sábado, 29 de setembro de 2012

OS APARATOS DO TEMPO, de Octavio Paz







Cada civilização é uma visão do tempo. Instituições, obras de arte, técnicas, filosofias, tudo o que fazemos ou sonhamos é um tecido do tempo. Ideia e sentimento do transcorrer, o tempo não é mera sucessão; para todos os povos é um processo que possui uma direção e aponta para um fim. O tempo tem um sentido. Melhor dito: o tempo é o sentido do existir, inclusive se afirmamos que este carece de sentido. As opostas atitudes dos hindus e cristãos ante a condição humana – karma e pecado original, moksha e redenção – se inscrevem em distintas visões do tempo. As duas atitudes são manifestações e consequências do suceder temporal; não somente passam no tempo e estão feitas de tempo, e sim que são efeitos de um fato que determina o tempo e a sua direção. O fato, no caso do cristianismo, ocorreu antes do começo do tempo: a falta de Adão e Eva foi cometida em um lugar até então imune a mudanças: o Paraíso. A história do gênero humano começa com a expulsão do Éden e nossa caída na história. No caso do hinduísmo (e do budismo) a causa não é anterior, e sim inerente ao próprio tempo. Para o cristianismo, o tempo é filho da falta original e por isto sua visão do tempo é negativa, ainda que não inteiramente: os homens, pelo sacrifício de Cristo, e graças ao exercício da sua liberdade, que é um dom de Deus, podem salvar-se. O tempo não só é condenação; é também uma prova. Para o hindu o tempo é mal em si mesmo. Melhor dito, por ser impermanente e cambiante, é ilusório. O tempo é maya; uma mentira em aparência prazerosa, porém que não é senão sofrimento, erro e ao final, morte que nos condena a renascer na horrível ficção de outra vida igualmente dolorosa e quimérica.

Para os cristãos e para os judeus, também para os muçulmanos, só houve uma criação. “A cosmografia clássica”, disse Louis Renau, “imagina um ovo de Brahma de onde brotam as séries de criações sucessivas” (La civilisation de l’Inde ancienne d’aprés les textes sanscrites, Paris, 1950). Não uma única criação, e sim muitas. Renau agrega: “A duração do universo, desde o começo até sua dissolução, é um dia de Brahma; uma infinidade de nascimentos o terá precedido e outras dissoluções o seguirão.” O universo dura o que dura o sonho de Brahma; ao despertar, o universo se desvanece porém volta a nascer logo que a divindade se põe a dormir de novo. Brahma está condenado a sonhar o mundo e nós. a ser o seu sonho. Conhecemos a duração destes sonhos recorrentes: 2190 milhões de anos terrestres. Em outras versões a duração destes sonhos é de 4.320 milhões de anos. Cada ciclo (kalpa) está composto por eras (yugas). Há quatro em cada kalpa e nós vivemos na quarta era, a final, deste ciclo: Kaliyuga. É a era do erro, a confusão de castas e a degradação da ordem cósmica e social. Seu fim se aproxima e perecerá pela dupla ação do fogo e água. Depois de um período de letargia cósmica, o universo recomeçará outro ciclo. Assim posto, o tempo se acaba, tem um fim: porém renasce e torna a percorrer o mesmo circulo; é um sem fim (Luis Gonzales Reiman, Tiempo cíclico y eras del mundo em La India, El Colegio de México, 1988). No budismo e no jainismo há ciclos e cifras semelhantes. Contrasta a enormidade destes ciclos com a duração que os cristãos atribuem ao mundo: uns poucos milhares de anos. Na cosmologia hindu, incluindo a budista e a jainita, também há, como em Giordano Bruno e nas hipóteses de muitos cientistas modernos, pluralidade de mundos habitados por criaturas inteligentes. Em cada um destes mundos há outros Budas e outros Mahaviras (Mahavira: fundador do jainismo). Os textos budistas nos dizem, inclusive, que um Buda futuro ensinará aos homens esquecidos o caminho reto para o nirvana. Conhecemos seu nome: Maitreya.

A ideia de sucessivas criações cósmicas e a concomitância de idades ou eras do mundo aparece em muitos povos. Foi uma crença dos índios americanos; os antigos mexicanos diziam que o número de criações, que eles chamavam sóis, eram cinco. A última, a quinta, é a atual: sol do movimento. Estas crenças também figuram em outros povos do Oriente, Ásia Menor e do Mediterrâneo. Dela compartilharam vários filósofos: Pitágoras, Empédocles, Platão, os estoicos. Outras semelhanças entre os hindus e os greco-romanos: o mundo sublunar é imperfeito e defeituoso porque se modifica sem cessar. A troca reflete uma carência; o ser incompleto, o homem, aspira à plenitude do ser, sempre idêntico a si mesmo. A troca, a incessante mutação que são o tempo e o mundo, aspira à identidade imutável do ser. Para os gregos e para os hindus o movimento era dificilmente compreensível, salvo como tentativa para alcançar a imutabilidade do ser, que está para além do tempo. Daí que Heráclito concebia o mundo não como progressão feita pela luta dos contrários – segundo supõe a moderna interpretação, errônea na minha avaliação -, e sim como um ritmo composto por sucessivas e repetidas rupturas seguidas de reconciliações: a unidade se divide em duas metades que se odeiam, se amam e terminam por reunir-se para tornar a se separar, e assim até o final dos séculos. Não afinidades eleitas, e sim regidas por uma fatalidade: cada afirmação engendra sua negação que, por sua vez, se nega em outra afirmação. Heráclito ignorou o progresso; também Platão e Aristóteles. Por isto os últimos veem no círculo a imagem da perfeição: o ponto de seu começo é também o do fim. O círculo está feito à semelhança do eterno movimento dos corpos celestes. O movimento tem sede de imobilidade, o tempo de imutabilidade.

A complexidade da cosmogonia hindu, e a enorme duração dos ciclos, se parecem com a lógica que rege os pesadelos. Ao final, essas cosmogonias se dissolvem; abrimos os olhos e nos damos conta de que estivemos entre fantasmas. O sonho de Brahma, o que chamamos realidade é uma quimera, um pesadelo. Despertar é descobrir a irrealidade deste mundo. A característica negativa do tempo não é decorrente de ser consequência de um pecado original, e sim pelo contrario: o pecado ou falta original do homem é ser um filho do tempo. Porque o tempo é mal? Por ser impermanente, ilusório, irreal. O tempo carece de substância: é sonho, é mentira, maya. Esta palavra é traduzida como ilusão. Porém tem que se acrescentar que a ilusão que é o mundo é uma criação divina. Um Upanishad diz: ”Deves saber que a Natureza (prakriti) é ilusão (maya) e que o Senhor é o ilusionista (mayin).” No Bhagavad Gita, para explicar a Arjuna seus nascimentos, Krishna disse: “Ainda que não tenha nascido, e meu ser seja imortal, encarnei em um ser mortal (neste mundo) por meio do meu poder (maya).” Aqui maya é poder. Porém, acrescenta Krishna em outra passagem, “aqueles que buscam refúgio em mim ultrapassam este poder divino (maya)”. Assim, maya é ilusão e igualmente poder criador de aparências. A realidade verdadeira, a única, não é uma criação nem uma aparência: é o Ser imutável e incriado. É a vacuidade para o budista. Maya é tempo, porém não no sentido ocidental que o vê como um processo dinâmico, sim como vã repetição de uma falsa realidade, uma aparência. Tudo o que muda adoece de realidade; o real é o que permanece: o ser absoluto (Brahma). O homem é impermanente como o cosmo, porém na sua profundidade está o ser (atman), idêntico ao ser universal. Ambos estão além do tempo, fora do acontecer. O Ser não pensa, nem sente, nem muda: é. Por sua vez, o budismo negou o ser e viu o ego como um conjunto de elementos sem substancia, que a meditação deve desagregar e depois dissolver. Hinduísmo e budismo são uma critica radical ao tempo.

