domingo, 29 de junho de 2014

UMA TENDA DE LUZ E SERES VIVOS, EM QUE SE FABRICA PAPEL, de Elfriede Jelinek







Do supermercado brotam as mercadorias que aprisionam as pessoas. Sábado o homem deveria ser companheiro e ajudar a apanhá-las das redes; e os pescadores cantam. Esse modo de agir simplesmente maldoso o homem aprendeu neste ínterim. Calado, ele passa um tempo entre as mulheres que contam suas moedinhas e lutam contra a fome.Como é que duas pessoas vão criar essa união, se nem mesmo se conseguem fechar correntes de pessoas pela paz? A mulher é acompanhada, os pacotes e sacolas são carregados, sem que se precise vociferar ou estrilamentar. Assim o diretor se esparrama diante das pessoas, toma-lhes o lugar e monitora o que é comprado, embora isso seja tarefa de sua governanta. Ele, um deus, passa voando entre suas criaturas, que são menos do que filhos e despencam em meio a tentações, mais ilimitadas que o mar. Ele também olha dentro das outras cestas de compras e de outros decotes, em que ladram insistentes resfriados e são mantidos cobertos por renitentes  desejos de echarpes. As casas frequentemente são frias e úmidas, tão rentes que estão do rio. Quando ele observa sua mulher, cuja mão desajeitadamente mexe em coisa morta envolvida na mais translúcida embalagem dentro do freezer, quando observa o baixo rendimento daquela carne, sua bela roupa, assalta-o uma terrível impaciência de ceder a ela seu peso em carne; fazer inflar - até que ganhe um brilho maduro de sol - o seu badalo, para o qual tudo ali está tão disponível, um tesão incrível, tão bom de comprar quanto tiras de papel em meio aos dedos inertes dela. Sob suas garras levemente esmaltadas ele quer ver despertar seu animalzinho e de novo descansar na mulher. Ela deve finalmente se esforçar em sua camisola de seda! Que ele não tenha de sempre se dar ao trabalho de lhe empinar os seios para fora e pegá-los na concha da mão. De uma vez por todas, que venha ela servir-se a ele, tenha a bondade de oferecer-se boa, sem que ele tenha que primeiro, por meia hora, a muito custo pinçar com os dedos os frutos do caule. É gratuito, esse esforço. Ele fica meio recuado diante do caixa e abraça o vazio absoluto de sua propriedade, um vazio diante do qual as mercadorias ficam obediente: sit! Dançam ao seu redor vários empregados do supermercado, dos quais ele tomou os filhos, uns para a fábrica, os outros porque eles agora precisam ir embora ou se render à bebida. Para esse senhor, o tempo nunca fica grande demais!

As sacolinhas de compras, que satisfizeram as suas exigências, farfalham através do hall de entrada, empurrada para a frente pelos chutes do diretor. Às vezes, em acessos de fúria ele tropeça de um tal modo na comida que a faz estender-se até o céu. Então atira a mulher em meio àquele depósito de mercadoria e completa o quadro com ela, que pode respirar o seu ar, lamber-lhe o pênis e o ânus. Com muita prática, ele mais do que depressa agarra-lhe as tetas, puxa-as para fora do vestido e, pela base, amarra-as com barbantes, aquela tetas que já estão murchando, para formar balões bem cheios e firmes. Pega a mulher por aquele seu tailleur que tão bem esconde a nuca e se inclina sobre ela como se quisesse suspendê-la e colocá-la no bolso, mostrando superioridade acachapante. Os móveis passam como numa visita-relâmpago. Em pouco tempo, as roupas estão espalhadas e os dois se atocham um no outro como se fossem se pendurar um no outro. Esse trecho já está apascentado há anos. Pulsante, o diretor extrai seu produto, e não é papel. É artigo mais rijo, dos que se necessita em tempos de maior rigor. As mais recônditas de todas as coisas as pessoas gostam de mostrar umas para as outras, como sinal de que não têm nada a esconder e que é tudo verdade o que têm a dizer a seus inesgotavelmente caudalosos parceiros. Despacham seus membros, os únicos mensageiros que sempre retornam. Do dinheiro não se pode dizer o mesmo, embora ele bem que seja mais amado que a mais amada entre os cascos e cornos do amante, onde os cães já vêm roer. Pulsando e gritando, os produtos são lançados, as minúsculas fábricas de corpos moem e rangem, e a propriedade modesta, sobrecarregada apenas com a felicidade que cambaleia vindo do televisor que fala sozinho, derrama-se, um regato, num lago sozinho feito de sono, no qual se pode sonhar com mercadorias maiores e produtos mais caros. E o ser humano floresce na margem.

A mulher fica deitada muito aberta, para o mundo aberta, sobre o chão, produtos alimentícios escorregadios espalhados sobre si, e é incrementada para render um efeito a mais e produzir muitos e muitos efeitos comerciais. Só o marido negocia, tem ações com ela e age inteiramente só. E ele já se solta de si, para entrar no vazio mobiliado do quarto. Só o próprio corpo o satisfaz mais ou menos e é capaz de, no esporte, se fazer troar e ouvir ecoar. Como uma rã, a mulher tem que dobrar as pernas de lado, para que o homem possa olhar dentro dela até o mais longe possível, até o Tribunal Estadual para Assuntos Criminais, e examiná-la. Ela está toda encharcada e toda cagada dele, precisa se levantar, deixar cair no chão as últimas cascas e ir buscar a mofada esponja caseira, para limpar o homem, esse inimigo inconciliável do sexo dela, de si mesmo e do muco que ela produziu. Ele lhe enfia o indicador direito bem fundo no cu, e com as tetas balançando ela se ajoelha sobre ele e esfrega, cabelos nos olhos e na boca, suor na testa, saliva alheia na fossa jugular, a pálida baleia assassina ali diante dela, por tanto tempo, até que a luz amigável cai, a noite chega e esse animal mais uma vez pode recomeçar a fustigar com sua cauda, com seu pau.

