terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A TI, ÚNICA (QUINTETO DE LA LUNA Y DEL MAR) /A TI, ÚNICA (QUINTETO DA LUA E DO MAR), de Leopoldo Lugones








Piano



Un poco de cielo y un poco de lago

donde pesca estrellas el grácil bambú,

y al fondo del parque, como íntimo halago,

la noche que mira como miras tú.

Florece en los lirios de tu poesía

la cándida luna que sale del mar,

y en flébil delirio de azul melodía,

te infunde una vaga congoja de amar.

Los dulces suspiros que tu alma perfuman

te dan, como a ella, celeste ascensión.

La noche.... tus ojos.... un poco de Schuman...

y mis manos llenas de tu corazón.



Primer Violín



Largamente, hasta tu pie

se azula el mar ya desierto,

y la luna es de oro muerto

en la tarde rosa té.

Al soslayo de la luna

recio el gigante trabaja,

susurrándote en voz baja

los ensueños de la luna.

Y en lenta palpitación,

más grave ya con la sombra,

viene a tenderte de alfombra

su melena de león.



Segundo Violín



La luna te desampara

y hunde en el confín remoto

su punto de huevo roto

que vierte en el mar su clara.

Medianoche van a dar,

y al gemido de la ola,

te angustias, trémula y sola,

entre mi alma y el mar.



Contrabajo



Dulce luna del mar que alargas la hora

de los sueños de amor; plácida perla

que el corazón en lágrima atesora

y no quiere llorar por no perderla.

Así el fiel corazón se queda grave,

y por eso el amor, áspero o blando,

trae un deseo de llorar, tan suave,

que sólo amarás bien si amas llorando.



Violoncelo



Divina calma del mar

donde la luna dilata

largo reguero de plata

que induce a peregrinar.

En la pureza infinita

en que se ha abismado el cielo,

un ilusorio pañuelo



tus adioses solicita.

Y ante la excelsa quietud,

cuando en mis brazos te estrecho

es tu alma, sobre mi pecho,

melancólico laúd.



Tradução de Wagner Mourão Brasil:



Piano



Um pouco de céu e um pouco de lago

onde pesca estrelas o grácil bambu,

e no fundo do parque, como íntimo afago,

a noite que olha como olhas tu.

Florescem nos lírios de tua poesia

a cândida lua que sobe do mar,

e em febril delírio de azul melodia,

infunde em ti vaga angústia de amar.

Os doces suspiros que tua alma perfumam

dão-te, como a ela, celeste ascensão.

A noite... os olhos... um pouco de Schumann...

e minhas mãos repletas de teu coração.



Primeiro Violino



Lentamente, já se azula

ao teu pé o mar deserto,

e a lua é de um ouro gasto

na tarde rosa-amarela.

Ao soslaio da lua

rijo o gigante labora,

falando-te em baixa altura

das fantasias da lua.

E em lenta palpitação,

já na sombra e mais prudente,

vem a estender-te em tapete

sua juba de leão.



Segundo Violino



A lua te desampara

e afunda em remoto confim

seu ponto de ovo marfim

que verte no mar sua clara.

Meia-noite vai soar,

e aos gemidos das ondas,

trêmula e só, te angustias

entre minh' alma e o mar.



Contrabaixo



Doce lua do mar que alargas a hora

dos sonhos de amor, plácida pérola

que o coração em lágrima entesoura

e não quer chorar p'ra não perdê-la.

Assim o fiel coração torna-se grave,

e por isso o amor, áspero ou brando,

trai um desejo de chorar, tão suave,

que só amarás bem se amas chorando.



Violoncelo



Divina calma do mar

onde a lua dilata

ampla corrente de prata

que induz a peregrinar.

E na pureza infinita

na qual o céu se abateu,

um ilusório lenço teus

gestos de adeus solicita.

E ante a excelsa quietude,

quando em meus braços te estreito

tua alma, sobre meu peito

é entristecido alaúde.





(Ilustração: José Luis Muñoz)




sábado, 25 de fevereiro de 2017

ASSIM SONHAVA GILLIATT, de Victor Hugo






Gilliatt era o homem do sonho. Vinham daí as suas audácias e as suas hesitações. Tinha ideias propriamente suas. 


Havia talvez nele a ligação do alucinado e do iluminado. A alucinação entra na cabeça de um campônio como Martin, do mesmo modo que na cabeça de um rei como Henrique IV. O Desconhecido faz surpresas ao espírito do homem. Rasga-se bruscamente a sombra, deixa ver o invisível; depois fecha-se. Tais visões são às vezes transfiguradoras; de um condutor de camelos faz Maomé, de uma cabreira faz Joana d'Arc. A solidão desprende uma certa quantidade de desvario sublime. É o fumo da sarça ardente. Resulta daí um misterioso estremecer de idéias: o doutor dilata-se até o vidente, o poeta até o profeta; resulta Horeb, Cédron, Ombos, a embriaguez do louro mastigado da Castália, as revelações do mês Busion; resulta Peleia em Dodona, Femônoe em Delfos, Trofônio em Lebadeia, Ezequiel no Kebar, Jerônimo na Tebaida. Na maior parte dos casos o estado visionário abate o homem, e o embrutece. O embrutecimento sagrado existe. O faquir carrega a sua visão, como o habitante alpino a sua papeira. Lutero falando aos diabos no celeiro de Wurtemberg, Pascal tapando o inferno com o biombo de seu gabinete, o obi negro, dialogando com o deus branco chamado Bossum, é o mesmo fenômeno diversamente produzido, segundo a força e a dimensão de cada cérebro. Lutero e Pascal são e ficam sendo grandes; o obi negro é imbecil. 


Gilliatt não era tanto, nem tão pouco. Era um pensativo. Nada mais. 


Contemplava a natureza de um modo singular. 


Tinha visto algumas vezes, na água do mar, completamente límpida, animais inesperados, de grandes dimensões, de formas diversas, os quais, fora da água, assemelhavam-se a cristal mole, e, tornados à água, confundiam-se com ela, pela identidade de transparência e de cor; disto concluía ele que, se a água era habitada por transparências vivas, bem podia ser que o ar fosse habitado por transparências igualmente vivas. Os pássaros não são os habitantes, são os anfíbios do ar. Gilliatt não acreditava no ar deserto. Dizia ele: se o mar está cheio de criaturas, por que motivo a atmosfera será vazia? Criaturas cor do ar podem escapar aos nossos olhos por causa da luz; quem nos prova que essas criaturas não existem? A analogia indica que o ar deve ter os seus peixes, como o mar; os peixes do ar serão talvez diáfanos, benefício da providência criadora, tanto a nosso favor, como a favor deles; deixando passar a luz através da sua forma, e não fazendo sombra, ficam ignorados de nós, e nada poderemos saber. Gilliatt imaginava que, se se pudesse esvaziar a atmosfera, pescando-se no ar como num tanque, achar-se-ia uma porção de criaturas surpreendentes. E, acrescentava ele, na sua cisma, muitas coisas se explicariam. 


