domingo, 29 de novembro de 2009

VOLTA AO PAI, de Luís Vassallo






É muita consideração de papai surgir assim, depois de tanto tempo, e até seguro uma lágrima, se é que é mesmo uma lágrima, pendendo indecisa feito um suicida no alto da ponte enquanto observa, pelo espelho da superfície de lago do piso do quarto, os objetos à minha volta, a coleção das coisas de uma vida, e tento fingir uma certa indiferença quando o vulto de papai entra com uns tufos de mato saindo pelas mangas descendo pelas mãos de dedos de garras que já lutaram para se entrelaçar aos meus durante toda aquela infância que passei a observar da janela a pedra fria da figura heroica que erguia-se no centro da praça em cima de um cavalo, como se pudesse domar os ímpetos do instinto que botavam do quadrúpede prestes a desembestar feito as crianças que escapavam pelas ruas em volta da praça e, com um olhar agitado, papai dispara: o pijama de seda, rápido, e permaneço parado durante algum tempo, como uma vítima que demora para se dar conta do assalto e, antes que pudesse me dar conta, papai desapareceu levando o pijama de mim e tento ainda alcançá-lo, mas o desgraçado escapou por entre os batentes ocos que circundam o quintal como as estátuas dos santos barrocos, cravando seus olhares de piedade e condenação para a solidão do quintal e sempre fecho a porta atrás de mim quando saio para o quintal, como se ainda pudesse enganar a casa, como se ela não soubesse da sepultura improvisada de papai que eu mesmo escavei há alguns meses junto ao muro, e digo improvisada pela falta de uma lápide mais ao gosto do defunto coroada com uma epígrafe digna de seus feitos e cujos dizeres teimam em fugir da minha mente feito o vulto da mulher amada e perdida, a mulher que sempre escapa ao toque do meu corpo, noite após noite, num sonho recorrente que só termina com o grito desesperado de um despertador, o mesmo que já me abandonou no pátio surdo de um colégio diante da menina de coxas lisas que roçavam sua brancura debaixo da saia, e encostava meu corpo à margem de uma alameda junto a uma fileira de plantas que se dobravam com o vento como súditos dos moleques que passavam e esperava pela menina simplesmente para me dobrar diante da sua indiferença, o que eu poderia suportar se não fosse o vento me sussurrando com a voz de papai que isso era inaceitável, que era coisa de mulherzinha, e não me ande a chorar por aí feito maricas, que nem parece meu filho, e corria para não semear minha tristeza entre as plantas como se pudesse fugir das palavras que iam e vinham na minha mente, mas sei que posso contar com a paciência ríspida de papai diante do silêncio escuro da lápide até encontrar os dizeres certos para compor a epígrafe que tanta falta me faz e pensei por um momento em retirar toda a terra que convenientemente esmaga o seu corpo para me certificar de que nada mudou, de que papai continua onde sempre esteve, de que tudo não passa de um equívoco, mas lhe cresce uma árvore por cima da terra como se fosse um prolongamento das tripas em busca de algum sol para cagar seus frutos amolecidos e desisto de cavar para preservar a árvore que eu rego regularmente na esperança de que suas raízes cresçam até envolver o corpo de papai na promessa de um abraço tardio como sempre foram os seus, percorrendo lentamente os anos até que os braços possam finalmente encontrar um resto pútrido e seco de gente a quem espremer, e agora passo as noites em claro, virando de um lado pro outro na cama em busca do toque do pijama de seda que papai levou, como criança que só encontra o sono no toque macio dos dedos de mamãe a correrem pelos meus cabelos, minha nuca, deslizando lentamente até que terminassem com um aperto leve de aflição, uma espécie de aviso de que o vulto de papai esperava por ela na claridade do corredor pronto para carregar minha tranquilidade para as entranhas do quarto ao lado, e bastava que a porta do quarto deles se fechasse para que eu ganhasse a escuridão, perambulando pelos cômodos como um fantasma, e percorro toda a casa procurando pelo rosto de papai que depois daquela aparição nunca mais vi, embora continue voltando para levar as coisas que são minhas, eu sei que volta, posso senti-lo, como na manhã que decido interromper meu banho e corro, ainda molhado, até a sala para constatar que o canalha levou as cortinas, as cortinas de renda de fios fechados feito redes de insetos zumbindo sua vergonha em lugares sujos e pútridos rodeando a claridade tênue das lâmpadas poeirentas, a renda e o forro, o peso do forro das cortinas tapando os olhares do mundo, os mesmos que começam a juntar na rua para medir a minha nudez com um sorriso que mistura repulsa e calhordice e lembro-me do tempo que comecei a fazer um curso de desenho e comprei um bloco de papéis e uma pasta enorme, mas toda vez que saía para ir ao curso era a mesma coisa, eu ali, parado nas mesmas esquinas desertas, a braguilha aberta e a pasta escondendo o que pendia para fora da calça como uma arma, até que uma moça qualquer passasse pela rua e a pasta fosse se afastando lentamente, como se eu realmente acreditasse que o desejo de alguma delas pudesse, naquele instante, vencer o espanto, ou, outras vezes, ficava atrás do muro de um terreno baldio que tinha um buraco na altura certa para que colocasse meu pinto na esperança de que algum transeunte, do outro lado do muro, pudesse amá-lo com a devoção de uma beata diante de um oratório, e que, de joelhos, lhe esfregasse as rezas de sua língua enquanto beliscasse meus testículos como quem aperta com fervor as contas de um terço até que o alento da salvação lhe jorrasse pelo rosto, pelos cabelos, como a água que agora escorre pelo meu corpo