Sempre que voltam do supermercado, eles costumam manter a boca bem fechada. Alguns passam correndo por eles, testando sua força de tantos cavalos, e são inconciliavelmente guardados na memória. Os latões de leite à beira do caminho, revolvidos pelo indômito vento num átimo de átomo, estão ali prontos para ser apanhados. As corporações profissionais agrícolas se perseguem umas às outras na região por motivos de concorrência, até para não ficarem expostas por tempo demais à vista dos pequeníssimos agricultores, que não dão muito leite a quem não se pode nem mesmo sangrar por inteiro. A mulher se embrulha na escuridão de seu silêncio. E então, mais uma vez, para humilhar seu homem, não consegue de modo algum rir o suficiente sobre os pedantes fumos de patriarca dele, nos quais o cérebro vibra, quando ele fixa o olho na mulher do caixa, desconfiado dos movimentos de seus dedos. E, do mesmo modo que muitas mulheres de desempregados, ela que nem pense em cometer um erro. O diretor chega em surdina a seu lado, e ela tem que digitar tudo de novo, para que nenhum item seja lançado a mais e não precisem fazer uma seleção de emprego a mais. É quase como em sua fábrica, apenas com a diferença de que as pessoas são menores e usam roupas de mulher, das quais espiam, porque para elas, por sua vez, as roupas da estrutura familiar ficam apertadas demais. Elas ganham asas, e de seus ventres saem os filhos, em cujos olhos recém-abertos os homens seus pais atiram seus raios. Os rebanhos confusos de clientes se espremem, em sua insânia por comprar, passando ao largo dos encantados pelas mercadorias, para logo poder sumir de novo em suas covas. Presenteados eles não são; têm, isso sim, reduzida uma parte do que mereceram e ganharam na fábrica de papel. Tomados de horror, eles se veem diante de seu superior, que não esperavam encontrar ali, sim, era alguém em quem nem sequer estavam pensando. Muitas vezes nos surpreendem às portas pessoas com quem não estávamos contando, e nós somos responsabilizados por sua alimentação. Pequenos palitinhos salgados e peixes de massa e raspas de batata são tudo o que temos para colocá-los sob nossas pobres sombras.

Cânions de prateleiras se lançam em direção ao horizonte longínquo. A penca de gente se divide, já deslizam para baixo os últimos desejos dos clientes, como os que trazem camisetas regata empapadas de suor, ombros cansados da manhã. Irmãs, mães, filhas. E o sagrado casal diretor volta a correr, em eterna repetição, para o presídio de seu sexo, onde pode chorar tanto quanto se queira pela absolvição. Porém, das abas e buracos jorra somente uma comida horrorosa, morna, para dentro da cela e sobre suas mãos esticadas. O sexo, exatamente como a natureza, não anda em sua comitiva, sua pequena coletividade de adeptos de produtos e produções para desfrutar. Ela é simpaticamente coroada de artigos top de linha das indústrias têxtil e de cosméticos. Sim, e talvez o sexo seja a natureza do ser humano; quero dizer, a natureza do homem consiste em correr atrás do sexo, até que ele, visto no todo e em seus limites, se torne tão importante quanto aquele. Uma comparação que você certamente deve fazer: o homem é aquilo que come. Até o trabalho juntá-lo para formar um monte sujo, um boneco de neve derretido. Até não restar para ele, avergoado por sua origem, nem sequer o último buraco para se meter dentro. Sim, as pessoas, até finalmente serem inquiridas e ficarem sabendo a verdade sobre si... Pois enquanto isso ouça com atenção: esses indignos são importantes e hospitaleiros apenas por um dia, quando se casam. Mas um ano mais tarde eles já detêm a responsabilidade pela mobília e decoração de suas casas e por seus veículos. E detém-se todo o grupo - estão corrompidos pelo sangue comum - quando não conseguem mais pagar as prestações. Eles dividem ainda, em parcelas que são uma ninharia, as camas onde irão rolar! Sorriem para os rostos de desconhecidos que conduzem às suas manjedouras. Para que eles possam deixar voar algumas palhinhas de feno na respiração de seu sono, antes de seguirem adiante. Nós, contudo, temos que nos levantar todos os dias no momento mais inoportuno, somos forasteiros e de longe só vemos o traçado de nossa pequena rua, onde nossos graciosos parceiros sexuais nesse meio-tempo são cobiçados e usados por outros. E nas mulheres deve arder um fogo. Só que são apenas focos de incêndio extintos, sobre os quais a sombra da tarde cai logo cedo, quando elas, saídas das goelas de suas camas no sótão, rastejam direto para o estômago da fábrica. Pois você pode bem ir para casa, se estiver cansada disso! Não será invejada, e sua beleza já há muito tempo que não desarma ninguém mais; ele a abandonará, isso sim, com passos leves, dará partida em seu carro ali onde o orvalho pousa e brilha sob os primeiros raios, bem ao contrário de seus cabelos opacos!

