quarta-feira, 31 de maio de 2023

NA TRILHA DE MACUNAÍMA: A DIVINA PREGUIÇA, de Celio Turino (*)


A ideia de preguiça em Mário de Andrade é anterior a Macunaíma e foi sedimentada em um artigo publicado em 3 de setembro de 1918, no jornal A Gazeta, ainda em sua juventude. Podemos perceber claramente que vários conceitos desenvolvidos em Macunaíma já estavam perfeitamente elaborados no artigo A Divina Preguiça.

Neste artigo notamos uma incrível proximidade do pensamento de Mário de Andrade com o Manifesto de Paul Lafargue. Não há registro de que ele tenha tomado contado com O direito à preguiça, mas certamente ambos se inscrevem na mesma direção e devem figurar, junto com O direito ao Ócio, de Bertrand Russel, como os grandes clássicos do tema, herdeiros do mais refinado pensamento grego.

A Divina Preguiça aponta dialeticamente a necessidade de se rever conceitos e processos acerca do desencadeamento da civilização:

Aqueles que asseveram ter a humanidade eras de progresso, de estacionamento e eras em que a civilização volta atrás, laboram num ligeiro desvio de concepção e, numa comprehensão menos exacta de synonymia das palavras. Na passagem das civilizações, como na própria vida, tudo é marchar, buscando um horizonte deanteiro inattingível. A destruição é, como a criação, uma necessidade dessa marcha que impulsiona os homens.

Note-se que a rediscussão destes conceitos de progresso é reforçada pelo impacto da Primeira Guerra Mundial em um processo de matança e barbárie dantesco:

Não se poderá dizer, sem receios de pesado errar, que a civilização perlongasse (antes da guerra) esse caminho que vai ter à luz. Digo antes da guerra, porque é certo, que o pampeiro das metralhas, o holocausto dos homens moços pela Grande Causa varreram o futuro dos bulcões que os o ensombravam; e a humanidade que sobreviver sentirá mais incentivos no desejo, mais enthusiasmos na inspiração.

Como um dos efeitos da guerra, ele imagina que talvez ela tenha o poder de reabrir conceitos, sendo o ''Sezamo, abre-te!'', que desencadearia uma série de ideias novas e libertadoras. Entre as velhas ideias a serem combatidas situam-se os conceitos pré-estabelecidos de trabalho e preguiça. Seu artigo contesta um outro, de um famoso articulista e acadêmico brasileiro, Austragésilo de Athaíde, que se refere à preguiça como sendo uma patologia a ser combatida, curada. O título do artigo é a Preguiça Patológica e assim Mário de Andrade o contesta:

Não me assaltou com lêl-as, a garganta dos deuses de Homero, mas confesso ter-me encrespado os lábios, o sorriso das figuras de Da Vinci. Mais uma illusão que nos querem tirar! A preguiça, que para uns fora o dom dos deuses e para outros peccado mortal, eil-a reduzida a um morbo de nova espécie! Não poderíamos mais gosar de nossos lazeres, agradecendo-os aos deuses, nem inculpar as nossas acedias preguiçosas, só remíveis no gradil dos confissionários!... Não; nem gosar com aquelles, nem sofrer com estas: a preguiça não era nem regalo nem culpa, resumia-se a uma doença! Todos os preguiçosos seriam outros tantos doentes!...

A visão criminalizadora da preguiça, que condena o próprio lazer como desvio do espírito, estava inserida no contexto higienista da época e teve ampla difusão com o personagem Jeca Tatu de Monteiro Lobato (posteriormente Monteiro Lobato reviu a caracterização dada a seu personagem síntese). Mário de Andrade apresentou a preguiça com um outro significado:

Nem gosar nem sofrer! Não se lhe poderia increpar a mandranice, nem exaltar a felicidade dos ócios, todos sofriam o contágio do mesmo morbo! E a uma receita de doutor e dois meses de estação de águas, sarada e firme, a humanidade voltaria ao labutar diuturno da vida!

Aproximando-se de Lafargue (mesmo sem conhecê-lo), ele deixa claro que a humanidade nem sempre teve a mesma opinião sobre a preguiça, demonstrando que o seu significado mudou de acordo com o tempo, as necessidades e valores decorrentes de cada momento histórico:

A preguiça teve sempre conforme o sentido em que foi tomada, modulações varias. Cada época e cada religião, acceitando e comprehendendo a preguiça segundo seu modo de ver, decantara-a ou repulsara. Na Grécia e na Roma de apogeus incontrastáveis, apesar de terem sido estádios de continua actividade, onde mais se accentuava o prurido dos ideaes, ancias de perfeição, ella foi apreciada e divinizada quase. Tempos de formoso trabalho, onde as saúdes abundavam de selva, onde as intelligencias eram mais geniais e as riquezas mais plethoricas, foi-lhes dado imprimir a quase todas as artes plásticas ou literárias o impulso que fez com que ellas atingissem a portentosa serenidade na força e a suprema belleza na verdade. A arte que – como explana Reinach – é mais ou menos um luxo, differenciando-se, entre outros, por esse caracter especial das outras manifestações da actividade humana, não poderia desenvolver-se e alcançar o seu fastigio sinão em meio das riquezas que prestigiaram as collinas da Hellade e os serros mansos de Roma. A arte nasceu porventura de um bocejo sublime assim como o sentimento do beijo deve ter surgido duma contemplação ociosa da natureza. O beijo e a arte são a descendência que perpetua e enaltece o ócio.; e os próprios philosophos hellenicos, nas suas preguiças illuminadas, esmagando ao peso das sandálias a areia especular dos seus jardins, gostavam de repousar os olhos nos mármores intemeratos no verde polychromico das relvas e vergeis, na palpitação das carnações sadias.

''Preguiça mãe das artes e das virtudes nobres!'' disse Lafargue em seu manifesto. ''A arte nasceu de um bocejo sublime...'' disse o nosso poeta ao defender as preguiças iluminadas dos filósofos gregos.  E também o beijo, surgido de uma contemplação ociosa da natureza. Mário de Andrade também se aproxima de Max Weber ao identificar no cristianismo o momento de virada deste conceito, quando a preguiça transforma-se em pecado:

O christianismo, comprehendendo mais humana e verdadeiramente a vida, fez da preguiça um peccado.... Mas já não é a mesma preguiça. O vício que o christianismo repulsa é o conclue pelo abandono das luctas e das porfias a que nunca refugiram os governados por Péricles. O preguiçoso que o christianismo indigita é o que se avilta na inércia lânguida - porta aberta aos pecados dos mortaes.

