quarta-feira, 1 de julho de 2009

ALÉM DAS APARÊNCIAS, de Tey de Louré











Ver além das aparências...



Este pensamento martelava a mente de Louise, que abriu todas as cartas sobre a cama, dispostas de acordo com as datas, verificando a sequência em que foram remetidas.



A primeira foi destinada ao Sr. Ralph, no princípio de setembro; a seguinte, para Suzana, já no final do mês.



O autor teve o cuidado de deixar um espaço considerável entre uma e outra, o que deve ter criado ansiedade, medo e insegurança nos destinatários. Era, sem dúvida, um plano esmagador, pensou Louise, abismada com tamanha capacidade maléfica. Foi um jogo duplo e perigoso, concluiu.



O Sr. Ralph recebeu a primeira carta, falando da traição de Suzana, e o efeito produzido foi de indiferença para com ela. Em seguida, Suzana recebeu a sua primeira, que dizia também estar sendo traída; e como já havia notado uma certa distância por parte do marido nos últimos dias, acreditou nessa possibilidade, ficando indiferente também. Por sua vez, o Sr. Rodolfo, diante do desligamento dela, passou a acreditar naquela acusação.



Louise sentiu que estava começando a entender toda aquela trama. Um jogo muito engenhoso, pensou, estarrecida. Será que nem por um momento esta pessoa admitiu a possibilidade de um falar com o outro sobre as cartas? Aí, tudo poderia se esclarecer, e o plano estaria completamente arruinado. O pensamento foi mais além. Quem fez tudo aquilo devia certamente conhecê-los muito bem. Suzana, com certeza, era uma mulher discreta, e jamais faria uma cena de ciúme; e o Sr. Ralph, talvez devido a esta maneira de ser da esposa, não teria condições de interpelá-la sobre um assunto delicado e ao mesmo tempo tão vulgar. Às vezes, ser discreta demais atrapalha, concluiu Louise, quase em reprimenda a si mesma.



Verificou a última carta enviada a Suzana, em princípios de abril, e parou para pensar: abril... foi no final daquele mês que ela morreu. Estava sofrida, angustiada, infeliz. Possivelmente, tenha chegado à conclusão de que seria melhor morrer. Suicídio? Seria Suzana capaz de matar-se? Talvez sim, talvez não. Poderia ter achado ser esta uma saída vitoriosa para a situação; afinal de contas, é necessário muita coragem para matar-se. Uma bela saída; quase triunfal. Sem cenas, sem acusações, sem dramas. Apenas uma morte trágica para os que ficaram.



Louise aprofundava-se mais e mais no torvelinho de seus pensamentos, procurando hipóteses, desde as razoáveis às mais absurdas. Num caso como aquele, tudo poderia ser possível. Por outro lado, continuou forçando a mente: Suzana, uma mulher tão atraente, que exercia uma força incrível sobre todos, seria capaz de fugir à realidade? O suicídio era uma fuga, concluiu. Talvez o autor das cartas não tenha pensado nisso. Certamente acreditava que, massacrada por tantas acusações de que o marido, o grande amor de sua vida, a traía, ela chegasse ao desespero e se matasse.



Mas Suzana resistia, e o tempo ia passando. Então, ele se apavorou e resolveu matá-la.

Louise respirou cansada, ao chegar a esta conclusão. Sim, podia verdade. Era plausível, mas muito engenhoso. Seria possível alguém conseguir planejar um assassinato a longo prazo?
Lembrou-se de sua mãe, falando com admiração sobre as teorias do pai. Sim, por incrível que parecesse, ela havia aprendido um pouco com ele, através dela. Recordou-se de um ponto fundamental, segundo Thomas Colman, para sair-se bem naquela profissão: nunca subestimar o inimigo. Ele era capaz de tudo.


Inimigo! – pensou. Que inimigo? Onde estou querendo chegar, se nem mesmo sei se houve um assassinato? Não houve assassinato algum...



Na mente, de novo bailou aquela idéia estranha: o crime perfeito! Sim, era isso mesmo. Aos olhos de todos, tudo fora apenas um acidente. Um trágico acidente.



Louise juntou as cartas, cuidadosamente.



Tudo isso parece uma loucura, pensou. Devo estar muito sugestionada para pensar assim. Estas cartas... Devo colocá-las de volta aos seus lugares. O que estou querendo provar, agindo desse jeito? Que sou filha de um detetive, e que por isso tenho mania de investigar?



Seu pensamento voltou a repetir a frase lacônica de Sr. Ralph: “Ela não se importaria se eu me casasse novamente”.