A fábrica. Oh, como ela manipula e faz de joguetes os não qualificados, que afluem para dentro dela vindos de tubulões inesgotáveis. Como abafa os aparelhos de som com seu barulho inesgotável! Essa casa de gente, ou seja, a cada do diretor sobre sua parcela, a cela de casal, que infalivelmente deixa para nós algum refrigério quando operamos as máquinas automáticas de Coca-Cola! Uma tenda de luz e seres vivos, em que se fabrica papel. Com dureza, a concorrência põe a fábrica desse local em ação e desbasta os empregados para deixá-los como tábuas finas as mais iguais possíveis. O conglomerado proprietário da fábrica no Estado vizinho é mais poderoso e fica numa artéria de trânsito mais rentável, onde eles podem ir sangrar e gastar suas seivas. A madeira é triturada até ficar irreconhecível e entra na fábrica de celulose, e então entra a celulose na fábrica de papel, onde seres irreconhecivelmente triturados trabalham, pelo menos foi o que ouvi dizer e fico satisfeita de que eu, que sou livre, possa no forte calor do meio-dia vomitar meu eco na calada floresta. O exércitos dos, como eu, sem responsabilidades, que leem jornal nas latrinas, levam embora da floresta as árvores para poderem eles mesmos se sentar no lugar delas e desembrulhar a comida do papel. À noite, as pessoas bebem, então, e ficam preocupadas. Erguida a zanga, lança-se a corja, inflada e cega, na noite abissal.

A fábrica veio para a floresta, mas já há muito anseia por outra terra, onde possa produzir mais barato. Os divinos cartazes nas rotas de saída apressam as pessoas, e elas já partem nas pistas de seu trem de brinquedo. Os maleáveis são contratados - caminho pavimentado -, e mesmo o senhor diretor está nas mãos da Instância Superior, enquanto devora dinheiro público. Incontrolável é a política dos proprietários que ninguém conhece. Às cinco horas da manhã, as pessoas nos semáforos caem num cochilo, quando percorrem os cem quilômetros para chegar à fábrica e, ainda no último cruzamento, sucumbem à santa luz vermelha que brinca com eles, e são mortos, porque não tiraram o pé do acelerador e sonhando não arredaram pé da diversão do sábado à noite. Os movimentos carinhosos na tela, da qual eles rascando e raspando por anos a fio receberam sua ração, agora nunca mais voltarão a vê-los.

Por isso eles fazem todas as suas mulheres ecoarem mais uma vez, para não precisar mais ouvir a trombeta do juízo pelo menos até o próximo dia primeiro. Os mexericos e meritíssimos nesse lugar não se calam nunca, e os abandonados pelos bancos gorjeiam nos sulcos e consomem as últimas migalhas. E atrás deles há uma mulher que queria ter o dinheiro da casa, do restaurante e novos livros e cadernos para os filhos. Eles são todos dependentes do diretor, essa criança grande de humor ameno, um humor que no entanto pode virar, estrepitoso, como uma vela de embarcação, e então todos nós estamos no mesmo barco e depressa ficamos de fora naquele lado, o lado grande, selvagem, para o qual nos atiramos no último instante por não sabermos como empregar melhor nosso berro de sirene, nosso canto de mil vozes de sereia. Mesmo em fúria somos esquecidos, apenas a úlcera cresce em nós, e nos espalhamos como erva daninha.


(Desejo; tradução de Marcelo Rondinelli)



(Ilustração: Gerben Mulder - dutch girl)


quinta-feira, 26 de junho de 2014

SONETO DA AUSENTE, de Cassiano Ricardo







É impossível que na furtiva claridade
que te visita sem estrela nem lua,
não percebas o reflexo da lâmpada
com que te procuro pelas ruas da noite.

É impossível que, quando choras, não vejas
que uma de tuas lágrimas é minha.
É impossível que, com o teu corpo de água jovem,
não adivinhes toda a minha sede.

É impossível não sintas que a rosa
desfolhada a teus pés, ainda há um minuto,
foi jogada por mim, com a mão do vento.

É impossível não saibas que o pássaro,
caído em teu quarto por um vão da janela,
era um recado do meu pensamento!



(Um Dia Depois do Outro)




(Ilustração: Martin Eder - ou son les queves)




segunda-feira, 23 de junho de 2014

A CASA MATERNA, de Vinícius de Moraes





Há, desde a entrada, um sentimento de tempo na casa materna. As grades do portão têm uma velha ferrugem e o trinco se oculta num lugar que só a mão filial conhece. O jardim pequeno parece mais verde e úmido que os demais, com suas palmas, tinhorões e samambaias que a mão filial, fiel a um gesto de infância, desfolha ao longo da haste.

É sempre quieta a casa materna, mesmo aos domingos, quando as mãos filiais se pousam sobre a mesa farta do almoço, repetindo uma antiga imagem. Há um tradicional silêncio em suas salas e um dorido repouso em suas poltronas. O assoalho encerado, sobre o qual ainda escorrega o fantasma da cachorrinha preta, guarda as mesmas manchas e o mesmo taco solto de outras primaveras. As coisas vivem como em prece, nos mesmos lugares onde as situaram as mãos maternas quando eram moças e lisas. Rostos irmãos se olham dos porta-retratos, a se amarem e compreenderem mudamente. O piano fechado, com uma longa tira de flanela sobre as teclas, repete ainda passadas valsas, de quando as mãos maternas careciam sonhar.

