segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A CIDADE, de Konstatinos Kaváfis









Dizes: “Eu vou para outras terras, eu vou para outro mar.
Hão de existir outras cidades melhores do que esta.
De todo o esforço feito – estava escrito – nada resta
e sepultado qual um morto eu tenho o coração.
Até quando vai minha alma ficar nesta inação?
Onde quer que eu olhe, para onde quer que eu volte a vista,
a negra ruína de minha vida é o que se avista,
eu que anos a fio cuidei de a estragar e dissipar.”

Não acharás novas terras, tampouco novo mar.
A cidade há de seguir-te. As ruas por onde andares
serão as mesmas. Os mesmos os bairros, os andares
das casas onde irão encanecer os teus cabelos.
A esta cidade sempre chegarás. Os teus anelos
são vãos, de para outra encontrar um barco ou um caminho.
A vida, pois, que dissipaste aqui, neste cantinho
do mundo, no mundo inteiro é que a foste dissipar.”



(Poemas, tradução de José Paulo Paes)



(Ilustração: De Chirico - Montparnasse)




domingo, 30 de agosto de 2009

ARCANJO MISTURA, de Mia Couto








Quando, há trinta anos atrás, Arcanjo Mistura desceu à praça e proclamou: “Vou fazer um poema!”, todos fugiram e se trancaram dentro de casa.

“Poema” era palavra cheirosa, causadora de temores e suspeitas. Na boca de Arcanjo podia mesmo ser o anúncio de catástrofe. Se alguma vez ele chegou a compor um poema, isso nunca se soube. Quando lhe perguntavam pelo cumprimento da ameaça, ele respondia: “Vila Longe não merece nem um epitáfio”. Os lugares morrem como os frutos: quando já não dão semente. Vila Longe se extinguira seca, murcha, indeiscente.

Na altura, Arcanjo Mistura era jovem, quase um estranho para os de Vila Longe. Passara a adolescência estudando no vizinho Malawi. Abandonara os estudos para se dedicar à política, nos meandros da capital. Fora preso e muitos acreditaram que tivesse morrido nas masmorras da Pide. De regresso à Vila, abriu a barbearia. Todos se espantaram: como é que um homem tão letrado aceitava uma ocupação tão modesta? Só depois se soube: a barbearia é um lugar em que se reduz o cabelo e crescem as línguas. É um bazar de conversas, um mercado de mexericos.

- Sou barbeiro não por profissão, mas por missão.

No escondido da sua loja, Arcanjo se actualizava sobre as realidades políticas e vontades das gentes. Todas as semanas enviava relatórios sobre a situação naquele fim do mundo. O confidencial destinatário tomava o nebuloso nome de “comité”. O barbeiro revolucionário bem podia estar seguro: ninguém na aldeia ouvira nunca tal palavra. E se alguém, alguma vez, leu esses relatórios, essa era uma outra questão, tão enigmática quanto o prometido poema.

Do Malawi, Arcanjo trouxera uma máquina fotográfica. Era ele que fixava os retratos dos locais e conduzia os rolos à cidade para revelação e impressão em papel. Quando regressava era uma festa, dezenas de mulheres e crianças apinhadas para espreitar as imagens. O que restava desse tempo glorioso era um velho e desbotado álbum de fotografias que jazia entre as cadeiras da barbearia.

Depois da Independência, Arcanjo tentou voltar à cidade grande. Levou com ele uma agenda de moradas e telefones. Começou visitando a casa do primeiro companheiro, o primeiro da lista. Tinha morrido. O segundo, igualmente morto. E o terceiro, idem. E Arcanjo ira riscando na sua agenda de bolso, um por um, os nomes dos antigos companheiros. Aos poucos, a agenda exibia mais riscos que nomes. Descobriu, então, que era ele mesmo que se estava apagando em cada risco. No final, a sua memória não era mais do que uma agenda inútil. Desistiu da cidade e regressou a Vila Longe. E fez-se barbeiro. Não tinham sido apenas os amigos que morreram. Falecera um tempo em que ele podia fazer amigos.

- É por isso que gosto da minha profissão. A gente corta o cabelo e ele volta a crescer.

Havia mais poesia num fio de cabelo do que em toda a multidão de imbecis de Vila Longe. Era esse o costumeiro desabafo de Arcanjo Mistura.


(O Outro Pé da Sereia)


(Ilustração: Irma Stern)





sábado, 29 de agosto de 2009

RAPSÓDIA SOBRE UMA NOITE DE VENTO, de T. S. Eliot







Meia noite.
Uma síntese lunar captura
Todas as fases da rua,
Sussurrantes sortilégios lunares
Dissolvem os planos da memória
E todas as suas límpidas tramas,
Divisões e precisos mecanismos.
Cada lampião que ultrapasso
Pulsa como um tambor fatídico,
E através das lacunas do escuro
A meia noite golpeia a memória
Como um louco brande um gerânio morto.

