sábado, 31 de dezembro de 2011

UM MODELO DE ATLETA, de Philip Roth






[...] aos vinte e três anos, ele era para todos nós a autoridade mais reverenciada e mais exemplar que conhecíamos, um jovem com convicções, simpático, cortês, justo, zeloso, estável, gentil, vigoroso, muscular – ao mesmo tempo líder e companheiro. E uma figura ainda mais gloriosa naquela tarde em fins de junho – antes de a epidemia de 1944 efetivamente dominar a cidade, antes que, para um bom número de nós, nossos corpos e nossas vidas fossem drasticamente deformados –, quando marchamos todos atrás dele para o grande e sujo campo a que se chegava após cruzarmos a rua nos fundos do pátio e descermos um pequeno declive. Era lá que treinava o time de futebol do ginásio e onde ele nos mostraria como arremessar o dardo. Usava o calção curto e acetinado apropriado para as competições de atletismo, bem como camiseta sem mangas e sapatilhas com travas. Caminhando à frente do grupo, levava o dardo despreocupadamente na mão direita.


Ao chegarmos, o campo estava vazio e o Sr. Cantor nos reuniu na extremidade próxima à avenida Chancellor, onde cada um pôde examinar e sopesar o dardo, uma fina haste de metal pesando pouco menos de novecentos gramas e medindo cerca de dois metros e sessenta centímetros. Mostrou-nos as várias empunhaduras que podiam ser usadas na parte envolta em tecido grosso, entre elas sua favorita. Fez uma breve explanação histórica sobre como a lança fora utilizada na caça pelas sociedades primitivas antes da invenção do arco e flecha, e como o dardo já constava na primeira Olimpíada na Grécia do século VII a. C. O primeiro arremessador de dardos teria sido Hércules, o grande guerreiro e exterminador de monstros, que, segundo o Sr. Cantor, era o filho gigantesco do supremo deus grego, Zeus, e o homem mais forte da Terra. Terminada a aula, disse que faria os exercícios de aquecimento, e durante uns vinte minutos o observamos executar flexões, alguns meninos na margem do campo se esforçando para imitar seus movimentos. Sentado no chão com as pernas esticadas para cada lado do corpo, disse que era importante alongar sempre os músculos do ventre, muito suscetíveis aos estiramentos. Usou o dardo como um bastão em vários exercícios, contorcendo-se e virando-se para trás com a haste acomodada como uma canga sobre os ombros enquanto se ajoelhava, se acocorava e saltava para a frente, além de dobrar e girar o torso. Mais tarde, pôs-se de cabeça para baixo e percorreu um amplo círculo apoiado nas mãos, coisa que alguns garotos tentaram fazer. Com a boca alguns centímetros acima do solo, informou que estava executando tais manobras por não haver ali uma barra fixa a fim de alongar os músculos da parte superior do corpo. Terminou dobrando o corpo para a frente e para trás, quando então mantinha os calcanhares plantados no chão e empurrava os quadris para cima, conseguindo curvar as costas de forma excepcional. Quando anunciou que ia dar duas voltas correndo em torno do campo, todos o seguimos, mal conseguindo nos manter em seus calcanhares mas fingindo que nós é que estávamos nos aquecendo para o lançamento. Depois disso, durante alguns minutos treinou a corrida ao longo de uma linha reta sem completar o arremesso, carregando, com o braço erguido, o dardo apontado para a frente e paralelo ao chão.



Quando estava pronto para começar, disse-nos o que devíamos observar, desde a corrida de aproximação até a última passada e o arremesso. Sem o dardo, demonstrou todos os estágios em câmara lenta, descrevendo-os à medida que ia executando cada gesto. “Não é mágica, meninos, e também não é nenhuma brincadeirinha. Mas, se vocês trabalharem para valer e treinarem com afinco – se, primeiro, capricharem nos exercícios de equilibro; segundo, nos exercícios de mobilidade; e, terceiro, nos exercícios de flexibilidade –, se seguirem rigorosamente o programa de levantamento de peso e se o arremesso de dardo for importante para vocês, garanto que vão obter um bom resultado. Em matéria de esporte, tudo exige determinação. Os três D: determinação, dedicação e disciplina – e isso é mais que metade do caminho andado.”



Precavido como de hábito, insistiu em que, por questões de segurança, ninguém poderia correr para dentro do campo em nenhum momento. Tínhamos de assistir a tudo de onde estávamos. Falou isso duas vezes. Não podia ter sido mais sério, já que a seriedade era a melhor demonstração de seu compromisso com a função que exercia.



Enfim arremessou o dardo. Dava para ver cada um de seus músculos retesados quando o lançou no ar. Emitiu um grito estrangulado de esforço (que todos nós imitamos durante muitos dias), um ruído que expressava sua essência – um brado de guerra autêntico na luta pela excelência. No instante que o dardo se desprendeu de sua mão, ele começou a dançar para recobrar o equilíbrio e não ultrapassar a linha de falta que traçara no chão com as travas da sapatilha. Enquanto isso, observava a trajetória do dardo, o alto e longo arco traçado bem acima do campo. Nenhum de nós nunca assistira a um ato atlético tão lindamente executado diante de nossos olhos. O dardo ultrapassou a linha de cinquenta jardas, se aproximou da marca de trinta jardas no campo oposto e, ao aterrissar, a haste vibrou quando a ponta de metal penetrou diagonalmente no solo graças à força adquirida em pleno voo.



Soltamos urros de aprovação e começamos a pular de alegria. Toda a trajetória do dardo tivera origem nos músculos elásticos do Sr. Cantor. Ele era o corpo – pés, pernas, nádegas, torso, braços, ombros e até o curto e grosso pescoço taurino – que, com todas as suas partes agindo em uníssono, havia potencializado o arremesso. Como se o fiscal de nosso pátio houvesse se transformado num homem primitivo caçando alimento nas planícies onde buscava provisões, dominando as regiões bravias com a potência de seus braços. Nunca ninguém nos impressionou tanto. Por meio dele, havíamos escapado à pequena história de nossa vizinhança para entrar na saga milenar de nossos ancestrais.



Ele lançou o dardo várias vezes naquela tarde, cada arremesso finamente coordenado e poderoso, cada arremesso acompanhado por aquela mescla ecoante de grito e grunhido, e cada qual, para nosso deleite, aterrissando vários metros mais longe que o anterior. Correndo com o dardo acima da cabeça, esticando o braço do arremesso para trás do corpo, trazendo-o à frente para soltar o dardo bem acima do ombro e enfim o impelindo num gesto explosivo, ele nos pareceu a própria imagem da invencibilidade.