A casa materna é o espelho de outras, em pequenas coisas que o olhar filial admirava ao tempo em que tudo era belo: o licoreiro magro, a bandeja triste, o absurdo bibelô. E tem um corredor à escuta, de cujo teto à noite pende uma luz morta, com negras aberturas para quartos cheios de sombra. Na estante junto à escada há um Tesouro da juventude com o dorso puído de tato e de tempo. Foi ali que o olhar filial primeiro viu a forma gráfica de algo que passaria a ser para ele a forma suprema da beleza: o verso.

Na escada há o degrau que estala e anuncia aos ouvidos maternos a presença dos passos filiais. Pois a casa materna se divide em dois mundos: o térreo, onde se processa a vida presente, e o de cima, onde vive a memória. Embaixo há sempre coisas fabulosas na geladeira e no armário da copa: roquefort amassado, ovos frescos, mangas-espadas, untuosas compotas, bolos de chocolate, biscoitos de araruta - pois não há lugar mais propício do que a casa materna para uma boa ceia noturna. E porque é uma casa velha, há sempre uma barata que aparece e é morta com uma repugnância que vem de longe. Em cima ficam os guardados antigos, os livros que lembram a infância, o pequeno oratório em frente ao qual ninguém, a não ser a figura materna sabe por que, queima às vezes uma vela votiva. E a cama onde a figura paterna repousava de sua agitação diurna. Hoje, vazia.

A imagem paterna persiste no interior da casa materna. Seu violão dorme encostado junto à vitrola. Seu corpo como que se marca ainda na velha poltrona da sala e como que se pode ouvir ainda o brando ronco de sua sesta dominical. Ausente para sempre da casa materna, a figura paterna parece mergulhá-la docemente na eternidade, enquanto as mãos maternas se fazem mais lentas e as mãos filiais mais unidas em torno à grande mesa, onde já agora vibram também vozes infantis.



(Ilustração: Riccardo Mantovani)



sexta-feira, 20 de junho de 2014

PAISAGEM MINEIRA, de Homero Faria








Palha dos tempos


e pó


de antigas glórias.


Quintal batido


de sonhos


e janelas de bater


debruçadas de lembranças.


Armários vestidos


de passados bailes...


sapatos empoeirados


de rodadas valsas


e relógio de pêndulo


parado no tempo,


desconfiado,


no canto da sala.


À tarde,


pião e gude


rolam Minas


montanha’baixo,


num ar


claro, leve,


povoado


de Ave-marias...




(Ilustração: Paul Klee - landscape and the yellow church tower)



terça-feira, 17 de junho de 2014

VAGABUNDA, E LIVRE, AINDA HEI DE ANSIAR PELA SOMBRA DAS SUAS PAREDES, de Gabrielle S. Colette







Ao longe, um relógio bate meia-hora. O trem de Calais, que deve levar-me para Paris, só irá passar daqui a cinquenta minutos...

Regresso sozinha, de noite, sem prevenir ninguém. Despreocupados, Brague e o Antigo Troglodita devem estar dormindo, em Boulogne-sur-Mer. Matamos três quartos de hora entre contabilidade e palração, em projetos para uma tournée sul-americana. E de lá vim para aqui, à estação de Tintelleries, que de tão deserta,  a estas horas, dá a impressão de um lugar evacuado... Ninguém acendeu, só para mim, os globos elétricos do cais... Uma sineta rachada toca timidamente na sombra, como se estivesse presa ao pescoço de um cão transido.

A noite está fria, sem lua. Há por perto, num jardim invisível, lilases cheirosos que o vento agita. Ouço ao longe, o chamado das sirenas sobre o mar...

Quem poderia descobrir-me aqui, neste fim de cais, toda enrolada no meu casaco? E que bem camuflada! Nem mais escura, nem mais clara do que a sombra...

Pela manhãzinha, entrarei em casa, sem barulho, como uma ladra. Não creio que me esperem assim tão cedo. Acordarei Fossette, acordarei Blandine, e depois virá o momento mais difícil...

Intencionalmente ponho-me a imaginar os pormenores da minha chegada; evoco a lembrança do duplo perfume que já está entranhado nos cortinados: fumo inglês e jasmim um pouco doce demais; em pensamento aperto contra o peito a almofada de cetim onde ficou, como duas pálidas manchas, o traço de duas lágrimas, roladas dos meus olhos num minuto de intensa felicidade... Paira em meu lábio o pequeno "ah!",  a exclamação abafada do ferido que machuca seu ferimento. Faço-o de propósito. Doerá menos dentro em breve.

Daqui de longe, despeço-me de tudo o que me retinha lá, e daquele que nada mais terá de mim, exceto uma carta. Uma sensatez frouxa e lúcida afasta-me do intento de revê-lo: nada de "leais explicações" entre nós! Uma heroína como eu, feita de carne como sou, não tem o poder de triunfar sobre todos os demônios... Que me despreze, que me maldiga um pouco: isto lhe seria até benéfico - pobre querido, curar-se-á mais depressa! Não, não, nada de muita honestidade! E nada de muito fraseado, pois que é calando que eu o poupo...

Num passo sonolento, puxando um carrinho com uma mala, um homem atravessa as vias. E logo em seguida acendem-se os globos elétricos da estação. Meio entorpecida, levanto-me. Não me havia apercebido de que tinha frio: estou gelada... No fim do cais, uma lanterna saltita, dentro do breu, no balanço de um braço que não se vê. Um silvo longínquo responde à voz rouca das sirenas: é o trem. Já é o trem...