Uma e meia,
O lampião cuspia,
O lampião resmungava,
O lampião dizia: “Olha aquela mulher
Ao teu encontro hesitante à luz da porta
Que a recorta como um riso escarninho.
Repara-lhe a barra do vestido
Rasgada e suja de areia,
E o canto de seu olho que se arqueia
Como um grampo retorcido.”

A memória expele e disseca
Um turbilhão de coisas tortas;
Um ramo tortuoso sobre a praia
Polidamente carcomido e cinzelado
Como se o mundo erguesse à superfície
O segredo de seu esqueleto,
Rígido e alvadio.
A mola espatifada no pátio de uma fábrica,
A ferrugem que se aferra à forma
Que a força deixou tensa e enrodilhada
E pronta a abocanhar com uma dentada.

Duas e meia,
O lampião dizia:
“Observa o gato que na calha se adelgaça,
Espicha a sua língua e saboreia
Um naco rançoso de manteiga.”
Tal a mão do menino, automática,
Surrupiou e embolsou um brinquedo
Que ao longo do cais deslizava.
Eu nada podia ver atrás dos olhos do menino.
Tenho visto pela rua olhos que tentam
Emergir por entre iluminadas persianas,
E certa tarde um caranguejo vi na lama,
Um velho caranguejo em sua carcaça calcária
A agarrar-se à ponta do graveto que eu sustinha.

Três e meia,
O lampião cuspia,
O lampião no escuro resmungava,
O lampião zumbia:
“Olha a lua,
La lune ne garde aucune rancune.
Pisca um olho tímido,
Sorri pelas esquinas.
Alisa os cabelos de gramínea.
A lua perdeu a memória.
Bexigas descoradas ulceram-lhe a face.
Suas mãos retorcem uma rosa de papel
Que recende a pó e água de colônia.
Ela está só, em companhia
De todos os antigos eflúvios noturnos
Que lhe cruzam e entrecruzam o cérebro.”
Aflora a reminiscência
De secos gerânios pálidos
E de poeira nas frinchas,
Aroma de castanhas pela rua,
E odor de fêmea nas alcovas clandestinas,
E de cigarros pelos corredores
E de coquetéis nos bares.

O lampião disse:
“Quatro horas,
Eis o número sobre a porta.
Memória!
Tens a chave,
A luminária alastra um círculo na escada.
Sobe.
A cama é franca; a escova de dentes da parede pende,
Põe teus sapatos junto à porta, dorme, para vida te talha.”

O último talho da navalha.


(Poesia, tradução de Ivan Junqueira)

(Ilustração: Walter Sickert)




sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A ESCOLA, de Manuel Antônio de Almeida








Foi o barbeiro recebido na sala, que era mobiliada por quatro ou cinco longos bancos de pinho sujos já pelo uso, uma mesa pequena que pertencia ao mestre, outra maior onde escreviam os discípulos, toda cheia de pequenos buracos para os tinteiros; nas paredes e no teto havia penduradas uma porção enorme de gaiolas de todos os tamanhos e feitios, dentro das quais pulavam e cantavam passarinhos de diversas qualidades: era a paixão predileta do pedagogo.

Era esse um homem todo em proporções infinitesimais, baixinho, magrinho, de carinha estreita e chupada, excessivamente calvo; usava óculos, tinha pretensões de latinista, dava bolos nos discípulos por dá cá aquela palha. Por isso era uma dos mais acreditados da cidade. O barbeiro entrou acompanhado pelo afilhado, que ficou um pouco escabreado à vista do aspecto da escola, que nunca tinha imaginado. Era em um sábado; os bancos estavam cheios de meninos, vestidos quase todos de jaquetas ou robissões de lila, calça de brim escuro e uma enorme pasta de couro ou papelão pendurada por um cordel a tiracolo: chegaram os dois exatamente na hora da tabuada cantada. Era uma espécie de ladainha de números que se usava então nos colégios, cantada todos os sábados em uma espécie de cantochão monótono e insuportável, mas de que os meninos gostavam muito.

As vozes dos meninos, jutas ao canto dos passarinhos, faziam uma algazarra de doer os ouvidos; o mestre, acostumado àquilo, escutava impassível, com uma enorme palmatória na mão, e o menor erro que algum dos discípulos cometia na lhe escapava no meio de todo o barulho; fazia parar o canto, chamava o infeliz, emendava cantando o erro cometido, e cascava-lhe pelo menos seis puxados bolos. Era o regente da orquestra ensinando a marcar o compasso. O compadre expôs, no meio do ruído, o objeto de sua visita, e apresentou o pequeno ao mestre.

- Tem muito boa memória; soletra já alguma coisa, não lhe há de dar muito trabalho, disse com orgulho.

- E se mo quiser dar, tenho aqui o remédio; Sancta ferula! disse o mestre brandindo a palmatória.

O compadre sorriu-se, querendo dar a entender que tinha percebido o latim.

- É verdade: faz santos até as feras, disse traduzindo.

