quarta-feira, 29 de setembro de 2010

SÓ DESTA VEZ, OU: EU QUE JÁ MOREI EM JUNDIAÍ, de Eliana Iglesias






O James Dean
sabe, ele?
se apaixonou
...por mim
nem liguei
eu tava em outra
papo de liberdade
luta armada
revolução
no campo
e na cidade
que roubada!
o Elvis Presley
alí, aos meus pés
e eu?
pelo viés
na contramão
eu era assim
cheia de ilusão
livro vermelho de mao
ouvindo a rádio de pequim
eu era assim

cartinhas do
John Kennedy
cheias de paixão
ele que era tão amerrricano
e eu nem tchum
se eu era daqui?
convento dos dominicanos
rua Caiubi
secreta reunião
“ o que é isso, companheiro! ”
um fusca
ronda o quarteirão
milícia armada invade
a sala
e toma bala!
ah!
bombas de gás
também
eles diziam
pra se manter a paz
não era demais?
e o John Kennedy
querendo a mim?
quando podia ter
a Marilyn!
e eu que nem era
comunista
nem nada
era anarquista?
deslumbrada?
eu era boba
usei calça cigarrete
coque banana
experimentei minister
e marijuana
dancei tanto rock
ganhei campeonato
nunca fui a Miami
mas usei rayban
banlon, tergal
eu que tive
a Marilyn por rival
gostava de cada coisa!
supremo de filé de frango
no Ferro´s bar
pousar de intelectual
cinema novo
bossa nova
e velhos ideais
isso pode?
de tão velhos
os ideais?
morreram
um a um
num lugar fétido
chamado de doi-codi
os amigos se foram
a padaria fechou
e como diria john lennon
então.... o sonho acabou?


o sonho não acaba nunca
agora
o Brad Pitt
me deseja
e eu nem aí
alguém como eu
que já morou em Jundiaí
não tem que competir
com mais ninguém
pensaram que a rima
fosse com Jolie? é?

não, que minha geração
não rima com mais nada
os que restaram
ficaram por aí,
na estrada
e eu... eu
nunca mais os vi
justo eu ...
que já morei em Jundiaí

ninguém me pergunta mais
da alegria, ou tortura
se ainda me lembro
do riso, da angústia
do medo, do abraço
o que faço?
sou desinteressante
não para mim, é claro!
o passado
faço questão
é algo muito raro
... para mim, é claro!
então,
dou um laço
amarrando o presente
com nó apertado
e deixo esse tal de... presente
de lado (de uma vez por todas)


o que há aqui
é só gente
isso é passado?
ou é presente?
gente que não conheço?
gente que logo me esquece?
e que logo esqueço?
é... (nem se discute)
é presente!

cadê o endereço?
merda de festa insossa
bovinamente mastigamos crepe
George Clooney? Matt Demon?
Al Pacino?
o quê fazer?
se eu tou em outra?
meu deus?
em que outra eu tou?
que outra eu sou?
ah!
sei lá,

merda de festa
insossa...
bovinamente,
mastigamos crepe
capitulei
desta vez,
e só desta vez
posso considerar
quem sabe
uma declaração de amor
...do Johnny Deep? ....



(Ilustração: Jack Vettriano – the red room)




segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A DECREPITUDE DA ETERNIDADE, de Glauco Mattoso







No quarto andar dum pardieiro da rua São Bento, encontraram Adolf Hitler, vivo e maltrapilho, trabalhando para um comerciante de blue jeans americanos importados do Paraguay.


Não se sabe como nem por quem foi reconhecido. A verdade é que o ex-fuehrer não teve outro remédio senão bater em retirada. Foi dando nos calcanhares e, antes que atingisse o térreo, já o acossavam escadas abaixo.



O velho nazista, porém, ganhou a rua e embrenhou-se na multidão com tamanha agilidade que ninguém diria tratar-se de um octogenário, muito menos de um depauperado psicopata egresso dum conflito mundial.



Teria virtualmente sumido, não fora a providencial aparição dos agentes de Simon Rosenthal.



De repente, cada office-boy, cada informante, cada balconista, cada jornaleiro, cada bilheteiro, cada manequim era um judeu escapo do nazismo.



Vendo que não alcançaria o Anhangabaú para jogar-se debaixo de um ônibus, Hitler, a ponto de ser agarrado pelos transeuntes semitas, driblou um rabino e, em súbito desvio para a esquerda, entrou no Martinelli pelo corredor dos elevadores.



A multidão aglomerou-se na porta do edifício, enquanto dois policiais penetraram no túnel atrás do fugitivo.