A cisma, que é o pensamento no estado nebuloso, confina com o sono e preocupa-se a respeito dele, como de sua própria fronteira. O ar habitado por transparências vivas seria o começo do Desconhecido; além abre-se a vasta porta do possível. Outros seres e outros fatos. Nada sobrenatural; mas a continuação oculta da natureza infinita. Gilliatt, no ócio laborioso que compunha a sua existência, era um observador estranho e fantástico. Chegava a observar o sono. O sono está em contato com o possível, que também chamamos o inverossímil. O mundo noturno é um mundo. A noite é um universo. O organismo material humano, sobre o qual pesa uma coluna atmosférica de 15 léguas de altura, chega à noite fatigado, cai de fraqueza, deita-se, repousa; fecham-se os olhos da carne; então, naquela cabeça adormecida, menos inerte do que se crê, abrem-se outros olhos, aparece o Desconhecido. As coisas sombrias do mundo ignorado tornam-se vizinhas do homem, ou porque haja verdadeira comunicação, ou porque as distâncias do abismo tenham crescimento visionário; parece que as criaturas invisíveis do espaço vêm contemplar-nos curiosas a respeito da criatura da terra; uma criação fantasma sobe ou desce para nós, no meio de um crepúsculo; ante a nossa contemplação espectral, uma vida que não é a nossa agrega-se e dissolve-se, composta de nós mesmos e de um elemento estranho; e aquele que dorme, nem completo vidente, nem completo inconsciente, entrevê as animalidades estranhas, as vegetações extraordinárias, as cores lívidas, terríveis ou risonhas, as larvas, as máscaras, os rostos, as hidras, as confusões, os luares sem lua, as obscuras decomposições do prodígio, o crescer e o decrescer no meio da espessura turvada, a flutuação de formas nas trevas, todo esse mistério que chamamos sonho, e que não é mais do que a aproximação de uma realidade invisível. O sonho é o aquário da noite. 


Assim sonhava Gilliatt.



(Os Trabalhadores do Mar; tradução de Machado de Assis)




(Ilustração: Vladimir Kush - departure of the winged ship)




quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

VERSI DEL TESTAMENTO / VERSOS DO TESTAMENTO, de Pier Paolo Pasolini









La solitudine: bisogna essere molto forti

per amare la solitudine; bisogna avere buone gambe

e una resistenza fuori del comune; non si deve rischiare

raffreddore, influenza o mal di gola; non si devono temere

rapinatori o assassini; se tocca camminare

per tutto il pomeriggio o magari per tutta la sera

bisogna saperlo fare senza accorgersene; da sedersi non c’è;

specie d’inverno; col vento che tira sull’erba bagnata,

e coi pietroni tra l’immondizia umidi e fangosi;

non c’è proprio nessun conforto, su ciò non c’è dubbio,

oltre a quello di avere davanti tutto un giorno e una notte

senza doveri o limiti di qualsiasi genere.

Il sesso è un pretesto. Per quanti siano gli incontri

– e anche d’inverno, per le strade abbandonate al vento,

tra le distese d’immondizia contro i palazzi lontani,

essi sono molti – non sono che momenti della solitudine;

più caldo e vivo è il corpo gentile

che unge di seme e se ne va,

più freddo e mortale è intorno il diletto deserto;

è esso che riempie di gioia, come un vento miracoloso,

non il sorriso innocente o la torbida prepotenza

di chi poi se ne va; egli si porta dietro una giovinezza

enormemente giovane; e in questo è disumano,

perché non lascia tracce, o meglio, lascia una sola traccia

che è sempre la stessa in tutte le stagioni.

Un ragazzo ai suoi primi amori

altro non è che la fecondità del mondo.

È il mondo che così arriva con lui; appare e scompare,

come una forma che muta. Restano intatte tutte le cose,

e tu potrai percorrere mezza città, non lo ritroverai più;

l’atto è compiuto, la sua ripetizione è un rito. Dunque

la solitudine è ancora più grande se una folla intera

attende il suo turno: cresce infatti il numero delle sparizioni –

l’andarsene è fuggire – e il seguente incombe sul presente

come un dovere, un sacrificio da compiere alla voglia di morte.

Invecchiando, però, la stanchezza comincia a farsi sentire,

specie nel momento in cui è appena passata l’ora di cena,

e per te non è mutato niente; allora per un soffio non urli o piangi;

e ciò sarebbe enorme se non fosse appunto solo stanchezza,

e forse un po’ di fame. Enorme, perché vorrebbe dire

che il tuo desiderio di solitudine non potrebbe esser più soddisfatto,

e allora cosa ti aspetta, se ciò che non è considerato solitudine

è la solitudine vera, quella che non puoi accettare?

Non c’è cena o pranzo o soddisfazione del mondo,

che valga una camminata senza fine per le strade povere,

dove bisogna essere disgraziati e forti, fratelli dei cani.



Tradução de Cide Piquet e Davi Pessoa:



A solidão: é preciso ser muito forte

para amar a solidão; é preciso ter pernas firmes

e uma resistência fora do comum; não se deve arriscar

pegar um resfriado, gripe ou dor de garganta; não se devem temer

assaltantes ou assassinos; há que caminhar

por toda a tarde ou talvez por toda a noite

é preciso saber fazê-lo sem dar-se conta; sentar-se nem pensar;

sobretudo no inverno, com o vento que sopra na grama molhada

e grandes pedras em meio à sujeira úmida e lamacenta;

não existe realmente nenhum conforto, sobre isso não há dúvida,

exceto o de ter pela frente todo um dia e uma noite

sem obrigações ou limites de qualquer espécie.

O sexo é um pretexto. Sejam quais forem os encontros

― e mesmo no inverno, pelas ruas abandonadas ao vento,

ao longo das fileiras de lixo junto aos edifícios distantes,

que são muitos ― eles não passam de momentos da solidão;

mais quente e vivo é o corpo gentil

que exala sêmen e se vai,

mais frio e mortal é o querido deserto ao redor;

é isso o que enche de alegria, como um vento milagroso,

não o sorriso inocente ou a prepotência turva

de quem depois vai embora; ele traz consigo uma juventude

enormemente jovem; e nisso é desumano,

porque não deixa rastros, ou melhor, deixa um único rastro

que é sempre o mesmo em todas as estações.

Um jovem em seus primeiros amores

não é senão a fecundidade do mundo.

É o mundo que chega assim com ele; aparece e desaparece,

como uma forma que muda. Restam intactas todas as coisas,

e você poderia percorrer meia cidade, não voltaria a encontrá-lo;

o ato está cumprido, sua repetição é um rito; pois

a solidão é ainda maior se uma multidão inteira

espera sua vez; cresce de fato o número dos desaparecimentos ―

ir embora é fugir ― e o instante seguinte paira sobre o presente

como um dever; um sacrifício a cumprir como um desejo de morte.

Ao envelhecer, porém, o cansaço começa a se fazer sentir,

sobretudo naquela hora imediatamente após o jantar,

e para você nada mudou; então por um triz você não grita ou chora;

e isso seria enorme se não fosse mesmo apenas cansaço,

e talvez um pouco de fome. Enorme, porque significaria

que o seu desejo de solidão já não poderia ser satisfeito;

e então o que o aguarda, se isto que não se considera solidão

é a verdadeira solidão, aquela que você não pode aceitar?

Não há almoço ou jantar ou satisfação do mundo

que valha uma caminhada sem fim pelas ruas pobres,

onde é preciso ser desgraçado e forte, irmão dos cães.



(Trasumanar e organizzar)



(Ilustração: Peter Churcher - Australian, 1964)




domingo, 19 de fevereiro de 2017

NIETZSCHE EM SILS-MARIA, de Mario Vargas Llosa








Quando Nietzsche veio pela primeira vez a Sils-Maria, no verão de 1879, era uma ruína humana. Sua visão se deteriorava rapidamente, as enxaquecas o atormentavam e as doenças o haviam obrigado a renunciar à sua cátedra na Universidade da Basileia, depois de lecionar ali por dez anos. Esta era na época uma remota região alpina no alto de Engadina, onde os forasteiros mal conseguiam chegar. Foi amor à primeira vista: ficou deslumbrado pelo ar cristalino, o mistério e o vigor das montanhas, as cascatas rumorosas, a serenidade de lagos e lagoas, os esquilos e até os enormes gatos monteses.