O mestre sorriu-se da tradução.




(Memórias de um Sargento de Milícias)


(Ilustração: Balthus)




quinta-feira, 27 de agosto de 2009

VÉSPERA, de Manuel de Andrade









Quatorze de março
mil novecentos e sessenta e nove.
É preciso…é imprescindível denunciar o compasso ameaçador destas horas,
descrever esta porta estreita que atravesso,
esta noite que me escorre numa ampulheta de pressentimentos.

Um desespero impessoal e sinistro paira sobre as horas…
O ano se curva sob um tempo que me esmaga
porque esmaga a pátria inteira…

Nossas canções silenciadas
nossos sonhos escondidos
nossas vidas patrulhadas
nossos punhos algemados
nossas almas devassadas.

Pelos ecos rastreados dos meus versos
chegam os pretorianos do regime.
Alguém já foi detido, interrogado, ameaçado
e por isso é necessário antecipar a madrugada.

E eis porque esse canto já nasce amordaçado
porque surge no limiar do pânico.
Meu testemunho é hoje um grito clandestino
meus versos não conhecem a luz da liberdade
nascem iluminados pelo archote da esperança
para se esconderem na silenciosa penumbra das gavetas.

Escrevo numa página velada pelo tempo
e num distante amanhecer
é que o meu canto irá florescer.

Escrevo num horizonte longínquo e libertário
e num tempo a ser anunciado pelo hino dos sobreviventes.
Escrevo para um dia em que os crimes destes anos puderem ser contados
para o dia em que o banco dos réus estiver ocupado pelos torturadores

Contudo, nesta hora, neste agora
o tempo se reparte pra quem parte
e um coração se parte nos corações que ficam…
O amanhecer caminha para desterrar os nossos gestos
para separar nossas mãos e nossos olhos
e nesta eternidade para pressentir o que me espera
já não há mais tempo para dizer quanto quisera.

Tudo é uma amarga despedida nesta longa madrugada
e neste descompassado palpitar,
contemplo meus livros perfilados de tristeza
retratos silenciosos de tantas utopias,
bússolas, faróis, retalhos da beleza.
Aceno a Cervantes, a Lorca, a Maiakovski
mas só Whitman seguirá comigo
nas suas páginas de relva
e no seu canto democrático.
Contemplo ainda os pedaços do meu mundo
nos amigos do penúltimo momento
nas lágrimas de um benquerer
na infância de minha filha
e nesse beijo de adeus em sua inocência adormecida.

Nesta agonia…
neste abismo de incertezas…
abre-se o itinerário clandestino dos meus passos.
De todos os caminhos
resta-me uma rota de fuga, outras fronteiras e um destino.
Das trincheiras escavadas e dos meus sonhos,
restou uma bandeira escondida no sacrário da alma
e no coração…
um passaporte chamado… liberdade.



(Cantares)


(Ilustração: Goya)






terça-feira, 25 de agosto de 2009

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI, de Eduardo Alves da Costa






Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!




(Ilustração: Edward Munch - o grito)