molhando o piso da sala, as gotas salpicando de rugas os corpos desenhados nas folhas de papéis em cima da mesinha como o tempo fez comigo, todo aquele erotismo de poses inúteis envelhecendo nos papéis aos olhos dos curiosos nas janelas desnudas e permaneço ali, parado, como um molusco que é arrancado da concha, e não sei quanto tempo se passou até a ventania me pegar desprevenido, um vento forte e logo percebi que só podia ser aquele maldito de novo que a casa está agora vulnerável à autoridade imprevisível das correntes de ar, pois não há mais vidros nas janelas ou mesmo portas para conter aquele vento gelando os meus ossos como a voz de papai e corro para o meu esconderijo de infância saltando, feito uma presa assustada, os objetos que voam de cima das mesas, prateleiras, e me enfio debaixo da cama como um rato que se esconde em um canto escuro, imóvel, pois eu sei que um rato não poderia nunca sobreviver em meio à ordem das palavras de papai, cuja voz ressoa no vento que circula pela casa como uma sentinela em frente a um quartel, repetindo sempre o mesmo trajeto, e me lembro do dia em que papai colocou uma vassoura na minha mão antes de me arrastar para a cozinha, fechar a porta e, com outra vassoura em punho, anunciou que havia um rato na casa e que tínhamos que matá-lo, e me ponho a tremer debaixo da cama e aqui papai não pode me ver e as mãos suavam, o cabo da vassoura escorregava pelos meus dedos moles e já começava a me faltar o ar, pois papai espantou o rato fazendo com que ele corresse em minha direção, e não soube o que fazer com aquela enorme arma inútil, que quando chega o momento certo as armas nunca parecem ter função para mim, e fugi do rato ou dos berros de papai, não sei ao certo, pois só me lembro dos berros ecoando num canto próximo à porta onde fui me encolher como agora me espremo entre o pé da cama e a parede para fugir do vento e puxo a gola da camisa pra baixo em busca de ar e, juntando todas as minhas forças, ergui a vassoura enquanto o rato continuava a correr e os berros de papai e o som da gola que se rasga até que o vento é cortado pelo baque seco da pancada, o silêncio, o sangue do rato esmagado debaixo da vassoura, a cabeça separada do corpo e o meu pescoço pulsando como quem espera que a madeira maciça da cabeceira da cama caia sobre ele, pois só assim era possível despertar a alegria de papai e o sorriso largo em seu rosto era a volta da esperança de que talvez as coisas pudessem começar a mudar, de que um dia eu pudesse ser igual a ele, um sorriso certeiro e efêmero feito o truque de um ilusionista e que dura o tempo suficiente para que possamos acreditar que talvez aquilo realmente exista, que toda aquela esperança possa sobreviver dentro dele, mas não acredito mais em papai e não engulo mais os seus truques e o vento passou e trato de me erguer do esconderijo para encontrá-lo de uma vez por todas, pois o desgraçado já havia levado quase tudo da casa, roupas, armários, móveis, tudo, e passo a vigiar as poucas coisas que ainda restavam, a persegui-lo em cada canto escuro até que o canalha apareça novamente e corro em direção à sala depois de ouvir algo que só poderia ser ele e ainda vejo o seu vulto refletido no piso de lago da sala antes que desaparecesse por trás do batente da porta, sim, era ele, só que com o meu rosto, e lembrei-me de que mamãe sempre dizia que éramos tão parecidos, mas não, que nunca fui parecido com papai em absolutamente nada e talvez aquele não fosse o vulto de papai, não sei, o desgraçado sempre tenta me enganar e basta que eu abra os olhos e me certifique que levaram o piso da casa, que o chão agora era a terra, para que tenha a certeza de que é papai o ladrão, e quem mais faria isso comigo, que o canalha tenta me enterrar como eu mesmo o havia enterrado há alguns meses junto ao muro do quintal naquela sepultura que ainda não tinha uma epígrafe, mas os dizeres, os dizeres insistiam em fugir da minha mente e o que mais eu posso fazer e atiro-me ao chão com os braços abertos, as mãos revolvendo lentamente a terra num pedido de desculpas e fico ali durante horas revolvendo a terra, a mesma terra onde viveram os nossos antepassados, e colo o meu rosto nela até que possa sentir uma vibração percorrendo todo o meu corpo e imagino ser os canos de esgoto que estendem suas ramificações debaixo da terra como uma árvore antiga e frondosa, uma verdadeira árvore genealógica que guarda os restos e os dejetos de cada habitante da casa no seu interior, a seiva endurecida de nossa família em estado puro, e os dedos raivosos só param de cavar quando a secura daquela terra impenetrável deixa suas pontas em carne viva e uma lágrima se atira feito suicida, um suicida agora decidido, que tenta extinguir a distância entre os vivos e os mortos, como se aquela gota pudesse se espalhar por toda a terra até abrandar a secura que me separa da merda de todos aqueles grandes homens cujas epígrafes jamais seriam lidas por alguém e era por isso que os malditos canos vibram, pois qualquer outra coisa que faz menção às suas existências jamais serão lembradas e essa é a minha vingança, pois tudo o que resta deles era essa casa, essa casa da qual nada sobrou e me levanto ainda tonto com o corpo todo vermelho de terra e olho para a sala como uma criança cheia de tinta que pede com os olhos para o pai que não brigue pela má-criação, mas não, não havia mais lugar para mim na casa e busco num canto qualquer o último objeto que não foi levado, uma mala velha, e me enfio na escuridão do seu interior, fechando devidamente o zíper, e foi lá, na escuridão daquela espera, que os dizeres finalmente surgiram e, com o canivete guardado no bolso, escrevo no forro da mala:

Aqui inquietou-se
quem consigo tudo levou
embora, talvez, possa ter se esquecido de algo.




(Ilustração: Mia Makila)



sexta-feira, 27 de novembro de 2009

DOMINGO DE MANHÃ, de Henry Miller







Domingo de manhã o telefone acorda-me. É meu amigo Maxie Schnadig anunciando a morte de nosso amigo Luke Ralston. Maxie assume um tom de voz verdadeiramente pesaroso que dá a impressão errada. Diz que Luke foi um bom sujeito. Isso me dá a impressão errada, pois embora nada se pudesse dizer contra Luke, ele era apenas mais ou menos, não precisamente o que se poderia chamar de bom sujeito. Luke era um veado nato e, por fim, quando cheguei a conhecê-lo intimamente, vi que era um grande chato. Disso isso a Maxie pelo telefone. Pelo jeito como me respondeu posso garantir que não gostou muito. Disse que Luke sempre fora meu amigo. Era verdade, mas não o bastante. A verdade é que eu me sentia realmente satisfeito por Luke ter esticado no momento oportuno: significava isso que eu poderia esquecer-me dos cento e cinquenta dólares que lhe devia. De fato, quando pendurei o fone sentia-me realmente alegre. Era um alívio enorme não precisar pagar aquela dívida. Quanto ao desaparecimento de Luke, não me causava o menor aborrecimento. Pelo contrário, permitir-me-ia fazer uma visita à sua irmã, Lottie, que eu sempre desejara foder, mas nunca conseguira por uma ou outra razão. Agora podia imaginar-me subindo até lá durante o dia e apresentando-lhe minhas condolências. O marido estaria no escritório e nada haveria para interferir. Imaginei-me abraçando-a, confortando-a. Não há como lidar com uma mulher quando ela está de luto. Podia vê-la abrindo bem os olhos – tinha olhos belos, grandes e cinzentos – enquanto eu a empurrava para o sofá. Era o tipo da mulher que dá uma trepada com você fingindo ao mesmo tempo que fala sobre música ou coisa semelhante. Não gostava da realidade crua, dos fatos nus, por assim dizer. Ao mesmo tempo, tinha presença de espírito suficiente para enfiar uma toalha embaixo do corpo a fim de não manchar o sofá. Eu a conhecia por dentro e por fora. Sabia que a melhor ocasião de agarrá-la era agora, agora que estava sentindo uma pequena febre de emoção pela morte de seu querido Luke – de quem não tinha muito boa opinião, diga-se de passagem. Infelizmente era domingo e o marido certamente estaria em casa. Voltei para a cama e lá fiquei deitado pensando primeiro em Luke e em tudo quanto ele fizera por mim, depois, nela, Lottie. Lottie Somers – esse o nome – sempre me pareceu um lindo nome. Combinava com ela perfeitamente. Luke era duro como um cabo de vassoura, com uma cara que só parecia ter ossos e impecável além de toda descrição. Ela era exatamente o contrário – mole, redonda, falava arrastado, acariciava as palavras, movia-se languidamente, usava eficientemente os olhos. Ninguém diria que eram irmão e irmã. Fiquei tão excitado pensando nela que tentei agarrar minha mulher. Mas coitada, com seu complexo de puritanismo, fingiu-se horrorizada. Ela gostava de Luke. Não chegava a dizer que fosse um bom sujeito, porque não era de seu feitio dizer tal coisa, mas insistiu em que era um amigo sincero, leal, verdadeiro etc. Eu tinha tantos amigos leais, sinceros e verdadeiros que para mim isso não representava mais que bosta de cavalo. Finalmente tivemos tal discussão a respeito de Luke que ela sofreu um ataque de histerismo e começou a chorar e soluçar – na cama, ainda por cima. Isso deu fome. A idéia de chorar do desjejum parecia-me monstruosa. Desci e preparei para mim um maravilhoso desjejum. Enquanto comia, ria-me comigo mesmo, de Luke, dos cento e cinquenta dólares que sua morte repentina apagara de minhas contas, de Lottie e da maneira como me olharia quando chegasse o momento... e finalmente, mais absurdo que tudo pensei em Maxie, Maxie Schnadig, o amigo leal de Luke, em pé ao lado da cova com uma grande coroa e talvez jogando um punhado de terra sobre o caixão quando o tivessem baixando. Não sei por que isso me parecia tão ridículo, mas parecia. Maxie era um simplório. Eu o tolerava apenas porque era bom para uma mordida de vez em quando. E havia também sua irmã Rita. Eu o deixava convidar-me para ir à sua casa de vez em quando, fingindo que me interessava por seu irmão que era desequilibrado. A comida era sempre boa e o irmão idiota realmente divertido. Parecia um chimpanzé e falava como um chimpanzé. Maxie era simples demais para suspeitar que eu estava simplesmente me divertindo. Pensava que eu sentia genuíno interesse por seu irmão.


(Trópico de Capricórnio, tradução de Aydano Arruda)



(Ilustração; Bill Feigenbaum - american flyer)




quarta-feira, 25 de novembro de 2009

CÂNTICO NEGRO, de José Régio








"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: "vem por aqui!

"Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:

Criar desumanidades!

Não acompanhar ninguém.

— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde

Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.


Como, pois, sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?...

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tetos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou,

É uma onda que se alevantou,

É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

Sei que não vou por aí!



(Ilustração: Wang Yi Guang)






segunda-feira, 23 de novembro de 2009

SEGUNDA CARTA, de Mariana Alcoforado











Creio que faço ao meu coração a maior das afrontas aos procurar dar-te conta, por escrito, dos meus sentimentos. Seria tão feliz se os pudesse avaliar pela violência dos teus! Mas não posso confiar em ti, nem posso deixar de te dizer, embora sem a força com que o sinto, que não devias maltratar-me assim, com um esquecimento que me desvaira e chega a ser uma vergonha para ti. É justo que suportes, ao menos, as queixas de desgraças que previ ao ver-te decidido a deixar-me. Reconheço que me enganei, ao pensar que procederias com mais lealdade do que é costume: o excesso do meu amor parece que devia pôr-me acima de quaisquer suspeitas e merecer uma fidelidade que não é vulgar encontrar-se. Mas a tua disposição para me atraiçoar triunfou, afinal, sobre a justiça que devias a tudo quanto fiz por ti. Não deixaria de ser infeliz se soubesse que só ao meu amor ganharas amor, pois tudo quisera dever unicamente à tua inclinação por mim; mas estou tão longe de tal estado que já lá vão seis meses sem receber uma única carta tua. Só à cegueira com que me abandonei a ti posso atribuir tanta desgraça: não tinha obrigação de prever que as minhas alegrias acabariam antes do meu amor? Como poderia esperar que ficasses para sempre em Portugal, renunciasses à tua carreira e ao teu país para não pensares senão em mim? Nenhum alívio há para o meu mal, e se me lembro das minhas alegrias maior é ainda o meu desespero. Terá sido então inútil todo o meu desejo, e não voltarei a ver-te no meu quarto com o ardor e arrebatamento que me mostravas? Ai, que ilusão a minha! Demasiado sei eu que todas as emoções, que em mim se apoderavam da cabeça e do coração, eram em ti despertadas unicamente por certos prazeres e, como eles, depressa se extinguiam. Precisava, nesses deliciosos instantes, chamar a razão em meu auxílio para moderar o funesto excesso da minha felicidade e me levar a pressentir tudo quanto sofro presentemente. Mas de tal modo me entregava a ti, que era impossível pensar no que pudesse vir envenenar a minha alegria e impedir de me abandonar inteiramente às provas ardentes da tua paixão. Ao teu lado era demasiado feliz para poder imaginar que um dia te encontrarias longe de mim. E, contudo, lembro-me de te haver dito algumas vezes que farias de mim uma desgraçada; mas tais temores depressa se desvaneciam, e com alegria tos sacrificava para me entregar ao encanto, e à falsidade!, dos teus juramentos. Sei bem qual é o remédio para o meu mal, e depressa me livraria dele se deixasse de te amar. Ai, mas que remédio... Não; prefiro sofrer ainda mais do que esquecer-te. E depende isso de mim? Não posso censurar-me ter desejado um só instante deixar de te querer. És tu mais digno de piedade do que eu, pois vale mais sofrer corno sofro do que ter os fáceis prazeres que te hão-de dar em França as tuas amantes. Em nada invejo a tua indiferença: fazes-me pena. Desafio-te a que me esqueças completamente. Orgulho-me de te haver posto em estado de já não teres, sem mim, senão prazeres imperfeitos; e sou mais feliz que tu, porque tenho mais em que me ocupar.



