domingo, 30 de agosto de 2015

O ENIGMA DA NATUREZA ÉTICA -- NÓS SOMOS MORAIS, IMORAIS OU AMORAIS?, de Michael Shermer






No final da década de 1830, em suas meditações sobre as implicações de sua hipótese evolucionária ainda em germe, Darwin escreve em seu Caderno M: "Aquele que entender o babuíno faria mais pela metafísica do que Locke." E: "Nossa ascendência, tal é a origem de nossas paixões más!! -- O Diabo sob a forma de babuíno é nosso avô!" (in Barrett, 1974, pp. 57, 63).

Darwin foi o primeiro psicólogo evolucionista e eticista. Herbert Spencer veio logo depois com The Data of Ethics [Os Dados da Ética], no qual ele entusiasticamente aplicava a seleção darwiniana às escolhas morais. Thomas Huxley (1899) e Alfred Russel Wallace (1870), no entanto, eram céticos quanto ao alcance da teoria evolutiva no campo da ética, questionando que vantagem seletiva um sistema ético teria dado a um indivíduo ou espécie.

Pela época da 1.ª Guerra Mundial, o estudo da ética evolucionista esteve em sério declínio, junto com o próprio darwinismo. Entre as duas guerras ela foi revista por Julian Huxley & C. H. Waddington em conjunção com a moderna síntese, mas voltou a morrer após a  2.ª Guerra Mundial, em parte como resultado da visão extremamente anti-hereditária da psicologia e das ciências sociais (uma resposta compreensível à eugenia feita pelos nazistas e ao holocausto).

E assim ela permaneceu dormente por 30 anos até que, em 1975, o biólogo de Harvard Edward O. Wilson publicou sua obra magna de 700 páginas, Sociobiology: The New Synthesis [Sociobiologia: A Nova Síntese]. Ironicamente, só o capítulo final tratava de seres humanos ("Homem: Da Sociobiologia para a Sociologia"), e era apenas numa seção curta, que mal chegava a duas páginas, que o leitor de fato encontrava ética. Mas o que é dito, quando é dito e quem diz importam na ciência, e isto é o que Wilson dizia: "Os cientistas e os humanistas devem considerar juntos a possibilidade de que chegou a hora de  remover temporariamente a ética das mãos dos filósofos e biologizá-la."

Como a solitária linha de Darwin no final de A Origem das Espécies -- "a luz será lançada sobre a origem do homem e sua história" --, a frase de Wilson disparou um tiro ouvido por todo o mundo intelectual. Elogios consideráveis, mas consideravelmente mais dor se abateu sobre Wilson, incluindo um jarro d'água lançado sobre sua cabeça no encontro da American Association for the Advancement of Science (AAAS) [Associação Americana para o Avanço da Ciência] no Sheraton Park Hotel em Washington, D.C., 1978. Stehphen Jay Gould repreendeu os manifestantes, dizendo-lhes que suas ações eram o que Lênin havia desprezado com o rótulo de "Esquerdismo Infantil", enquanto o antropólogo Napoleon Chagnon tentava retirá-los do palco dos conferencistas. Wilson deixou sua caneta dar a resposta, mais tarde naquele mesmo ano, com On Human Nature [Da Natureza Humana] (ganhando um Prêmio Pulitzer no processo), no qual ele sucintamente lançou o desafio (p. 7):

Acima de tudo, se não por outro motivo além para nosso próprio bem estar físico, a filosofia ética não pode ser deixada nas mãos dos que são meramente sábios. Embora o progresso humano possa ser obtido pela intuição e pela força de vontade, só o conhecimento empírico duramente conquistado de nossa natureza biológica nos permitirá fazer as escolhas ótimas entre os critérios de progresso que competem entre si.

O desafio foi aceito por Donald Symons (1979), Robert Axelrod (1984), Robert Trivers (1985), Michael Ruse (1986), Robert Richards (1987), Richard Alexander (1987), John Maynard Smith (1992), James Q. Wilson (1993), W. D. Hamilton (1996), Frans De Waal (1996), e muitos outros. (Cf. The Moral Animal de Robert Wright, 1994, para uma instigante história da ética evolucionista; The Temptations of Evolutionary Ethics, de Paul Farber, 1994, para uma história acadêmica e crítica; Vaulting Ambition, de Philip Kitcher's, 1995, para uma forte crítica; e Issues in Evolutionary Ethics, de Paul Thompson, 1995, para uma antologia das obras mais importantes na área, a favor e contra).

O Gene Egoísta (1976), de Richard Dawkins [N.T.: Disponível em português], foi especialmente influente em levar as pessoas a pensar sobre a aplicação da ciência e da evolução ao comportamento humano, incluindo o comportamento moral. Para o conceito de genes como portadores de informação, Dawkins adicionou o de "memes", portadores culturais de informação que vão além da biologia e ainda assim agem de forma muito parecida com a dos genes em termos de propagação, seleção e mutação. Ele até tratou as ideias religiosas como memes-vírus que, à maneira dos vírus de computador, invadem nosso software mental, destruindo nossos programas para o pensamento e o comportamento racionais.



(Publicado em Skeptic, vol. 4, n.º 2, 1996, pp. 78-87. Tradução de Rodrigo Farias)



(Ilustração: escultura de Alberto Giacometti - foto de autor não identificado)




quinta-feira, 27 de agosto de 2015

LOS SONETOS DE LA MUERTE / SONETOS DA MORTE, de Gabriela Mistral






I



Del nicho helado en que los hombres te pusieron,

te bajaré a la tierra humilde y soleada.