Para o hinduísmo o tempo não tem sentido, ou melhor, não tem outro que o de se extinguir no pleno ser, como o diz Krishna a Arjuna. Esta concepção do tempo explica a ausência de consciência histórica entre os hindus. A Índia tem tido grandes poetas, filósofos, arquitetos, pintores, porém nenhum historiador. Entre os diversos meios pelos quais os hindus negam o tempo, há dois particularmente impressionantes: a negação metafísica e a social. A primeira impediu o nascimento deste gênero literário, cientifico e filosófico que chamamos historia; o segundo, a instituição das castas, imobilizou a sociedade.

O contraste com os muçulmanos é notável. Também com os chineses, para os quais a perfeição está no passado. Confúcio diz:”Não invento, transmito. Creio na antiguidade e a amo.” A civilização é uma ordem que não é diferente da ordem natural e cósmica: é um ritmo. A barbárie é a transgressão das regras da natureza, a confusão do princípio celeste com o terrestre, a mistura dos cinco elementos e dos quatro pontos do horizonte: ruptura do ritmo cósmico. A barbárie não está antes da historia, e sim fora dela. O alvorecer da civilização, a mítica idade feliz do Imperador Amarelo, é também seu meio-dia, seu momento mais alto. O apogeu está no amanhecer; o começo é a perfeição e por isto é o arquétipo por excelência. A Antiguidade é perfeita porque é o estado de harmonia entre o mundo natural e o social. Daí a importância dos cinco livros clássicos, são a fonte do saber político e o fundamento da arte de governar. A política é uma parte da teoria da correspondência universal; a música, a poesia, a dança, os ritos são política porque são ritmo; a imitação dos antigos é a via do sábio e do governante virtuoso. A heterodoxia taoísta não crê nos clássicos nem na civilização e na virtude, na acepção que davam a estas palavras Confúcio e seus discípulos, porém concordavam com eles em ver a natureza como um modelo: a sabedoria é consonante com o ritmo natural, saber não é conhecimento, e sim afinação da alma. O sentido do tempo está no passado, a Antiguidade é o sol que ilumina nossas obras, julga nossos atos guia nossos passos.

Entre os mulçumanos a história é bem mais crônica e não uma meditação sobre o tempo. Não obstante, Ibn Khaldun divide as sociedades humanas em dois grupos: culturas primitivas e civilizações. As primeiras, nômades ou sedentárias, não conhecem propriamente a história: ligadas à terra ou errantes no deserto, vivem sempre o mesmo tempo. As civilizações nascem, alcançam o apogeu, declinam e desaparecem: sobre suas pedras voltam a andar as cabras. As civilizações são organismos individuais, cada uma com suas características próprias, porém todas sujeitas à lei do nascimento e morte. Contêm, sem duvida, um elemento intemporal: a religião. A verdadeira perfeição não está no tempo e sim nas religiões, sobretudo na última, o islã, que é a revelação definitiva.

O tempo cristão não é cíclico e sim retilíneo. Teve um princípio, Adão, Eva, e a caída; um ponto intermediário: a Redenção e o sacrifício de Cristo; um período final: o nosso. O tempo cristão rompe o tempo circular do paganismo. Para Platão e Aristóteles o movimento perfeito é o circular; a imagem das revoluções dos corpos celestes é racional e eterno. O movimento retilíneo  é acidentado e finito; é contingente: não se move por si mesmo e sim graças à impulsão de um agente externo. O cristianismo inverte os sentidos; o tempo retilíneo, o humano, é o que importa porque é o da nossa salvação ou condenação. Não é um movimento eterno nem indefinido; tem um fim, no duplo sentido da palavra: término e finalidade. Pelo primeiro, é definitivo; pelo segundo, possui um sentido; e por ambos é um tempo decisivo. O cristianismo introduz a decisão, a liberdade: seu tempo significa redenção ou perdição. Seu valor não reside no passado, ainda que a caída seja a causa do tempo e da história, e sim no presente: agora mesmo me salvo ou me condeno. Este valor agora também se refere a um futuro também definido: a hora final, seja a da nossa morte individual ou a do juízo Universal. O cristianismo coincide com as outras religiões em conceber a perfeição para além do tempo, porém, este mais além, não está nem no passado nem fora do tempo e sim em um futuro preciso, definido: o fim do tempo. Este fim é o começo de algo que já não é o tempo, algo que não podemos nomear, ainda que por vezes o chamemos de eternidade.

A ideia moderna do tempo se fundamenta na do cristianismo. Também para nós o tempo é uma sucessão linear, história - não sagrada e sim profana. A conversão do tempo religioso em tempo profano teve como imediata consequência transformá-lo: cessou de ser finito e definido para ser infinito e indefinido. O tempo moderno é um permanente mais adiante, um futuro sempre não alcançado e irrealizável. Esse futuro é indefinível posto que não tem fim nem finalidade: sua essência consiste em ser um futuro intocável. À medida que o futuro se distancia, o passado se distancia: também é intocável. Sem dúvida, podemos explorá-lo e calcular com certa precisão a antiguidade da espécie humana, e ainda da terra e do sistema solar. Por outro lado o futuro é e será incalculável. Talvez logremos saber de onde viemos, porém não é fácil que saibamos para onde vamos. Disparado para adiante, flecha em linha reta, nosso tempo não tem mais sentido que o de ser um perpétuo movimento cada vez mais perto -cada vez mais longe- da futura perfeição. A ideia que nos atiça é maravilhosa e insensata: o futuro é progresso.

A expansão europeia transformou o ritmo das sociedades orientais; quebrou a forma do tempo e o sentido da sucessão. Foi algo mais que uma invasão. Esses povos já haviam sofrido outras dominações e sabiam o que é o jugo do estranho, porém a presença europeia lhes pareceu uma dissonância. Certos espíritos tentaram adivinhar um propósito por trás dessa agitação frenética e dessa vontade tendenciosa para um futuro indefinido. Ao descobrir em que consistia esta ideia, se escandalizaram: pensar que o tempo é progresso sem fim, mais que uma mística paradoxal, lhes pareceu uma aberração. À turvação se mesclou o assombro: por irracional que fosse esta concepção, como não ver que graças a ela os europeus faziam prodígios? A reprovação com a qual as elites hindus e muçulmanas viram o materialismo dos europeus se transformou rapidamente em admiração. Reconheceram que, se não eram mais sábios que eles, os ingleses eram mais poderosos. Seu saber não conduzia nem à contemplação da divindade nem à liberação; sua ciência era ação: a natureza lhes obedecia e em suas cidades o poder dos fortes e os ricos pesavam menos. Era a velha magia, agora ao alcance de todo aquele que conhecesse a fórmula do encantamento.

A ciência e a técnica, o poder do homem sobre o mundo material e a liberdade que nos dá este poder: este é o segredo da fascinação que o Ocidente exerceu sobre as elites do Velho Oriente. Foi uma verdadeira vertigem: o tempo pesou menos, os homens não eram escravos nem das revoluções dos astros nem da lei kármica. Agora podia assumir a forma que nossa vontade e nosso saber determinassem. O mundo se tornou maleável. A aparição do tempo moderno resultou numa inversão dos valores tradicionais, o mesmo na Europa e Ásia: ruptura do tempo circular pagão, destruição do absoluto intemporal hindu, descrédito do passado chinês, fim da eternidade cristã. Dispersão e multiplicação da perfeição: sua moradia é o futuro e o futuro está em todas as partes e em nenhuma, ao alcance da mão e sempre mais além. O progresso deixou de ser uma ideia e se converteu em uma fé. Mudou o mundo e as almas. Não nos redime de nossa contingencia; o exalta como uma aventura que sem cessar recomeça: o homem já não é a criatura do tempo e sim seu criador.