Nomearam-me há pouco tempo porteira deste convento. Todos os que falam comigo crêem que estou doida, não sei que lhes respondo, e é preciso que as freiras sejam tão insensatas como eu para me julgarem capaz seja do que for. Ah, como eu invejo a sorte do Manuel e do Francisco! Porque não estou eu sempre ao pé de ti, como eles? Teria ido contigo e servir-te-ia certamente com mais dedicação.



Nada desejo no mundo senão ver-te. Lembra-te ao menos de mim. Bastar-me-ia que me lembrasses, mas eu nem disso tenho a certeza. Quando te via todos os dias não cingia as minhas esperanças à tua lembrança mas tens-me ensinado a submeter-me a tudo quanto te apetece.



Apesar disso, não estou arrependida de te haver adorado. Ainda bem que me seduziste. A crueldade da tua ausência, talvez eterna, em nada diminuiu a exaltação do meu amor Quero que toda a gente o saiba, não faço disso nenhum segredo; estou encantada por ter feito tudo quanto fiz por ti, contra toda a espécie de conveniências. E já que comecei, a minha honra e a minha religião hão-de consistir só em amar-te perdidamente toda a vida.



Não te digo estas coisas para te obrigar a escrever-me. Ah, nada faças contrafeito! De ti só quero o que te vier do coração, e recuso todas as provas de amor que tu próprio te possas dispensar. Com prazer te desculparei, se te for agradável não te dares ao trabalho de me escrever; sinto uma profunda disposição para te perdoar seja o que for.



Um oficial francês, caridosamente, falou-me de ti esta manhã durante mais de três horas. Disse-me que em França fora feita a paz. Se assim é, não poderias vir ver-me e levar-me para França contigo? Mas não o mereço. Faz o que quiseres: o meu amor já não depende da maneira como tu me tratares.

Desde que partiste nunca mais tive saúde, e todo o meu prazer consiste em repetir o teu nome mil vezes ao dia. Algumas freiras, que conhecem o estado deplorável a que me reduziste, falam-me de ti com frequência. Saio o menos possível deste quarto onde vieste tanta vez, e passo o tempo a olhar o teu retrato, que amo mil vezes mais que à minha vida. Sinto prazer em olhá-lo, mas também me faz sofrer, sobretudo quando penso que talvez nunca mais te veja. Por que fatalidade não hei-de voltar a ver-te? Ter-me-ás deixado para sempre? Estou desesperada, a tua pobre Mariana já não pode mais: desfalece ao terminar esta carta. Adeus, adeus, tem pena de mim!




(Cartas Portuguesas atribuídas a Mariana Alcoforado, tradução de Eugénio de Andrade)



(lustração: Clovis Trouille)



domingo, 22 de novembro de 2009

POEMAS, de Djanira Pio








I. NA NOITE ESCURA


A noite escura
acolhe-me
para o sono.
Quase tudo dorme.
Um pássaro insone
se anuncia ao acaso.
É noite escura.
Sussurros
de alguém que sonha.
Alguém
de olhos fechados
sonha que dorme.


II. CONTRASTE


Somos feitos
de carne
e os sonhos
são voláteis.


III. COMO CEGOS


Por caminhos
íngremes
tentamos o acerto.
Seguimos
cegos e surdos
na esperança
de respostas.


IV. CASTAS


Castas sociais
são muradas
Crianças famélicas
Mulheres parideiras
Homens
manipulando a vida
o viver
e o fazer.
É o desejável?




(Ilustração: Kay Sage - le passage)





sexta-feira, 20 de novembro de 2009

BESTERA, de Hilda Hilst






Cansei-me de leituras, conceitos e dados. De ser austera e triste como conseqüência. Cansei-me de ver frivolidades levadas a sério e crueldades inimagináveis tratadas com relevância, admiração ou absoluto desprezo. Sou velha e rica. Chamo-me Leocádia. Resolvi beber e berimbar antes de desaparecer na terra, ou no fogo ou na imundice ou no nada. Contratei uma secretária-acompanhante e disse-lhe o seguinte: és jovem e apetitosa. Quando os homens quiserem ter relações contigo diga-lhes que façam um esforço e deitem-se comigo. Pagarei muitíssimo bem a cada um deles e terás régias comissões a cada êxito. Ficou perplexa. Olhou-me a figura ainda esguia mas bastante deteriorada, pediu-me que levantasse a saia, levantei, olhou aturdida minhas coxas murchas. Senhora, retrucou, será bastante difícil convencê-los, mas portar-me-ei, desculpe a mesóclise... E saiu correndo em direção ao banheiro. Na volta explicou-me que havia sido professora e sempre tinha ligeiras náuseas quando usava a mesóclise, mas diante de um assunto tão repugnante (no seu entender) e acrescido de mesóclise, teve que vomitar mesmo. Estava vermelha e lacrimosa mas bastante altiva. Continuou: hei de portar-me indignamente para satisfazê-la desde que meu salário seja compatível com tamanha velhacaria. Disse-lhe a quantia. Ficou radiante. Chama-se Joyce (!). É mignon e deliciosa, peitinhos de adolescente, tem 30 anos e dá-se-lhe 20 (eu não tenho medo da mesóclise), a boca de cantinhos levantados, os olhos claros entre o amarelo e o castanho, os cabelos quase ruivos, elegante no andar e na postura. Perguntou-me de chofre, ao anoitecer, diante do meu primeiro uísque (aprendi que qualquer bebida é menos fatal se se começa a beber a partir das seis da tarde) se eu conhecia Chesterton. Não acreditei no que ouvia. Seria algum Chesterton amiguinho dela? Um professor? Algum político? Não senhora, refiro-me a Gilbert Keith Chesterton, novelista ensaísta crítico e humorista inglês. Meu Deus! Exclamei, eu que deixei de pensar para continuar a viver me vejo diante de alguém que leu Chesterton. Por favor, Joyce, previno-a, e previno-a como uma frase do citado: “se a tua cabeça te ofende, corta-a fora”. Foi o que aconteceu com a minha, porque para mim depois de todas as reflexões sobre a sordidez, a ignomínia, a canalhice da humanidade, prefiro esquecer que Chesterton existiu.

muito bem, madame, não falaremos mais nele, a senhora gostaria de deitar-se com um homem todos os dias?

nem pensar, uma vez por semana está bem, nos outros dias prefiro beber sozinha, traquear, bater caixeta e pensar em nigrinhagens.

como?

esqueça.

