quinta-feira, 30 de março de 2017

J’AI VU / EU VI, de Blaise Cendrars









J’ai vu les trains silencieux les trains noirs qui revenaient de l’Extrême-Orient et qui passaient en fantômes

Et mon œil, comme le fanal d’arrière, court encore derrière ces trains

A Talga 100.000 blessés agonisaient faute de soins

J’ai visité les hôpitaux de Krasnoïarsk

Et à Khilok nous avons croisé un long convoi de soldats fous

J’ai vu, dans les lazarets, des plaies béantes, des blessures qui saignaient à pleines orgues

Et les membres amputés dansaient autour ou s’envolaient dans l’air rauque

L’incendie était sur toutes les faces, dans tous les cœurs

Des doigts idiots tambourinaient sur toutes les vitres

Et sous la pression de la peur, les regards crevaient comme des abcès



Dans toutes les gares on brûlait tous les wagons

Et j’ai vu

J’ai vu des trains de 60 locomotives qui s’enfuyaient à toute vapeur pourchassées par les horizons en rut et des bandes de corbeaux qui s’envolaient désespérément après

Disparaître

Dans la direction de Port-Arthur.



À Tchita nous eûmes quelques jours de répit

Arrêt de cinq jours vu l’encombrement de la voie

Nous le passâmes chez Monsieur Iankéléwitch qui voulait me donner sa fille unique en mariage

Puis le train repartit.

Maintenant c’était moi qui avais pris place au piano et j’avais mal aux dents

Je revois quand je veux cet intérieur si calme, le magasin du père et les yeux de la fille qui venait le soir dans mon lit

Moussorgsky

Et les lieder de Hugo Wolf

Et les sables du Gobi

Et à Khaïlar une caravane de chameaux blancs

Je crois bien que j’étais ivre durant plus de 500 kilomètres

Mais j’étais au piano et c’est tout ce que je vis

Quand on voyage on devrait fermer les yeux

Dormir

J’aurais tant voulu dormir

Je reconnais tous les pays les yeux fermés à leur odeur

Et je reconnais tous les trains au bruit qu’ils font

Les trains d’Europe sont à quatre temps tandis que ceux d’Asie sont à cinq ou sept temps

D’autres vont en sourdine, sont des berceuses

Et il y en a qui dans le bruit monotone des roues me rappellent la prose lourde de Maeterlinck

J’ai déchiffré tous les textes confus des roues et j’ai rassemblé les éléments épars d’une violente beauté

Que je possède

Et qui me force.



Tsitsika et Kharbine

Je ne vais pas plus loin

C’est la dernière station

Je débarquai à Kharbine comme on venait de mettre le feu aux bureaux de la Croix-Rouge.



Ô Paris

Grand foyer chaleureux avec les tisons entrecroisés de tes rues

et tes vieilles maisons qui se penchent au-dessus et se réchauffent

Comme des aïeules

Et voici des affiches, du rouge du vert multicolores comme mon passé bref du jaune

Jaune la fière couleur des romans de la France à l’étranger.



J’aime me frotter dans les grandes villes aux autobus en marche

Ceux de la ligne Saint-Germain-Montmartre m’emportent à l’assaut de la Butte

Les moteurs beuglent comme les taureaux d’or

Les vaches du crépuscule broutent le Sacré-Cœur

Ô Paris

Gare centrale débarcadère des volontés carrefour des inquiétudes

Seuls les marchands de couleur ont encore un peu de lumière sur leur porte

La Compagnie Internationale des Wagons-Lits et des Grands Express Européens m’a envoyé son prospectus

C’est la plus belle église du monde

J’ai des amis qui m’entourent comme des garde-fous

Ils ont peur quand je pars que je ne revienne plus

Toutes les femmes que j’ai rencontrées se dressent aux horizons

Avec les gestes piteux et les regards tristes des sémaphores sous la pluie

Bella, Agnès, Catherine et la mère de mon fils en Italie

Et celle, la mère de mon amour en Amérique

Il y a des cris de sirène qui me déchirent l’âme

Là-bas en Mandchourie un ventre tressaille encore comme dans un accouchement

Je voudrais

Je voudrais n’avoir jamais fait mes voyages

Ce soir un grand amour me tourmente

Et malgré moi je pense à la petite Jehanne de France.

C’est par un soir de tristesse que j’ai écrit ce poème en son honneur



Jeanne

La petite prostituée

Je suis triste je suis triste

J’irai au Lapin Agile me ressouvenir de ma jeunesse perdue

Et boire des petits verres

Puis je rentrerai seul



Paris

Ville de la Tour unique du grand Gibet et de la Roue.

Paris, 1913



Tradução de Liberto Cruz:





Eu vi

Vi os comboios silenciosos os comboios negros que

vinham do Extremo-Oriente e que passavam como

fantasmas

E o meu olhar, como a lanterna da retaguarda, corre

ainda atrás desses comboios

Em Talga 100 000 feridos agonizavam por falta

de cuidados

Visitei os hospitais de Krasnoïarsk

E em Khilok cruzámos com um longo comboio de

soldados loucos

Vi nos lazaretos chagas abertas feridas que

sangravam a jorros.



E os membros amputados dançavam em volta

ou levantavam voo no ar roufenho

O incêndio estava em todos os rostos em todos

os corações

Dedos idiotas tamborilavam em todos os vidros

E sob a pressão do medo os olhares rebentavam

como abcessos

Em todas as estações deitavam fogo aos vagões



E vi

Vi comboios de 60 locomotivas que se escapavam

a todo o vapor perseguidas pelos horizontes

com cio e bandos de corvos que voavam

desesperadamente atrás,

Desaparecer

Na direcção de Porto-Artur.



Em Tchita tivemos alguns dias de descanso

Paragem de cinco dias devido a obstáculos da linha

Passámo-los em casa do Senhor Iankéléwitch, que

queria dar-me em casamento a sua filha única.

Depois o comboio tornou a partir.

Agora era eu que me sentara ao piano e tinha dores

de dentes

Revejo quando quero esse interior calmo a loja do pai

e os olhos da filha que vinha à noite para a minha cama

Moussorgsky



E os lieder de Hugo Wolf

E as areias do Gobi

E em Khaïlar uma caravana de camelos brancos

Creio bem que estive bêbedo durante mais de

500 quilómetros

Mas eu estava ao piano e foi tudo quanto vi

Quando se viaja deviam-se fechar os olhos

Dormir

Gostaria tanto de dormir

Reconheço todos os países de olhos fechados pelo

seu odor

E reconheço todos os comboios pelo barulho que

fazem

Os comboios da Europa são a quatro tempos enquanto

os da Ásia são a cinco ou a sete

Outros seguem em surdina são canções de embalar

E há os que no ruído monótono das rodas me lembram

a prosa pesada de Maeterlinck

Decifrei todos os textos confusos das rodas e reuni

os elementos dispersos duma violenta beleza

Que eu possuo

E me força.