Que he de dormirme en ella los hombres no supieron,

y que hemos de soñar sobre la misma almohada.



Te acostaré en la tierra soleada con una

dulcedumbre de madre para el hijo dormido,

y la tierra ha de hacerse suavidades de cuna

al recibir tu cuerpo de niño dolorido.



Luego iré espolvoreando tierra y polvo de rosas,

y en la azulada y leve polvareda de luna,

los despojos livianos irán quedando presos.



Me alejaré cantando mis venganzas hermosas,

¡porque a ese hondor recóndito la mano de ninguna

bajará a disputarme tu puñado de huesos!




II




Este largo cansancio se hará mayor un día,

y el alma dirá al cuerpo que no quiere seguir

arrastrando su masa por la rosada vía,

por donde van los hombres, contentos de vivir...



Sentirás que a tu lado cavan briosamente,

que otra dormida llega a la quieta ciudad.

Esperaré que me hayan cubierto totalmente...

¡y después hablaremos por una eternidad!



Sólo entonces sabrás el por qué no madura,

para las hondas huesas tu carne todavía,

tuviste que bajar, sin fatiga, a dormir.



Se hará luz en la zona de los sinos, oscura;

sabrás que en nuestra alianza signo de astros había

y, roto el pacto enorme, tenías que morir...




III




Malas manos tomaron tu vida desde el día

en que, a una señal de astros, dejara su plantel

nevado de azucenas. En gozo florecía.

Malas manos entraron trágicamente en él...



Y yo dije al Señor: ?«Por las sendas mortales

le llevan. ¡Sombra amada que no saben guiar!

¡Arráncalo, Señor, a esas manos fatales

o le hundes en el largo sueño que sabes dar!



»¡No le puedo gritar, no le puedo seguir!

Su barca empuja un negro viento de tempestad.

Retórnalo a mis brazos o le siegas en flor».



Se detuvo la barca rosa de su vivir...

¿Que no sé del amor, que no tuve piedad?

¡Tú que vas a juzgarme, lo comprendes, Señor!




Tradução de Maria Teresa Almeida Pina:



I




Do nicho gelado em que os homens te puseram,

abaixar-te-ei à terra humilde e ensolarada.

Que hei de dormir-me nela os homens não souberam,

que havemos de sonhar sobre o mesmo travesseiro.



Deitar-te-ei na terra ensolarada com uma

doçura de mãe para o filho dormido,

e a terra há de fazer-se suave como berço

ao receber teu corpo de criança dolorido,



Logo irei polvilhando terra e pó de rosas,

e na azulada e leve poeira da lua,

os despojos levianos irão ficando presos.



Afastar-me-ei cantando minhas vinganças formosas,

porque a essa profundidade oculta a mão de nenhum

abaixará a disputar-me teu punhado de ossos!




II




Este longo cansaço se fará maior um dia,

e a alma dirá ao corpo que não quer seguir

arrastando sua massa pela rosada via,

por onde vão os homens, contentes de viver…



Sentirás que a teu lado cavam briosamente,

que outra dormida chega a quieta cidade

Esperarei que me hajam coberto totalmente…

e depois falaremos por uma eternidade!



Só então saberás o porque não madura

para as profundas ossadas tua carne ainda,

tiveste que abaixar, sem fadiga, a dormir.



Far-se-á luz na zona das sinas, escura:

saberão que em nossa aliança signo de astros havia

e, quebrado o pacto enorme, tinhas que morrer…




III




Más mãos tomaram tua vida desde o dia

em que, a um sinal de astros, deixara seu viveiro

nevado de açucenas. Em gozo florescia.

Más mãos entraram tragicamente nele…



E eu disse ao Senhor: – “Pelas sendas mortais

Levam-lhe. Sombra amada que não sabem guiar!

Arrancá-lo, Senhor, a essas mãos fatais

ou lhe afundas no longo sonho que sabes dar!



Não lhe posso gritar, não lhe posso seguir!

Sua barca empurra, um negro vento de tempestade.

Retorná-lo a meus braços ou lhe ceifas em flor “.



Deteve-se a barca rosa de seu viver…

Que não sei do amor, que não tive piedade?

Tu, que vais a julgar-me, o compreendes, Senhor!





(Ilustração: Hans Baldung Grien - woman-death)


terça-feira, 25 de agosto de 2015

O ATENEU, de Raul Pompeia





“Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.”

Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regímen do amor doméstico; diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora, e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam.

Eufemismo, os felizes tempos, eufemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a atualidade é a mesma em todas as datas. Feita a compensação dos desejos que variam, das aspirações que se transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base fantástica de esperanças, a atualidade é uma. Sob a coloração cambiante das horas, um pouco de ouro mais pela manhã, um pouco mais de púrpura ao crepúsculo - a paisagem é a mesma de cada lado, beirando a estrada da vida.

Eu tinha onze anos.

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Duas vezes fora visitar o Ateneu antes da minha instalação.

Ateneu era o grande colégio da época. Afamado por um sistema de nutrido reclame, mantido por um diretor que de tempos a tempos reformava o estabelecimento, pintando-o jeitosamente de novidade, como os negociantes que liquidam para recomeçar com artigos de última remessa; o Ateneu desde muito tinha consolidado crédito na preferência dos pais, sem levar em conta a simpatia da meninada, a cercar de aclamações o bombo vistoso dos anúncios.