Neste momento ele deixa claro a distinção entre um sentido de preguiça como inércia e a preguiça criativa:

O preguiçoso do paganismo é como Titero de Virgílio que, derreado á sombra das balseiras, olhava as suas vaccas pascerem longe, tangendo na  avena ruda; ou é como o calmo Petrônio, que vagava pelas ruas de Roma, entrando os mercados onde expunham virgens nuas , ouvindo as intrigas no Fórum, descobrindo as ambições dos Eumólpios, para legar aos homens do porvir as paginas vivazes do Satiricon,a chronica mais perfeita dos romanos da decadência.

''Primeiras sociedades do lazer, primeiras sociedades da abundância'', assim como o antropólogo M. Sahlins apontou, Mário de Andrade também percebeu na preguiça a base definidora da identidade dos povos nativos:

Para os nossos indígenas as almas libertadas do envolucro da carne, iriam também repousar, lá do outro lado dos Andes, num ócio gigantesco. É a mesma concepção do Eldorado, de Poe, existente além do Valle da Sombra, que inspirou Baudelaire, Antonio Nobre e o nosso Alberto, nos alexandrinos lapidares de ''Longe...mais longe ainda!''.

Estes conceitos foram aprofundados dez anos depois, em Macunaíma e a preguiça foi apresentada uma das matrizes do caráter nacional, uma preguiça criativa, gingada e inovadora. Mas, definitivamente, foi neste artigo que Mário de Andrade consolidou a sua convicção da importância de travar um embate com essa noção moralizadora e controladora do tempo (que deveria ser) livre das pessoas. O ócio é apresentado em seu contrário, como um elemento libertário e de recusa da dominação onde o riso, a brincadeira e o lazer são entendidos como fundamentais para a emancipação humana:

Mas eis que os paychiatras querem trazer á preguiça mais essa qualificação de doentia; redimindo os ócios culposos, vulgarizando os ócios salutares!... Revoltemo-nos! A preguiça não pode ser reduzida a uma doença! Si algumas vezes é o resultado passageiro duma lesão, não poderá jamais misturar todos os preguiçosos num só caso de observação clínica!

Mil vezes não! Forçoso é continuar para que o idealismo floresça e as illusões fecundem, a castigar os que se aviltam no ''far niente'' burguez e vicioso e a exaltar os que comprehenderam e sublimaram as Artes, no convívio da divina Preguiça!

E todo esse sofisticado pensamento de Mário de Andrade é sintetizado em uma frase magistral de seu companheiro de modernismo, Oswald de Andrade, registrada no Manifesto Antropofágico: ''A alegria é a prova dos nove''

Que o movimento pela redução da jornada de trabalho, que hora se inicia, pratique sempre a ''prova dos nove'' da antropofagia criativa dos brasileiros. Um bom ''trabalho'' a todas e todos que se engajam nesta luta que, no fundo, é pela emancipação humana.

 

(Na trilha de Macunaíma: Ócio e trabalho na cidade)

 

(Ilustração: Grande Ohelo no filme de Joaquim Pedro de Andrade – Macunaíma) 


(*) O texto original de Mário de Andrade está publicado neste blog.

domingo, 28 de maio de 2023

IDADE, de Aristides Klafke

 


 

nasci num dia manso também noite

         envolvido pela abundância de ossos

e de corpos em silêncio.

         sob o áspero olhar de um pai

                   desnecessário.

uma mãe pronta, sem vestidura.

num deserto breve, claro

num tempo carregado de piolhos

 

(Esquina Dorsal, 1978)

 

(Ilustração: A birth scene by a French painter, 1800)


quinta-feira, 25 de maio de 2023

A DIVINA PREGUIÇA, de Mário de Andrade

 



Aqueles que asseveram ter a humanidade eras de progresso, de estacionamento e eras em que a civilização volta atrás, laboram num ligeiro desvio de concepção e numa compreensão menos exata da sinonímia das palavras. Na passagem das civilizações, como na própria vida, tudo é marchar, buscando um horizonte dianteiro inatingível. A destruição é, como a criação, uma necessidade dessa marcha que impulsiona os homens.

A água emergida da fonte não mais tornará a balsa agreste onde surgiu: será riacho, ribeirão depois, depois caudal… Na história dos homens tudo é progresso; apenas esse progresso trilha por vezes descaminhos, perlustra as sombras dos matagais, em vez de, num anseio alevantado, seguir reto para os horizontes onde pompeia o Sol.

Não se poderá dizer, sem receios de pesado errar, que a civilização perlongasse (antes da Guerra) esse caminho que vai ter a luz. Digo antes da guerra, porque é certo que o pampeiro das metralhas, o holocausto dos homens moços pela Grande Causa varrerem o futuro dos bulcões que o ensombravam; e a humanidade que sobrevier sentirá mais incentivos no desejo, mais entusiasmos na inspiração.

Um dos sintomas desse descaminho anterior ao famigerado agosto de 1914, era a propensão que tinham os cientistas de explicar as faltas e os vícios dos homens por meio de doenças e de atavismo. Reduziam o humano a um joão-minhoca ainda menos interessante e elevado que o da concepção pessimista de Pierre Wolf.

Os filósofos germânicos, organizados na mais encrenque pirataria intelectual de que jamais houve exemplo, tinham surrupiado e escondido nas sáxeas cavenas das suas filosofias aquele mesmo trigo das virtudes “ceifado ao campo do bom senso antigo”. De que nos fala Raymundo. A guerra será talvez o “Sésamo, abre-te” dessas lapas vertiginosas.

Pensava assim, dentro comigo, folheando as eruditas páginas de Austregésilo sobre a “Preguiça patológica…” Não me assentou sem lê-las, a gargalhada dos deuses de Homero, mas confesso ter-me encrespado os lábios o sorriso das figuras de Da Vinci. Mais uma ilusão que nos querem tirar! A preguiça que para uns fora dom dos deuses e para outros pecado mortal, ei-la reduzida a um morbo de nova espécie! Não poderíamos mais gozar dos nossos lazeres, agradecendo-os aos deuses, nem inculpar as nossas acedias preguiçosas, só remíveis no gradil dos confessionários!… Não; nem gozar com aqueles, nem sofrer com estas: a preguiça não era nem regalo nem culpa, resumia-se a uma doença! Todos os preguiçosos seriam outros tantos doentes!… E eu tive como que uma visão nova do mundo: via a Terra, modorrada ao calor, redondinha, vestida dum imenso gramado esmeraldino sobre o qual a humanidade intensa se deitara, chapéus nos olhos, mãos nas cavas dos coletes, pausas pantagruélicas culminando no espaço, a dormir, a dormir serenamente, num gigantesco, universal convescote.

