sexta-feira, 20 de novembro de 2009

BESTERA, de Hilda Hilst






Cansei-me de leituras, conceitos e dados. De ser austera e triste como conseqüência. Cansei-me de ver frivolidades levadas a sério e crueldades inimagináveis tratadas com relevância, admiração ou absoluto desprezo. Sou velha e rica. Chamo-me Leocádia. Resolvi beber e berimbar antes de desaparecer na terra, ou no fogo ou na imundice ou no nada. Contratei uma secretária-acompanhante e disse-lhe o seguinte: és jovem e apetitosa. Quando os homens quiserem ter relações contigo diga-lhes que façam um esforço e deitem-se comigo. Pagarei muitíssimo bem a cada um deles e terás régias comissões a cada êxito. Ficou perplexa. Olhou-me a figura ainda esguia mas bastante deteriorada, pediu-me que levantasse a saia, levantei, olhou aturdida minhas coxas murchas. Senhora, retrucou, será bastante difícil convencê-los, mas portar-me-ei, desculpe a mesóclise... E saiu correndo em direção ao banheiro. Na volta explicou-me que havia sido professora e sempre tinha ligeiras náuseas quando usava a mesóclise, mas diante de um assunto tão repugnante (no seu entender) e acrescido de mesóclise, teve que vomitar mesmo. Estava vermelha e lacrimosa mas bastante altiva. Continuou: hei de portar-me indignamente para satisfazê-la desde que meu salário seja compatível com tamanha velhacaria. Disse-lhe a quantia. Ficou radiante. Chama-se Joyce (!). É mignon e deliciosa, peitinhos de adolescente, tem 30 anos e dá-se-lhe 20 (eu não tenho medo da mesóclise), a boca de cantinhos levantados, os olhos claros entre o amarelo e o castanho, os cabelos quase ruivos, elegante no andar e na postura. Perguntou-me de chofre, ao anoitecer, diante do meu primeiro uísque (aprendi que qualquer bebida é menos fatal se se começa a beber a partir das seis da tarde) se eu conhecia Chesterton. Não acreditei no que ouvia. Seria algum Chesterton amiguinho dela? Um professor? Algum político? Não senhora, refiro-me a Gilbert Keith Chesterton, novelista ensaísta crítico e humorista inglês. Meu Deus! Exclamei, eu que deixei de pensar para continuar a viver me vejo diante de alguém que leu Chesterton. Por favor, Joyce, previno-a, e previno-a como uma frase do citado: “se a tua cabeça te ofende, corta-a fora”. Foi o que aconteceu com a minha, porque para mim depois de todas as reflexões sobre a sordidez, a ignomínia, a canalhice da humanidade, prefiro esquecer que Chesterton existiu.

muito bem, madame, não falaremos mais nele, a senhora gostaria de deitar-se com um homem todos os dias?

nem pensar, uma vez por semana está bem, nos outros dias prefiro beber sozinha, traquear, bater caixeta e pensar em nigrinhagens.

como?

esqueça.

No meu quinto uísque ela já havia entendido quase tudo. Expliquei-lhe principalmente que o homem deveria ser jovem. Que ela se certificasse de sua potência. Que não me mandasse ninguém com bimba ou bilunga. Que estando comigo o homem ficasse mudo. Que eu já havia providenciado uma linda fronha com rendas francesas para enfiar na minha cabeça. Espantou-se. Esclareci: minhas rugas são bastante nítidas, não quero assustá-los.

penso, senhora Leocádia, que está sendo demasiado cruel, cruel consigo mesma.

isso não lhe interessa. sei tudo sobre crueldade. conheço Deus.

Mostrei-lhe um lindo pijama de cetim azulado e perguntei se gostava. É lindo, senhora, pretende usá-lo na próxima semana? É para você, Joyce, quando o jovem estiver no ponto mande-o para mim.

perfeitamente, madame.

o bolo de dinheiro estará lá.

onde?

no meu quarto, mande-o olhar para todos os lados, descobrirá, o dinheiro cintila.