O Dr. Aristarco Argolo de Ramos, da conhecida família do Visconde de Ramos, do Norte, enchia o Império com o seu renome de pedagogo. Eram boletins de propaganda pelas províncias, conferências em diversos pontos da cidade, a pedidos, à sustância, atochando a imprensa dos lugarejos, caixões, sobretudo, de livros elementares, fabricados às pressas com o ofegante e esbaforido concurso de professores prudentemente anônimos, caixões e mais caixões de volumes cartonados em Leipzig, inundando as escolas públicas de toda parte com a sua invasão de capas azuis, róseas, amarelas, em que o nome de Aristarco, inteiro e sonoro, oferecia-se ao pasmo venerador dos esfaimados de alfabeto dos confins da pátria. Os lugares que os não procuravam eram um belo dia surpreendidos pela enchente, gratuita, espontânea, irresistível! E não havia senão aceitar a farinha daquela marca para o pão do espírito. E engordavam as letras, à força, daquele pão. Um benemérito. Não admira que em dias de gala, íntima ou nacional, festas do colégio ou recepções da coroa, o largo peito do grande educador desaparecesse sob constelações de pedraria, opulentando a nobreza de todos os honoríficos berloques.

Nas ocasiões de aparato é que se podia tomar o pulso ao homem. Não só as condecorações gritavam-lhe do peito como uma couraça de grilos: Ateneu! Ateneu! Aristarco todo era um anúncio. Os gestos, calmos, soberanos, eram de um rei - o autocrata excelso dos silabários; a pausa hierática do andar deixava sentir o esforço, a cada passo, que ele fazia para levar adiante, de empurrão, o progresso do ensino público; o olhar fulgurante, sob a crispação áspera dos supercílios de monstro japonês, penetrando de luz as almas circunstantes - era a educação da inteligência; o queixo, severamente escanhoado, de orelha a orelha, lembrava a lisura das consciências limpas - era a educação moral. A própria estatura, na imobilidade do gesto, na mudez do vulto, a simples estatura dizia dele: aqui está um grande homem... não veem os côvados de Golias?! Retorça-se sobre tudo isto um par de bigodes, volutas maciças de fios alvos, torneadas a capricho, cobrindo os lábios, fecho de prata sobre o silêncio de ouro, que tão belamente impunha como o retraimento fecundo do seu espírito, - teremos esboçado, moralmente, materialmente, o perfil do ilustre diretor. Em suma, um personagem que, ao primeiro exame, produzia-nos a impressão de um enfermo, desta enfermidade atroz e estranha: a obsessão da própria estátua.

Como tardasse a estátua, Aristarco interinamente satisfazia-se com a afluência dos estudantes ricos para o seu instituto. De fato, os educandos do Ateneu significavam a fina flor da mocidade brasileira.

A irradiação da reclame alongava de tal modo os tentáculos através do país, que não havia família de dinheiro, enriquecida pela setentrional borracha ou pela charqueada do sul, que não reputasse um compromisso de honra com a posteridade doméstica mandar dentre seus jovens, um, dois, três representantes abeberar-se à fonte espiritual do Ateneu.

Fiados nesta seleção apuradora, que é comum o erro sensato de julgar melhores famílias as mais ricas, sucedia que muitos, indiferentes mesmo e sorrindo do estardalhaço da fama, lá mandavam os filhos. Assim entrei eu.

A primeira vez que vi o estabelecimento, foi por uma festa de encerramento de trabalhos.

Transformara-se em anfiteatro uma das grandes salas da frente do edifício, exatamente a que servia de capela; paredes estucadas de suntuosos relevos, e o teto aprofundado em largo medalhão, de magistral pintura, onde uma aberta de céu azul despenhava aos cachos deliciosos anjinhos, ostentando atrevimentos róseos de carne, agitando os minúsculos pés e as mãozinhas, desatando fitas de gaze no ar. Desarmado o oratório, construíram-se bancadas circulares, que encobriam o luxo das paredes. Os alunos ocupavam a arquibancada. Como a maior concorrência preferia sempre a exibição dos exercícios ginásticos, solenizada dias depois do encerramento das aulas, a acomodação deixada aos circunstantes era pouco espaçosa; e o público, pais e correspondentes em geral, porém mais numeroso do que se esperava, tinha que transbordar da sala da festa para a imediata. Desta antessala, trepado a uma cadeira, eu espiava. Meu pai ministrava-me informações. Diante da arquibancada, ostentava-se uma mesa de grosso pano verde e borlas de ouro. Lá estava o diretor, o ministro do Império, a comissão dos prêmios. Eu via e ouvia. Houve uma alocução comovente de Aristarco, houve discursos de alunos e mestres; houve cantos, poesias declamadas em diversas línguas. O espetáculo comunicava-me certo prazer respeitoso. O diretor, ao lado do ministro, de acanhado físico, fazia-o incivilmente desaparecer na brutalidade de um contraste escandaloso. Em grande tenue dos dias graves, sentava-se elevado no seu orgulho como em um trono. A bela farda negra dos alunos, de botões dourados, infundia-me a consideração tímida de um militarismo brilhante, aparelhado para as campanhas da ciência e do bem. A letra dos cantos, em coro dos falsetes indisciplinados da puberdade, os discursos, visados pelo diretor, pançudos de sisudez, na boca irreverente da primeira idade, como um Cendrillon mal feito da burguesia conservadora, recitados em monotonia de realejo e gestos rodantes de manivela, ou exagerados, de voz cava e caretas de tragédia fora de tempo, eu recebia tudo convictamente, como o texto da bíblia do dever; e as banalidades profundamente lançadas como as sábias máximas do ensino redentor. Parecia-me estar vendo a legião dos amigos do estudo, mestres à frente, na investida heroica do obscurantismo, agarrando pelos cabelos, derribando, calcando aos pés a Ignorância e o Vício, misérrimos trambolhos, consternados e esperneantes.