(Nêmesis; tradução de Jorio Dauster)




(Ilustração: Hércules Hércules do Fóro Boário", em bronze, com a maçã das Hespérides; romano, século II a.C. - Museus Capitolinos, Roma).




quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

QUANDO SE TEM AMOR, de Eliana Iglesias






Tinha-lhe tanta obediência
Talvez fosse por medo ou,
preguiça?
Respeitava sua voz e mãos firmes
no desequilíbrio dos meus ossos frágeis
e já convencida para todo o sempre
que ele seria meu guia e senhor.
Embora não fosse pai
e nem amante
e eu, tão somente a ovelha resistente
quando todo o rebanho debandou
atenta a seus passos claudicantes
à sua respiração já ofegante.
Escondendo o viço dos meus anos
nas dobras da saia e quietude
e por princípio
não tomar-lhe a dianteira
para que ele se alegrasse enfim
com a liderança de dias que se foram
e que ele ainda imaginava ter.




(Ilustração: Daumier – wandering saltimbanques)




terça-feira, 27 de dezembro de 2011

CLOSED WINDOWS, de Luiz Carlos Cerqueira







Mensagem original-----
De:            caiozoando@uol.com.br
Enviada em:  segunda
Para:         maridepre@hotmail.com
Cc:           
Cco:            ale; cadu; fe; emaisumagalera
      Assunto:  Não sei...

Aí mina, num saquei essa não!!!
Te falei que ia no fut!!! Essa Gabi e o Ale tão te zoando, mina!
Nem passei no barzinho da galera, tava cansado e fui pra casa.
Aí, na moral...

Mensagem original-----
De:            marifuriosa@hotmail.com
Enviada em:  domingo, cedo
Para:         caiojaemoutra@uol.com.br
Cc:           
      Assunto:  Não sei...

Porra, Caio, sacanagem!
A Gabi e o Ale disseram que viram vc dando o maior amasso na Má. E logo lá no barzinho da galera, pô, sacanagem!!!!!

Mensagem original-----
De:            caiomaisnadeleainda@uol.com.br
Enviada em:  sábado, bem depois
Para:         marismaisencanadaainda@hotmail.com
Cc:           
      Assunto:  Não sei...

Gata,
Hoje não vai dar. Já combinei com a galera um fut e depois umas brejas.
Sabe como é, programa de valete... Tomar umas, zoar com a cara dos outros (rs)...
Amanhã a gente se fala, tá?

Mensagem original-----
De:            mariencanada@hotmail.com
Enviada em:  sábado
Para:         caionadele@uol.com.br
Cc:           
Assunto:  Não sei...

Caio,
desculpa!!!!!
Eu sei que não era pra falar como eu falei com vc, desculpa!!!!
Eu não tava legal mesmo.
Vc vai fazer alguma coisa hoje?

-----Mensagem original-----
De:            marinofreio@hotmail.com
Enviada em:  dia seguinte ao dia seguinte, logo depois
Para:         caiogriladao@uol.com.br
Cc:           
Cco:            amigaoculta@hotmail.com        
Assunto:  Não sei...

Caio, super gatinho... Não sei...
Tô com a cabeça muito cheia...
Uns problema, sabe? Minha mãe pegando nu meu pé...
Tô meio assim conxinha, meio pra baixo, na minha... Até rimou mas num tô achando graça não.
Sei lá, vou dá um tempo...
A gente se fala na sexta.
Mari.

-----Mensagem original-----
De:            caiodecabeça@uol.com.br
Enviada em:  dia seguinte ao dia seguinte, à tarde, logo depois
Para:         marisesegura@hotmail.com
Cc:           
      Assunto:  Hoje

Gata, quero te vê de novo.
Tem uma balada maió ótima hoje à noite. Topa ir?


-----Mensagem original-----
De:            marijogando@hotmail.com
Enviada em:  dia seguinte ao dia seguinte, à tarde
Para:         caionasnuvens@uol.com.br
Cc:
Cco:            amigaoculta@hotmail.com        
Assunto:  Ontem

Caio, gatinho, tb adorei...
Desculpa não ter respondido logo, mas eu tava encanada com uma prova na facu.
Tb te achei demais, você é cem mil!!!
Mari.


-----Mensagem original-----
De:            caionoceu@uol.com.br
Enviada em:  dia seguinte, `a tarde
Para:         marilanguida@hotmail.com
Cc:           
Assunto:  Ontem

Mari, tesouro!
Ontem foi o maximo. Uma noite que vai ficar guardada dentro de mim, pra sempre.
Vc é demais, demais!
Adorei tudo, vc é mil!
Quero te vê!!!!!
Caio.



(Ilustração: Jean-Pierre Ceytaire)

domingo, 25 de dezembro de 2011

ROSÁRIO, de Vinícius de Moraes






E eu que era um menino puro
Não fui perder minha infância
No mangue daquela carne!
Dizia que era morena
Sabendo que era mulata
Dizia que era donzela
Nem isso não era ela
Era uma moça que dava.
Deixava... mesmo no mar
Onde se fazia em água
Onde de um peixe que era
Em mil se multiplicava
Onde suas mãos de alga
Sobre o meu corpo boiavam
Trazendo à tona águas-vivas
Onde antes não tinha nada.
Quanto meus olhos não viram
No céu da areia da praia
Duas estrelas escuras
Brilhando entre aquelas duas
Nebulosas desmanchadas
E não beberam meus beijos
Aqueles olhos noturnos
Luzindo de luz parada
Na imensa noite da ilha!
Era minha namorada
Primeiro nome de amada
Primeiro chamar de filha
Grande filha de uma vaca!
Como não me seduzia
Como não me alucinava
Como deixava, fingindo
Fingindo que não deixava!
Aquela noite entre todas
Que cica os cajus! travavam!
Como era quieto o sossego
Cheirando a jasmim-do-cabo!
Lembro que nem se mexia
O luar esverdeado.
Lembro que longe, nos longes
Um gramofone tocava,
Lembro dos seus anos vinte
Junto aos meus quinze deitados
Sob a luz verde da lua.
Ergueu a saia de um gesto
Por sobre a perna dobrada
Mordendo a carne da mão
Me olhando sem dizer nada
Enquanto jazente eu via
Como uma anêmona n'água
A coisa que se movia
Ao vento que a farfalhava.
Toquei-lhe a dura pevide
Entre o pêlo que a guardava
Beijando-lhe a coxa fria
Com gosto de cana-brava.
Senti, à pressão do dedo
Desfazer-se desmanchada
Como um dedal de segredo
A pequenina castanha
Gulosa de ser tocada.
Era uma dança morena
Era uma dança mulata
Era o cheiro de amarugem
Era a lua cor de prata
Mas foi só aquela noite!
Passava dando risada
Carregando os peitos loucos
Quem sabe pra quem, quem sabe!
Mas como me perseguia
A negra visão escrava
Daquele feixe de águas
Que sabia ela guardava
No fundo das coxas frias!
Mas como me desbragava
Na areia mole e macia!
A areia me recebia
E eu baixinho me entregava
Com medo que Deus ouvisse
Os gemidos que não dava!
Os gemidos que não dava
Por amor do que ela dava
Aos outros de mais idade
Que a carregaram da ilha
Para as ruas da cidade.
Meu grande sonho da infância
Angústia da mocidade.