Artimanhas do tempo: no momento em que a idolatria da mudança, a crença no progresso como uma lei histórica e a proeminência do futuro triunfam em todo o mundo, essas ideias começam a se desmoronar. Duas guerras mundiais e a instauração de tiranias totalitárias fazem vacilar a nossa fé no progresso; a civilização tecnológica tem demonstrado que possui imensos poderes de destruição, o mesmo sobre o ambiente natural, cultural e espiritual. Rios envenenados, bosques transformados em desertos, cidades contaminadas, almas desabitadas. A civilização da abundância é também a da fome na África e em outros locais. A derrota do nazismo e do comunismo tem deixado intacto e a descoberto todos os males das sociedades democráticas liberais, dominadas pelo demônio do lucro. A famosa frase de Marx sobre a religião como ópio do povo pode aplicar-se agora, com maior razão, à televisão, que acabará por anestesiar o gênero humano, apequenado em uma beatitude idiota. O futuro tem deixado de ser uma promessa radiante e se transformado em uma interrogação sombria.

Para Ghandi, as civilizações iam e voltavam; o único que ficava em pé era o dharma: a verdade do humilde sem outra espada que a não-violência. De certo modo não lhe faltava razão: a história é a grande construtora de ruínas. Ele opunha às invenções daninhas do ocidente sua fé em uma sociedade composta por pequenas aldeias de agricultores e artesãos. A história mesmo, em sua forma mais cega e brutal, o tem desmentido: a explosão demográfica tem feito em cacos o sonho das aldeias felizes. Cada aldeia é um foco de miséria e desdita. Não insistirei no que todos sabemos, ainda que a maioria não de um modo muito claro: nossa ideia de tempo tem se despedaçado e suas milagrosas invenções nos queimam as mãos e as mentes. Talvez o remédio esteja em colocar no centro da tríade temporal, entre o passado que se distancia e o futuro ao qual nunca chegaremos, o presente. A realidade concreta de cada dia. Acredito que a reforma da nossa civilização deverá começar com uma reflexão sobre o tempo. Há de se fundar uma nova política enraizada no presente. Porém este é outro tema, do qual já tratei em outros livros. Estas páginas começaram com uma tentativa em responder a interrogação que me fiz na Índia. Agora terminam com uma pergunta que nos engloba a todos: em que tempo vivemos?



(Tradução de Mozart Bezerra Alves Filho)


(Vislumbres de la India)


(Ilustração: Salvador Dalí - tempo)




quarta-feira, 26 de setembro de 2012

SEXUALIDADE, de Cristiane Neder







Eu sou heterossexual
sou roxo.
Eu sou homossexual
sou cor de rosa.
Eu sou bissexual
sou violeta néon.
Eu sou trissexual
abro meu leque na mão.
Eu sou quadrissexual
sou amarelo–limão.
Eu sou quinssexual
sou laranja–dourado.
Eu sou seis vezes
a cor do pecado.
Vou mudando de cor
até chegar no estado puro dos tons.
Sou branco virgem
na tonalidade assexuada.


(Ilustração: Aaron Coberly)


domingo, 23 de setembro de 2012

O MEU CARNAVAL, de Lima Barreto





– Mas foste mesmo recrutado?


– Fui; e comi fogo que não foi graça.



– Como foi a história?



– Aproximava-se o carnaval. Como era meu costume, vim para a oficina, onde

trabalhava. Eu morava em Santa Alexandrina, pelas bandas do Largo do Rio Comprido.  Ao chegar à oficina, na Rua dos Inválidos, o mestre me disse: “Valentim, você hoje tem um serviço externo. Você vai até Caxambi, no Méier, para assentar as caixas d’água de um prédio novo.” Deu-me o dinheiro das passagens e parti. Conhecia aquela zona e, a fim de poupar níqueis, desprezei o bonde e fui a pé. Passava eu por uma rua tranversal à Imperial, quando fui abordado por três ou quatro tipos fardados, do mais curioso aspecto. Eram de diversas cores, formando uma escolta, cujo comandante, um cabo, era um preto. E que preto engraçado! Desengonçado, pernas compridas e arqueadas, pés espalhados – era mesmo um macaco. A farda, blusa e calça, estava toda pingada; o cinturão subira-lhe até quase ao peito... Enfim, era um verdadeiro jagodes, um “Judas”.


– Que é que eles te disseram?



– O cabo veio direito a mim e perguntou-me com toda a empáfia: “Onde é que

você vai?” Disse-lhe; mas a feroz autoridade parecia ter implicado comigo, tanto que me intimou: “Você vai à presença do senhor capitão Lulu.” “Mas não fiz nada”, objetei. Ele foi inabalável e não quis atender os meus rogos. Chorei, roguei, mas nada! Num dado momento, um dos soldados disse: “Seu cabo está com muitos luxos. Se fosse comigo, esse paisano ia já.” E fez menção de desembainhar um enorme sabre de cavalaria que tinha à cinta.


– Mas que soldados eram estes?



– Não estás vendo logo? Eram guardas nacionais.



– Percebo. Foste?



– Fui. Que remédio?



– Que te fizeram?



– Vou contar-te tintim por tintim. Levaram-me a presença do oficial. Era um

mulato forte, simpático, e o seria intensamente se não fosse a sua presunção e
pernosticidade. Era assim o capitão Lulu. Muito apurado no seu uniforme, disse-me num tom imperativo: “Você é um reles desertor. É um ignóbil brasileiro que recusa servir a sua pátria.” Objetei-lhe cheio de susto: “Mas, senhor capitão, nunca fui soldado, como posso ser desertor?” O capitão Lulu não respondeu diretamente à minha interrogativa, mas perguntou-me: “Como é que você se chama?” Disse-lhe. Indagou ainda: “Onde é que você mora.” Indiquei: “Rua tal, em Santa Alexandrina.” Isto pareceu-lhe contrariar; mas nada disse. Pôs-se a escriturar num livro e, por fim, falou-me: “Encontrei os seus assentamentos. Você está há muito tempo qualificado neste
batalhão – 01.723.436. regimento de cavalaria da Guarda Nacional. Apesar de reiteradas intimações, você não se tem apresentado. Está preso disciplinarmente por oito dias.” Fiquei tonto, atordoado: “Mas senhor”, fiz eu, a tremer. “Cabo”, gritou o Lulu, “cumpra as ordens. Já sabe!”


– Puseram-te na cadeia?



– Não. Revistaram-me, tiraram-me as ferramentas e o dinheiro que levava. Isto tudo, na presença do marcial Lulu. Quando este viu os cobres, gritou: “Dá cá! Esses cobres vão para a caixa do regimento.” Após o que, levaram-me para um outro compartimento, onde me fizeram despir a roupa e vestir uma calça e blusa do uniforme. Das peças que lá havia, a única blusa que me chegava, tinha as divisas de cabo. Não quiseram arrancá-las e fui feito cabo de esquadra. Isto não impediu, porém, que me pusessem em serviço árduo.



– Qual foi?



– Meteram-me uma enxada na mão e fizeram-me capinar a chácara durante

quase oito dias, passando fome.


– Como?