Tsitsika e Kharbine

Não vou mais longe

É a última estação

Desembarquei em Kharbine quando acabavam

de deitar fogo às instalações da Cruz Vermelha.



Ó Paris

Grande lareira ardente com os tições entrecruzados

das tuas ruas e velhas casas que se debruçam

por cima e se aquecem

Como os avós

E eis os anúncios, vermelho, verde, multicolores como

o meu passado em resumo amarelo

Amarela a cor altiva dos romances da França

no estrangeiro.

Nas grandes cidades gosto de me meter nos

autocarros em andamento

Os da linha Saint-Germain-Montmartre levam-me

ao assalto da Butte

Os motores mugem como touros de ouro

As vacas do crepúsculo pastam o Sacré-Coeur

Ó Paris

Estação central cais das vontades cruzamento das

inquietações

Só os droguistas têm ainda um pouco de luz por cima

das portas

A Companhia Internacional das Carruagem-Camas

e dos Grandes Expressos Europeus enviou-me

um prospecto

É a mais bela igreja do mundo

Tenho amigos que me rodeiam como barreiras

Têm medo quando eu parto que nunca mais volte



Todas as mulheres que conheci erguem-se

nos horizontes

Com gestos lastimosos e olhares tristes de semáforos

à chuva

Bela, Inês, Catarina e a mãe do meu filho na Itália

E ainda a mãe do meu amor na América

Há gritos de sirene que me rasgam a alma

Na Manchúria um ventre estremece ainda como num

parto

Gostaria

Gostaria de nunca ter feito as minhas viagens

Esta noite um grande amor atormenta-me

E contra a minha vontade penso na jovem Joana

de França.

Foi numa noite de tristeza que escrevi este poema

em sua honra

Joana

A jovem prostituta

Estou triste estou triste

Irei ao Lapin Agile recordar-me da minha juventude

perdida

E beber copinhos

Depois voltarei sozinho para casa





Paris

Cidade da Torre única da enorme Forca e da Roda

do Suplício

Paris, 1913





(Poesia em Viagem)




(Ilustração: Brent Heighton - april in Paris)



segunda-feira, 27 de março de 2017

A VIRGEM DE NÁPOLES, de Curzio Malaparte








- Nunca viste uma virgem? - perguntou-me Jimmy um dia, quando saíamos do forno do Pendino de Santa Bárbara, mordiscando os belos taralli quentes e a estalar.

- Sim, mas de longe.

- No, I mean (1) de perto. Nunca viste uma virgem de perto?

- Come on (2), Malaparte - disse Jimmy.

Primeiro não quis acompanhá-lo, pois sabia que ia mostrar-me qualquer coisa de doloroso, de humilhante, algum testemunho atroz da humilhação física e moral a que pode chegar o homem no seu desespero. Não me agrada assistir ao espetáculo da baixeza humana, repugna-me estar sentado, como um juiz ou como um espectador, a contemplar os homens, quando eles descem os últimos degraus da abjeção; tenho sempre medo de que se voltem para trás e me sorriam.

- Come on, come on, don't be silly (3) - dizia Jimmy, caminhado diante de mim, no dédalo de ruelas de Forcella.

Não gosto de ver até que ponto o homem pode tornar-se vil para viver. Preferia a guerra a essa "peste" que, depois da libertação, nos deixara a todos emporcalhados, corrompidos, humilhados, todos, homens, mulheres, crianças. Antes da libertação, havíamos lutado e sofrido para não morrer. Agora lutávamos e sofríamos para viver. Há uma profunda diferença entre a luta para não morrer e a luta para viver. Os homens que lutam para não morrer conservam a sua dignidade, defendem-na ciosamente, todos, homens, mulheres, crianças, com obstinação feroz. Os homens não dobravam a cerviz. Fugiam para as montanhas, para as florestas, viviam nas cavernas, lutavam como lobos contra os invasores. Lutavam para não morrer. Era uma luta nobre, digna, leal. As mulheres não lançavam o corpo ao mercado negro para comprarem batom, meias de seda, cigarros ou pão. Sofriam a fome, mas não se vendiam. Não vendiam os seus homens ao inimigo. Antes queriam ver os próprios filhos morrer de fome que venderem-se, que venderem os seus homens. Somente as prostitutas se vendiam ao inimigo. Os povos da Europa, antes da libertação, sofriam com maravilhosa dignidade. Lutavam de cabeça erguida. Lutavam para não morrer. E os homens, quando lutam para não morrer, agarram-se com a força do desespero a tudo o que constitui a parte viva, eterna, da vida humana, a essência, o elemento mais nobre e mais puro da vida: a dignidade, o orgulho, a liberdade da própria consciência. Lutam para salvar a sua alma.

Mas depois da libertação os homens tiveram de lutar para viver. É uma coisa humilhante, horrível, é uma necessidade vergonhosa, lutar para viver. Só para viver. Só para salvar a própria pele. Já não é a luta contra a escravidão, a luta pela liberdade, pela dignidade humana, pela honra. É a luta contra a fome. É a luta por um pedaço de pão, por um pouco de lume, por um farrapo para cobrir os filhos, por um pouco de palha para estender o corpo. Quando os homens lutam para viver, tudo, até uma panela vazia, uma ponta de cigarro, uma casca de laranja, uma côdea de pão seco apanhada no lixo, um osso esburgado, tudo tem para eles um valor enorme, decisivo. Os homens são capazes de todas  as velhacarias para viver: de todas as infâmias, de todos os crimes, para viver. Por um pedaço de pão, cada um de nós está pronto a vender a própria mulher, as filhas, a macular a própria mãe, a vender os irmãos e os amigos, a prostituir-se a outro homem. Está pronto a ajoelhar-se, a arrastar-se pelo chão, a lamber os sapatos de quem pode matar-lhe a fome, a dobrar a cerviz sob o chicote, a limpar sorrindo a face onde lhe escarraram: tem um sorriso humilde, doce, um olhar cheio de esperança famélica, bestial, uma esperança espantosa.