Voltaram de mãos abanando.



Hitler conseguira tomar um dos oito elevadores em funcionamento e já estaria a dezenas de andares acima.



Um clamor tonitroante levantou do povo. Queriam invadir o prédio e vasculhar tudo, mas os policiais recebiam grossos reforços e afastavam a população a golpes de cassetete e rajadas para o ar.



Em poucos minutos, o paleontológico edifício estava militarmente sitiado.



Tropas de choque ocuparam a saída dos cinqüenta poços de elevador, inclusive aqueles que já não tinham fundo, instalando ninhos de metralhadora em todos eles.



Do lado de fora, armaram mini-bases de mísseis teleguiados e, sobre os beirados do fronteiro Banco do Brasil, carabinas nucleares munidas de mira telescópica.



Todo o espigão da avenida São João foi interditado e ocupado por tanques e carros blindados que congestionavam o tráfego do Anhangabaú a ponto de tornar inexeqüível qualquer tentativa de suicídio por atropelamento.



Aquele aparato bélico contrariava os planos dos agentes de Simon Rosenthal.



Obrigados a se afastarem do edifício, tiveram de ficar misturados à multidão que se comprimia na retaguarda das barricadas, improvisadas com material das obras do metrô.



Era indescritível o pesar dos seus rostos enrugados e dos seus olhos monomaníacos.



Depois de seguir a pista do ex-fuehrer por cinco quartos do mundo, perdê-lo para outros caçadores que nem sequer imaginavam como silenciá-lo para sempre...



Na impossibilidade de qualquer atitude reparadora, assistiram estupefatos às manobras militares tendentes a isolar aquela granítica e outrora babilônica muralha de 110 andares de janelas mais 6 de águas-furtadas, há muito desabitada e sombria.



Mais sombria e tenebrosa depois que Hitler se infiltrara em seu bojo.



E os fracassados sequazes de Simon Rosenthal permaneceram estáticos em meio ao povo, mesmo quando este vibrava ao serem disparados os primeiros projéteis de gás lacrimogêneo para dentro das janelas do Martinelli. Só alteraram a postura no momento em que a ordem de fogo foi repentinamente sustada e milhares de olhares convergiram para o corpúsculo que se movia numa das mais superiores sacadas, empunhando misterioso megafone.



Binóculos e miras foram assestados na direção do vulto.



Antes que partisse nova ordem, um discurso estrepitoso e apoplético começou a jorrar como cascata sobre a massa popular.



Os militares, hipnotizados, não esboçaram o mínimo gesto para tentar impedir que aquela voz desmesuradamente esganiçada caísse do alto de tão esdrúxulo púlpito.



O resultado não se fez esperar.



Sob o aspérrimo discurso, as vozes do povo se elevaram uníssonas, urrando um coro de "heils" a cada exortação do carisma.



Àquela altura, mais de um milhão de pessoas tinham afluído em torno do Martinelli, enquanto uma chusma de militantes da TFP saía da catedral da Sé desfraldando estandartes que ostentavam cruzes rampantes e leões suásticos.



Os sectários de Simon Rosenthal testemunharam desolados aquelas cenas projetadas do pesadelo dum ex-combatente neurótico. Depois, como se nada mais houvesse a fazer, tergiversaram cabisbaixos e, varando a custo a multidão magnetizada, voltaram à praça do Patriarca.



Do hotel, enviaram por microtransmissor, via satélite, a senha para a deflagração da Terceira Guerra Mundial.



Antes, porém, renovaram comovidos o juramento de não falhar na próxima caçada.






(Revista "Escrita", 1976)



(Ilustração: Odilon Redon – the egg)





sábado, 25 de setembro de 2010

MONÓLOGO, de Cecília Meireles







Para onde vão minhas palavras,
se já não me escutas?
Para onde iriam, quando me escutavas?
E quando me escutaste? - Nunca.

Perdido, perdido. Ai, tudo foi perdido!
Eu e tu perdemos tudo.
Suplicávamos o infinito.
Só nos deram o mundo.

De um lado das águas, de um lado da morte,
tua sede brilhou nas águas escuras.
E hoje, que barca te socorre?
Que deus te abraça? Com que deus lutas?

Eu, nas sombras. Eu, pelas sombras,
com as minhas perguntas.
Para quê? Para quê? Rodas tontas,
em campos de areias longas
e de nuvens muitas.



