domingo, 30 de agosto de 2009

ARCANJO MISTURA, de Mia Couto








Quando, há trinta anos atrás, Arcanjo Mistura desceu à praça e proclamou: “Vou fazer um poema!”, todos fugiram e se trancaram dentro de casa.

“Poema” era palavra cheirosa, causadora de temores e suspeitas. Na boca de Arcanjo podia mesmo ser o anúncio de catástrofe. Se alguma vez ele chegou a compor um poema, isso nunca se soube. Quando lhe perguntavam pelo cumprimento da ameaça, ele respondia: “Vila Longe não merece nem um epitáfio”. Os lugares morrem como os frutos: quando já não dão semente. Vila Longe se extinguira seca, murcha, indeiscente.

Na altura, Arcanjo Mistura era jovem, quase um estranho para os de Vila Longe. Passara a adolescência estudando no vizinho Malawi. Abandonara os estudos para se dedicar à política, nos meandros da capital. Fora preso e muitos acreditaram que tivesse morrido nas masmorras da Pide. De regresso à Vila, abriu a barbearia. Todos se espantaram: como é que um homem tão letrado aceitava uma ocupação tão modesta? Só depois se soube: a barbearia é um lugar em que se reduz o cabelo e crescem as línguas. É um bazar de conversas, um mercado de mexericos.

- Sou barbeiro não por profissão, mas por missão.

No escondido da sua loja, Arcanjo se actualizava sobre as realidades políticas e vontades das gentes. Todas as semanas enviava relatórios sobre a situação naquele fim do mundo. O confidencial destinatário tomava o nebuloso nome de “comité”. O barbeiro revolucionário bem podia estar seguro: ninguém na aldeia ouvira nunca tal palavra. E se alguém, alguma vez, leu esses relatórios, essa era uma outra questão, tão enigmática quanto o prometido poema.

Do Malawi, Arcanjo trouxera uma máquina fotográfica. Era ele que fixava os retratos dos locais e conduzia os rolos à cidade para revelação e impressão em papel. Quando regressava era uma festa, dezenas de mulheres e crianças apinhadas para espreitar as imagens. O que restava desse tempo glorioso era um velho e desbotado álbum de fotografias que jazia entre as cadeiras da barbearia.

Depois da Independência, Arcanjo tentou voltar à cidade grande. Levou com ele uma agenda de moradas e telefones. Começou visitando a casa do primeiro companheiro, o primeiro da lista. Tinha morrido. O segundo, igualmente morto. E o terceiro, idem. E Arcanjo ira riscando na sua agenda de bolso, um por um, os nomes dos antigos companheiros. Aos poucos, a agenda exibia mais riscos que nomes. Descobriu, então, que era ele mesmo que se estava apagando em cada risco. No final, a sua memória não era mais do que uma agenda inútil. Desistiu da cidade e regressou a Vila Longe. E fez-se barbeiro. Não tinham sido apenas os amigos que morreram. Falecera um tempo em que ele podia fazer amigos.

- É por isso que gosto da minha profissão. A gente corta o cabelo e ele volta a crescer.

Havia mais poesia num fio de cabelo do que em toda a multidão de imbecis de Vila Longe. Era esse o costumeiro desabafo de Arcanjo Mistura.


(O Outro Pé da Sereia)


(Ilustração: Irma Stern)





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