– A comida era café ralo e pão duro, pela manhã; e, às duas horas, um ensopado de mamão verde, muito mal feito, no qual encontrar uma pastilha de carne seca era uma raridade de fazer alegria até chorar. Na sexta-feira que precedia o sábado, véspera do carnaval, descansei. Ordenaram-me que lavasse a farda e a roupa branca, o que fiz vestindo em cima do corpo a fatiota com que fora preso. Mandaram passar a roupa lavada a ferro; e, no sábado, ordenaram-me que a envergasse e fosse à presença do comandante. Apresentei-me, fiz a continência que me haviam ensinado e esperei as ordens. O Lulu disse para o superior: “Está aí coronel, o desertor que capturei.” O comandante recostado na cadeira, acariciou o ventre proeminente com as duas mãos e disse com sotaque italiano: “Que vai ele fare?” O capitão Lulu respondeu: “Vai ser minha ordenança, no patrulhamento do carnaval.” O coronel ítalo-brasileiro só se limitou a dizer: “Bene!” À tarde, no sábado, Lulu, antes de sairmos, mandou-me chamar e aconselhou-me: “Você me parece boa pessoa, disciplinada. Procede muito bem. ‘A submissão é a base do aperfeiçoamento’, disse Victor Hugo. Se sou oficial, se cheguei à posição em que estou, devo, não só ao meu esforço, como também a ser obediente aos meus superiores. Você veio, acompanhou-me; porte-se bem que não terá de arrepender-se.”



– O que era esse tipo, além de guarda nacional?



– Era servente do Senado.



– Que magnata!



– Não te rias. À hora marcada, saímos, eu e Lulu, para a ronda. Deu-me cinco

mil-réis, para despesas; mas não os pude gastar em uma feijoada, porque o aguerrido Lulu não me dava tempo. Andamos pelas ruas e, à noite, fomos aos clubes, onde pude beber e comer à vontade. No domingo foi a mesma coisa e já tinha ganho a intimidade de Lulu, a ponto de bebermos os nossos calistos juntos. Na segunda-feira, deu-me licença de ir até em casa; e eu que já estava ensoberbado de ser guarda nacional, fui de farda, facão e tudo! Quando cheguei ao Largo do Rio Comprido, saltei para tomar alguma coisa. Topei logo com um conhecido que, surpreendido e cheio de espanto, me disse: “Valentim! Que é isso? Você pode ser ‘pegado’ !” “Por quê?” “Ninguém se pode fantasiar com os trajes militares do país.” Mal tinha dito isto, quando fui preso imediatamente por um polícia que me levou à delegacia onde não me quiseram ouvir e me meteram no xadrez até quarta-feira de cinzas. Está em que deu a Guarda Nacional e como foi o meu carnaval, naquele ano.



(Careta, Rio, 8-1-1921)



(Ilustração: Di Cavalcanti - carnaval)




quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A LOUCA, de Eliana Iglesias







A louca que se instalou em mim
não é de superfície
e sim das profundas
A louca é por assim dizer
alguém que
as senhoras desviam o olhar,
nas ruas ninguém quer cruzar
e a moral rotula como: “imunda”
A louca que se instalou em mim
não é débil
tampouco passageira
nem gentil, ou bicho, ou gente
Louca sim
Louca, simplesmente
Nenhum parentesco 
com normal ou regrado
Quem sabe a encarnação de algum degenerado?
Ou o próprio demônio por mim revisitado?
Essa louca que resiste em mim
tal soldado fedorento na trincheira
a cada madrugada insone
toma-me em fúria
sem trégua
e por inteira
Tão louca, pois que insiste em mim
e que se prega feito parasita
a esta camisola de cetim
Essa mesma louca
que em noites de lua redonda
encharca-me a pele de sexo
e o sexo de gozo
me fazendo hedionda
por matar o que não devo
e que me deixa dividida
alguém que anseia ficar
tendo na boca já o gosto da partida
A louca que habita em mim
não aceita negativas
ou prerrogativas
É senhora absoluta do prazer imediato
Faz-me surda ao que é sensato
e ainda imperiosa
dita-me vozes
como se em mim houvesse, não apenas um
mas, mil algozes
A louca que ora me acompanha
sempre que pode
crava suas garras em minhas entranhas
e as domina como faz o vento
ao deixar a rebentação encapelada
E como esta, me revolto
me bato, me lanço, perfuro, me solto
para depois retomar a mim modificada
Essa louca que me tira do sério
que puxa as cordas da minha vontade
que faz a boca dizer impropérios
e que nunca me leva à saciedade
Essa louca lasciva que explode e... pronto!
Em meio às sombras, exposta ao sol
que não tem hora para aparecer
nem rumo certo a percorrer
Louca desperta, posto que é louca
Louca liberta, posto que é louca
Justamente, a louca  
que me faz viver



(Ilustração: Emil Nolde)



segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O DIA 16 DE NOVEMBRO, de Elvira Vigna






No dia 16 de novembro, Paulo abriu os olhos e voltou-se para a nesga de luz que passava pelas duas cortinas — a mais pesada, de um plástico cinza, e a mais leve, de um tecido branco transparente que ficava por cima da outra. Permaneceu assim por alguns momentos, antes de iniciar o preparo para que o resto todo de seu corpo pudesse acompanhar os olhos e sair do quarto escuro, pequeno e já cheio de ruídos: alguém que ligava a televisão no quarto ao lado; o carrinho da arrumadeira, ameaçador, no hall; o tlim do elevador. Primeiro, fez uma inspeção mental básica no estômago e na boca. Não, nenhum vestígio do mal-estar da noite anterior, em que, depois de comer um x-tudo no bar da esquina, vomitou e cagou a alma. E, ao falar para si mesmo essa frase, poderia ter achado engraçado: a alma. Seria oportuno, rá, rá, se livrar da alma na véspera. Mas Paulo não era uma pessoa de muitas reflexões. Isso normalmente. Naquela hora, então, é que não havia de fato lugar para elas. Depois do estômago foi a vez do joelho, e, nesse, a inspeção não poderia ser apenas mental. Então Paulo esticou a perna, dobrou e tornou a esticar. Nada de muito ruim. A dor nas costas, com a hérnia de disco, estava como sempre quando ele acordava: existente. Mas, no decorrer do dia, com os movimentos, tendia a se estabilizar. E, depois disso, como se já se sentisse cansado — e o motivo do cansaço seria, então, o simples fato de ter joelhos, estômago e costas —, ele ainda ficou, os olhos agora mirando a escuridão, a ouvir o tique-taque do relógio grande, feio, da mesinha de cabeceira. Ficou ouvindo o tique e o taque e o tique e o taque, em sua previsibilidade, enquanto dava um tempo para que a arritmia se manifestasse. Esse era o único sintoma de sua cardiopatia, para a qual tomava quilos de remédios cotidianamente.

O dia começava.

Depois, já andando na praia em direção ao Posto Seis, seu corpo e seus mais de sessenta anos ficaram esquecidos. Andar sozinho por cidades desconhecidas era sempre um imenso prazer. Andar de ônibus ou de carro por estradas que o levassem a lugares desconhecidos, mais ainda. O Rio de Janeiro não era desconhecido até bem pouco tempo. Tinha ficado. Paulo saíra de lá, com toda a família, não fazia um mês. Mas, se a cidade continuava a mesma, ele já era outro. E, entre seus pés e as calçadas, agora surgia uma distância alegre de quem não tem mais nada a ver com aquilo.

