sexta-feira, 31 de julho de 2009

A HOSPEDAGEM, de Aguinaldo Silva










Era um abrigo comprido, formado por estacas, caibros e velhas telhas, armado no fim da cidade. Não tinha paredes e pouca gente sabia quem mandara armar aquilo. Um prefeito qualquer, durante um dos períodos de estiagem mais violenta, quando o povo começava a descer para o litoral num êxodo renovado. Então muitos ficavam ali, pedindo esmolas, uns poucos trabalhando. O litoral era longe, ali havia a cidade morna, dormente. Muitos ficavam, sempre havia retirantes na Hospedagem. Umas vezes mais, outras menos. Agora, muitos. Chegavam quando o verão forte os expulsava da terra. Vinham vindo pelos caminhos, encontravam um abrigo feito para eles e paravam. Armavam redes nas estacas, cozinhavam por perto, ao ar livre, e faziam precisões num barreiro imundo. A água usada era a do rio e eles tomavam banho no mesmo lugar onde os da cidade banhavam os cavalos. Em outro lugar não era permitido, o delegado mandava prender se soubesse que algum retirante estava tomando banho em outra parte do rio. A Hospedagem parecia um esqueleto com uma porção de vermes por dentro. As mulheres magras e ossudas abriam os vestidos e punham os peitos magros para fora, dando de mamar a uns miseráveis quase mortos. Meninos corriam por perto, descobriam tudo, olhavam com olhares compridos a cidade e os meninos limpos que iam à escola todos os dias levando lanches, sacolas cheias. Os olhares compridos, acompanhando-os. Muitos davam para roubar, ficavam safados, poucos arranjavam emprego. Os homens deixavam-se ficar pelos cantos, sentados no chão a olhar o horizonte, cismando. Era já um começo de morte, devagar. A cidade ajudava aos miseráveis da Hospedagem, mas nada era bastante para eles e pouca a ajuda. Às quintas-feiras as filhas de Maria vinham visitá-los, traziam pão e consolo. Também traziam Deus, espalhavam-no entre os pobres, que murmuravam agradecidos. Esqueciam logo, mas era ainda uma ajuda. Aos poucos, iam se acostumando com aquela miséria, o esqueleto tornava-se para eles um lar, e poucos voltariam para o sertão quando a seca acabasse. Ficavam por ali, mudavam-se para outra cidade onde houvesse também uma Hospedagem, deixavam-se uns com os outros morrer. Já não podiam mais recomeçar, era difícil. As crianças cresciam; quase sempre davam para bêbedos, mendigos ou criminosos. A Hospedagem lá, o esqueleto. A miséria e a maldição.




(Cristo Partido ao Meio)


(Ilustração: Ndambo - maasai carrying wood)



quinta-feira, 30 de julho de 2009

O INVERSO AFASTAMENTO, de João Guimarães Rosa












Outra era a vez. De sorte que de novo o Menino viajava para o lugar onde as muitas mil pessoas faziam a grande cidade. Vinha, porém, só com o Tio, e era uma íngreme partida. Entrara aturdido no avião, a esmo tropeçante, enrolava-o de por dentro um estufo como cansaço; fingia apenas que sorria, quando lhe falavam. Sabia que a Mãe estava doente. Por isso o mandavam para fora, decerto por demorados dias, decerto porque era preciso. Por isso tinham querido que trouxesse os brinquedos, a Tia entregando ainda em mão o preferido, que era o de dar sorte: um bonequinho macaquinho, de calças pardas e chapéu vermelho, alta pluma. O qual, o prévio lugar dele sendo na mesinha, em seu quarto. Pudesse se mexer e viver de gente, e havia de ser o mais impagável e arteiro deste mundo. O Menino cobrava maior medo, à medida que os outros mais bondosos para com ele se mostravam. Se o Tio, gracejando, animava-o a espiar na janelinha ou escolher as revistas, sabia que o Tio não estava de todo sincero. Outros sustos levava. Se encarasse pensamento na lembrança da Mãe, ia chorar. A Mãe e o sofrimento não cabiam de uma vez no espaço de instante, formavam avesso – do horrível do impossível. Nem ele isso entendia, tudo se transtornando então em sua cabecinha. Era assim: alguma coisa, maior que todas, podia, ia acontecer?



Nem valia espiar, correndo em direções contrárias, as nuvens superpostas, de longe ir. Também, todos, até o piloto, não eram tristes, em seus modos, só de mentira no normal alegrados? O Tio, com uma gravata verde, nela estava limpando os óculos, decerto não havia de ter posto a gravata tão bonita, se à Mãe o perigo ameaçasse. Mas o Menino concebia um remorso, de ter no bolso o bonequinho macaquinho, engraçado e sem mudar, só de brinquedo, e com a alta plumagem no chapeuzinho encarnado. Devia jogar fora? Não, o macaquinho de calças pardas se dava de também miúdo companheiro, de não merecer maltratos. Desprendeu somente o chapeuzinho com a pluma, este, sim, jogou, agora não havia mais. E o Menino estava muito dentro dele mesmo, em algum cantinho de si. Estava muito para trás. Ele, o pobrezinho sentado.