Começou a se sentir melhor, escreveu cartas exultantes de entusiasmo pelo lugar e, desde então, voltaria por sete anos consecutivos a Sils-Maria nos verões, por temporadas de três ou quatro meses. Sempre tinha sido um bom caminhante, mas, aqui, andar, subir encostas íngremes, meditar em montes nevados varridos pelos ventos, onde às vezes aterrissavam as águias, rabiscar os aforismos em seus livretos, um de seus meios favoritos de expressão, se tornou uma forma de viver. Em Sils-Maria escreveria ou conceberia seus livros mais importantes, A Gaia Ciência, Assim Falou Zaratustra, Além do Bem e do Mal, Crepúsculo dos Ídolos e O Anticristo.

Alojava-se na casa — que era também uma loja – do prefeito do povoado e pagava um franco por dia pelo modesto quartinho onde dormia. A casa de Nietzsche é agora um museu e sede da fundação que leva o nome do filósofo. Vale a pena visitá-la, sobretudo se o cicerone no dia for seu amável diretor, Peter André Bloch, que sabe tudo sobre a obra e a vida de Nietzsche e que organiza os seminários e colóquios que atraem a este belo povoado professores, ensaístas e filósofos de todo o mundo. A casa foi totalmente restaurada e oferece uma soberba coleção de fotografias, manuscritos — entre eles poemas e composições musicais de Nietzsche —, primeiras edições e testemunhos de visitantes ilustres, como Thomas Mann, Adorno, Paul Celan, Hermann Hesse, Robert Musil e até o inesperado Pablo Neruda, que escreveu aqui um poema. Boris Pasternak não pôde vir, mas enviou de seu confinamento soviético um longo texto fundamentando sua admiração pelo filósofo.

O único cômodo que não foi restaurado é o dormitório de Nietzsche. Surpreende pelo ascetismo. Uma caminha estreita, uma mesa rústica, um jarro e uma bacia de água. Testemunhos da época dizem que então estava cheia de livros. Mas a verdade é que Nietzsche passava muito mais tempo ao ar livre do que dentro de casa, e pensava e escrevia andando ou descansando entre as longuíssimas caminhadas que fazia diariamente. Duravam cerca de seis horas por dia e às vezes oito e até dez. Agora são mostradas aos turistas algumas rotas que, garantem os guias, eram suas preferidas, mas é pura fábula. Em primeiro lugar, a paisagem agora é diferente, civilizada pela afluência em massa de esquiadores durante o inverno, a abertura de estradas e os chalés esparramados ao redor das pistas de esqui. Nos tempos de Nietzsche esta era ainda uma terra selvagem, sem estradas, abrupta. Depois de uma difícil caminhada em meio aos pinheirais e na neve, quase à sombra, abria-se de repente uma paisagem de Éden, como a que inspiraria as bravatas e filípicas de Zaratustra.

Muitas vezes Nietzsche se perdeu nessas alturas desoladas e, em outras, dormiu e teve sonhos grandiosos ou terríveis que evocou em seus poemas e em sua música. Sempre levava a essas caminhadas um pequeno pacote de frutas e biscoitos, e os caderninhos listrados que sua irmã Elizabeth lhe enviava (podem ser folheados no museu), racista fanática que, para justificar a caluniosa descrição segundo a qual Nietzsche foi um precursor do nazismo, falsificou seus manuscritos e fabricou uma edição espúria de A Vontade de Poder. Em uma das prateleiras da Fundação se exibe a célebre foto de Hitler visitando, acompanhado por Elizabeth, o Memorial de Nietzsche em Weimar.

Muitas das diatribes de Nietzsche contra a religião e, sobretudo, o cristianismo, a ideia de que proclamar a vida terrena é só uma passagem no sentido do além, onde se vive a vida verdadeira, e o maior obstáculo para que os seres humanos fossem soberanos, livres e felizes e se mantivessem condenados a uma escravidão moral que os privava de criatividade, espírito crítico, conhecimentos científicos e iniciativas artísticas, foram gestadas aqui, em Sils-Maria. Mas, curiosamente, ao contrário de uma das imagens mais persistentes de Nietzsche, a de um homem antissocial, sombrio e ensimesmado, resmungão e colérico, pelo menos nos sete verões que aqui passou deixou entre os vizinhos uma imagem radicalmente diferente: a de um homem risonho e simpático, que brincava com as crianças, divertia-se com as piadas dos moradores e evitava a boataria e as discussões da vizinhança.

É verdade que nunca foi um fascista nem um racista; um setor do museu documenta em detalhes sua boa relação com muitos intelectuais e comerciantes judeus e as vezes que escreveu criticando o antissemitismo. Mas também é verdade que nunca foi um democrata nem um liberal. Detestava as multidões e, em especial, as massas da sociedade industrial, nas quais via seres alienados por essa “psicologia de vassalos” engendrada pelo coletivismo, que anulava o espírito rebelde e matava a individualidade. Sempre foi um individualista recalcitrante; acreditava que só o ser humano não gregário, independente, segregado da tribo, que a enfrenta, era capaz de fazer progredir a ciência, a sociedade e a vida em geral. Sua terrível sentença, que era também um prognóstico sobre a cultura que prevaleceria no futuro imediato —“Deus está morto”— não era um grito de desespero, mas de otimismo e esperança, a convicção de que, no mundo futuro, libertados das correntes da religião e da mitologia alienante do além, os seres humanos trabalhariam para tirar o paraíso das névoas ultraterrenas e o trariam para cá, para a história vivida, a realidade cotidiana. Então desapareceriam os estúpidos rancores que tinham recheado a história humana de guerras, cataclismas, abusos, sofrimentos, selvagerias, e surgiria uma fraternidade universal na qual a vida, por fim, valeria a pena ser vivida por todos.

Era uma utopia não menos irreal do que a das religiões que Nietzsche abominava e que faria correr também muitíssimo sangue e dor. Ao fim e ao cabo, seria a democracia, que o filósofo de Sils-Maria tanto desprezou, pois a identificava com o conformismo e a mediocridade, a que mais contribuiria para aproximar os seres humanos desse ideal nietzschiano de uma sociedade de homens e mulheres livres, dotados de espírito crítico, capazes de conviver com todas as suas diferenças, convicções ou crenças, sem se odiar nem se matar.


Sils-Maria, julho de 2015





(Ilustração: Nietzsche and the horse - autor não identificado)



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

OS DESTINOS URBANOS, de Bueno de Rivera








O tráfego é previamente fixado

e todos os sensatos vivem o seu minuto.



Onde está o louco para um discurso

sobre os acontecimentos futuros?



Ah! se pudesses, dormirias

sob as árvores da praça, sem cuidados,

te banharias em público, comerias

o teu pão na calçada...



Vives no tempo dos relógios. Os teus passos

são contados, tuas horas são rações

minguadas na fome de ser livre.

E impaciente esperas numa esquina

um mágico que te indique

a porta, te mostre a claridade e ordene a fuga!



Onde estão os mágicos?

Dormem.

E o louco dos comícios?

Morto.

Morto o pássaro, o lírio extinto,

calado o mar,

o coração do homem pulsa

sob as pedras.




(Os melhores poemas de Bueno de Rivera)



(Ilustração: Zdzisław Beksiński)







segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

PENSAMENTOS MÁGICOS, de Dráuzio Varella






"Como você andava, irmã?", perguntou o pastor sorridente, com a mão paternal no ombro de uma senhora tímida, de idade indefinida.