Bem, agora quero lhes contar do meu filho. Tem 40 anos. Casado. Sua mulher é tolinha, dessas que falam sem parar e sempre imbecilidades. Leu algum que discorreu sobre a importância de “agilizar o conceito fala”, de extravasar. Sua visita era um inferno. Eu colocava meu xale acastanhado e cantava baixinho só para ela uma canção muito engraçada dos meus tempos de faculdade: cume que é meu capim barba de bode/ faz tempo que nóis num mete/ faz tempo que nóis num fode... Ela se arrepiava inteira. Dizia para meu filho: Leocádio, sua mãe está louca, como é que você pode deixá-la aqui sozinha quando deveria estar naqueles belos lugares onde as velhinhas bordam, cantam canções de ninar, fritam bolinhos... você já viu as ferramentas que ela tem debaixo da cama?

que ferramentas?

ancinhos, pás, enxadas... e imagine! um emaranhado de terços!

Aí eu explicava com perfeita harmonia entre as palavras que o mais sensato era guardar as ferramentas ali porque a edícula que havia nos fundo poderia ser alvo de ladrões e aqui no meu quarto só entra o jardineiro e o monsenhor Ladeira.

entram no seu quarto? pra quê?

o jardineiro para pegar as ferramentas e o monsenhor para rezar.

e ele não tem o seu próprio terço?

tem. mas pode esquecê-lo. e aí tenho outro para rezarmos juntos.

Claro que tudo isso não era verdade. O monsenhor Ladeira foi um excelente amante mas sempre se esquecia do terço e a cada semana comprava um. Mandaram-no para Roma. Pena. As ferramentas eram o fetiche de um taurino. Amava tanto a terra que só conseguia o prazer se tivesse ancinhos pás enxadas ali ao pé da cama. Desgostoso com a vida foi ser jardineiro num convento. Um tipo Wittgenstein. Tinha um bom mondrongo. Mas meu filho pareceu contentar-se com aquelas explicações lá de cima e disse à cretina da minha nora: Leocádia está completamente lúcida. Depois de tê-los convencido da minha lucidez rodeei minha nora com pulinhos hostis e lançando-lhe perdigotos à cara repeti minha cançãozinha sem que o meu filho ouvisse. Graças a Deus, agora não me incomodam mais. Leocádio me telefona vez ou outra. Ah, como é delicioso e prático que as pessoas nos pensem estranhas... O conforto de não ser mais levado a sério, esse traquear de repente sorrir como se não fosse com você, poder acariciar um peixe morto na peixaria e chorar diante de um cão sarnento e faminto. É bom ser estranho e velho. Bem. Joyce tem sido muito hábil. Encontra-se com os jovens e explica-lhes tudo. O primeiro foi um sujeito muito franzino, o peito encovado mas uma esplêndida verga, olhou o dinheiro, acariciou-o, guardou-o e disse sorrindo: tô sempre às ordens, viu, dona? Quando ia saindo do quarto levantei um pouco a fronha e vi seus pentelhos chamuscados e perguntei o porquê.

é que fui fazer um virado de ovo e uma fornada de batata lá na pensão e o forno explodiu.

Ah...

quer dizer que a senhora fala, dona? e vê sem ver?

claro, não está vendo?

tem alguma coisa na cara pra esconder?

só velhice.

minha avó também é velha e eu gosto dela.

mas não fodes com ela, pois não?

ah, mas também ela não tem essa pataca!

compreendo.

Saiu do quarto. De repente gritou do outro lado da porta: tenho um amigo chamado Bestera que também é supimpa de caceta, posso indicá-lo à Joyce? pode sim, respondi. e por que ele se chama Bestera?

um cara quis dar o roxinho e muita grana pra ele, e ele respondeu: cu de mancebo só espio e não meto. todo o mundo achou uma bestera, porque com grana a gente mete em qualquer buraco.

claro. pode mandar o Bestera sim.

qué saber, dona? a senhora é uma veia muito sensuar!

O Bestera também é muito “sensuar”, pensei semanas depois, quando o conheci. Estou feliz. Até já tiro a fronha.


(Cartas de um Sedutor)


(Ilustração: Cecily Brown)






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