Um discurso principalmente impressionou-me. À direita da comissão dos prêmios, ficava a tribuna dos oradores. Galgou-a firme, tesinho, o Venâncio, professor do colégio, a quarenta mil réis por matéria, mas importante, sabendo falar grosso o timbre de independência, mestiço de bronze, pequenino e tenaz, que havia de varar carreira mais tarde. O discurso foi o confronto chapa dos torneios medievais com o moderno certâmen das armas da inteligência, depois, uma preleção pedagógica, tacheada de flores de retórica a martelo; e a apologia da vida de colégio, seguindo-se a exaltação do Mestre em geral e a exaltação, em particular, de Aristarco e do Ateneu. "O mestre, perorou Venâncio, é o prolongamento do amor paterno, é o complemento da ternura das mães, o guia zeloso dos primeiros passos, na senda escabrosa que vai às conquistas do saber e da moralidade. Experimentado no labutar quotidiano da sagrada profissão, o seu auxílio ampara-nos como a Providência na terra; escolta-nos assíduo como um anjo de guarda; a sua lição prudente esclarece-nos a jornada inteira do futuro. Devemos ao pai a existência do corpo; o mestre cria-nos o espírito (sorte de sensação), e o espírito é a força que impele, o impulso que triunfa, o triunfo que nobilita, o enobrecimento que glorifica, e a glória é o ideal da vida, o louro do guerreiro, o carvalho do artista, a palma do crente! A família é o amor no lar, o estado é a segurança civil; o mestre, com o amor forte que ensina e corrige, prepara-nos para a segurança íntima inapreciável da vontade. Acima de Aristarco - Deus! Deus tão-somente; abaixo de Deus - Aristarco."

Um último gesto espaçoso, como um jamegão no vácuo, arrematou o rapto de eloquência.


(O Ateneu)



(Ilustração: autor desconhecido - garçon fouetté - moyen âge)



sexta-feira, 21 de agosto de 2015

THE SHAMPOO / O BANHO DE XAMPU, de Elizabeth Bishop









The still explosions on the rocks,

the lichens, grow

by spreading, gray, concentric shocks.

They have arranged

to meet the rings around the moon, although

within our memories they have not changed.

And since the heavens will attend

as long on us,

you’ve been, dear friend,

precipitate and pragmatical;

and look what happens. For Time is

nothing if not amenable.

The shooting stars in your black hair

in bright formation

are flocking where,

so straight, so soon?

—Come, let me wash it in this big tin basin,

battered and shiny like the moon.





Tradução de Paulo Henriques Britto:




Os liquens — silenciosas explosões

nas pedras — crescem e engordam,

concêntricas, cinzentas concussões.

Têm um encontro marcado com

os halos ao redor da lua, embora

até o momento nada tenha mudado.

E como o céu há de nos dar guarida,

enquanto isso não se der,

você há de convir, amiga,

que se precipitou;

e eis no que dá. Porque o Tempo é,

mais que tudo, contemporizador.

No teu cabelo negro brilham estrelas

cadentes, arredias.

Para onde irão elas

tão cedo, resolutas?

— Vem, deixa eu lavá-lo, aqui nessa bacia

amassada e brilhante como a lua.




(Poemas do Brasil)





(Ilustração: Gianni Strino)








terça-feira, 18 de agosto de 2015

A MOÇA DO CABELO AZUL, de Roberto Drummond






 Leitor contumaz e costumeiro da coluna de Marcelo Rios, meu anti-stress das manhãs, deparo, oh, sim, deparo com a fotografia da moça do cabelo azul. É uma bela moça, de nome Maria Antônia Calmon, e vê-la na fotografia de um mago do "click", Lincoln Continentino, melhora o astral.

Ah, leitores, diante da foto da moça de cabelo azul, eu vos digo: Belo Horizonte tem jeito, Minas tem jeito, o Brasil tem jeito, a América do Sul tem jeito.

Revogam-se queixas e lamúrias, solidões e pessimismos, que Maria Antônia Calmon exibe sua cabeleira azul — que nada tem a ver, suponho e espero, com paixão clubística.

Otimismo, irmãos!

Da moça do cabelo azul eu me transfiro para o noticiário sobre os sem-casa de Betim. Fico pensando no tempo em que cheguei a Belo Horizonte. Alberico Souza já era bravo militante político da União Colegial de Estudantes. Naquela época — há de recordar-se de outro líder estudantil de então, João Bosco Murta Lages — Belo Horizonte não tinha uma moça de cabelo azul, e nem em suas vizinhanças, os sem-casa de Betim.

Pergunto a Wilson Frade, que viveu a época:

— Ali pelos anos 50 ou 60, circulava pelos salões e pela noite elegante uma moça de cabelo azul?

A resposta há de ser não. Como não existiam jornais a cores, mesmo que Ângela Diniz ou Lilian Sônia (duas lembranças queridas) quisessem usar perucas coloridas, a fotografia delas apareceria nas colunas com uma tonalidade, quando muito, cor de cinza. De qualquer forma, para quem, como este escrevinhador de quimeras, veio acompanhando o exercício da liberdade em Belo Horizonte e adjacências, é muito bom ver Maria Antônia Calmon com o cabelo azul.

