador comprava os best-sellers sobre os desfiguradores das colheitas. É verdade, nenhum disco foi realmente visto pousando sobre o trigo, nenhuma figura geométrica foi filmada enquanto estava sendo gerada. Mas os adivinhos autenticaram a sua origem alienígena, e os canalizadores estabeleceram contatos com as entidades responsáveis. Detectou-se "energia orgástica" dentro dos círculos.

Formularam-se perguntas no Parlamento. A família real chamou para consulta especial lord Solly Zuckerman, ex-conselheiro científico do Ministério da Defesa. Dizia-se que fantasmas estavam envolvidos; e também os Cavaleiros do Templo de Malta e outras sociedades secretas. Havia satanistas implicados. O Ministério da Defesa estava encobrindo a questão. Alguns círculos malfeitos e deselegantes foram considerados tentativas feitas pelos militares para despistar a população. O Daily Mirror contratou um fazendeiro e seu filho para fazer cinco círculos, na esperança de que o tabloide rival, o Daily Express, ficasse tentado a publicar a história. Pelo menos nesse caso, o Express não se deixou enganar.

As organizações "cerealógicas" cresceram e se dividiram. Os grupos rivais trocavam entre si textos mal escritos e intimidadores. Acusavam-se de incompetência ou de coisa pior. O número de "círculos" nas plantações atingiu a casa do milhar. O fenômeno se espalhou para os Estados Unidos, Canadá, Bulgária, Hungria, Japão, Holanda. Os pictogramas - especialmente os mais complexos - começaram a ser cada vez mais citados nos argumentos a favor das visitas alienígenas. Estabeleceram-se conexões forçadas com A Face em Marte. Um cientista meu conhecido me escreveu dizendo que uma matemática extremamente sofisticada estava oculta nas figuras; elas só podiam ser resultado de uma inteligência superior. Na verdade, uma questão consensual entre quase todos os cerealogistas rivais é que as figuras mais recentes nas colheitas eram demasiado complexas e elegantes para serem resultado da mera intervenção humana, muito menos de alguns mistificadores imperfeitos e irresponsáveis. A inteligência extraterrestre era visível num simples olhar de relance...

Em 1991, Doug Bower e Dave Chorley, dois sujeitos de Southampton, anunciaram que vinham fazendo as figuras nas planícies havia quinze anos. Eles imaginaram a brincadeira ao tomar cerveja preta certa tarde no seu pub habitual, The Percy Hobbes. Eles tinham achado engraçadas algumas notícias de UFOS, e pensaram que seria divertido lograr os que acreditavam nos objetos não identificados. No início, achatavam o trigo com a pesada barra de aço que Bower usava como tranca na porta dos fundos de sua loja de molduras. Mais tarde, empregaram pranchas e cordas. Suas primeiras tentativas levaram apenas alguns minutos. Mas, sendo brincalhões inveterados e também artistas sérios, o desafio começou a crescer dentro deles. Aos poucos, planejaram e executaram figuras cada vez mais elaboradas.

A princípio, ninguém parecia ter percebido. Não havia notícias nos meios de comunicação. Suas formas de arte foram desprezadas pela tribo dos ufologistas. Estavam a ponto de abandonar os círculos nas plantações e passar para outra brincadeira emocionalmente mais gratificante.

De repente, os círculos nas plantações se tornaram populares. Os ufologistas caíram como patinhos. Bower e Chorley ficaram encantados - especialmente quando os cientistas e outras pessoas começaram a dar sua opinião ponderada de que as simples inteligência humana não poderia ser responsável pelas figuras.

Os dois planejavam cuidadosamente cada excursão noturna - às vezes seguindo diagramas meticulosos que haviam preparado em aquarelas. Eles acompanhavam de perto os seus interpretadores. Quando um meteorologista local inferiu um tipo de redemoinho, porque todas as plantações estavam flectidas para baixo num círculo em sentido horário, eles procuraram confundi-lo criando nova figura com um anel exterior achatado em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio.

Em breve apareciam outras figuras nas plantações do sul da Inglaterra e de outros lugares. Haviam surgido imitadores. Bower e Chorley gravaram uma mensagem no trigo: "NÓSNÃOESTAMOSSOZINHOS". Houve quem tomasse essas palavras como uma mensagem extraterrestre genuína (embora tivesse sido mais correta se dissesse "VOCÊSNÃOESTÃOSOZINHOS"). Doug e Dave começaram a assinar seus trabalhos artísticos com dois Ds; até isso foi atribuído a um misterioso propósito alienígena. As ausências noturnas de Bower despertaram suspeitas em sua mulher Ilene. Só com grande dificuldade - Ilene acompanhando Dave e Doug certa noite, e depois juntando-se aos crédulos que admiravam a obra no dia seguinte - é que ela se convenceu de que suas ausências eram, nesse aspecto, inocentes.

Por fim, Bower e Chorley se cansaram da brincadeira cada vez mais elaborada. Apesar de ainda apresentarem excelente forma física, estavam ambos na casa dos sessenta e um pouco velhos para incursões noturnas nos campos de fazendeiros desconhecidos e frequentemente pouco compreensivos. Talvez tenham se incomodado com a fama e fortuna acumuladas por aqueles que simplesmente fotografavam a sua arte e afirmavam que os artistas eram alienígenas. E também começaram a se preocupar com o fato de que, se demorassem muito mais tempo, ninguém acreditaria na sua história.

Por isso confessaram. Demonstraram aos repórteres como é que faziam até os padrões insetoides mais elaborados. Era de se esperar que nunca mais alguém afirmaria ser impossível uma brincadeira prolongada durante muitos anos, e que nunca mais ouviríamos que nenhuma pessoa teria motivos para enganar os crédulos, fazendo-os crer na existência de alienígenas. Mas a mídia deu pouca atenção. Os cerealogistas insistiam para que tivessem calma; afinal de contas, eles estavam roubando de muitos o prazer de imaginar acontecimentos extraordinários.

