sábado, 30 de julho de 2016

MUSA, de Sophia de Mello Breyner Andresen









Musa ensina-me o canto

Venerável e antigo

O canto para todos

Por todos entendido



Musa ensina-me o canto

O justo irmão das coisas

Incendiador da noite

E na tarde secreto



Musa ensina-me o canto

Em que eu mesma regresso

Sem demora e sem pressa

Tornada planta ou pedra



Ou tornada parede

Da casa primitiva

Ou tornada o murmúrio

Do mar que a cercava



(Eu me lembro do chão

De madeira lavada

E do seu perfume

Que atravessava)



Musa ensina-me o canto

Onde o mar respira

Coberto de brilhos

Musa ensina-me o canto

Da janela quadrada

E do quarto branco



Que eu possa dizer como

A tarde ali tocava

Na mesa e na porta

No espelho e no corpo

E como os rodeava



Pois o tempo me corta

O tempo me divide

O tempo me atravessa

E me separa viva

Do chão e da parede

Da casa primitiva



Musa ensina-me o canto

Venerável e antigo

para prender o brilho

Dessa manhã polida

Que poisava na duna

Docemente os seus dedos

E caiava as paredes

Da casa limpa e branca



Musa ensina-me o canto

Que me corta a garganta



(Livro Sexto - 1962)





(Ilustração: Richard Emil Miller)




quarta-feira, 27 de julho de 2016

O LEÃO E O RATO, de Millôr Fernandes






Depois que o Leão desistiu de comer o rato porque o rato estava com espinho no pé (ou por desprezo, mas dá no mesmo), e, posteriormente, o rato, tendo encontrado o Leão envolvido numa rede de caça, roeu a rede e salvou o Leão (por gratidão ou mineirice, já que tinha que continuar a viver na mesma floresta), os dois, rato e Leão, passaram a andar sempre juntos, para estranheza dos outros habitantes da floresta (e das fábulas). E como os tempos são tão duros nas florestas quanto nas cidades, e como a poluição já devastou até mesmo as mais virgens das matas, eis que os dois se encontraram, em certo momento, sem ter comido durante vários dias. Disse o Leão:

– Nem um boi. Nem ao menos uma paca. Nem sequer uma lebre. Nem mesmo uma borboleta, como hors-d’oeuvres de uma futura refeição.

Caiu estatelado no chão, irado ao mais fundo de sua alma leonina. E, do chão onde estava, lançou um olhar ao rato que o fez estremecer até a medula. “A amizade resistiria à fome? ” – pensou ele. E, sem ousar responder à própria pergunta, esgueirou-se pé ante pé e sumiu da frente do amigo (?) faminto.

Sumiu durante muito tempo. Quando voltou, o Leão passeava em círculos, deitando fogo pelas narinas, com ódio da humanidade. Mas o rato vinha com algo capaz de aplacar a fome do ditador das selvas: um enorme pedaço de queijo Gorgonzola que ninguém jamais poderá explicar onde conseguiu (fábulas!). O Leão, ao ver o queijo, embora não fosse animal queijífero, lambeu os beiços e exclamou:

– Maravilhoso, amigo, maravilhoso! Você é uma das sete maravilhas! Comamos, comamos! Mas, antes, vamos repartir o queijo com equanimidade. E como tenho receio de não resistir à minha natural prepotência, e sendo ao mesmo tempo um democrata nato e confirmado, deixo a você a tarefa ingrata de controlar o queijo com seus próprios e famélicos instintos. Vamos, divida você, meu irmão! A parte do rato para o rato; para O Leão, a parte do Leão.

A expressão ainda não existia naquela época, mas o rato percebeu que ela passaria a ter uma validade que os tempos não mais apagariam. E dividiu o queijo como o Leão queria: uma parte do rato, outra parte do Leão. Isto é: deu o queijo todo ao Leão e ficou apenas com os buracos. O Leão segurou com as patas o queijo todo e abocanhou um pedaço enorme, não sem antes elogiar o rato pelo seu alto critério:

– Muito bem, meu amigo. Isso é que se chama partilha. Isso é que se chama justiça. Quando eu voltar ao poder, entregarei sempre a você a partilha dos meus bens que me couberem no litígio com os súbditos.