Alguma coisa começou a ativar-se no cérebro de Louise, que começava a despertar para o mundo do mistério e da trama. As peças, lembrou. Todas as peças têm o seu lugar no tabuleiro. Mais uma lição que o pai lhe deixara, através da mãe. Mais uma idéia reluziu: as cartas anônimas poderiam ter sido escritas pela mesma pessoa que estava brincando de “Papai Noel”, embora não fosse Natal.



Uma luz parecia surgir, se bem que tênue ainda, mas iria resplandecer. Louise estava convicta disso. Tinha dois acontecimentos distantes: as “cartas” e os “presentes”, separados por uma morte. Morte trágica, violenta. Haveria alguma ligação?



Um crime! – continuou insistindo a mente. – Haveria alguém ali, naquela casa, com motivos para matar Suzana?



Diante dos seus olhos, como se o pensamento estivesse se projetando numa tela, viu desfilar cada um deles.



O Sr. Rodolfo... Sim, ele tinha dois grandes motivos: amor e ciúme. Amava demais a esposa e, com as cartas, transformou-se num homem traído. E de que uma pessoa traída é capaz...



O livro... – lembrou-se de repente. – O livro que lhe indicara; Rebecca, a Mulher Inesquecível... Parecia ter uma predileção especial por ele. Suspirou, recordando-se do enredo: Rebecca, uma mulher deslumbrante, maravilhosa, que trai o marido com o primo dela. O marido, sentindo-se insultado, mata-a. Não foi um crime perfeito o da história. Afinal, atirar numa mulher que está dentro de um barco e, em seguida afundá-lo, deixa muitas marcas, apesar de o autor ter conseguido ludibriar os jurados.



Sacudiu a cabeça, como se rejeitasse tal idéia e prosseguiu, mudando o pensamento para Ivan. Amor não correspondido, ciúme, rejeição...



Domingos, com os olhos inseguros e cheiros de medo, falava de amor e ciúme, mas parecia ir mais além. Talvez obsessão. Afinal, Suzana fora o seu primeiro amor.



O pensamento continuou e encontrou Melissa. Quantos motivos tinha! Traição, ciúme, e talvez até inveja. Mas seria ela capaz? Teria coragem para matar Suzana? Aquele crime parecia-lhe um crime de laboratório, programado a longo prazo. Seria Melissa tão astuciosa?



Louise fechou os olhos como se sentisse as idéias queimar-lhe o cérebro. Tudo aquilo poderia ser apenas fruto de sua imaginação, mas...



O pensamento insistiu, e o rosto de Karla surgiu em sua mente, contraído, confuso, cheio de sombras e pesadelos. Teria ela motivos para escrever aquelas cartas, e assassinar Suzana? Parecia tão tonta, tão tola, tão cheia de medo. Medo de seus próprios pesadelos. Medo ou remorsos? O que ela realmente sentia por Suzana? Uma vez confessou odiá-la. Ódio e inveja... Certamente Karla pensou que, agindo daquela forma, destruiria Suzana; e que odeia só quer ver ruínas...



Louise olhou para as cartas com melancolia. Era preciso descobrir. Era preciso descobrir, e sua mente se agitava diante daqueles papéis misteriosos, soturnos. Mas suas células cinzentas prosseguiram, ávidas da verdade, e o rosto duro de Clara surgiu.



Clara!... Uma mulher como outra qualquer, que ficou no poder. Poder! Sim, agora ela se tornara a anfitriã da casa, quem dava as ordens, e parecia sentir-se muito bem naquele papel... Inveja. Ela invejava Suzana. Pelo seu dinheiro, sua sorte, sua beleza. Inveja e ambição. Sem dúvida, dois sentimentos mesquinhos, que várias vezes levaram o ser humano à própria destruição.

E Violeta? Uma mulher que passava despercebida a todos, mas que poderia ter nisso o seu triunfo. Não, talvez não fosse assim. Violeta era apenas uma fanática. Não tinha por que suspeitar-se dela. Estava ali, brigando por seu lugar na casa, esperando que a “Senhora” – a quem devotava toda a confiança, admiração e serventia – revivesse, e tudo voltasse a ser como antes. Violeta se projetava em Suzana, e precisava dela viva para sentir-se realizada e feliz.


Seis suspeitos, concluiu. Todos lesados pela felicidade de Suzana. Qual deles teria coragem para matá-la?



(O Jogo da Detetive)


(Ilustração: Gerber Mulder - sisters mercy)





Nenhum comentário:

Postar um comentário