Adeus, meu querido. Sigo para uma cidadezinha não muito distante daqui; depois, com certeza, partirei para a América, com Brague. Isso quer dizer que não nos veremos mais, meu querido. Não creia tratar-se de uma brincadeira, uma cruel resposta ao que você me escreveu ontem: "Será, minha Renée, que já não me ama mais?"

Vou-me embora, Max, e é esse o menor mal que lhe posso causar. Não se trata de uma perfídia da minha parte, não. A verdade é que me sinto gasta, e como que incapaz de retomar o hábito do amor - apavora-me a ideia de ter ainda que sofrer por causa dele.

Não me julgava assim tão covarde, não é, meu querido? Que exíguo coração eu devo ter! Sei que outrora, entretanto, ele seria mui digno do seu, que se oferece tão simplesmente. Mas, agora... que poderei dar-lhe agora, meu querido? O melhor que possuo, dentro de alguns anos, seria convertido naquela maternidade malograda que uma mulher sem filhos costuma trasladar para o marido. Você não a aceitaria, e nem eu tampouco. É pena... Há dias, você sabe - eu, que me vejo envelhecer com um terror resignado -, em que vejo a velhice como recompensa...

Deixe que o tempo passe, meu querido, e compreenderá o que estou dizendo. Compreenderá que eu não devia mesmo, não poderia ter sido sua, nem de ninguém mais, e que, a despeito de um primeiro casamento e de um segundo amor, fiquei sendo uma espécie de solteirona... Solteirona, que, como algumas delas, é tão apaixonada pelo Amor que amor algum lhe pareceria suficientemente belo, e que recusa todos, sem qualquer explicação; são essas, que representam todas as ligações sentimentais imperfeitas e voltam a sentar-se à janela, debruçadas sobre a agulha, num eterno colóquio com a sua incomparável quimera... Como essas, eu quis tudo; e um erro lamentável puniu-me.

Não ouso mais, aí está, meu querido, não ouso mais. Não se revolte pelo fato de eu lhe ter escondido por tanto tempo os esforços que fiz para ressuscitar em mim o entusiasmo, o fatalismo aventureiro, a esperança cega, toda a alegre escolta do amor... Não houve outro delírio, fora o dos meus sentidos. Mas, também, não houve outro cujas trevas fossem mais lúcidas! E você, Max, havia de consumir-me em vão, você que, com o seu olhar, com os seus lábios, com suas pacientes carícias e seu comovente silêncio, logrou curar-me, ainda que por pouco tempo, de uma derrocada cuja culpa não lhe cabe...

Adeus, meu querido. É longe de mim que você deve procurar a juventude, a fresca beleza intata, a fé no futuro e em você mesmo, e o amor, enfim, tal como você o merece, tal como outrora eu poderia ter-lhe dado. Não me procure. As únicas forças que me restam, poupe-mas, preciso delas para fugir-lhe. Se você entrasse aqui, e eu o tivesse à minha frente, agora, enquanto lhe escrevo... não, mas você não entrará!

Adeus, meu querido. Você é o único ser sobre a terra a quem chamo de "meu querido" - fora você, não tenho outra pessoa a quem possa chamar assim. Envolva-me, pela última vez, como quando eu tinha frio, abrace-me bem apertado, bem apertado, bem apertado...

Renée

Escrevi lentamente, mui lentamente; antes de assinar, reli a carta, aperfeiçoei os traços da caligrafia, acrescentei pontos, acentos e pus a data: 15 de maio, 7 horas da manhã...

Mas, ainda que assinada, datada e finalmente fechada, não deixou de ser uma carta incompleta... Tornarei a abri-la?... Eis-me subitamente tiritante, como se, ao fechar este envelope, houvesse vedado uma janela luminosa da qual me viesse ainda algum calor...

É uma manhã sem sol, e o frio do inverno parece haver-se refugiado neste pequeno salão atrás destas persianas trancadas há quarenta dias...

Sentada a meus pés, minha cachorra, muito quieta, fita a porta: espera. Espera alguém que não mais virá... Ouço Blandine mexer com panelas, sinto o cheiro de café moído: a fome contrai-me desagradavelmente o estômago. Um pano gasto cobre o divã, uma umidade azulada embaça o espelho... Não me esperavam tão cedo. Tudo está coberto pelas velhas capas, pelo bolor, pela poeira, tudo conserva ainda a aparência um tanto fúnebre da partida e da ausência. Atravesso furtivamente o "meu lar", sem mesmo tocar nas capas dos móveis, sem rabiscar, no veludo da poeira, um nome que seja, sem deixar outro traço da minha passagem além desta carta inacabada.

Inacabada... Caro intruso que eu quis amar, poupo-o. Deixo-lhe a única oportunidade de crescer a meus olhos: afasto-me. A minha carta lhe causará tristeza, tristeza, nada mais. Não saberá a que humilhante confrontação escapa, nem de que debate você foi a recompensa, recompensa que desdenho...

Sim, pois que o rejeito, e escolho... escolho tudo que não seja você. Eu já o conhecia, e reconheço-o agora. Não será por acaso aquele que, acreditando dar, monopoliza? Você veio para compartilhar da minha vida... Compartilhar, sim: desfrutar do seu quinhão! Estar mais ou menos a par dos meus atos, introduzir-se a toda hora no pagode secreto dos meus pensamentos, não é isso? Por que você e não outro? Eu o fechei a todos.

