quinta-feira, 30 de junho de 2011

POEMINHA SOBRE O MISTÉRIO DO TEMPO, de Millor Fernandes








O despertador desperta
Acordo com sono e medo:
Por que a noite é tão curta
E fica tarde tão cedo?



(Ilustriação: Hugo Morbelli - Garufa)



domingo, 26 de junho de 2011

O HERÓI DO CONTO, de Camilo Castelo Branco




Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, tem hoje quarenta e nove anos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda.

Seu pai, também Calisto, era cavaleiro fidalgo com filhamento, e décimo sexto varão dos Barbudas da Agra. Sua mãe, D. Basilissa Escolástica, procedia dos Silos, altas dignidades da igreja, comendatários, sangue limpo, já bom sangue no tempo do senhor rei D. Affonso I, fundador de Miranda.

Fez seus estudos de latinidade no seminário bracharense o filho único do morgado da Agra de Freimas, destinando-se a doutoramento in utroque jure(*). Porém, como quer que o pai lhe falecesse, e a mãe contrariasse a projetada formatura, em razão de ficar sozinha no solar de Caçarelhos, Calisto, como bom filho, renunciou à carreira das letras, deu-se ao governo da casa algum tanto, e muito à leitura da copiosa livraria, parte de seus avós paternos, e a maior dos doutores em cânones, cônegos, desembargadores do eclesiástico, catedráticos, chantres, arcediagos e bispos, parentela ilustríssima de sua mãe.

Casou o morgado, ao tocar pelos vinte anos, com sua segunda prima D. Teodora Barbuda de Figueroa, morgada de Travanca, senhora de raro aviso, e muito apontada em amanho de casa, e ignorante mais que o necessário para ter juízo.

Unidos os dois morgadios, ficou sendo a casa de Calisto a maior da comarca; e, com o rodar de dez anos, prosperou a olho, tendo grande parte neste incremento a parcimônia a que o morgado circunscreveu seus prazeres, e, por sobre isto, o gênio cainho e apertado de D. Teodora.

Remenda teu pano, chegar-te-á ao ano, dizia a morgada de Travanca; e, aferrada ao seu adágio predileto, remendava sempre, e cerzia com perfeição justamente admirada entre a família, e falada como exemplo na área de quatro léguas, ou mais.

Enquanto ela recortava o fundilho ou apanhava a malha rota da pinga, o marido lia até noite velha, e adormecia sobre os in-folios, e acordava a pedir contas à memória das riquezas confiadas.

Os livros de Calisto Eloy eram cronicões, histórias eclesiásticas, biografias de varões preclaros, corografias, legislação antiga, forais, memórias da academia real da historia portuguesa, catálogos de reis, numismática, genealogias, anais, poemas de cunho velho etc.

Respeito a idiomas estranhos, dos vivos conhecia o francês muito pela rama; porém, o latim falava-o como língua própria, e interpretava correntemente o grego.

Memória pronta, e cultivada com aturado e indigesto estudo, não podia sair-se com menos de um erudito em história antiga, e repositório de noticias miúdas sobre fatos e pessoas de Portugal.

Consultavam-nos os sábios transmontanos como juiz indeclinável em decifrar cipos e inscrições, em restabelecer épocas e sucessos controvertidos por autores contraditórios.

Sobre castas e linhagens, coisa que ele tirasse a limpo, não dava pega a duvida nenhuma. Ia ele desenterrar geração já sepultada há setecentos anos, e provar que, na era de 1201, D. Fuas Mendo casara com a filha de um mesteiral, e D. Dorzia se havia sujado casando mofinamente com um pajem da lança de seu irmão D. Paio Ramires.

Farpeados pela viperina língua dele, os fidalgos provincianos retaliavam quanto podiam a prosápia dos Benevides, propalando que naquela família se gerara um clérigo grande femeeiro, beberrão e lambaz, a quem o santo arcebispo D. Frei Bartolomeu dos Mártires, uma vez, perguntara que nome havia; e, como quer que o padre respondesse Onofre de Benevides, o arcebispo acudira dizendo: “melhor vos acertará com o nome, segundo a vida que fazeis, quem vos chamará de bene bibis e male vivis”.(**) O remoque, talvez por ser de santo, era medianamente engraçado e pouco para afligir; assim mesmo Calisto Eloy, à conta desta injúria dos fidalgos comarcões, tanto lhes esgravatou nas
gerações, que descobriu radicalmente serem quase todas de má casta.

É supérfluo dizer-se a qual doutrinação política pendia o ânimo do morgado da Agra de Freimas. Estava com a decisão das cortes de Lamego. Fizera-se nelas, e cuidava ter assistido, em 1145, àquele congresso mitológico, e ter conclamado com Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador, e com Lourenço Viegas, o Espadeiro: Nos liberi summus, rex noster líber est.(***) Todavia, se assim fossem todos os doutrinários políticos, a gente apodrecia na mais refestelada paz, e supina ignorância do andamento da humanidade.

Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda queria que se venerasse o passado, a moral antiga como o monumento antigo, as leis de João das Regras e Martim d'Ocem, como o mosteiro da Batalha, as ordenações manuelinas como o convento dos Jerônimos.

O mal que daqui surdia ao gênero humano, a falar verdade, era nenhum. Este bom fidalgo, se lhe tirassem o sestro de esmiuçar desdouros nas gerações das famílias patrícias, era inofensiva criatura. Deste senão, a causa foi um chamado Livro-Negro, que herdara de seu tio avô Marcos de Barbuda Tenazes de Lacerda Falcão, genealógico pavoroso, o qual gastara sessenta dos oitenta anos vividos, a coligir borrões, travessias, mancebias, adultérios, coitos danados, e incestos de muitas famílias naquelas satânicas costaneiras, denominadas Livro Negro das Linhagens de Portugal.

Em suma, Calisto era legitimista quieto, calado, e incapaz de impecer a roda do progresso, contanto que o progresso não lhe entrasse em casa, nem o quisesse levar consigo.

Prova cabal de sua tolerância foi ele aceitar em 1840 a presidência municipal de Miranda. Na primeira sessão camarária falou de feito e jeito que os ouvintes cuidavam estar escutando um alcaide do século xv levantado do seu jazigo da catedral. Queria ele que se restaurassem as leis do foral dado a Miranda pelo monarca fundador. Este requerimento gelou de espanto os vereadores; destes, os que puderam degelar-se, riram na cara do seu presidente, e emendaram a galhofa dizendo que a humanidade havia já caminhado sete séculos depois que Miranda tivera foral.

- Pois se caminhou, replicou o presidente, não caminhou direita. Os homens são sempre os mesmos e quejandos; as leis devem ser sempre as mesmas.

- Mas... – retorquiu a oposição Il lustrada –, o regime municipal expirou em 1211, Sr. presidente! V. Ex.ª não ignora que há hoje um código de leis comuns de todo o território português, e que desde Afonso II se estatuíram leis gerais. V. Ex.ª de certo leu isto...

- Li, atalhou Calisto de Barbuda, mas reprovo!

- Pois seria útil e racional que V. Ex.ª aprovasse.

- Útil a quem? perguntou o presidente.

- Ao município, responderam.

- Aprovem os Srs. vereadores, e façam obra por essas leis, que eu despeço-me disto. Tenho o governo de minha casa, onde sou rei e governo, segundo os forais da antiga honra portuguesa.

Disse; saiu; e nunca mais voltou à Câmara.



(*) Nos dois Direitos: eclesiástico e civil.
(**) Bebes bem e vives mal. Fr. Luís de Sousa confirma este caso, algures, na Vida do Arcebispo de Braga. [N. do A.]
(***) Nós e o nosso rei somos livres, etc. [N. do A.]


(A queda dum anjo)



(Ilustraçao: Honoré Daumier - don Quixote)


quarta-feira, 22 de junho de 2011

A FERMOSURA DESTA FRESCA SERRA, de Camões






A fermosura desta fresca serra
E a sombra dos verdes castanheiros,
O manso caminhar destes ribeiros,
Donde toda a tristeza se desterra;


O rouco som do mar, a estranha terra,
O esconder do sol pelos outeiros,
O recolher dos gados derradeiros,
Das nuvens pelo ar a branda guerra;


Enfim, tudo o que a rara Natureza
Com tanta variedade nos of'rece,
Me está, senão te vejo, magoando.


Sem ti, tudo me enjoa e me aborrece;
Sem ti, perpetuamente estou passando
Nas mores alegrias mor tristeza.



(Ilustração: Carolus Duran – fin d’eté Fontainebleau)



segunda-feira, 20 de junho de 2011

MÃE COM FILHO NO COLO, de Mário Garcia de Paiva






É um motivo para quadro. A mulher está sentada num degrau do hall de um edifício e tem no regaço uma criança de meses – seu filho – envolta numa manta. Jovem ainda, mas sem nenhum viço ou frescor. O vestido simples tem um rasgão lhe deixa a descoberto o braço e a espádua, como se ela o houvesse desabotoada atrás para a pica de uma agulha. Um sulco violáceo desce do ombro para as costas, e no no rosto, à altura da orelha – ela está de perfil – há uma equimose, uma esfoladura, coágulos de sangue. O cabelo, copioso, sobe para o alto da cabeça, preso por grampos ao acaso, e se levanta em mechas revoltas sobre a fronte. Uma lágrima aponta no canto do olho e outra desliza pela face. Rodeiam-na figuras indistintas, que vagos traços mal sugerem, mas duas delas têm desenho e relevo: um homem atarracado, de feições severas, e uma garota, de seus dezesseis anos, menina e moça – que estende para a mulher uma mamadeira de leite. O braço esquerdo da mãe ampara a criança no regaço e a mão direita já se ergue para alcançar a mamadeira; ela fita a garota e seu rosto exprime angústia e sofrimento, e também um nascente, quase imperceptível, sorriso de gratidão.