Nem gozar, nem sofrer! Não se lhe poderia increpar a mandranice, nem exaltar a felicidade dos ócios: todos sofriam o contágio do mesmo morbo! E a uma receita de doutor de dois meses de estação de águas, sarada e firme, a humanidade voltaria ao labutar diuturno da vida!

*****

A preguiça teve sempre, conforme o sentido em que foi tomada, modulações várias. Cada época e cada religião, aceitando e compreendendo a preguiça segundo seu modo de ver, decantara-a ou a repulsara. Na Grécia e na Roma de apogeus incontrastáveis, apesar de terem sido estádios de contínuas atividades, onde mais se acentuava o prurido dos ideais, a anciã da perfeição, ela foi apreciada e divinizada quase. Tempos de formoso trabalho, onde as saúdes abundavam de seiva, onde as inteligências eram mais geniais e as riquezas mais pletóricas, foi-lhe dado imprimir a quase todas as artes plásticas ou literárias o impulso que fez com que elas atingissem a portentosa serenidade na força e a suprema beleza na verdade. A arte que – como explica Reinach – é mais ou menos um luxo, diferenciando-se, entre outros, por esse caráter especial das outras manifestações da atividade humana, não poderia desenvolver-se e alcançar o seu fastígio senão em meio das riquezas que prestigiaram as colinas de Hellade e os serros mansos de Roma. A arte nasceu porventura dum bocejo sublime, assim como o sentimento do belo deve ter surgido duma contemplação ociosa da natureza. O belo e a arte são a descendência que perpetua e enaltece o ócio; e os próprios filósofos helênicos, nas suas preguiças iluminadas, esmagando ao peso das sandálias de areia especular dos seus jardins, gostavam de repousar os olhos nos mármores intemeratos, no verde policrômico das relvas e vergéis, na palpitação das carnações sadias.

O cristianismo, compreendendo mais humana e verdadeiramente a vida, fez da preguiça um pecado. Mas já não é a mesma preguiça. O vício que o cristianismo repulsa é o que conclui pelo abandono das lutas e das porfias, a que nunca refugiram os governados de Péricles. O preguiçoso que o cristianismo indigita é o que se avilta na inércia lânguida – porta aberta aos pecados mortais. O preguiçoso do paganismo é como o Titero de Virgílio que, derreado à sombra das balseiras, olhava as suas vacas pascerem longe, tangendo na avena ruda; ou é como o calmo Petrônio, que vagava pelas ruas de Roma, entrando os mercados onde se expunham virgens nuas, ouvindo as intrigas no Fórum, descobrindo as ambições dos Eumólpios, para legar aos homens do porvir as páginas vivazes do Satiricon, a crônica mais perfeita dos romanos da decadência.

Para nossos indígenas as almas, libertadas do invólucro da carne, iriam, também repousar, lá do outro lado dos Andes, num ócio gigantesco. É a mesma concepção do Eldorado, de Poe, existente além do vale da sombra, que inspirou Baudelaire, Antonio Nobre e o nosso Alberto, nos alexandrinos lapidares de “Longe… mais longe ainda!”

Mas eis que os psiquiatras querem trazer à preguiça mais essa qualificação de doentia; redimindo os ócios culposos, vulgarizando os ócios salutares!… Revoltemo-nos! A preguiça não pode ser reduzida a uma doença! Se algumas vezes é o resultado passageiro duma lesão, não poderá jamais misturar todos os preguiçosos num só caso de observação clínica!

Mil vezes não! Forçoso é continuar, para que o idealismo floresça e as ilusões fecundem, a castigar os que se aviltam no “far niente” burguês e vicioso e a exalçar os que compreenderam e sublimaram as artes, no convívio da divina Preguiça!



(“A Gazeta”; São Paulo, 03/09/1918, Ano XIII – num. 3790)



(Ilustração: Céu Barros – cansado)

segunda-feira, 22 de maio de 2023

COMO SE MENTE, de Charles Peixoto

 


 
como se mente

em Mendes ou na Macedônia

no Planalto ou na Lituânia

como se mente

no consciente ou no inconsciente

é constante o elemento transgressor

não existe espaço para o estrangulamento

se não existe opressor

quem oprime é a tristeza

esse camaleão incolor

dançarina sedutora

e seus venenos definitivos



(Supertrampo, 2014)



(Ilustração: 
Henry Krauzyk - o mentirosso / the liar)

sexta-feira, 19 de maio de 2023

OXÍTONOS, Chico Viana

 


Os proparoxítonos são nobres. Os paroxítonos, triviais (correspondem à maior parte do léxico). O que dizer dos oxítonos? Com a tônica na última sílaba, eles têm um quê de retumbante e definitivo. Só se dão por inteiro. Nada os pode mutilar, sob pena de lhes destruir a alma, o icto, a sílaba tônica.

Talvez por isso eu tenha por eles um “xodó”. Um inexplicável “lundum”. Uma admiração sem “rapapés”. Sou Chico, mas gostava de ouvir um amigo que me chamava de “Chicó”. O esticamento e a abertura da sílaba final faziam a palavra soar como um dó de peito. Era difícil resistir ao apelo de quem me chamava assim.

Oxítonos são os infinitivos dos verbos, e o povo tende a suprimir o “r” posposto à vogal que indica a conjugação. Prefere dizer “cantá”, “bebê”, “parti”, desfazendo a vibração presente na consoante. Como se quisesse sentir a nua tonicidade das sílabas finais.

Os oxítonos são fáceis de dizer. Por isso as crianças a eles se afeiçoam, nomeando em balbucios as figuras a que se apegam primeiro: “papá”, “mamã”, “vovô”, “vovó”. Daí evoluem para os vocábulos que resumem a sua incipiente experiência do mundo: “pipi”, “bumbum”, “dodói”. Parece haver um casamento entre os oxítonos e os chamados hipocorísticos, que traduzem afetividade.

Mas nem tudo neles é doçura. Comumente se traduz em oxítonos o preconceito com que a sociedade julga os diferentes. Galego é “sarará”. Amputado é “cotó”. Gente muito feia é “papangu”. Cavalo inútil ou manhoso é “pangaré”. Mulher que passa tempo demais sem casar fica no “caritó”.

Os oxítonos se prestam bem à expressão do exagero. Uma coisa é estar saturado, outra é ficar “pelo gogó”. Fazer escândalo impressiona menos do que “dar um piti”. A ideia de que algo mudou radicalmente parece ter mais força quando se diz que houve um “revestrés”. Quem muito se entristece fica “jururu”.