(Ilustração: Aaron Coberly)


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

AS CRIANÇAS QUE MATAM, de João do Rio







É assombrosa a proporção do crime nesta cidade, e principalmente do crime praticado por crianças! Estamos a precisar de uma liga para a proteção das crianças, como a imaginava o velho Júlio Vallés...



- Que houve de mais? - indagou Sertório de Azambuja, estirando-se no largo divã forrado de brocado cor de ouro velho.



- Vê o jornal. Na Saúde, um bandido de treze anos acaba de assassinar um garotinho de nove. É horrível!



O meu amigo teve um gesto displicente.



- Crime sem interesse... A menos que não se dê um caso de genialidade, um homem só pode cometer um belo crime, um assassinato digno, depois dos dezesseis anos. Uma criança está sempre sujeita aos desatinos da idade. Ora, o assassinato só se torna admirável quando o assassino fica impune e realiza integralmente a sua obra. Desde Caim nós temos na pele o gosto apavorador do assassinato. Não estejas a olhar para mim assim assustado. As mais frágeis criaturas procuram nos jornais a notícia das cenas de sangue. Não há homem que, durante um segundo ao menos, não pense em matar sem ser preso. E o assassínio é de tal forma a inutilidade necessária ao prazer imaginativo da humanidade, que ninguém se abala para ver um homem morto de morte natural, mas toda gente corre ao necrotério ou ao local do crime para admirar a cabeça degolada ou a prova inicial do crime. Dado o grau de civilização atual, civilização que tem em germe todas as decadências, o crime tende a aumentar, como aumentam os orçamentos das grandes potências, e com uma percentagem cada vez maior de impunidade. Lembra-te das reflexões de Thomas de Quincey na sua pedagogia do crime. É dele esta frase profunda: "O público que lê jornais contenta-se com qualquer coisa sangrenta; os espíritos superiores exigem alguma coisa mais..."



Humilhadamente, dobrei o jornal:



- Então só os espíritos superiores?...



- Podem realizar um crime brilhante. Esse caso da Saúde não tem importância alguma. É antes um exemplo comum da influência do bairro, desse bairro rubro, cuja história sombria passa através dos anos encharcada de sangue. Nunca foste ao bairro rubro? Queres lá ir agora? São oito horas. Vamos? Vem daí...



Descemos. Estava uma noite ameaçadora. No céu escuro, carregado de nuvens, relâmpagos acendiam clarões fugazes. A atmosfera abafava. Uma agonia vaga pairava na luz dos combustores.



Sertório de Azambuja ia de chapéu mole, com um lenço de seda à guisa de gravata. Ao chegar ao Largo do Machado, chamou um carro, mandou tocar para o começo da Rua da Imperatriz.



- Que te parece o nosso passeio? Estamos como Dorian Gray, partindo para o vício inconfessável. Lord Henry dizia: "Curar os sentidos por meio da alma e a alma por meio dos sentidos". Vamos entrar no outro mundo...



Eu atirara-me para o fundo da vitória de praça e via vagamente a iluminação das casas, os grandes panos de sombra das ruas pouco iluminadas, a multidão, na escuridão às vezes, às vezes queimada na fulguração de uma luz intensa, os risos, os gritos, o barulho de uma cidade que se atravessa. Na Rua Marechal Floriano, Sertório pagou ao cocheiro, dizendo:



- Saltaremos em movimento.



E para mim:



- Não vale dar na vista...



Um instante depois saltou. Acompanhei-o. O carro continuou a rodar. O bairro rubro não é um distrito, uma freguesia: é uma reunião de ruas pertencentes a diversos distritos, mas que misteriosamente, para além das forças humanas, conseguiu criar a rede tenebrosa, o encadeamento lúgubre da miséria e do crime, insaciáveis. A Rua da Imperatriz é um dos corredores de entrada.

O bairro onde o assassinato é natural abraça a Rua da Saúde, com todos os becos, vielas e pequenos cais que dela partem, a Rua da Harmonia, a do Propósito, a do Conselheiro Zacarias, que são paralelas à da Gamboa, a do Santo Cristo, a do Livramento e a atual Rua do Acre. Naturalmente as ruas que as limitam ou que nelas terminam - São Jorge, Conceição, Costa, Senador Pompeu, América, Vidal de Negreiros e a Praia do Saco - participam do estado de alma dominante.


Toda essa parte da cidade, uma das mais antigas, ainda cheia de recordações coloniais, tem, a cada passo, um traço de história lúgubre. A Rua da Gamboa é escura, cheia de pó, com um cemitério entre a casaria; a da Harmonia já se chamou do Cemitério, por ter aí existido a necrópole dos escravos vindos da costa da África; a da Saúde, cheia de trapiches, irradiando ruelas e becos, trepando morro acima os seus tentáculos, é o caminho do desespero; a da Prainha, mesmo hoje aberta, com prédios novos, causa, à noite, uma impressão de susto.