No meu quinto uísque ela já havia entendido quase tudo. Expliquei-lhe principalmente que o homem deveria ser jovem. Que ela se certificasse de sua potência. Que não me mandasse ninguém com bimba ou bilunga. Que estando comigo o homem ficasse mudo. Que eu já havia providenciado uma linda fronha com rendas francesas para enfiar na minha cabeça. Espantou-se. Esclareci: minhas rugas são bastante nítidas, não quero assustá-los.

penso, senhora Leocádia, que está sendo demasiado cruel, cruel consigo mesma.

isso não lhe interessa. sei tudo sobre crueldade. conheço Deus.

Mostrei-lhe um lindo pijama de cetim azulado e perguntei se gostava. É lindo, senhora, pretende usá-lo na próxima semana? É para você, Joyce, quando o jovem estiver no ponto mande-o para mim.

perfeitamente, madame.

o bolo de dinheiro estará lá.

onde?

no meu quarto, mande-o olhar para todos os lados, descobrirá, o dinheiro cintila.

Bem, agora quero lhes contar do meu filho. Tem 40 anos. Casado. Sua mulher é tolinha, dessas que falam sem parar e sempre imbecilidades. Leu algum que discorreu sobre a importância de “agilizar o conceito fala”, de extravasar. Sua visita era um inferno. Eu colocava meu xale acastanhado e cantava baixinho só para ela uma canção muito engraçada dos meus tempos de faculdade: cume que é meu capim barba de bode/ faz tempo que nóis num mete/ faz tempo que nóis num fode... Ela se arrepiava inteira. Dizia para meu filho: Leocádio, sua mãe está louca, como é que você pode deixá-la aqui sozinha quando deveria estar naqueles belos lugares onde as velhinhas bordam, cantam canções de ninar, fritam bolinhos... você já viu as ferramentas que ela tem debaixo da cama?

que ferramentas?

ancinhos, pás, enxadas... e imagine! um emaranhado de terços!

Aí eu explicava com perfeita harmonia entre as palavras que o mais sensato era guardar as ferramentas ali porque a edícula que havia nos fundo poderia ser alvo de ladrões e aqui no meu quarto só entra o jardineiro e o monsenhor Ladeira.

entram no seu quarto? pra quê?

o jardineiro para pegar as ferramentas e o monsenhor para rezar.

e ele não tem o seu próprio terço?

tem. mas pode esquecê-lo. e aí tenho outro para rezarmos juntos.

Claro que tudo isso não era verdade. O monsenhor Ladeira foi um excelente amante mas sempre se esquecia do terço e a cada semana comprava um. Mandaram-no para Roma. Pena. As ferramentas eram o fetiche de um taurino. Amava tanto a terra que só conseguia o prazer se tivesse ancinhos pás enxadas ali ao pé da cama. Desgostoso com a vida foi ser jardineiro num convento. Um tipo Wittgenstein. Tinha um bom mondrongo. Mas meu filho pareceu contentar-se com aquelas explicações lá de cima e disse à cretina da minha nora: Leocádia está completamente lúcida. Depois de tê-los convencido da minha lucidez rodeei minha nora com pulinhos hostis e lançando-lhe perdigotos à cara repeti minha cançãozinha sem que o meu filho ouvisse. Graças a Deus, agora não me incomodam mais. Leocádio me telefona vez ou outra. Ah, como é delicioso e prático que as pessoas nos pensem estranhas... O conforto de não ser mais levado a sério, esse traquear de repente sorrir como se não fosse com você, poder acariciar um peixe morto na peixaria e chorar diante de um cão sarnento e faminto. É bom ser estranho e velho. Bem. Joyce tem sido muito hábil. Encontra-se com os jovens e explica-lhes tudo. O primeiro foi um sujeito muito franzino, o peito encovado mas uma esplêndida verga, olhou o dinheiro, acariciou-o, guardou-o e disse sorrindo: tô sempre às ordens, viu, dona? Quando ia saindo do quarto levantei um pouco a fronha e vi seus pentelhos chamuscados e perguntei o porquê.

é que fui fazer um virado de ovo e uma fornada de batata lá na pensão e o forno explodiu.

Ah...

quer dizer que a senhora fala, dona? e vê sem ver?

claro, não está vendo?

tem alguma coisa na cara pra esconder?

só velhice.

minha avó também é velha e eu gosto dela.

mas não fodes com ela, pois não?

ah, mas também ela não tem essa pataca!

compreendo.

Saiu do quarto. De repente gritou do outro lado da porta: tenho um amigo chamado Bestera que também é supimpa de caceta, posso indicá-lo à Joyce? pode sim, respondi. e por que ele se chama Bestera?

um cara quis dar o roxinho e muita grana pra ele, e ele respondeu: cu de mancebo só espio e não meto. todo o mundo achou uma bestera, porque com grana a gente mete em qualquer buraco.

claro. pode mandar o Bestera sim.

qué saber, dona? a senhora é uma veia muito sensuar!

O Bestera também é muito “sensuar”, pensei semanas depois, quando o conheci. Estou feliz. Até já tiro a fronha.


(Cartas de um Sedutor)


(Ilustração: Cecily Brown)






quarta-feira, 18 de novembro de 2009

AINDA UMA VEZ, ADEUS, de Gonçalves Dias








Enfim te vejo! — enfim posso,
Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.
Muito penei! Cruas ânsias,
Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado
A não lembrar-me de ti!

Dum mundo a outro impelido,
Derramei os meus lamentos
Nas surdas asas dos ventos,
Do mar na crespa cerviz!
Baldão, ludíbrio da sorte
Em terra estranha, entre gente,
Que alheios males não sente,
Nem se condói do infeliz!

Louco, aflito, a saciar-me
D'agravar minha ferida,
Tomou-me tédio da vida,
Passos da morte senti;
Mas quase no passo extremo,
No último arcar da esp'rança,
Tu me vieste à lembrança:
Quis viver mais e vivi!