O tema é este, mas creio ser necessário acrescentar alguns elementos. Podem ser três ou quatro ou seis os degraus que dividem o hall em dois planos e importa pouco que a garota tenha ou não cabelos compridos ou esteja de vestido ou blue-jean. Parece-me que o homem, de meia idade, deve ser apresentado de paletó e blusa. Um quadro é, em si, estático, não se liga a outros numa sequência de ação, como os que figuram a via-sacra, e eu não queria ir mais além. São sempre dispensáveis, nas galerias e exposições, guias que nos levem de um a outro quadro para explicar-lhes o sentido, porque a exigência de intérpretes tornaria a pintura uma arte limitada. Mas, já que não dispomos de modelos, convém – para avivar a imaginação – relatar as circunstâncias que produziram a cena. Ademais, ocorre-me um pensamento que me contradiz: se a vã curiosidade obstina-se em saber porque faltam braços à Vênus de Milo, o conhecimento de que a obra permaneceu durante séculos no seio da terra nada acrescenta à sua perfeição, mas aumenta nosso prazer estético.

Cumpre, pois, saber por que está ali a mulher com seu filho, por que chora e está ferida e tem o vestido rasgado, e por que lhe oferecem a mamadeira, e por que está zangado o porteiro. O homem é porteiro do edifício, zeloso de suas funções, e não lhe agrada esse ajuntamento no hall. Corando perdidamente a mãe descera do segundo andar, pela escadaria, com a criança nos braços, e, porque lhe faltassem forças, sentara-se no degrau. Pessoas que passavam na rua e alguns dos moradores – é um edifício residencial de doze pavimentos – acercaram-se, penalizados. Por que chorava aquela mulher com a criancinha nos braços? Conseguiram arrancar-lhe algumas palavras e o faxineiro do prédio ajuntara alguns esclarecimentos. Não era a primeira vez que ela vinha pedir dinheiro ao pai da criança, que convivia com outra mulher no apartamento 205. O homem não era marido de nenhuma das duas, estava desquitado, ou simplesmente separado, de uma terceira, de que não havia notícia. Seduzira a que está sentada no hall. Tinha sido um namoro rápido, esta mãe dissera a uma empregada do 7º andar, dias atrás. A família suspeitara ou fora informada de que se tratava de homem casado e hostilizara-o. Não é preciso repetir o que um sedutor pode sussurrar ao ouvido de uma moça honesta para induzi-la a fugir com ele. A felicidade, juras de terno amor e o casamento, um dia, quando certas dificuldades fossem removidas. (Antes que me esqueça: a mãe tem um dos pés descalço. O faxineiro subiu a escada, foi ao corredor do segundo andar, mas não encontrou a sandália). A moça deixou-se ludibriar. Residiram aqui mesmo, em Copacabana, um ano e meio. Ela teve um filho – este que está aí – e bastaram-lhe duas semanas para conhecer a índole do companheiro. Era irritável, violento, maltratava-a mesmo durante a gravidez, e abandonou-a quando o menino tinha três meses. Ela ficou sozinha, sem recursos. Para manter-se e à criança, ia vendendo tudo que representasse valor – os móveis, parcos e modestos, utensílios domésticos – e não apurava grande coisa. Agora, havia três meses de aluguéis vencidos, queriam pô-la na rua, a criança passava fome. Viera, mais uma vez, pedir auxílio ao ex-companheiro, que se divertia com outra. Ele se enraivecera, agredira-a brutalmente. Por pouco, até a criança inocente apanhava também. Murros no rosto, tabefes, pontapés, onde quer que acertassem. E palavrões. Quando ela procurava escapar pela porta, protegendo o filhinho, o homem batera-lhe com um objeto contundente – veja o vergão nas costas, o sangue ressecado no rosto.

- Não resmunga, senão apanha! – grita alguém.

- Ela, se fosse casada, teria o amparo da lei – retruca o porteiro, sem se intimidar. – Devia ter pensado duas vezes antes de se entregar ao primeiro que apareceu. O regulamento proíbe aglomerações no hall!

- Para o inferno com o seu regulamento!

Um motorneiro de bonde se sentimentalizara, quisera ir lá em cima descer o braço no homem. “Cachorro! Arrebento a fuça dele”! Chegara a subir a escada – o motorneiro – mas um senhor de calção de banho fora-lhe no encalço, conseguindo detê-lo. “Isso é invasão de domicílio, coisa grave, dá processo.” Resolveram, os dois, chamar a polícia. Fazia quarenta minutos que tinham telefonado e a polícia não aparecia. A mulher, rompendo seu silêncio, dissera entre soluços: “Não posso aparecer perante meu pai e minha mãe com esta criança, há coisas que não podemos fazer, tentei, não pude!”

O tema é este, creio que basta. Espera: quando a mulher recebeu a mamadeira, fez-se silêncio. Uma gorda matrona, ali perto, sentiu que seus olhos se marejavam, não tanto pelo gesto da mocinha – oferecendo à mãe aflita a mamadeira – mas sim pela avidez com que a criança se pôs a ingerir o leite. Parecia dormir, mas seus olhos abriram-se num espanto, os bracinhos miúdos se ergueram, as mãozinhas sôfregas tateavam numa busca impaciente.