Como dizia o meu guia, estávamos num novo mundo...



A Rua da Imperatriz, às oito e meia, com uma porção de casas comerciais velhas e tão juntas, tão trepadas na calçada, que parecem despejadas na rua, estava em plena febre. Os botequins reles, as barbearias sujas, as tascas imundas gargulejavam gente, e essa gente era curiosa - trabalhadores em mangas de camisa, carroceiros, carregadores, fumando mata-ratos infectos, cuspinhando cachaça em altos berros, num calão de imprevisto, e rapazes mulatos, brancos, de grandes calças a balão, chapéu ao alto, a se arrastarem bamboleando o passo, ou em tabernas barulhentas. A nossa passagem era acompanhada com um olhar de ironia, e bastava parar dois segundos defronte de uma taberna, para que dentro todos os olhos se cravassem em nós.

Eu sentia acentuar-se um mal-estar bizarro. Sertório ria.



- A vulgaridade da populaça! Há por aqui, entre esses marçanos fortes, gente boa. Há também ruim. Estão fatalmente destinados ou a apanhar ou a dar, desde crianças. É a vida. Alguns são perversos: provocam, matam. Vais ver. Nasceram aqui, de pais trabalhadores...



Tínhamos chegado à Rua Camerino, esquina da da Saúde. Há aí uma venda com um pequeno terraço de entrada. O prédio desfaz-se, mas dentro redemoinha uma turba estranha: negralhões às guinadas, inteiramente bêbedos, adolescentes ricos de músculos, embarcadiços, foguistas.




Fala-se uma língua babélica, com termos da África, expressões portuguesas, frases inglesas. Uns cantam, outros rouquejam insultos. Sertório aproxima-se de um grupo. Há um mulato de tamancos, que parece um arenque ensalmonado, no meio da roda. O mulato cuspinha:



- Go on, go on... yeah. farewell! yeah!



É brasileiro. Está aprendendo todas essas línguas estrangeiras com os práticos ingleses.




Há um venerável ancião, da Colônia do Cabo, tão alcoolizado que não consegue senão fazer um gesto de enjôo; há um copta, apanhado por um navio de carga no Mar Vermelho; há dois negrinhos retintos, com os dentes de uma alvura estranha, que bradam:



- Eh oui, petit monsieur, nous sommes du Congo. Étudiés avec pères blancs...



Todos incondicionalmente abominam o Rio: querem partir.



Sertório paga maduros; eles fazem roda. O mulato brasileiro está delicado.



- Hip! Hip! Cambada! Para mostrar a vocês que cá na terra há gente para embrulhar língua direito! Aguente, negrada!



- Sai burrique! - grunhe o ancião.



Dando guinadas com os copos a escorrer o líquido sujo do maduro, essa tropa parecia toda vacilar com a casa, com as luzes, com os caixeiros. Saí antes, meio tonto. Sertório livrava-se da matilha distribuindo níqueis.

Quando conseguiu não ser acompanhado, meteu-se pelo beco. Segui-o e, de repente, nós demos nos trechos silenciosos e lúgubres. Nas ruas, a escuridão era quase completa. Um transeunte ao longe anunciava-se pelo ruído dos passos.


De vez em quando uma rótula aberta e dentro uma sombra. Que lugares eram aqueles? O outro mundo! A outra cidade! A atmosfera era aquecida pelo cheiro penetrante e pesado dos grandes trapiches. Em alguns trechos, a treva era total. Na passagem da estrada de ferro, a luz elétrica, muito fraca, espalhava-se como um sudário de angústias.



Foi então que começamos a encontrar em cada esquina, ou sentados nas soleiras das portas, ou em plena calçada, uns rapazes, alguns crescidos, outros pequenos. À nossa passagem calavam-se, riam. Mas nós íamos seguindo, cada vez mais curiosos.



Afinal, demos no Largo da Harmonia, deserto e lamentável. À porta da igreja uma outra roda, maior que as outras, confabulava. Aproximamo-nos.



- Boa noite!



- Boa noite! - respondeu um pretalhão, erguendo-se com os tamancos na mão.



Os outros ficaram hesitantes, desconfiando da amabilidade.



- Que fazem vocês aí?



- Nós? - indagou um rapazola já de buço, gingando o corpo - Contamos histórias: ora aí tem! Interessa-lhe muito?