Eu preferia a guerra à peste. De um dia para outro, em poucas horas, todos, homens, mulheres, crianças, haviam sido contagiados pela horrível, misteriosa epidemia. O que espantava e aterrorizava o povo era o caráter imprevisto, violento, fatal daquele espantoso flagelo. A peste conseguira, em pouco dias, mais do que conseguiria a tirania em vinte anos de universal humilhação, e a guerra em três de fome, de lutos e de atrozes sofrimentos. Aquele povo que nas estradas fazia comércio de si mesmo, da própria honra, do próprio corpo e da carne dos próprios filhos podia ser o mesmo povo que dias antes, naquelas mesmas estradas, dera tão grandes e tão terríveis provas de coragem e de fúria contra os alemães?

Quando os libertadores, em 1º de outubro de 1943, chegaram à primeiras casas dos subúrbios, nas cercanias de Torre del Greco, o povo napolitano, através de uma luta feroz que durara quatro dias, havia já expulsado os alemães da cidade. Os napolitanos haviam-se revoltado já contra os alemães no princípio de setembro, nos dias que se seguiram ao armistício: mas aquela primeira revolta fora sufocada em sangue, com implacável ferocidade. Os libertadores, que o povo esperava com ansiedade, foram em alguns pontos rechaçados para o mar, noutros, próximo de Salerno, resistiam agarrados à costa, e os alemães haviam retomado ânimo e fúria. Pelos fins de setembro, quando os alemães começaram a fazer razia dos homens pelas estradas, a carregá-los nos autocarros para os transportarem para a Alemanha, como bandos de escravos, o povo napolitano, excitado e arrastado por bandos de mulheres enfurecidas, que gritavam "li ommen no! os homens não!", lançara-se, sem armas, contra os alemães, encurralara-os e massacrara-os nas ruelas, esmagando-os de cima dos telhados, dos terraços, das janelas, sob uma avalancha de tijolos, de pedras, de móveis, de água a ferver. Grupos de animosos rapazes atiravam-se contra os panzer, levantando com os dois braços molhos de palha a arder, e morriam incendiando essas tartarugas de aço. Meninas de ar inocente mostravam, sorrindo, cachos de uvas aos alemães fechados no ventre dos carros armados superaquecidos pelo sol, mal aqueles levantavam a cobertura das torres e se inclinavam para receber o gentil presente dos cachos, com uma chuva de granadas de mão tiradas aos inimigos mortos, bandos de rapazes que espreitavam escondidos exterminavam-nos. Muitos foram os rapazes e as raparigas que perderam a vida naqueles cruéis e generosos estratagemas.

Carros e bondes virados nas estradas impediam a passagem às colunas alemãs que corriam para dar ajuda às tropas que resistiam em Eboli e Cava dei Tirreni. Porque o povo napolitano não agrediu pelas costas os alemães em retirada, mas defrontou-os, inerme, enquanto ainda durava a batalha de Salerno e era loucura, para um povo sem armas, extenuado por três anos de fome e de ininterruptos, ferozes bombardeios, opor-se à passagem das colunas germânicas que atravessavam Nápoles para operar contra os Aliados desembarcados em Salerno. Os rapazes e as mulheres foram os mais terríveis naqueles quatro dias de luta sem quartel. Muitos cadáveres de soldados alemães, que eu próprio vi, ainda insepultos, dois dias depois da libertação de Nápoles, apareciam golpeados no rosto, com o pescoço dilacerado por dentadas, e eram ainda visíveis as marcas dos dentes na carne. Muitos estavam desfigurados por tesouradas. Muitos jaziam num lago de sangue, com longos pregos espetados no crânio. À falta de outras armas, os rapazes cravavam aqueles compridos pregos, batendo-lhes com grandes pedras, na cabeça dos alemães, mantidos à força no chão por dez, vinte rapazes enfurecidos.

- Come on, come on, don't be silly! - dizia Jimmy, caminhando diante de mim no dédalo das vielas de Forcella.

Eu preferia a guerra à peste. Em poucos dias Nápoles tornara-se um abismo de vergonha e de dor, um inferno de abjeção. No entanto, a terrível peste não conseguia extinguir no coração dos napolitanos esse maravilhoso sentimento que neles sobrevivera a tantos séculos de fome e de escravidão. Nada conseguirá jamais extinguir a antiga, a maravilhosa piedade do povo napolitano. Ele não tinha só piedade dos outros, mas de si próprio. Não pode haver, num povo, o sentimento de liberdade, se não há nele o sentimento da piedade. Mesmo os que vendiam a própria mulher, as próprias filhas, mesmo as mulheres que se prostituíam por um maço de cigarros, mesmo os meninos que se prostituíam por uma caixa de caramelos tinham piedade de si próprios. era um sentimento extraordinário, uma maravilhosa piedade. Por esse sentimento, só por essa antiga, imortal piedade, eles serão livres um dia: homens livres.

- Oh, Jimmy, they love freedom - dizia eu -, eles amam a liberdade, they love freedom so much! They love American boys, too. They love freedom, American boys, and cigarrettes too (4). Também as crianças têm piedade de si mesmas. É uma coisa magnífica, Jimmy, comer caramelos em vez de morrer de fome. Don't you think so, you too, Jimmy?

- Come on - dizia Jimmy, escarrando no chão.

Assim, fui com Jimmy ver a "virgem". Era num basso (5), no fundo de uma viela, próximo da Piazza Olivella. Frente à porta do tugúrio fazia fila um bando de soldados aliados, a maior parte negros. Havia também três ou quatro soldados americanos, alguns poloneses e alguns marinheiros ingleses. Pusemo-nos na fila e esperamos nossa vez.

Decorrida mais ou menos meia hora de espera, sendo a média do avanço de um passo em cada dois minutos, encontramo-nos no limiar do tugúrio. O interior do quarto estava vedado aos nossos olhares por uma cortina vermelha, remendada e com manchas de gordura. À entrada estava um homem de meia idade, vestido de negro, macérrimo, de rosto pálido, semeado de tufos de pelos. Sobre a farta cabeleira cinzenta exibia um chapeuzinho de feltro negro, cuidadosamente passado. Tinha as duas mãos cruzadas sobre o peito e entre os dedos apertava um maço de notas.

- One dollar each - dizia -, cem liras cada pessoa.

Entramos e olhamos à volta. Era o clássico interior napolitano: um quarto sem janelas, com uma portinha ao fundo, uma imensa cama encostada à parede defronte, e, ao longo das outras paredes, um grande espelho, um lavatório de ferro grosseiro pintado de branco, uma cômoda, e entre o leito e a cômoda uma mesa. No consolo do espelho estava pousada uma grande redoma de vidro que cobria as estatuetas de cera pintada de uma Sagrada Família. Das paredes pendiam óleo-gravuras populares representando cenas da Cavalleria Rusticana e da Tosca, um Vesúvio empenachado de fumo semelhante a um cavalo empenachado para a festa de Piedigrotta (6), e fotografias de mulheres, de meninos, de velhos, não retratados em vida, mas já depois de mortos, estendidos nos leitos fúnebre e enfeitados de flores. No canto, entre a cama e o consolo do espelho, aparecia um altarzinho com a imagem da Madona, iluminada por uma lamparina a óleo. Sobre a cama estendia-se uma imensa colcha de seda azul-celeste, de longa franja dourada a roçar o pavimento de ladrilhos verdes e vermelhos. Na beira da cama estava sentada uma moça, e fumava.