Na frente das câmeras, ela ensaiou passos curtos e trôpegos.

"E agora, depois de receber a graça, irmã?"

Decidida, a senhora cruzou o palco em passos lépidos e saiu de cena. "Deus é lindo", proclamou ele para os aplausos da plateia.

Deixando de lado a indignação que nos causa ver espertalhões a explorar a fé e a credulidade para tomar dinheiro de gente pobre, qual seria a explicação mais razoável para aquela cena?

A senhora estaria mancomunada com a produção do programa? Teria um problema ortopédico que foi tratado ou melhorou espontaneamente depois de receber a tal bênção? A bênção agira como placebo?

E como explicar as palmas do auditório lotado? Todos acreditaram que foi mesmo Deus quem realizou aquela proeza fantástica?

Feiticeiros, xamãs, videntes, santos milagreiros e charlatães de toda espécie manipulam as inseguranças humanas diante da incapacidade de moldarmos o mundo segundo nossa vontade, do medo da decadência física, do desconhecido e da contradição imposta pela morte.

A ideia de que um dia fecharemos os olhos para retornar ao nada que existia antes de nascermos é insuportável para a maioria esmagadora da humanidade.

Para escapar dos becos que nos parecem sem saída, nós nos agarramos ao vai dar tudo certo, ao tenha fé em Deus. O pensamento mágico ignora as evidências contrárias, ainda que estejam a um palmo de nós; nossos desejos serão realizados por um toque da varinha de condão.

Quando corre o boato de que em determinada cidade surgiu um predestinado que opera milagres, centenas de milhares de pessoas de todos os estratos sociais e níveis de escolaridade vão atrás dele.

Viajam distâncias longas nas condições mais precárias, em busca de um gesto capaz de curar-lhes o câncer, devolver-lhes força ao coração infartado, elasticidade às articulações enrijecidas pelo reumatismo e movimento aos membros paralisados.

Acreditam que das mãos do predestinado emana uma energia que terá o dom de reestabelecer o equilíbrio entre as células do organismo, desorganizadas pela doença.

Se lhes perguntarmos que tipo de energia é essa, cinética, potencial, atômica, gravitacional, ou por que não serve para movimentar carros sem combustível, carroças sem cavalos ou fazer um homem levitar, ficam ofendidos e nos acusam de materialistas incrédulos, estupidificados pelo raciocínio científico.

O pensamento mágico está por trás das poções que tanta gente ingere com o propósito de manter boa saúde e curar males que vão do resfriado ao mal de Alzheimer.

São chás de todos os tipos, vitaminas compradas a preço de ouro e uma variedade de receitas tão diversificadas quanto a imaginação humana consegue criar. Muitas delas prescritas por profissionais que receberam o diploma de médico.

Já atendi mais de um adepto da cura pelo limão. Cada ciclo de tratamento tem 28 dias: no primeiro, você toma o suco de um limão, no segundo o de dois limões, no terceiro o de três, no 14º dia o de 14.

A partir do 15º dia, em ordem decrescente, 13, 12, 11, até voltar a uma unidade. Terminado o ciclo, começa tudo de novo: um, dois, três, quatro...

O número dos que consomem vitaminas e suplementos alimentares da mais absoluta inutilidade é assustador.

Quando passo na porta de lojas do tamanho de supermercados que comercializam esses produtos, em países com níveis altos de escolaridade como Estados Unidos ou Japão, fico descrente da racionalidade da espécie humana.

Em franca expansão no Brasil, esse mercado movimentou, só nos EUA, US$ 23 bilhões no ano passado.

Para aqueles com acesso a alimentação variada que inclua frutas, legumes e folhas verdes, tomar vitaminas ou acrescentar suplementos à dieta tem o mesmo impacto na prevenção de doenças e preservação da saúde do que as bênçãos dos iluminados.

A única saída para formarmos gerações de mulheres e homens menos crédulos é ensinar ciência e os princípios básicos do pensamento científico já na escola primária.



(FSP - 26/7/2015)





(Ilustração: Simeon-Chardin - The-Attributes-of-Science)




sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A JANELA INDISCRETA, de Sílvio Augusto Gallucci









Quero ver a noite nos teus olhos de estrela pagã:

Vocifera nos meus ouvidos a lágrima ardente

De paixão: e permita que, por uma só vez,

Aconchegue-me aos seios teus

E desfaça-me, lúcido, líquido, inverossímil e poeta

Por entre seus cachos

Que persistem a inexistir

Por detrás da boca úmida, seca

E antitética,

Tocando com suavidade

Envolvendo sua doce voz na melodia

Ainda que desgastada

Desta canção de virgem ardor

Puritanamente reservada.



Ao último verso.



À última letra.



Ao último beijo.



Ou a uma indiscreta janela.





(Ilustração: Liu Yuanshou)



terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

COMO CONVERSAR COM UM FASCISTA?, de Márcia Tiburi








O genocídio indígena, o massacre racista e classista contra jovens negros e pobres nas periferias das grandes cidades, a homofobia, o feminicídio, a manipulação das crianças, em poucas palavras, o ódio ao outro, se estabelece em nossa sociedade no âmbito do extermínio da própria política. Sabemos que é preciso exterminar a política para que o capitalismo selvagem (tendencialmente, sempre selvagem) se mantenha. É preciso exterminar o desejo de democracia pelo autoritarismo efetivado na prática diária. Para exterminar a política é preciso que o povo a odeie e é isso o que o autoritarismo é e faz.

O autoritarismo é um modo de exercer o poder, mas é também um ideário, uma espécie de regime de conhecimento. Como visão de mundo, ele é fechado ao outro. Ele opera pelo discurso e pela prática sempre bem engrenadas que se organizam ao modo de uma grande falácia, ao modo de um imperativo de alto impacto performativo: o outro não existe e, se existe, deve ser eliminado. Ora, dizemos “regime de conhecimento” pensando na operação mental da negação do outro, mas o conhecimento como gesto na direção do outro é justamente o que é destruído pelo autoritarismo que se basta como máscara sem rosto do conhecimento transformado em ideologia, ou seja, em ofuscamento da verdade social.

Nada do que possamos chamar de conhecimento pode ser concebido fora de seu registro ético-político. Se o registro do conhecimento funciona pela negação do outro, o conhecimento nega a si mesmo. Sem o outro, o conhecimento morre. O enrijecimento é uma prova da morte do conhecimento que se torna cegueira ideológica. A ideologia é a redução do conhecimento à fachada, como que sua máscara mortuária. O conhecimento, que deveria ser um processo de encontro e disposição para a alteridade que o representa, sucumbe à sua própria negação. Daí a impressão que temos de que uma personalidade autoritária é, também, burra, pois ela não consegue entender o outro e nada que esteja em seu circuito.

A propaganda é o método que sustenta a negação do outro. A propaganda fascista, a propaganda do ódio, que prega a intolerância, que afirma coisas tão estarrecedoras, como fez o famoso deputado Heinze ao dizer que “quilombolas, índios, gays, lésbicas”, são “tudo o que não presta”, é a destruição do conhecimento, como relação com o outro, que está na base do desejo de democracia. Autoafirmação de ignorância, assinatura de estupidez. Mas é, ao mesmo tempo, a destruição da política por um discurso antipolítico de um agente que deveria ser político, mas que está, contudo, voltado para o instinto de morte antipolítico.