Desde então, outros têm continuado a brincadeira dos círculos nas plantações, mas em geral de forma mais irregular e menos inspirada. Como sempre, a confissão do logro foi ofuscada pela excitação inicial prolongada. Muitos têm ouvido falar dos pictogramas nos grãos de cereais e de sua alegada conexão com os UFOS, mas lhes dá um branco quando se mencionam os nomes de Bower e Chorley ou a própria ideia de que toda a história não passa de uma brincadeira. Foi publicada uma exposição informativa do jornalista Jim Schnabel (Round in circles, Penguin Books, 1994) - da qual é tirada grande parte do meu relato. Schnabel aderiu cedo aos cerealogistas e acabou fazendo ele próprio alguns pictogramas de sucesso. (Ele prefere um rolo de jardim a uma prancha de madeira, e descobriu que simplesmente pisotear os grãos já produz um pictograma aceitável.) Mas a obra de Schnabel, que um crítico descreveu como "o livro mais engraçado que li em muitos anos", teve um sucesso apenas modesto. Os demônios vendem; os fraudadores são aborrecidos e de mau gosto.



(O mundo assombrado pelos demônios - a ciência vista como uma vela no escuro; tradução de Rosaura Eichemberg)





(Ilustração: círculos nas plantações - foto de autor não identificado)


domingo, 27 de novembro de 2016

ESSAY ON ADAM / ENSAIO SOBRE ADÃO, de Robert Bringhurst







There are five possibilities. One: Adam fell.

Two: he was pushed. Three: he jumped. Four:

he only looked over the edge, and one look silenced him.

Five: nothing worth mentioning happened to Adam.



The first, that he fell, is too simple. The fourth,

fear, we have tried and found useless. The fifth,

nothing happened, is dull. The choice is between:

he jumped or was pushed. And the difference between these



is only an issue of whether the demons

work from the inside out or from the outside

in: the one

theological question.



Tradução de João Cabral de Melo Neto:



Há cinco possibilidades. Primeira: Adão caiu.

Segunda: foi empurrado. Terceira: saltou. Quarta:

ao debruçar-se sobre o parapeito perdeu o equilíbrio.

Quinta: nada digno de nota aconteceu a Adão.



A primeira, de que caiu, é primária demais. A quarta,

medo, foi examinada e revelou-se inútil. A quinta,

de que nada aconteceu, não interessa. A solução é a alternativa:

saltou ou foi empurrado. E a diferença está apenas



na questão de saber se o demônio

age de dentro para fora ou de fora para

dentro: aí está

o verdadeiro problema teológico.




(Ilustração:  Gottardo Ciapanna - Tentazioni di Santo Antonio)



quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A MORADORA DO QUINHENTOS E TRÊS, de Beatriz Abuchaim









Ela era miúda, clara e parecia exausta. Não era uma preguiça de se arrastar entre uma tarefa e outra, e sim a expressão do esgotamento de alguém que tem sempre um problema urgente a resolver. Os traços delicados se desfiguravam com as sobrancelhas erguidas. A própria existência das coisas tinha para ela uma gravidade aguda. Segurava as juntas dos dedos umas contra as outras. A voz lhe escapava ansiosa, formando parábolas de sons, altos e baixos, baixos e altos. As mãos permaneciam contraídas, repousadas por sobre o vestido comprido. Só poderia se chamar Marieta. Parecia uma senhora, mesmo sendo um pouco mais jovem do que eu. Ela tinha uns trinta e cinco anos, no máximo quarenta. A gravidez evidente, a pele lisa ao redor dos olhos e o cabelo loiro, sem fios brancos nem tintura destoavam dos suspiros abortados, dos móveis cor de mogno e das feições endurecidas.

A sala de sua casa evocava o consultório de um dentista, antes da consulta. Todos os objetos estavam livres de bactérias. Imaginei-a despendendo uma tarde inteira para decidir a posição da réplica de “As meninas”, do Renoir. Uma vez ali, o quadro permaneceria imóvel, condenado ao encaixe perfeito do prego e a ausência de pó. Havia duas almofadas por sofá e uma por poltrona, fazendo um contraponto de cores: almofada verde no sofá marrom, almofada bege na poltrona verde. Os guardanapos de crochê esticados nas mesas. Ainda se confeccionam peças desse tipo, lembrei. Toalhas feitas à mão existiam para mim apenas nas tardes da infância, sustentando a compoteira com a ambrosia da vovó. Na casa de Marieta, os copos brilhavam, dentro da cristaleira, em filas regulares. Um exército sem camuflagem.

Fui convidada a sentar. Tive receio de estragar alguma coisa. Fiquei constrangida com minha própria figura: as pernas longas, o jeans desbotado, as unhas por fazer, o leve odor de nicotina. Me senti acomodada em uma mesa para crianças de pré-escola. Eu era imensa para estar ali. Tenho uma sensação de desconforto quando converso com uma pessoa que fala de modo correto o português, usando todos os erres e esses, conjugando com naturalidade os verbos, jamais se permitindo errar uma concordância. Cada frase proferida com essa minha língua de todos os dias parece uma ofensa. Frente a Marieta, mesmo o meu gesto mais educado seria falta de tato. Ela me observava bem de perto, não lhe escapava nada.

Cruzei as botas de bico fino, joguei os cabelos mechados para trás e deixei que ela me julgasse. Nada falei. Escutei as suas tentativas de conter a cólera. Marieta é o tipo da mulher que fica irritada com sua própria fúria. Me diverti vendo suas faces ruborizadas ao comentar sobre os ruídos no sábado à noite. Suas mãos se descruzaram e massagearam a cervical. Ela afirmava que aquela não era a minha primeira “festinha”. Marieta estava certa de que eu entenderia sua reclamação. Dali a alguns meses, o nascimento do bebê. Ela apenas desejava que eu cumprisse o regulamento do condomínio. Nem quisera falar com o síndico para não me deixar desconfortável. Será que ela não percebia que nada poderia ser mais impróprio do que aquele convite para visitá-la, feito a olhos baixos no elevador?

Morava há cinco anos em cima de Marieta e as duas únicas festas que dera foram catalogadas por ela. Me sabia inocente de suas acusações de má vizinhança. Fiquei lembrando das noites com o Afonso. Ela teria escutado nossas carências após duas ou três garrafas de vinho? Marieta com seu maridinho, que penteia os cabelos para trás com gel em excesso e diz “pois não” ao abrir a porta do prédio para mim, incomodados com as farras do piso superior, do apartamento daquela mulher meio solteira, meio atriz, meio deprimida, que sempre esquece de pegar o jornal de domingo.