São oxítonas várias palavras que se abreviam segundo a lei do menor esforço, como “pornô”, “retrô”, “chatô”. Com isso elas perdem parte do significante, mas não perdem o impacto. Drummond numa crônica faz uma personagem chamar poluição de “polu” – uma maneira de ela demonstrar intimidade com o tema. Intimidade e compromisso. Quem diz “polu” não sai por aí degradando o meio ambiente.

No domínio das crenças populares, os oxítonos também impressionam. Rogar uma praga é menos ameaçador de que fazer um “catimbó” (quem quiser que experimente). Entre os cultos animistas, nenhum parece tão ameaçador quanto o “vodu”. Divindade africana que se preza é “orixá”.

Os oxítonos são bons para traduzir repetitividade. Um som que parece interminável é um “baticum”. De gente cheia de lamúrias ninguém suporta o “nhenhenhém”. Estilo por demais enfeitado é “rococó”. E quando a confusão não termina? Vira um “rififi”.

Esse termo apareceu numa manchete que nunca esqueci (estampada na extinta revista Manchete). Tinham brigado Ângela Ro Ro e Zizi Possi. O romancista Carlos Heitor Cony, que era chefe de redação ou coisa parecida, não hesitou ao dar título à matéria: “Rififi da Zizi com a Ro Ro”! Uma sequência de oxítonos que sublinhava o escarcéu provocado pelas duas.

“Escarcéu”, por sinal, diz mais do que alarido ou gritaria. E com ele termino a crônica, antes que algum adepto dos proparoxítonos ache essa minha preferência esdrúxula e venha me provocar. Não estou para “quiproquós”.




(Ilustração: Ivan Kulikov: writer Evgeny N.Chirikov, 1904)

terça-feira, 16 de maio de 2023

POEMA 28 (AULA DE HISTÓRIA), de Eudoro Augusto

 





aula de história interrompida

o professor preso

o império do Grande Khan é apenas vestígio

marcas de giz e meias palavras

(os dedos que traçaram o mapa no quadro negro

não são os mesmos que conduzem agora o apagador

reduzindo datas e batalhas à metade)

pela janela os olhos percorrem a relva comum

que em nada lembra os desertos e a neve

coberta de cadáveres

um cavalo de pedra lambendo as feridas

a Transoxânia invadida

Bokhara subjugada

vencida Samarcanda

e Khorasan devastada pelos mongóis




(Cabeças, 1981)



(Ilustração: Nicolas Poussin - Camille livre le maitre decole - 1637)

sábado, 13 de maio de 2023

JACHID E JECHIDAH, de Isaac Bashevis Singer

 



1

Numa prisão onde as almas presas a Sheol — Terra, é como a chamam ali — aguardam destruição, vagueava a alma feminina Jechidah[1]. Almas esquecem sua origem. Purah, o Anjo do Olivado, que dissipa a luz de Deus e esconde Sua face, mantém o domínio de tudo além da cabeça de Deus. Jechidah, desatenta à sua descendência do Trono de Glória, havia pecado. Seu ciúme causara muito transtorno no mundo onde ela se encontrava. Suspeitara que todos os anjos femininos tivessem casos amorosos com seu amante Jachid[2], e não só blasfemara contra Deus, como também o negara. Almas, disse ela, não eram criadas; emergiam do nada. Não tinham missão nem objetivo. Embora as autoridades fossem assaz pacientes e clementes, Jechidah acabou condenada à morte. O juiz fixou o momento de sua descensão ao cemitério chamado Terra.

O advogado de Jechidah apelou à Superior Corte Celestial, chegou a apresentar petição a Metratron, o Senhor da Face. Mas Jechidah estava tão cheia de pecados e tão impenitente que poder algum pôde salvá-la. Os serventuários pegaram-na, afastaram-na de Jachid, tosquiaram-lhe as asas, cortaram-lhe o cabelo e envolveram-na em comprida mortalha branca. Já não lhe era permitido ouvir a música das esferas, cheirar os perfumes do paraíso e meditar os segredos da Tora, que alimentam a alma. Já não podia banhar-se nos poços de óleo balsâmico. Na cela carcerária, a escuridão do mundo dos mortos já a circundava. Mas seu maior tormento era a saudade de Jachid. Ela não podia comunicar-se telepaticamente com ele. Nem enviar-lhe mensagem, pois todos os servidores tinham desaparecido. Apenas o medo da morte restou com Jechidah.

A morte não era ocorrência rara onde Jechidah vivia mas sobrevinha somente a espíritos vulgares, exauridos. O que acontecia exatamente aos mortos, Jechidah ignorava. Estava certa de que, quando uma alma descia à Terra, era para ser extinta, embora os devotos dissessem que uma centelha de vida permanecia. Uma alma morta começava logo a apodrecer e não tardava a cobrir-se de uma substância viscosa chamada sêmen. Então, um coveiro punha-a num ventre onde ela se transformava numa espécie de fungo e era, daí por diante, conhecida por criança. Mais tarde, começavam as torturas da geena: nascimento, crescimento, labuta. Pois, segundo os livros de moralidade, a morte não era a etapa final. Purificada, a alma retornava à sua fonte. Mas que prova havia de tais crenças? Por isso, ao que sabia Jechidah, ninguém jamais voltara da Terra. A esclarecida Jechidah acreditava que a alma apodrece por um curto período e depois se desintegra nas trevas sem retorno.

Agora chegara o momento em que Jechidah devia morrer, devia afundar na Terra. Dentro em breve, o Anjo da Morte apareceria com sua espada flamejante e mil olhos.

A princípio, Jechidah chorou sem parar, mas depois suas lágrimas cessaram. Desperta ou adormecida, não deixava de pensar em Jachid. Onde estava? Que fazia? Com quem andava? Jechidah tinha certeza que ele não a prantearia para sempre. Estava cercado por belas fêmeas, bestas santificadas, anjos, serafins, querubins, ayralim, cada um deles com seus poderes de sedução. Até que ponto alguém como Jachid seria capaz de conter os desejos? Ele, como ela, era um incréu. Fora ele quem a ensinara que os espíritos não são criados, e sim produtos de evolução. Jachid não respeitava o livre-arbítrio, não acreditava no bem e no mal supremos. Que força lograria detê-lo? Com certeza já estaria no regaço de outra divindade, contando a seu respeito aquelas histórias que já contara a Jechidah.