Em casos como o desse discurso podemos falar em uma prática discursiva “tanática”, exemplo perfeito da “tanatopolítica” contemporânea. Típico discurso fascista. Mas a quem esse discurso convence? Eis uma questão que precisamos nos colocar, até para poder combater o mesmo discurso ou para criar alternativas para a sobrevivência de uma política democrática, para uma política melhor, para um poder da diferença, um poder compreensivo que acolha a tradição dos oprimidos.

Quem fala o que fala, sem nenhuma responsabilidade, por um lado deve ser legalmente questionado, por outro, é preciso colocar em jogo a questão das condições de possibilidade que, na cultura, fazem surgir falas como a do deputado citado. Como alguém pode se autorizar ao discurso fascista que é fomentado por sua propaganda? De outro, quem é suscetível a esta propaganda? Se a propaganda fascista que é um tipo de discurso – e uma verdadeira metodologia de alienação social – continuar vencendo, não teremos futuro. Em que direção devemos agir diante desse estado de coisas?

É neste contexto que podemos nos colocar a questão da qual proponho que façamos um “experimentum crucis” teórico-prático: como conversar com um fascista? Digo isso pensando que podemos avançar para além do discurso da denúncia e da queixa. Quem se sente atacado nem sempre deve contentar-se com a posição de vítima. Colocar-se na posição de vítima é um perigo e é muito diferente de ser sujeito de direitos. É uma péssima estratégia em tempos em que o poder está em mãos perversas que adoram imolar vítimas no altar do Estado e do Capital.

A vítima, dizia um sábio alemão que lutou contra o fascismo, sempre desperta o desejo de proscrever. Empoderamento é a saída. Contra a posição da vítima, podemos pensar na posição do guerreiro sutil, aquele que desafia o poder desde a sua interioridade, desde seu núcleo duro, para desmontá-lo estrategicamente. Neste ponto, em bases sutilíssimas, podemos falar de diálogo e a questão “como conversar com um fascista?” se torna um emblema do desafio democrático.

Quem luta por direitos sabe que a conversa é impossível. Mas da possibilidade de perfurar a blindagem fascista depende o recuo do fascismo, infelizmente, a cada dia renovado pelo fomento da propaganda fascista dos políticos antipolíticos e dos meios de comunicação de massa. O diálogo é, neste caso, a “metodologia democrática” básica que poderia operar em situações privadas ou públicas. O diálogo parece impotente diante do ódio. Ele parece delicado demais. Mas o diálogo em si mesmo é um desafio. Um desafio micropolítico, cuja colocação em cena pode nos ajudar a pensar no que fazer, no como agir em escala macropolítica.

Estamos no terreno de uma estratégia teórico-prática. Esse desafio tem três tempos:

1- O tempo do outro, tempo apavorante enquanto o outro é sempre o desconhecido, aquele que ameaça em algum sentido a “minha” ordem;

2- O tempo da abertura de si que implica perceber-se como um outro, o que só se dá ao nível do imaginário e do discernimento, pois jamais teremos acesso ao sentir e pensar do outro, assim como ele não terá do nosso, senão pela exposição cuidadosa do que sentimentos e pensamos;

3- O tempo interminável, a saber, o da permanência na experiência do diálogo, ou seja, a manutenção qualificada da metodologia. Em outras palavras, permanecer no lugar do diálogo como insistência no encontro. Não ceder ao ódio, permanecer tentando entender e, ao mesmo tempo, oferecer certo desentendimento como oportunidade ao outro de entender, ele mesmo, a diferença para a qual está fechado. Nesse sentido, o diálogo é resistência.

O diálogo não é a conversa entre iguais, não é apenas uma fala complementar, mas a conversa real e concreta entre diferenças que evoluem na busca do conhecimento e da ação que dele deriva.

Para que o diálogo ocorra é preciso haver isso que chamamos de abertura ao outro. A abertura existe na mentalidade democrática, ela está aberta ao outro em função de experiências cognitivas e culturais. A abertura não existe no caso de uma personalidade autoritária, fechada ao outro também por motivos cognitivos e culturais, motivos que incidem na formação da experiência pessoal e coletiva.

A conversa com a alteridade que vai além dos argumentos, tem um ponto decisivo no âmbito afetivo. Não do sentimento apenas, mas do modo como nos “afetamos”, no sentido do que fazemos uns com os outros. Se o democrata está aberto ao outro, seu grande desafio pode ser mostrar como produzir essa abertura ao outro em nossa sociedade. Daí o sentido crucial do lema “como conversar com um fascista?” que se torna, na contramão, um imperativo experimental democrático que precisa ser antecipado na conduta de quem quer produzir democracia hoje.

Não podemos apenas nos queixar que essa abertura não existe, mas pensar em como deve ser produzida. Em outras palavras, a questão pode ser a de como apresentar a experiência do outro a quem ainda não o concebeu? Penso nesse caso, em uma didático-política e em uma estético-política. Infelizmente, não temos as instituições convencionais agindo nessa direção. As instituições negam o outro. Precisamos, portanto, mudar as instituições, ou criar instituições capazes de contemplar o outro.

Sabemos que nossos povos nativos eram, e são, abertos ao outro, assim como sabemos que os colonizadores não eram e que os “ruralistas” de hoje não são. Sabemos que os machistas e sexistas, que os exploradores e manipuladores em geral, também não são. Na base de todos eles está o princípio do fascismo como ódio aos diferentes. Os diferentes que devem ser excluídos. O fascismo produz opressão de um lado, de outro, seduz para a forma autoritária de viver garantindo aos que vivem esvaziados de pensamento, ação e afeto, que o mundo está bem como está. O fascismo cancela, ao nível do discurso exposto nas mídias, nos púlpitos e palanques que constroem opiniões públicas e mentalidades coletivas, a chance de pensar no que estamos fazendo uns com os outros que poderia nos garantir uma vida mais prazerosa. Precisamos revitalizar esta pergunta como pergunta coletiva capaz de orientar nosso diálogo. O fascismo também colonizou os prazeres pelo estético-moralismo que é o consumismo ao qual foi reduzida a antiga e emancipatória categoria ética da felicidade. Mas não devemos aderir a isso só porque as coisas se apresentam assim hoje.

Dizemos há séculos “o poder corrompe” como se tivéssemos sido treinados para essa citação formal, sem que saibamos muito sobre seu conteúdo. Assim como muitos dizem “tudo o que não presta” imitando uns aos outros no gesto espetacular de falar por falar. A fala por imitação se funda na citação. O autoritarismo é “citacionalista”. Repete ideias lançadas no âmbito da propaganda fascista, ela mesma viciosa e repetitiva. O autoritarismo depende de sua repetibilidade, pois ele é uma máquina de produção de subjetividade pelo discurso. Daí a importância da falação odiosa.

Não pensamos no que dizemos. Para entender o conteúdo do que dizemos precisamos entender a forma com que dizemos. E isso é muito complicado. O diálogo o é mais ainda porque não nos ocupamos em prestar atenção no que pode ser um diálogo, ele mesmo um modo de conversar cheio de potências. Não fazemos a sua experiência na microfísica do cotidiano que poderia nos dizer algo sobre nossa potência de transformação em termos macrofísicos. Precisaríamos pensar mais, é verdade, mas vivemos no vazio do pensamento, ao qual podemos acrescentar o vazio da ação e o vazio do sentimento.