Sentava-se com as pernas pendentes da cama, e fumava com ar absorto, em silêncio, com os cotovelos encostados aos joelhos e o rosto seguro entre as mãos. Parecia muitíssimo jovem, mas tinha os olhos velhos e um pouco fatigados. Estava penteada com aquela arte barroca das capere dos bairros populares, inspirada no penteado das Madonas napolitanas do século XVII: os negros cabelos, crespos e luzidios, entufados de crinas, enfeitados de laços e enchidos com estopa, levantavam-se à guisa de castelo, como se ela trouxesse sobre a fronte uma alta mitra negra. Havia qualquer coisa de bizantino no seu rosto pálido, estreito e longo, cuja palidez aparecia através da espessa camada de cosmético, e bizantino também era o rasgado dos grandes olhos oblíquos e pretíssimos, na fronte alta e lisa. Mas o lábios carnudos, aumentados por um violento traço de batom, davam qualquer coisa de sensual e insolente à delicada tristeza de ícone do rosto. Estava vestida de seda cor de carne, e os pés pequenos e carnudos balançavam-se, enfiados em chinelas de feltro preto, deformadas e rasgadas. O vestido tinha as mangas compridas, apertadas nos punhos, e à roda do pescoço pendia um desses desmaiados colares de coral antigo, que são em Nápoles o orgulho de todas as moças pobres.

A pequena fumava em silêncio, olhando fixamente para a porta, com uma indiferença orgulhosa. Não obstante a insolência do seu vestido de seda vermelha, o penteado barroco, os grossos lábios carnudos e aquelas chinelas esburacadas, a sua vulgaridade não tinha nada de pessoal. Ela parecia antes um reflexo da vulgaridade do ambiente, dessa vulgaridade que a envolvia toda e mal a tocava. Tinha uma orelha pequeníssima e delicada, tão branca e transparente que parecia postiça, de cera. Quando eu entrei, ela olhou fixamente para as minhas três estrelas de ouro de capitão e sorriu com desprezo, voltando ligeiramente o rosto para a parede. Estávamos uns dez no quarto. O único italiano era eu. Ninguém falava. 

- That's all. The next in five minutes (7) - disse a voz do homem que se encontrava à porta, atrás da cortina vermelha. Depois o homem meteu a cabeça no quarto através de uma abertura na cortina, e acrescentou: - Ready? Pronta?

A pequena atirou o cigarro para o chão, segurou com a ponta dos dedos a orla da saia, e lentamente levantou-a: primeiro apareceram os joelhos suavemente apertados na bainha de seda das meias, depois a pele macia das coxas, depois a sombra do púbis. Ficou um momento naquela atitude, triste Verônica de rosto severo, de boca desdenhosamente fechada. Depois, inclinando-se lentamente para trás, estendeu-se sobre a cama e afastou suavemente as pernas. Como faz o horrível gafanhoto no ato do amor, quando abre lentamente a tenaz das patas olhando fixamente para o macho com os olhinhos redondos, negros e luzidios, fica imóvel e ameaçador, assim fez a moça, abrindo lentamente as tenazes róseas e negras das carnes, e ficando assim, olhando fixamente para os espectadores. Um profundo silêncio reinava no quarto.

- She is a virgin. You can touch. Put your finger inside. Only one finger. Try a bit. Don't be afraid. She doesn't bite. She is a virgin. A real virgin (8) - disse o homem, metendo a cabeça no quarto através da fenda da cortina.

Um negro estendeu a mão e experimentou com o dedo. Alguém riu, mas parecia que se lamentava. A "virgem" não se mexeu, mas fitou o negro com um olhar cheio de terror e de ódio. Olhei à minha volta: todos estavam pálidos, todos estavam pálidos de terror e de ódio.

- Yes, she is like a child (9) - disse o negro com voz rouca, fazendo girar lentamente o dedo.

- Get out the finger (10) - disse a cabeça do homem enfiada na fenda da cortina vermelha.

- Really, she is a virgin (11) - repetiu o negro retirando o dedo.

Em dado momento, num baque surdo dos joelhos, a pequena fechou as pernas, levantou-se com um movimento rápido das costas, baixou a saia, e com mão lépida arrancou o cigarro da boca de um marinheiro inglês que estava junto da cama.

- Get out, please (12) - disse a cabeça do homem, e todos saímos lentamente, uns atrás dos outros, pela portinha que havia no fundo do quarto, deprimidos e envergonhados, arrastando os pés no chão.

- Vocês devem estar satisfeitos por ver Nápoles reduzida a isto - disse eu a Jimmy quando chegamos à rua.

- Culpa minha é que não é. 

- Oh, não - respondi -, evidentemente que não é culpa tua. Mas deve ser uma grande satisfação para vocês sentirem-se vencedores num país como este - tornei. - Sem estes espetáculos, como haviam vocês de fazer para se sentirem vencedores? Sê franco, Jimmy: vocês não se sentiriam vencedores sem estes espetáculos.

- Nápoles foi sempre assim - disse Jimmy.

- Não, nunca foi assim - repliquei -, nunca se viram tais coisas em Nápoles. Se coisas destas não lhes agradassem, se espetáculos destes não os divertissem, tais coisas não aconteceriam em Nápoles - continuei; - não se veriam semelhantes espetáculos em Nápoles.

- Não fomos nós que fizemos Nápoles - observou Jimmy; - já a encontramos como é.

- Não foram vocês que a fizeram - disse eu -, mas Nápoles nunca foi assim. Se a América tivesse perdido a guerra, imagina quantas virgens americanas, em Nova York ou em Chicago, abririam as pernas por um dólar. Se vocês tivessem perdido a guerra, estaria uma virgem americana naquela cama, em lugar dessa pobre pequena napolitana.

- Não diga asneiras - respondeu Jimmy. - Mesmo que tivéssemos perdido a guerra, não se veriam coisas assim na América.

- Havia de ver-se ainda pior, na América, se vocês tivessem perdido a guerra - disse eu. - Para se sentirem heróis, todos os vencedores sentem necessidade de ver coisas destas, sentem necessidade de enfiar o dedo numa pobre mulher vencida.