Você é um verdadeiro e egrégio meritíssimo! Não vai se arrepender!

E o ratinho, morto de fome, riu o riso menos amarelo que podia, e ainda lambeu o ar para o Leão pensar que lambia os buracos do queijo. E enquanto lambia o ar, gritava, no mais forte que podiam seus fracos pulmões:

– Longa vida ao Rei Leão! Longa vida ao Rei Leão!

MORAL : Os ratos são iguaizinhos aos homens.




(Ilustração:Monica Cook)


domingo, 24 de julho de 2016

LOS PORTADORES DE SUEÑOS / OS PORTADORES DE SONHOS, de Gioconda Belli





En todas las profecías
está escrita la destrucción del mundo.
Todas las profecías cuentan
que el hombre creará su propia destrucción.

Pero los siglos y la vida
que siempre se renueva
engendraron también una generación
de amadores y soñadores;
hombres y mujeres que no soñaron
con la destrucción del mundo,
sino con la construcción del mundo
de las mariposas y los ruiseñores.

Desde pequeños venían marcados por el amor.
detrás de su apariencia cotidiana
guardaban la ternura y el sol de medianoche.
Las madres los encontraban llorando
por un pájaro muerto
y más tarde también los encontraron a muchos
muertos como pájaros.
Estos seres cohabitaron con mujeres traslúcidas
y las dejaron preñadas de miel y de hijos verdecidos
por un invierno de caricias.
Así fue como proliferaron en el mundo los portadores sueños,
atacados ferozmente por los portadores de profecías
habladoras de catástrofes.
Los llamaron ilusos, románticos, pensadores de utopías
dijeron que sus palabras eran viejas
y, en efecto, lo eran porque la memoria del paraíso
es antigua al corazón del hombre.
Los acumuladores de riquezas les temían
lanzaban sus ejércitos contra ellos,
pero los portadores de sueños todas las noches
hacían el amor
y seguía brotando su semilla del vientre de ellas
que no sólo portaban sueños sino que los
multiplicaban y los hacían correr y hablar.
De esta forma el mundo engendró de nuevo su vida
como también había engendrado
a los que inventaron la manera
de apagar el sol.

Los portadores de sueños sobrevivieron a los
climas gélidos pero en los climas cálidos casi parecían brotar por
generación espontánea.
Quizá las palmeras, los cielos azules, las lluvias
torrenciales tuvieron algo que ver con esto,
la verdad es que como laboriosas hormiguitas
estos especimenes no dejaban de soñar y de construir
hermosos mundos,
mundos de hermanos, de hombres y mujeres que se
llamaban compañeros,
que se enseñaban unos a otros a leer, se consolaban
en las muertes,
se curaban y cuidaban entre ellos, se querían, se
ayudaban en el
arte de querer y en la defensa de la felicidad.

Eran felices en su mundo de azúcar y de viento,
de todas partes venían a impregnarse de su aliento,
de sus claras miradas,
hacia todas partes salían los que habían conocido
portando sueños soñando con profecías nuevas
que hablaban de tiempos de mariposas y ruiseñores
y de que el mundo no tendría que terminar en la
hecatombe.
Por el contrario, los científicos diseñarían
puentes, jardines, juguetes sorprendentes
para hacer más gozosa la felicidad del hombre.


Son peligrosos - imprimían las grandes rotativas
Son peligrosos - decían los presidentes en sus discursos
Son peligrosos - murmuraban los artífices de la guerra.
Hay que destruirlos - imprimían las grandes rotativas
Hay que destruirlos - decían los presidentes en sus discursos
Hay que destruirlos - murmuraban los artífices de la guerra.

Los portadores de sueños conocían su poder
por eso no se extrañaban
también sabían que la vida los había engendrado
para protegerse de la muerte que anuncian las
profecías y por eso defendían su vida aun con la muerte.
Por eso cultivaban jardines de sueños
y los exportaban con grandes lazos de colores.
Los profetas de la oscuridad se pasaban noches y días enteros
vigilando los pasajes y los caminos
buscando estos peligrosos cargamentos
que nunca lograban atrapar
porque el que no tiene ojos para soñar
no ve los sueños ni de día, ni de noche.