Atualmente, como em todas as épocas em que o autoritarismo é a prática de extermínio da política, os cidadãos são chamados diariamente ao treinamento do ódio. Sabemos que nenhum afeto é totalmente espontâneo, que nenhum sentimento é natural. O treino para o amor ou para o ódio se dá pela repetição dos discursos. É preciso repetir e aderir, copiar, imitar. Falar por falar. Repetir o que se diz na televisão e nos meios de comunicação. Ficar muito tempo ouvindo a mesma coisa para dizê-la de qualquer jeito. Ou dizer sem sequer saber o que se diz. No gesto do mero “compartilhar” sem ler que se tornou fácil (tanto quanto o “comprar com um clique” pela internet) sabemos que estamos na mera reprodutibilidade da informação que nada quer dizer. Fugimos do pensamento analítico. Fugimos do discernimento que ele exige.

Ora, a fuga do pensamento produz o seu vazio. Ela o retroalimenta. Só a interrupção do círculo vicioso do pensamento vazio é capaz de mudar o rumo autodestrutivo nos âmbitos micro e macropolíticos. O ódio é o afeto capitalista que fomenta a morte diabólica do diálogo. Política é produção simbólica. É sinônimo de democracia como laço amoroso entre pessoas que podem falar e se escutar não porque sejam iguais, mas porque deixaram de lado suas carapaças arcaicas e quebraram o muro de cimento onde suas subjetividades estão enterradas.

A política como perfuração de muros ideológicos depende da persistência da resistência. Depende de aprendermos o que pode ser um diálogo enquanto guerrilha metodológica que precisa ser mais forte do que o ódio nesse momento. Não acabaremos com o ódio pregando o amor, mas agindo em nome de um diálogo que não apenas mostre que o ódio é impotente, mas que o torne impotente.

Então precisamos começar a conversar de um outro modo, mesmo que pareça impossível.





(Ilustração: Leslie de Chavez)



sábado, 4 de fevereiro de 2017

EL RELOJ DE ARENA / O RELÓGIO DE AREIA, de Jorge Luis Borges







Está bien que se mida con la dura

Sombra que una columna en el estío

Arroja o con el agua de aquel río

En que Heráclito vio nuestra locura



El tiempo, ya que al tiempo y al destino

Se parecen los dos: la imponderable

Sombra diurna y el curso irrevocable

Del agua que prosigue su camino.



Está bien, pero el tiempo en los desiertos

Otra substancia halló, suave y pesada,

Que parece haber sido imaginada

Para medir el tiempo de los muertos.



Surge así el alegórico instrumento

De los grabados de los diccionarios,

La pieza que los grises anticuarios

Relegarán al mundo ceniciento



Del alfil desparejo, de la espada

Inerme, del borroso telescopio,

Del sándalo mordido por el opio

Del polvo, del azar y de la nada.



¿Quién no se ha demorado ante el severo

Y tétrico instrumento que acompaña

En la diestra del dios a la guadaña

Y cuyas líneas repitió Durero?



Por el ápice abierto el cono inverso

Deja caer la cautelosa arena,

Oro gradual que se desprende y llena

El cóncavo cristal de su universo.



Hay un agrado en observar la arcana

Arena que resbala y que declina

Y, a punto de caer, se arremolina

Con una prisa que es del todo humana.



La arena de los ciclos es la misma

E infinita es la historia de la arena;

Así, bajo tus dichas o tu pena,

La invulnerable eternidad se abisma.



No se detiene nunca la caída

Yo me desangro, no el cristal. El rito

De decantar la arena es infinito

Y con la arena se nos va la vida.



En los minutos de la arena creo

Sentir el tiempo cósmico: la historia

Que encierra en sus espejos la memoria

O que ha disuelto el mágico Leteo.



El pilar de humo y el pilar de fuego,

Cartago y Roma y su apretada guerra,

Simón Mago, los siete pies de tierra

Que el rey sajón ofrece al rey noruego,



Todo lo arrastra y pierde este incansable

Hilo sutil de arena numerosa.

No he de salvarme yo, fortuita cosa

De tiempo, que es materia deleznable.



Tradução de Miguel Tamen:




Está certo que se meça com a dura

Sombra que uma coluna no estio

Arrasta ou com a água daquele rio

Em que Heráclito viu nossa loucura



O tempo, já que ao tempo e ao destino

Se assemelham os dois: a imponderável

Sombra diurna e o curso irrevogável

Da água que prossegue o seu caminho.



Está certo, mas o tempo nos desertos

Outra substância achou, suave e pesada,

Que parece ter sido imaginada

Com o fim de medir o tempo dos mortos.



Surge assim o alegórico instrumento

Figura de estampa dos dicionários,

A peça que os cinzentos antiquários

Relegarão ao mundo, que é cinzento.



Do bispo desigual e da espada

Inerme, do confuso telescópio,

Do sândalo mordido pelo ópio

Do pó e do acaso e do nada.



Quem não se demorou ante o severo

E tétrico instrumento que acompanha

À direita do deus o seu gadanho

E cujas linhas repetiu Dürer?



Pelo ápice aberto o cone inverso

Deixa cair a minuciosa areia,

Ouro gradual que se desprende e enche

Seu côncavo cristal e universo.



Há um agrado em observar a arcana

Areia que resvala e que declina

E, quase ao cair, se amontoa

Com uma pressa que é de todo humana.



A areia dos ciclos é a mesma,

Infinita é a história da areia;

Assim sob as tuas ditas, tua pena,

Se abisma a impoluta eternidade.



A queda jamais é interrompida.

Não o cristal, mas eu me sangro. O rito

De decantar a areia é infinito

E com a areia se nos vai a vida.



Nos minutos da areia se computa

E crê no tempo cósmico: a história

Que encerra nos espelhos a memória

Ou que o mago Leteu tem dissoluta.



O pilar de fumo e o pilar de fogo,

Cartago e Roma e sua árdua guerra,

Simão o Mago, os seus pés de terra

Que o rei saxão ao norueguês promete,



Tudo arrasta e perde este incansável

Fio subtil da areia numerosa.

Não me hei-de eu salvar, fortuita coisa

De tempo, que é matéria degradável.




Tradução de Rodrigo Madeira:



Tudo bem que se meça com a dura

Sombra que uma coluna em pleno estio

Projeta ou com as águas que há no rio

Em que Heráclito viu nossa loucura.



O tempo, já que ao tempo e à própria sorte

Se parecem os dois: a imponderável

Sombra que é diurna e o curso irrevogável

Das águas que se lançam em seu norte.



Tudo bem, mas o tempo nos desertos

Outra substância achou, pesada e vento,

Imaginada pra medir o tempo

Dos que já mortos não estão por perto.



Surge assim o alegórico instrumento

Dessas gravuras que há nos dicionários,

A peça que esses grises antiquários

Relegarão ao mundo então cinzento.



Do desemparelhado bispo, e a espada

Inerme, do confuso telescópio,

Do sândalo se o morde o incenso do ópio,

E da poeira, do azar, do próprio nada.



Quem não se demorou diante do hostil

E severo instrumento que acompanha

Na destra mão do deus uma gadanha,

E cujas linhas Dürer repetiu?



Por um ápice entreaberto o cone inverso

Deixa vazar a cautelosa areia,

O ouro que aos poucos vai deixando cheia

A âmbula de cristal, seu universo.



É agradável ficar olhando a arcana

Areia descendente que escorrega

E apinha-se já próxima da queda

Com sua pressa inteiramente humana.



É a mesma a areia em ciclos, impassível,

A história das areias é infinita;

Assim, haja alegrias ou desditas,

A eternidade abisma-se invencível.



Não se detém jamais sua descida;

Sou eu, não o cristal, que sangra. O rito

De decantar areias é infinito

E com a areia vai-se a nossa vida.



Nos minutos da areia eu acredito

Sentir o tempo cósmico, ou a história

Que enjaula em seus espelhos a memória

Ou que dissolve o Letes inaudito.