- Não diga asneiras.

- Antes quero ter perdido a guerra e estar sentado naquela cama como essa pobre moça, do que enfiar o dedo entre as pernas de uma virgem para ter o prazer e o orgulho de me sentir vencedor.

- Mas também tu vieste vê-la - tornou Jimmy. - Por que foi que vieste?

- Porque sou um covarde, Jimmy, porque também eu preciso ver coisas assim para sentir que sou um vencido, que sou um desgraçado.

- Por que não te pões também nu sentado naquela cama - propôs Jimmy -, se tens assim tanto prazer em sentir-te do lado dos vencidos?

- Sê franco, Jimmy, pagarias de boa vontade um dólar para vir ver-me abrir as pernas?

- Nem um cêntimo pagaria para te ver - disse Jimmy escarrando no chão.

- Por que não? Se a América tivesse perdido a guerra, eu ia logo lá para ver os descendentes de Washington a abrir as pernas diante dos vencedores.

- Shut up - gritou Jimmy, apertando-me o braço com força.

- Por que não vinhas tu ver-me? Todos os soldados do Quinto Exército viriam ver-me. Até o General Clark. Até tu, Jimmy. Não pagarias só um dólar, mas dois, três dólares, para ver um homem desabotoar as calças e abrir as pernas. Todos os vencedores precisam ver coisas destas para sentirem segurança que venceram a guerra.

- Vocês, na Europa, não passam de um bando de loucos e de porcos - disse Jimmy. - É isso que vocês são.

- Dize-me a verdade, Jimmy, quando voltares para a América, para a tua casa, em Cleveland, Ohio, vais gostar de contar que os dedos de vencedores passaram sob o arco do triufo das pernas das pobres mulheres italianas.

- Don't say that (12) - disse Jimmy em voz baixa.

- Desculpa-me, Jimmy, desgosta-me por ti e por mim. Não é culpa de vocês, nem nossa, sei muito bem. Mas faz-me mal pensar em certas coisas. Não deverias ter-me levado àquela pequena. Eu não devia ter vindo contigo ver esta horrível coisa. Desgosta-me por ti e por mim. Sinto-me miserável e covarde. Vocês, americanos, são bons rapazes e compreendem certas coisas melhor do que tantos outros. Não é verdade, Jimmy, que certas coisas também tu as compreendes?

- Yes, I understand (13) - admitiu Jimmy em voz baixa, apertando-me fortemente o braço.




Notas:

1. Não, quero dizer...

2.Vem.

3.Vem, vem, não sejas bobo.

4. Oh, Jimmy, eles amam a liberdade (...) amam tanto a liberdade! Amam também os rapazes americanos. Amam a liberdade, os rapazes americanos, e também os cigarros.

5. A parte térrea de uma casa.

6. Subúrbio de Nápoles onde se realiza uma festa popular muito concorrida.

7. Basta. Os próximos dentro de cinco minutos.

8. Ela é virgem. Podem tocar. Ponham o dedo. Só um dedo. Tentem um pouco. Não tenham medo. Ela não morde. Ela é virgem. Virgem de verdade.

9. Sim, é como uma menina.

10. Retire o dedo.

11. Saiam, por favor.

11. É virgem mesmo.

12. Não digas isso.

13. Sim, eu compreendo.


(A pele; tradução de Alexandre O'Neill)



(Ilustração: Dino Valls - Lectio)





terça-feira, 21 de março de 2017

ROMPENDO COM A ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, de Graça Aranha





Rio de Janeiro, 18 de outubro de 1924.



Excelentíssimo senhor presidente da Academia Brasileira,



Desde que na sua última sessão a Academia rejeitou o projeto que apresentei no intuito de modernizar a sua atividade, dou por extinta a minha função acadêmica. Poderia afastar-me sem explicações, como outros já fizeram por motivos pessoais, num gesto de desdém por esta instituição. A atitude, porém, que tomo é de ordem geral e deve ser explicada. Convidado para membro fundador da Academia, escrevi a Lúcio de Mendonça recusando a minha participação por julgar a criação desse instituto prejudicial à nossa jovem literatura, cuja vibração e desordem fecunda seriam juguladas pelo espírito acadêmico. Machado de Assis e Joaquim Nabuco insistiram de tal forma pela minha colaboração, que, num sorriso cético, me resignei à Academia, louvando a incoerência, que me fazia companheiro de tão grandes espíritos, infrangíveis espelhos de educação e beleza moral para os acadêmicos. Longos anos deixei-me ficar nesse suave convívio, um pouco desinteressado dos trabalhos da Academia. Ultimamente resolvi intervir no movimento literário brasileiro. A Academia é uma contradição do espírito moderno, que agita e transforma todo o Brasil. Perante a opinião pública, que a deve policiar, entendi estimular a Academia a orientar-se por esse espírito novo. Em seguida às palavras que lhe dirigi, apresentei o projeto de reforma dos seus trabalhos com o propósito de nacionalizar-lhe e modernizar-lhe a ação. O projeto foi rejeitado. A Academia quer persistir na sua posição eclética e antiquada, nefasta à literatura brasileira. Recusa-se a tornar-se um organismo útil e ativo, um fator do moderno sentimento nacional, seu representativo, seu guia. A Academia Brasileira morreu para mim, como também não existe para o pensamento e para a vida atual do Brasil.

Se fui incoerente aí entrando e permanecendo, separo-me da Academia pela coerência.

Queira, senhor presidente, receber as expressões da alta consideração do seu admirador e amigo.

Graça Aranha



(O Modernismo na Academia: testemunhos e documentos).





(Ilustração: Portinari - descobrimento do Brasil)




sábado, 18 de março de 2017

À MARGEM DA POESIA, de Lupe Cotrim Garaude







Rilke estava enganado:

um poeta é um poeta

e vive sem fazer versos.

Por outras razões se morre

e as forças de viver

são mais cegas, são mais ágeis

que a direção de morrer.

Maiakovski se matou

podendo fazer poesia

e pagando seus impostos.

Como? Onde? Para quem?

Aqui, ali, pouco importa,

em tudo a mentira sobra;

morreu na boca de um poema

o pulso farto de versos.

Outros também se calam

na fímbria solta das sílabas

todo o lirismo nas mãos

corpo exposto a faca e bala

na altivez de perfil

por onde olha a poesia,

sozinha, sua própria véspera.

Se morre por outros rumos

aquém e além do dizer

e do poeta é a sina

não viver só de palavra

mas do chão, da cerca, da água

onde germina em silêncio

o que desabrocha a fala.