Y en el mundo se ha desatado un gran tráfico de
sueños que no pueden detener los traficantes de la muerte;
por doquier hay paquetes con grandes lazos
que sólo esta nueva raza de hombres puede ver
la semilla de estos sueños no se puede detectar
porque va envuelta en rojos corazones
en amplios vestidos de maternidad
donde piesecitos soñadores alborotan los vientres
que los albergan.

Dicen que la tierra después de parirlos
desencadenó un cielo de arcoiris
y sopló de fecundidad las raíces de los árboles.
Nosotros sólo sabemos que los hemos visto
sabemos que la vida los engendró
para protegerse de la muerte que anuncian las
profecías.


Tradução de Celso Japiassu:


Em todas as profecias
está prevista a destruição do mundo.
Todas as  profecias dizem
que o homem criará sua própria destruição.

Porem os séculos e a vida que sempre se renovam
criariam também uma geração de amantes
e sonhadores;
homens e mulheres que não sonharam com a
destruição do mundo,
e sim com a construção do mundo das mariposas
e dos rouxinóis.

Desde pequeninos vinham marcados pelo amor.
Por trás de sua aparência cotidiana
guardavam a ternura e o sol da meia-noite.
Suas mães os encontraram chorando
por um pássaro morto
e mais tarde muitos foram encontrados
mortos como pássaros.
Estes seres coabitaram com mulheres translúcidas
e elas ficaram prenhes de mel e de filhos reverdecidos
por um inverno de carícias.
Foi assim que proliferaram no mundo os portadores
de sonhos,
atacados ferozmente pelos portadores de profecias
que falavam
de catástrofes.
Foram chamados iludidos, românticos, pensadores de
utopias,
disseram que suas palavras eram velhas
- e de fato eram porque a memória do paraíso
é antiga
no coração do homem -
os acumuladores de riquezas os temiam
e lançavam seus exércitos contra eles,
mas os portadores de sonhos faziam amor
todas as noites
e do seu ventre brotava a semente
que não somente portava sonhos mas que os
multiplicavam
e os fazia correr e falar.
E assim o mundo criou de novo a sua vida
da mesma forma que havia criado os que inventaram
a maneira
de apagar o sol.

Os portadores de sonhos sobreviveram aos
climas  gélidos
e nos climas quentes pareciam brotar por
geração espontânea.
Quem sabe as palmeiras, os céus azuis, as chuvas
torrenciais
tiveram a ver com isso,
a verdade é que, como formiguinhas operárias
estes espécimes não deixavam de sonhar e construir
mundos formosos,
mundo de irmãos, de homens e mulheres que se
chamavam companheiros,
que se ensinavam a ler uns aos outros, consolavam-se
diante da morte,
se curavam e se cuidavam entre si,
se ajudavam
na arte de querer e na defesa da felicidade.

Eram felizes em seu mundo de açúcar e de vento
e de todas as partes vinha gente impregnar-se de alento
e de suas claras percepções
e de lá partiam os que os haviam
conhecido
portando sonhos,
sonhando com novas profecias
que falavam de tempos de mariposas e rouxinóis,
onde o mundo não haveria de findar na
hecatombe
mas onde os cientistas desenhariam
fontes, jardins, brinquedos surpreendentes
para fazer mais gostosa a felicidade do homem.
São perigosos - imprimiam as grandes rotativas
São perigosos - diziam os presidentes em seus discursos

São perigosos - murmuravam os artífices da guerra
Devem ser destruídos - imprimiam as grandes rotativas
Devem ser destruídos - diziam os presidentes em seus discursos
Devem ser destruídos - murmuravam os artífices da guerra.

Os portadores de sonhos conheciam seu poder
e por isso nada achavam de estranho
E sabiam também que a vida os havia criado
para proteger-se da morte que as profecias
anunciam
E por isso defendiam sua vida até a morte
E por isso cultivavam os jardins de sonhos
e os exportavam com grandes laços coloridos
e os profetas obscuros passavam noites
e dias inteiros
vigiando as passagens e os caminhos
procurando essas cargas perigosas
que nunca conseguiram encontrar
porque quem não tem olhos para sonhar
não enxerga os sonhos nem de dia, nem de noite.