A liberdade, minhas irmãs, é muito mais complicada e, muitas vezes, moça do cabelo azul, é a sua bandeira.

Mas o que dizer dos sem-casa de Betim, que se apresentam, mexicanamente, zapatistamente, encapuzados? Tal como o cabelo de Maria Antônia Calmon, eles são o sinal da liberdade?

Pois eu custo dizer: sim.

Poderia ficar calado, mas eu penso, como diria Milton Campos, que os sem-casa, os sem-terra, os sem-esperança, não são um caso de polícia. Antes de mandar a polícia, é preciso conversar.

Alguém dirá:

— Mas os sem pertencem a uma perigosa facção que segue os ensinamentos de Stalin e de Mao, e estavam treinando guerrilha no Serro.

Ora, desde a Revolução Cubana que existe uma Sierra Maestra no coração do mundo, e, em particular, no coração da América Latina. Eu mesmo já escrevi a respeito em meu romance "Hilda Furacão" (e setenta e seis milhões de brasileiros viram as cenas na minissérie na Globo), já treinei guerrilha em Belo Horizonte. Já quis transformar a Serra do Curral em Sierra Maestra.

Pensar em guerrilha é uma doença infantil do esquerdismo. Longe de mim apoiar invasões. Longe de mim apoiar guerrilhas. Mas, não vamos nos esquecer que mataram dois sem-casa de Betim. Até aqui eles são vítimas. Querer transformá-los em vilões é desviar o assunto, é querer esquecer que dois sem-casa foram assassinados. Invoco o governador Milton Campos, que era udenista e conservador: ele preferiu mandar o trem pagador, em vez da polícia, para acabar com a greve dos ferroviários da Rede Mineira de Viação em Divinópolis. É preciso saber conviver com o cabelo azul de Maria Antônia Calmon e com os encapuzados de Betim, pois tanto um quanto os outros são um sinal dos novos tempos.



(Jornal Hoje em Dia -06/05/99 )




(Ilustração: Picasso - Blue Nude)



sábado, 15 de agosto de 2015

POBRE AMOR, de Aluísio de Azevedo





Calcula, minha amiga, que tortura!
Amo-te muito e muito, e, todavia,
Preferira morrer a ver-te um dia
Merecer o labéu de esposa impura!

Que te não enterneça esta loucura,
Que te não mova nunca esta agonia,
Que eu muito sofra porque és casta e pura,
Que, se o não foras, quanto eu sofreria!

Ah! Quanto eu sofreria se alegrasses
Com teus beijos de amor, meus lábios tristes,
Com teus beijos de amor, as minhas faces!

Persiste na moral em que persistes.
Ah! Quanto eu sofreria se pecasses,
Mas quanto sofro mais porque resistes!




(Ilustração: Omar Ortiz - deidad femenina - 2010)


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

AURÉLIA, de José de Alencar







Há anos raiou no céu fluminense uma nova estrela.

Desde o momento de sua ascensão ninguém lhe disputou o cetro; foi proclamada a rainha dos salões.

Tornou-se a deusa dos bailes; a musa dos poetas e o ídolo dos noivos em disponibilidade.

Era rica e formosa.

Duas opulências, que realçam como a flor em vaso de alabastro; dois esplendores que se refletem, como o raio de sol no prisma do diamante.

Quem não se recorda da Aurélia Camargo, que atravessou o firmamento da corte como brilhante meteoro, e apagou-se de repente no meio do deslumbramento que produzira o seu fulgor?

Tinha ela dezoito anos quando apareceu a primeira vez na sociedade. Não a conheciam; e logo buscaram todos com avidez informações acerca da grande novidade do dia.

Dizia-se muita coisa que não repetirei agora, pois a seu tempo saberemos a verdade, sem os comentos malévolos de que usam vesti-la os noveleiros.

Aurélia era órfã; e tinha em sua companhia uma velha parenta, viúva, D. Firmina Mascarenhas, que sempre a acompanhava na sociedade.

Mas essa parenta não passava de mãe de encomenda, para condescender com os escrúpulos da sociedade brasileira, que naquele tempo não tinha admitido ainda certa emancipação feminina.

Guardando com a viúva as deferências devidas à idade, a moça não declinava um instante do firme propósito de governar sua casa e dirigir suas ações como entendesse.

Constava também que Aurélia tinha um tutor; mas essa entidade desconhecida, a julgar pelo caráter da pupila, não devia exercer maior influência em sua vontade, do que a velha parenta.

A convicção geral era que o futuro da moça dependia exclusivamente de suas inclinações ou de seu capricho; e por isso todas as adorações se iam prostrar aos próprios pés do ídolo.

Assaltada por uma turba de pretendentes que a disputavam como o prêmio da vitória, Aurélia, com sagacidade admirável em sua idade, avaliou da situação difícil em que se achava, e dos perigos que a ameaçavam.

Daí provinha talvez a expressão cheia de desdém e um certo ar provocador, que eriçavam a sua beleza aliás tão correta e cinzelada para a meiga e serena expansão da alma.

Se o lindo semblante não se impregnasse constantemente, ainda nos momentos de cisma e distração, dessa tinta de sarcasmo, ninguém veria nela a verdadeira fisionomia de Aurélia, e sim a máscara de alguma profunda decepção.