Menciono, finalmente, as indagações que se faziam os circunstantes. Qual seria o destino das duas criaturas? Pensava-se – não se dizia – que àquela jovem mãe não restaria outra alternativa que a de mercadejar o próprio corpo. Penúria e vicissitudes recentes haviam contribuído para o desmazelo de sua figura, mas um vestido melhor, a pintura, um pouco de trato realçariam seus encantos naturais e sua juventude.

Mãe com filho no colo. É o quadro. Angústia, lágrimas, os sinais da agressão, o vestido rasgado, a mão que se levanta para alcançar a mamadeira; as figuras mal esboçadas; o porteiro carrancudo; a garota – moça e menina – e sua tranquila compassividade, que é conhecimento da maldade e inocência. Não tenho pretensão de impor o assunto a nenhum artista. É um convite ao devaneio. Entreguei-me à fruição de fixar o quadro na mente e proponho essas experiência e exercício. Ainda assim, não se trata de pintura feita de nada, emoldurada na abstração. É preciso pensar também no material: variados tipos de pincéis e tubos de óleo adequados. Há alguns anos tentei a aquarela com insignificantes resultados – morro por uma leve e translúcida aquarela! – mas, no caso, o óleo é insubstituível. Que o quadro tenha força, caráter e expressão – foi para isso que expus, um tanto desnecessariamente, os antecedentes da cena e suas implicações. Selecione as cores com critério. Tons sombrios. Cinza ou azul-violeta podem sugerir as equimoses e o sangue. Não importa que o rosto da criança fique oculto nas dobras da manta. Que a sépia e suas gradações figurem os tons mais claros e o fundo se perca em insondável escuridão.




(Festa; 1959)


(Ilustração: Daumier)



sábado, 18 de junho de 2011

PLENILÚNIO, de Raimundo Correia







Além nos ares, tremulamente,
Que visão branca das nuvens sai!
Luz entre as franças, fria e silente;
Assim nos ares, tremulamente,
Balão aceso subindo vai...

Há tantos olhos nela arroubados,
No magnetismo do seu fulgor!
Lua dos tristes e enamorados,
Golfão de cismas fascinador!

Astro dos loucos, sol da demência,
Vaga, noctâmbula aparição!
Quantos, bebendo-te a refulgência,
Quantos por isso, sol da demência,
Lua dos loucos, loucos estão!

Quantos à noite, de alva sereia
O falaz canto na febre a ouvir,
No argênteo fluxo da lua cheia,
Alucinados se deixam ir...

Também outrora, num mar de lua,
Voguei na esteira de um louco ideal;
Exposta aos euros a fronte nua,
Dei-me ao relento, num mar de lua,
Banhos de lua que fazem mal.

Ah! quantas vezes, absorto nela,
Por horas mortas postar-me vim
Cogitabundo, triste, à janela,
Tardas vigílias passando assim!

E assim, fitando-a noites inteiras,
Seu disco argênteo n'alma imprimi;
Olhos pisados, fundas olheiras,
Passei fitando-a noites inteiras,
Fitei-a tanto que enlouqueci!

Tantos serenos tão doentios,
Friagens tantas padeci eu;
Chuva de raios de prata frios
A fronte em brasa me arrefeceu!

Lunárias flores, ao feral lume,
- Caçoilas de ópio, de embriaguez -
Evaporavam letal perfume...
E os lençóis d'água, do feral lume
Se amortalhavam na lividez...

Fúlgida névoa vem-me ofuscante
De um pesadelo de luz encher,
E a tudo em roda, desde esse instante,
Da cor da lua começo a ver.

E erguem por vias enluaradas
Minhas sandálias chispas a flux...
Há pó de estrelas pelas estradas...
E por estradas enluaradas
Eu sigo às tontas, cego de luz...

Um luar amplo me inunda, e eu ando
Em visionária luz a nadar.
Por toda parte louco arrastando
O largo manto do meu luar...


(Ilustração: Jeff Neugebauer)


quinta-feira, 16 de junho de 2011

TATAJUBA, de Luís Vassalo




Não confio no mar. Aquele leva e trás sem despedida. O bonito da concha é saber dançar com as ondas, se agarrar aos grãos da areia até que elas partam, se abandonar na água quando voltam. Porque elas sempre voltam, ah, voltam. Ainda não sei por que fui até lá. Devo ter sido enganada, arrastada. Usavam anzol, linha e tudo. Fui com aqueles malditos durante meses. Logo eu que nunca aprendi a sair de casa, nunca larguei do medo de voltar. Porque se ficamos muito tempo longe a casa pode abandonar a gente, eu sei. Voltamos e ela não está mais aqui, cansada da espera. Fui pra não me demorar nunca. Era uma desgraceira de caminhada até a pescaria. O arrastar dos barcos, tudo. Entravam nas águas enquanto eu ficava na areia caminhando. As ondas distraídas, logo atrás, roubando as pegadas da gente. Sabia que quando eles se apequenavam no horizonte acabavam se esquecendo de mim e corria até sumir por trás das dunas. Não sei o que procurava. Sumia. Por um nadica de tempo pensei ter esquecido de casa. Sei lá. Logo iam puxar a rede. Quando voltei, achei só o espanto do silêncio naquelas bocas escancaradas, recém-saídas da água, como se lutassem pra respirar. A rede abarrotada na areia. A gente conhecia bem aquele mar, ele nunca tinha dado peixes assim. Falaram em tempos de prosperidade. Desconfiei. Talvez não entendesse dos presságios do mar. Acho que foi nesse dia que Delmira chegou.