Vivi; pois Deus me guardava
Para este lugar e hora!
Depois de tanto, senhora,
Ver-te e falar-te outra vez;
Rever-me em teu rosto amigo,
Pensar em quanto hei perdido,
E este pranto dolorido
Deixar correr a teus pés.

Mas que tens? Não me conheces?
De mim afastas teu rosto?
Pois tanto pôde o desgosto
Transformar o rosto meu?
Sei a aflição quanto pode,
Sei quanto ela desfigura,
E eu não vivi na ventura...
Olha-me bem, que sou eu!

Nenhuma voz me diriges!...
Julgas-te acaso ofendida?
Deste-me amor, e a vida
Que me darias — bem sei;
Mas lembrem-te aqueles feros
Corações, que se meteram
Entre nós; e se venceram,
Mal sabes quanto lutei!

Oh! se lutei! . . . mas devera
Expor-te em pública praça,
Como um alvo à populaça,
Um alvo aos dictérios seus!
Devera, podia acaso
Tal sacrifício aceitar-te
Para no cabo pagar-te,
Meus dias unindo aos teus?

Devera, sim; mas pensava,
Que de mim t'esquecerias,
Que, sem mim, alegres dias
T'esperavam; e em favor
De minhas preces, contava
Que o bom Deus me aceitaria
O meu quinhão de alegria
Pelo teu, quinhão de dor!

Que me enganei, ora o vejo;
Nadam-te os olhos em pranto,
Arfa-te o peito, e no entanto
Nem me podes encarar;
Erro foi, mas não foi crime,
Não te esqueci, eu to juro:
Sacrifiquei meu futuro,
Vida e glória por te amar!

Tudo, tudo; e na miséria
Dum martírio prolongado,
Lento, cruel, disfarçado,
Que eu nem a ti confiei;
“Ela é feliz (me dizia)
“ Seu descanso é obra minha.
"Negou-me a sorte mesquinha. . .
Perdoa, que me enganei!

Tantos encantos me tinham,
Tanta ilusão me afagava
De noite, quando acordava,
De dia em sonhos talvez!
Tudo isso agora onde para?
Onde a ilusão dos meus sonhos?
Tantos projetos risonhos,
Tudo esse engano desfez!

Enganei-me!... — Horrendo caos
Nessas palavras se encerra,
Quando do engano, quem erra.
Não pode voltar atrás!
Amarga irrisão! reflete:
Quando eu gozar-te pudera,
Mártir quis ser, cuidei qu'era...
E um louco fui, nada mais!

Louco, julguei adornar-me
Com palmas d'alta virtude!
Que tinha eu bronco e rude
Co’o que se chama ideal?
O meu eras tu, não outro;
Stava em deixar minha vida
Correr por ti conduzida,
Pura, na ausência do mal.

Pensar eu que o teu destino
Ligado ao meu, outro fora,
Pensar que te vejo agora,
Por culpa minha, infeliz;
Pensar que a tua ventura
Deus ab eterno a fizera,
No meu caminho a pusera...
E eu! eu fui que a não quis!

És doutro agora, e pr'a sempre!
Eu a mísero desterro
Volto, chorando o meu erro,
Quase descrendo dos céus!
Dói-te de mim, pois me encontras
Em tanta miséria posto,
Que a expressão deste desgosto
Será um crime ante Deus!

Dói-te de mim, que t'imploro
Perdão, a teus pés curvado;
Perdão!... de não ter ousado
Viver contente e feliz!
Perdão da minha miséria,
Da dor que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Também do mal que me fiz!

Adeus qu'eu parto, senhora;
Negou-me o fado inimigo
Passar a vida contigo,
Ter sepultura entre os meus;
Negou-me nesta hora extrema,
Por extrema despedida,
Ouvir-te a voz comovida
Soluçar um breve Adeus!

Lerás porém algum dia
Meus versos d'alma arrancados,
D'amargo pranto banhados,
Com sangue escritos; — e então
Confio que te comovas,
Que a minha dor te apiade
Que chores, não de saudade,
Nem de amor, — de compaixão,



(Poesias Completas - Novos Cantos)



(Ilustração: Damian Klaczkiewicz)



segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A PALAVRA, de Nei Lopes









1. A palavra falada, além de seu valor fundamental, possui um caráter sagrado que se associa à sua origem divina e às forças ocultas nela depositadas.



2. A tradição oral, que não se limita aos contos e lendas nem aos relatos míticos e históricos, é a grande escola da vida, recobrindo e englobando todos os seus aspectos. Nela, o espiritual e o material não se dissociam. Falando segundo a compreensão de cada pessoa, ela se coloca ao alcance de todos.



3. A tradição oral é, ao mesmo tempo, religião, conhecimento, ciência natural, aprendizado de ofício, história, divertimento e recreação. Baseada na prática e na experiência, ela se relaciona à totalidade do ser humano e, assim, contribui para criar um tipo especial de pessoa e moldar sua alma.



4. O conhecimento, ligado ao comportamento do homem e da comunidade, não é uma metáfora abstrata que possa ser isolada da vida. Ele deve implicar uma visão particular do mundo e uma presença particular nesse mundo concebido como um todo, em que todas as coisas se ligam e interagem.



5. A transmissão oral do conhecimento é o veículo do poder e da força das palavras, que permanecem sem efeito em um texto escrito. O conhecimento transmitido oralmente, pelo Verbo atuante, tem o valor de uma iniciação, que não está no nível mental da compreensão, porém na dinâmica do comportamento. Essa iniciação é baseada em reflexos que operam no raciocínio e que são induzidos por impulsos nascidos no fundamento cultural da sociedade.



6. Da mesma forma que, no ato da Criação, a palavra divina do Ser Supremo veio animar as forças cósmicas que se achavam estáticas, em repouso, a palavra humana anima, põe em movimento e desperta as forças que se encontram estáticas nas coisas.



7. À imagem da palavra do Ser Supremo, da qual é eco, a palavra humana põe em movimento forças latentes, que despertam e acionam algo, como ocorre quando um homem se ergue ou se volta ao ouvir chamar seu nome.



8. A palavra humana é como o fogo: pode criar a paz, assim como pode destruí-la. Uma só palavra inoportuna pode fazer estourar uma guerra, assim como uma simples fagulha pode provocar um incêndio.



9. A palavra é a marca distintiva da superioridade espiritual do se humano sobre os elementos não humanos do Universo e sua senha diante das portas do reino invisível do Ser Supremo. E a linguagem não é apenas meio de expressão e comunicação – ela é ação. Assim, um objeto não significa o que representa, mas o que ele sugere, o que ele cria.



