quinta-feira, 30 de março de 2017

J’AI VU / EU VI, de Blaise Cendrars









J’ai vu les trains silencieux les trains noirs qui revenaient de l’Extrême-Orient et qui passaient en fantômes

Et mon œil, comme le fanal d’arrière, court encore derrière ces trains

A Talga 100.000 blessés agonisaient faute de soins

J’ai visité les hôpitaux de Krasnoïarsk

Et à Khilok nous avons croisé un long convoi de soldats fous

J’ai vu, dans les lazarets, des plaies béantes, des blessures qui saignaient à pleines orgues

Et les membres amputés dansaient autour ou s’envolaient dans l’air rauque

L’incendie était sur toutes les faces, dans tous les cœurs

Des doigts idiots tambourinaient sur toutes les vitres

Et sous la pression de la peur, les regards crevaient comme des abcès



Dans toutes les gares on brûlait tous les wagons

Et j’ai vu

J’ai vu des trains de 60 locomotives qui s’enfuyaient à toute vapeur pourchassées par les horizons en rut et des bandes de corbeaux qui s’envolaient désespérément après

Disparaître

Dans la direction de Port-Arthur.



À Tchita nous eûmes quelques jours de répit

Arrêt de cinq jours vu l’encombrement de la voie

Nous le passâmes chez Monsieur Iankéléwitch qui voulait me donner sa fille unique en mariage

Puis le train repartit.

Maintenant c’était moi qui avais pris place au piano et j’avais mal aux dents

Je revois quand je veux cet intérieur si calme, le magasin du père et les yeux de la fille qui venait le soir dans mon lit

Moussorgsky

Et les lieder de Hugo Wolf

Et les sables du Gobi

Et à Khaïlar une caravane de chameaux blancs

Je crois bien que j’étais ivre durant plus de 500 kilomètres

Mais j’étais au piano et c’est tout ce que je vis

Quand on voyage on devrait fermer les yeux

Dormir

J’aurais tant voulu dormir

Je reconnais tous les pays les yeux fermés à leur odeur

Et je reconnais tous les trains au bruit qu’ils font

Les trains d’Europe sont à quatre temps tandis que ceux d’Asie sont à cinq ou sept temps

D’autres vont en sourdine, sont des berceuses

Et il y en a qui dans le bruit monotone des roues me rappellent la prose lourde de Maeterlinck

J’ai déchiffré tous les textes confus des roues et j’ai rassemblé les éléments épars d’une violente beauté

Que je possède

Et qui me force.



Tsitsika et Kharbine

Je ne vais pas plus loin

C’est la dernière station

Je débarquai à Kharbine comme on venait de mettre le feu aux bureaux de la Croix-Rouge.



Ô Paris

Grand foyer chaleureux avec les tisons entrecroisés de tes rues

et tes vieilles maisons qui se penchent au-dessus et se réchauffent

Comme des aïeules

Et voici des affiches, du rouge du vert multicolores comme mon passé bref du jaune

Jaune la fière couleur des romans de la France à l’étranger.



J’aime me frotter dans les grandes villes aux autobus en marche

Ceux de la ligne Saint-Germain-Montmartre m’emportent à l’assaut de la Butte

Les moteurs beuglent comme les taureaux d’or

Les vaches du crépuscule broutent le Sacré-Cœur

Ô Paris

Gare centrale débarcadère des volontés carrefour des inquiétudes

Seuls les marchands de couleur ont encore un peu de lumière sur leur porte

La Compagnie Internationale des Wagons-Lits et des Grands Express Européens m’a envoyé son prospectus

C’est la plus belle église du monde

J’ai des amis qui m’entourent comme des garde-fous

Ils ont peur quand je pars que je ne revienne plus

Toutes les femmes que j’ai rencontrées se dressent aux horizons

Avec les gestes piteux et les regards tristes des sémaphores sous la pluie

Bella, Agnès, Catherine et la mère de mon fils en Italie

Et celle, la mère de mon amour en Amérique

Il y a des cris de sirène qui me déchirent l’âme

Là-bas en Mandchourie un ventre tressaille encore comme dans un accouchement

Je voudrais

Je voudrais n’avoir jamais fait mes voyages

Ce soir un grand amour me tourmente

Et malgré moi je pense à la petite Jehanne de France.

C’est par un soir de tristesse que j’ai écrit ce poème en son honneur



Jeanne

La petite prostituée

Je suis triste je suis triste

J’irai au Lapin Agile me ressouvenir de ma jeunesse perdue

Et boire des petits verres

Puis je rentrerai seul



Paris

Ville de la Tour unique du grand Gibet et de la Roue.