Ia, devagar porque tinha tempo, para a casa de um ex-colega de um de seus inúmeros trabalhos. Melhor dizendo, profissões. Não que tivesse buscado isso. Não que em algum momento de sua infância tivesse se dito Vou ser o que pintar, fazer o que me der na telha. Simplesmente aconteceu assim. A vida volta e meia o tirando de uma trilha e o pondo em outra. Nesse caso, a trilha, ou, melhor dizendo, a avenida Atlântica, o levava para a casa de um cara chamado Pedro Correa, mais conhecido por Pecê, seu fornecedor de maconha. Entre o Pedro e o Correa, e mesmo depois do Correa, havia mais nomes. Mas Pecê era uma palavra engraçada de ser dita nas salas de mobiliário com design ergonômico e tapetes grossos da empresa de marketing onde ambos trabalhavam. E Pecê ficou. Era um sujeito baixo e gordinho, que morava num grande apartamento de frente para o mar, com a mulher e, de vez em quando, com um de seus filhos já adultos e independentes mas que, por um motivo ou outro, pernoitavam com frequência na casa do pai. Era ele o correspondente atual e possível das figuras da juventude de Paulo, todas muito mais fascinantes e românticas, com uma maconha também muito mais divertida e grupal. E, se Paulo fosse dado a pensamentos, aqui também haveria um. Pois o pc, Partido Comunista, no qual Paulo militara em sua juventude, se via assim transformado num aposentado rico, que curtia maconha menos do que dizia curtir, e que o fazia porque sentar-se na sala com um ou outro filho e oferecer um cigarrinho era sua maior possibilidade de se sentir próximo. 

Não havia muito papo entre Paulo e esse seu ex-colega. Tinham trabalhado juntos — não há muito que falar sobre isso, além de um Você tem visto o fulano? Você soube que o sicrano. Quem? O sicrano, aquele do departamento tal. Ah. Pois ele, não sei se você soube. O que tem duração pequena por mais que se esprema. Até que Pecê se levante do sofá, diga o aguardado Vou pegar, e volte logo depois com um pacotinho e um cigarro já preparado na mão, para que fumem um pouco, os dois, conformados ambos com o fato de que a proximidade geográfica e aleatória é tudo o que há. Ficarão por um tempo encostados no peitoril da janela enorme, vendo o horizonte, ali, imutável, do jeito mesmo que era quando ambos, ainda jovens, levavam, lá embaixo, na calçada, vidas muito diferentes uma da outra. E, diante desse horizonte imutável, ambos fumarão essa maconha esforçando-se para que ela também fosse imutável. Mais do que o horizonte, a maconha ajudava-os a pensar que o tempo não havia passado e ainda havia muita vida pela frente. 

Mas Paulo pousava o peso do corpo ora em uma perna ora em outra. Para obter a maconha de Pecê, ele precisava compartilhar o clima de Pecê — a janela, os móveis pesados, o apartamento antigo e caro —, e Paulo não era essa pessoa. 

(Muito do que aqui se está a falar é sobre que pessoa é Paulo.) 

Mas Paulo, indo de uma perna à outra sem sair do lugar,  falou afinal o que ele tinha para falar, a frase-troféu, a apoteose,  o segundo motivo de sua visita. 

“Tem uma mulher aí me enchendo o saco, querendo dar para mim.” 

Pecê foi mais bem-sucedido que Paulo no emprego que compartilharam por alguns anos na multinacional. Nela, qualquer que fosse o cargo, o importante era ostentar perfil adequado à venda. Marketing. Com seu anelão, conversa mole e profundamente mainstream, Pecê e, aliás, todos os seus colegas eram melhores no papo com os clientes, nas risadas e nos tapinhas nas costas do que Paulo jamais seria. 

Rá, rá, riu Pecê. E deu um tapinha nas costas de Paulo. 

E depois, sério: 

“Ah, quando elas se tornam muito insistentes, é muito chato mesmo.” 

Acabaram de fumar a maconha, agora Paulo se sentindo melhor, os cotovelos encontrando um nicho na madeira do peitoril, um pouco carcomida pela maresia. Paulo sempre tinha querido dizer o que acabara de dizer — e ele virava e revirava a frase na sua cabeça, gostosamente. Nos almoços das quintas-feiras que o grupo organizava no restaurante ali embaixo, havia sempre um ou outro colega que falava de seus casos com mulheres. Rara a semana em que não havia casos novos a serem aludidos, e que eram comentados apenas com frases curtas, jamais perguntas, e sem detalhes concretos, substituídos por risadas, muxoxos e o alcear de sobrancelhas. Paulo nunca tinha tido amantes. Algumas garotas de programa sim, quando viajara, havia muito tempo, com esse mesmo grupo para outras cidades, Brasília, Recife e principalmente São Paulo. São Paulo, para onde agora tinha se mudado. Estar morando em São Paulo excluía até mesmo de sua imaginação — já que na prática garotas de programa não eram mais uma presença real em sua vida — o rico plantel de boates e putas da rua Augusta, a uma quadra de sua nova casa. Pois era importante para Paulo que seus escapes, como denominava trepadas ocasionais, se dessem em cidades diferentes daquela em que morava. Sentia-se mais seguro assim. Era mais fácil de compartimentar, de escondê-las até de si mesmo.

Amante, ia ser a primeira.

O mal-estar da noite anterior, inclusive (ele aventaria depois), bem poderia ter sido um ataque de pânico sem participação de um afinal inocente x-tudo. Pois na noite anterior, ao meter a chave na porta do quarto do hotel e se jogar na cama, enfim sozinho, ele já sabia que no dia seguinte iria trepar com N.

“Vamos almoçar juntos amanhã?” E os peitos, quase totalmente fora do decote, roçavam seu antebraço no quiosque deserto da praia. Os peitos sem ter nenhuma dúvida quanto à resposta.

“Vambora.”

“Onde você quer?” E os ouvidos de Paulo escutavam essa pergunta em outro contexto, onde ele ia querer? Ah, ele ia querer em tudo.

“No Mario’s?”

A mulher endureceu. Apagou o cigarro no cinzeiro da mesa, num gesto decidido. O Mario’s, ela explicou, era onde ela levava clientes da firma de importações-exportações que mantinha com o marido, para almoços de negócios.

“O nosso almoço vai ser de negócios?” E riu os dentinhos de rato.

Combinaram então o restaurante do Posto Seis, embaixo da casa do Pecê, que era o primeiro e urgente destino a ser alcançado, first thing in the morning. First thing in the morning porque Paulo pensava com palavras que eram as suas, uma mistura bem particular de inglês e português. Era a mistura que ele começara a incorporar desde a época em que cantava com voz nasalada e 
olhos fechados, dobrado em cima de seu violão, músicas de Bob Marley. E que continuaram, essas palavras misturadas, em suas várias vidas, edimentando-se numa tonalidade diferente, tipo business, na sua estada na multinacional. No tempo presente, elas vinham com um tom irônico, pois Paulo, no momento, era tradutor.

Aguardando a futura amante no restaurante quase vazio, Paulo escolheu a mesa que costumava usar nas dezenas de vezes em que lá estivera com seus ex-colegas. Ouviu com prazer o barulho da cadeira de metal arrastando em cima das pedras portuguesas do chão. Pareceu-lhe um olá de conhecidos. Sentou, disse ao garçom que esperava alguém, pôs a mochila com seu pacotinho de 
maconha na cadeira ao lado.

Depois mudou a mochila. Era melhor deixá la na cadeira na sua frente, para que a cadeira ao lado ficasse vaga.

N. saltou do táxi com suas coxas roliças e caminhou até ele. Essa caminhada, passo por passo, não era uma caminhada. Era a implementação de uma imagem. Era uma ação estudada, matemática, calculada. A imagem que N. estabelecia com essas suas saídas de dentro de táxis era a de uma mulher segura, que sabe o que está fazendo. Nesse caso, N. o sabia duplamente. Ela era 
uma mulher que sabia estar indo ao encontro daquele que ela havia escolhido para amante e ela era uma mulher que sabia que andar com a aparência de segurança era excitante. Paulo hesitou e se levantou para beijá-la.