No começo ninguém se apercebeu de nada, mas logo uma das velhas vinha desconfiada vigiar o volume escondido no comprimento da camiseta. Me encolhia, mas não adiantava mais esconder. Voltei pra cá assustada. Destino de peixe é na peixeira, na peixeira! A velha quis retrucar alguma coisa, não sei. Pro diabo! Corri pra casa por via das dúvidas. Não ia abrir a desgraça daquele bucho na frente de todo mundo. Depois disso resolvi não sair mais de casa. Guardar é deixar esquecido. Apertava Delmira bem forte com os braços na esperança de que pudesse encolher aquela maldição até sumir. Não adiantava. Um dia, Delmira acabou escapando por baixo da camiseta. Estatelou no chão, a boca escancarada atrás de ar, feito peixe fora d’água. Escondi aquela desgraça de choro e, no meio da noite, levei ela até o mar. Sem que ninguém soubesse devolvi Delmira pra as águas. Nunca mais veria aquela menina.

Mas o mar é traiçoeiro, e as ondas, elas sempre voltam. Já tinha me esquecido do mar, de Delmira, quando ela voltou. Chegou na vila caminhando logo atrás das mulheres que voltavam da praia. Estava crescida, a danada. Delmira, sorrindo, passou a correr por toda a parte, passava pela vila e corria ao redor das casas se espalhando por aí feito mau agouro. Os mais velhos olhavam desconfiados. Aceitei aquele destino e até deixei a minha porta aberta. A danada não fazia cerimônia, mas teimava em entrar em casa com o pé que era só areia. Acho que gostava de dançar. No outro dia, voltava que era mais areia do que antes. Menina dos diabos! Olha o pé em casa! Ela corria, dançava ainda mais, mas não respondia. Nem me lembro da sua voz. Outro dia mesmo me perguntou, com aquela voz sem voz, por que as sereias não tinham pés? Pergunta besta! Porque não sabem fugir dos homens! Não sabem! Ela tentava me atrapalhar, eu sei, queria que eu não olhasse a areia invadindo a casa por baixo das portas. Apanhei uma vassoura, Delmira e a sua areia não iam me vencer.

Mesmo assim as areias foram tomando conta da gente. Não tinha mais como esconder. Foram invadindo as casas. Primeiro o teto e depois as paredes. Era assim que as areias iam derrubando elas, uma por uma. Começou quando a igreja que não ficava muito longe da vila sumiu. A ponta do crucifixo que ficava no alto era a única coisa que a gente ainda via sair de cima da duna que se formou. O mar de areia foi chegando com os ventos e prometia engolir toda Tatajuba. Varria aqueles grãos com mais força. Unimos luta contra as areias. Todos nós. Enrolamos panos na cabeça e no corpo pra não sentir aquela dor na pele. Mas a vista era um limpar teimoso. Aquele inferno entrando no olho da gente. Delmira dançava em cima das dunas. Às vezes eu gritava, apontava pra ela, mas logo as vistas da gente embaçavam com a nuvem de areia, Delmira sumia. Ainda ouço os grãos espocando no corpo dela. Pisava nas casas, nos tetos que tentavam resistir. Tentava gritar com ela, mas a areia me fazia fechar a boca. Guardava a minha raiva pra a hora de comer. A cada estalo que a areia dava nos dentes, eu socava o chão como se fosse ela. Os dias passaram. A comida era gosto de areia, o trabalho era gosto de areia, a urina era cheiro de areia. Um dia os homens cansaram. Disseram que a gente não tinha mais jeito aqui. Todos eles. Mais fácil o lugar encontrar jeito do que a gente encontrar o lugar. Não adiantava dizer mais nada, disseram que iam partir na madrugada. Não olhei na cara deles e continuei varrendo. Foram todos. Seguiram rumo contra o vento que trazia aquela desgraça e logo me esqueci deles. Varria. Varria. A casa é uma ampulheta sem pressa.

Outro dia engoli o medo e fui até a praia. Delmira me seguia. Sua risada zunindo com o vento. Ela pensa que pode me levar, eu sei. Qualquer hora os tempos viram de novo, Delmira. As coisas mudam com o leva-e-traz das ondas. Elas já vêm me ajudar, você vai ver. Ah, vêm. Sentei na areia, encolhida entre o vai-e-vem das ondas. A praia é o ninar da espera. As águas regando a paciência da gente. Essas águas teimosas, que não servem mais pra trazer o pai de Delmira de volta, ficam agora a dançar com a menina como quem brinca com um barco ancorado, um peixe que não quer mais voltar pra casa.