O quanto queria dormir. A gente devia poder parar de estar tão acordado, quando precisasse, e adormecer seguro, salvo. Mas não dava conta. Tinha de tornar a abrir demais os olhos, às nuvens que ensaiam esculturas efêmeras. O Tio olhava no relógio. Então, quando chegavam? Tudo era, todo-o-tempo, mais ou menos igual, as coisas ou outras. A gente, não. A vida não parava nunca, para a gente poder viver direito, concertado? Até o macaquinho sem chapéu iria conhecer do mesmo jeito o tamanho daquelas árvores, da mata, pegadas ao terreiro da casa. O pobre do macaquinho, tão pequeno, tão sem mãe; pegava nele, no bolso, parecia que o macaquinho agradecia, e, lá dentro, no escuro, chorava.



Mas, a Mãe, sendo só a alegria de momentos. Soubesse que um dia a Mãe tinha de adoecer, então teria ficado sempre junto dela, espiando para ela, com força, sabendo muito que estava e que espiava com tanta força, ah. Nem teria brincado, nunca, nem outra coisa nenhuma, senão ficar perto, de não se separar nem para um fôlego, sem carecer de que acontecesse o nada. Do jeito feito agora, no coração do pensamento. Como sentia: com ela, mais, do que se estivessem juntos, mesmo, de verdade.



O avião não cessava de atravessar a claridade enorme, ele voava o voo-que parecia estar parado. Nas no ar passavam peixes negros, decerto para lá daquelas nuvens: lombos e garras. O Menino sofria sofreado. O avião então estivesse parado vondo-e voltando para trás, mais, e ele junto com a Mãe, do modo que nem soubera, antes, que o assim era possível.





(Primeiras Estórias)





(Ilustração: Jean Bailly)








quarta-feira, 29 de julho de 2009

MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES, de Camões








Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.


Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.


O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.


E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.


(Ilustração: Andre Muller)




terça-feira, 28 de julho de 2009

HISTÓRIA DE BEM-TE-VIS, de Cecília Meireles









Com estas florestas de arranha-céus que vão crescendo, muita gente pensa que passarinho é coisa só de jardim zoológico; e outros até acham que seja apenas antiguidade de museu. Certamente, chegaremos lá... mas, por enquanto, ainda existem bairros afortunados, onde haja uma casa, casa que tenha um quintal, quintal que tenha uma árvore. Bom será que essa árvore seja a mangueira: pois nesse vasto palácio verde podem morar muitos passarinhos.

Os velhos cronistas encantaram-se com canindés e araras, tuins e sabiás, maracanãs e “querejuás todos azuis de cor finíssima...” Nós esquecemos tudo: quando um poeta menciona um pássaro, o leitor pensa que é literatura...

Pois há um passarinho chamado bem-te-vi. Creio que está para acabar. E é pena, pois, com esse nome que tem, e que é a sua própria voz, devia estar em todas as repartições públicas (e em muitos outros lugares), numa elegante gaiola, para no momento oportuno anunciar sua presença. Seria um sobressalto providencial e sob forma tão inocente e agradável que ninguém, decerto, se aborreceria.

Mas o que me leva a crer no desaparecimento do bem-te-vi são as mudanças que começo a observar na sua voz. O ano passado, aqui nas mangueiras dos meus simpáticos vizinhos, apareceu um bem-te-vi caprichoso, muito moderno, que se recusava a articular as três sílabas tradicionais do seu nome. Limitava-se a gritar: “...te vi! ...te vi!...” com a maior irreverência gramatical. Como dizem que as últimas gerações andam muito rebeldes e novidadeiras, achei natural que também os passarinhos estivessem contaminados pelo novo estilo humano.

Mas logo a seguir, o mesmo passarinho – ou seu filho, ou seu irmão, como posso saber, com a folhagem cerrada da mangueira? – animou-se a uma audácia maior. Não quis saber das duas sílabas, e gritava apenas, daqui, dali, invisível e brincalhão: ...vi!... vi!...”– o que me pareceu ainda mais divertido.

O tempo passou. O bem-te-vi deve der viajado; talvez seja cosmonauta, talvez tenha voado com seu team de futebol... Afinal tudo pode acontecer com bem-te-vis tão progressistas, que rompem com o canto da família e mudam os lemas dos seus brasões. Talvez tenha sido atacado por esses crioulos fortes que agora saem do mato de repente e disparam sem razão nenhuma contra o primeiro vivente que encontram.

Mas hoje tornei a ouvir um bem-te-vi cantar. E cantava assim: “Bem-bem-bem-...te-vi!” Pensei: “É uma nova escola poética que se eleva das mangueiras!...” Depois o passarinho mudou. E fez: “Bem-te-te-te...vi!” Tornei a refletir: “Deve ser pequenino e estuda a sua cartilha...” E o passarinho: “Bem-bem-bem-te-te-te-vi-vi-vi...!”

Os ornitólogos devem saber se isso é caso comum ou raro. Eu jamais tinha ouvido coisa igual. Mas as crianças, que sabem mais do que eu, e vão direitas aos assuntos, ouviram, pensaram, e disseram: “Que engraçado! Um bem-te-vi gago!” Então, talvez seja mesmo só gagueira...