Você é bom, com a melhor boa-fé do mundo pretendia trazer-me felicidade, pois que me viu despojada e solitária. Mas, na verdade, você não contou com o meu orgulho de pobre: os mais mais belos lugares da terra, recuso-me a contemplá-los, tão pequenos me parecem no espelho amoroso do seu olhar...

A felicidade? Você está certo de que doravante a felicidade me bastará?... Não é só a felicidade que dá valor à vida. Você queria iluminar-me com esta aurora banal, pois lamentava a minha obscuridade. Obscura, se quiser: como um quarto visto de fora. Não: sou sombria, não obscura. Sombria, e preparada pelos zelos de uma vigilante tristeza, crepuscular e prateada como a coruja, como o sedoso camundongo, como a asa da traça. Sombria, como o vermelho reflexo de uma pungente lembrança... Mas você é aquele diante do qual eu não teria mais o direito de ser triste...

Fujo, mas ainda não me libertei de si, sei bem. Vagabunda, e livre, ainda hei de ansiar pela sombra de suas paredes... Por quantas vezes ainda, caro apoio que me repousa e me fere, quantas vezes ainda hei de procurá-lo? Quanto tempo levarei evocando o que você poderia ter-me dado, a longa volúpia, interrompida, atiçada, renovada... e a queda dulcíssima, e a vertigem em que as forças ressuscitam da própria morte... e o odor de sândalo queimado e de erva pisada... Ah! você será, por muito tempo, uma das sedes da minha estrada!

Desejá-lo-ei, ora como o fruto suspenso, ora como a água longínqua, ora como a casinha tranquila e venturosa em que roço... Deixo, em cada lugar dos meus errantes desejos, milhares e milhares de sombras à minha imagem e semelhança. Esta, aqui, sobre a pedra quente e azul dos despenhadeiros da minha terra; aquela, lá, na cova úmida de um vale sem sol; esta outra vai seguindo o pássaro, a vela, o vento e a vaga. Você conserva a mais tenaz: uma sombra nua, ondulante, que o prazer agita como uma erva num ribeiro... Mas nem ela escapará ao tempo: será dissolvida como as outras e você nada mais saberá a meu respeito, até o dia em que cessem os meus passos, e em que, da sua Renée, se desprenda a última e a menor das sombras...



(A Vagabunda; tradução de Juracy Daisy Marchese)




(Ilustração: Andrew Wyeth - day-dream)



sábado, 14 de junho de 2014

LUGAR, de Iacyr Anderson Freitas






Nunca tivemos lugar neste mundo.

Ontem amávamos tanto
o que agora esquecemos.

Amanhã venderemos a qualquer preço
o que hoje nos faz
mudar de endereço.

Por isso invejamos aquela árvore:
porque soube
qual era o lugar, porque nele soube
deixar raízes

e em silêncio
levitar. 



(Ilustração: Cézanne - Avignon)



quarta-feira, 11 de junho de 2014

CARTA 10, DA MARQUESA DE MERTEUIL AO VISCONDE DE VALMONT, de Choderlos de Laclos








Está aborrecido comigo, visconde? Ou estará morto? Ou, como seria de seu feitio, tem vivido apenas para sua presidenta? Essa mulher, que lhe devolveu as ilusões da mocidade, logo haverá de devolver-lhe também seus ridículos preconceitos. Ei-lo então, já tímido e escravo; melhor seria estar apaixonado. Ei-lo que renuncia a suas bem sucedidas temeridades. Ei-lo, então, agindo sem princípios e entregando tudo ao acaso, ou melhor, ao capricho. Já não recorda que o amor, tal como a medicina, é tão somente a arte de ajudar a natureza? Como vê, estou a feri-lo com suas próprias armas; mas não tiro orgulho disso, pois é como ferir um homem caído. Ela precisa entregar-se, diz você. É, sem dúvida, precisa; e há de se entregar, como as outras, com a diferença de que o fará de má vontade. Para que ela acabe se entregando, porém, a melhor maneira é, antes de mais nada, tomá-la. Como essa ridícula distinção é, de fato, um legítimo disparate do amor! Diga-me, pois, ó amante langoroso: julga então ter violentado as mulheres que possuiu? Por mais vontade que tenhamos de nos entregar, por mais afoitas que sejamos, precisamos ainda assim, de um pretexto; e existe, para nós, pretexto mais cômodo que esse, que faz parecer que cedemos à força? Quanto a mim, confesso, uma das coisas que mais me lisonjeiam é uma investida intensa e bem conduzida, quando tudo se sucede ordenadamente, embora de forma rápida; que nunca nos deixe na penosa situação de termos de consertar nós mesmas uma falta de jeito que deveríamos, pelo contrário, aproveitar; que sabe manter a aparência de violência até nas coisas que concedemos, e contemplar habilmente nossas duas paixões prediletas, que são o orgulho da defesa e o prazer da derrota. Concedo que esse talento, mais raro do que se imagina, sempre me agradou, mesmo nas vezes em que não me seduziu, e mesmo acontecendo de, às vezes, eu me render por simples recompensa. Tal como, nos torneios de antigamente, a dama constituía o prêmio do valor e da destreza.

Mas você, que deixou de ser quem é, comporta-se como se tivesse medo de triunfar. Ora, desde quando é dado a viajar por etapas pequenas e caminhos secundários? Meu amigo, quem quer chegar usa cavalos de posta e a estrada principal! Mas basta desse assunto, que me deixa tão mais irritada quanto me priva do prazer de encontrá-lo. Ao menos escreva-me mais amiúde, dê-me notícias de seus progressos. Sabe que há quase quinze dias essa ridícula aventura o mantém ocupado, e tem negligenciado todo o mundo?