O pilar da fumaça e o do carvão,

Cartago e Roma na difícil guerra,

Simão, o Mago, os sete pés de terra

Que oferta ao norueguês o rei saxão,



A tudo arrasta e perde este incansável

Sutil e fino fio da areia muita.

Não hei de me salvar, coisa gratuita,

De tempo, que é matéria degradável.




Tradução de Josely Vianna Baptista:



Está certo que se meça com a dura

Sombra que uma coluna no estio

Estende ou com a água daquele rio

Em que Heráclito viu nossa loucura



O tempo, já que ao tempo e à sorte

Se parecem os dois: a imponderável

Sombra diurna e o curso irrevogável

Da água que prossegue em seu norte.



Está certo, mas o tempo nos desertos

Outra substância achou, suave e pesada,

Que parece ter sido imaginada

Para medir o tempo dos mortos.



Surge assim o alegórico instrumento

Das gravuras dos dicionários,

A peça que os grises antiquários

Relegarão a esse mundo cinzento



Do bispo sem seu par, da espada

Inerme, do apagado telescópio,

Do sândalo mordido pelo ópio,

Do próprio pó, do acaso e do nada.



Quem não se demorou perante o ríspido

E tétrico instrumento que acompanha

Na destra mão do deus uma gadanha,

Com o risco por Dürer repetido?



Pelo ápice aberto o cone inverso

Deixa cair a cautelosa areia,

Ouro gradual que se solta e recheia

O côncavo cristal, seu universo.


É agradável observar a arcana

Areia que desliza e que declina

E, prestes a cair, se recombina

Com uma pressa inteiramente humana.



A areia dos ciclos é imutável,

A história da areia é infinita;

E, sob tuas venturas ou a desdita,

Se abisma a eternidade invulnerável.



Não se detém jamais essa caída.

Eu me dessangro, não o vidro. O rito

De decantar a areia é infinito

E com a areia vai-se nossa vida.



Nos minutos da areia o tempo cósmico

Acredito sentir: aquela história

Que guarda em seus espelhos a memória

Ou a que dissolveu o Letes mágico.



O pilar de fumaça e o que fumega,

Cartago e Roma e a perigosa guerra,

Simão, o Mago, os sete pés de terra

Que o rei saxão oferta ao da Noruega,



A tudo arrasta e perde este infalível

Fio sutil de areia numerosa.

Não vou salvar-me eu, fortuita coisa

De tempo, que é matéria perecível.




(O Fazedor,1960)





(Ilustração: Salvador Dali - a persistência da memoria)





quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

A METRÓPOLE QUE A GUERRA CONSTRUIU, de Alejo Carpentier








... muitas coisas que, embora pudessem 

parecer-nos sumamente extravagantes e ridículas, 

não deixavam de ser geralmente 

recebidas e aprovadas por outros grandes povos.