(Quadrante 2)


(Ilustração: Aldemir Martins - pássaro)




segunda-feira, 27 de julho de 2009

CASTIGO, de Agostina Akemi Sasaoka









Desencaixo-me displicente.
Esvaziei-me, enfim.
Teu corpo
ainda queima,
tua mão ainda afaga.
Jamais
o prazer fora tão perverso.
Escondo meus lábios
atrás do batom.
Teus olhos
- canibais marinhos -
começam a se desfazer.
Não consigo te acompanhar.
És tão tolo...
Ainda me engasgo
com um último orgasmo.
Venci.
Sou aquela
que pela primeira vez
amas.
Mas a noite se esvai.
Sei que vais me tocar:
deixarei?
Não quero me amarrotar.
Tua boca me implora,
só que as estrelas se apagaram.
Vou-me embora
para nunca mais...
Se fosse amor,
não acabaria.



(A Garganta da Serpente, site)


(Ilustração: Adrian Gottlieb - into my own)


domingo, 26 de julho de 2009

A APOSTA DE PASCAL, de Richard Dawkins







O grande matemático francês Blaise Pascal achava que, por mais improvável que fosse a existência de Deus, há uma assimetria ainda maior na punição por errar no palpite. É melhor acreditar em Deus, porque se você estiver certo poderá ganhar o júbilo eterno, e se estiver errado não vai fazer a menor diferença. Por outro lado, se você não acreditar em Deus e estiver errado, será amaldiçoado para todo o sempre, e se estiver certo não vai fazer diferença. Pensando assim, a decisão é óbvia. Acredite em Deus.

Há, porém, alguma coisa claramente esquisita no argumento. Acreditar não é uma coisa que se possa decidir, como se fosse uma questão política. Não é pelo menos coisa que eu consiga decidir por vontade própria. Posso decidir ir à igreja e posso decidir recitar a novena, e posso decidir jurar sobre uma pilha de Bíblias que acredito em cada palavra escrita nelas. Mas nada disso pode realmente me fazer acreditar se eu não acreditar. A aposta de Pascal só poderia servir de argumento para uma crença fingida em Deus. E é melhor que o Deus em que você alega acreditar não seja do tipo onisciente, senão ele vai saber da enganação. A idéia absurda de que acreditar é uma coisa que se pode decidir fazer é deliciosamente ridicularizada por Douglas Adams em Dirk Gently’s Holistic Detective Agency, em que somos apresentados ao Monge Elétrico, um dispositivo muito prático que se compra para “acreditar por você”. O modelo de luxe é anunciado como “capaz de acreditar em coisas que ninguém em Salt Lake City acreditaria”.

Mas por que, então, estamos tão dispostos a aceitar a idéia de que o que é imprescindível fazer, se se quiser agradar a Deus, é acreditar nele? O que há de tão especial em acreditar? Não é igualmente provável que Deus recompense a bondade, ou a generosidade, ou a humildade? Ou a sinceridade? E se Deus for um cientista que considera a busca honesta pela verdade a virtude suprema? Aliás, o projetista do universo não teria de ser um cientista? Perguntaram a Bertrand Russell o que ele diria se morresse e se visse confrontado por Deus, exigindo saber por que Russell não acreditava nele. “Não havia provas suficientes, Deus, não havia provas suficientes”, foi a resposta (eu quase diria imortal) de Russell. Deus não respeitaria Russell por seu ceticismo corajoso (sem contar pelo pacifismo corajoso que o colocou na prisão durante a Primeira Guerra Mundial), bem mais do que respeitaria Pascal por sua aposta cautelosa e covarde? E, embora não tenhamos como saber de que lado Deus ficaria, não precisamos saber para refutar a aposta de Pascal. Estamos falando de uma aposta, lembre-se, e Pascal não estava defendendo que a dele tivesse qualquer coisa além de uma probabilidade muito remota. Você apostaria que Deus valorizaria mais uma crença fingida e desonesta (ou mesmo uma crença honesta) que o ceticismo honesto?

Suponha que o deus que o confrontar quando você morrer seja Baal, e suponha que Baal seja tão invejoso quanto disseram que era seu velho rival Javé. Não seria melhor que Pascal não tivesse apostado em deus nenhum, em vez de apostar no deus errado? O próprio número de deuses e deusas em potencial em que se poderia apostar não corrompe toda a lógica de Pascal? Pascal estava provavelmente brincando quando promoveu sua aposta, assim como estou brincando para descartá-la. Mas já encontrei gente, por exemplo na sessão de perguntas depois de uma palestra, que apresentou seriamente a aposta de Pascal como um argumento a favor da crença em Deus, por isso tive motivos para dar a ela um breve espaço aqui.

Será possível, por fim, argumentar em busca de uma espécie de antiaposta de Pascal? Imagine que assumamos que realmente haja uma pequena chance de Deus existir. Mesmo assim, seria possível dizer que você terá uma vida melhor, mais plena, se apostar na sua inexistência, e não na sua existência, para não desperdiçar seu tempo precioso adorando-o, sacrificando-se em nome dele, lutando e morrendo por ele etc. Não responderei à pergunta aqui, mas os leitores poderão mantê-la na mente quando chegarmos aos capítulos posteriores, sobre as consequências malévolas que podem se originar da crença e da observância religiosa.


(Deus, um Delírio; tradução de Fernanda Ravagnani)

(Ilustração: Guy Baron - le jardin bleu)


sábado, 25 de julho de 2009

O PALÁCIO DA VENTURA, de Antero de Quental









Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!


Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!


Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!


Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão -- e nada mais!


(Ilustração: Jacek Yerka)



sexta-feira, 24 de julho de 2009

HOSPÍCIO É DEUS, de Maura Lopes Cançado









Estou de novo aqui, e isto é — Por que não dizer? Dói. Será por isto que venho?