Separadas por alguns metros de concreto, vivíamos em estados de matéria distintos, eu tão líquida, ela tão sólida. Eu escorria pelas paredes de seu apartamento. Nada de festas, eu disse, mesmo não sabendo se cumpriria a promessa. Já na porta, pronta para voltar ao meu mar revolto, passei a mão na barriga de Marieta. Perguntei o nome do bebê. Por um instante ela descansou. O rosto se descontraiu, ganhou as feições de alguém que chega em casa ao final do dia e tira os sapatos. Me senti composta da mesma água que ela. Meus dedos firmaram junto ao seu ventre. “Getúlio”, ela me disse. Nome de velho, eu pensei, ao me despedir.





(Ilustração: Leonor Fini)



domingo, 20 de novembro de 2016

POEMA DO HOMEM SENTADO, de Anthero Monteiro








conheci um homem que esperava sempre sentado

nunca se soube o quê no vão de uma porta

ou no degrau de uma escada

é possível que fizesse outras coisas mas raramente

conseguia ser visto de pé



o que fazia aquele homem sempre alapado

como um soba para além de dar utilidade ao traseiro

depois do árduo trabalho de deslocar o ponto de gravidade

para ir ocupar o assento e de oferecer também

serventia ao lugar de acolhimento

que não saberia fazer mais nada de interessante?



que mais fazia aquele homem para além de me colocar

pontos de interrogação nos meandros do cérebro?



puxava de um cigarro e acendê-lo era mais trabalhoso

do que aos calceteiros pavimentar toda a rua

recostava-se para trás contra o degrau

imediatamente superior e arrancava por fim

umas fumaças de dentro do peito

como se quisesse provar que todo o seu âmago

era apenas povoado de neblina



esperava que o paivante se extinguisse

como parecia fazer à própria vida

sem qualquer pressa para apressar ou delongar a morte

sem a mínima emoção existencial

aparentemente sem interrogações

sobre a sua sina de mortal e sem qualquer preocupação

acerca do que lhe faltava ainda cumprir

antes da inapelável descida para outro degrau



às vezes dava-se o fenómeno extraordinário

de se levantar e atravessar a rua

sem se apressar sequer com o trânsito

e ir ocupar o assento da paragem do autocarro



ali ficava como se estivesse à espera dele

e dos sucessivos autocarros de cada meia-hora

sem embarcar em nenhum

punha-se apenas a vê-los chegar e retomar a marcha

como se tivesse por destino apenas ficar

enquanto todos os outros só queriam partir



mas também ele partiu certamente

pois há muito vejo o degrau e o assento vazios

não sei se caiu alguma vez de algum desses poisos

se foi esmagado a atravessar a rua

ou atingido por um raio ou um meteorito



penso que finalmente deve ter tomado

o único autocarro que lhe servia de destino

que ele sabia que só passaria uma vez

e que não podia perder de modo nenhum




(Praça da Poesia, 29 de Maio de 2013)




(Ilustração: Gan T-Seng - old man - Malaysia)



quinta-feira, 17 de novembro de 2016

A CASA DO MINEIRO, de Visconde de Taunay








Está a ceia na mesa. 

Torne o bom acolhimento desculpável o mau passadio.

WALTER SCOTT 

Ivanhoe.



Quando assomaram os dois viajantes à entrada do terreiro que rodeava a vivenda de Pereira, saíram-lhes ao encontro quatro ou cinco cães altos e magros, que aos pulos saudaram o dono da casa com uma cainçada de alegria.

Puseram-se algumas galinhas a correr atarantadas, ao passo que dous galos, já empoleirados na cumeeira da morada, bradavam novidade e uns porcos e bacorinhos aqui e acolá se erguiam dentre palhas de milho e estremunhados olhavam para os recém-chegados com olhos pequenos e cheios de sono.

Do interior da habitação, não tardou a sair uma preta idosa, mal vestida, trazendo atado à cabeça um pano branco de algodão, cujas pontas pendiam até ao meio das costas.

- Olá, Maria Conga - perguntou Pereira - que há de novo por cá?

- A bênção, meu senhor - pediu a escrava chegando-se com alguma lentidão.

- Deus te faça santa - respondeu o mineiro. Como vai a menina? Nocência?

- Nhã está com sezão.

- Isto sei eu, rapariga de Cristo; mas como passou ela de trasantontem para cá?

- Todo o dia, vindo a hora, nhã bate o queixo, nhor-sim.

- Está bem... É que o mal ainda não abrandou... Daqui a pouco, veremos. E a janta?... Está pronta? Venho varado de fome. Que diz, sr. Cirino? indagou ele voltando-se para o companheiro.

- Não se me dava também de comer alguma coisa. Temos razão para...

- Pois então - interrompeu Pereira - ponha pé no chão e pise forte, que o terreno é nosso. Minha casa, já lho disse, é pobre, mas bastante farta e a ninguém fica fechada.

Deu logo o exemplo, e descavalgou do cavalinho zambro, o qual foi por si correndo em direção a uma dependência da casa com formas de estrebaria.

Apeou-se também Cirino, mas, ao penetrar numa espécie de alpendre de palha que ensombrava a frente toda, mostrou repentina e viva contrariedade no gesto e na fisionomia.

- Ora, sr. Pereira - exclamou ele batendo com o tacão da bota num sabugo de milho - só agora é que me lembro que as minhas cargas vão todas tomar caminho do Leal e aqui me deixam sem roupa, nem medicamentos. Que maçada! Devíamos ter esperado na boca da sua picada.

Respondeu-lhe o mineiro todo desfeito em expansivo riso:

- Olé, pois o doutor é tão novato assim em viagens? Então pensa que lá não deixei aviso seguro à sua gente? Não se lembra de um ramo verde que pus bem no meio da estrada real?

- É verdade - confirmou Cirino.

- E então? Daqui a pouco a sua camaradagem está batendo o nosso rasto. Entremos, que a fome já vai apertando.

Consistia a morada de Pereira num casarão vasto e baixo, coberto de sapé, com uma porta larga entre duas janelas muito estreitas e mal abertas. Na parede da frente que, talvez com o peso da coberta, bojava sensivelmente fora da vertical, grandes rachas longitudinais mostravam a urgência de sérias reparações em toda aquela obra feita de terra amassada e grades de pau-a-pique.