(Ilustração: Gauguin – nevermore)


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

KEY WEST, FLÓRIDA OU NAS RODAS DO TEMPO, de Aldo Buzzi





Ainda na cama, no silêncio da manhã, ouço o rumor da colher de S., que está tomando seu breakfast de leite e cornflakes. A colher bate na xícara com o som de uma sineta rouca de ovelha, como se do outro lado da parede houvesse um prado montanhês, escarpado, pelo qual ovelhas dispersas pastassem de cabeça baixa. E, de tanto em tanto, a ovelha-líder ou talvez um montão delas levanta bruscamente a cabeça e a sacode enquanto mastiga, fazendo ressoar a sineta.


Comecei a escrever tarde, e é por isso que agora,apesar da idade, posso de certa maneira me considerar um escritor jovem, que ainda lê aprendendo, que ainda não se cansou de aprender. Mas também já cansado, por causa da velhice. Por anos a fio, eu me levantava rápido todas as manhãs, para ir trabalhar. Agora me levanto tarde e, depois de me lavar, barbear, pentear, depois de jogar fora

os cabelos que se acumularam na pia (lá se vão eles, desaparecendo como tantos amigos), tomar o café, escovar os dentes e calçar com esforço os sapatos, tenho a impressão de já ter trabalhado o suficiente pelo dia inteiro, e sinto vontade de voltar a me deitar na cama... descansar... pelo menos até a hora de ir para a mesa. Mas depois me canso também de descansar. Os olhos sem óculos (onde os meti?) caem sobre uma manchinha escura no piso, do tamanho de um besouro, de uma cucaracha imóvel, pronta para fugir, velocíssima. Impossível, não há besouros aqui. Não vale a pena fazer o esforço de me inclinar para verificar. Se, mais tarde, quando eu voltar para cá,o besouro ainda estiver ali, terei a prova de que não era um besouro, mas uma folhinha trazida pelo vento para dentro de casa. A menos que seja um besouro velho, que caminha com dificuldade, cambaleando, apoiando-se em quatro bengalas, fazendo longas paradas para recuperar o fôlego.


Em certos momentos da manhã, o sol brilha do modo mais mágico. E se, ao mesmo tempo, o vento cai e sopra apenas um zéfiro quase imperceptível, que faz vibrar a copa das palmeiras, então se produz aqui, em Key West, no fim da Flórida, o clima do paraíso terrestre. Paro. Por uma janelinha com persiana, um ventilador expulsa com violência o bafo quente da cozinha da Dennis Pharmacy, onde estão servindo o breakfast, um cheiro apetitoso que o nariz começa a sentir a vinte metros de distância. Paro onde o jato quente é mais forte e saboroso. É o cheiro do breakfast americano,o cheiro da América: suco de laranja, torrada, ovos mexidos, bacon, salsichas, batatas na chapa, café. Os passantes me observam com desconfiança, porque pareço imobilizado por alguma causa misteriosa, imerso em profunda meditação. Estão prontos a intervir, a me sustentar pelos braços, a perguntar se podem me ajudar.



S. chega com um envelope grande nas mãos. Fala da caligrafia do endereço, diz que é bonita, que não envelheceu. Porque, quando chega a hora, também a letra envelhece: vacila como as pernas do autor e se torna confusa como o cérebro do autor. Mas não se pode analisar completamente uma caligrafia a partir de um envelope apenas, faltam as rasuras, parte essencial.Lembro que aprendi a rasurar como escritor Emilio Cecchi, durante a redação de um roteiro, em Roma, faz mais de cinquenta anos. Cecchi rasurava com uma série de hastes paralelas muito cerradas, que entretanto deixavam entrever o texto rasurado. Uma página com muitas rasuras parecia-se a uma água-forte de Morandi. Faz sessenta anos. Antes de começar o trabalho, Cecchi, sentado à escrivaninha, escolhia um cachimbo de sua coleção e o enchia meticulosamente, operação que tomava muito tempo e transcorria no silêncio mais absoluto. De vez em quando, através das lentes dos óculos, lançava um olhar agudo a seus jovens colaboradores. Agora consigo imaginar em que pensava, como via a nossa inexperiência, as coisas ainda por descobrir, por aprender, coisas que se descobrem e aprendem sozinho... quando branca a barba cai sob a navalha, como diz... (1)



No estúdio de Hemingway, no térreo de um pavilhão isolado no meio do jardim de sua casa, há uma mesa redonda, exibida como mesa de trabalho do Mestre, que parece alta demais para se trabalhar sentado e baixa demais para se trabalhar em pé.No meio da mesa, uma máquina de escrever, velha, alta (a máquina de escrever do Mestre), e, encostada à mesa, uma cadeira de enrolador de charuto,uma cigar-maker’s chair, na qual, diz o guia, Hemingway sentava-se para escrever à máquina durante os nove anos que morou em Key West, antes de se mudar para Cuba. Mas a cadeira é pequena e não parece capaz de abrigar o traseiro graúdo de Hemingway; de resto, escrever à máquina naquela mesa redonda e alta demais... uma ideia quase dannunziana... O jardim e também a casa estão cheios de gatos, em homenagem à memória de Hemingway, que teve sessenta deles quando morava aqui. E outros tantos, mais tarde, em Cuba, não sei se os mesmos ou novos. Quer dizer, não sei se deixou os gatos com a mulher, que ficou em Key West, ou se os levou para Cuba. No primeiro caso, os gatos que estou vendo serão os descendentes daqueles que alegraram a estada de Hemingway em Key West. Devem ser.Terminada a visita, quando estava a ponto de sair do jardim, um desses gatos, um gato tigrado normal, que é o gato que inspira mais confiança, um daqueles que costumam dormir nos cantos mais escuros da casa e só acordam na hora da comida, um desses gatos, fitando-me nos olhos, me deu a entender que, num momento mais favorável, teria contado algumas histórias interessantes sobre Ernest, de quem o seu falecido bisavô fora o favorito, o gato que de fato vivia (dormia) na cigar-maker’s chair, no lugar do Mestre.