No entanto, que lhe cabia fazer? Naquele calabouço, todos os contatos com as mansões haviam cessado. As portas estavam fechadas: nem misericórdia nem beleza entraram ali. O único caminho daquela prisão conduzia à Terra e aos horrores chamados carne, sangue, medula, nervos e cérebro. Os anjos tementes a Deus prometiam ressurreição. Pregavam que a alma não se demorava para sempre na Terra, mas que, depois de sofrer seu castigo, retornava à Esfera

Superior. Mas Jechidah, sendo modernista, considerava isso tudo uma superstição.

De que forma uma alma se libertaria por si mesma da corrupção do corpo? Cientificamente era impossível. A ressurreição era um sonho, um tolo conforto de almas primitivas e assustadas.

2

Uma noite, enquanto Jechidah, arriada a um canto, pensava em Jachid e nos prazeres que dele recebera, seus beijos, suas carícias, os segredos murmurados em seu ouvido, as muitas posições e jogos amorosos em que fora iniciada, Dumah, o Anjo da Morte de mil olhos, com aquela aparência com que os Livros Santos o descreviam, entrou empunhando uma espada flamejante.

— Sua hora chegou, irmãzinha — disse.

— Não resta nenhum apelo?

— Os que estão nessa ala vão sempre para a Terra.

Jechidah estremeceu.

— Bem, estou pronta.

— Jechidah, o arrependimento sempre ajuda. Recite sua confissão.

— Ajudar como? Arrependo-me apenas de não haver pecado mais — disse Jechidah com rebeldia.

Ambos silenciaram. Finalmente, Dumah disse:

— Jechidah, sei que tem raiva de mim. Mas será culpa minha, irmã? Acaso eu quis ser o Anjo da Morte? Também sou pecador, exilado de um reino mais alto, e meu castigo consiste em executar almas. Jechidah, não desejei sua morte, mas não fique deprimida assim. A morte não é tão terrível quanto se pensa. Realmente os primeiros instantes não são fáceis. Mas uma vez plantada no ventre, os nove meses que se seguem não são dolorosos. Você esquecerá tudo que aprendeu aqui. Saindo do ventre, terá um choque; a infância, no entanto, é muitas vezes agradável. Você começará a estudar a erudição da morte, vestida num corpo jovem, flexível, e logo receará o fim de seu exílio.

Jechidah interrompeu-o:

— Mate-me se é esse seu dever, Dumah, porém poupe-me suas mentiras.

— Estou dizendo a verdade, Jechidah. Você não se ausentará mais de cem anos, pois os mais amaldiçoados não sofrem mais que isso. A morte é apenas o preparativo de nova existência.

— Dumah, por favor. Não quero ouvir.

— Mas é importante você saber que bem e mal existem lá também e que a vontade continua livre.

— Que vontade? Por que diz tamanha tolice?

— Jechidah, ouça com cuidado. Mesmo entre os mortos existem leis e regulamentos. Da maneira como você age, a morte determina o que acontecerá a seguir. A morte é um laboratório para a reabilitação de almas.

— Acabe logo com isso, eu suplico.

— Paciência, você ainda tem alguns minutos de vida e deve receber instruções. Saiba, então, que se pode agir bem ou mal na Terra e que o pecado mais vil de todos é fazer uma alma reviver.

A ideia era tão ridícula que Jechidah riu apesar de sua angústia.

— Como pode um cadáver dar vida a outro?

— Não é tão difícil quanto pensa. O corpo é composto de matéria tão fraca que um mero sopro pode desintegrá-la. A morte não é mais forte que uma teia de aranha; sopra a brisa e ela desaparece. Mas constitui grande ofensa destruir a morte de outro ou a própria morte. E mais ainda: você não deve agir ou falar e até mesmo pensar de maneira a ameaçar a morte. Aqui, o objetivo de todos é preservar a vida, mas lá embaixo é a morte que pede socorro.

— Contos da carochinha. Fantasias de carrasco.

— É a pura verdade, Jechidah. A Tora que se aplica à Terra baseia-se num só princípio: “A morte de alguém deve ser tão cara quanto tua própria morte”. Não esqueça minhas palavras. Quando descer a Sheol, elas serão de grande valia.

— Não, de modo algum, não quero ouvir mais mentiras. E Jechidah tapou os ouvidos.

3

Anos correram. Todos no reino mais alto haviam esquecido Jechidah, exceto sua mãe, que ainda continuava a acender velas votivas pela filha. Na Terra, Jechidah tinha nova mãe, bem como pai, vários irmãos e irmãs, todos mortos. Depois de freqüentar o colégio, começou a freqüentar cursos na universidade. Morava numa grande metrópole onde os cadáveres são preparados para todos os tipos de funções mortuárias.

Era primavera e a corrupção na Terra crescia, leprosa, com florações. Dos túmulos com suas árvores comemorativas e águas purificantes erguia-se um terrível fedor. Milhões de criaturas, forçadas a descer aos domínios da morte, tornavam-se borboletas, moscas, vermes, sapos, rãs. Zumbiam, coaxavam, grasnavam, batiam as asas, já envolvidos na luta pela morte. Mas estando Jechidah totalmente afeita aos hábitos da Terra, tudo isso parecia-lhe parte da vida. Sentada no banco de um parque, fitava a Lua, a qual, da escuridão do mundo dos mortos, é às vezes reconhecida como uma vela votiva acesa num crânio. A exemplo de todos os cadáveres femininos, Jechidah ansiava pela morte perpétua, para que seu ventre se tornasse um túmulo de recém-mortos. Mas não podia fazer isso sem ajuda de um macho com quem teria de copular no ódio a que os cadáveres chamam amor.

Enquanto Jechidah, sentada, olhava as órbitas do crânio acima, um cadáver envolto em branca mortalha chegou e sentou-se ao seu lado. Por um instante os dois cadáveres fitaram-se, pensando que viam, embora todos os cadáveres sejam, em verdade, cegos. Afinal, o cadáver masculino falou:

— Perdão, senhorita. Pode dizer-me que horas são? Ainda que, no fundo de si mesmos, todos os cadáveres anseiem pelo término de seu castigo, estão sempre preocupados com o passar do tempo.

— Horas? — respondeu Jechidah. — Espere um pouco. Amarrado a seu pulso havia um instrumento para medir o tempo, mas as divisões eram tão pequeninas e os símbolos tão minúsculos que ela não podia ler com facilidade o mostrador. O cadáver masculino aproximou-se mais.

— Posso olhar? Tenho boa vista.

— Se quiser.

Cadáveres nunca agem com franqueza; mostram-se sempre tímidos e tortuosos. O cadáver masculino pegou a mão de Jechidah e inclinou a cabeça para o instrumento. Não era a primeira vez que um cadáver masculino tocava Jechidah, porém o contato daquele fez seus membros tremerem. Ele olhou com intensidade, mas não pôde decidir-se logo. Depois, disse:

— São dez e dez.