Ao oitão da direita existia encostado um grande paiol construído de troncos de palmeiras, por entre os quais iam caindo as espigas de milho, com o contínuo fossar dos porquinhos, que dali não arredavam pé.

Corrido na frente de toda a vivenda, via-se um alpendre de palha de buriti, sustentado por grossas taquaras, ligeiro apêndice acrescentado por ocasião de alguma passada festa, em que o número de convidados ultrapassara os limites de abrigo da hospitaleira habitação.

Internamente era ela dividida em dois lanços: um, todo fechado, com exceção da porta por onde se entrava, e que constituía o cômodo destinado aos hóspedes; outro, à retaguarda, pertencia à família, ficando portanto completamente vedado às vistas dos estranhos e sem comunicação interna com o compartimento da frente.

Era de barro compacto e socado o chão desta sala, vendo-se nele sinais de que às vezes ali se acendia fogo: pelo que estavam o sapé do forro e o ripamento revestidos de luzidia e tênue camada de picumã que lhes dava brilho singular, como se tudo houvera sido jacarandá envernizado.

- Isto aqui - disse Pereira penetrando na sala e sentando-se numa tripeça de pau - não é meu, é de quem me procura. Poucos vêm cá decerto parar, mas enfim é sempre bom cantar com eles... Minha gente mora na dependência dos fundos.

E apontou para a parede fronteira à porta de entrada, fazendo um gesto para mostrar que a casa se estendia além.

- Sr. Pereira - disse Cirino recostando-se a uma sólida marquesa - não se incomode comigo de maneira alguma... Faça de conta que aqui não há ninguém.

- Pois então - retorquiu o mineiro - deite-se um pouco, enquanto vou lá dentro ver as novidades. A hora é mais de comer, do que de cochilar; mas espere deitadinho e a gosto, o que é sempre mais cômodo do que ficar de pé ou sentado.

Não desprezou o hóspede o convite. Tirou o pala, puxou as botas e, cruzando-as, fez dos canos travesseiros, em que descansou a cabeça.

Quem se coloca em posição horizontal, depois de vencidas umas estiradas léguas, adormece com certeza. Depressa veio, pois, o sono cerrar as pálpebras do recém-chegado e intumescer-lhe o peito com sossegada respiração.

Dormiu talvez hora e meia, e mais houvera dormido, se não fosse acordado pelo tropel de animais que paravam e por grita de gente a pôr cargas em terra.

Assomou o sr. Pereira à porta com ar jovial.

- Então que lhe disse eu?

- De fato; estou agora sossegado.

- E o sr. tomou uma boa data de sono.

- Quem sabe uma hora?

- Boa dúvida, senão mais. Fiquei todo este tempo ao lado de Nocência, que de frio batia o queixo, como se estivesse agora em Ouro Preto, quando cai geada na rua.

- Então não vai melhor?

- Qual!... Depois que o sr. tiver comido, há de ir vê-la. Está, pobrezinha, tão desfeita que parece doente de uns dois meses atrás.

- Felizmente - observou Cirino com alguma enfatuação - aqui estou eu para pô-la de pé em pouco tempo.

- Deus o ouça - disse Pereira com verdadeira unção.

- Patrícios! Oh! gente! - gritou ele em seguida para os dois camaradas chegados de pouco - vão mecês sestear naquele rancho, ali. Perto há boa água, e lenha é o que não falta: basta estender o braço. Olhem, deem ração de fartar aos animais. Aproveitem o milho, enquanto há: é a sustância desses bichos. Aqui, vendo-o baratinho. Um atilho por um cobre e não são espigas chochas, nem de grão soboró. Eh! Lá! Maria Conga, vamos com isso!... janta na mesa!...

Foram o chamado e as indicações de Pereira cumpridas sem demora.

Apareceu a velha escrava, que estendeu em larga e mal aplainada mesa uma toalha de algodão grosseira mas muito alva, sobre a qual derramou duas boas cuias de farinha de milho: depois, emborcou um prato fundo de louça azul, e ao lado colocou uma colher e um garfo de metal.

- Sente-se, doutor - disse Pereira para Cirino - agora não manduco com mecê, porque já petisquei lá dentro. Desculpe se não achar a comida do seu agrado.

Vinha nesse momento entrando Maria Conga com dois pratos bem cheios e fumegantes, um de feijão-cavalo, outro de arroz.

- E as ervas? - perguntou Pereira. - Não há?

- Nhor-sim. Eu trago já - respondeu a preta que com efeito voltou daí a pouco.

Tornou o mineiro a desculpar-se da insuficiência e mau preparo da comida.

- Não lhe dou hoje lombo de porco; mas o prometido não cai em esquecimento. Isto lhe posso assegurar.

- Estou muito contente com o que há - protestou com sinceridade Cirino.

E, de fato, pelo modo por que começou a comer, repetindo amiudadas vezes dos pratos, deu evidentes mostras de que falava inteira verdade.

- Maria - disse Pereira para a escrava que se fora colocar a alguma distância da mesa com os braços cruzados - traz agora mel e café com doce.

Vieram a sobremesa e a xícara de café que completaram a refeição.

- Ah! - exclamou Cirino com patente satisfação estirando os braços - fiquei que nem um ovo. O feijão estava de patente. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, que me deu este bom agasalho.

- Amém! - respondeu Pereira.



(Inocência, cap. IV, 1872.)



(Ilustração: Ludwig Valenta; casa de caboclo)



segunda-feira, 14 de novembro de 2016

O MEU PEQUENO RIO, de João Barbosa







nenhum rio é como o meu, nem os grandes

rios de água. é de tempo, de enxurradas

de histórias, vidas vividas, encalhadas

nas memórias de pequeno,

o meu rio.



o meu rio? qual rio? simples ribeiro,

precária foz de riachos, inquietas nervuras

na folha verde do vale



o meu rio? destino de passagem

de águas de passagem – eram as calçadas inclinadas da aldeia,

as caminhadas, as corridas, os saltos, os recados,

era o pó que vivia do verão

era o movimento redondo das rodas

eram os passos e compassos dos animais

tudo lavado pelas águas que depois eram o meu rio.



o meu rio? águas passadas

que movem sempre os meus moinhos.