(Ilustração:Jean-Marie Poumeyrol – coca-cola)




terça-feira, 14 de junho de 2011

PLENILÚNIO, de Cruz e Sousa






Vês este céu tão límpido e constelado
e este luar que em fúlgida cascata,
cai, rola, cai, nuns borbotões de prata…
Vês este céu de mármore azulado…


Vês este campo intérmino, encharcado
da luz que a lua aos páramos desata…
Vês este véu que branco se dilata
pelo verdor do campo iluminado…


Vês estes rios, tão fosforescentes,
cheios duns tons, duns prismas reluzentes,
vês estes rios cheios de ardentias…


Vês esta mole e transparente gaze…
pois é, como isso me parecem quase
iguais, assim, as nossas alegrias!


(Ilustração: Javier Arizabalo)


sábado, 4 de junho de 2011

O ROUXINOL E A ROSA, de Oscar Wilde






"Ela disse que dançaria comigo se eu lhe trouxesse rosas vermelhas", exclamou o jovem Estudante, "mas em todo o meu jardim não há nenhuma rosa vermelha."

Do seu ninho no alto da azinheira, o Rouxinol o ouviu, e olhou por entre as folhas, e ficou a pensar.

"Não há nenhuma rosa vermelha em todo o meu jardim!", exclamou ele, e seus lindos olhos encheram-se de lágrimas. "Ah, nossa felicidade depende de coisas tão pequenas! Já li tudo que escreveram os sábios, conheço todos os segredos da filosofia, e no entanto por falta de uma rosa vermelha minha vida é infeliz."

"Finalmente, eis um que ama de verdade", disse o Rouxinol. "Noite após noite eu o tenho cantado, muito embora não o conhecesse: noite após noite tenho contado sua história para as estrelas, e eis que agora o vejo. Seus cabelos são escuros como a flor do jacinto, e seus lábios são vermelhos como a rosa de seu desejo; porém a paixão transformou-lhe o rosto em marfim pálido, e a cravou-lhe na fronte sua marca."

"Amanhã haverá um baile no palácio do príncipe", murmurou o jovem Estudante, "e minha amada estará entre os convidados. Se eu lhe trouxer uma rosa vermelha, ela há de dançar comigo até o dia raiar. Se lhe trouxer uma rosa vermelha, eu a terei nos meus braços, e ela deitará a cabeça no meu ombro, e sua mão ficará apertada na minha. Porém não há nenhuma rosa vermelha no meu jardim, e por isso ficarei sozinho, e ela passará por mim sem me olhar. Não me dará nenhuma atenção, e meu coração será destroçado."

"Sim, ele ama de verdade", disse o Rouxinol. "Aquilo que eu canto, ele sofre; o que para mim é júbilo, para ele é sofrimento. Sem dúvida, o Amor é uma coisa maravilhosa. É mais precioso do que as esmeraldas, mais caro do que as opalas finas. Nem pérolas nem romãs podem comprá-lo, nem é coisa que se encontre à venda no mercado. Não é possível comprá-lo de comerciante, nem pesá-lo numa balança em troca de ouro".

"Os músicos no balcão", disse o jovem Estudante, "tocarão seus instrumentos de corda, e meu amor dançará ao som da harpa e do violino. Dançará com pés tão leves que nem sequer hão de tocar no chão, e os cortesãos, com seus trajes coloridos, vão cercá-la. Porém comigo ela não dançará, porque não tenho nenhuma rosa vermelha para lhe dar." E jogou-se na grama, cobriu o rosto com as mãos e chorou.

"Por que chora ele?", indagou um pequeno Lagarto Verde, ao passar correndo com a cauda levantada.

"Sim, por quê?", perguntou uma Borboleta, que esvoaçava em torno de um raio de sol.

"Sim, por quê?", sussurrou uma Margarida, virando-se para sua vizinha, com uma voz suave.

"Ele chora por uma rosa vermelha", disse o Rouxinol.

"Uma rosa vermelha?", exclamaram todos. "Mas que ridículo!" E o pequeno Lagarto, que era um tanto cínico, riu à grande.

Porém o Rouxinol compreendia o segredo da dor do Estudante, e calou-se no alto da azinheira, pensando no mistério do Amor.

De repente ele abriu as asas pardas e levantou vôo. Atravessou o arvoredo como uma sombra, e como uma sombra cruzou o jardim.

No centro do gramado havia uma linda Roseira, e quando a viu o Rouxinol foi até ela, pousando num ramo.

"Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti".

Porém a Roseira fez que não com a cabeça.

"Minhas rosas são brancas", respondeu ela, "tão brancas quanto a espuma do mar, e mais brancas que a neve das montanhas. Porém procura minha irmã que cresce junto ao velho relógio de sol, e talvez ela possa te dar o que queres."