10. O conhecimento transmitido oralmente, pelo Verbo atuante, deve ser passado, do mestre ao discípulo, por meio de sentenças curtas, baseadas no ritmo da respiração.



11. A palavra, que tira do sagrado seu poder criador e operativo, está em relação direta tanto com a manutenção quanto com a ruptura da harmonia, no ser humano e no mundo que o cerca.



12. A palavra é divinamente exata, e o homem deve ser exato com ela. Falar pouco é sinal de educação e de nobreza.



13. Sendo agente mágico por excelência e grande transmissora de força, a palavra não pode ser usada levianamente.



14. A mentira, por sua vez, é uma lepra, uma tara moral. Quem falta à própria palavra mata seu eu e se afasta da sociedade. A língua que falseia a palavra vicia o sangue daquele que mente. Quando se pensa uma coisa e se diz outra, rompe-se consigo mesmo – quebra-se a união sagrada, reflexo da unidade cósmica, criando assim a desarmonia dentro e em torno de si.



15. A palavra é força. O Verbo é a expressão por excelência da força do ser em sua plenitude.



16. A palavra é o sopro animado e que anima aquilo que expressa. Ela possui a virtude mágica de realizar a lei da participação. Por sua virtude intrínseca, a palavra cria aquilo a que dá nome. Ela tem, além de poder criador, a função de preservar e destruir. É uma força fundamental que emana do próprio Ente Supremo. O que Ele diz, é. Assim falou Hampâté Ba; e disse Senghor.




(Kitábu – O Livro do Saber e do Espírito Negro-Africanos)


(Ilustração: Tinga Tinga Studio - art. R. Duke)


sexta-feira, 13 de novembro de 2009

CHÁ E MADALENAS, Marcel Proust









Muitos anos fazia que, de Combray, tudo quanto não fosse o teatro e o drama do meu deitar não mais existia para mim, quando, por um dia de inverno, ao voltar para casa, vendo minha mãe que eu tinha frio, ofereceu-me chá, coisa que era contra meus hábitos. A princípio recusei, mas, não sei por que, terminei aceitando Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madalenas e que parecem moldados na valva estriada de uma concha de São Tiago. Em breve, maquinalmente, acabrunhado com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena. Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferente às vicissitudes da vida, inofensivos seus desastres, ilusória sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou, antes, essa essência não estava em mim, era eu mesmo. Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligada ao gosto do chá e do bolo, mas que o ultrapassava infinitamente e não devia ser da mesma natureza. De onde vinha? Que significava? Onde apreendê-la? Bebo um segundo gole que me traz um pouco menos que o segundo. É tempo de parar, parece que está diminuindo a virtude da bebida. É claro que a verdade que procuro não está nela, mas em mim. A bebida a despertou, mas não a conhece, e só o que pode fazer é repetir indefinidamente, cada vez com menos força, esse mesmo testemunho que não sei interpretar e que quero tornar a solicitar-lhe daqui a um instante e encontrar intato a minha disposição, para um esclarecimento decisivo. Deponho a taça e volto-me para meu espírito. É a ele que compete achar a verdade. Mas como? Grave incerteza, todas as vezes em que o espírito se sente ultrapassado por si mesmo, quando ele, o explorador, é ao mesmo tempo o país obscuro a explorar e onde todo o seu equipamento de nada lhe servirá? Explorar? Não apenas explorar: criar. Está diante de qualquer coisa que ainda não existe e a que só ele pode dar realidade e fazer entrar em sua luz.

E recomeço a me perguntar qual poderia ser esse estado desconhecido, que não trazia nenhuma prova lógica, mas a evidência de sua felicidade, de sua realidade ante a qual as outras se desvaneciam. Quero tentar fazê-lo reaparecer. Retrocedo pelo pensamento ao instante em que tomei a primeira colherada de chá. Encontro o mesmo estado, sem nenhuma luz nova. Peço a meu espírito um esforço mais, que me traga outra vez a sensação fugitiva. E para que nada quebre o impulso com que ele vai procurar captá-la, afasto todo obstáculo, toda ideia estranha, abrigo meus ouvidos e minha atenção contra os rumores da peça vizinha. Mas sentido que meu espírito se fatiga sem resultado, forço-o, pelo contrário, a aceitar essa distração que eu lhe recusava, a pensar em outra coisa, a refazer-se antes de uma tentativa suprema. Depois, por segunda vez, faço o vácuo diante dele, torno a apresentar-lhe o sabor ainda recente daquele primeiro gole e sento estremecer em mim qualquer coisa que se desloca, que desejaria elevar-se, qualquer coisa que teriam desancorado, a uma grande profundeza; não sei o que seja, mas aquilo sobe lentamente; sinto a resistência e ouço o rumor das distâncias atravessadas.
Por certo, o que assim palpita no fundo de mim deve ser a imagem, a recordação visual que, ligada a esse sabor, tenta segui-lo até chegar a mim. Mas debate-se demasiado longe, demasiado confusamente; mal e mal percebo o reflexo neutro em que se confunde o ininteligível turbilhão das cores agitadas; mas posso distinguir a forma, pedir-lhe, como ao único intérprete possível, que me traduza o testemunho de seu contemporâneo, de seu inseparável companheiro, o sabor, pedir-lhe que me indique de que circunstância particular, de que época do passado é que se trata.

Chegará até a superfície de minha colara consciência essa recordação, esse instante antigo que a atração de um instante idêntico veio de tão longe solicitar, remover, levantar nos mais profundo de mim mesmo? Não sei. Agora não sinto mais nada, parou, tornou a descer talvez; quem sabe se jamais voltará a subir do fundo de sua noite? Dez vezes tenho de recomeçar, inclinar-me em sua busca. E, de cada vez, a covardia que nos afasta de todo trabalho difícil, de toda obra importante, aconselhou-me a deixar daquilo, a tomar meu chá pensando simplesmente em meus cuidados de amanhã, que se deixam ruminar sem esforço.