A propósito de negligência, você faz lembrar essas pessoas que mandam regularmente um criado pedir notícias dos amigos doentes, mas nunca o mandam esperar pela resposta. Você conclui sua última carta perguntando-me se o cavalheiro morreu. Não responde, e você nem por isso preocupou-se. Já não lembra que meu amante é seu amigo nato? Mas fique tranquilo, ele não morreu; e, se tivesse morrido, seria de excesso de alegria. Pobre cavalheiro, que terno ele é! Como foi feito para o amor! Como sabe sentir com intensidade! Chego a sentir-me tonta. Sério, sua perfeita felicidade em ser amado por mim faz com que eu de fato me afeiçoe muito a ele.

Naquele mesmo dia em que lhe escrevi que ia tratar de nosso rompimento, quão feliz eu o tornei! Contudo, estava seriamente matutando em como desesperá-lo, quando anunciaram sua visita. Quer por capricho, quer por razão, nunca me parecera tão bem. Recebi-o, no entanto, com certa irritação. Ele contava passar duas horas comigo, antes do horário em que minha casa estaria aberta a todos. Disse-lhe que estava para sair. Perguntou-me aonde eu ia. Neguei-me a dizê-lo. Ele insistiu. Onde o senhor não estiver, respondi com acrimônia. Ele, por sorte sua, quedou-se petrificado ante minha resposta; pois, se tivesse dito uma palavra sequer, a consequência inevitável teria sido uma cena conduzindo ao rompimento que eu planejava. Surpresa ante seu silêncio, ergui os olhos para ele com o único objetivo, juro-lhe, de ver a cara que fazia. Vi, naquele semblante encantador, aquela tristeza, a um tempo profunda e terna, à qual, você mesmo concordou, é bem difícil de resistir. A mesma causa produziu o mesmo efeito; fui vencida pela segunda vez. A partir daí, preocupei-me tão somente em evitar que ele enxergasse em mim alguma falha. "Estou saindo para tratar de um assunto", disse-lhe num tom um pouco mais suave, "um assunto que inclusive lhe diz respeito; mas não me faça mais perguntas. Vou jantar em casa; volte mais tarde, e terá a explicação." Ele então recobrou a fala, mas não permiti que fizesse uso dela. "Estou com muita pressa", prossegui. "Deixe-me, e até hoje à noite." Ele beijou minha mão e saiu.

Imediatamente, para compensá-lo, e talvez para compensar a mim mesma, decido mostrar-lhe minha petite maison1, de cuja existência ele nem sequer suspeitava. Chamo minha fiel Victoire. Estou com enxaqueca e, no que diz respeito à criadagem, de cama; enfim, a só com a legítima, visto-me de camareira, ao passo que ela assume a aparência de um lacaio. Em seguida, Victoire chama um fiacre à porta do jardim, e lá vamos nós. Ao chegar àquele templo do amor, escolho meu mais sedutor negligé, que é delicioso, e de minha concepção: nada revela, mas deixa adivinhar tudo. Prometo que lhe darei um molde para sua presidenta quando a tiver tornado digna de usá-lo.

Depois desses preparativos, enquanto Victoire trata de outros detalhes, leio um capítulo de Le Sopha, uma carta de Heloísa e dois contos de La Fontaine2 afim de repassar os diferentes tons que queria assumir. Entretanto, bate à porta meu cavalheiro, com a costumeira diligência. Meu porteiro nega-lhe a entrada, explica-lhe que estou doente: primeiro incidente. Ao mesmo tempo, entrega-lhe um bilhete meu, mas não com minha caligrafia, conforme minha prudente regra. Ele abre o bilhete e lê, pela mão de Victoire: "Às nove horas em ponto, no Boulevard3, em frente aos cafés". Ele comparece; lá um jovem lacaio que ele não conhece, ou pelo menos julga não conhecer, pois tratava-se de Victoire, pede-lhe que dispense seu carro e o acompanhe. Essa movimentação romanesca toda lhe excitava a mente, e uma mente excitada não faz mal nenhum. Ele chega afinal, e a surpresa e o amor causam-lhe um verdadeiro encantamento. Para dar-lhe tempo de se recompor, passeamos alguns momentos pelo bosque, e então o trago para a casa. Ele vê, de início, a mesa posta para dois; depois, uma cama arrumada. Passamos para a saleta, que estava em todo o seu esplendor. Ali, em parte por reflexão, em parte por sentimento, abraço-o e me deixo cair a seus pés. "Ah, meu amigo!", digo-lhe, "porque queria preparar-lhe a surpresa deste momento, lamento tê-lo afligido com um aparente mau humor; ter velado, por um momento, meu coração a seu olhar. Perdoe-me por meus erros, que quero expiar pelo amor." Pode imaginar o efeito causado por esse discurso sentimental. O feliz cavalheiro me fez levantar, e meu perdão foi selado naquela mesma otomana em que você e eu selamos tão alegremente e de igual maneira nosso eterno rompimento.