— Tão tarde assim?

— Deixe que eu me apresente. Meu nome é Jachid.

— Jachid? Eu me chamo Jechidah.

— Que extraordinária coincidência.

Ambos, ouvindo a morte correr em suas veias, ficaram silenciosos por um espaço. Então, Jachid disse:

— Que bonita está a noite!

— Sim, muito bonita.

— Há alguma coisa na primavera que não se pode exprimir em palavras.

— Palavras nada podem exprimir — respondeu Jechidah.

Quando ela fez essa observação, ambos sabiam estarem destinados a mentir juntos e a preparar um túmulo para um novo cadáver. O fato é que, a despeito de os mortos estarem mortos, sempre permanece vida neles, um traço de contato com aquele conhecimento que preenche o universo. A morte apenas mascara a verdade. Os sábios falam dela como uma bolha de sabão que se rompe ao toque de uma palha. Os mortos, envergonhados da morte, tentam esconder sua condição mediante astúcias. Quanto mais moribundo um cadáver, mais volúvel ele é.

— Posso saber onde você mora? — perguntou Jachid.

“Onde foi que eu o vi antes? Por que sua voz parece-me tão familiar?”, pensava Jechidah. “E como veio a calhar que ele se chame Jachid? Um nome tão raro...”

— Não longe daqui — ela respondeu.

— Permite que eu a leve para casa?

— Obrigada. Não é preciso. Mas já que se ofereceu... Ainda é cedo para dormir.

Quando Jachid se ergueu, Jechidah imitou-o. “Será a pessoa que ando buscando?”, Jechidah perguntava a si mesma. “O homem que me foi destinado? Mas que quer dizer destino? Segundo meu professor, só existem átomos e movimento.” Uma carruagem aproximou-se e Jechidah ouviu Jachid dizer:

— Quer dar um passeio?

— Onde?

— Ora, apenas em volta do parque.

Em vez de censurá-lo, como pretendia, Jechidah disse:

— Ótimo. Mas não acho que você deva gastar dinheiro.

— Para que dinheiro? Só vivemos uma vez.

A carruagem parou e eles entraram. Jechidah sabia muito bem que uma moça que se dá ao respeito não passeia com um rapaz estranho. Que pensaria Jachid? Pensaria, por acaso, que ela aceitava convites dessa ordem? Queria explicar-lhe que era tímida por natureza, mas sabia não poder apagar mais a impressão que já lhe causara. Sentada, silenciosa, assustava-se com sua própria conduta. Sentia-se mais próxima do estranho do que já estivera de alguém. Quase podia ler-lhe o pensamento. Desejou que a noite se prolongasse para sempre. “Será isso amor? Alguém se apaixona com tanta rapidez? Estou feliz?”, ela perguntava a si mesma. Mas nenhuma resposta vinha de seu íntimo. Pois os mortos são sempre melancólicos, mesmo em meio à euforia. Depois de um intervalo, Jechidah disse:

— Tenho impressão de já ter passado por isso.

— Déjà vu... É como a psicologia denomina o fenômeno.

— Talvez contenha alguma verdade...

— Que quer dizer?

— Talvez nos tenhamos conhecido em outro mundo. Jachid rompeu a rir.

— Em que mundo? Existe apenas um, o nosso, a Terra.

— Talvez existam almas.

— Impossível. O que se chama de alma não passa de vibrações da matéria, produto do sistema nervoso. Falo com convicção, sou estudante de medicina.

De súbito, ele passou o braço pela cintura dela. E embora Jechidah ainda não houvesse permitido tais liberdades a homem nenhum, não o censurou. Sentada, perplexa com sua aquiescência, temeu os arrependimentos do dia seguinte. “Não tenho caráter”, reprovava-se. “Mas ele está certo numa coisa: se não existe alma e a vida não passa de breve episódio numa eternidade de morte, então por que não gozar a vida sem restrições? Se não existe alma, não existe Deus, o livre-arbítrio não tem significado. Moralidade, como diz meu professor, é apenas parte da superestrutura ideológica.”

Jechidah fechou os olhos e inclinou-se contra o espaldar. O cavalo trotava devagar. Na escuridão todos os cadáveres, homens e bestas, lamentavam sua morte — uivando, rindo, zumbindo, trinando, suspirando. Alguns cadáveres cambaleavam, tendo bebido para esquecer, por um instante, as torturas do inferno. Jechidah mergulhava em si mesma. Cochilou, depois despertou com um sobressalto. Quando os mortos dormem, vinculam-se, uma vez mais, à fonte da vida. A ilusão de tempo e espaço, causa e efeito, número e relação, cessa. Em seu sonho, Jechidah subira outra vez ao mundo de sua origem. Ali, viu sua mãe verdadeira, seus amigos, seus professores. Jachid estava lá também. Os dois saudaram-se, abraçaram-se, riram e choraram de júbilo. Naquele momento, ambos reconheceram a verdade, que a morte na Terra é temporária e ilusória, um julgamento e um meio de purificação. Viajaram juntos passando por mansões celestiais, jardins, oásis para almas convalescentes, florestas para bestas divinas, ilhas para pássaros celestiais. “Não, nosso encontro não foi um acidente”, murmurou Jechidah para si mesma. “Existe um Deus. Existe um propósito na criação. Cópula, livre-arbítrio, destino — tudo faz parte de Seu plano.” Jachid e Jechidah passaram por uma prisão e espiaram pela janela. Viram uma alma condenada a descer à Terra. Jechidah sabia que esta alma se tornaria sua filha. Pouco antes de despertar, ouviu uma voz:

— O túmulo e o coveiro encontraram-se. O enterro será realizado esta noite.



Notas:

[1] Literalmente: “A Única”. (N. do T.)

[2] Literalmente: “O Único”. (N. do T.)



(Breve Sexta-Feira; tradução de Hélio Pólvora)



(Ilustração: Arte medieval judaica - Mosheh ban Maimon ou Moses Maimonides)


quarta-feira, 10 de maio de 2023

ALMA CORSÁRIA, de Claudia Roquette-Pinto

 





De tanto sono me baixa uma lucidez estranha

em que a amendoeira pousa, luminosa, rara,

sob o fundo escuro da noite meio baça

(cilíndrica, roliça, bizarra)

seu vulto verde acocorado sobre a água

da piscina que não tem um pensamento.



Eu sinto inveja dessas águas anuladas

tão plácidas, idênticas ao próprio contorno

enquanto eu mesma nem sei onde começo,

quando acabo

e sofro o assédio de tudo o que me toca.