O sol já vai caindo atrás das nuvens, já se encaminha para o ocaso. Fugit irreparabile tempus, como diz... (2) Bebemos o último gole de cerveja, levantamo-nos da mesa com esforço, caminhamos com esforço pela areia, cambaleando rumo ao mar verde amarelo. Cai a noite, as gaivotas vão dormir. Os cachorros abandonam a prainha, seguidos pelos donos que trazem de volta para casa as bolas de tênis com as quais os incitaram a entrar na água. Os restaurantes se apinham, acendem as velinhas nas mesas. Com o garfo, ponho de lado uma quantidade de lascas de mamão, de pimentão vermelho, de manga, de tomate e outras tantas lascas sem nome para enfim descobrir o meu peixe. O clima tropical atiça nos cozinheiros um excesso de fantasia tosca e gera pratos que recordam as monstruosas flores das palmeiras. “Eles comem papagaios por aqui”, diz S.



A ilha ergue-se poucos centímetros do nível do oceano. O cume é o terraço no quarto andar do La Concha Hotel, cuja massa branca impera, como diz Hemingway, no centro da cidade. Lá de cima, vê-se o panorama completo de Key West, imersa metade no golfo do México, metade no Atlântico: infinitos tetos de chapas de zinco pintado de branco, grandes massas de verde e dois navios de cruzeiro ancorados no porto, altos feito arranha-céus diante das casinhas térreas; e, no meio, o grande retângulo do cemitério, uma das principais atrações da cidade, povoado por sessenta mil almas. Está lotado, no vacancy. Não há enterros, porque a rocha coralina, dura demais, torna difícil a escavação, de modo que as tumbas são casinhas em miniatura, brancas de cal, e o cemitério transformou-se num bairro da cidade. Algumas ruas o atravessam de lado a lado. Ao longo das ruas que o margeiam, as casas têm, como todas em Key West, uma varanda da qual, numa cadeira de balanço, desfruta-se a vista silenciosa das tumbas, vista que não tem nada de macabro, antes infunde no ânimo de quem se balança uma pacata satisfação de viver, de desfrutar o sol, de estar em liberdade. É um cemitério, mas está lotado. Talvez aqui a morte esteja por um momento suspensa, adiada, ao menos por estas férias, e possamos ainda, como acontece na juventude, pensar que somos imortais.





(OESP, 3.9.2011 – tradução de Samuel Titan Jr.)


1 Virgílio, na primeira das Éclogas. (N.T.)

2 O mesmo poeta, no terceiro livro das Geórgicas. (N.T.)


(S. é o desenhista de origem romena Saul Steinberg – 1914-1999 – de quem é a ilustração acima)


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

NO TREM DE FERRO, de Lúcio de Mendonça






Vinha sentado gravemente, mudo,
D'olhos baixos, obeso e venerando,
Mãos cruzadas no ventre, ruminando
Velhas rezas ou santo e duro estudo.


Ergue tímido o olhar, triste; contudo,
É paternal e bom; de quando em quando
Ao céu o volve, ao céu que vai passando
Pelas vidraças, empoeirado. Tudo


Nele respira a fé e cheira a igreja.
Por todos os seus poros Deus poreja.
Do seu breviário agora passa as folhas.


Pio varão! para este já começa
O reino do Senhor!... mas sai à pressa
E cai-lhe da batina — um saca-rolhas!


(Antologia de humorismo e sátira)


(Ilustração: Cícero Dias)


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O TÊNIS COR-DE-ROSA , de Nilze Costa e Silva






Betina entrou na sala de aula com passos miúdos e cautelosos, para que seu lindo calçado não se sujasse. Era um tênis cor-de-rosa, que ganhara de D. Alzira, para quem sua mãe lavava roupa. Não cabia mais no pé da sua filha e quem sabe dava na menina de Francisca. Esta sorriu de alegria, pelo presente que daria à filha no dia do seu aniversário.

Naquele dia tomou banho sem que a mãe mandasse. Aliás, ela raramente mandava. Somente quando acordava sóbria, o que era inusitado. Se o dinheiro da bebida acabava e o dono da venda encerrava o fiado, ia à casa da D. Alzira lavar roupa e esta sempre lhe dava algo para comer. No final do mês era uma festa, ao receber o Bolsa Família. Comprava na venda um pastel com refrigerante de uva para a menina e pagava a conta mensal. Bebia o dia todo, entrando pela noite. Saía de casa e voltava com mais um pretendente.

A meninada a olhava insistentemente. Betina, toda orgulhosa, atravessou o portão da escola. Na classe, ninguém ousaria caçoar dela por sua sandália de borracha cujo cabresto estava preso ao solado por um prego enferrujado. Jogara na carroça do lixo. Agora possuía sapatos de verdade.

Na hora do recreio, podia ir ao pátio exibir seu tênis cor-de-rosa. Mas não foi. Ficou parada, sentada na cadeira, tensa, calada. A professora notou que hoje ela não fedia a fezes como nos outros dias. Certa vez fora preciso levá-la ao chuveiro e mandar tomar um banho. A pele era sempre suja e não dava para dizer sua cor de origem. O cabelo sempre despenteado e a blusa da farda imunda. A mãe fora chamada à diretoria, mas compareceu bêbada, sem condição para dialogar. A menina chorava de vergonha da mãe, puxando-a para ir embora dali.

A professora condoía-se dela, arranjava-lhe roupas velhas da vizinhança. Mas logo no dia em que saíra de casa limpa e com tênis novo, não entendia a timidez da garota.

- Betina, por que não vai brincar? Seu tênis está muito bonito!

- Não estou com vontade, tia.

- Por que não vem todos os dias assim para a escola, banhada, penteada, roupa limpa?