Como tínhamos seis horas a passar juntos, e que eu decidira que aquelas horas seriam  para ele deliciosas, moderei meus arroubos, e a amável faceirice veio substituir a ternura. Creio que nunca me empenhei tanto em agradar, nem nunca me senti tão satisfeita comigo mesma. Após o jantar, alternando meninice e sensatez, brincadeira e sensibilidade, e às vezes até licenciosidade, diverti-me imaginando-o como a um sultão em seu serralho, do qual eu era sucessivamente as diferentes favoritas. Com efeito, seus reiterados galanteios foram a cada vez recebidos, embora pela mesma mulher, por uma nova amante.

Por fim, ao raiar do dia, foi preciso separar-nos; e o que quer que ele me dissesse, o que quer que fizesse, inclusive, para demonstrar o contrário, estava tão precisado disso como pouco desejoso. Ao sairmos, e à guisa de último adeus, peguei a chave do ditoso refúgio e, pondo-a em suas mãos, disse-lhe: "Só por sua causa adquiri esta casa; é justo que seja seu dono: ao sacrificador cabe dispor do templo"4. Por meio dessa astúcia, preveni as reflexões que poderiam lhe suscitar de ir até lá sem ele, resta-me uma cópia da chave. Ele quis a todo custo marcar um dia para voltarmos lá, mas ainda o amo demasiado para querer gastá-lo com tanta pressa. Só podemos nos permitir excessos com quem queremos abandonar em breve. Ele não sabe disso; mas, por sorte dele, eu sei por ambos.

Percebo que são três horas da manhã, que escrevi um volume inteiro quando só pretendia escrever um bilhete. Tal é o encanto da amizade confiante: graças a ela você ainda é aquele de quem mais gosto; na verdade, porém o cavalheiro é o que mais me agrada.

De...., neste 12 de agosto de 17**.



Notas:

(1) Uma "petite maison" era uma casa discreta nos faubuourgs (i. e., fora dos muros da cidade), na qual os amantes se encontravam secretamente com fins libidinosos.

(2) Le Sopha (1745), famoso romance de Crébillon filho; Julie ou La Nouvelle Heloïse de Rousseau; e os contos licenciosos de La Fontaine.

(3) Só existia um bulevar no lugar das antigas muralhas, poeto dos atuais bulevares de Bonne-Nouvelle e Saint-Martin. A maior parte dos bulevares modernos de Paris foram construídos na década de 1850 pelo barão Haussmann.

(4) A petite maison é um templo do amor. A literatura erótica contemporânea usava com frequência a metáfora religiosa.


(As relações perigosas; tradução de Dorothée de Bruchard)



(Ilustração: Terry Rogers - duo)




domingo, 8 de junho de 2014

ODE ON MELANCHOLY/ ODE À MELANCOLIA, de John Keats






I.


NO, no, go not to Lethe, neither twist
Wolfs-bane, tight-rooted, for its poisonous wine;
Nor suffer thy pale forehead to be kiss’d
By nightshade, ruby grape of Proserpine;
Make not your rosary of yew-berries,
Nor let the beetle, nor the death-moth be
Your mournful Psyche, nor the downy owl
A partner in your sorrow’s mysteries;
For shade to shade will come too drowsily,
And drown the wakeful anguish of the soul.

II.

But when the melancholy fit shall fall
Sudden from heaven like a weeping cloud,
That fosters the droop-headed flowers all,
And hides the green hill in an April shroud;
Then glut thy sorrow on a morning rose,
Or on the rainbow of the salt sand-wave,
Or on the wealth of globed peonies;
Or if thy mistress some rich anger shows,
Emprison her soft hand, and let her rave,
And feed deep, deep upon her peerless eyes.

II.

She dwells with Beauty - Beauty that must die;
And Joy, whose hand is ever at his lips
Bidding adieu; and aching Pleasure nigh,
Turning to poison while the bee-mouth sips:
Ay, in the very temple of Delight 25
Veil’d Melancholy has her sovran shrine,
Though seen of none save him whose strenuous tongue
Can burst Joy’s grape against his palate fine;
His soul shall taste the sadness of her might,
And be among her cloudy trophies hung.


Poems (published 1820)




Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos:



I

Não, não vás ao Letes, nem retorças as raízes
Em feixes do acônito para forjar o vinho venenoso;
Nem deixes tua pálida fronte ser beijada
Pela beladona, uva, rubi de Prosérpina;
Não faças teu rosário com as bagas dos teixos,
Nem deixes o besouro, ou a mariposa da morte
Ser tua lúgubre Psiquê, nem a coruja de penas macias
Ser parceira dos mistérios da tua dor;
Sombra a sombra letárgica virá,
E afogará a angústia desperta da alma.

II

Mas quando o ataque da melancolia cair
Súbito do céu qual nuvem em pranto,
Que revigora as flores cabisbaixas,
E vela a verde colina na mortalha de Abril;
Farta então a dor na rosa da manhã,
Ou no arco-íris da onda salgada na areia,
Ou na abundância das peônias globulares;
Ou se tua amada demonstrar ira intensa,
Ata-lhe a mão suave, e a deixa delirar,
E nutra-te fundo, fundo nos teus olhos ímpares.

III

Ela mora com a beleza - Beleza que fenecerá;
E com a alegria, cuja mão nos lábios sempre
Se despede; junto ao doloroso prazer,
Virando veneno enquanto a boca-abelha sorve.
Sim, e no próprio templo do deleite
A velada melancolia tem seu santuário supremo,
Embora apenas o vislumbre aquele cuja língua audaz
Estala no céu da boca a uva da alegria;
Sua alma provará a tristeza de teu poder,
E penderá em meio a seus nebulosos troféus.




(Ilustração: Jacques-Louis David - Cupidon et Psyché)