sábado, 18 de março de 2017

À MARGEM DA POESIA, de Lupe Cotrim Garaude







Rilke estava enganado:

um poeta é um poeta

e vive sem fazer versos.

Por outras razões se morre

e as forças de viver

são mais cegas, são mais ágeis

que a direção de morrer.

Maiakovski se matou

podendo fazer poesia

e pagando seus impostos.

Como? Onde? Para quem?

Aqui, ali, pouco importa,

em tudo a mentira sobra;

morreu na boca de um poema

o pulso farto de versos.

Outros também se calam

na fímbria solta das sílabas

todo o lirismo nas mãos

corpo exposto a faca e bala

na altivez de perfil

por onde olha a poesia,

sozinha, sua própria véspera.

Se morre por outros rumos

aquém e além do dizer

e do poeta é a sina

não viver só de palavra

mas do chão, da cerca, da água

onde germina em silêncio

o que desabrocha a fala.

Versos se podem calar;

há coisas que não se calam

porque caladas, veneno

pior que o aço da espada.

Matando o irmão por dentro

dobrando o porte - a verdade

esgar de consentimento.

O vivo é antes do verso.

Urgente é abrir seus olhos

e as cortinas lacradas.

O verso, sim, mas depois

das razões de não morrer.

E assim fazendo, dizer.

Se vive com fome e sede

com amor estilhaçado

analfabeto, amarrado,

com chumbo dentro do ventre

sem sexo, luz, alvorada,

um homem vive de pouco

resiste às vezes de nada.

Das desrazões, irrazões

porque se venha a viver

há um poeta sem versos

que é poeta a valer

e sobrevive. De gula

talvez de usura,

confiança em quem ignora,

no cego, no surdo-mudo.

Rilke estava enganado.

Um poeta suicida

anunciou vento adentro

- o romantismo acabou.

O que estava por detrás

lá nos fundos da poesia

é que mata. E o matou.

Um pano em volta do rosto

muitos espreitam, se calam.

Mas além de ultraje e mito

numa resistência inteira

um poeta ainda espera

no calcanhar de seu grito.

Faz seus versos, e sem fazê-los

permaneceria vivo.



(Do sétimo livro, Poemas ao outro, 1970)





(Ilustração: Yves Tanguy - indef divisibility)



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