(memórias da terra, Abril de 2008)




(Ilustração: foto de Fátima Alves - Rio Grande e usina do Funil ao fundo)



sexta-feira, 11 de novembro de 2016

ORAÇÃO AOS MOÇOS, de Rui Barbosa





[...]

Estou-vos abrindo o livro da minha vida. Se me não quiserdes aceitar como expressão fiel da realidade esta versão rigorosa de uma das suas páginas, com que mais me consolo, recebei-a, ao menos, como ato de fé, ou como conselho de pai a filhos, quando não como o testamento de uma carreira, que poderá ter discrepado, muitas vezes, do bem, mas sempre o evangelizou com entusiasmo, o procurou com fervor, e o adorou com sinceridade.

Desde que o tempo começou, lento lento, a me decantar o espírito do sedimento das paixões, com que o verdor dos anos e o amargor das lutas o enturbavam, entrando eu a considerar com filosofia nas leis da natureza humana, fui sentindo quanto esta necessita da contradição, como a lima dos sofrimentos a melhora, a que ponto o acerbo das provações a expurga, a tempera, a nobilita, a regenera. Então vim a perceber vivamente que imensa dívida cada criatura da nossa espécie deve aos seus inimigos e desfortunas. Por mais desagrestes que sejam os contratempos da sorte e as maldades dos homens, raro nos causam mal tamanho, que nos façam ainda maior bem. Ai de nós, se esta purificação gradual, que nos deparam as vicissitudes cruéis da existência, não encontrasse a colaboração providencial da fortuna adversa e dos nossos desafetos. Ninguém mete em conta o serviço contínuo, de que lhes está em obrigação.

Diríeis, até, que, mandando-nos amar aos nossos inimigos, em boa parte nos quis o divino legislador entremostrar o muito de que eles nos são credores. A caridade com os que nos malquerem, e os que nos malfazem, não é, em bem larga escala, senão pago dos benefícios, que, mal a seu grado, mas muito deveras, eles nos granjeiam.

Destarte, não equivocaremos a aparência com a realidade, se, nos dissabores que malquerentes e malfazentes nos propinam, discernirmos a quota de lucro, com que eles, não levando em tal o sentido, quase sempre nos favorecem. Quanto é pela minha parte, o melhor do que sou, bem assim o melhor do que me acontece, frequentemente acaba o tempo convencendo-me de que não me vem das doçuras da fortuna propícia, ou da verdadeira amizade, senão sim que o devo, principalmente, às maquinações dos malévolos e às contradições da sorte madrasta. Que seria, hoje, de mim, se o veto dos meus adversários, sistemático e pertinaz, me não houvesse poupado aos tremendos riscos dessas alturas, "alturas de Satanás", como as de que fala o Apocalipse, em que tantos se têm perdido, mas a que tantas vezes me tem tendo exalçar o voto dos meus amigos? Amigos e inimigos estão, amiúde, em posições trocadas. Uns nos querem mal, e fazem-nos bem. Outros nos almejam o bem, e nos trazem o mal.

Não poucas vezes, pois, razão é lastimar o zelo dos amigos, e agradecer a malevolência dos opositores. Estes nos salvam, quando aqueles nos extraviam. De sorte que, no perdoar aos inimigos, muita vez não vai somente caridade cristã, senão também justiça ordinária e reconhecimento humano. E, ainda quando, aos olhos do mundo, como aos do nosso juízo descaminhado, tenham logrado a nossa desgraça, bem pode ser que, aos olhos da filosofia, aos da crença e aos da verdade suprema, não nos hajam contribuído senão para a felicidade.

Este, senhores, será um saber vulgar, um saber rasteiro, um saber só de experiência feito.

Não é o saber da ciência, que se libra acima das nuvens, e alteia o voo soberbo, além das regiões siderais, até aos páramos indevassáveis do infinito. Mas, ainda assim, este saber fácil mereceu a Camões o ter a sua legenda insculpida em versos imortais; quanto mais a nós outros, "bichos da terra tão pequenos", a ninharia de ocupar divagações, como estas, de um dia, folhas de árvore morta, que, talvez, não vinguem ao de amanhã.

Da ciência estamos aqui numa catedral. Não cabia em um velho catecúmeno vir ensinar a religião aos seus bispos e pontífices, nem aos que agora nela recebem as ordens do seu sacerdócio. E hoje é féria, ensejo para tréguas ao trabalho ordinário, quase dia santo. Labutastes, a semana toda, o vosso curso de cinco anos, com teorias, hipóteses e sistemas, com princípios, teses e demonstrações, com leis, códigos e jurisprudências, com expositores, intérpretes e escolas. Chegou o momento de vos assentardes, mão por mão, com os vossos sentimentos, de vos pordes à fala com a vossa consciência, de praticardes familiarmente com os vossos afetos, esperanças e propósitos.

[...]

Estudante sou. Nada mais. Mau sabedor, fraco jurista, mesquinho advogado, pouco mais sei do que saber estudar, saber como se estuda, e saber que tenho estudado. Nem isso mesmo sei se saberei bem. Mas, do que tenho logrado saber, o melhor devo às manhãs e madrugadas. Muitas lendas se têm inventado, por aí, sobre excessos da minha vida laboriosa. Deram, nos meus progressos intelectuais, larga parte ao uso em abuso do café e ao estímulo habitual dos pés mergulhados n’água fria. Contos de imaginadores. Refratário sou ao café. Nunca recorri a ele como a estimulante cerebral. Nem uma só vez na minha vida busquei num pedilúvio o espantalho do sono.

Ao que devo, sim, o mais dos frutos do meu trabalho, a relativa exabundância de sua fertilidade, a parte produtiva e durável da sua safra, é às minhas madrugadas. Menino ainda, assim que entrei ao colégio, alvidrei eu mesmo a conveniência desse costume, e daí avante o observei, sem cessar, toda a vida. Eduquei nele o meu cérebro, a ponto de espertar exatamente à hora, que comigo mesmo assentava, ao dormir. Sucedia, muito amiúde, encetar eu a minha solitária banca de estudo à uma ou às duas da antemanhã. Muitas vezes me mandava meu pai volver ao leito; e eu fazia apenas que lhe obedecia, tornando, logo após, àquelas amadas lucubrações, as de que me lembro com saudade mais deleitosa e entranhável.