Estou no Hospício, deus. E hospício é este branco sem fim, onde nos arrancam o coração a cada instante, trazem-no de volta, e o recebemos; trémulo, exangue — e sempre outro.

Hospício são as flores frias que se colam em nossas cabeças perdidas em escadarias de mármore antigo, subitamente futuro — como o que não se pode ainda compreender. São mãos longas levando-nos para não sei onde — paradas bruscas, corpos sacudidos se elevando incomensurá­veis: Hospício é não se sabe o quê, porque Hospício é deus.

Acho-me na Seção Tiüemont Fontes, Hospital Gustavo Riedel, Centro Psiquiátrico Nacional, Engenho de Dentro, Rio. Vim sozinha. O que me trouxe foi a necessidade de fugir para algum lugar, aparentemente fora do mundo. (Ou de —————— Era tão grave. Proteção? Mas aqui, onde não me parecem querer bem e sofri tanto?) ("Não me querer bem" talvez seja mi­nha maneira única de ser amada.) Havia lá fora grande incompreensão. Sobretudo pareceu-me estar sozinha. Isto faria rir a muitas pessoas: eu trabalhava no Suplemento Literário do Jornal do Brasil, onde me cercavam de grande atenção e muito carinho. Reynaldo Jardim é o diretor e me queria bem deveras. Ó, o zelo de todos. O zelo de Reynaldo. Naturalmente, penso, por eu haver antes estado aqui, saindo para trabalhar lá. A curiosidade em torno de mim: " — Esta é Maura Lopes Cançado, a que escreveu No quadrado de Joanna? — O conto é realmente bom, mas pensar que a personagem dele é louca catatônica pas­sou a aborrecer-me (como as pessoas são estúpidas, ainda se pretendem ser gentis). Minha posição me marginalizava. As coisas simples não se ajustavam a nada em que eu pudesse tocar, sen­tir. Era a impressão.

Quanto tempo trabalhei no jornal? Reynaldo Jardim, Fer­reira Gullar, Assis Brasil, e tantos outros, meus protetores. Quase todos os bons intelectuais da nova geração. E de rir. Protetores no bom sentido, como diriam. Mas que bom sentido, se me fizerem sofrer tanto? Por que, como chegar a eles, sem desespe­ro? — E que ignoram o quanto me custa uma palavra simples, como fui sozinha desde a infância. E de amá-los — demais e inútil — passei a odiá-los: por não me compreenderem. Não saberão jamais o quanto podem fazer sofrer uma criatura tímida e necessitada como eu: porque sinto vergonha. Gullar pareceu can­sado de mim. Ainda vendo-o imoto e inacessível não consegui desprezá-lo. Minha necessidade de afirmação deixava-me agressiva, movia-me pela redação do jornal o dia todo sem sorrir. Minha timidez. Enquanto meu ser se enrijecia, voltava-me para mim mesma à espera de um milagre que me projetasse, os ou­tros me olhando atónitos (é ainda mais do que No quadrado de Joanna, é ainda mais). Nada acontecia a não ser eu, me repetindo dia a dia. Minha ignorância.

Destruí tudo agredindo Reynaldo Jardim. Foi uma briga feia. Briguei sozinha. Ele não ousaria ferir-me, pois tem sua própria maneira de demonstrar amor. Consegui escandalizar Carlos Heitor Cony, que já foi quase padre, é facilmente escandalizável. Além de julgar estar ferindo Reynaldo, ao falar coisas inverossímeis e degradantes a meu respeito. Algo em que pensar: se tem alguma afetividade por mim deve ter sofrido. Como me destruí.

Falei de mim tantas vilezas (já fiz isto com mamãe. Estou muito cansada). Telefonei antes de vir a dona Dalmatie, enfermeira minha amiga. Levou-me a doutor J., pedi-lhe que me aceitasse no hospital:

- Por favor, doutor J., não sei que fazer lá fora. Estou des­truída. Aceite-me no hospital. Briguei no jornal. Ele (surpreendente) pareceu compreender. Dona Dalmatie não estava de acordo:

- Tenho um sítio sossegado. Passe uns dias lá. Quanto ao emprego, daremos um jeito. Você tem péssima memória, hein, Maura? Não me conformo em vê-la de novo aqui.

- Tenho boa memória, sei o que me espera. Mas vim dis­posta a ficar. A senhora não pode entender. Lembra-se de que me disse outro dia que não saí daqui recuperada? Está tudo difícil.

Fomos as duas ao IP (Instituto de Psiquiatria), onde se fa­zem internações. Ela, de lá, foi para casa. Voltei sozinha para este hospital. Doutor J. já não estava mais. Mandaram-me para a Seção Cunha Lopes (não pertence a doutor J.) A guarda que me recebeu (monstro antediluviano), Cajé, me fez imediatamen­te trocar o vestido pelo uniforme do hospital. Enquanto trocava de roupa, recebia dela as intimidações:

- Não banque a sabida nem valentona. Pensa que por ser bonita vale mais do que as outras? Saiba lidar conosco (guardas), que se dará bem. Queixas ao médico não adiantam. Vocês são doentes mesmo. Compreendeu?" Claro que compreendi, Cajé. Estou aprendendo há três anos.