E de súbito a lembrança me apareceu. Aquele gosto era o do pedaço de madalena que nos domingos de manhã em Combray (pois nos domingos eu não saía antes da hora da missa) minha tia Léonie me oferecia, depois de o ter mergulhado em seu chá da Índia ou de tília, quando ia cumprimentá-la em seu quarto. O simples fato de ver a madalena não me havia evocado coisa alguma antes de que a provasse; talvez porque, como depois tinha visto muitas, sem as comer, nas confeitarias, sua imagem deixara aqueles dias de Combray para se ligar a outros mais recentes; talvez porque, daquelas lembranças abandonadas por tanto tempo fora da memória, nada sobrevivia, tudo se desagregara; as formas – e também a daquela conchinha de pastelaria, tão generosamente sensual sob sua plissagem severa e devota – se haviam anulado ou então, adormecidas, tinha perdido a força de expansão que lhes permitira alcançar a consciência. Mas quando mais nada subsiste de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis porem mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação.

E mal reconheci o gosto do pedaço de madalena molhado em chá que minha tia me dava (embora ainda não soubesse, e tivesse de deixar para muito mais tarde tal averiguação, por que motivo aquela lembrança me tornava tão feliz), eis que a velha casa cinzenta, de fachada para a rua, onde estava seu quarto, veio aplicar-me, como um cenário de teatro, ao pequeno pavilhão que dava para o jardim e que fora construído para meus pais aos fundos da mesma (esse truncado trecho da casa que era só o que eu recordava até então); e, com a casa, a cidade toda, desde a manhã à noite, por qualquer tempo, a praça para onde me mandavam antes do almoço, as ruas por onde eu passava e as estradas que seguíamos quando fazia bom tempo. E, como nesse divertimento japonês de mergulhar numa bacia de porcelana cheia d’água pedacinhos de papel, até então indistintos e que, depois de molhados, se estiram, se delineiam, se colorem, de diferenciam, tornam-se flores, casas, personagens consistentes e reconhecíveis, assim agora todas as flores de nosso jardim e as do parque do Sr. Swann, e as ninféias do Vivonne, e a boa gente da aldeia e suas pequenas moradias e a igreja e toda a Combray e seus arredores, tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, de minha taça de chá.



(Em Busca do Tempo Perdido – No Caminho de Swann, tradução de Mário Quintana)


(Ilustração: Ada Breedveld)




quarta-feira, 11 de novembro de 2009

ODE AO BURGUÊS, de Mário de Andrade








Eu insulto o burguês! O burguês-níquel
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!


Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!


Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! Ao burguês-tílburi!
Padaria Suíça! Morte viva ao Adriano!
"— Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
— Um colar... — Conto e quinhentos!!!
Más nós morremos de fome!"

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! Oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!...



(Ilustração: Clotilde Fava)



segunda-feira, 9 de novembro de 2009

UM HOMEM EXTRAORDINÁRIO, de Raimundo Veras







Como pai de um menino de cérebro lesado, compreendi há muito tempo que a criança não pode permitir-se o luxo de “esperar para ver”. Foi somente depois de submetido a um programa de terapia que ZeCarlos começou a desenvolver-se. Trata-se de estabelecer metas e traçar um plano para alcançá-las.

Acredito na fixação de metas e acho importante que sejam adequadas as metas que fixarmos para nós mesmos e para nossos filhos.


Construir e manter alojamentos para abrigar essas crianças não parece meta adequada. Isso não demonstrou ser vantajoso.



A mim se me afigura adequada a meta do pessoal dos Institutos para o Desenvolvimento do Potencial Humano: fazer de cada criança um ser humano completo e funcionante – curá-la.



“Em um mundo que julgava impossível esta meta”, diz Glenn Doman, “não é de admirar que às vezes nós falhemos. De admirar é que sejamos bem sucedidos com crescente regularidade”.



A dar ouvidos às críticas que antigamente se faziam aos Institutos, facilmente se poderia imaginar um laboratório de cientistas malucos escondido atrás de muros de pedra e bem guardada ponte levadiça. “Existe” um muro de pedra na entrada dos Institutos, mas não há nenhuma ponte levadiça nem portão de aço. As portas estão abertas para os visitantes e raro é o dia em que não se mostram suas instalações para diversas pessoas interessadas.



Alguns críticos chamam Glenn Doman de filósofo exaltado. Está visto que tais pessoas jamais conheceram Glenn Doman, porque se o conhecessem não diriam isso. Glenn é um dos homens mais razoáveis que conheci em toda a minha vida. Se os críticos querem dizer que ele é tenaz e resoluto, tenho de concordar.



Dizem pessoas mal informadas que os Institutos não têm pessoal médico qualificado. Basta examinar as qualificações de Robert Doman, doutor em medicina, Evan W. Thomas, doutor em medicina, Edward B. LeWinn, doutor em medicina, e Roselise Wilkinson, doutora em medicina, para se convencer de que isso não é verdade.


Tal asserção refere-se amiúde ao fato de ser fisioterapeuta e não médico o diretor dos Institutos, Glenn Doman. Isto é verdade. Mas Robert J. Doman, irmão de Glenn, é doutor em medicina e exerce as funções de diretor-médico dos Institutos.


Sustentam alguns que o carisma de Glenn enfeitiça os pais ao ponto de induzi-los a intentar a hercúlea empreitada de reabilitar os próprios filhos (como se fora melhor que ele fosse um ameno cavalheiro que falasse em voz monótona).

Asseveram outros que Glenn é fanático e intransigente em seus esforços para curar as crianças lesadas. Efetivamente é fanático e incapaz de transigir por nada menos que a cura das crianças de cérebro lesado.


Ao mundo profissional parece pouco importar que os inovadores tenham razão ou não, contanto que não prejudiquem os interesses da classe. Aos olhos dos profissionais, cometeu Doman um pecado imperdoável. Em vez de submeter papelório aos sacrossantos Conselhos de Educação, ofereceu suas conclusões às mães. Pecado deveras imperdoável!



A menos que você tenha testemunhado, como eu, as agressões nada profissionais da parte de profissionais, às escâncaras ou à socapa, contra um homem cujo único propósito é melhorar a vida das crianças, não acreditará que se tenham cometido tais insânias. Para mim, foi como se estivesse vendo Galileu perante a Inquisição ou presenciando as sagas de Semmelweis e Pasteur. A única coisa que parecia sustentar Glenn através dessas provocações e infundir-lhe renovada coragem era a convicção de que estava certo.


Ao recapitular a biografia desse homem, custa-me acreditar que, com seu prestigioso passado e suas credenciais, pudessem suas inovações provocar reações tão apaixonadas e tanta animosidade profissional.


(O Mongolismo – Tratamento da Criança de Cérebro Lesado)


(Ilustração: Glenn Doman, foto da internet, sem indicação de autoria)