Versos se podem calar;

há coisas que não se calam

porque caladas, veneno

pior que o aço da espada.

Matando o irmão por dentro

dobrando o porte - a verdade

esgar de consentimento.

O vivo é antes do verso.

Urgente é abrir seus olhos

e as cortinas lacradas.

O verso, sim, mas depois

das razões de não morrer.

E assim fazendo, dizer.

Se vive com fome e sede

com amor estilhaçado

analfabeto, amarrado,

com chumbo dentro do ventre

sem sexo, luz, alvorada,

um homem vive de pouco

resiste às vezes de nada.

Das desrazões, irrazões

porque se venha a viver

há um poeta sem versos

que é poeta a valer

e sobrevive. De gula

talvez de usura,

confiança em quem ignora,

no cego, no surdo-mudo.

Rilke estava enganado.

Um poeta suicida

anunciou vento adentro

- o romantismo acabou.

O que estava por detrás

lá nos fundos da poesia

é que mata. E o matou.

Um pano em volta do rosto

muitos espreitam, se calam.

Mas além de ultraje e mito

numa resistência inteira

um poeta ainda espera

no calcanhar de seu grito.

Faz seus versos, e sem fazê-los

permaneceria vivo.



(Do sétimo livro, Poemas ao outro, 1970)





(Ilustração: Yves Tanguy - indef divisibility)



quarta-feira, 15 de março de 2017

CARTA CONTRA OS ESCRITORES MINEIROS (POR MUITO AMAR), de Vinícius de Moraes







Há uns dez pares de dias, ó escritores de Minas Gerais, uma conversa noturna que se iniciou num bar em Copacabana levou-me à casa de um jovem conterrâneo vosso, um prosador novo dessas terras altas, e, apraz-me dizer, um dos melhores e mais bem aquinhoados pela humanidade e pelo espírito. Com ele se achava outro moço escritor, também mineiro, também excepcionalmente dotado para a ingrata arte da poesia e, o que chega a ser excessivo, senhor de mão segura para a prosa. Num aprazível ambiente ao gosto moderno escutamos, de início, excelente música americana, se nos enlanguescendo a alma ao ritmo de mestres negros como Louis Armstrong e Duke Ellington e a forrar os nossos avessos de boa cerveja acompanhada de deliciosos salgadinhos. Aos poucos, o ritmo maior da noite veio penetrar nossos corações de melancolia essencial da natureza e, sem darmos por isso, encaminhamos nossas ideias para o terreno das explicações de temperamento, inclusive o literário. Eu, infelizmente, nada tinha de novo que pudesse mostrar ao meu querido anfitrião e seu amigo, mas o mesmo não acontecia com este último, que, apesar da modéstia natural com que Deus e essa abençoada terra o dotaram, produziu, instado, uma peça em prosa e outra em verso, nas quais, em meio aos sublimes esgares da música, mergulhei com ânimo sério e precisão de sinceridade.



Digo-vos, ó homens das letras alterosas, que as peças eram, em verdade, muito belas e caprichosamente escritas. Li-as com amor e crítica, e tão bem me pareceram que, emocionado, saudei o moço escritor com palavras brotadas da sinceridade. No entanto, por me parecer a dita peça, posto bela, extremamente centrada sobre o eu íntimo do seu jovem autor, verberei-lhe, em nome do talento e da franqueza com que expunha a si mesmo os seus próprios desencontros e angústia, o fato de não lutar por colocar esse talento e essa franqueza a serviço de uma causa menos egoísta que ele mesmo.



Ao fazê-lo, vai que se me deparou o problema de uma extensão a bem dizer ontológica e, mais particularmente, de fundo sociológico com relação ao Brasil. Àquele jovem que tinha diante de mim, dotado de todas as prendas do espírito e cuja bondade transparecia nos olhos, nas mãos, nos cabelos, nas atitudes proverbiais aos nativos de Minas, esmagava uma angústia milenar. Não lhe faltava nem coragem para lutar – que podia ver no seu modo franco – nem solidariedade humana – a transpirar das palavras com que, aceitando, esforçava-se por situar minha revolta dentro de seu coração afetuoso, num anseio de se libertar. Compreendi que diante de mim estava, mais que um caso de enclausuramento por livre arbítrio, uma fatalidade do mau privilégio que pesa sobre essa bem amada terra e a vem sufocando lentamente, com risco de segregá-la da comunidade de seus irmãos brasileiros. Porque, caríssimos, fostes dotados, desde sempre, na História desta amável pátria, dos melhores e mais pródigos dons para a palavra escrita. Não se passou geração em que não désseis à literatura brasileira um nome exemplar, e tanto melhor quanto sempre penetrado dessa misteriosa doçura e simpatia que faz de vós como que o povo escolhido para o carinho de todo o resto do Brasil.



No entanto, ó escritores, que estranho destino vos faz orgulhosos do vosso triste privilégio! Sim, a alma que tantas vezes vos fervilha, vós a prendeis num corpo por demais estático, por demais consciente da ordem burocrática que vos vem matando. No entanto, esse orgulho que vos acorrenta os anseios da vida, por que vos dá ele coragem para vos automutilardes? Por que a paisagem escolhida para a vossa muda contemplação há de ser somente a bela, triste, desolada paisagem de vós mesmos?



Não vos digo que traís o vosso destino, porque sois honestos e puros como a terra. Mas essa terra, em verdade, a secastes em vós, escritores de Minas. Realmente, não há lugar para a palavra traição quando se fala de vós. Direis sempre aquilo que vos é imperioso dizer: o mundo de vós mesmos, e que bem o fazeis! Mas sabeis, no entanto, que maior que vós mesmos é a humanidade que vos circunda; maior que vossa casa é o mundo; maior que vossos casos particulares, vossos segredos, vossa contida existência doméstica é a miséria, a grandeza, a indiscrição, a sordidez do mundo. Por que vos negais tão friamente ao escândalo, ó homens de muito pudor? Por que afastais do vosso caminho a mulher e só tendes para o miserável o óbolo da vossa compaixão? Por que só olhais o mundo das janelas de vossas casas ou dos vossos escritórios? Por que vos machucais e por que sobrestimais a vossa inquietação? Mais inquieto que vós é o abismo da vida, onde rolam de envolta corpos em sangue e em poesia; mais inquietas que vós são as mulheres de cujo convívio selvagem vos afastais por discrição; mais inquietos que vós são os mares da distância, os ventos de outras paragens, os apelos dos que morrem sem pão e sem calor, desconhecidas almas vagabundas que clamam de vós, esperam de vós, vivem em vós e sobre quem, no entanto, silenciais.