Duas garotas, aproximadamente da mesma idade, irromperam na classe, correndo uma atrás da outra. Uma delas aproximou-se, interessando-se pelo diálogo.

- Tia, na casa dela só tem cacimba. Moro vizinho, mas na minha tem água.

A professora não desistiu:

- Levante-se Betina e vá brincar com suas amiguinhas. Laura, convide-a para brincar com vocês.

Betina suspirou de tristeza. Como gostaria de sair correndo com as outras, rir e gritar pelo pátio. Antes tinha medo que o prego da sandália se rompesse. Ia ter que andar dez quarteirões até a sua casa, descalça, atolando-se nas calçadas barrentas, chegando ainda mais suja do que quando ia à escola. Mas agora estava de tênis novo, ou quase novo, parecendo ter sido comprado na loja.
Laura, mostrando-se bem informada, foi logo anunciando.

- Professora, hoje é o aniversário da Betina, por isso ela está de sapato.
Betina ficou mais triste ainda e baixou a cabeça, quase a chorar. A professora levantou-a com os braços, fazendo um certo esforço ante a resistência da menina. Mesmo assim conseguiu que ela ficasse de pé.

- Muito bem garota, parabéns! quantos anos?

Betina respondeu num soluço:

- Nove.

- Pois então, venha, vou lhe levar ao pátio agora mesmo, vai brincar com a garotada.

Betina não dava um passo. A professora achou estranho. Examinou-lhe as pernas. O que estaria acontecendo? Tirando a timidez natural da criança, desconhecia que ela tivesse qualquer problema nas pernas, pés ou articulações.

- Vamos minha filha, o que você tem? Logo no dia do seu aniversário você fica triste?

Saiu arrastando a menina até o pátio, que de pernas abertas manquejava e fazia caretas de dor. Não suportando mais, soltou-se da professora e sentou-se no primeiro banco que avistou no pátio. A essa altura a meninada já rodeava, pelo inusitado da cena.

- O que ela tem?

- O que houve, tia?

- Ela fez cocô nas calças?

Betina caiu num choro convulsivo e a professora correu até a sala dos professores onde pegou algodão e álcool. Ao voltar, deparou-se com outra cena. Laura, a amiguinha que morava na mesma rua da menina, desatara-lhe os cadarços do tênis e tentava puxá-los, com muita dificuldade. Quanto mais puxava, mais a menina gemia. Finalmente conseguiu livrá-la do calçado, dois números menores que o pé de Betina.

A meninada não riu, como sempre fazia. Um profundo silêncio congelou a cena.




(Ilustração: Gianni Strino)

domingo, 11 de dezembro de 2011

A FLAUTA VÉRTEBRA, de Maiakóvsky






A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.
Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.




(Tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)


(Ilustração: Malevich - Petersburg




sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

FELIZ ANIVERSÁRIO, de Clarice Lispector







A família foi pouco a pouco chegando. Os que vieram de Olaria estavam muito bem vestidos porque a visita significava ao mesmo tempo um passeio a Copacabana. A nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeite de paetês e um drapeado disfarçando a barriga sem cinta. O marido não veio por razões óbvias: não queria ver os irmãos. Mas mandara sua mulher para que nem todos os laços fossem cortados — e esta vinha com o seu melhor vestido para mostrar que não precisava de nenhum deles, acompanhada dos três filhos: duas meninas já de peito nascendo, infantilizadas em babados cor-de-rosa e anáguas engomadas, e o menino acovardado pelo terno novo e pela gravata.


Tendo Zilda — a filha com quem a aniversariante morava — disposto cadeiras unidas ao longo das paredes, como numa festa em que se vai dançar, a nora de Olaria, depois de cumprimentar com cara fechada aos de casa, aboletou-se numa das cadeiras e emudeceu, a boca em bico, mantendo sua posição de ultrajada. "Vim para não deixar de vir", dissera ela a Zilda, e em seguida sentara-se ofendida. As duas mocinhas de cor-de-rosa e o menino, amarelos e de cabelo penteado, não sabiam bem que atitude tomar e ficaram de pé ao lado da mãe, impressionados com seu vestido azul-marinho e com os paetês.



Depois veio a nora de Ipanema com dois netos e a babá. O marido viria depois. E como Zilda — a única mulher entre os seis irmãos homens e a única que, estava decidido já havia anos, tinha espaço e tempo para alojar a aniversariante — e como Zilda estava na cozinha a ultimar com a empregada os croquetes e sanduíches, ficaram: a nora de Olaria empertigada com seus filhos de coração inquieto ao lado; a nora de Ipanema na fila oposta das cadeiras fingindo ocupar-se com o bebê para não encarar a concunhada de Olaria; a babá ociosa e uniformizada, com a boca aberta.



E à cabeceira da mesa grande a aniversariante que fazia hoje oitenta e nove anos.



Zilda, a dona da casa, arrumara a mesa cedo, enchera-a de guardanapos de papel colorido e copos de papelão alusivos à data, espalhara balões sungados pelo teto em alguns dos quais estava escrito "Happy Birthday!", em outros "Feliz Aniversário!" No centro havia disposto o enorme bolo açucarado. Para adiantar o expediente, enfeitara a mesa logo depois do almoço, encostara as cadeiras à parede, mandara os meninos brincar no vizinho para não desarrumar a mesa.



E, para adiantar o expediente, vestira a aniversariante logo depois do almoço. Pusera-lhe desde então a presilha em torno do pescoço e o broche, borrifara-lhe um pouco de água-de-colônia para disfarçar aquele seu cheiro de guardado — sentara-a à mesa. E desde as duas horas a aniversariante estava sentada à cabeceira da longa mesa vazia, tesa na sala silenciosa.



De vez em quando consciente dos guardanapos coloridos. Olhando curiosa um ou outro balão estremecer aos carros que passavam. E de vez em quando aquela angústia muda: quando acompanhava, fascinada e impotente, o voo da mosca em torno do bolo.



Até que às quatro horas entrara a nora de Olaria e depois a de Ipanema.



Quando a nora de Ipanema pensou que não suportaria nem um segundo mais a situação de estar sentada defronte da concunhada de Olaria — que cheia das ofensas passadas não via um motivo para desfitar desafiadora a nora de Ipanema — entraram enfim José e a família. E mal eles se beijavam, a sala começou a ficar cheia de gente que ruidosa se cumprimentava como se todos tivessem esperado embaixo o momento de, em afobação de atraso, subir os três lances de escada, falando, arrastando crianças surpreendidas, enchendo a sala — e inaugurando a festa.