Pediram frango à passarinho e cerveja.

Ficaram em amassos entre um alho e outro.

Mais amassos.

Num amasso, Paulo, desajeitado, derrubou cerveja. Riram. Enxugaram-se com guardanapinhos de papel que grudavam não só na cerveja como no suor que estava por baixo da cerveja. Pois suavam. Paulo riu mais, mais do que gostaria.

Não é fácil o caminho até o sexo.

Principalmente quando se imagina um sexo desavergonhado, bruto, sem prolegômenos, e o que se tem em frente é a cara bem conhecida de uma velha amiga e colega de profissão. Pois Paulo e N. se conheciam havia cinco anos.

Não é fácil. A que horas daria para dizer Agora vira e abre bem as pernas. A que horas daria para dizer Então vamos.

“Então vamos.”

E a realidade nunca está à altura.

Depois do Então vamos — que deveria encerrar uma cena e, corte, ação, grudar em outra, eles já nus, gritos, pernas abertas —, ainda houve todo o intermediário, o mingau que a tudo arrefece. Pois não foi possível levantar e sair aos pulos de canguru até o horizonte, logo ali.

Não.

Foi preciso esperar garçom, conta, maquininha de cartão de crédito e recibo de cartão de crédito.

Mas foram.

No táxi, a ordem saiu automaticamente, afinal era o único motel que Paulo conhecia.

“Vamos para o Sândalo, na São Clemente.”

Desses momentos — há um motorista de táxi esperando para saber aonde ir — de definição impostergável sobre quem é o macho, quem é a fêmea. Era Paulo quem tinha de dizer para qual motel iriam. Uma pergunta do tipo Você conhece aí um motel legal, benhê?, e nem seria o caso de continuar o caminho. Esse era um motel velho conhecido de Paulo, o único conhecido.

Foram.

Treparam.

N. com mais desenvoltura que Paulo. Luz acesa, cortina semiaberta, uma nudez sem problemas, peitos, bunda, boceta, ali, às claras. Prometia. Mas Paulo iniciava com beijinhos, carinhos, palavras de afeto. Odiando-se por isso, sem saber como sair disso. N. também maneirava nesse primeiro dia, sem querer parecer puta, sempre um risco em situações como a sua.

Fizeram um papai e mamãe e depois ficaram por ali, nus, fumando o mesmo cigarro, retomando as conversas que tinham havia tanto tempo, nos almoços e cafés marcados, sempre a sós, quando falavam sobre programas de tradução, tradutores amigos, novos clientes etc.

Ficaram trepando, sempre numa tentativa de sair de um limite que, justamente por existir, era o que criara o encontro.

E depois foram embora, pedindo dois táxis. N. foi para a casa dela, Paulo para o hotel.

No hotel, o telefonema habitual, feito sempre, em todas as viagens, desde que o mundo é mundo:

“Oi, querida, tudo bem por aí?”

E que ele ainda ia sair para comer alguma coisa e depois ia dormir cedo porque estava cansado.

Foi esse o dia 16 de novembro.

O dia 16 de novembro, na verdade, havia começado no dia 15. Que foi quando Paulo chegou à rodoviária do Rio e encontrou N. lá para buscá lo. N. o beijou e disse que só ele mesmo para fazê-la ir a um lugar tão brega quanto uma rodoviária. Paulo  não explicou como era bom estar numa janela que lhe mostrava, por cinco horas, coisas que ficavam para trás. Entraram no carro 
caro dela, e de lá foram ao hotel de Paulo, largar a mala. Naquele fim de dia andaram pelo calçadão, num preparo desajeitado,  de esbarrões, olhares significativos, apertos de braço, chupões em quiosques vazios, mãos chegando perto de peitos e pau, num cerca-lourenço para o que só iria acontecer no dia seguinte.

Então, quando Paulo disse no telefone que ia dormir cedo porque estava cansado, ele se referia ao cansaço da passagem, entre sua vida anterior e a nova, e que era uma passagem que tinha durado dois dias.

E o Vou dormir cedo tinha outra utilidade, além de denotar essa passagem. Queria dizer Não me ligue de volta.

Bobagem. Mesmo sem isso não haveria ligações de volta. Nunca havia.




(Nada a dizer)


(Ilustração: Gianni Strino)



sexta-feira, 14 de setembro de 2012

DANCING WITH PAUL DURCAN /DANÇANDO COM PAUL DURCAN, de Nuala Ní Chonchuír






I saw Paul Durcan in The Winding Stair,
fingering a book of love sonnets.
‘Paul,’ I said, ‘your poetry is filthy with longing.’
He said, ‘Would you like to dance?’
So breast to chest we turned a Durcanesque
polka of long poems and harem-scarem
happenings around the bookstacks.
And, oh, the heft of him.
‘I won’t be falling in love with you,’ I said,
‘That’s OK,’ Paul murmured, ‘love’s not
looking for me at the moment. We’ve fallen out.’
Our bodies collided into man-woman as we swung,
our clothes and skin sewn into each other,
our legs a kicking chorus of dance, dance, dance
Paul spun me down the winding stairs
up across the bow of the Ha’penny Bridge,
and, spinning together, all our pages flew


Tradução de Eduardo Miranda


Eu vi Paul Durcan no Escada Sinuosa (*)
folheando um livro de sonetos de amor.
'Paul', eu disse, 'sua poesia é deliciosamente suja.'
Ele disse, 'Você gostaria de dançar?'
Então tetas com peito, tornamos uma polca
Durcanesca de poemas longos e além-harém
rolamos pelas pilhas de livros.
E, oh, que corpo.
'Eu não vou me apaixonar por você', eu disse,
'Tudo bem', Paul murmurou, 'o amor não está
me procurando no momento. Estamos entendidos.'
Nossos corpos se chocaram naquele vai-e-vem,
de homem e mulher, nossa pele costurada uma na outra,
nossas pernas numa dança sensual, dançam, dançam,
Paul girou-me por sinuosas escadas abaixo,
por entre o arco da Ponte Ha'penny,
e, girando juntos, todas nossas páginas voaram.



(*) The Winding Stair, restaurante-livraria em Dublin, Irlanda


(The Juno Charm , nova coletânea de poemas de Nuala Ní Chonchuír, Salmon Poetry, Knockeven, Cliffs of Moher, Co. Clare, Irlanda)


(Ilustração: The Winding Stair 2 - foto da internet, sem crédito)



terça-feira, 11 de setembro de 2012

A SENHORA DO SÉTIMO ANDAR , de Milton Hatoum








Numa manhã de setembro do ano passado, eu estava no jardim do térreo e olhava um pássaro azul que planava no ar de fuligem. De repente uma voz aguda me despertou: 

"O que você está olhando? Não se vê nada, as nuvens passam e se dissolvem como a vida".

Era uma moradora de um apartamento do sétimo andar. Achei o comentário impertinente e um tanto poético. Não lhe perguntei nada sobre poesia, mas as nuvens e suas formas mutáveis me aproximaram de dona Valéria, uma senhora de uns 90 e poucos anos. Foi uma aproximação lenta, que se estreitou em janeiro deste ano, quando ela me convidou para conversar em seu apartamento.
Toquei a campainha às 6 horas em ponto. A sala, iluminada, fora diminuída por uma biblioteca fantástica e livros empilhados por toda parte. Perguntou se eu queria chá, café, suco, uísque ou cerveja.