Perdoai-me, se me puderdes perdoar, a franqueza destas palavras. Sei que me estimais, e eu, eu vos quero definitivamente bem. Poderá parecer-vos ingratidão, eu que já fui vosso hóspede e que já bebi convosco em vossos bares, vos falar assim, e sobretudo imodéstia ou consciência da minha verdade. Mas tal não se dá, e vós bem o sabeis. Não me considero nem portador de uma verdade nem sou juiz de ninguém, senão de mim mesmo. Mas o amor que vos dedico, e que se veio fortalecendo à medida que conhecia melhor vossas forças e fraquezas, me arrastou inelutavelmente a este discurso que não é do meu tom. Eis por que fi-lo assim, de afetação propositada, pois não vos quisera falar de assunto tão grave com palavras mais simples, que cairia no perigo de vos acarinhar, como é tendência minha sempre que falo de vós. Anima-me somente a certeza de tocar num ponto que, tão certo como eu estar vivo no momento em que vos escrevo, vos vai doer e fazer pensar.



Por que vos recusais a pensar, escritores de Minas, além do pensamento de vós mesmos que vos ocupa todas as horas? A vossa pobre, querida Minas esvai-se em amorosa consumpção. Por que não a revitalizais com o vosso espírito e a vossa ação? Os preconceitos vos abafam como o ar da seca: por que não vos libertais? Sois homens de coragem intelectual, não temeis vos dizer a vós mesmos o que só muito poucos se diriam; e tendes, sem embargo, consciência precisa do fim que vos espera nesse caminho de pura introspecção em que ides: tornar-vos-eis um órgão passivo dentro de um organismo em luta para se libertar de todos os seus humores tóxicos.



Vossa alma é patética, escritores de Minas. Eu a amo e admiro. Mas esse olhar perpetuamente para dentro vos secará o brilho dos olhos. Precisais de água, a água do mar, a água da mulher, a água da criação. Temeis errar: errai. Temeis mostrar a vossa nudez: desnudai-vos. Falo-vos mais que em meu próprio nome – que não precisais de mim para nada –, em nome de uma geração que está crescendo a vosso lado. Meninos puros, inteligentes, honestos, bem dotados para a criação, que trazem a generosa inquietação do rapaz que começa e que, ao contato de vosso espírito maior e do vosso desencanto total, irão transformar a terra ainda fértil neles em grandes peladas através das quais passarão a vida a se passear.



Sois gente simples. Vossa fala é simples, vossa maneira é simples, vosso corpo e vosso coração são simples. Vossa forma é quase sempre simples, sem retórica, enxuta, precisa, exata para se ler. O vosso convívio é simples e agradável. Dá uma impressão de se estar perfeitamente a salvo, a vosso lado, apesar de vos dizerem desconfiados. Mas o vosso orgulho não é simples, escritores de Minas. Ele vos isola numa terra ferida de morte. Ele vos dá em excesso complacência para com as vossas próprias feridas, que tanto cultivais. Ele vos dá esse olhar tímido e vos cerra os maxilares diante da emoção. Por que só sabeis chorar às escondidas, escritores de Minas? Por que não vindes às vezes vos banhar nos mares da costa? Por que vos enclausurais em vossa cidade mórbida, que vos estiola as faculdades do amor? Por que amais a vossa desolação? Por que não saís às vezes, não viajais, não lutais contra o erro de vós mesmos? Por que não fraquejais, não amaldiçoais, não apedrejais, não sofreis o generoso sofrimento da vida? Por que não vos interessa conhecer o Norte e o Sul do país, e os países distantes? Por que economizais e para quê: para comprar o vosso túmulo? Por que viveis como num claustro, entre essas montanhas de luz perfeita? Não vos dá vontade de louvar outra coisa que não seja a Deus e vossa angústia? Por que sois ordenados por fora e desencontrados por dentro? Por que vos persegue o pensamento da morte, que é o fim da vida?



Ah, escritores de Minas Gerais, deixai-me chorar o vosso destino. Deixai-me lamentar a prodigalidade com que vos dispensais os vossos raros dons. Deixai-me acusar-vos, escritores de Minas, de estardes a ponto de inutilizar para a vida mais uma geração de quem não quereis ser o amparo, contra vós mesmos. Não vos quero dizer mais, porque já muito me dói o que vos disse. Que não me queirais mal, no entanto. Por esta única indizível razão escrevo esta carta contra vós: por muito amar.



(O Jornal, Rio de Janeiro, 5 de novembro de 1944).





(Ilustração: Márcio Schiaz - Ouro Preto)







domingo, 12 de março de 2017

OUVI CONTAR QUE OUTRORA, de Ricardo Reis


                                              




Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia

Tinha não sei qual guerra,

Quando a invasão ardia na Cidade

E as mulheres gritavam,

Dois jogadores de xadrez jogavam

O seu jogo contínuo.



À sombra de ampla árvore fitavam

O tabuleiro antigo,

E, ao lado de cada um, esperando os seus

Momentos mais folgados,

Quando havia movido a pedra, e agora

Esperava o adversário,

Um púcaro com vinho refrescava

Sobriamente a sua sede.



Ardiam casas, saqueadas eram

As arcas e as paredes,

Violadas, as mulheres eram postas

Contra os muros caídos,

Traspassadas de lanças, as crianças

Eram sangue nas ruas...

Mas onde estavam, perto da cidade,

E longe do seu ruído,

Os jogadores de xadrez jogavam

O jogo do xadrez.



Inda que nas mensagens do ermo vento

Lhes viessem os gritos,

E, ao reflectir, soubessem desde a alma

Que por certo as mulheres

E as tenras filhas violadas eram

Nessa distância próxima,

Inda que, no momento que o pensavam,

Uma sombra ligeira

Lhes passasse na fronte alheada e vaga,

Breve seus olhos calmos

Volviam sua atenta confiança

Ao tabuleiro velho.



Quando o rei de marfim está em perigo,

Que importa a carne e o osso

Das irmãs e das mães e das crianças?



Quando a torre não cobre

A retirada da rainha branca,

O saque pouco importa.

E quando a mão confiada leva o xeque

Ao rei do adversário,

Pouco pesa na alma que lá longe

Estejam morrendo filhos.



Mesmo que, de repente, sobre o muro

Surja a sanhuda face

Dum guerreiro invasor, e breve deva

Em sangue ali cair

O jogador solene de xadrez,

O momento antes desse

(É ainda dado ao cálculo dum lance

Pra a efeito horas depois)

É ainda entregue ao jogo predilecto

Dos grandes indiferentes.