O mundo ora me engole, ora me vara

e tudo o que aproxima me desterra.

Chorei, ao ver no chão da cela,

o botão arrancado na contenda,

os óculos pisados do escritor judeu.



Tenho um coração que estala

com o peteleco das palavras de Clarice.

Numa vila miserável na Bahia,

um negro lindo, lindo,

dança ao som do corisco

- e só me apaixono por casos perdidos,

homens com um quê de irremediável.



Mais de uma vez, imóvel, circunspecta,

vi abrir-se a máquina do mundo

sob a luz inclinada de Ipanema,

na Serra da Bocaina, no meio da floresta,

no alto da escada no topo do morro

por onde a moça sequestrada vinha subindo

debaixo das lágrimas do pai.



Mais de uma vez meu coração trincou feito vidro

diante da página impressa,

e sempre que a palavra justa vem tirar seu mel

de dentro da copa do desespero de amor.

Acredito, do fundo das minhas células,

que uma amizade sincera “é o único modo de sair da solidão

que um espírito tem no corpo”.

Sim, eu acredito no corpo.



Por tudo isso é que eu me perco

em coisas que, nos outros,

são migalhas.

Por isso navego, sóbria, de olho seco,

as madrugadas.

Por isso ando pisando em brasas

até sobre as folhas de relva,

na trilha mais incerta e mais sozinha.



Mas se me perguntarem o que é um poeta

(Eu daria tudo o que era meu por nada),

eu digo.

O poeta é uma deformidade.




(Ilustração: Juan Medina)

domingo, 7 de maio de 2023

DOIS RETRATOS DE JOHN BREWSTER, de Teju Cole




Entrei no parque na rua 72 e comecei a caminhar para o sul, em Sheep Meadow. O vento ficou mais forte e a água se derramou sobre o solo encharcado em agulhas finas e incessantes, encobrindo as tílias, os olmos e as macieiras silvestres. A força da chuva toldava minha visão, um fenômeno que eu já havia notado apenas em tempestades de neve, quando a nevasca apagava os mais óbvios sinais da época, deixando a pessoa impossibilitada de identificar em que século estava. A torrente havia revestido o parque com um sentimento ancestral, como se estivesse chegando um dilúvio de fim de mundo e, naquela hora, Manhattan pareceu exatamente como devia ter sido na década de 1920 ou até num passado ainda mais remoto, se a pessoa estivesse bem afastada dos edifícios mais altos.

A aglomeração de táxis na esquina da Quinta Avenida com a Central Park South desfez aquela ilusão. Depois que caminhei mais quinze minutos, já completamente ensopado, parei embaixo do beiral de um prédio na rua 53. Quando me virei para trás, vi que estava na entrada do Museu de Arte Folclórica Americana. Como nunca tinha visitado o museu, entrei.

As peças artesanais em exposição, a maioria dos séculos XVIII e XIX — cataventos, objetos de decoração, colchas, pinturas —, evocavam a vida agrária do novo país americano, bem como as tradições semiesquecidas dos antigos países europeus. Era a arte de um país que tinha uma aristocracia, mas não contava com o patrocínio das cortes: uma arte simples, franca e tosca. No patamar do primeiro lance da escada, vi um retrato pintado a óleo de uma garota com um vestido vermelho engomado, segurando um gato branco. Um cachorro espiava, enfiado por baixo da cadeira da garota. Os detalhes eram piegas, mas não conseguiam obscurecer a força e a beleza da pintura.

Os artistas expostos no museu, em quase todos os casos, trabalhavam fora da tradição da elite. Careciam de treinamento formal, mas sua obra tinha alma. Assim que cheguei ao terceiro andar do museu, a sensação de ter penetrado no passado foi completa. A galeria tinha uma fileira de colunas brancas e esguias que a cortavam ao meio e os pisos eram de cerejeira polida. Aqueles dois elementos remetiam à arquitetura colonial da Nova Inglaterra e das chamadas Colônias do Meio, estabelecidas por holandeses e suecos.

Aquele andar, bem como o que ficava abaixo, apresentava uma exposição especial das pinturas de John Brewster. Filho de um médico da Nova Inglaterra de mesmo nome, Brewster tinha recursos modestos, mas a escala da exposição deixava claro que se tratava de um artista muito requisitado. A galeria era silenciosa e tranquila e, exceto pelo guarda parado no canto, eu era a única pessoa presente. Isso realçava a sensação de tranquilidade que quase todos os retratos me transmitiam. A imobilidade das pessoas retratadas sem dúvida tinha participação naquele efeito, bem como a sóbria paleta de cores de todos os quadros, no entanto havia mais alguma coisa, algo mais difícil de definir: um ar de hermetismo. Cada um dos retratos era um mundo lacrado, visível pelo lado de fora, mas impossível de penetrar. Isso era mais verdadeiro ainda nos muitos retratos de crianças feitos por Brewster, todas serenas em seus corpos infantis, e muitas vezes com elementos extravagantes na indumentária, mas com rostos sérios, sem exceção, mais sérios até do que o rosto dos adultos, uma austeridade em franco desacordo com seus poucos anos de vida. Todas as crianças estavam numa pose de boneco e ganhavam vida por força de um olhar incisivo. O efeito era perturbador. O segredo, descobri, era que John Brewster sofria de uma grave surdez, e o mesmo acontecia com muitas crianças por ele retratadas. Algumas eram alunas do Asilo para a Educação e a Instrução de Surdos e Mudos de Connecticut, fundado em 1817, a primeira escola para surdos no país. Brewster ficou matriculado lá como aluno por três anos, já adulto, e foi enquanto esteve na escola que se desenvolveu aquilo que mais tarde seria conhecido como a Linguagem Americana de Sinais.

Enquanto contemplava o silencioso mundo à minha frente, pensava nas muitas ideias românticas associadas à cegueira. Ideias de uma sensibilidade e de um gênio incomuns eram evocadas por nomes como Milton, Blind Lemon Jefferson, Borges, Ray Charles; supõe-se que perder a visão física signifique adquirir uma segunda visão. Uma porta se fecha e outra maior se abre. A cegueira de Homero, acreditam muitos, é uma espécie de canal espiritual, um atalho rumo aos dons da memória e da profecia. Quando eu era criança em Lagos, havia um bardo cego errante, homem que era encarado com enorme espanto em razão de seus dotes espirituais. Quando cantava suas canções, ele deixava em todos a sensação de que, ao ouvi-lo, tocavam no divino, ou eram por ele tocados. Certa vez, numa feira apinhada de gente em Ojuelegba, no início da década de 1980, eu o vi. Foi a uma boa distância, mas recordo (ou imagino que recordo) seus olhos grandes e amarelos, calcificados nas pupilas com uma coloração cinzenta, seu aspecto assustador e o manto grande e sujo com que se cobria. Cantava numa voz plangente e de tom agudo, num iorubá proverbial e ressonante, que para mim era impossível acompanhar. Mais tarde, imaginei que tinha visto em torno dele algo semelhante a uma aura, um distanciamento espiritual que levava todos os seus ouvintes a enfiar a mão na bolsa e depositar alguma coisa na tigela que um menino, seu assistente, levava.