- Histórias! Mas eu gosto de histórias. Quem as conta?



- Isso é costume cá no bairro. Há rapazes que sabem contar que até dá gosto. Aqui quem estava contando era o José, este caturrita...



Era um pequeno franzino, magro, com uma estranha luz nos olhos.



Talvez matasse amanhã, talvez roubasse! Estava ingenuamente contando histórias...




Sertório insistia, entretanto, para ouvi-lo. Ele não se fez de rogado. Tossiu, pôs as mãos nos joelhos...




- Era uma vez uma princesa, que tinha uma estrela de brilhantes na testa.



A roda caíra de novo num silêncio atento. A escuridão parecia aumentar, e, involuntariamente, eu e o meu amigo sentimos na alma a emoção inenarrável que a bondade do que julgamos mau sempre nos causa...






(Cinematographo – 1909)





(Iustração: Mia Makila – horror art)





segunda-feira, 13 de setembro de 2010

NÃO SÓ QUEM NOS ODEIA OU NOS INVEJA, de Ricardo Reis







Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido
De afetos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses.



(Ilustração:Caspar David Friedrich – viajante diante do mar de nuvens)


sábado, 11 de setembro de 2010

SERMÃO DO BOM LADRÃO (excerto), de Antônio Vieira







O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao Inferno; os que não só vão mas levam, de que eu trato, são outros ladrões de maior calibre e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento distingue S. Basílio Magno: não são só ladrões, diz o Santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes roubar a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam são enforcados, estes furtam e enforcam. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões e começou a bradar - lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos".


(Sermões)


(Ilustração: Bosh - l’escamoteur)





quinta-feira, 9 de setembro de 2010

IMPRESSIONISTA, de Adélia Prado







Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.



(Ilustração: Juan Miró – la masia)


terça-feira, 7 de setembro de 2010

O MASSACRE DE ELDORADO DOS CARAJÁS, de José Saramago





É difícil defender
só com palavras a vida
(ainda mais quando ela é
esta que vê, severina).

João Cabral de Melo Neto



Oxalá não venha nunca à sublime cabeça de Deus a idéia de viajar um dia a estas paragens para certificar-se de que as pessoas que por aqui mal vivem, e pior vão morrendo, estão a cumprir de modo satisfatório o castigo que por ele foi aplicado, no começo do mundo, ao nosso primeiro pai e à nossa primeira mãe, os quais, pela simples e honesta curiosidade de quererem saber a razão por que tinham sido feitos, foram sentenciados, ela, a parir com esforço e dor, ele, a ganhar o pão da família com o suor do seu rosto, tendo como destino final a mesma terra donde, por um capricho divino, haviam sido tirados, pó que foi pó, e pó tornará a ser. Dos dois criminosos, digamo-lo já, quem veio a suportar a carga pior foi ela e as que depois dela vieram, pois tendo de sofrer e suar tanto para parir, conforme havia sido determinado pela sempre misericordiosa vontade de Deus, tiveram também de suar e sofrer trabalhando ao lado dos seus homens, tiveram também de esforçar-se o mesmo ou mais do que eles, que a vida, durante muitos milénios, não estava para a senhora ficar em casa, de perna estendida, qual rainha das abelhas, sem outra obrigação que a de desovar de tempos a tempos, não fosse ficar o mundo deserto e depois não ter Deus em quem mandar.



Se, porém, o dito Deus, não fazendo caso de recomendações e conselhos, persistisse no propósito de vir até aqui, sem dúvida acabaria por reconhecer como, afinal, é tão pouca coisa ser-se um Deus, quando, apesar dos famosos atributos de omnisciência e omnipotência, mil vezes exaltados em todas as línguas e dialectos, foram cometidos, no projecto da criação da humanidade, tantos e tão grosseiros erros de previsão, como foi aquele, a todas as luzes imperdoável, de apetrechar as pessoas com glândulas sudoríparas, para depois lhes recusar o trabalho que as faria funcionar — as glândulas e as pessoas. Ao pé disto, cabe perguntar se não teria merecido mais prémio que castigo a puríssima inocência que levou a nossa primeira mãe e o nosso primeiro pai a provarem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. A verdade, digam o que disserem autoridades, tanto as teológicas como as outras, civis e militares, é que, propriamente falando, não o chegaram a comer, só o morderam, por isso estamos nós como estamos, sabendo tanto do mal, e do bem tão pouco.