segunda-feira, 24 de agosto de 2009

UM GATINHO BRANQUINHO E LINDO, de Cláudia Ferrari











Assim como Bruna em relação ao sueco, às vezes eu estava passeando com meu namorado e sentia uma falta enorme das meninas. Me sinto sem chão quando elas não estão por perto. Ao mesmo tempo me sinto culpada por estar levando essa vida dupla. Meu namorado, apesar de ser calado e pacato, é uma pessoa maravilhosa. Responsável, trabalhador e tem um respeito enorme por mim. Ele tem tudo para ser um bom marido e um bom pai. Mas sei que ele jamais vai compreender minhas idéias, meu mundo e minha maneira de ver a vida; que nunca vou poder dividir como ele o que eu divido com as minhas amigas. Mas quem é que pode ter tudo nesta vida? Espero em algum momento poder sentir que ele é prioridade, gostar mais de estar com ele do que estar com elas. No dia em que isso acontecer, estarei pronta para sair da noite e começar uma nova fase. Mas, até lá, ainda tenho um longo tempo pela frente dentro do American Bar. Sei que ainda tenho muito para viver e aprender ao lado dessas meninas. E ainda terei que ouvir muitas histórias tristes, nos vestiários e banheiros, antes de olhar para o meu namorado e desejar que ele seja sempre diferente desse mundo sórdido no qual trabalho. Deixei o vestiário passando mal, com a pior história que eu ouvi desde que entre na noite. Sentei ao lado das meninas e fiquei calada por muito tempo. Estava chocada demais para abrir a boca. Além disso, não queria estragar aquele final de tarde. A Bel havia conhecido outras pessoas do meio artístico e estava tão animada. Quem sabe desta vez alguém a ajudasse de verdade? As meninas perceberam pelo meu jeito que eu havia escutado outra história escabrosa e estavam loucas de curiosidade para eu contar elas também. Era horrível demais e sei que depois que eu contasse, elas iam preferir não ter sabido. Mas insistiram tanto que não tive como não contar. Ainda perguntei, antes começar, se elas tinham certeza de que queriam ouvir. Ao invés de se sentirem poupadas de ouvir algo tão terrível, todo meu rodeio aguçou ainda mais a curiosidade delas. A garota obviamente estava chorando no banheiro. Disse para a colega que só fez o que fez porque precisava muito do dinheiro, que iam transferir o avô dela da UTI se o pagamento não fosse feito. O avô estava tão mal que a família sabia que se transferissem o velho seria o mesmo que assinar o atestado de óbito dele. Há dois dias que a menina não dormia, lembrando caso e tendo pesadelos. A Blanche pediu para que parasse de enrolar e contasse logo a história, porque elas não estavam mais aguentando de curiosidade. O caso foi que menina havia saído com um cliente da casa para um motel qualquer. Lá, os dois jantaram e conversaram normalmente, e o cara, pela conversa, até parecia normal. Era casado, tinha três filhos, um emprego estável e tudo mais. Depois do jantar o homem desceu até o carro dizendo que ia buscar uma coisinha para eles brincarem e, antes de descer, já deixou um cheque de três mil reais, vejam bem, três mil reais sobre a mesa. O homem voltou poucos minutos depois trazendo uma caixa fechada. Dentro da caixa a garota encontrou um gatinho de pouco mais de um mês, branquinho e lindo. A menina não compreendeu o que o cara queria até que, sobre a cama, ele derramou leite na menina para que o gatinho lambesse. A Bel fez cara de nojo e disse que já era o suficiente. “Mas o pior foi o que aconteceu depois”, eu continuei. As três arregalaram os olhos. A menina disse que o cara colocou uma camisinha no gatinho e pediu para Lea fazer um fio terra para ele. Com o gatinho! E quando o gatinho morreu asfixiado o cara gozou. As meninas, sem fazer um comentário, levantaram da mesa e foram embora, uma para cada lado. Eu sabia que elas agora preferiam que eu não tivesse contado o caso. Naquela noite não nos falamos mais e, pela primeira vez desde que nos conhecemos, deixamos o American Bar sem nos despedir.


(American Bar)


(Ilustração: Aldemir Martins)




domingo, 23 de agosto de 2009

O MASSACRE DOS BULEVARES, de Victor Hugo








De repente uma janela, dando diretamente para o inferno, foi aberta com violência. Estivesse Dante observando através das trevas, e teria reconhecido o oitavo círculo de seu poema no fatídico bulevar Montmartre. Um espetáculo horrendo - Paris nas garras de Bonaparte!



Os homens armados, amontoados no bulevar, foram tomados por um súbito frenesi. Não eram mais homens, mas sim demônios. Para eles não havia mais uma bandeira, nem lei, humanidade ou país. Para eles a França deixara de existir, e a morte percorria violentamente as suas almas. A divisão do ladrão Schinderhannes, as brigadas dos assassinos Mandrim, Cartouche, Poulailler, Trestaillon e Tropmann avançavam pela escuridão, atirando e assassinando por toda parte - pois não podemos atribuir as cenas que estavam se passando naquele melancólico eclipse de fé e honra ao Exército Francês.



A história vem, através dos tempos, nos deixando um legado de vários massacres hediondos, mas havia razão para cada um deles. São Bartolomeu e as perseguições tiveram sua origem em diferenças religiosas. As Vésperas Sicilianas e as Carnificinas de Setembro foram fruto de patriotismo. Em cada um destes casos, esmagaram o inimigo ou afastaram o estrangeiro; mas a matança do bulevar Montmartre foi um crime sem finalidade, ao qual nenhum motivo poderia ser atribuído. E no entanto uma razão, e uma razão muito terrível, existia. Vamos dizer qual era. Existem duas poderosas forças no estado - a lei e o povo. Um homem assassina a lei. Ele vê aproximar-se a hora de pagar, e não há mais nada a fazer senão assassinar o povo.



E ele o faz.



No segundo dia de dezembro, arriscaram-se, e no quarto dia desenvolveram o método para obter a sua segurança.



A indignação que crescia tinha de ser silenciada pelo terror abjeto.



Louis Bonaparte alcançou essa glória, e ao mesmo tempo chegou ao ápice de sua infâmia. Vamos contar como ele fez isso, e lembrar o que a história não viu - o assassinato de um povo por um homem!



Subitamente, a um dado sinal disparado de um mosquete - não importa onde ou por quem - abriu-se um fogo mortal de metralha contra a multidão. A metralha é em si mesma uma multidão; é morte a granel. Não se sabe de onde vem ou para onde vai; mata, e continua. E, no entanto, possui uma espécie de alma. Age premeditadamente e executa um plano. O movimento foi inesperado. Foi como um punhado de raios e trovões arremessados sobre o povo. Nada poderia ser mais fácil. Possuía toda a simplicidade da solução de um quebra-cabeças. A metralha aniquilou o populacho.