E no mundo sucedeu um grande tráfico
de sonhos
que os traficantes da morte não podiam estancar;
em todas as partes há pacotes com laços de fita
que só esta nova raça de homens pode ver
e a semente destes sonhos não se pode detectar
porque está envolta em corações vermelhos
ou em amplos vestidos de maternidade
onde pezinhos sonhadores sapateiam nos ventres
que os carregam.

Dizem que a terra depois de os haver parido
desencadeou um céu de arco-íris
e soprou de fecundidade as raízes das árvores.
Nós sabemos que os vimos
Sabemos que a vida os criou
para proteger-se da morte que as profecias
anunciam.



(Ilustração: Mais Mkhitaryan)




quinta-feira, 21 de julho de 2016

O VIÚVO, de Artur Azevedo





Na véspera de partir para a Europa, o doutor Claudino, sem prever o fúnebre espetáculo de que ia ser testemunha, foi despedir-se do seu velho camarada Tertuliano.

Ao aproximar-se da casa, ouviu berreiro de crianças e mulheres, e a voz de Tertuliano, que dominava de vez em quando o alarido geral, soltando, num tom estrídulo e angustioso, esta palavra: “Xandoca”.

O doutor Claudino apressou o passo, e entrou muito aflito em casa do amigo.

Havia, efetivamente, motivo para toda aquela manifestação de desespero. Tertuliano acabava de enviuvar. Havia meia hora que dona Xandoca, vítima de uma febre puerperal, fechara os olhos para nunca mais abri-los.

O corpo, vestido de seda preta, as mãos cruzadas sobre o peito, estava colocado num canapé, na sala de visitas. À cabeceira, sobre uma pequena mesa coberta por uma toalha de rendas, duas velas de cera substituíam, aos dous lados de um crucifixo, o bom e o mau ladrão.

Tertuliano, abraçado ao cadáver, soluçava convulsamente, e todo o seu corpo tremia como tocado por uma pilha elétrica. Os filhos, quatro crianças, a mais velha das quais teria oito anos, rodeavam-no aos gritos.

Na sala havia um contínuo fluxo e refluxo de gente que entrava e saía, pessoas da vizinhança, chorando muito, e indivíduos que, passando na rua, ouviam gritar e entravam por mera curiosidade.

O doutor Claudino estava impressionadíssimo. Caíra de supetão no meio daquele espetáculo comovedor, e contemplava atônito o cadáver da pobre senhora que, havia quatro dias, encontrara na rua da Carioca, muito alegre, levando um filho pela mão e outro no ventre, arrastando vaidosa a sua maternidade feliz.

Tertuliano, mal que o viu, atirou-se-lhe nos braços, inundando-lhe de lágrimas a gola do casaco; o doutor Claudino estava atordoado, cego, com os vidros do pince-nez embaciados pelo pranto, que tardou, mas veio discreta, reservadamente, como um pranto que não era da família.

– Isto foi uma surpresa… uma dolorosa surpresa para mim – conseguiu dizer com a voz embargada pela comoção. – Parto amanhã para a Europa, no Níger… vinha despedir-me de ti… e dela… de dona Xandoca e… vejo que… que… que…

E o doutor Claudino fez uma careta medonha para não soluçar.

– Dispõe de mim, meu velho; estou às tuas ordens, bem sabes.

– Obrigado – disse Tertuliano numa dessas intermitências que se notam nos maiores desabafos – o Rodrigo, aquele meu primo empregado no foro, já foi tratar do enterro, que é amanhã às dez horas.

Fazendo grandes esforços para reprimir a explosão das lágrimas, o viúvo contou ao doutor Claudino todos os incidentes da rápida moléstia e da morte de dona Xandoca.

– Uma coisa inexplicável! Nunca a pobre criatura teve um parto tão feliz… A parteira não esperou cinco minutos... Uma criança gorda, bonita… Está lá em cima, no sótão… hás de vê-la. De repente, uma pontinha de febre que foi aumentando, aumentando… até vir o delírio… Mandei chamar o médico… Quando o médico chegou, já ela agoniza… a… va!…

E Tertuliano, prorrompendo em soluços, abraçou-se de novo ao doutor Claudino.