Suco, eu disse.

Para meu deleite, trouxe um copo com suco de manga; e, para minha surpresa, pegou uma garrafa de uísque e um copo sem gelo. As mãos tremiam, mas não a voz:

"Os jovens já não bebem mais", ela disse, com uma ironia que me fez sorrir.

Pôs dois dedos de uísque no copo, tomou um gole e disse que tinha namorado muito, numa época em que a maioria das moças namorava para casar. Aos 36 anos, quando suas amigas já tinham filhos adolescentes, ela se casou com um juiz e passou a lua de mel em Dublin.

"Um juiz digno, um homem honesto", frisou. "Ainda bem que meu marido não está aqui para ver tantas coisas ultrajantes. Bom, se ele estivesse, teria 106 anos, e com essa idade um ser humano não se surpreende com nada, nem mesmo com a morte."

Como não teve filhos, dona Valéria passou uma parte da vida ajudando o marido. Lia autos de processos e também literatura. Leu tantos processos sobre todo tipo de delito que chegou a uma conclusão pessimista. Disse, sem amargura: "O ser humano, meu filho, não vale uma casca de cebola". 

Ela e o marido tinham conhecido Cyro dos Anjos em Brasília, quando a nova capital era um símbolo de esperança e otimismo. Aproveitei a menção do escritor mineiro e disse que havia conhecido seu filho.

"Eu também conheci esse menino", ela disse, me olhando com ar triste. "Vocês eram amigos?"

"Estudamos na mesma escola em Brasília", eu disse.

"Tão jovem", ela murmurou. "Como é possível?"

Bebeu mais um gole, e ficamos calados. Observei a sala, os livros, um quadro de Portinari e o assento de palhinha esburacado de uma marquesa; no chão, duas luminárias velhas e retorcidas. Uma claridade vinha da copa. O acesso ao corredor escurecia mais que o céu.

"Ainda leio antes de dormir. E bebo um pouco quando converso, mas não gosto de falar de coisas tristes."

Uma manhã de fevereiro, antes do meio-dia, eu a vi com duas amigas, as três sentadas à mesa de um bar, tomando cerveja. Minha vizinha era a única que falava; as outras ouviam com atenção, de vez em quando riam. Fingi que esperava alguém e ouvi trechos do monólogo. Dona Valéria falou de sua juventude em São Pedro, de namoros e bailes, de viagens de trem a Piracicaba, de duas bordadeiras italianas, as mais famosas de sua cidade natal. Tomou um gole com tanta avidez que esvaziou o copo. Depois disse: "Vocês se lembram do Enzo, aquele rapaz de Campinas? Foi ele... Foi com ele... Na sede da fazenda. Não ia acontecer nada, e de repente aconteceu tudo. Ouvi badaladas de um sino, mas não tinha igreja por perto".

As duas amigas gargalharam e o garçom, voyeur profissional, apenas sorriu.
Sei que ela gostava de poesia porque, numa conversa antes da Páscoa, mencionou poemas de Álvares de Azevedo e Augusto dos Anjos, e me mostrou um livro de Yeats, com uma dedicatória a um parente do marido dela. Folheei o livro, edição de 1933. Disse que seu marido, brasileiro de origem irlandesa, recitava poemas desse "irlandês genial". Pôs uma fita cassete num gravador e ouvimos a voz cavernosa do finado James em noites do passado. Fiquei emocionado com essa voz, que parecia mastigar os sons de cada palavra. A viúva bebia uísque e sorria, sem tirar os olhos do gravador. Um dos poemas era The Winding Stair, título do livro.

Depois veio a Páscoa. Passei cinco dias fora de São Paulo e, quando voltei, encontrei na soleira da porta do meu apartamento um envelope com o livro de Yeats, que dona Valéria me mostrara. Subi pela escada os dois andares que nos separavam. A porta do 702 estava aberta. Dei uma olhada na sala: não havia livros nas estantes. Dois homens de macacão azul enrolavam a marquesa com uma capa de feltro.

Até hoje o apartamento está vazio.




(OESP/27 de abril de 2012)


(Ilustração: Alfred Stevens - La Madaleine)

sábado, 8 de setembro de 2012

HAIKAIS, de Paulo Franchetti






Demorou este ano,
Mas de repente, em toda a parte --
Primavera!

***

A velha ponte --
No pó ajuntado entre as tábuas,
Brota o capim.

***

Às dez da manhã
O cheiro de eucalipto
Atravessa a estrada

***

Os grilos cantam
Apenas do meu lado esquerdo --
Estou ficando velho.

***

Manhã de frio --
Com o agasalho, visto
Saudades de minha mãe.

***

Porque não sabemos o nome
Tenho de exclamar apenas:
"Quantas flores amarelas!"


***

Ao sol da manhã,
Imóvel como se dormisse,
A coruja no fio.

***

Essa velha música -
Como ela soa bem
Sob esse sol de inverno.

***

Borboletas amarelas
Sobre flores amarelas
Numa tarde fria.

***

Quando abro os olhos
Parecem muito mais verdes
As folhas das árvores.




(Ilustração: Van Gogh - girassóis)


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O PIANISTA MASCARADO, de Eliane Torralba







A música ecoava nos corredores. Estava longe de ser dessas notas banais que um pianista procura transpor da partitura para as teclas do piano. A música que flutuava no ar era bem diferente de tudo o que já havia sido tocado por algum aluno daquela Academia. Entrava pelos ouvidos e afluía ao coração antes de chegar ao cérebro. Variava como os sentimentos de um ser humano. Ora forte e tonitruante como o trovão, ora fina e melancólica como a chuva que cai.

Embalados pela música, professores, alunos, funcionários passavam frente à sala usando desculpas de toda espécie. Os funcionários alegavam ter se esquecido de limpar alguma coisa, os professores pretextando que queriam ir ao bebedeouro (o único, por sorte, ficava naquele piso) e os alunos diziam ter esquecido seus pertences, ou esquecido de dizer qualquer coisa a um professor, ou mesmo que queriam desentorpecer as pernas subindo os vários lances de escada. As desculpas eram variadas e às vezes um bocado fantasiosas. Tudo isso para escutar o pianista mascarado.

Os numerosos espectadores que ouviam a música não faziam ideia da aparência de seu autor. “É, decerto, algum ancião erudito, veterano da música, que hospedamos no estabelecimento”, afirmavam alguns, seguros de si. O pianista desconhecido, porém, não tocava Bach, nem Mozart, nem Beethoven, nem Chopin... nenhuma das obras famosas da cultura geral.

Os passantes quase nunca se atreviam a girar a maçaneta da porta, por medo de perturbar o pianista velado. Os mais curiosos tentavam, só para constatar que a porta estava trancada. E paravam aí. Não insistiam. Era inútil bater à porta. Por que tentar desmascarar um músico se só o que importa é a sua melodia?

Num canto do seu quarto, com o volume aberto no colo, Alire espiava as páginas do livro através dos óculos redondos. Faltavam muitos elementos essenciais nas páginas que ela virava sem qualquer animosidade. Os homens que escreviam livros desse tipo (somente homens, de fato) não tinham um pingo de imaginação. Só o que faziam era pensar em suas próprias vidas e transpô-las para o papel, como um pianista transpõe as notas de uma partitura para as teclas do piano. O livro que ela tinha em mãos, o livro que seu pai considerava uma “obra” para ela não passava de um mísero diário íntimo, por acaso vendido no mundo inteiro.

Cansada, Alire fechou secamente o livro e se jogou sobre a cama. Seus olhos estavam fitos no alto, mas seu olhar ia muito além do teto mofado que encimava seu quarto. Os dedos da moça puseram-se a correr pela cama de forma ritmada. O que nela era habitual.

