domingo, 29 de novembro de 2009

VOLTA AO PAI, de Luís Vassallo






É muita consideração de papai surgir assim, depois de tanto tempo, e até seguro uma lágrima, se é que é mesmo uma lágrima, pendendo indecisa feito um suicida no alto da ponte enquanto observa, pelo espelho da superfície de lago do piso do quarto, os objetos à minha volta, a coleção das coisas de uma vida, e tento fingir uma certa indiferença quando o vulto de papai entra com uns tufos de mato saindo pelas mangas descendo pelas mãos de dedos de garras que já lutaram para se entrelaçar aos meus durante toda aquela infância que passei a observar da janela a pedra fria da figura heroica que erguia-se no centro da praça em cima de um cavalo, como se pudesse domar os ímpetos do instinto que botavam do quadrúpede prestes a desembestar feito as crianças que escapavam pelas ruas em volta da praça e, com um olhar agitado, papai dispara: o pijama de seda, rápido, e permaneço parado durante algum tempo, como uma vítima que demora para se dar conta do assalto e, antes que pudesse me dar conta, papai desapareceu levando o pijama de mim e tento ainda alcançá-lo, mas o desgraçado escapou por entre os batentes ocos que circundam o quintal como as estátuas dos santos barrocos, cravando seus olhares de piedade e condenação para a solidão do quintal e sempre fecho a porta atrás de mim quando saio para o quintal, como se ainda pudesse enganar a casa, como se ela não soubesse da sepultura improvisada de papai que eu mesmo escavei há alguns meses junto ao muro, e digo improvisada pela falta de uma lápide mais ao gosto do defunto coroada com uma epígrafe digna de seus feitos e cujos dizeres teimam em fugir da minha mente feito o vulto da mulher amada e perdida, a mulher que sempre escapa ao toque do meu corpo, noite após noite, num sonho recorrente que só termina com o grito desesperado de um despertador, o mesmo que já me abandonou no pátio surdo de um colégio diante da menina de coxas lisas que roçavam sua brancura debaixo da saia, e encostava meu corpo à margem de uma alameda junto a uma fileira de plantas que se dobravam com o vento como súditos dos moleques que passavam e esperava pela menina simplesmente para me dobrar diante da sua indiferença, o que eu poderia suportar se não fosse o vento me sussurrando com a voz de papai que isso era inaceitável, que era coisa de mulherzinha, e não me ande a chorar por aí feito maricas, que nem parece meu filho, e corria para não semear minha tristeza entre as plantas como se pudesse fugir das palavras que iam e vinham na minha mente, mas sei que posso contar com a paciência ríspida de papai diante do silêncio escuro da lápide até encontrar os dizeres certos para compor a epígrafe que tanta falta me faz e pensei por um momento em retirar toda a terra que convenientemente esmaga o seu corpo para me certificar de que nada mudou, de que papai continua onde sempre esteve, de que tudo não passa de um equívoco, mas lhe cresce uma árvore por cima da terra como se fosse um prolongamento das tripas em busca de algum sol para cagar seus frutos amolecidos e desisto de cavar para preservar a árvore que eu rego regularmente na esperança de que suas raízes cresçam até envolver o corpo de papai na promessa de um abraço tardio como sempre foram os seus, percorrendo lentamente os anos até que os braços possam finalmente encontrar um resto pútrido e seco de gente a quem espremer, e agora passo as noites em claro, virando de um lado pro outro na cama em busca do toque do pijama de seda que papai levou, como criança que só encontra o sono no toque macio dos dedos de mamãe a correrem pelos meus cabelos, minha nuca, deslizando lentamente até que terminassem com um aperto leve de aflição, uma espécie de aviso de que o vulto de papai esperava por ela na claridade do corredor pronto para carregar minha tranquilidade para as entranhas do quarto ao lado, e bastava que a porta do quarto deles se fechasse para que eu ganhasse a escuridão, perambulando pelos cômodos como um fantasma, e percorro toda a casa procurando pelo rosto de papai que depois daquela aparição nunca mais vi, embora continue voltando para levar as coisas que são minhas, eu sei que volta, posso senti-lo, como na manhã que decido interromper meu banho e corro, ainda molhado, até a sala para constatar que o canalha levou as cortinas, as cortinas de renda de fios fechados feito redes de insetos zumbindo sua vergonha em lugares sujos e pútridos rodeando a claridade tênue das lâmpadas poeirentas, a renda e o forro, o peso do forro das cortinas tapando os olhares do mundo, os mesmos que começam a juntar na rua para medir a minha nudez com um sorriso que mistura repulsa e calhordice e lembro-me do tempo que comecei a fazer um curso de desenho e comprei um bloco de papéis e uma pasta enorme, mas toda vez que saía para ir ao curso era a mesma coisa, eu ali, parado nas mesmas esquinas desertas, a braguilha aberta e a pasta escondendo o que pendia para fora da calça como uma arma, até que uma moça qualquer passasse pela rua e a pasta fosse se afastando lentamente, como se eu realmente acreditasse que o desejo de alguma delas pudesse, naquele instante, vencer o espanto, ou, outras vezes, ficava atrás do muro de um terreno baldio que tinha um buraco na altura certa para que colocasse meu pinto na esperança de que algum transeunte, do outro lado do muro, pudesse amá-lo com a devoção de uma beata diante de um oratório, e que, de joelhos, lhe esfregasse as rezas de sua língua enquanto beliscasse meus testículos como quem aperta com fervor as contas de um terço até que o alento da salvação lhe jorrasse pelo rosto, pelos cabelos, como a água que agora escorre pelo meu corpo molhando o piso da sala, as gotas salpicando de rugas os corpos desenhados nas folhas de