Paris, 1913



Tradução de Liberto Cruz:





Eu vi

Vi os comboios silenciosos os comboios negros que

vinham do Extremo-Oriente e que passavam como

fantasmas

E o meu olhar, como a lanterna da retaguarda, corre

ainda atrás desses comboios

Em Talga 100 000 feridos agonizavam por falta

de cuidados

Visitei os hospitais de Krasnoïarsk

E em Khilok cruzámos com um longo comboio de

soldados loucos

Vi nos lazaretos chagas abertas feridas que

sangravam a jorros.



E os membros amputados dançavam em volta

ou levantavam voo no ar roufenho

O incêndio estava em todos os rostos em todos

os corações

Dedos idiotas tamborilavam em todos os vidros

E sob a pressão do medo os olhares rebentavam

como abcessos

Em todas as estações deitavam fogo aos vagões



E vi

Vi comboios de 60 locomotivas que se escapavam

a todo o vapor perseguidas pelos horizontes

com cio e bandos de corvos que voavam

desesperadamente atrás,

Desaparecer

Na direcção de Porto-Artur.



Em Tchita tivemos alguns dias de descanso

Paragem de cinco dias devido a obstáculos da linha

Passámo-los em casa do Senhor Iankéléwitch, que

queria dar-me em casamento a sua filha única.

Depois o comboio tornou a partir.

Agora era eu que me sentara ao piano e tinha dores

de dentes

Revejo quando quero esse interior calmo a loja do pai

e os olhos da filha que vinha à noite para a minha cama

Moussorgsky



E os lieder de Hugo Wolf

E as areias do Gobi

E em Khaïlar uma caravana de camelos brancos

Creio bem que estive bêbedo durante mais de

500 quilómetros

Mas eu estava ao piano e foi tudo quanto vi

Quando se viaja deviam-se fechar os olhos

Dormir

Gostaria tanto de dormir

Reconheço todos os países de olhos fechados pelo

seu odor

E reconheço todos os comboios pelo barulho que

fazem

Os comboios da Europa são a quatro tempos enquanto

os da Ásia são a cinco ou a sete

Outros seguem em surdina são canções de embalar

E há os que no ruído monótono das rodas me lembram

a prosa pesada de Maeterlinck

Decifrei todos os textos confusos das rodas e reuni

os elementos dispersos duma violenta beleza

Que eu possuo

E me força.



Tsitsika e Kharbine

Não vou mais longe

É a última estação

Desembarquei em Kharbine quando acabavam

de deitar fogo às instalações da Cruz Vermelha.



Ó Paris

Grande lareira ardente com os tições entrecruzados

das tuas ruas e velhas casas que se debruçam

por cima e se aquecem

Como os avós

E eis os anúncios, vermelho, verde, multicolores como

o meu passado em resumo amarelo

Amarela a cor altiva dos romances da França

no estrangeiro.

Nas grandes cidades gosto de me meter nos

autocarros em andamento

Os da linha Saint-Germain-Montmartre levam-me

ao assalto da Butte

Os motores mugem como touros de ouro

As vacas do crepúsculo pastam o Sacré-Coeur

Ó Paris

Estação central cais das vontades cruzamento das

inquietações

Só os droguistas têm ainda um pouco de luz por cima

das portas

A Companhia Internacional das Carruagem-Camas

e dos Grandes Expressos Europeus enviou-me

um prospecto

É a mais bela igreja do mundo

Tenho amigos que me rodeiam como barreiras

Têm medo quando eu parto que nunca mais volte



Todas as mulheres que conheci erguem-se

nos horizontes

Com gestos lastimosos e olhares tristes de semáforos

à chuva

Bela, Inês, Catarina e a mãe do meu filho na Itália

E ainda a mãe do meu amor na América

Há gritos de sirene que me rasgam a alma

Na Manchúria um ventre estremece ainda como num

parto

Gostaria

Gostaria de nunca ter feito as minhas viagens

Esta noite um grande amor atormenta-me

E contra a minha vontade penso na jovem Joana

de França.

Foi numa noite de tristeza que escrevi este poema

em sua honra

Joana

A jovem prostituta

Estou triste estou triste

Irei ao Lapin Agile recordar-me da minha juventude

perdida

E beber copinhos

Depois voltarei sozinho para casa





Paris

Cidade da Torre única da enorme Forca e da Roda

do Suplício

Paris, 1913





(Poesia em Viagem)




(Ilustração: Brent Heighton - april in Paris)



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