Tenho, ainda hoje, convicção de que nessa observância persistente está o segredo feliz, não só das minhas primeiras vitórias no trabalho, mas de quantas vantagens alcancei jamais levar aos meus concorrentes, em todo o andar dos anos, até à velhice. Muito há que já não subtraio tanto às horas da cama, para acrescentar às do estudo. Mas o sistema ainda perdura, bem que largamente cerceado nas antigas imoderações. Até agora, nunca o sol deu comigo deitado e, ainda hoje, um dos meus raros e modestos desvanecimentos é o de ser grande madrugador, madrugador impenitente.

Mas, senhores, os que madrugam no ler, convém madrugarem também no pensar. Vulgar é o ler, raro o refletir. O saber não está na ciência alheia, que se absorve, mas, principalmente, nas ideias próprias, que se geram dos conhecimentos absorvidos, mediante a transmutação, por que passam, no espírito que os assimila. Um sabedor não é armário de sabedoria armazenada, mas transformador reflexivo de aquisições digeridas.

Já se vê quanto vai do saber aparente ao saber real. O saber de aparência crê e ostenta saber tudo. O saber de realidade, quanto mais real, mais desconfia, assim do que vai apreendendo, como do que elabora.

Haveis de conhecer, como eu conheço, países, onde quanto menos ciência se apurar, mais sábios florescem. Há, sim, dessas regiões por este mundo além. Um homem (nessas terras de promissão) que nunca se mostrou lido ou sabido em coisa nenhuma, tido e havido é por corrente e moente no que quer que seja; porque assim o aclamam as trombetas da política, do elogio mútuo, ou dos corrilhos pessoais, e o povo subscreve a néscia atoarda. Financeiro, administrador, estadista, Chefe de Estado, ou qualquer outro lugar de ingente situação e assustadoras responsabilidades, é, a pedir de boca, o que se diz mão de pronto desempenho, fórmula viva a quaisquer dificuldades, chave de todos os enigmas.

[...]

Ponho exemplo, senhores. Nada se leva em menos conta, na judicatura, a uma boa-fé de ofício que o vezo de tardança nos despachos e sentenças. Os códigos se cansam debalde em o punir. Mas a geral habitualidade e a conivência geral o entretêm, inocentam e universalizam. Destarte se incrementa e desmanda ele em proporções incalculáveis, chegando as causas a contar a idade por lustros, ou décadas, em vez de anos.

Mas justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e manifesta. Porque a dilação ilegal nas mãos do julgador contraria o direito das partes, e, assim, as lesa no patrimônio, honra e liberdade. Os juízes tardinheiros são culpados, que a lassidão comum vai tolerando. Mas sua culpa tresdobra com a terrível agravante de que o lesado não tem meio de reagir contra o delinquente poderoso, em cujas mãos jaz a sorte do litígio pendente.

Nas sejais, pois, desses magistrados, nas mãos de quem os autos penam como as almas do purgatório, ou arrastam sonos esquecidos como as preguiças do mato.

Não vos pareçais com esses outros juízes, que, com tabuleta de escrupulosos, imaginam em risco a sua boa fama, se não evitarem o contato dos pleiteantes, recebendo-os com má sombra, em lugar de os ouvir a todos com desprevenção, doçura e serenidade.

Não imiteis os que, em se lhes oferecendo o mais leve pretexto, a si mesmos põem suspeições rebuscadas, para esquivar responsabilidades, que seria do seu dever arrostar sem quebra de ânimo ou de confiança no prestígio dos seus cargos.

Não sigais os que argumentam com o grave das acusações, para se armarem de suspeita e execração contra os acusados; como se, pelo contrário, quanto mais odiosa a acusação, não houvesse o juiz de se precaver mais contra os acusadores, e menos perder de vista a presunção de inocência, comum a todos os réus, enquanto não liquidada a prova e reconhecido o delito.

Não acompanheis os que, no pretório, ou no júri, se convertem de julgadores em verdugos, torturando o réu com severidades inoportunas, descabidas, ou indecentes; como se todos os acusados não tivessem direito à proteção dos seus juízes, e a lei processual, em todo o mundo civilizado, não houvesse por sagrado o homem, sobre quem recai acusação ainda inverificada.

Não estejais com os que agravam o rigor das leis, para se acreditar com o nome de austeros e ilibados. Porque não há nada menos nobre e aplausível que agenciar uma reputação malignamente obtida em prejuízo da verdadeira inteligência dos textos legais.

Não julgueis por considerações de pessoas, ou pelas do valor das quantias litigadas, negando as somas, que se pleiteiam, em razão da sua grandeza, ou escolhendo, entre as partes na lide, segundo a situação social delas, seu poderio, opulência e conspicuidade. Porque quanto mais armados estão de tais armas os poderosos, mais inclinados é de recear que sejam à extorsão contra os menos ajudados da fortuna; e, por outro lado, quanto maiores são os valores demandados e maior, portanto, a lesão arguida, mais grave iniquidade será negar a reparação, que se demanda.

Não vos mistureis com os togados, que contraíram a doença de achar sempre razão ao Estado, ao Governo, à Fazenda; por onde os condecora o povo com o título de "fazendeiros". Essa presunção de terem, de ordinário, razão contra o resto do mundo, nenhuma lei a reconhece à Fazenda, ao Governo, ou ao Estado.

Antes, se admissível fosse aí qualquer presunção, havia de ser em sentido contrário; pois essas entidades são as mais irresponsáveis, as que mais abundam em meios de corromper, as que exercem as perseguições, administrativas, políticas e policiais, as que, demitindo funcionários indemissíveis, rasgando contratos solenes, consumando lesões de toda a ordem (por não serem os perpetradores de tais atentados os que os pagam), acumulam, continuamente, sobre o tesouro público terríveis responsabilidades.


(Discurso na Faculdade de Direito de São Paulo, 1920)



(Ilustração: Rui-Barbosa; foto)


terça-feira, 8 de novembro de 2016

FLOR MARINHA, de Augusto de Lima







Há nos seus ademanes curvilíneos,

A doce languidez da vaga esquiva.

Seus olhos são dois fúlgidos escrínios

De gemas com que o afeto nos cativa.



Flor das espumas, dos corais sanguíneos,

Nenhum tem de seus lábios a cor viva.