Seus pensamentos afluíram ao colégio que ela deixara poucas horas antes. Dirigiram-se para um ponto preciso. “No programa deste mês, vamos estudar um romance autobiográfico contemporâneo. Que com certeza irá agradar uma pessoa desta classe.” Fora a professora de francês quem alegremente fizera o anúncio. Era uma senhora de idade, de nariz tão curvo quanto suas costas. Pronunciara a última frase endereçando a Alire um sorrisinho de esguelha. Pelo sorriso, Alire soube de imediato a que se referia a bruxa da sua professora. Teve então tempo de fechar os olhos e se preparar para o pior. Seus dedos corriam pela mesa, movidos pelo medo e nervosismo. Quando abriu os olhos, abaixou-os, sem inclinar a cabeça. Ali estava ele. Sobre a mesa. O último livro que ela escolheria para estudar em aula.

De ora em diante, sua vida no colégio seria transtornada para sempre. Alire não se atreveu a olhar para os colegas, mas as risadinhas indicavam que já tinham lido o nome que constava na capa. “Vocês vão ler esse livro durante as férias. Na volta às aulas, vão descobrir a que ponto o nosso caro Georges Duvaleau é o mestre da autobiografia. Para mim, é o escritor desta última década.” A professora dissera isso com um entusiasmo que chegava a doer em Alire.

E ei-la agora deitada em sua cama com o livro nas mãos, obrigada a lê-lo no tempo livre. Obrigada por seu pai. A moça aproximou o livro do rosto e se atreveu, mais uma vez, a ler a capa: Vida em Cartas de Georges Duvaleau. Duvaleau... Queria riscar aquele nome com seu marcador e substituí-lo por outro. Era tudo o que mais queria. Como seria a sua vida se seu pai não fosse quem era?

Ela o vira inclinado frente ao computador, digitando freneticamente no teclado. Noites inteiras dedicadas aos seus escritos haviam cavado olheiras sob seus olhos. Dias inteiros comendo pouco o tinham emagrecido. Os dias todos passados a escrever aquele livro tinham-no transformado numa criatura que não se importava com ninguém, nem sequer com a própria filha. Antigamente também era assim. Ele ficava daquele mesmo jeito ao escrever artigos jornalísticos. A ideia de que seu pai só escrevia falsidades sobre sua própria vida tomava conta da mente de Alire. Se era mesmo a realidade o que ele escrevia esse tempo todo naquelas páginas, quem se atreveria a lê-las?
E ela agora tinha que ler aquilo. Um tijolão repleto de mentiras. Já não podia recuar, e de qualquer forma seria obrigada a ler, mais dia menos dia. Seu pai a obrigaria.

Depois de colocar bruscamente “a obra” sobre o criado-mudo, Alire levantou-se e saiu do quarto. No corredor, deu de cara com o pai, que exibia um sorriso imenso, ou melhor, um pseudossorriso. Georges Duvaleau estava longe de ser um homem inclinado a sorrir. Nas raras vezes em que o fazia, o sorriso que ostentava não era, de modo algum, sincero. Apenas um ricto. Alire conhecia o pai de cor e salteado. Quando seus lábios se esticavam naquele ricto, ele estava para anunciar uma boa notícia. Boa notícia do ponto de vista dele.

Como Alire previa (dedos correndo pelos quadris), ele falou sobre o livro. Estava a par de que fora incluído no programa. Como não estaria? Era amicíssimo do diretor da escola e da bruxa velha da professora de francês. O que seu pai estava dizendo? Não sabia, pois o ignorou de imediato, tal como ele próprio costumava fazer com ela. Estava, decerto, repetindo a ladainha de sempre: que pusera todo o seu empenho naquele livro, que ele tinha de ser lido, que sem esse livro eles estariam no olho da rua...

Com a garganta apertada, ela passou pelo pai sem dirigir-lhe uma palavra. Estava cheia. Seu pai nunca falava com ela e, nas raras vezes em que o fazia, a conversa girava em torno da tal Vida em Cartas de Georges Duvaleau.

O olhar da moça parou num canto vazio da sala. Lembrou-se do piano acústico que antigamente ficava ali. Lembrou-se das marteladas que o pai lhe dera, das notas vibrando feito gritos de aflição e das palavras rancorosas que ele berrava: “A música não vai te levar a nada nessa vida, Alire Duvaleau! Esqueça essa arte e fique com a melhor de todas! A literatura!”

Ignorando a voz que a obrigava a dar meia-volta, Alire transpôs a porta da rua e lançou-se para fora da decrepitude que era a sua casa. Atravessou as ruas, andou pelas calçadas, rumando para o endereço em que se encontrava seu único consolo, seu confidente.

Alire viu-se defronte ao prédio. Um prédio antigo que datava da Revolução Francesa. Na porta havia um letreiro pendurado, com uma inscrição em relevo: Academia da quinta arte. Escola de música. Mas a moça não costumava entrar por essa porta principal, que estava fechada àquela hora. Só Alire conhecia uma passagem que dava justamente na sala aonde queria ir.

Era uma sala imensa, naquele momento escura, mas em geral bem aclarada pela luz do sol que se engolfava pela janela. De dia, os raios do sol, filtrados pelas cortinas, produziam ondulantes clarões vermelhos. À noite, era a vez de a lua cuidar da iluminação. Quando estava no zênite, sua doce luz fantasmática aclarava um único ponto da sala. Aclarava o único elemento presente naquele espaço: um grande piano de cauda.

Ao entrar, Alire teve o cuidado de trancar a porta e então se sentou confortavelmente no banco ao pé do imenso piano. Seus dedos puseram-se a correr pelas teclas do instrumento, e logo ecoaram notas impregnadas de sua raiva pelo pai e sua tristeza pela vida que poderia ter tido. Poucas notas apenas flutuaram no ar, notas que se encerraram num ruído ensurdecedor produzido pela quantidade de teclas pressionadas de uma vez. Cansada, Alire desabou sobre o teclado e adormeceu em seguida.

No dia seguinte, Alire acordou com sons de passos e vozes: alunos e professores acabavam de chegar para as primeiras aulas de música do dia. Interrompida pelo sono no dia anterior, a moça não terminara de confiar suas mágoas e lamentos ao seu melhor amigo. Seus dedos se repuseram a correr pelas teclas do instrumento. Não havia partitura alguma diante dos seus olhos.

Era desnecessário. Contava com a única partitura de que precisava: seu coração e sua alma. As notas que flutuavam no ar vinham impregnadas da mesma raiva e tristeza do dia anterior, mas mescladas com um toque de melancolia e nostalgia. Deviam-se às lembranças de sua mãe, falecida na sua meninice. Lembrava dela sentada ao piano acústico que já não existia.

Calaram-se, nos corredores, as vozes e os sons de passos. Todos interrompiam suas atividades e prestavam atenção na música da pianista, para eles desconhecida.

Alire tocava piano com o mesmo objetivo de seu pai escrevendo sua biografia: confiar sua vida a alguém de confiança. Mas, ao contrário do pai, o que ela confiava ao seu melhor amigo era sincero, sem nenhuma mentira. E, principalmente, ninguém era obrigado a ler e compreender. Os passantes escutavam aquela música sem saber que ela representava a vida de uma garota insatisfeita com a vida que levava. O que os enfeitiçava era tão somente a melodia pura que o instrumento emanava. Escutavam sem tentar entender.
Por que tentar desmascarar um músico, se só o que importa é a sua melodia?



(Piauí; tradução: Dorothée de Bruchard)


(Ilustração: Almeida Júnior - descanso do modelo)