Envergonhar-se e arrepender-se dos erros cometidos é o que se espera de qualquer pessoa bem nascida e de sólida formação moral, e Deus, tendo indiscutivelmente nascido de Si mesmo, está claro que nasceu do melhor que havia no seu tempo. Por estas razões, as de origem e as adquiridas, após ter visto e percebido o que aqui se passa, não teve mais remédio que clamar mea culpa, mea maxima culpa, e reconhecer a excessiva dimensão dos enganos em que tinha caído. É certo que, a seu crédito, e para que isto não seja só um contínuo dizer mal do Criador, subsiste o facto irrespondível de que, quando Deus se decidiu a expulsar do paraíso terreal, por desobediência, o nosso primeiro pai e a nossa primeira mãe, eles, apesar da imprudente falta, iriam ter ao seu dispor a terra toda, para nela suarem e trabalharem à vontade. Contudo, e por desgraça, um outro erro nas previsões divinas não demoraria a manifestar-se, e esse muito mais grave do que tudo quanto até aí havia acontecido.



Foi o caso que estando já a terra assaz povoada de filhos, filhos de filhos e filhos de netos da nossa primeira mãe e do nosso primeiro pai, uns quantos desses, esquecidos de que sendo a morte de todos, a vida também o deveria ser, puseram-se a traçar uns riscos no chão, a espetar umas estacas, a levantar uns muros de pedra, depois do que anunciaram que, a partir desse momento, estava proibida (palavra nova) a entrada nos terrenos que assim ficavam delimitados, sob pena de um castigo, que segundo os tempos e os costumes, poderia vir a ser de morte, ou de prisão, ou de multa, ou novamente de morte. Sem que até hoje se tivesse sabido porquê, e não falta quem afirme que disto não poderão ser atiradas as responsabilidades para as costas de Deus, aqueles nossos antigos parentes que por ali andavam, tendo presenciado a espoliação e escutado o inaudito aviso, não só não protestaram contra o abuso com que fora tornado particular o que até então havia sido de todos, como acreditaram que era essa a irrefragável ordem natural das coisas de que se tinha começado a falar por aquelas alturas. Diziam eles que se o cordeiro veio ao mundo para ser comido pelo lobo, conforme se podia concluir da simples verificação dos factos da vida pastoril, então é porque a natureza quer que haja servos e haja senhores, que estes mandem e aqueles obedeçam, e que tudo quanto assim não for será chamado subversão.



Posto diante de todos estes homens reunidos, de todas estas mulheres, de todas estas crianças (sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra, assim lhes fora mandado), cujo suor não nascia do trabalho que não tinham, mas da agonia insuportável de não o ter, Deus arrependeu-se dos males que havia feito e permitido, a um ponto tal que, num arrebato de contrição, quis mudar o seu nome para um outro mais humano. Falando à multidão, anunciou: “A partir de hoje chamar-me-eis Justiça.” E a multidão respondeu-lhe: “Justiça, já nós a temos, e não nos atende”. Disse Deus: “Sendo assim, tomarei o nome de Direito.” E a multidão tornou a responder-lhe: “Direito, já nós o temos, e não nos conhece.” E Deus: “Nesse caso, ficarei com o nome de Caridade, que é um nome bonito.” Disse a multidão: “Não necessitamos caridade, o que queremos é uma Justiça que se cumpra e um Direito que nos respeite.” Então, Deus compreendeu que nunca tivera, verdadeiramente, no mundo que julgara ser seu, o lugar de majestade que havia imaginado, que tudo fora, afinal, uma ilusão, que também ele tinha sido vítima de enganos, como aqueles de que se estavam queixando as mulheres, os homens e as crianças, e, humilhado, retirou-se para a eternidade. A penúltima imagem que ainda viu foi a de espingardas apontadas à multidão, o penúltimo som que ainda ouviu foi o dos disparos, mas na última imagem já havia corpos caídos sangrando, e o último som estava cheio de gritos e de lágrimas.