Descartes



De semana em semana ia prolongando o Primeiro Magistrado sua estadia em Marbella, despachando os assuntos do governo de uma pérgola um tanto pompeiana metida num labirinto de laranjeiras, no fundo do jardim. Logo cedo dava um passeio, ao longo do litoral, montado em seu cavalo Holofernes, forte alazão de manchas deslumbrantes, desbocado e bravo com todos, mas hipocritamente submetido a um amo que, todas as tardes, levava às quadras um balde de cerveja inglesa – Guiness, da melhor – sempre recebido com felizes relinchos. O Presidente tinha muitos motivos para estar contente naqueles meses, uma vez que a Nação nunca tinha conhecido uma época tão próspera nem tão feliz. Com esta Guerra Europeia – que, na verdade, e era melhor nem dizer, estava sendo uma bênção de Deus – o açúcar, a banana, o café, a balata atingiam cotações nunca vistas, fazendo engordar as contas bancárias, levantando fortunas, trazendo luxos e refinamentos que, até ontem, pareciam coisas de novela mundana ou de filmes das quase mitológicas figuras de Gabrielle Robinne, Pina Menichelli, Francesca Bertini ou Lydia Borelli. Rodeada de selvas milenares, a capital tinha-se transformado numa moderna selva de andaimes, de madeiras apontadas ao céu, de guindastes em ação, de escavadeiras mecânicas, num perpétuo ranger de poleias, marteladas em ferro e aço, misturadas de cimento, remanches e percussões, entre gritos de peões trepados e de peões em terra, apitos sirenes, transporte de areias e bufar de motores. As lojas ampliavam numa noite, amanhecendo com vitrines nunca vistas, onde alguns manequins de cera – outra novidade – celebravam primeiras-comunhões, apresentavam vestidos de noiva, trajes de alta costura, e até fardas de gabardina inglesa, bem cortadas e acabadas, para os militares de categoria. Umas máquinas fazedoras de melcocha instaladas nos portais do velho Mercado Real assombravam os transeuntes com o movimento ordenado de braços metálicos que mexiam, esticavam, compactavam, umas massas brancas, estriadas de vermelho que cheiravam a baunilha e a malvavisco. Proliferavam os escritórios, bancos, companhias de seguros, razões sociais, negócios de investimentos. O teodolito e as fitas transformavam terrenos alagados, ermos, potreiros de cabras, em extensões divididas, quadriculadas, demarcadas, que, de repente, depois de haverem sido desde tempos remotos “A horta do leproso”, “Fazenda guachinanga” ou “A invernada da Misia Petra”, passavam a se chamar “Bagatelle”, “West Side” ou “Armenoville”, fraccionando-se em parcelas que, escolhidas na planta, quase nunca edificadas, aumentavam de preço ao serem compradas e revendidas várias vezes por dia, em escritórios de muitas Underwood, ventiladores dourados, mapas em relevo, preciosas maquetas, conhaque e genebra no cofre, onde se pechinchava e se discutia entre bebidas, charutos, e chamadas de mulheres – era a grande novidade – que ofereciam suas atenções por telefone, com sotaque estrangeiro prometedor de grandes refinamentos a que se negavam – e era pior para elas – as muito recatadas putas nossas, para as quais o “assunto” tinha que ser de modo clássico, sem barroquismos, desonjuntamentos, nem fantasias, dessas que usavam em outras terras. As pianolas haviam invadido a capital, desenrolando e enrolando rolos de La Madelon, Rose of Picardy, It’s a long way to Tipperay, da aurora à meia noite. Nas bodegas de bisca e dominó, nos bares onde o Rum Santa Inês era abandonado pelo White Horse, só se falava de lucros que, devido à guerra, haviam feito com que todos se esquecessem da própria guerra, embora todas as pessoas – brancos, mestiços, cafuzos, pretos, índios, “tostados” –, tivessem se transformado em galicistas, tricolores, revanchistas, roseteiros, jonadarquistas, barresianos, afirmando de repente que nos desforraríamos do desastre de Sedán e as cegonhas de Hansí voltariam aos campanários da Alsácia e da Lorena. E, enquanto isso, havia nascido o primeiro arranha-céu – cinco andares com ático – inciando-se, imediatamente, a construção do Edifício Titã, que teria oito. E a velha cidade, com suas casas de dois andares, foi-se transformando logo numa Cidade Invisível. Invisível porque, passando de horizontal a vertical, já não havia olhos que a visse e a conhecessem. Cada arquiteto empenhado na tarefa de fazer edifícios mais altos que os anteriores, só pensava na estética particular de sua fachada, como se pudesse ser contemplada com cem metros de perspectiva, quando as ruas, previstas para a passagem de um só carro – de uma récua, de uma tropa de mulas, de uma carreta – só tinham seis ou sete varas de largura. Assim, recostado a uma coluna infinita, tratava em vão o transeunte de contemplar os primores de ornamentação perdidos em céu de abutres e de urubus. Sabia-se que, lá em cima, havia guirlandas, cornucópias, caduceus, ou até um templo grego empoleirado sobre o 5º andar, com cavalos de Fídias e tudo, mas só se sabia, porque esses alcazares, esses zimbórios, essas cornijas, desconhecidas, desterradas, de um Mercúrio – o da Câmara de Comércio –, de uma Minerva cuja lança atraía os raios de agosto, de aurigas, de gênios alados, santos cristãos que dominavam, isolados uns dos outros, um intrincado escalonamento de coberturas, telhados de piçarras, caixas d’água, chaminés, para-raios, e casinholas para mecanismos de elevador. Sem perceber, as pessoas viviam em Nínives nunca antes suspeitadas, em Westminsters vertiginosos, em Trianons volantes, com gárgulas, personagens de bronze que chegariam a velhos sem haverem tido contato com as pessoas de baixo, sempre atarefadas entre pórticos, arcadas, portais, que carregavam um enorme peso de construções inatingíveis para a vista. E como todo mundo estava ansioso por novidades, aqueles que viviam há dois séculos em mansões coloniais, abandonavam-nas apressadamente para instalar-se nas casas novas, modernas, de estilo romano, Chambord ou Stanford White. Assim, aconteceu que os vastos palácios da cidade antiga, com suas fachadas platerescas e brasões entalhados em pedra, passaram a ser habitados pelos andrajosos, piolhentos e sarnosos – o cego fingido com guia alugado, o bêbado de tremedeiras matinais, o acordeonista de perna de pau, o pobre aleijado que pede esmola pelo amor de Deus. As formosas galerias internas encheram-se de mulheres desgrenhadas, de crianças nuas, de rameiras e vagabundos, entre fumaça de fogareiros e roupas penduradas, ao mesmo tempo que os pátios serviam como teatro para espetáculos de Bataclã, boxe, brigas de galo e prestidigitador associado com batedor de carteira. Centenas de automóveis Ford – os mesmos que apareciam nos filmes de Mac Sennet – corriam pelas ruas mal pavimentadas, esquivando buracos, trepando nas calçadas, derrubando cestas de frutas, arrebentando vitrinas, num afã de velocidade jamais conhecido por estas latitudes. Tudo era apuro, pressa, corrida, impaciência. Em poucos meses de guerra, havia-se passado da vela à lâmpada, da cuia ao bidê, da garapa à coca-cola, do jogo do bicho à roleta, de Rocambole a Peal White, do burro de recados à bicicleta do telegrafista, do carro de mulas – com pompons e guizos – ao Renault em grande estilo que, para virar as esquinas estreitas da urbe, tinha de realizar dez ou doze manobras de avanço e retrocesso, antes de entrar numa ruela recém-batizada de “Boulevard”, promovendo uma tumultuada fuga de cabras que ainda abundavam em alguns bairros, pois era boa a erva que crescia entre os paralelepípedos. As monjas Ursulinas haviam inaugurado uma Gruta de Lourdes com portentos de luz elétrica, foi aberto um primeiro dancing com jazz-band vindo de Nova Orleans, trouxeram-se cavalos e jóqueis de Tijuana para correr num empetecado hipódromo nascido de pântanos, e, certa manhã, a antiga Vila qualificada de “Mui Fiel e Mui Ilustre”, em suas Atas de Fundação (1553) amanheceu com a plena consciência de ter-se transformado toda em uma senhora Capital do século XX. Fugiram as últimas serpentes – crótalos, jararacas, corais, cascavéis... – das urbanizações, calaram-se os pintassilgos e os fonógrafos abriram a boca. Houve torneio de bridge, desfiles de modas, banhos turcos, bolsa de valores e bordel de categoria, onde era vedada a entrada àqueles que tivessem a pele mais escura que o Ministro das Obras Públicas – tomado como paradigma de apreciação, uma vez que, se não era a ovelha negra do Gabinete, era, não há dúvida, sua ovelha mais “tostada”. Os policiais trocaram o sapato remendado por botinas regulamentares e os sinais de luvas brancas foram obedecidos por um trânsito cujo ruído se enriquecia com buzinas de várias peras de borracha, que permitiam tocar a valsa da “Viúva Alegre”, ou os primeiros compassos do Hino Nacional... Contemplando aquela urbe que crescia e crescia, o Primeiro Magistrado angustiava-se às vezes diante da modificação da paisagem vista das janelas do palácio. Metido ele também em negócios imobiliários manejados pelo Doutor Peralta, construía edifícios destruidores de um panorama tão longamente unido ao seu destino, que uma alteração de seu conjunto, repentinamente assinalado pela Maiorala Elmira – “olhe aquilo”... “olhe aquilo”... – sobressaltava-o com um mal presságio. As chaminés de fábricas erguidas por ele, fracionavam, quebravam, uma natureza ignorante, até há pouco tempo, das feias cruzetas das linhas do telégrafo. O Vulcão, o Vulcão-Avô, o Vulcão Tutelar, morada de antigos Deuses, símbolo e emblema, cujo cone figurava no escudo nacional, era menos vulcão – menos Morada de Antigos Deuses – quando insinuava sua majestade, nas manhãs nubladas, com pudores de rei humilhado, de monarca sem corte, sobre as fumaças imediatas e espessas, despedidas por quatro altas bocas, da grande Central Elétrica, recém-inaugurada. Ao verticalizar-se, ao geometrizar-se, seccionando encostas de montanhas, colinas, visões de vales longínquos, fundos de verdores, a cidade ia-se fechando sobre seu Príncipe. E como a população aumentava com uma crescente afluência de camponeses, trabalhadores braçais, peões, artesãos de província, atraídos pela prosperidade da Metrópole, e havia, com isso, uma maior carga de avós bilharziosos, de organismos danificados por velhos impaludismos, de crianças furunculosas, comidas de amebas – vítimas maiores das cíclicas epidemias de gripes malignas, vindas não se sabe de onde – multiplicavam-se as agências funerárias, fechando seu cerco de lutos e ataúdes em torno do Palácio Presidencial – “Aí vem A Coruja!” – exclamava a Maiorala Elmira, quando via aparecer, na Praça Maior, algum carro de defunto a caminho do cemitério. – “Que vá só! ” – respondia o Primeiro Magistrado, unindo o indicador e mindinho das duas mãos num signo esconjuntório de Sombras Malignas. – “Nem Napoleão derruba o senhor” – concluía a Maiorala Elmira, dando presença atual a um personagem cujo nome era, para ela, expressão do máximo poder outorgado por Deus a um ser humano, uma vez que, saído do nada, nascido num presépio por assim dizer, havia chegado a dominar o mundo – sem deixar, por isso, de ser bom filho, bom irmão, amigo de seus amigos (lembrou-se até de sua lavadeira quando se fez grande!) e sempre macho de fêmeas pra lá de boas, como essa, do Caribe, que o mantinha preso por onde eu já sei, porque a mulata e a mestiça nascem com o Demônio entre as pernas, e aquele que provar isso... (Havia homens que abandonavam tudo, que desapareciam, fugiam de suas casas, ao chamado da Oração à Alma Solitária, manejada pelas Mulheres do Grande Poder que, com lamparinas acesas atrás da porta, repetiam, tantas como as contas do rosário: “Que como raivoso corra atrás de mim. Amém”...)





(O Recurso do Método, tradução de Beatriz A. Cannabrava)





(Ilustração: Jacek Yerka)