segunda-feira, 24 de agosto de 2009

UM GATINHO BRANQUINHO E LINDO, de Cláudia Ferrari











Assim como Bruna em relação ao sueco, às vezes eu estava passeando com meu namorado e sentia uma falta enorme das meninas. Me sinto sem chão quando elas não estão por perto. Ao mesmo tempo me sinto culpada por estar levando essa vida dupla. Meu namorado, apesar de ser calado e pacato, é uma pessoa maravilhosa. Responsável, trabalhador e tem um respeito enorme por mim. Ele tem tudo para ser um bom marido e um bom pai. Mas sei que ele jamais vai compreender minhas idéias, meu mundo e minha maneira de ver a vida; que nunca vou poder dividir como ele o que eu divido com as minhas amigas. Mas quem é que pode ter tudo nesta vida? Espero em algum momento poder sentir que ele é prioridade, gostar mais de estar com ele do que estar com elas. No dia em que isso acontecer, estarei pronta para sair da noite e começar uma nova fase. Mas, até lá, ainda tenho um longo tempo pela frente dentro do American Bar. Sei que ainda tenho muito para viver e aprender ao lado dessas meninas. E ainda terei que ouvir muitas histórias tristes, nos vestiários e banheiros, antes de olhar para o meu namorado e desejar que ele seja sempre diferente desse mundo sórdido no qual trabalho. Deixei o vestiário passando mal, com a pior história que eu ouvi desde que entre na noite. Sentei ao lado das meninas e fiquei calada por muito tempo. Estava chocada demais para abrir a boca. Além disso, não queria estragar aquele final de tarde. A Bel havia conhecido outras pessoas do meio artístico e estava tão animada. Quem sabe desta vez alguém a ajudasse de verdade? As meninas perceberam pelo meu jeito que eu havia escutado outra história escabrosa e estavam loucas de curiosidade para eu contar elas também. Era horrível demais e sei que depois que eu contasse, elas iam preferir não ter sabido. Mas insistiram tanto que não tive como não contar. Ainda perguntei, antes começar, se elas tinham certeza de que queriam ouvir. Ao invés de se sentirem poupadas de ouvir algo tão terrível, todo meu rodeio aguçou ainda mais a curiosidade delas. A garota obviamente estava chorando no banheiro. Disse para a colega que só fez o que fez porque precisava muito do dinheiro, que iam transferir o avô dela da UTI se o pagamento não fosse feito. O avô estava tão mal que a família sabia que se transferissem o velho seria o mesmo que assinar o atestado de óbito dele. Há dois dias que a menina não dormia, lembrando caso e tendo pesadelos. A Blanche pediu para que parasse de enrolar e contasse logo a história, porque elas não estavam mais aguentando de curiosidade. O caso foi que menina havia saído com um cliente da casa para um motel qualquer. Lá, os dois jantaram e conversaram normalmente, e o cara, pela conversa, até parecia normal. Era casado, tinha três filhos, um emprego estável e tudo mais. Depois do jantar o homem desceu até o carro dizendo que ia buscar uma coisinha para eles brincarem e, antes de descer, já deixou um cheque de três mil reais, vejam bem, três mil reais sobre a mesa. O homem voltou poucos minutos depois trazendo uma caixa fechada. Dentro da caixa a garota encontrou um gatinho de pouco mais de um mês, branquinho e lindo. A menina não compreendeu o que o cara queria até que, sobre a cama, ele derramou leite na menina para que o gatinho lambesse. A Bel fez cara de nojo e disse que já era o suficiente. “Mas o pior foi o que aconteceu depois”, eu continuei. As três arregalaram os olhos. A menina disse que o cara colocou uma camisinha no gatinho e pediu para Lea fazer um fio terra para ele. Com o gatinho! E quando o gatinho morreu asfixiado o cara gozou. As meninas, sem fazer um comentário, levantaram da mesa e foram embora, uma para cada lado. Eu sabia que elas agora preferiam que eu não tivesse contado o caso. Naquela noite não nos falamos mais e, pela primeira vez desde que nos conhecemos, deixamos o American Bar sem nos despedir.


(American Bar)


(Ilustração: Aldemir Martins)




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