Os músculos do rosto da aniversariante não a interpretavam mais, de modo que ninguém podia saber se ela estava alegre. Estava era posta á cabeceira. Tratava-se de uma velha grande, magra, imponente e morena. Parecia oca.



— Oitenta e nove anos, sim senhor! disse José, filho mais velho agora que Jonga tinha morrido. — Oitenta e nove anos, sim senhora! disse esfregando as mãos em admiração pública e como sinal imperceptível para todos.



Todos se interromperam atentos e olharam a aniversariante de um modo mais oficial. Alguns abanaram a cabeça em admiração como a um recorde. Cada ano vencido pela aniversariante era uma vaga etapa da família toda. Sim senhor! disseram alguns sorrindo timidamente.



— Oitenta e nove anos!, ecoou Manoel que era sócio de José. É um brotinho!, disse espirituoso e nervoso, e todos riram, menos sua esposa.



A velha não se manifestava.



Alguns não lhe haviam trazido presente nenhum. Outros trouxeram saboneteira, uma combinação de jérsei, um broche de fantasia, um vasinho de cactos — nada, nada que a dona da casa pudesse aproveitar para si mesma ou para seus filhos, nada que a própria aniversariante pudesse realmente aproveitar constituindo assim uma economia: a dona da casa guardava os presentes, amarga, irônica.



— Oitenta e nove anos! repetiu Manoel aflito, olhando para a esposa.



A velha não se manifestava.



Então, como se todos tivessem tido a prova final de que não adiantava se esforçarem, com um levantar de ombros de quem estivesse junto de uma surda, continuaram a fazer a festa sozinhos, comendo os primeiros sanduíches de presunto mais como prova de animação que por apetite, brincando de que todos estavam morrendo de fome. O ponche foi servido, Zilda suava, nenhuma cunhada ajudou propriamente, a gordura quente dos croquetes dava um cheiro de piquenique; e de costas para a aniversariante, que não podia comer frituras, eles riam inquietos. E Cordélia? Cordélia, a nora mais moça, sentada, sorrindo.



— Não senhor! respondeu José com falsa severidade, hoje não se fala em negócios!



— Está certo, está certo! recuou Manoel depressa, olhando rapidamente para sua mulher que de longe estendia um ouvido atento.



— Nada de negócios, gritou José, hoje é o dia da mãe!



Na cabeceira da mesa já suja, os copos maculados, só o bolo inteiro — ela era a mãe. A aniversariante piscou os olhos.



E quando a mesa estava imunda, as mães enervadas com o barulho que os filhos faziam, enquanto as avós se recostavam complacentes nas cadeiras, então fecharam a inútil luz do corredor para acender a vela do bolo, uma vela grande com um papelzinho colado onde estava escrito "89". Mas ninguém elogiou a idéia de Zilda, e ela se perguntou angustiada se eles não estariam pensando que fora por economia de velas — ninguém se lembrando de que ninguém havia contribuído com uma caixa de fósforos sequer para a comida da festa que ela, Zilda, servia como uma escrava, os pés exaustos e o coração revoltado. Então acenderam a vela. E então José, o líder, cantou com muita força, entusiasmando com um olhar autoritário os mais hesitantes ou surpreendidos, "vamos! todos de uma vez!" — e todos de repente começaram a cantar alto como soldados. Despertada pelas vozes, Cordélia olhou esbaforida. Como não haviam combinado, uns cantaram em português e outros em inglês. Tentaram então corrigir: e os que haviam cantado em inglês passaram a português, e os que haviam cantado em português passaram a cantar bem baixo em inglês.



Enquanto cantavam, a aniversariante, à luz da vela acesa, meditava como junto de uma lareira.



Escolheram o bisneto menor que, debruçado no colo da mãe encorajadora, apagou a chama com um único sopro cheio de saliva! Por um instante bateram palmas à potência inesperada do menino que, espantado e exultante, olhava para todos encantado. A dona da casa esperava com o dedo pronto no comutador do corredor - e acendeu a lâmpada.



— Viva mamãe!



— Viva vovó!



— Viva D. Anita, disse a vizinha que tinha aparecido.



— Happy birthday! gritaram os netos, do Colégio Bennett.



Bateram ainda algumas palmas ralas.



A aniversariante olhava o bolo apagado, grande e seco.



— Parta o bolo, vovó! disse a mãe dos quatro filhos, é ela quem deve partir! assegurou incerta a todos, com ar íntimo e intrigante. E, como todos aprovassem satisfeitos e curiosos, ela se tornou de repente impetuosa: — parta o bolo, vovó!



E de súbito a velha pegou na faca. E sem hesitação , como se hesitando um momento ela toda caísse para a frente, deu a primeira talhada com punho de assassina.



— Que força, segredou a nora de Ipanema, e não se sabia se estava escandalizada ou agradavelmente surpreendida. Estava um pouco horrorizada.



— Há um ano atrás ela ainda era capaz de subir essas escadas com mais fôlego do que eu, disse Zilda amarga.



Dada a primeira talhada, como se a primeira pá de terra tivesse sido lançada, todos se aproximaram de prato na mão, insinuando-se em fingidas acotoveladas de animação, cada um para a sua pazinha.



Em breve as fatias eram distribuídas pelos pratinhos, num silêncio cheio de rebuliço. As crianças pequenas, com a boca escondida pela mesa e os olhos ao nível desta, acompanhavam a distribuição com muda intensidade. As passas rolavam do bolo entre farelos secos. As crianças angustiadas viam se desperdiçarem as passas, acompanhavam atentas a queda.



E quando foram ver, não é que a aniversariante já estava devorando o seu último bocado?



E por assim dizer a festa estava terminada. Cordélia olhava ausente para todos, sorria.



— Já lhe disse: hoje não se fala em negócios! respondeu José radiante.



— Está certo, está certo! recolheu-se Manoel conciliador sem olhar a esposa que não o desfitava. Está certo, tentou Manoel sorrir e uma contração passou-lhe rápido pelos músculos da cara.



— Hoje é dia da mãe! disse José.