Assim, o Rouxinol voou até a Roseira que crescia junto ao velho relógio de sol.

"Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti."

Porém a Roseira fez que não com a cabeça.

"Minhas rosas são amarelas", respondeu ela, "amarelas como os cabelos da sereia que está sentada num trono de âmbar, e mais amarelas que o narciso que floresce no prado quando o ceifeiro ainda não veio com sua foice. Porém procura minha irmã que cresce junto à janela do Estudante, e talvez ela possa te dar o que queres."

Assim, o Rouxinol voou até a Roseira que crescia junto à janela do Estudante.

"Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti."

Porém a Roseira fez que não com a cabeça.

"Minhas rosas são vermelhas", respondeu ela, "vermelhas como os pés da pomba, e mais vermelhas que os grandes leques de coral que ficam a abanar na caverna no fundo do oceano. Porém o inverno congelou minhas veias, e o frio queimou meus brotos, e a tempestade quebrou meus galhos, e não darei nenhuma rosa este ano."

"Uma única rosa vermelha é tudo que quero", exclamou o Rouxinol, só uma rosa vermelha! Não há nenhuma maneira de consegui-la?"

"Existe uma maneira", respondeu a Roseira, "mas é tão terrível que não ouso te contar."

"Conta-me", disse o Rouxinol. "Não tenho medo."

"Se queres uma rosa vermelha", disse a Roseira, "tens de criá-la com tua música ao luar, e tingi-Ia com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim apertando o peito contra um espinho. A noite inteira tens de cantar para mim, até que o espinho perfure teu coração e teu sangue penetre em minhas veias, e se torne meu."

"A Morte é um preço alto a pagar por uma rosa vermelha", exclamou o Rouxinol, "e todos dão muito valor à Vida. É agradável, no bosque verdejante, ver o Sol em sua carruagem de ouro, e a Lua em sua carruagem de madrepérola. Doce é o perfume do pilriteiro, e belas são as campânulas que se escondem no vale, e as urzes que florescem no morro. Porém o Amor é melhor que a Vida, e o que é o coração de um pássaro comparado com o coração de um homem?"

Assim, ele abriu as asas pardas e levantou vôo. Atravessou o jardim como uma sombra, e como uma sombra voou pelo arvoredo.

O jovem Estudante continuava deitado na grama, onde o Rouxinol o havia deixado, e as lágrimas ainda não haviam secado em seus belos olhos.

"Regozija-te", exclamou o Rouxinol, "regozija-te; terás tua rosa vermelha. Vou criá-la com minha música ao luar, e tingi-la com o sangue do meu coração. Tudo que te peço em troca é que ames de verdade, pois o Amor é mais sábio que a Filosofia, por mais sábia que ela seja, e mais poderoso que o Poder, por mais poderoso que ele seja. Suas asas são da cor do fogo, e tem a cor do fogo seu corpo. Seus lábios são doces como o mel, e seu hálito é como o incenso.

O Estudante levantou os olhos e ficou a escutá-lo, porém não compreendia o que lhe dizia o Rouxinol, pois só conhecia as coisas que estão escritas nos livros.

Mas o Carvalho compreendeu, e entristeceu-se, pois ele gostava muito do pequeno Rouxinol que havia construído um ninho em seus galhos.

"Canta uma última canção para mim", sussurrou ele; "vou sentir-me muito solitário depois que tu partires."

Assim, o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz era como água jorrando de uma jarra de prata.

Quando o Rouxinol terminou sua canção, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderno e um lápis.

"Forma ele tem", disse ele a si próprio, enquanto se afastava, caminhando pelo arvoredo, "isso não se pode negar; mas terá sentimentos? Temo que não. Na verdade, ele é como a maioria dos artistas; só estilo, nenhuma sinceridade. Não seria capaz de sacrificar-se pelos outros. Pensa só na música, e todos sabem que as artes são egoístas. Mesmo assim, devo admitir que há algumas notas belas em sua voz. Pena que nada signifiquem, nem façam nada de bom na prática." E foi para seu quarto, deitou-se em sua pequena enxerga e começou a pensar em seu amor; depois de algum tempo, adormeceu.

E quando a Lua brilhava nos céus, o Rouxinol voou até a Roseira e cravou o peito no espinho. A noite inteira ele cantou apertando o peito contra o espinho, e a Lua, fria e cristalina, inclinou-se para ouvir. A noite inteira ele cantou, e o espinho foi se cravando cada vez mais fundo em seu peito, e o sangue foi-lhe escapando das veias.

Cantou primeiro o nascimento do amor no coração de um rapaz e de uma moça. E no ramo mais alto da Roseira abriu-se uma rosa maravilhosa, pétala após pétala, à medida que canção seguia canção. Pálida era, de início, como a névoa que paira sobre o rio - pálida como os pés da manhã, e prateada como
as asas da alvorada. Como a sombra de uma rosa num espelho de prata, como a sombra de uma rosa numa poça d' água, tal era a rosa que floresceu no ramo mais alto da Roseira.