O que você está fazendo aí? Morra. Você está passando na rua? Isto é crime. Por que você se opõe ao governo? O governo é um degolador. Disse que faria uma certa coisa: começou a fazê-lo; tem de ir até o fim. Se a sociedade deve ser salva, o povo tem de ser destruído.



Em um instante havia uma série de assassinatos estendendo-se por cerca de quatrocentos metros ao longo do bulevar. Onze canhões destruíram o Hotel Sallandrouze. Um tiro atingiu diretamente vinte e oito casas. Os Banhos de Jouvence foram perfurados. Um quarteirão inteiro de Paris transformou-se em um cenário aterrorizante. O ar estava cheio de gritos de angústia.

Morte, morte repentina, estava por todos os lados. Ninguém esperava nada. Havia gente caindo por todos os lados. De onde vinha?


"De lá de cima", disse um Te-déum de bispos. "Das profundezas!", disse a verdade. "De um lugar pior do que a mais verdadeira profundeza do inferno!"



Xavier Durie veio ao bulevar. Disse ele mais tarde: "Dei sessenta passos, e esbarrei em sessenta cadáveres." Depois compreendera que era um crime grave estar na rua. Também era crime estar em sua própria casa. Os assassinos entravam nas casas e massacravam os moradores.



Adde, da livraria do boulevard Poissonière, estava na entrada de sua casa; mataram-no. No mesmo momento - pois os assassinos estendiam os seus tentáculos por toda parte - bem longe dali, na rue de Lancry, o proprietário do número 5, senhor Thirion de Montauban, estava à porta de sua casa; mataram-no. Na rue Tiquetonne, uma criança de 7 anos de idade, chamada Boursier, vinha passando; mataram-na. Senhorita Soulac, no número 196 da rue du Temple, abria a janela; mataram-na. No número 97 da mesma rua, as senhoras Vidal e Raboisson, costureiras, estavam em sua casa. Mataram-nas. Entre os transeuntes, senhorita Gressier, moradora do número 209 do Faubourg Saint-Martin, senhora Guilard, número 77 do Faubourg Saint-Denis e senhora Garnier, número 6 do boulevar Bonnes-Nouvelles, caíram sob a chuva de metralha - a primeira no boulevard Montmartre, e as demais no boulevard Saint-Denis. Ficaram apenas feridas, e esforçaram-se a ficar de pé; porém os soldados, com gargalhadas diabólicas, deixaram-nas ali, e elas caíram novamente. Desta vez estavam mortas.



Ninguém escapava. Os mosquetes e pistolas eram usados em todas as direções. O Ano Novo estava se aproximando, e havia lojas cheias de presentes. Uma criança de 13 anos, voando diante do fogo dos soldados, refugiou-se numa loja da Árcade Sauveur, e escondeu-se debaixo de uma pilha de brinquedos. Foi agarrada e massacrada, enquanto os assassinos abriam as feridas com seus sabres. Contou-me uma mulher: "Podíamos ouvir os gritos da pequena criatura por toda a arcada". O 75º Regimento da Linha tomou a barricada da Porte Saint-Denis. Não houve resistência, somente carnificina posteriormente.



O massacre espalhava-se (uma palavra terrível mas expressiva) nos bulevares e em todas as ruas. Era como um polvo estendendo os seus tentáculos. Deveriam voar? Para onde? Esconder-se? Em que canto? A morte os perseguia muito além do seu vôo.



Na rue Pagevin um soldado disse a um transeunte: "O que você está fazendo aqui?""Voltando pra casa", foi a resposta.O soldado matou-o.O coronel Espinasse gritava: "Depois da baioneta, a artilharia."O coronel Rochefort berrava: "Penetrar, sangrar, usar o sabre." E acrescentou: "Isto vai economizar barulho e pólvora". Na esquina da rue du Sentier, um oficial de cavalaria balançava a espada no ar e gritava: "Vocês não entenderam as ordens. Atirem nas mulheres!"

Uma mulher grávida vinha do outro lado da rua. Ela caiu, e os soldados, correndo em sua direção, acabaram com ela a coronhada de mosquetes. Uma outra mulher, enlouquecida de medo, acabava de dobrar a esquina da rua. Trazia uma criança em seus braços. Dois soldados dirigiram-se até ela. Um deles gritou: "Na mulher!", e acertou o seu alvo. A criança caiu no chão. Em seguida o outro gritou: "Na criança!", e atirou, matando-a.


Doutor Germain Sée, um homem que gozava de grande renome no mundo científico, declarou que em apenas uma única casa - aquela dos Banhos de Jouvence - havia, debaixo de um alpendre situado no pátio, cerca de oitenta feridos, principalmente homens velhos, mulheres e crianças. O doutor Sée dava-lhes assistência prioritária.