No dia seguinte, a cena foi dolorosíssima. Antes de se fechar o caixão, Tertuliano quis que os filhos beijassem o cadáver, medonhamente intumescido e decomposto. Ninguém reconhecia dona Xandoca, tão simpática, tão graciosa, naquele montão informe de carne pútrida.

Fecharam o caixão, mas Tertuliano agarrou-se a ele e não o queria deixar sair, gritando: – Não consinto! não quero que a levem, daqui! – Foi preciso arrancá-lo à força e empurrá-lo para longe.

Ele caiu e começou a escabujar no chão, soltando grandes gritos nervosos. Três senhoras caíram também com espetaculosos ataques. As crianças berravam. Choravam todos.

De volta do enterro, o doutor Claudino, conquanto muito atarefado com a viagem, não quis deixar de fazer uma última visita a Tertuliano.

Encontrou-o num estado lastimoso, sentado numa cadeira da sala de jantar, sem dar acordo de si, rodeado pelos filhos, o olhar fixo no mísero recém-nascido, que a um canto da casa mamava sofregamente numa preta gorda.

– Tertuliano, adeus. Daqui a meia hora devo estar embarcando. Crê que, se pudesse, adiava a viagem para fazer-te companhia… Adeus!

O viúvo lançou-lhe um olhar vago, um olhar que nada exprimia; sacudiu molemente a mão, e murmurou:

– Adeus!

Às sete horas da noite o doutor Claudino, sentado na coberta do Níger, contemplando as ondas, esplendidamente iluminadas pelo luar, pensava naquele olhar vago de Tertuliano, naquele adeus terrível, e pedia aos céus que o seu velho camarada não houvesse enlouquecido.

Meses depois, a exposição de Paris atordoava-o; mas de vez em quando, lá mesmo, na Galeria das Máquinas, no Palácio das Artes, ou na Torre Eiffel, voltava-lhe ao espírito a lembrança daquela cena desoladora do viúvo rodeado pelos orfãozinhos, e repercutia-lhe dentro d’alma o som daquele adeus pungente e indefinível.

Interessava-se muito por Tertuliano. Escreveu-lhe um dia, mas não obteve resposta. Pobre rapaz! viveria ainda? a sua razão teria resistido àquele embate violento?

Depois de um ano e quatro meses de ausência, o doutor Claudino voltou da Europa, e a sua primeira visita foi para Tertuliano, que morava ainda na mesma casa.

Mandaram-no entrar para a sala de jantar. Tertuliano estava sentado numa cadeira, sem dar acordo de si, rodeado pelos filhos, o olhar fixo no mais pequenito, que estava muito esperto, brincando no colo da preta gorda.

– Tertuliano? – balbuciou o doutor Claudino.

O viúvo lançou-lhe um olhar vago, um olhar que nada exprimia; sacudiu molemente a mão, e murmurou:

– Adeus.

Depois, dir-se-ia que se fizera subitamente a luz no seu espírito embrutecido. Ele ergueu-se de um salto, gritando:

– Claudino! – e atirou-se nos braços do velho camarada, exclamando entre lágrimas: – Ah! meu amigo! perdi minha mulher!…

– Sim, eu sei, mas já tinhas tempo de estar mais consolado… Que diabo! Sê homem! Já lá se vão quatorze meses!…

– Como quatorze meses? seis dias…

– Ora essa! pois não te lembras que acompanhei o enterro de dona Xandoca?

– Ah! tu falas da Xandoca… mas há três meses casei-me com outra… a filha do major Seabra, e há seis dias estou viu…ú…vo! E Tertuliano, prorrompendo em soluços, abraçou-se de novo ao doutor Claudino.


(Contos fora de moda)



(Ilustração: Leonor Fini)



segunda-feira, 18 de julho de 2016

TO BROOKLYN BRIDGE / À PONTE DE BROOKLYN, de Hart Crane





How many dawns, chill from his rippling rest
The seagull’s wings shall dip and pivot him,
Shedding white rings of tumult, building high
Over the chained bay waters Liberty—

Then, with inviolate curve, forsake our eyes  
As apparitional as sails that cross
Some page of figures to be filed away;
—Till elevators drop us from our day ...