Porém a Roseira disse ao Rouxinol que se apertasse com mais força contra o espinho. “Aperta-te mais, pequeno Rouxinol", exclamou a Roseira, "senão o dia chegará antes que esteja pronta a rosa."

Assim, o Rouxinol apertou-se com ainda mais força contra o espinho, e seu canto soou mais alto, pois ele cantava o nascimento da paixão na alma de um homem e uma mulher.

E um toque róseo delicado surgiu nas folhas da rosa, tal como o rubor nas faces do noivo quando ele beija os lábios da noiva. Porém o espinho ainda não havia penetrado até seu coração, e assim o coração da rosa permanecia branco, pois só o coração do sangue de um Rouxinol pode tingir de vermelho o coração de uma rosa.

E a Roseira insistia para que o Rouxinol se apertasse com mais força contra o espinho. "Aperta-te mais, pequeno Rouxinol", exclamou a Roseira, "senão o dia chegará antes que esteja pronta a rosa."

Assim, o Rouxinol apertou-se com ainda mais força contra o espinho, e uma feroz pontada de dor atravessou-lhe o corpo. Terrível, terrível era a dor, e mais e mais tremendo era seu canto, pois ele cantava o Amor que é levado à perfeição pela Morte, o Amor que não morre no túmulo.

E a rosa maravilhosa ficou rubra, como a rosa do céu ao alvorecer. Rubra era sua grinalda de pétalas, e rubro como um rubi era seu coração.

Porém a voz do Rouxinol ficava cada vez mais fraca, e suas pequenas asas começaram a se bater, e seus olhos se embaçaram. Mais e mais fraca era sua canção, e ele sentiu algo a lhe sufocar a garganta.

Então desprendeu-se dele uma derradeira explosão de música. A Lua alva a ouviu, e esqueceu-se do amanhecer, e permaneceu no céu. A rosa rubra a ouviu, e estremeceu de êxtase, e abriu suas pétalas para o ar frio da manhã. O Eco levou-a para sua caverna púrpura nas montanhas, e despertou de seus
sonhos os pastores adormecidos. A música flutuou por entre os juncos do rio, e eles levaram sua mensagem até o mar.

"Olha, olha!", exclamou a Roseira, "a rosa está pronta." Porém o Rouxinol não deu resposta, pois jazia morto na grama alta, com o espinho cravado no coração.

E ao meio-dia o Estudante abriu a janela e olhou para fora.

"Ora, mas que sorte extraordinária!", exclamou. "Eis aqui uma rosa vermelha! Nunca vi uma rosa semelhante em toda minha vida. É tão bela que deve ter um nome comprido em latim." E, abaixando-se, colheu-a.

Em seguida, pôs o chapéu e correu até a casa do Professor com a rosa na mão.

A filha do Professor estava sentada à porta, enrolando seda azul num carretel, e seu cãozinho estava deitado a seus pés.

"Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha", disse o Estudante. "Eis aqui a rosa mais vermelha de todo o mundo. Tu a usarás junto ao teu coração, e quando dançarmos ela te dirá quanto te amo."

Porém a moça franziu a testa.

"Creio que não vai combinar com meu vestido", respondeu ela; "e, além disso, o sobrinho do Tesoureiro enviou-me jóias de verdade, e todo mundo sabe que as joias custam muito mais do que as flores."

"Ora, mas és mesmo uma ingrata", disse o Estudante, zangado, e jogou a rosa na rua; a flor caiu na sarjeta, e uma carroça passou por cima dela.

"Ingrata!", exclamou a moça. "Tu é que és muito mal educado; e quem és tu? Apenas um Estudante. Ora, creio que não tens sequer fivelas de prata em teus sapatos, como tem o sobrinho do Tesoureiro." E, levantando-se, entrou em casa.

"Que coisa mais tola é o Amor!", disse o Estudante enquanto se afastava. "É bem menos útil que a Lógica, pois nada prova, e fica o tempo todo a nos dizer coisas que não vão acontecer, e fazendo-nos acreditar em coisas que não são verdade. No final das contas, é algo muito pouco prático, e como em nossos tempos ser prático é tudo, vou retomar a Filosofia e estudar Metafísica."

Assim, voltou para seu quarto, pegou um livro grande e poeirento, e começou a ler.



(Contos de amor do século XIX; tradução de Paulo Henrique Britto)



(Ilustração: Jan van Eyck – st. Jerome in his study)




quinta-feira, 2 de junho de 2011

PLENILÚNIO, de Fernando Pessoa






As horas pela alameda
Arrastam vestes de seda,

Vestes de seda sonhada
Pela alameda alongada

Sob o azular do luar...
E ouve-se no ar a expirar -

A expirar mas nunca expira
Uma flauta que delira,

Que é mais a ideia de ouvi-la
Que ouvi-la quase tranquila

Pelo ar a ondear e a ir...

Silêncio a tremeluzir...




(Ficções do Interlúdio)


(Ilustração: Henri Julien Félix Rousseau- La bohemiènne endormie)