"Havia na rue Mardier", contou uma testemunha ocular, "uma perfeita fileira de cadáveres, que começava na rue Neuve Saint-Eustache. Em frente à Maison Odier havia vinte e seis corpos. Diante do Hotel de Montmorency, trinta. Em frente à Variètés, cinqüenta e dois, dos quais onze eram mulheres. Na rue de la Grange Batelière havia três corpos nus. O número 19 da rue du Faubourg Montmartre estava cheio de mortos e feridos."



Uma mulher que vinha correndo com todas as suas forças, o cabelo desgrenhado e os braços esticados para frente, voava pela rue Poissonière, gritando: "Eles estão nos matando! Estão nos matando!"



Os soldados divertiam-se. "Aposto", disse um, "que eu a derrubo".



Gostaria de saber em que acreditar. Para afirmar que certos crimes haviam sido cometidos, seria necessário que pudessem ser provados. Fui, portanto, ao local do crime. Em determinados estados de agonia, o sentimento morre. Não pensamos, ou se pensamos, é de forma cega, e tudo que esperamos é que aquilo termine, de uma forma ou de outra. A morte alheia nos inspira tanto horror que passamos a desejar o nosso próprio fim, se ao menos nossa própria morte pudesse ser de alguma utilidade. A nossa memória reverte-se àqueles homens cujas mortes causaram comoção popular e levantes, e sentimo-nos como se tivéssemos uma única ambição - ser um corpo morto que serviu para alguma finalidade.



Continuei a andar, portanto, cheio de pensamentos tristes. Encaminhei-me em direção aos bulevares. Divisei uma fornalha ardente. Ouvi os estrépitos do trovão. Jules Simon, um homem que naqueles terríveis dias voluntariamente arriscou a sua valiosa vida, veio em minha direção.

Parou-me.


"Aonde você vai?", perguntou ele. "Você será morto. O que você quer?""Exatamente isto", disse-lhe. Apertamos nossas mãos, e continuei-o meu caminho.



Cheguei ao bulevar. A cena era indescritível. Eu vi este crime. Eu vi esta tragédia, esta carnificina. Eu vi esta cega correnteza de morte, e os corpos de pessoas assassinadas caindo ao meu lado, e é por esta razão que posso assinar este livro como testemunha ocular.



O destino tem os seus desígnios. Cuida misteriosamente do futuro historiador. Deixa-o imiscuir-se em carnificina e destruição, mas não permite que morra, pois quer que ele narre todos esses acontecimentos.



(A Arte da Reportagem, tradução de Edith Zonenschain)


(Ilustração: Fritz Aigner)


sábado, 22 de agosto de 2009

Ritmo Eterno, de Kilkerry









Abro as asas da Vida à Vida que há lá
fora.
Olha... Um sorriso da alma! - Um
sorriso da aurora!
e Deus - ou Bem! ou Mal - é Deus
cantando em mim,
Que Deus é tu, sou eu - a Natureza
assim.

Árvore! boa ou má, os frutos que
darás
sinto-os sabendo em nós, em mim,
árvore, estás.
E o sol, de cujo olhar meu pensamento
inundo,
Casa multiplicando as asas deste
mundo...

Oh, braços para a Vida! Oh, vida para
amar!
Sendo uma onda do mar, dou-me
ilusão de um mar...
Alvor, turquesa, ondula a matéria... É
veludo,

É minh’alma, é teu seio, e um
firmamento mudo;
Mas, do ritmo da Terra, és um ritmo
do amor?
Homem! ouve a teus pés a Natureza
em flor!


(Ilustração: Jacek Yerka)



sexta-feira, 21 de agosto de 2009

MR. JONES, de Truman Capote









Durante o inverno de 1945, morei vários meses numa pensão do Brooklyn. Não era nenhum pardieiro, antes uma casa antiga, de fachada de tijolos vermelhos, confortavelmente mobiliada e mantida com asseio hospitalar pelas duas proprietárias, irmãs solteironas.



Mr. Jones ocupava o quarto pegado ao meu. O meu era o menor de todos, o dele o maior, bela e espaçosa peça ensolarada - menos mal, pois Mr. Jones nunca saía de casa: as senhorias, já idosas, incumbiam-se de tudo o que precisava, comida, compras, lavanderia. Além disso, vivia recebendo visitas; em geral, um punhado de pessoas diferentes, homens e mulheres, jovens, velhos ou de idade indefinida, vinham vê-lo diariamente, de manhã cedo até altas horas da noite. Não traficava drogas nem se dedicava à quiromancia; não, vinham só para falar com ele e, a julgar pelas aparências, pagavam-lhe pequenas somas de dinheiro em troca de conversas e conselhos. Não fosse assim, não se entenderia de onde tirava recursos para sobreviver.