Quanto aos cabelos, meu amor define-os:

"Fios de ébano em onda fugitiva".



Não sou homem do mar, contudo afago

Na alma um doido capricho, um sonho vago,

Um vago sonho singular talvez:



É de um dia, na praia, surpreendê-la,

E unir minha sorte à sorte dela,

Sobre o dorso espumante das marés.





(Ilustração: Camilo Lucarini - nu na praia)



sábado, 5 de novembro de 2016

... LAGES, de Paulo Setúbal







Adeus, São Paulo! Adeus, salões e clubes! Adeus, amigos e noitadas! Adeus, meu querido e triunfante escritório de advocacia. Adeus, esforço e trabalho e vitórias da minha mocidade! Lá foi tudo água abaixo... Ia eu de novo, com as mãos abanando, recomeçar a minha vida em terra estranha, longe do meu Estado, numa cidadezinha que eu nunca vira, boca de sertão, perdida rusticamente entre píncaros de serra. Amarguei no meu coração, com muito fel, esse estraçalhamento dos meus sonhos. Como é desesperadora, amigo, a revolta dum coração materialista. Dum coração que não crê em Deus. Dum coração que põe a sua única mira em ambições e gozos da terra. Eu conheci de perto, naquela hora, essa revolta. Eu a vivi. Por isso, no vaporzinho que me levava a Florianópolis, a todo momento, como um estribilho, eu exclamava, irritantemente, aos companheiros de travessia:

... Crime absurdo,
O crime de nascer. Eu espio-o, vivendo.
Maldita a vida que promete e falta!
Que mostra o céu prendendo-nos à terra,
Que dando as asas não permite o voo.

* * *

... Lages foi uma surpresa para mim. Cidade pequena, é certo, mas cidade graciosa, pitorescamente aninhada num espigão de morro, com gentes boas e acolhedoras, e, sobretudo, novidade saborosa para quem vinha do sul, com as suas grandes estâncias de gado, e a sua vida gauchesca tão colorida e típica, que é um dos encantos do Brasil rural. Vivi em Lages dois anos. Dois anos em que conheci de perto os usos daquelas paragens, em que percorri, no meu macho gateado, aquelas coxilhas ondeantes e sem termo; em que bebi na cuia tosca, por bombas de prata, o chimarrão fervente e amargo que corria a roda de boca em boca. Muita vez, por aquelas vastas campanhas povoadas de gadaria, assisti à lida brava dos rodeios, com os peões de bombacha e chiripá, chapéu de barbicacho amarrado no queixo, disparando fogosamente atrás de reses desgarradas, - laça! laça! - enquanto as armadas feitas rodopiavam no ar e a cachorrada se arremetia, furiosa e ladrando, no rastro das fujonas.

Quando eu cheguei a Lages, a gripe espanhola já havia andado por lá e devastado o quanto pôde. Morrera muita gente. Eu, por acaso, mal me instalei, fiquei sendo o único advogado formado da terra. Fui, sem delongas, procurado para tratar de alguns inventários. Entrei com o pé direito no foro. Tratei dos inventários, fui feliz, ganhei fama. A partir daí não me faltou mais serviço. A minha estrela, não há negar, era realmente propícia. Em São Paulo ou em Lages, pouco importa, ela sempre luzia. Eu dei de trabalhar sem tréguas. E de ganhar dinheiro com fartura. Mas o dinheiro vinha e ia-se. Ia-se para onde? Ia-se água abaixo, sem mãos a medir, para o jogo. Sim, meu amigo, para o jogo. Porque em Lages, é preciso que você o saiba, eu aprendi a jogar. Tive por lá a paixão torturante das cartas. Naquela cidadezinha cravada em um cocoruto de serra, boca do sertão, para onde confluíam de toda a parte compradores de gado e tropeiros de mulas, jogava-se rijo e caro. E eu joguei rijo e caro. Joguei como um dementado. Quanta noite, entreverado àqueles boiadeiros e àqueles tropeiros em meio àquela gente abrutada, de botas altas e trabuco à cinta, mas que usava grandes anéis de brilhantes no dedo e trazia maços de dinheiro no cintão de couro, quanta noite, Deus meu, quanta apaixonada e vergonhosa noite não varei eu - um poeta! - com as cartas na mão, dentro de tascas enfumaçadas e malcheirosas, a topar paradas grossas nas bancas de nove e de primeira. E aquelas ardentes noites de jogatina, noites asperamente emocionais em que, num só lanço, apostava eu, às vezes, o ganho inteiro de uma demanda, aquelas ardentes noites findavam sempre por patuscadas sórdidas em casebres de chinas abomináveis. Aí, sob telheiros esburacados, eu, no meu aturdimento, os tropeiros e os boiadeiros no seu desperdício, ficávamos faustosamentre a cear latas de sardinhas portuguesas e a beber copázios de champagne Moet et Chandon (sacrilégio!) na companhia nauseante daquelas mulherinhas de estrada, analfabetas, que vestiam uns amarfanhados vestidos de babado e avivavam a cara com um hediondo encarnado de papel de seda vermelho. Onde andava, àquelas horas, o noviço do Carmo? Onde o filho católico de uma velha católica? Não sei. Sei apenas que vivi dois anos assim. Dois anos, brutais e materiais, que embotaram fundamente a minha sensibilidade. Não tinha mais outra aspiração na vida, outro sonho, a não ser a mesquinharia de ganhar dinheiro. Só dinheiro. Dinheiro às mancheias, dinheiro a rodo, dinheiro e, com o dinheiro, chafurdar-me deliciado na torpeza daquela vida solta. E tão materializado andava, tão longe de Cristo, tão vazio de cousas altas, que, no meu chafurdamento, se me afigurava como um pesadelo, cousa irreal, o ter tido a fraqueza de, outrora, em dias idos, haver entrado em uma igreja, ajoelhado devotamente diante de um altar, rezado, confessado, comungado. Como aquele passado se me exsurgia ridículo e vexador! Como eu havia sido pueril! Como eu havia sido carola! E me constrangia, e me sentia terrivelmente envergonhado e mesmo humilhado, só em pensar nessas (como dizia) asnices de minha vida. O mundo, para mim, naquela quadra, era exclusivamente um lugar de alegrias e de prazeres. Aquele mundo, de que ouvira falar tão gravemente, lugar transitório, lugar de sofrimento e de provação, através do qual, pela aceitação humilde e risonha, o homem atinge a um outro mundo, que é aquele mundo superior, alto, eterno, onde esplende a Beleza Perfeita, isso não tinha o menor significado para o meu coração esterilizado e tonto. Isso, para mim, naquela quadra, não passava de baboseira de uma religião de tristes. Sim, meu amigo, essa religião que conduz ao aprimoramento moral, às delicadezas de consciência, aos escrúpulos sutis, à elevação e ao regeneramento do caráter, religião que, arrancando-nos do lodo e da sordícia, nos dá o anseio alevantado da perfeição e nos propele grandiosamente para o Infinito, essa religião eu a cognominava pedantescamente - formigazinha arrogante e cego que eu era - a religião dos tristes, dos vencidos, dos fracassados, dos místicos e dos devotos.