Na cabeceira da mesa, a toalha manchada de coca-cola, o bolo desabado, ela era a mãe. A aniversariante piscou. Eles se mexiam agitados, rindo, a sua família. E ela era a mãe de todos. E se de repente não se ergueu, como um morto se levanta devagar e obriga mudez e terror aos vivos, a aniversariante ficou mais dura na cadeira, e mais alta. Ela era a mãe de todos. E como a presilha a sufocasse, ela era a mãe de todos e, impotente à cadeira, desprezava-os. E olhava-os piscando. Todos aqueles seus filhos e netos e bisnetos que não passavam de carne de seu joelho, pensou de repente como se cuspisse. Rodrigo, o neto de sete anos, era o único a ser a carne de seu coração, Rodrigo, com aquela carinha dura, viril e despenteada. Cadê Rodrigo? Rodrigo com olhar sonolento e intumescido naquela cabecinha ardente, confusa. Aquele seria um homem. Mas, piscando, ela olhava os outros, a aniversariante. Oh o desprezo pela vida que falhava. Como?! como tendo sido tão forte pudera dar à luz aqueles seres opacos, com braços moles e rostos ansiosos? Ela, a forte, que casara em hora e tempo devidos com um bom homem a quem, obediente e independente, ela respeitara; a quem respeitara e que lhe fizera filhos e lhe pagara os partos e lhe honrara os resguardos. O tronco fora bom. Mas dera aqueles azedos e infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Como pudera ela dar à luz aqueles seres risonhos, fracos, sem austeridade? O rancor roncava no seu peito vazio. Uns comunistas, era o que eram; uns comunistas. Olhou-os com sua cólera de velha. Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Incoercível, virou a cabeça e com força insuspeita cuspiu no chão.



— Mamãe! gritou mortificada a dona da casa. Que é isso, mamãe! gritou ela passada de vergonha, e não queria sequer olhar os outros, sabia que os desgraçados se entreolhavam vitoriosos como se coubesse a ela dar educação à velha, e não faltaria muito para dizerem que ela já não dava mais banho na mãe, jamais compreenderiam o sacrifício que ela fazia. — Mamãe, que é isso! — disse baixo, angustiada. — A senhora nunca fez isso! — acrescentou alto para que todos ouvissem, queria se agregar ao espanto dos outros, quando o galo cantar pela terceira vez renegarás tua mãe. Mas seu enorme vexame suavizou-se quando ela percebeu que eles abanavam a cabeça como se estivessem de acordo que a velha não passava agora de uma criança.



— Ultimamente ela deu pra cuspir, terminou então confessando contrita para todos.



Todos olharam a aniversariante, compungidos, respeitosos, em silêncio.



Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Os meninos, embora crescidos — provavelmente já além dos cinquenta anos, que sei eu! — os meninos ainda conservavam os traços bonitinhos. Mas que mulheres haviam escolhido! E que mulheres os netos — ainda mais fracos e mais azedos — haviam escolhido. Todas vaidosas e de pernas finas, com aqueles colares falsificados de mulher que na hora não aguenta a mão, aquelas mulherezinhas que casavam mal os filhos, que não sabiam pôr uma criada em seu lugar, e todas elas com as orelhas cheias de brincos — nenhum, nenhum de ouro! A raiva a sufocava.



— Me dá um copo de vinho! disse.



O silêncio se fez de súbito, cada um com o copo imobilizado na mão.



— Vovozinha, não vai lhe fazer mal? insinuou cautelosa a neta roliça e baixinha.



— Que vovozinha que nada! explodiu amarga a aniversariante. — Que o diabo vos carregue, corja de maricas, cornos e vagabundas! me dá um copo de vinho, Dorothy! — ordenou.



Dorothy não sabia o que fazer, olhou para todos em pedido cômico de socorro. Mas, como máscaras isentas e inapeláveis, de súbito nenhum rosto se manifestava. A festa interrompida, os sanduíches mordidos na mão, algum pedaço que estava na boca a sobrar seco, inchando tão fora de hora a bochecha. Todos tinham ficado cegos, surdos e mudos, com croquetes na mão. E olhavam impassíveis.



Desamparada, divertida, Dorothy deu o vinho: astuciosamente apenas dois dedos no copo. Inexpressivos, preparados, todos esperaram pela tempestade.



Mas não só a aniversariante não explodiu com a miséria de vinho que Dorothy lhe dera como não mexeu no copo. Seu olhar estava fixo, silencioso. Como se nada tivesse acontecido.



Todos se entreolharam polidos, sorrindo cegamente, abstratos como se um cachorro tivesse feito pipi na sala. Com estoicismo, recomeçaram as vozes e risadas. A nora de Olaria, que tivera o seu primeiro momento uníssono com os outros quando a tragédia vitoriosamente parecia prestes a se desencadear, teve que retornar sozinha à sua severidade, sem ao menos o apoio dos três filhos que agora se misturavam traidoramente com os outros. De sua cadeira reclusa, ela analisava crítica aqueles vestidos sem nenhum modelo, sem um drapeado, a mania que tinham de usar vestido preto com colar de pérolas, o que não era moda coisa nenhuma, não passava era de economia. Examinando distante os sanduíches que quase não tinham levado manteiga. Ela não se servira de nada, de nada! Só comera uma coisa de cada, para experimentar.



E por assim dizer, de novo a festa estava terminada. As pessoas ficaram sentadas benevolentes. Algumas com a atenção voltada para dentro de si, à espera de alguma coisa a dizer. Outras vazias e expectantes, com um sorriso amável, o estômago cheio daquelas porcarias que não alimentavam mas tiravam a fome. As crianças, já incontroláveis, gritavam cheias de vigor. Umas já estavam de cara imunda; as outras, menores, já molhadas; a tarde caía rapidamente. E Cordélia, Cordélia olhava ausente, com um sorriso estonteado, suportando sozinha o seu segredo. Que é que ela tem? alguém perguntou com uma curiosidade negligente, indicando-a de longe com a cabeça, mas também não responderam. Acenderam o resto das luzes para precipitar a tranquilidade da noite, as crianças começavam a brigar. Mas as luzes eram mais pálidas que a tensão pálida da tarde. E o crepúsculo de Copacabana, sem ceder, no entanto se alargava cada vez mais e penetrava pelas janelas como um peso.



— Tenho que ir, disse perturbada uma das noras levantando-se e sacudindo os farelos da saia. Vários se ergueram sorrindo.



A aniversariante recebeu um beijo cauteloso de cada um como se sua pele tão infamiliar fosse uma armadilha. E, impassível, piscando, recebeu aquelas palavras propositadamente atropeladas que lhe diziam tentando dar um final arranco de efusão ao que não era mais senão passado: a noite já viera quase totalmente. A luz da sala parecia então mais amarela e mais rica, as pessoas envelhecidas. As crianças já estavam histéricas.