Como acreditar que a natureza houvesse traçado as linhas tão puras e límpidas daquele perfil para quebrar-lhes a harmonia com o riso de uma pungente ironia?

Os olhos grandes e rasgados, Deus não os aveludaria com a mais inefável ternura, se os destinasse para vibrar chispas de escárnio.

Para que a perfeição estatutária do talhe de sílfide, se em vez de arfar ao suave influxo do amor, ele devia ser agitado pelos assomos do desprezo?

Na sala, cercada de adoradores, no meio das esplêndidas reverberações de sua beleza, Aurélia bem longe de inebriar-se da adoração produzida por sua formosura, e do culto que lhe rendiam, ao contrário parecia unicamente possuída de indignação por essa turba vil e abjeta.

Não era um triunfo que ela julgasse digno de si, a torpe humilhação dessa gente ante sua riqueza. Era um desafio que lançava ao mundo; orgulhosa de esmagá-lo sob a planta, como a um réptil venenoso.

E o mundo é assim feito; que foi o fulgor satânico da beleza dessa mulher, a sua maior sedução. Na acerba veemência da alma revolta, pressentiam-se abismos de paixão; e entrevia-se que procelas de volúpia havia de ter o amor da virgem bacante.

Se o sinistro vislumbre se apagasse de súbito, deixando a formosa estátua na penumbra suave da candura e inocência, o anjo casto e puro que havia naquela, como há em todas as moças, talvez passasse desapercebida pelo turbilhão.

As revoltas mais impetuosas de Aurélia eram justamente contra a riqueza que lhe servia de trono, e sem a qual nunca por certo, apesar de suas prendas, receberia como rainha desdenhosa, a vassalagem que lhe rendiam.

Por isso mesmo considerava ela o ouro um vil metal que rebaixava os homens; e no íntimo sentia-se profundamente humilhada pensando que para toda essa gente que a cercava, ela, a sua pessoa, não merecia uma só das bajulações que tributavam a cada um de seus mil contos de réis.

Nunca da pena de algum Chatterton desconhecido saíram mais cruciantes apóstrofes contra o dinheiro, do que vibrava muitas vezes o lábio perfumado dessa feiticeira menina, no seio de sua opulência.

Um traço basta para desenhá-la sob esta face.

Convencida de que todos os seus inúmeros apaixonados, sem exceção de um, a pretendiam unicamente pela riqueza, Aurélia reagia contra essa afronta, aplicando a esses indivíduos o mesmo estalão.

Assim costumava ela indicar o merecimento relativo de cada um dos pretendentes, dando-lhes certo valor monetário. Em linguagem financeira, Aurélia cotava os seus adoradores pelo preço que razoavelmente poderiam obter no mercado matrimonial.

Uma noite, no Cassino, a Lísia Soares, que fazia-se íntima com ela, e desejava ardentemente vê-la casada, dirigiu-lhe um gracejo acerca do Alfredo Moreira, rapaz elegante que chegara recentemente da Europa:

- É um moço muito distinto - respondeu Aurélia sorrindo; vale bem como noivo cem contos de réis; mas eu tenho dinheiro para pagar um marido de maior preço, Lísia; não me contento com esse.

Riam-se todos destes ditos de Aurélia, e os lançavam à conta de gracinhas de moça espirituosa; porém a maior parte das senhoras, sobretudo aquelas que tinham filhas moças, não cansavam de criticar esses modos desenvoltos, impróprios de meninas bem educadas.

Os adoradores de Aurélia sabiam, pois ela não fazia mistério, do preço de sua cotação no rol da moça; e longe de se agastarem com a franqueza, divertiam-se com o jogo que muitas vezes resultava do ágio de suas ações naquela empresa nupcial.

Dava-se isto quando qualquer dos apaixonados tinha a felicidade de fazer alguma coisa a contento da moça e satisfazer-lhe as fantasias; porque nesse caso ela elevava-lhe a cotação, assim como baixava a daquele que a contrariava ou incorria em seu desagrado.

Muito devia a cobiça embrutecer esses homens, ou cegá-los de paixão, para não verem o frio escárnio com que Aurélia os ludibriava nestes brincos ridículos, que eles tomavam por garridices de menina, e não eram senão ímpetos de uma irritação íntima e talvez mórbida.

A verdade é que todos porfiavam, às vezes colhidos por desânimo passageiro, mas logo restaurados por uma esperança obstinada, nenhum se resolvia a abandonar o campo; e muito menos o Alfredo Moreira que parecia figurar na cabeça do rol.

Não acompanharei Aurélia em sua efêmera passagem pelos salões da corte, onde viu, jungido a seu carro de triunfo, tudo que a nossa sociedade tinha de mais elevado e brilhante.

Proponho-me unicamente a referir o drama íntimo e estranho que decidiu do destino dessa mulher singular.


(Senhora, 1875)



(Ilustração: Ingres - madame d'Haussonville)



domingo, 9 de agosto de 2015

SONNET ON CHILLON / SONETO DE CHILLON, de Lord Byron








Eternal Spirit of the chainless Mind!

Brightest in dungeons, Liberty! thou art,

For there thy habitation is the heart—

The heart which love of thee alone can bind;




And when thy sons to fetters are consign’d—

To fetters, and the damp vault’s dayless gloom,

Their country conquers with their martyrdom,

And Freedom’s fame finds wings on every wind.



Chillon! thy prison is a holy place,

And thy sad floor an altar—for ’twas trod,

Until his very steps have left a trace




Worn, as if thy cold pavement were a sod,

By Bonnivard!—May none those marks efface!