No dia 17 de Abril de 1996, no estado brasileiro do Pará, perto de uma povoação chamada Eldorado dos Carajás (Eldorado: como pode ser sarcástico o destino de certas palavras...) 155 soldados da polícia militarizada, armados de espingardas e metralhadoras, abriram fogo contra uma manifestação de camponeses que bloqueavam a estrada em acção de protesto pelo atraso dos procedimentos legais de expropriação de terras, como parte do esboço ou simulacro de uma suposta reforma agrária na qual, entre avanços mínimos e dramáticos recuos, se gastaram já cinqüenta anos, sem que alguma vez tivesse sido dada suficiente satisfação aos gravíssimos problemas de subsistência (seria mais rigoroso dizer sobrevivência) dos trabalhadores do campo. Naquele dia, no chão de Eldorado dos Carajás ficaram 19 mortos, além de umas quantas dezenas de pessoas feridas. Passados três meses sobre este sangrento acontecimento, a polícia do estado do Pará, arvorando-se a si mesma em juiz numa causa em que, obviamente, só poderia ser a parte acusada, veio a público declarar inocentes de qualquer culpa os seus 155 soldados, alegando que tinham agido em legítima defesa, e, como se isto lhe parecesse pouco, reclamou processamento judicial contra três dos camponeses, por desacato, lesões e detenção ilegal de armas. O arsenal bélico dos manifestantes era constituído por três pistolas, pedras e instrumentos de lavoura mais ou menos manejáveis. Demasiado sabemos que, muito antes da invenção das primeiras armas de fogo, já as pedras, as foices e os chuços haviam sido considerados ilegais nas mãos daqueles que, obrigados pela necessidade a reclamar pão para comer e terra para trabalhar, encontraram pela frente a polícia militarizada do tempo, armada de espadas, lanças e alabardas. Ao contrário do que geralmente se pretende fazer acreditar, não há nada mais fácil de compreender que a história do mundo, que muita gente ilustrada ainda teima em afirmar ser complicada demais para o entendimento rude do povo.



Pelas três horas da madrugada do dia 9 de Agosto de 1995, em Corumbiara, no estado de Rondônia, 600 famílias de camponeses sem terra, que se encontravam acampadas na Fazenda Santa Elina, foram atacadas por tropas da polícia militarizada. Durante o cerco, que durou todo o resto da noite, os camponeses resistiram com espingardas de caça. Quando amanheceu, a polícia, fardada e encapuçada, de cara pintada de preto, e com o apoio de grupos de assassinos profissionais a soldo de um latifundiário da região, invadiu o acampamento. varrendo-o a tiro, derrubando e incendiando as barracas onde os sem-terra viviam. Foram mortos 10 camponeses, entre eles uma menina de 7 anos, atingida pelas costas quando fugia. Dois polícias morreram também na luta.



A superfície do Brasil, incluindo lagos, rios e montanhas, é de 850 milhões de hectares. Mais ou menos metade desta superfície, uns 400 milhões de hectares, é geralmente considerada apropriada ao uso e ao desenvolvimento agrícolas. Ora, actualmente, apenas 60 milhões desses hectares estão a ser utilizados na cultura regular de grãos. O restante, salvo as áreas que têm vindo a ser ocupadas por explorações de pecuária extensiva (que, ao contrário do que um primeiro e apressado exame possa levar a pensar, significam, na realidade, um aproveitamento insuficiente da terra), encontra-se em estado de improdutividade, de abandono, sem fruto.



Povoando dramaticamente esta paisagem e esta realidade social e económica, vagando entre o sonho e o desespero, existem 4 800 000 famílias de rurais sem terras. A terra está ali, diante dos olhos e dos braços, uma imensa metade de um país imenso, mas aquela gente (quantas pessoas ao todo? 15 milhões? mais ainda?) não pode lá entrar para trabalhar, para viver com a dignidade simples que só o trabalho pode conferir, porque os voracíssimos descendentes daqueles homens que primeiro haviam dito: “Esta terra é minha”, e encontraram semelhantes seus bastante ingénuos para acreditar que era suficiente tê-lo dito, esses rodearam a terra de leis que os protegem, de polícias que os guardam, de governos que os representam e defendem, de pistoleiros pagos para matar. Os 19 mortos de Eldorado dos Carajás e os 10 de Corumbiara foram apenas a última gota de sangue do longo calvário que tem sido a perseguição sofrida pelos trabalhadores do campo, uma perseguição contínua, sistemática, desapiedada, que, só entre 1964 e 1995, causou 1 635 vítimas mortais, cobrindo de luto a miséria dos camponeses de todos os estados do Brasil. com mais evidência para Bahia, Maranhão. Mato Grosso, Pará e Pernambuco, que contam, só eles, mais de mil assassinados.