Essa é a narrativa acerca da cegueira. O mesmo não ocorre com a surdez, que, como no caso de meus tios-avós, era vista muitas vezes como mera infelicidade. Ocorreu-me então que muitas pessoas surdas eram tratadas como se tivessem retardo mental; mesmo a expressão “surdo-mudo”, longe de ser uma simples definição de condição fisiológica, comportava um sentido pejorativo.

Parado na frente dos retratos de Brewster, com a mente serena, vi as pinturas como registros de uma transação silenciosa entre o artista e seu tema. Um pincel carregado, ao depositar tinta sobre a tela ou o tecido, não pode registrar um som, e como é grande a paz palpável nos grandes artistas da imobilidade: Vermeer, Chardin, Hammershøi. O silêncio era ainda mais profundo, pensei, enquanto me achava naquela galeria e o mundo privado do artista existia completo em sua quietude. À diferença daqueles pintores, Brewster não tinha recorrido a olhares indiretos ou chiaroscuro para transmitir o silêncio de seu mundo. Os rostos eram bem iluminados e frontais, e no entanto eram silenciosos.

(John Brewster - Francis O. Watts with Bird - 1805)


Parei diante da janela no terceiro andar e olhei para fora. O ar tinha mudado do cinza para o azul-escuro e a tarde já tinha virado fim de tarde. Uma imagem me atraiu de volta para o lado de dentro, a pintura de uma criança com um passarinho preso num cordão azul. A paleta, como era comum em Brewster, era dominada por cores em surdina: as duas exceções eram o azul vivo do cordão, que cortava a face da pintura como um raio de eletricidade, e os sapatos pretos da criança, que eram mais pretos e mais carregados do que quase qualquer outra coisa naquela galeria. O passarinho representava a alma da criança, como também acontecia no retrato feito por Goya do malfadado Manuel Osorio Manrique de Zúñiga, de três anos de idade. A criança na pintura de Brewster mirava atenta, com uma expressão serena e etérea, do ano de 1805. Ao contrário de muitas outras crianças pintadas por Brewster, o menino tinha sua audição perfeita. Seria aquele retrato um amuleto contra a morte? Uma em cada três pessoas, naquela época, morria antes dos vinte anos de idade. Seria aquilo a expressão de um desejo mágico de que a criança resistisse e se agarrasse à vida, assim como se agarrava ao cordão? Francis O. Watts, o modelo da pintura, de fato sobreviveu. Entrou na Universidade Harvard aos quinze anos e se tornou advogado, casou com Caroline Goddard, que era de Kennebunkport, a cidade natal dele, no Maine, e depois se tornou presidente da Associação Cristã de Moços. Morreu em 1860, cinquenta e cinco anos depois que o retrato foi feito. Mas, no momento da pintura, e para sempre a partir daí, ele é um garotinho que segura um passarinho num cordão azul, vestido numa blusa branca, com esmerados babados e rendas.

Brewster, nascido mais ou menos dez anos antes da Declaração de Independência, ganhava a vida como pintor itinerante e viajava a trabalho do Maine até sua nativa Connecticut e a região leste de Nova York. Morreu com quase noventa anos. O ambiente da elite federalista em que se formou lhe dera acesso a mecenas ricos e compenetrados (seus próprios ancestrais estiveram no navio Mayflower em 1620), mas sua surdez fazia dele um excluído e suas imagens eram impregnadas com aquilo que o demorado silêncio lhe havia ensinado: concentração, a suspensão do tempo, uma discreta sagacidade. Numa pintura intitulada Sem um sapato, que me deixou paralisado no momento em que parei diante dela, o laço caprichado no sapato do pé direito de uma menina repetia os asteriscos desenhados no piso. O outro sapato estava na mão dela e pentimentos vermelhos eram visíveis ao redor do calcanhar e dos dedos do pé esquerdo, agora descalço. A menina, tão segura dentro de seu próprio ser quanto todas as crianças de Brewster, tinha uma expressão que desafiava o espectador a achar graça.

Perdi toda a noção do tempo diante daquelas imagens, mergulhei fundo no seu mundo, como se todo o tempo entre elas e eu tivesse de certo modo desaparecido, e assim, quando o guarda se aproximou para me dizer que o museu ia fechar, esqueci como falar e me limitei a olhar para ele. Quando afinal desci a escada e saí do museu, foi com o sentimento de alguém que havia voltado à Terra, vindo de muito longe.



(Cidade aberta; tradução de Rubens Figueiredo)



(Ilustração: John Brewster (1766-1854) - one shoe off)


quinta-feira, 4 de maio de 2023

HAVERÁ BALAS, de Nívea Sabino

 



 

Depois de amanhã é dia de Cosme Damião.

 

Ouvi ontem na tevê - uma mãe dizer

que agora são muitas balas,  

        

                                        balas,

  

 balas,

 

                    balas,

  

                                                    balas

 

 

 

agora são muitas balas,  

 

                                        balas,      

 

                 balas

 

compraram muitas                                        

                                balas,

                     muitas balas...             muitas      

 

balas de fuzil.

 

 

 

[avisem aos seus

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diga ao povo brasileiro que agora são muitas balas, compraram muitas balas].

 

 

Depois de amanhã é dia de Cosme e Damião.

 

Haverá balas - perdidas ou não.

Haverá balas,

 

 

       balas,    

                    

                              

                               balas,

 

 

haverá     balas - perdidas ou não

 

balas,

balas,

 

                 balas.

compraram muitas      

 

 

                                             balas,

 

      

        balas de fuzil.

 

 

 

Depois de amanhã é dia de Cosme e Damião.

 

Há dias 7 dias de quando Ágatha existia.

 

[eu, NÍVEA THAÍS SABINO, existo

com palavra grito

com palavra crio]

 

Há dias 7 dias de quando Ágatha existia.

 

[eu, NÍVEA THAÍS SABINO, existo

com palavra grito

com palavra crio]

 

Há dias 7 dias de quando Ágatha existia.

Depois de amanhã é dia de Cosme e Damião.

 


(Ilustração:foto de Henrik Glette)