segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A VACA, de Neusa Braga Ximenes







Em 1947, ao completar doze anos de idade, ganhei uma vaca do meu avô paterno, com a promessa, mais que prometida, que toda a prole oriunda daquele animal também seria minha. E assim, ano após ano, minha vaca e eu, unidos pela mesma sorte, pastamos juntos no craquelê da caatinga.

Meu pai, ajudante de farmácia, sete filhos, queria mesmo era ser médico, doutor. E foi! Foi estudar medicina em outro estado do Nordeste, deixando mulher e filhos com a sogra viúva, sem nenhum amparo financeiro. A bem da verdade, eram elas quem o amparavam.

Faltava-nos quase tudo, exceto o exemplo de fibra, coragem e fé daquelas duas mulheres. Ao final de seis longos anos, finalmente meu pai voltou para casa, ostentando o anel de doutor no dedo. Nossa vida mudou... E como mudou... Da água barrenta para o vinho importado!

Aos 22 anos, fui para o Rio de Janeiro estudar arquitetura, contrariando o desejo do meu pai de me vestir uma batina preta. Não tardou e recebi uma carta do meu avô, o da vaca, que dizia: "Querido neto, vendi seus bois, já vai para uns quatro anos. Guardei o dinheiro para lhe dar numa precisão como essa. Juízo!"

Contei o numerário. Cocei a cabeça... Pensei... No dia seguinte fui às compras.

Atolado no tragicômico da situação, lá estava eu de posse do meu novo investimento... Uma Parker 51, último modelo, carregamento automático de tinta. E foi dessa forma que uma boiada inteira coube no bolso da minha camisa. Apesar dos pesares, não pude me queixar... Por um bom tempo, fui um dos únicos, em toda a faculdade, que mantive os dedos limpos ao encher a caneta no tinteiro.



(Ilustração: Renoir – Le petit garçon au porte-plume)

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