Nunca tive ocasião de conversar com Mr. Jones, particularidade que mais tarde me deu muitos motivos para lamentar. Era um belo homem, de seus quarenta anos. Magro, tinha cabelo preto e rosto marcante: pálido, encovado, os pomos salientes e um sinal congênito no lado esquerdo, pequena imperfeição rubra em forma de estrela. Andava sempre de óculos de aro dourado, as lentes escuras como breu: cego, ainda por cima inválido - segundo as duas irmãs, havia perdido o uso das pernas em virtude de um acidente na infância e só podia caminhar de muletas. Trajava ternos austeros, cinza ou azul-marinho, com colete e sóbria gravata - como se estivesse pronto para sair rumo a um escritório em Wall Street.



No entanto, como já expliquei, nunca abandonava as dependências da casa. Permanecia simplesmente sentado numa poltrona do quarto acolhedor, recebendo visitas. Eu não atinava por que aquela gente toda, de aspecto bastante comum, ia procurá-lo, e muito menos sobre o que ficariam conversando. Tinha mais o que fazer para perder tempo com tais conjecturas. Quando perdia, imaginava que essas pessoas o achavam inteligente, bondoso, um ouvido amigo, digno de confiança, a quem pediam conselhos para seus problemas: uma cruza de padre e terapeuta.



Mr. Jones tinha telefone. Era o único inquilino que dispunha de linha direta. A campainha tocava sem parar, muitas vezes depois da meia-noite, quando não de madrugada, às seis da manhã.



Mudei-me para Manhattan. Meses depois, voltei à pensão para buscar uma caixa de livros que havia deixado lá. Enquanto as duas senhorias me serviam chá com bolinhos no ´gabinete´ de cortinas rendadas, perguntei por Mr. Jones. 



Baixaram o olhar. Pigarreando, uma disse:



- Está nas mãos da polícia.



A outra esclareceu:



- Demos parte dele como desaparecido.



A primeira acrescentou:



- No mês passado, hoje faz vinte e seis dias, minha irmã, como sempre, foi levar o café da manhã lá em cima para Mr. Jones. Não estava. Tudo o que era dele continuava no mesmo lugar. Mas ele tinha sumido.



- Estranho...



- ... um homem completamente cego, aleijado, indefeso...



Passam-se dez anos.



Agora, é uma tarde de dezembro, faz um frio de zero grau e estou em Moscou. Dentro do vagão de um trem do metrô. Só há meia dúzia de outros passageiros. Um deles, sentado de frente para mim, está de botas, com grosso e longo casacão e um gorro de peles no estilo russo. Os olhos vivos e azuis lembram os de um pavão.

Depois de curta hesitação, passo simplesmente a encará-lo, pois mesmo sem os óculos escuros, não há como confundir o rosto magro e marcante, os pomos salientes e o rubro sinal congênito em forma de estrela.


Já me disponho a cruzar o corredor para lhe falar quando o trem pára na estação e Mr. Jones, com esplêndido par de pernas robustas, levanta-se e sai do vagão a passos largos. No mesmo instante a porta se fecha às suas costas.



(Música para Camaleões)


(Ilustrração: Terry Rogers - timepiece)


quinta-feira, 20 de agosto de 2009

RUA DE CAMÕES, de Inês Lourenço









A minha infância
cheira a soalho esfregado a piaçaba
aos chocolates do meu pai aos Domingos
à camisa de noite de flanela
da minha mãe

Ao fogão a carvão
à máquina a petróleo
ao zinco da bacia de banho

Soa a janelas de guilhotina
a desvendar meia rua
surgia sempre o telhado
sustentáculo da mansarda
obstáculo da perspectiva

Nele a chuva acontecia
aspergindo ocres mais vivos
empapando ervas esquecidas
cantando com as telhas liquidamente
percutindo folhetas e caleiras
criando manchas tão incoerentes nas paredes
de onde podia emergir qualquer objecto

E havia a Dona Laura
senhora distinta
e a sua criada Rosa
que ao nosso menor salto
lesta vinha avisar
que estavam lá em baixo
as pratas a abanar no guarda-louça

O caruncho repicava nas frinchas
alongava as pernas
a casa envelhecia

Na rua das traseiras havia um catavento
veloz nas turbulências de Inverno
e eu rejeitava da boneca
a imutável expressão

A minha mãe fazia-me as tranças
antes de ir para a escola
e dizia-me muitas vezes

Não olhes para os rapazes
que é feio.


(Ilustração: Jean Bailly)





quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A VELHA CONTRABANDISTA, de Stanislaw Ponte Preta









Diz que era uma velhinha que sabia andar de lambreta. Todo dia ela passava na fronteira montada na lambreta, com um bruto saco atrás da lambreta. O pessoal da alfândega, tudo malandro velho, começou a desconfiar da velhinha.

Um dia, quando ela vinha na lambreta com o saco atrás, o fiscal da alfândega mandou ela parar. A velhinha parou e então o fiscal perguntou assim pra ela:

- Escuta aqui, vovozinha, a senhora passa por aqui todo dia, com esse saco aí atrás. Que diabo a senhora leva nesse saco?

A velhinha sorriu com os poucos dentes que lhe restavam e mais os outros, que ela adquirira no odontólogo, e respondeu:

- É areia!