Depois do jantar deram-me um quarto e dormi sozinha até o dia seguinte. Estava exausta. De manhã chovia. Puseram-me no pátio junto com as outras, percebi que nenhuma funcionária se dirigia a mim. Ah, não: dona Aída se dirigiu, dando-me um empurrão, à hora do café: " — Entre na fila. Que está esperando? Quer que te demos café na boca?". Entrei na tal fila, ainda muito cansada para revidar a agressão (das outras vezes em que estive aqui esta fila não existia).

Depois do café fui para o pátio. Ou, fui mandada para o pátio. Ainda chovia muito. Parecia-me um sonho: àquelas mu­lheres encolhidas de frio, descalças, fantásticas. Eu nem sequer pensava. Via, como se nada em mim fosse mais que os olhos, recomeçando num pesadelo (voltei, meu deus, voltei). Durante o almoço veio chamar-me uma guarda:

— O Diretor quer falar-lhe". Devia ficar estupefata (por motivos óbvios), mas nem ao menos fiquei surpresa. Se ameaçassem tirar-me os olhos, não encontrariam em mim qualquer reação. E as coisas pareciam caminhar inexoráveis.

(O Hospício É Deus)


(Ilustração: Deborah Poynton - fantastical puff)


quinta-feira, 23 de julho de 2009

A ÁTIS, de Safo







Não minto: eu me queria morta.
Deixava-me, desfeita em lágrimas:

"Mas, ah, que triste a nossa sina!
Eu vou contra a vontade, juro,
Safo". "Seja feliz", eu disse,

"E lembre-se de quanto a quero.
Ou já esqueceu? Pois vou lembrar-lhe
Os nossos momentos de amor.

Quantas grinaldas, no seu colo,
— Rosas, violetas, açafrão —
Trançamos juntas! Multiflores

Colares atei para o tenro
Pescoço de Átis; os perfumes
Nos cabelos, os óleos raros

Da sua pele em minha pele!
[...]
Cama macia, o amor nascia
De sua beleza, e eu matava
A sua sede" [...}

Cai a lua, caem as Plêiades e
É meia-noite, o tempo passa e
Eu só, aqui deitada, desejante.

— Adolescência, adolescência,
Você se vai, aonde vai?
— Não volto mais para você,
Para você volto mais não.




( 31 Poetas, 214 Poemas; tradução de Décio Pignatari)


(Ilustração: A. Andrew Gonzalez - Genii)


quarta-feira, 22 de julho de 2009

E QUE PENSAR EU MESMO DE MIM?, de Carlos Heitor Cony







No dia seguinte, mal acabado o café, quando dei por mim já estava em cima do muro, pulando para a casa do capitão.

A mulher me esperava de combinação, uma combinação de seda azul, transparente à claridade do dia. Foi ela quem tomou a iniciativa. Abraçou-me com fogo, tomou minhas mãos e guiou-as pelas suas carnes brancas, através da curva macia de seu ventre, até que senti, meio repugnado, a seda de seus pelos.
Ela notou a repugnância que não pude esconder e pareceu ofender-se. 

Entramos para o quarto. Pelo caminho esbarrei com duas botas de cavalariano que haviam chegado do engraxate, cheirando a graxa e a morrinha de cavalo.
A mulher deitou-se na cama sem tirar a combinação. Atraiu-me a si, esquecida já de seu amuamento anterior. Eu relutei em deitar a seu lado, estava calado, não pronunciara uma só palavra ainda, intrigado comigo mesmo em como fora possível estar outra vez ali, prestes a ser devorado, após ter feito os mais solenes juramentos de nunca mais pular o muro nem mais rever a mulher.

Ela estranhou a indecisão:

- Você quer ou não quer?

Eu continuava calado, a olhá-la, com um pouco de espanto.

- Bolas – disse ela. – Rapazes melhores não me faltam. Você é feio, narigudo, ossudo demais, sem poesia. Agradou-me da outra vez... mas isso são questões pessoais... Que há agora? Não me acha desejável?

- Acho – respondi.

Ela tirou a combinação e ficou nua, e se ofereceu ao meu exame. Era muito bonita. Tinha sexo em todo o corpo. Parecia não ter outra coisa a não ser sexo. Seus cabelos, seus olhos, suas narinas, suas coxas, seus braços, tudo era prolongamento daquele sexo medonho que a devorava por baixo.

Eu continuava vestido. Ela me disse que da primeira vez resolvera me despir a fim de quebrar o meu constrangimento de rapaz virgem, marinheiro de primeira viagem. Não ia fazer o mesmo agora. Eu que tratasse de me despir e de a possuir, se quisesse.

Permaneci em pé, olhando aquele corpo cheio de abismos, mas sem desejo, sem amor, sem nada. Súbito, caí sobre ela, chorando, impotente:

- Não! Hoje não! Não posso!

- Não pode o quê?

- Não posso! Você não me entende!

- Causo-lhe repugnância?

- Não.

- Acha-me vagabunda?

- Não! Pelo amor de Deus, não!

- Sou muito velha para você?

- Não adianta! Você não entenderá!

Ela se levantou, vestiu a combinação.

- Acho melhor você ir chamar outro.

Eu continuei deitado. Detestava-me profundamente por aquele papel ridículo e tolo. Que não pensaria ela de mim? E que pensar eu mesmo de mim?
Depois de um certo tempo em que me considerou atentamente, ela teve pena de mim. Deitou-se novamente ao meu lado, alisou carinhosamente os meus cabelos.