For they appeal from tyranny to God.




Tradução de José Lino Grünewald:



Alma eterna da mente sem cadeias!

De mais brilho em masmorras. Liberdade!

Pois lá é o coração a tua herdade -

Ela a quem só por ti o amor enleia;




E quando acorrentados ao relento

Teus filhos em grilhões, cela sombria,

Suas terras conquistam na agonia

E a Liberdade acha asa em cada vento.




Chillon! tua prisão é um santo espaço

E, altar, teu solo triste - pois pisado,

Até que o próprio andar deixasse um traço




Gasto, tal fosse o chão frio um relvado,

Por Bonnivard! Não sumam esses passos!

A tirania, a Deus, têm revelado.




(Ilustração: Franck-Edouard Lossier - La delivrance de Bonivard - 1898)





quinta-feira, 6 de agosto de 2015

TERCEIRA CARTA A CLARA, de Eça de Queirós







Toda em queixumes, quase rabugenta, e mentalmente trajada de luto, me apareceu hoje a tua carta com os primeiros frios de Outubro. E por quê, minha doce descontente? Porque, mais fero de coração que um Trastamara ou um Bórgia, estive cinco dias (cinco curtos dias de Outono) sem te mandar uma linha, afirmando essa verdade tão patente e de ti conhecida como o disco do Sol – “que só em ti penso, e só em ti vivo!...” Mas não sabes tu, oh super amada, que a tua lembrança me palpita na alma tão natural e perenemente como o sangue no coração? Que outro princípio governa e mantém a minha vida senão o teu amor? Realmente necessitas ainda, cada manha, um certificado, em letra bem firme, de que minha paixão está viva e viçosa e te envia os bons-dias? Para quê? Para sossego da tua incerteza? Meu Deus! Não será antes par regalo do teu orgulho? Sabes que és deusa, e reclamas incessantemente o incenso e os cânticos do teu devoto. Mas Santa Clara, tua padroeira, era uma grande santa, de alta linhagem, de triunfal beleza, amiga de S. Francisco de Assis, confidente de Gregório IX, fundadora de mosteiros, suave fonte de piedade e milagres – e todavia só é festejada uma vez, cada ano, a 27 de Agosto! 

Sabes bem que estou gracejando, Santa Clara da minha fé! Não! Não mandei linha supérflua, porque todos os males bruscamente se abateram sobre mim: um defluxo burlesco, com melancolia, obtusidade e espirros: um confuso duelo, de que fui o enfastiado padrinho, e em que apenas um ramo seco de olaia sofreu, cortado por uma bala; e, enfim, um amigo que regressou da Abissínia, cruelmente abissinizante, e a quem tive de escutar com resignado pasmo as caravanas, os perigos, os amores, as façanhas e os leões!... E aí está a minha pobre Clara, solitária nas suas florestas, ficou sem essa folha, cheia das minhas letras, e tão inútil par a segurança do seu coração como as folhas que a cercam, já murchas decerto e dançando no vento. 

Porque não sei como se comportam os teus bosques; - mas aqui as folhas do meu pobre jardim amarelam e rolam na erva úmida. Para me consolar da verdura perdida, acendi o meu lume: - e toda a noite de ontem mergulhei na muito velha crônica de um cronista medieval da minha terra, que se chama Fernão Lopes. Aí se conta de um rei que recebeu o débil nome de “Formoso”, e que, por causa de um grande amor, desdenhou princesas de Castela e de Ararão, dissipou tesouros, afrontou sedições, sofreu a desafeição dos povos, perdeu a vassalagem de castelos e terras, e quase estragou o reino! Eu já conhecia a crônica – mas só agora compreendo o rei. E grandemente o invejo, minha linda Clara! Quando se ama como ele (ou como eu), deve ser um contentamento esplêndido o ter princesas da cristandade, e tesouros, e um povo, e um reino forte para sacrificar a dois olhos, finos e lânguidos, sorrindo pelo que esperam e mais pelo que prometem... Na verdade só se deve amar quando se é rei – porque só então se pode comprovar a altura do sentimento com a magnificência do sacrifício. Mas um mero vassalo como eu (sem hoste ou castelo), que possui ele de rico, ou de nobre, ou de belo para sacrificar? Tempo, fortuna, vida? 

Mesquinhos valores. É como ofertar na mão aberta um pouco de pó. E depois a bem-amada nem sequer fica na história. E por história – muito aprovo, minha estudiosa Clara, que andes lendo a do divino Buda. Dizes, desconsoladamente, que ele te parece apenas “um Jesus muito complicado”. Mas, meu amor, é necessário desentulhar esse pobre Buda da densa aluvião de Lendas e Maravilhas que sobre ele tem acarretado, durante séculos, a imaginação da Ásia. Tal como ela foi, desprendida da sua mitologia, e na sua nudez histórica – nunca alma melhor visitou a Terra, e nada iguala, como virtude heroica, a “Noite do Renunciamento”. Jesus foi um proletário, um mendigo sem vinha ou leira, sem amor nenhum terrestre, que errava pelos campos da Galileia, aconselhando aos homens a que abandonassem como ele os seus lares e bens, descessem à solidão e à mendicidade, para penetrarem um dia num Reino venturoso, abstrato, que está nos Céus. Nada sacrificava em si e instigava os outros ao sacrifício – chamando todas as grandezas ao nível da sua humildade. O Buda, pelo contrário, era um Príncipe, e como eles costumam ser na Ásia, de ilimitado poder, de ilimitada riqueza: casara por um imenso amor, e daí lhe viera um filho, em quem esse amor mais se sublimara: - e este príncipe, este esposo, este pai, um dia, por dedicação aos homens, deixa o seu palácio, o seu reino, a esposada do seu coração, o filhinho adormecido no berço de nácar, e, sob a rude estamenha de um mendicante, vai através do mundo esmolando e pregando a renúncia aos deleites, o aniquilamento de todo o desejo, o ilimitado amor pelos seres, o incessante aperfeiçoamento na caridade, o desdém forte do ascetismo que se tortura, a cultura perene da misericórdia que resgata, e a confiança na morte... 