Aí quem sorriu foi o fiscal. Achou que não era areia nenhuma e mandou a velhinha saltar da lambreta para examinar o saco. A velhinha saltou, o fiscal esvaziou o saco e dentro só tinha areia. Muito encabulado, ordenou à velhinha que fosse em frente. Ela montou na lambreta e foi embora, com o saco de areia atrás.

Mas o fiscal ficou desconfiado ainda. Talvez a velhinha passasse um dia com areia e no outro com muamba, dentro daquele maldito saco. No dia seguinte, quando ela passou na lambreta com o saco atrás, o fiscal mandou parar outra vez. Perguntou o que é que ela levava no saco e ela respondeu que era areia, uai! O fiscal examinou e era mesmo. Durante um mês seguido o fiscal interceptou a velhinha e, todas as vezes, o que ela levava no saco era areia.

Diz que foi aí que o fiscal se chateou:

- Olha, vovozinha, eu sou fiscal de alfândega com quarenta anos de serviço. Manjo essa coisa de contrabando pra burro. Ninguém me tira da cabeça que a senhora é contrabandista.

- Mas no saco só tem areia! – insistiu a velhinha.

E já ia tocar a lambreta, quando o fiscal propôs:

- Eu prometo à senhora que deixo a senhora passar. Não dou parte, não apreendo, não conto nada a ninguém, mas a senhora vai me dizer: qual é o contrabando que a senhora está passando por aqui todos os dias?

- O senhor promete que não "espaia"? – quis saber a velhinha.

- Juro – respondeu o fiscal.

- É lambreta.


(Ilustração: Ada Breedveld)


terça-feira, 18 de agosto de 2009

A MORTE DE UM FOLIÃO, de Jorge Amado









Vadinho, o primeiro marido de dona Flor, morreu num domingo de carnaval, pela manhã, quando, fantasiado de baiana, sambava num bloco, na maior animação, no Largo Dois de Julho, não longe de sua casa. Não pertencia ao bloco, acabara de nele misturar-se, em companhia de quatro amigos, todos com traje de baiana, e vinha de um bar no Cabeça onde o uísque correra farto à custa de um certo Moysés Alves, fazendeiro de cacau, rico e perdulário.



O bloco conduzia uma pequena e afinada orquestra de violões e flautas; ao cavaquinho, Carlinhos Mascarenhas, magricela celebrado nos castelos, ah! um cavaquinho divino. Vestiam-se os rapazes de ciganos e as moças de camponesas, húngaras ou romenas; jamais, porém, húngara ou romena ou mesmo búlgara ou eslovaca rebolou como rebolavam elas, cabrochas na flor da idade e da faceirice.



Vadinho, o mais animado de todos, ao ver o bloco despontar na esquina e ao ouvir o ponteado do esquelético Mascarenhas no cavaquinho sublime, adiantou-se rápido, postou-se ante a romena carregada na cor, uma grandona, monumental como uma igreja – e era a igreja de São Francisco, pois se cobria com um desparrame de lantejoula doirada – anunciou:



- Lá vou eu, minha russa do Tororó...



O cigano Mascarenhas, também ele gastando vidrilhos e miçangas, festivas argolas penduradas nas orelhas, apurou no cavaquinho, as flautas e os violões gemeram. Vadinho caiu no samba com aquele exemplar entusiasmo, característico de tudo quanto fazia, exceto trabalhar. Rodopiava em meio ao bloco, sapateava em frente à mulata, avançava para ela em floreios e umbigadas,quando, de súbito, soltou uma espécie de ronco surdo, vacilou nas pernas, adernou de um lado, rolou no chão, botando uma baba amarela pela boca onde o esgar da morte não conseguia apagar de todo o satisfeito sorriso do folião definitivo que ele fora.



Os amigos ainda pesaram tratar-se de cachaça, não os uísques do fazendeiro: não seriam aquelas quatro ou cinco doses capazes de possuir um bebedor da classe de Vadinho; porém toda cachaça acumulada desde a véspera ao meio-dia quando oficialmente inauguraram o carnaval no Bar Triunfo, na Praça Municipal, subindo toda ela de uma vez e derrubando-o adormecido. Mas mulata grandona não se deixou enganar; enfermeira de profissão estava acostumada com a morte, frequentava-a diariamente no hospital. Não porem tão íntima a ponte de dar-lhe umbigadas, de pinicar-lhe o olho, de sambar com ela. Curvou-se sobre Vadinho, colocou-lhe a mão no pescoço, estremeceu, sentindo um frio no ventre e na espinha:



- Tá morto, meu Deus!



Outros tocaram também o corpo do moço, tomaram-lhe do pulso, suspenderam-lhe a cabeça de melenas loiras, buscaram-lhe o palpitar do coração. Nada obtiveram, era sem jeito. Vadinho desertara para sempre do Carnaval da Bahia.




(Dona Flor e Seus Dois Maridos)




(Carybé - a mulata grande, 1980)