E a Reforma Agrária, a reforma da terra brasileira aproveitável, em laboriosa e acidentada gestação, alternando as esperanças e os desânimos, desde que a Constituição de 1946, na seqüência do movimento de redemocratização que varreu o Brasil depois da Segunda Guerra Mundial, acolheu o preceito do interesse social como fundamento para a desapropriação de terras? Em que ponto se encontra hoje essa maravilha humanitária que haveria de assombrar o mundo, essa obra de taumaturgos tantas vezes prometida, essa bandeira de eleições, essa negaça de votos, esse engano de desesperados? Sem ir mais longe que as quatro últimas presidências da República, será suficiente relembrar que o presidente José Sarney prometeu assentar 1.400.000 famílias de trabalhadores rurais e que, decorridos os cinco anos do seu mandato, nem sequer 140.000 tinham sido instaladas; será suficiente recordar que o presidente Fernando Collor de Mello fez a promessa de assentar 500.000 famílias, e nem uma só o foi; será suficiente lembrar que o presidente Itamar Franco garantiu que faria assentar 100.000 famílias, e só ficou por 20.000; será suficiente dizer, enfim, que o actual presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, estabeleceu que a Reforma Agrária irá contemplar 280.000 famílias em quatro anos, o que significará, se tão modesto objectivo for cumprido e o mesmo programa se repetir no futuro, que irão ser necessários, segundo uma operação aritmética elementar, setenta anos para assentar os quase 5.000.000 de famílias de trabalhadores rurais que precisam de terra e não a têm, terra que para eles é condição de vida, vida que já não poderá esperar mais. Entretanto, a polícia absolve-se a si mesma e condena aqueles a quem assassinou.



O Cristo do Corcovado desapareceu, levou-o Deus quando se retirou para a eternidade, porque não tinha servido de nada pô-lo ali. Agora, no lugar dele, fala-se em colocar quatro enormes painéis virados às quatro direcções do Brasil e do mundo, e todos, em grandes letras, dizendo o mesmo: UM DIREITO QUE RESPEITE, UMA JUSTIÇA QUE CUMPRA.





(Terra)





(Ilustração: Santiago Caruso)






domingo, 5 de setembro de 2010

PRECISO, PARA, de Marina Colasanti







Preciso que um barco atravesse o mar
lá longe
para sair dessa cadeira
para esquecer esse computador
e ter olhos de sal
boca de peixe
e o vento frio batendo nas escamas.

Preciso que uma proa atravesse a carne
cá dentro
para andar sobre as águas
deitar nas ilhas e
olhar de longe esse prédio
essa sala
essa mulher sentada diante do computador
que bebe a branca luz eletrônica
e pensa no mar.


(Gargantas Abertas)


(Ilustração: Jeff Koon – woman in tub)




sexta-feira, 3 de setembro de 2010

DOIS VELHINHOS, de Dalton Trevisan







Dois pobres inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela de asilo.
Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um podia olhar lá fora.

Junto à porta, no fundo da cama, o outro espiava a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, perguntava o que acontecia. 

Deslumbrado, anunciava o primeiro:

— Um cachorro ergue a perninha no poste.

Mais tarde:

— Uma menina de vestido branco pulando corda.

Ou ainda:

— Agora é um enterro de luxo.

Sem nada ver, o amigo remordia-se no seu canto. O mais velho acabou morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela.
Não dormiu, antegozando a manhã. Bem desconfiava que o outro não revelava tudo.

Cochilou um instante — era dia. Sentou-se na cama, com dores espichou o pescoço: entre os muros em ruína, ali no beco, um monte de lixo.


(Mistérios de Curitiba)


(Ilustração: Edward Hopeer – sun empty room)




quarta-feira, 1 de setembro de 2010

VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA, de Manuel Bandeira







Vou-me embora pra Pasárgada


Lá sou amigo do rei


Lá tenho a mulher que eu quero


Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada




Vou-me embora pra Pasárgada


Aqui eu não sou feliz


Lá a existência é uma aventura


De tal modo inconsequente


Que Joana a Louca de Espanha


Rainha e falsa demente


Vem a ser contraparente


Da nora que nunca tive



E como farei ginástica


Andarei de bicicleta


Montarei em burro brabo


Subirei no pau-de-sebo


Tomarei banhos de mar!


E quando estiver cansado


Deito na beira do rio


Mando chamar a mãe-d'água


Pra me contar as histórias


Que no tempo de eu menino


Rosa vinha me contar


Vou-me embora pra Pasárgada



Em Pasárgada tem tudo


É outra civilização


Tem um processo seguro


De impedir a concepção


Tem telefone automático


Tem alcalóide à vontade


Tem prostitutas bonitas


Para a gente namorar



E quando eu estiver mais triste


Mas triste de não ter jeito


Quando de noite me der


Vontade de me matar


— Lá sou amigo do rei —


Terei a mulher que eu quero


Na cama que escolherei


Vou-me embora pra Pasárgada.




(Ilustração: Anthony Christian – l’aprés midi d’un fornicator)