- Algum amor, meu filho? Às vezes um rapaz diante das outras...

- Não amo ninguém!

Ela ia dar o meu caso como perdido, quando, de repente, apertei-a pela cintura e subjuguei-a. Arranquei-lhe a combinação com raiva. Seus seios surgiram, túmidos, com uma ligeira tremura de excitação. Enfiei minha cabeça entre eles e chorei, desatei a chorar vergonhosamente.

Aos poucos fui sentindo um secreto prazer em enxovalhar com minhas lágrimas aquele recanto interior de mulher. Molhei-o de lágrimas. E quando beijei seus ombros, eles estavam salgados pelas minhas lágrimas. Quase nunca chorara na vida, e, que me lembra, nunca em presença de estranhos. Mas naquele instante rompi todos os meus diques interiores e a enxurrada desceu, sem desespero, sem ódio, com um pouco de prazer.

A mulher foi boa. Percebeu que eu vivia alguma coisa que eu mesmo não saberia explicar ou definir, que talvez nem mesmo entendesse. Foi carinhosa, abafou os soluços que me saíam da garganta, tapou depois a minha boca com um dos seios e ficou a alisar os meus cabelos. Terminou gozando, sei lá como, um espasmo que ela mesma classificou como o mais doce de toda a sua vida de mulher acanalhada por homens apenas bestiais.

Naquele dia não me atrasei na formatura. E em lugar da apreensão e da angústia anterior, uma sensação de bem estar físico e espiritual caiu como um bálsamo sobre o meu coração e sobre meus olhos, queimados ambos pelas próprias incompreensões.

À noite, antes dormir, pensei em Helena. Apesar de sua sensualidade nascente, da sua promissora beleza, como estava longe da realidade daquela mulher.
Coisa curiosa, passei a pensar em Helena em termos precisos, exatos, sem exaltações. Antes, Helena era um complexo de inocência e pecado, de alma e carne, de vício e virtude, de luz e sombra, um enigma diante da minha vida e do meu sexo. Agora, cada coisa adquiria seu lugar exato, tudo tomava sentido.
Helena ainda era Helena. Seria sempre Helena. Eu é que mudara. Helena me marcara. Agora, eu continuava marcado e tinha um certo prazer em estar marcado. Por Helena.

Talvez estivesse errado. Mais tarde, quem sabe, atribuísse aquele incidente a outros motivos mais reais ou mais próximos da realidade. Naquele momento, porém, eu tinha a certeza de que sobre aquele corpo, sobre aquela carne branca de mulher, eu chorara, inteira, toda a minha angústia por tudo aquilo que eu não entendia dentro de mim e fora. Que eu sofria sem entender. E que sem entender, pouco a pouco, parecia que já começava a amar.




(O Ventre)


(Ilustração: Aaron Coberly)





terça-feira, 21 de julho de 2009

QUANDO CHOVE, de Paulo Leminski








quando chove,
eu chovo,
faz sol,
eu faço,
de noite
anoiteço,
tem deus,
eu rezo,
não tem,
esqueço,
chove de novo,
de novo, chovo,
assobio no vento,
daqui me vejo,
lá vou eu,
gesto no movimento



(Ilustração: Gustave Callebotte - ruas de Paris, dia de chuva)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

MISCELÂNEA DO ANEDOTÁRIO EMILIANO, de Raimundo de Menezes









O homem engraçado que viveu em Emílio de Menezes fez escola e teve adeptos.

A sua geração consagrou-o como o maior de nossos gênios espirituosos, depois de Paula Nei, que lhe cedera o principado com a sua morte em 1897. Emílio chegara depois, e teve a sua coroação nos começos deste século.


...



Eis algumas piadas de Emílio coligidas por Humberto de Campos, e contadas no seu discurso de recepção na Academia de Letras:



Guimarães Passos era, como se sabe, tuberculoso, e vivia em perpétua luta com a moléstia insidiosa. Um dia, apareceu nas livrarias o “Tratado de Versificação Portuguesa”, do autor dos “Versos de um simples”, e cujo produto ele reservava para uma viagem à Europa, onde pretendia curar-se.



- Coitado do Guima! – comentou Emílio de Menezes, uma tarde na antiga Colombo.



E simulando pena:



- Desde que o conheço que ele, coitado, tem “tratado de ver se fica são”!...



...



Achava-se Emílio de Menezes em uma roda da Pascoal, quando chegou um amigo e apresentou-lhe um rapaz que vinha em sua companhia:



- Apresento-te Fulano; é o nosso patrício e tem corrido o mundo inteiro! Fala corretamente o inglês, o francês, o italiano, o alemão e o espanhol.



O rapaz sorria, modesto, ante os elogios e a palestra voltou ao que era. Ao fim de uma hora, durante a qual apenas proferiu alguns monossílabos, o viajante despediu-se, e se foi embora.



- Que tal esse camarada? – perguntou a Emílio um dos da roda.



- Inteligentíssimo, sobretudo, muito criterioso – opinou o rei dos boêmios.



- Mas ele não disse palavra!



- Pois, por isso mesmo, tornou Emílio.



E rindo:



- Você não acha que é ter talento saber ficar calado em seis línguas diferentes?



...