I think of cinemas, panoramic sleights
With multitudes bent toward some flashing scene
Never disclosed, but hastened to again,
Foretold to other eyes on the same screen;

And Thee, across the harbor, silver paced
As though the sun took step of thee yet left
Some motion ever unspent in thy stride,—
Implicitly thy freedom staying thee!

Out of some subway scuttle, cell or loft
A bedlamite speeds to thy parapets,
Tilting there momently, shrill shirt ballooning,
A jest falls from the speechless caravan.

Down Wall, from girder into street noon leaks,
A rip-tooth of the sky’s acetylene;
All afternoon the cloud flown derricks turn ...
Thy cables breathe the North Atlantic still.

And obscure as that heaven of the Jews,
Thy guerdon ... Accolade thou dost bestow
Of anonymity time cannot raise:
Vibrant reprieve and pardon thou dost show.

O harp and altar, of the fury fused,
(How could mere toil align thy choiring strings!
Terrific threshold of the prophet’s pledge,
Prayer of pariah, and the lover’s cry,

Again the traffic lights that skim thy swift
Unfractioned idiom, immaculate sigh of stars,
Beading thy path—condense eternity:
And we have seen night lifted in thine arms.

Under thy shadow by the piers I waited
Only in darkness is thy shadow clear.
The City’s fiery parcels all undone,
Already snow submerges an iron year ...

O Sleepless as the river under thee,
Vaulting the sea, the prairies’ dreaming sod,        
Unto us lowliest sometime sweep, descend
And of the curveship lend a myth to God.


Tradução de João de Mancelos:



Aurora após aurora, as gaivotas, de asas enregeladas
Pelo ondulante poiso, mergulham e rodopiam,
Derramando brancos anéis de tumulto, exibindo a sua liberdade
Nas alturas, sobre as águas agrilhoadas da baía.

Numa curva imaculada, as aves abandonam os nossos olhos,
Semelhantes ao fantasma de um veleiro que cruza
As facturas, os orçamentos e os balancetes a arquivar;
- A jornada termina e os ascensores libertam-nos do dia...

Sonho com as grandes salas de cinema, a magia panorâmica,
As multidões debruçadas sobre uma qualquer cena cintilante,
Uma profecia nunca revelada, incessantemente revista,
No mesmo écran, pelos espectadores da sessão seguinte.

E Tu, ó Ponte, caminhas sobre o porto, em passos de prata,
Como se o sol te imitasse, sem contudo copiar
O movimento do teu brilhante rasto, -
A tua livre originalidade assim preservada.

Fugido de alguma vigia de metrô, cave ou sótão,
Um lunático precipita-se para os teus parapeitos,
Oscila por um instante, a camisa berrante, enfunada,
Um gracejo tomba dos transeuntes espantados.

Através de Wall Street, dos andaimes até à rua, o meio-dia escorre
Como um rasgão luminoso no acetileno celeste;
Toda a tarde, os guindastes giram entre as nuvens...
Enquanto os teus cabos sorvem a calma do oceano.

A recompensa  que ofereces
É tão obscura quanto o paraíso bíblico;
Aqueles que resgatas do anonimato, o tempo jamais destruirá.
Só Tu és senhora da indulgência e do perdão.

Ó harpa e altar em fúria fundidos,
(Como pôde o simples labor humano alinhar a harmonia das tuas cordas)
Terrível limiar da aliança do profeta,
Da oração dos banidos, do pranto dos amantes.

Mais uma vez os faróis dos automóveis deslizam velozes
Pelo teu indiviso idioma, como suspiros estelares, imaculados,
Contas de um rosário que condensa a eternidade.
E contemplamos a noite erguida nos teus braços.

Junto às tuas sombras, encostado aos pilares, eu esperei;
Só na escuridão são claras as tuas trevas.
Os edifícios da cidade, submersos pela neve de  mais um ano,
lembram prendas de Natal desembrulhadas.

Insone como o rio que passa sob ti
Cobres o mar e sonhas com a turfa das pradarias.
Vem, ó Ponte, condescende com a nossa humildade,
E da tua curvatura empresta um mito a Deus.




(Ilustração: foto de Carmelo Bayarcal - Brooklyn Bridge, NYC)