Incontestavelmente, a meu ver (tanto quanto estas excelsas coisas se podem discernir de uma casa de Paris, no século XIX e com defluxo) a vida do Buda é mais meritória. E depois considera a diferença do ensino dos dois divinos Mestres. Um, Jesus, diz: “Eu sou filho de Deus, e insto com cada um de vós, homens mortais, em que pratiqueis o bem durante os poucos anos que passais na Terra, para que eu depois, em prêmio, vos dê a cada um, individualmente, uma existência superior, infinita em anos e infinita em delícias, num palácio que está além das nuvens e que é de meu Pai!” O Buda, esse, diz simplesmente: “Eu sou um pobre frade mendicante, e peco-vos que sejais bons durante a vida, porque de vós, em recompensa, nascerão outros melhores, e desses outros ainda mais perfeitos, e assim, pela prática crescente da virtude em cada geração, se estabelecerá pouco a pouco na Terra a virtude universal!” A justiça do justo, portanto, segundo Jesus, só aproveita egoisticamente ao justo. E a justiça do justo, segundo Buda, aproveita ao ser que o substituir na existência, e depois ao outro que deve nascer, sempre durante a passagem na Terra, para lucro eterno da Terra. Jesus cria uma aristocracia de santos, que arrebata para o Céu onde ele é Rei, e que constituem a corte do Céu para deleite da sua divindade: - e não vem dela proveito direto para o Mundo, que continua a sofrer da sua porção de Mal, sempre indiminuída. O Buda, esse, cria, pela soma das virtudes individuais, santamente acumuladas, uma humanidade que em cada ciclo nasce progressivamente melhor, que por fim se torna perfeita, e que se estende a toda Terra donde o Mal desaparece, e onde o Buda é sempre, à beira do caminho rude, o mesmo frade mendicante.

Eu, minha flor, sou pelo Buda. Em todo o caso, esses dois Mestres possuíram, para bem dos homens, a maior Porção de divindade que até hoje tem sido dado à alma humana conter. De resto, tudo isto é muito complicado; e tu sabiamente procederias em deixar o Buda no seu budismo, e, uma vez que esses teus bosques são tão admiráveis, em te retemperar na sua forca e nos seus aromas salutares. O Buda pertence à cidade e ao colégio de Franca: no campo a verdadeira Ciência deve cair das árvores, como nos tempos de Eva. Qualquer folha de olmo te ensina mais que todas as folhas dos livros. Sobretudo do que eu - que aqui estou pontificando, e fazendo pedantemente, ante os teus lindos olhos, tão finos e meigos, um curso escandaloso de Religiões Comparadas. 

Só me restam três polegadas de papel – e ainda te não contei, oh doce exilada, as novas de Paris, acta Urbis. (Bom, agora latim!) São raras, e pálidas. Chove; continuamos em república; Madame de Jouarre, que chegou da Rocha com menos cabelos brancos, mas mais cruel, convidou alguns desventurados (dos quais eu o maior) para escutarem três capítulos dum novo atentado do barão de Fernay sobre a Grécia; os jornais publicam outro prefácio do sr. Renan, todo cheio do sr. Renan, e em que ele se mostra, como sempre, o enternecido e erudito vigário de Nossa Senhora da razão; e temos, enfim, um casamento de paixão e de luxo, o do nosso escultural visconde de Fonblant com mademoiselle Degrave, aquela nariguda, magrinha e de maus dentes, que herdou, milagrosamente, os dois milhões do cervejeiro e que tem tão lindamente engordado e ri com dentes tão lindos. Eis tudo, minha adorada... E é tempo que te mande, em montão, nesta linha, as saudades, os desejos e as coisas ardentes e suaves e sem nome de que meu coração está cheio, sem que se esgote por mais que plenamente as arremesse aos teus pés adoráveis, que beijo com submissão e com fé. 


Fradique




(Ilustração: Roman Zaslonov - la lettre)






segunda-feira, 3 de agosto de 2015

DERNIER POÈME / ÚLTIMO POEMA, de Robert Desnos






« J’ai rêvé tellement fort de toi,
J’ai tellement marché, tellement parlé,
Tellement aimé ton ombre,
Qu’il ne me reste rien de toi,
Il me reste d’être l’ombre parmi les ombres
D’être cent fois plus ombre que l’ombre
D’être l’ombre qui viendra et reviendra dans ta vie ensoleillée. »


 Tradução de Francisco Manhães:


Tanto sonhei contigo,
caminhei tanto, falei tanto,
tanto amei tua sombra,
que só me resta ser sombra entre sombras,
ser cem vezes mais sombra que a sombra,
ser a sombra que retornará sempre e sempre
à tua vida plena de sol.




(Ilustração: Dalí - La Femme Nue Dans Le Desert)