E o mundo, bem se compreende o mundo, para a minha materialidade de então, não era aquele mundo de sofrimento e dor, sofrimento abençoado que depura e dor feliz que resgata, de que a religião falava. Não! Era, bem ao contrário, era isso sim, um mundo amorável de deleites e de encantamentos. E eu não queria outra felicidade, nem cobiçava outra ventura, senão a de atolar-me nesses deleites e nesses encantamentos. E tais deleites e tais encantamentos, oh, a miséria de um coração sem Deus! residiam para mim, naquele momento, em jogar nove com boiadeiros em tascas enfumaçadas e em beber champagne com chinas que botavam encarnado na cara. Lastimosa e risível natureza humana... Foi assim, contudo, foi assim, com o coração vazio, tão impuro, que afinal deixei Lages e tornei de novo para esta minha cidade de São Paulo. Tornei para a cidade a mais dura, a mais fria, a mais materialista do Brasil, mas, com tudo isso, a cidade mais ardorosamente enternecida desta minh'alma de tatuiano caipira, neto boêmio de bandeirantes aventureiros.



(Confíteor, capítulo XVIII, 1937)



(Ilustração: Cézanne - the players)


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

L' ALBATROS / O ABATROZ, Charles Baudelaire






Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage

Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,

Qui suivent, indolents compagnons de voyage,

Le navire glissant sur les gouffres amers.



A peine les ont-ils déposés sur les planches,

Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,

Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches

Comme des avirons traîner à côté d'eux.



Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!

Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!

L'un agace son bec avec un brûle-gueule,

L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!



Le Poète est semblable au prince des nuées

Qui hante la tempête et se rit de l'archer;

Exilé sur le sol au milieu des huées,

Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.



Tradução de Guilherme de Almeida:



Às vezes, por prazer, os homens de equipagem

Pegam um albatroz, enorme ave marinha,

Que segue, companheiro indolente de viagem,

O navio que sobre os abismos caminha.



Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,

Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,

Deixa doridamente as grandes e alvas asas

Como remos cair e arrastar-se a seu lado.



Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!

Ave tão bela, como está cômica e feia!

Um o irrita chegando ao seu bico um cachimbo,

Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!



O poeta é semelhante ao príncipe da altura

Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;

Exilado no chão, em meio à corja impura,

As asas de gigante impedem-no de andar.



Tadução de Jamil Almansur Haddad:



Às vezes, por folgar, os homens da equipagem

Pegam de um albatroz, enorme ave do mar,

Que segue — companheiro indolente de viagem —

O navio no abismo amargo a deslizar.



E por sobre o convés, mal estendido apenas,

O imperador do azul, canhestro e envergonhado,

Asas que enchem de dó, grandes e de alvas penas,

Eis que deixa arrastar como remos ao lado.



O alado viajor tomba como num limbo!

Hoje é cômico e feio, ontem tanto agradava!

Um ao seu bico leva o irritante cachimbo,

Outro imita a coxear o enfermo que voava!



O Poeta é semelhante ao príncipe do céu

Que do arqueiro se ri e da tormenta no ar;

Exilado na terra e em meio do escarcéu,

As asas de gigante impedem-no de andar.



Tradução de Ivan Junqueira:




Às vezes, por prazer, os homens da equipagem

Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,

Que acompanha, indolente parceiro de viagem,

O navio a singrar por glaucos patamares.



Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,

O monarca do azul, canhestro e envergonhado,

Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,

As asas em que fulge um branco imaculado.



Antes tão belo, como é feio na desgraça

Esse viajante agora flácido e acanhado!

Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,

Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!



O Poeta se compara ao príncipe da altura

Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;

Exilado no chão, em meio à turba obscura,

As asas de gigante impedem-no de andar.





Tradução de Onestaldo de Pennafort:



Às vezes, em recreio, os homens da equipagem

pegam um albatroz, enorme ave marinha

que segue, companheiro indolente de viagem,

o navio que sobre o atro abismo caminha.



Mal no convés se vê, todo desconjuntado,

logo esse rei do azul, em passos desiguais,

como dois remos, põe-se a arrastar a seu lado,

desajeitadamente, as asas colossais.



Esse alado viajor, como é grotesco andando!

Ei-lo horrível e inerme, ele que antes pairava!

Um chega-lhe o cachimbo ao bico, e outro, coxeando,

arremeda no andar o pobre que voava!



O poeta é o albatroz que nas nuvens se espraia,

que ri dos vendavais e afronta as setas, no ar;

exilado no solo, em meio ao riso e à vaia,

suas asas de gigante impedem-no de andar.



Tradução de Delfim Guimarães:



Às vezes no alto mar, distrai-se a marinhagem

Na caça do albatroz, ave enorme e voraz,

Que segue pelo azul a embarcação em viagem,

Num vôo triunfal, numa carreira audaz.



Mas quando o albatroz se vê preso, estendido

Nas tábuas do convés, — pobre rei destronado!

Que pena que ele faz, humilde e constrangido,

As asas imperiais caídas para o lado!



Dominador do espaço, eis perdido o seu nimbo!

Era grande e gentil, ei-lo o grotesco verme!...

Chega-lhe um ao bico o fogo do cachimbo,

Mutila um outro a pata ao voador inerme.



O Poeta é semelhante a essa águia marinha

Que desdenha da seta, e afronta os vendavais;

Exilado na terra, entre a plebe escarninha,

Não o deixam andar as asas colossais!





(Ilustração: Mervyn Peake - albatros)