Caiam cidades, sofram povos, cesse

A liberdade e a vida,

Os haveres tranquilos e avitos

Ardem e que se arranquem,

Mas quando a guerra os jogos interrompa,

Esteja o rei sem xeque,

E o de marfim peão mais avançado

Pronto a comprar a torre.



Meus irmãos em amarmos Epicuro

E o entendermos mais

De acordo com nós-próprios que com ele,

Aprendamos na história

Dos calmos jogadores de xadrez

Como passar a vida.



Tudo o que é sério pouco nos importe,

O grave pouco pese,

O natural impulsa dos instintos

Que ceda ao inútil gozo

(Sob a sombra tranquila do arvoredo)

De jogar um bom jogo.



O que levamos desta vida inútil

Tanto vale se é

A glória; a fama, o amor, a ciência, a vida,

Como se fosse apenas

A memória de um jogo bem jogado

E uma partida ganha

A um jogador melhor.



A glória pesa como um fardo rico,

A fama como a febre,

O amor cansa, porque é a sério e busca,

A ciência nunca encontra,

E a vida passa e dói porque o conhece...



O jogo do xadrez

Prende a alma toda, mas, perdido, pouco

Pesa, pois não é nada.



Ah! sob as sombras que sem querer nos amam,

Com um púcaro de vinho

Ao lado, e atentos só à inútil faina

Do jogo do xadrez,

Mesmo que o jogo seja apenas sonho

E não haja parceiro,

Imitemos os persas desta história,

E, enquanto lá por fora,

Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida

Chamam por nós, deixemos

Que em vão nos chamem, cada um de nós

Sob as sombras amigas

Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez

A sua indiferença.
                          




(Odes)




(Ilustração: Cezanne - players)


quinta-feira, 9 de março de 2017

A MENINA MAIS FEIA DO MUNDO!, de Ana Elisa Ribeiro






Nunca conheci menina tão feia. Tinha uns cabelos escorridos, na altura quase da cinturinha de pilão, caindo pelas espáduas avermelhadas como a da índia de Alencar. Fazia as unhas delicadamente e piscava enormes olhos verdes em todas as direções. Era alta, o que me deixava invejosa. Se tinha algo que me dava vontade era de ser grande, não só para aparecer mais do que todos, mas primeiro para ter lugar no fim da fila da escola, posição sempre mais interessante. No recreio, ser baixo significava estar sempre adiante, com todos os demais nos meus calcanhares. Não tinha graça, exceto para aqueles que chamávamos de “os fominhas”.

A menina era feia como uma criatura mitológica. Monstrenga. Alta, morena, roliça, intoleravelmente atraente. Alimentava mais da metade dos sonhos de todos os meninos da escola. Era esbelta como uma porta. Intangível como uma ideia. Bem-vestida, bem-cuidada, mas distante. Não conseguia trocar duas palavras educadas sequer com a professora, aquela autoridade. Imaginávamos que, quando a menina feia crescesse, seria uma dona Magda como aquela: alta, escorregadia e fria. Os cabelos longos se tornariam coques apertados em cima da cabeça e se poderia ver com mais calma a verruga na nuca.

Os meninos da minha turma desejavam a menina feia. Eles queriam brincar com ela, tocar-lhe os dedos e as partes abauladas da bunda, queriam pensar coisas pornográficas e fazer gracinhas eróticas para ver se ela deixaria. A menina avançava com eles e recuava quando a brincadeira parecia incontornável. Ela falava muito de cremes de cabelo e de perfumes, também sabia algo sobre esmaltes e gostava de variar os batons. Ela se produzia, mesmo quando era obrigatório o uso de uniforme. Ela não parecia igual a ninguém. Ela se parecia com todas as protagonistas das novelas. Nem mesmo os uniformes a tornavam mais uma entre tantas outras.

Um dia, vimos a mãe da menina feia vir buscá-la na escola. Abriu-se a porta do carrão e saiu de lá uma imensa peruona. Muito loura e de bastas sobrancelhas negras, de imensos olhos acentuadamente azuis, unhas coloridas e beiços sádicos. Era uma jamanta. Não podia ser apenas uma mulher. Era, ao mesmo tempo, a mãe e a filha, talvez ainda o arremedo da avó espanholona. Travestida de um roupeiro inteiro, quase não se via rosto embaixo de tanta iluminação. Era obrigatório visá-la. Quase uma aparição amedrontadora. Com aquelas unhas, não era possível segurar um bebê. Com aquele cheiro forte, não se podia evitar a alergia. Com aqueles saltos altíssimos, não se podia andar. Era uma marcha que começava no chão e impactava até os cachos formatadinhos do cabelo amarelo. A menina feia nunca deve ter tido tempo de ser menininha. Não ouvi a voz da geringonça humana. A menina feia tinha muito caminho pela frente. Tal mãe, quase a filha. Um quase embaraçoso.

Mas não era assim o menino. Nunca eu vira gente tão bonita. Parecia um conceito. Liso, esguio, fechado. Inequivocamente, dizia um bom dia e um boa tarde, toda vez que chegava na sala. Mesmo quando ninguém respondia, ele cumprimentava o ar. Não era por ninguém. Era por ele. Alimentava pombos doentes, tinha pena de passarinhos e sabia tocar violão. Não sei ao certo a cor dos cabelos, o tamanho dos pés, a textura das mãos ou a cor dos olhos. Não dava tempo de saber. A laçada dele era antes. O fino do olhar de educado e lisonjeiro. Não sei direito se tinha espinhas e um pé tortinho. Não consegui notar embaixo daquele ar de queda livre que ele tinha. Era o menino mais bonito do mundo. Desses que deixam suspiros no ar, mas só para quem sabe sentir. Entrava na sala e lançava um brevíssimo olhar pelo arredor. Quando eu conseguia pegar a visada dele, mirava meus mais intensos sonhos. Era uma espécie de bênção, debaixo de uns cabelos pretíssimos e penteados para o lado esquerdo.

Minha angústia era aceitar os diversos em seus ritmos sincopados. A menina feia, com seus jasmins; o menino lindo, com sua hipnose. A peruona espanhola com sua britadeira de partir o dia a dia. As pessoas que valem a pena são assim: têm traços transparentes. Não se medem pelas cores nem pelos apetrechos. Elas nos inquietam sem usar os peitos ou as nádegas. Elas não somem da memória. O menino mais bonito que eu já conheci tinha um olhar tão doce que eu não lhe sabia a cor dos olhos. E ele me fez agrados tão bonitos que não guardei-lhe as medidas. Até hoje, e sempre, o que me faz lembrar dele é um beijo de olhos fechados, no meio da tempestade de vento, e um armário cheio de chocolates.





(Ilustração: Jean Bailly)