Em uma cervejaria de São Paulo, cujo soalho, como é de praxe nos estabelecimentos do gênero, se achava coberto de serragem, bebiam Emílio de Menezes e alguns amigos, quando um conhecido engenheiro, falando de arte, começou a louvar Florença, e a influência dos florentinos na Renascença. No auge, porém, do entusiasmo, põe-se de pé, afasta a cadeira e, ao sentar-se de novo, projeta-se de costas no chão. Levanta-se sujo de serragem, quer insistir.



- Sim, é aos florentinos que devemos todo esse patrimônio artístico...


- Homem – intervém Emílio de Menezes – deixa os florentinos...


E limpando-lhe a serragem:



- Tu agora estás “à milanesa”.



...



Entre as figuras de relevo que serviam de alvo habitual à sátira impiedosa de Emílio de Menezes, estava Capistrano de Abreu, historiador ilustre, sábio respeitadíssimo, em torno do qual se criara uma glosadíssima lenda de desleixo, de abandono próprio, e, mesmo, falta de higiene. Utilizando essa versão popular, conta o poeta:



- Uma vez, o Capistrano mandou à tinturaria, para ser lavado, um terno com que andava há doze anos. Uma semana depois, apareceu-lhe à porta um empregado da tinturaria, e entrega-lhe um embrulho pequenino, que lhe cabia nas mãos.



E como lhe perguntavam o que seria, Emílio concluía, invariável:



- Eram os botões, menino! A roupa, de puída e velha, havia se dissolvido n’água.



...



Certa vez, ia Emílio de Menezes em um bonde, quando se sentaram no banco imediato, em frente, duas senhoras de grandes banhas, que dificilmente puderam entrar no veículo. Com o peso das duas matronas, o banco, que era frágil, range, estala, geme, estranhando a carga. O poeta, que observa o caso, leva a mão à boca, no gesto característico, e põe-se a rir em silêncio, no seu riso sacudido e interior.



E como o companheiro o olhasse, explicou:



- Sem senhor! É a primeira vez que eu vejo um banco quebrar por excesso de fundos...



...



Emílio visitava uma Exposição de Cereais. Entra um fabricante de espírito barato e, vendo-o, grita:



- É milho!...



E o cantor de “Pinheiro Morto”, cofiando e descofiando o bigode:



- Você hoje está com a veia...



E vendo que o outro queria escapulir, embarga-lhe os passos:



- Não s’evada!... Com isso é que eu me in... trigo!



E plantando-o numa cadeira:



- Sentei-o...



...




O Sr. Bastos Tigre, amigo e companheiro inseparável de Emílio, colecionou, entre muitas outras várias anedotas cuja paternidade cabe ao poeta boêmio:



Um famoso jornalista da época, que andara metido, no Rio, numa negociata de fornecimento de moedas de prata, voltava da Europa. Contava ele, na impiedosa roda da “Colombo”, que assistira, em Londres, como convidado de honra, ao grande banquete do “Mayors”.



- Uma coisa fantástica, dizia ele; imaginem que os talheres eram de ouro...



- Mostra! – atalhou Emílio, fazendo menção de abrir o paletó do narrador.



...



Certa vez, S., poeta sem estro, apareceu a Emílio, na confeitaria, sentou-se, e disse:



- Escrevi ontem dois sonetos. Hoje burilei um deles. Aqui está. Vou ler e você me dirá a sua impressão. Amanhã trarei o outro.



Leu com ênfase, martelando as tônicas, sob silêncio. Ao cabo, inquiriu, triunfante:



- Que tal?



Muito calmo, cofiando os longos bigodes, Emílio redarguiu:



- Gosto mais do outro...



...



Aqui vão algumas colhidas em outras fontes:



Tornara-se indesejável a permanência de certo figurão no cargo de ministro, e, entretanto, não pedia exoneração...



Era assim comentado na roda de amigos de Emílio de Menezes:



- É uma injustiça combatê-lo pois é um estadista insigne!...



Emílio aproveitou a deixa para trocadilhar:



- É um “insigne... ficante!”



...



Foi no verão de 1914. Na casa do Comendador X, realizava-se grande baile comemorativo ao aniversário de sua filha.



Numa roda de intelectuais, prendia a atenção, com seus chistes e trocadilhos, Emílio de Menezes.



Eis que se aproxima uma senhora, toda donairosa, e, entre mil perguntas pueris, dirige-se ao grande boêmio: Sr. Emílio! Sabe quais são os encantos da mulher?



- “Sei-os”, minha senhora.



...



Longa, como se vê, é a miscelânea do “humor” emiliano.



Outras e muitas outras piadas, para mais de vinte mil, existem por aí que lhe são atribuídas, e cuja paternidade não lhe pertenceu jamais.



Ele mesmo costumava protestar, indignado, contra a autoria que lhe emprestavam de tudo que aparecia, “desvernaculizado”, com pretensões a espírito, nas rodas de letras e de imprensa:



- “Eu não sou a Sapucaia das perfídias alheias sem graça e sem gramática!”, clama, melancólico, nos últimos tempos.