papéis em cima da mesinha como o tempo fez comigo, todo aquele erotismo de poses inúteis envelhecendo nos papéis aos olhos dos curiosos nas janelas desnudas e permaneço ali, parado, como um molusco que é arrancado da concha, e não sei quanto tempo se passou até a ventania me pegar desprevenido, um vento forte e logo percebi que só podia ser aquele maldito de novo que a casa está agora vulnerável à autoridade imprevisível das correntes de ar, pois não há mais vidros nas janelas ou mesmo portas para conter aquele vento gelando os meus ossos como a voz de papai e corro para o meu esconderijo de infância saltando, feito uma presa assustada, os objetos que voam de cima das mesas, prateleiras, e me enfio debaixo da cama como um rato que se esconde em um canto escuro, imóvel, pois eu sei que um rato não poderia nunca sobreviver em meio à ordem das palavras de papai, cuja voz ressoa no vento que circula pela casa como uma sentinela em frente a um quartel, repetindo sempre o mesmo trajeto, e me lembro do dia em que papai colocou uma vassoura na minha mão antes de me arrastar para a cozinha, fechar a porta e, com outra vassoura em punho, anunciou que havia um rato na casa e que tínhamos que matá-lo, e me ponho a tremer debaixo da cama e aqui papai não pode me ver e as mãos suavam, o cabo da vassoura escorregava pelos meus dedos moles e já começava a me faltar o ar, pois papai espantou o rato fazendo com que ele corresse em minha direção, e não soube o que fazer com aquela enorme arma inútil, que quando chega o momento certo as armas nunca parecem ter função para mim, e fugi do rato ou dos berros de papai, não sei ao certo, pois só me lembro dos berros ecoando num canto próximo à porta onde fui me encolher como agora me espremo entre o pé da cama e a parede para fugir do vento e puxo a gola da camisa pra baixo em busca de ar e, juntando todas as minhas forças, ergui a vassoura enquanto o rato continuava a correr e os berros de papai e o som da gola que se rasga até que o vento é cortado pelo baque seco da pancada, o silêncio, o sangue do rato esmagado debaixo da vassoura, a cabeça separada do corpo e o meu pescoço pulsando como quem espera que a madeira maciça da cabeceira da cama caia sobre ele, pois só assim era possível despertar a alegria de papai e o sorriso largo em seu rosto era a volta da esperança de que talvez as coisas pudessem começar a mudar, de que um dia eu pudesse ser igual a ele, um sorriso certeiro e efêmero feito o truque de um ilusionista e que dura o tempo suficiente para que possamos acreditar que talvez aquilo realmente exista, que toda aquela esperança possa sobreviver dentro dele, mas não acredito mais em papai e não engulo mais os seus truques e o vento passou e trato de me erguer do esconderijo para encontrá-lo de uma vez por todas, pois o desgraçado já havia levado quase tudo da casa, roupas, armários, móveis, tudo, e passo a vigiar as poucas coisas que ainda restavam, a persegui-lo em cada canto escuro até que o canalha apareça novamente e corro em direção à sala depois de ouvir algo que só poderia ser ele e ainda vejo o seu vulto refletido no piso de lago da sala antes que desaparecesse por trás do batente da porta, sim, era ele, só que com o meu rosto, e lembrei-me de que mamãe sempre dizia que éramos tão parecidos, mas não, que nunca fui parecido com papai em absolutamente nada e talvez aquele não fosse o vulto de papai, não sei, o desgraçado sempre tenta me enganar e basta que eu abra os olhos e me certifique que levaram o piso da casa, que o chão agora era a terra, para que tenha a certeza de que é papai o ladrão, e quem mais faria isso comigo, que o canalha tenta me enterrar como eu mesmo o havia enterrado há alguns meses junto ao muro do quintal naquela sepultura que ainda não tinha uma epígrafe, mas os dizeres, os dizeres insistiam em fugir da minha mente e o que mais eu posso fazer e atiro-me ao chão com os braços abertos, as mãos revolvendo lentamente a terra num pedido de desculpas e fico ali durante horas revolvendo a terra, a mesma terra onde viveram os nossos antepassados, e colo o meu rosto nela até que possa sentir uma vibração percorrendo todo o meu corpo e imagino ser os canos de esgoto que estendem suas ramificações debaixo da terra como uma árvore antiga e frondosa, uma verdadeira árvore genealógica que guarda os restos e os dejetos de cada habitante da casa no seu interior, a seiva endurecida de nossa família em estado puro, e os dedos raivosos só param de cavar quando a secura daquela terra impenetrável deixa suas pontas em carne viva e uma lágrima se atira feito suicida, um suicida agora decidido, que tenta extinguir a distância entre os vivos e os mortos, como se aquela gota pudesse se espalhar por toda a terra até abrandar a secura que me separa da merda de todos aqueles grandes homens cujas epígrafes jamais seriam lidas por alguém e era por isso que os malditos canos vibram, pois qualquer outra coisa que faz menção às suas existências jamais serão lembradas e essa é a minha vingança, pois tudo o que resta deles era essa casa, essa casa da qual nada sobrou e me levanto ainda tonto com o corpo todo vermelho de terra e olho para a sala como uma criança cheia de tinta que pede com os olhos para o pai que não brigue pela má-criação, mas não, não havia mais lugar para mim na casa e busco num canto qualquer o último objeto que não foi levado, uma mala velha, e me enfio na escuridão do seu interior, fechando devidamente o zíper, e foi lá, na escuridão daquela espera, que os dizeres finalmente surgiram e, com o canivete guardado no bolso, escrevo no forro da mala:

Aqui inquietou-se
quem consigo tudo levou
embora, talvez, possa ter se esquecido de algo.




(Ilustração: Mia Makila)



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