— Será que ela pensa que o bolo substitui o jantar, indagava-se a velha nas suas profundezas.



Mas ninguém poderia adivinhar o que ela pensava. E para aqueles que junto da porta ainda a olharam uma vez, a aniversariante era apenas o que parecia ser: sentada à cabeceira da mesa imunda, com a mão fechada sobre a toalha como encerrando um cetro, e com aquela mudez que era a sua última palavra. Com um punho fechado sobre a mesa, nunca mais ela seria apenas o que ela pensasse. Sua aparência afinal a ultrapassara e, superando-a, se agigantava serena. Cordélia olhou-a espantada. O punho mudo e severo sobre a mesa dizia para a infeliz nora que sem remédio amava talvez pela última vez: É preciso que se saiba. É preciso que se saiba. Que a vida é curta. Que a vida é curta.



Porém nenhuma vez mais repetiu. Porque a verdade era um relance. Cordélia olhou-a estarrecida. E, para nunca mais, nenhuma vez repetiu — enquanto Rodrigo, o neto da aniversariante, puxava a mão daquela mãe culpada, perplexa e desesperada que mais uma vez olhou para trás implorando à velhice ainda um sinal de que uma mulher deve, num ímpeto dilacerante, enfim agarrar a sua derradeira chance e viver. Mais uma vez Cordélia quis olhar.



Mas a esse novo olhar — a aniversariante era uma velha à cabeceira da mesa.



Passara o relance. E arrastada pela mão paciente e insistente de Rodrigo a nora seguiu-o espantada.



— Nem todos têm o privilégio e o orgulho de se reunirem em torno da mãe, pigarreou José lembrando-se de que Jonga é quem fazia os discursos.



— Da mãe, vírgula! riu baixo a sobrinha, e a prima mais lenta riu sem achar graça.



— Nós temos, disse Manoel acabrunhado sem mais olhar para a esposa. Nós temos esse grande privilégio disse distraído enxugando a palma úmida das mãos.



Mas não era nada disso, apenas o mal-estar da despedida, nunca se sabendo ao certo o que dizer, José esperando de si mesmo com perseverança e confiança a próxima frase do discurso. Que não vinha. Que não vinha. Que não vinha. Os outros aguardavam. Como Jonga fazia falta nessas horas — José enxugou a testa com o lenço — como Jonga fazia falta nessas horas! Também fora o único a quem a velha sempre aprovara e respeitara, e isso dera a Jonga tanta segurança. E quando ele morrera, a velha nunca mais falara nele, pondo um muro entre sua morte e os outros. Esquecera-o talvez. Mas não esquecera aquele mesmo olhar firme e direto com que desde sempre olhara os outros filhos, fazendo-os sempre desviar os olhos. Amor de mãe era duro de suportar: José enxugou a testa, heroico, risonho.



E de repente veio a frase:



— Até o ano que vem! disse José subitamente com malícia, encontrando, assim, sem mais nem menos, a frase certa: uma indireta feliz! Até o ano que vem, hein?, repetiu com receio de não ser compreendido.



Olhou-a, orgulhoso da artimanha da velha que espertamente sempre vivia mais um ano.



— No ano que vem nos veremos diante do bolo aceso! esclareceu melhor o filho Manoel, aperfeiçoando o espírito do sócio. Até o ano que vem, mamãe! e diante do bolo aceso! disse ele bem explicado, perto de seu ouvido, enquanto olhava obsequiador para José. E a velha de súbito cacarejou um riso frouxo, compreendendo a alusão.



Então ela abriu a boca e disse:



— Pois é.



Estimulado pela coisa ter dado tão inesperadamente certo, José gritou-lhe emocionado, grato, com os olhos úmidos:



— No ano que vem nos veremos, mamãe!



— Não sou surda! disse a aniversariante rude, acarinhada.



Os filhos se olharam rindo, vexados, felizes. A coisa tinha dado certo.



As crianças foram saindo alegres, com o apetite estragado. A nora de Olaria deu um cascudo de vingança no filho alegre demais e já sem gravata. As escadas eram difíceis, escuras, incrível insistir em morar num prediozinho que seria fatalmente demolido mais dia menos dia, e na ação de despejo Zilda ainda ia dar trabalho e querer empurrar a velha para as noras — pisado o último degrau, com alívio os convidados se encontraram na tranquilidade fresca da rua. Era noite, sim. Com o seu primeiro arrepio.



Adeus, até outro dia, precisamos nos ver. Apareçam, disseram rapidamente. Alguns conseguiram olhar nos olhos dos outros com uma cordialidade sem receio. Alguns abotoavam os casacos das crianças, olhando o céu à procura de um sinal do tempo. Todos sentindo obscuramente que na despedida se poderia talvez, agora sem perigo de compromisso, ser bom e dizer aquela palavra a mais — que palavra? eles não sabiam propriamente, e olhavam-se sorrindo, mudos. Era um instante que pedia para ser vivo. Mas que era morto. Começaram a se separar, andando meio de costas, sem saber como se desligar dos parentes sem brusquidão.



— Até o ano que vem! repetiu José a indireta feliz, acenando a mão com vigor efusivo, os cabelos ralos e brancos esvoaçavam. Ele estava era gordo, pensaram, precisava tomar cuidado com o coração. Até o ano que vem! gritou José eloquente e grande, e sua altura parecia desmoronável. Mas as pessoas já afastadas não sabiam se deviam rir alto para ele ouvir ou se bastaria sorrir mesmo no escuro. Além de alguns pensarem que felizmente havia mais do que uma brincadeira na indireta e que só no próximo ano seriam obrigados a se encontrar diante do bolo aceso; enquanto que outros, já mais no escuro da rua, pensavam se a velha resistiria mais um ano ao nervoso e à impaciência de Zilda, mas eles sinceramente nada podiam fazer a respeito: "Pelo menos noventa anos", pensou melancólica a nora de Ipanema. "Para completar uma data bonita", pensou sonhadora.



Enquanto isso, lá em cima, sobre escadas e contingências, estava a aniversariante sentada à cabeceira da mesa, ereta, definitiva, maior do que ela mesma. Será que hoje não vai ter jantar, meditava ela. A morte era o seu mistério.



(Laços de Família)


(Ilustração: De Chirico - Clarice Lispector)