(Emílio de Menezes, o Último Boêmio)


(Ilustração: busto de Emílio de Menezes, em Curitiba; foto da internet, sem indicação de autoria)




domingo, 19 de julho de 2009

A MORTE DE NARCISO, de Ovídio









Fonte sem limo, pura prata em ondas límpidas,
jorrava. Nem pastor se achega, nem pastando
seu rebanho montês, ou gado avulso, acode.
Nem pássaro, nem fera, nem, tombando, um ramo
perturba a úmida grama que o frescor irriga.
O bosque impede o sol de aquentar este sítio.
Da caça e do calor exausto, aqui vem dar
Narciso, seduzido pela fonte amena.
Se inclina, vai beber, outra sede o toma:
enquanto bebe o embebe a forma do que vê.
Ama a sombra sem corpo, a imagem, quase-corpo.
Se embevece de si, e no êxtase pasmo,
é um signo marmóreo, uma estátua de Paros.
De bruços, vê dois sóis, astros gêmeos, seus olhos
Contempla seus cabelos dignos de Apolo
ou de Baco; suas faces, seu pescoço branco,
a elegância da boca; a tez, neve e rubor.
No mirar-se, admira o que nele admiram.
Deseja-se a si próprio, a si mesmo se louva,
súplice e suplicado, ateia o fogo e arde.
Quantos beijos vazios deu na mentira d’água!
Quantas vezes tentou captar o simulacro
e mergulhou os braços abraçando o nada!
Não sabe o que está vendo, mas no ver se abrasa:
o que ilude seus olhos mais o açula ao erro.
- Crédulo buscador de um fantasma fugaz!
O que buscas não há: se te afastas, desfaz-se.
Esta imagem que colhes é um reflexo: foge,
não subsiste em si mesma. Vem contigo. Fica
se estás. Se partes - caso o possas - ela esvai-se.
Nem Ceres - alimento, nem o sono - paz,
nada o tira de lá. Prostrado em relva opaca
contempla as falsas formas sem saciar os olhos.
Por seu olhar se perde. Meio-erguido, os braços
aos bosques circunstantes agitando, indaga:
“Houve, bosques, como este, outro amor tão cruel?
Sabeis. Destes refúgio a muitos que sofriam
de amor. Houve outro em tantos séculos de vida
- vossa memória é longa - que como eu penasse?
Vejo o que amo, mas o que amo e vejo, nunca
posso tomá-lo, e em tanto erro insisto amando.
O que mais dói porém: não nos separa um mar,
montes, caminho longo, sólidas muralhas.
Água exígua nos tolhe. O outro também aspira
a mim: sempre que beijo a amada face líquida,
seus lábios refletidos tendem para os meus.
É como se o tocasse: nos impede um mínimo.
Sai fora dessa fonte! Vem! Por que me iludes,
evasivo menino? em formas ou idade,
nada em mim pode haver que te repugne. Ninfas
me amaram! No teu rosto leio bons prenúncios:
quando te estendo os braços, braços me distendes:
se rio, sorris; lágrimas respondem lágrimas,
se choro; a meu aceno, acena tua cabeça.
Adivinho palavras em tua linda boca,
móveis palavras, que ao ouvido não me chegam.
Sou eu este outro! Não me ilude a imagem fútil.
Queimo no amor de mim, no incêndio que me ateio.
Que hei de fazer? Rogando, sou rogado. A quem
e como suplicar? A mim cobiço e tenho:
pobre e rico de mim. Quero evadir meu corpo,
desejo estranho num amante! Separar-se
daquilo mesmo que ama. Agora a dor me vence.
Exaurido de amor, expiro em minha aurora.
A morte não me pesa, alivia-me as penas.
Quisera perdurar naquele a quem adoro:
ambos, num só concordes, morreremos juntos.”
Diz, e volta abismado a contemplar o espelho
d’água, e o turva de lágrimas, e a imagem vã
em círculos dissipa-se. Ao vê-la que foge,
exclama: “Fica! Não me destituas, má
visão, cruel fantasma em que me nutro e onde,
intocado de mim, deliro de paixão!”
Rasga, doido de dor, as vestes em pedaços
e pune o peito nu com seus dedos de mármore.
Ferido, o peito vai-se tingindo de rubro,
como um fruto que em parte se oferece branco
e em parte enrubesce; ou as uvas num cacho,
imaturas, aos poucos se fazendo púrpura.
Quando - igual - se revê na onda liquefeita,
não mais suporta. Como a cera loura funde
ao fogo leve e a fria geada matutina
desfaz-se ao sol, assim Narciso, pouco a pouco,
pela chama de amor se fina e se consome.
Sua tez não mais figura neve enrubescida,
nem força, nem vigor, tudo o que à vista agrada,
nada resta em seu corpo, outrora amado de Eco,
a ninfa, que ao fitá-lo se condói, ferida
embora pelo seu desprezo. A ninfa chora
e “Ai!” lhe responde aos “ais”, duplica seus lamentos.
Toda vez que ele fere os braços, repercute
o som dos golpes Eco. Às águas familiares
voltando o olhar, Narciso diz com voz extrema:
“Fugaz menino amado! Ai!” E o sítio em torno
lhe repete as palavras. Diz: “Adeus!” e “Adeus!”
retorna a ninfa. Então no verde pousa a fronte.
A noite lhe clausura os olhos, luz que se ama.
Recebido no Inferno, assim mesmo esses olhos
se deleitam, mirando-se no Estígio. Choram
As Náiades o irmão, em tributo cortando
os cabelos. As Dríades deploram. Eco
ressoa o pranto. As tochas fúnebres se agitam,
mas o corpo não há. Em seu lugar floresce
um olho de topázio entre pétalas brancas.



(Transcrição de Haroldo de Campos - F.S.P. - 21.8.94)


(Ilustração; Nicolas Poussin - echo and narcissus-1630)