terça-feira, 29 de julho de 2014

A POLÔNIA TRAÍDA, de Max Hastings






Os franceses não estavam dispostos a lançar uma grande ofensiva contra a linha Siegfried, como insistia Winston Churchill, menos ainda a provocar uma retaliação bombardeando a Alemanha. O governo britânico, da mesma forma, negou-se a ordenar que a RAF atacasse alvos terrestres alemães. Um membro conservador do Parlamento, Leo Amery, escreveu desdenhosamente sobre o primeiro-ministro Neville Chamberlain: "Por abominar a guerra com paixão, ele estava decidido a promovê-la o mínimo possível." O Times publicava editoriais que, para os leitores poloneses, pareciam zombar de sua aflição: "Na agonia de sua terra martirizada, talvez seja de alguma forma um consolo para os poloneses saber que contam com a simpatia, e mesmo com a reverência, não apenas de seus aliados na Europa Ocidental, mas de todos os povos civilizados do mundo."

Algumas vezes, argumenta-se que em em meados de setembro de 1939, com a maior parte do exército alemão concentrada na Polônia, os Aliados tiveram uma oportunidade ideal para lançar uma ofensiva na Frente Ocidental. Mas a França estava ainda menos preparada psicológica do que militarmente para uma iniciativa dessa natureza, e a pequena força expedicionária da Grã-Bretanha, ainda em trânsito para o continente, pouco poderia contribuir. Os alemães provavelmente teriam repelido qualquer ataque sem grande prejuízo para suas operações no leste, e a inércia dos governos francês e britânico refletia o estado de espírito de seus cidadãos. Uma secretária de Glasgow, chamada Pam Ashford, escreveu em seu diário, em 7 de setembro: "Praticamente todos acham que a guerra acabará em três meses (...) Muitos sustentam que, quando a Polônia for esmagada, não haverá muito sentido em continuar."

Os poloneses deveriam ter previsto a passividade de seus aliados, mas seu cinismo era inacreditável. Um historiador moderno, Andrzej Suchcitz, escreveu: "O governo polonês e as autoridades militares foram enganados e traídos pelos Aliados Ocidentais. Não havia intenção de dar à Polônia qualquer apoio militar efetivo." Enquanto Varsóvia encarava sua ruína, Stefan Starzynski declarava, numa transmissão radiofônica: "O destino nos confiou a obrigação de defender a honra da Polônia." Um poeta polonês louvaria a atitude desafiadora do prefeito em termos sentimentais:


E ele, quando a cidade era apenas uma massa crua e vermelha,
Disse: "Não me entrego." Que as casas queimem!
Que minhas orgulhosas realizações virem pó sob os bombardeios.
E que importa que um túmulo surja dos meus sonhos?
Para você, que um dia talvez venha aqui, lembrar
Que algumas coisas são mais preciosas do que o mais belo muro da cidade.


No fim da terceira semana de campanha, a resistência polonesa foi superada. A capital só não foi ocupada porque os alemães queriam destruí-la antes de reivindicarem as ruínas; hora após hora, dia após dia, o bombardeio impiedoso continuava. Uma enfermeira, Jadwiga Sosnkowska, descreveu cenas em seu hospital, nos arredores de Varsóvia, em 25 de setembro:


A procissão de feridos vindos da cidade era uma infindável marcha da morte. As luzes se apagaram, e todos nós, médicos e enfermeiras, tivemos de andar com velas nas mãos. Como a sala de operação e o posto de primeiros socorros tinham sido destruídos, o trabalho era feito nas salas de aula, em mesas comuns, que tiveram de ser limpos com álcool (...) Enquanto seres humanos arrasados eram estirados na mesa, o cirurgião tentava inutilmente salvar as vidas que lhe escorregavam pelas mãos (...) Era uma tragédia após a outra. Em um desses casos, a vítima era uma menina de dezesseis anos. Tinha cabelos dourados lindíssimos, o rosto delicado como uma flor, e seus lindos olhos azuis, cor de safira, estavam cheios de lágrimas. As duas pernas, até os joelhos, foram reduzidas a uma massa sangrenta, onde era impossível distinguir osso e carne; ambas tiveram de ser amputadas acima dos joelhos. Antes que o cirurgião começasse, debrucei-me sobre aquela menina inocente para beijar a testa pálida, passar as mãos impotentes em seus cabelos dourados. Ela morreu, serena, no decorrer da manhã, como uma flor arrancada por mão impiedosa.


Soldados profissionais raramente podem ceder ao sentimentalismo quando falam sobre os horrores da guerra, mas a posteridade deve repudiar a satisfação dos generais da Alemanha em relação ao caráter de seu líder nacional e à aventura assassina em que se tornaram cúmplices. Erich van Manstein é considerado por muitos como o melhor general alemão na guerra; posteriormente, ele se orgulhava ao alegar ter feito sua parte como oficial e cavalheiro. No entanto, seus escritos durante a campanha polonesa e depois dela revelam a insensibilidade característica de sua casta. Ele deleitou-se com a invasão: "É uma grande decisão do Führer, tendo em vista a atitude das potências ocidentais até agora. Sua proposta para resolver a questão polonesa foi tão cortês que a Inglaterra e a França - se realmente quisessem a paz - deveriam ter obrigado a Polônia a aceitar." Pouco após o início da campanha, Manstein visitou um grande-comando que liderara anteriormente: "Foi emocionante ver a equipe tão feliz quando apareci de repente (...) Cranz [seu sucessor] me disse que era um prazer comandar uma divisão tão bem treinada na guerra."

Em carta à sua mulher, Manstein descreveu sua rotina pessoal durante a campanha, em que servia como chefe do estado-maior do Rundstedt no Grupo de Exércitos do Sul: "Acordo às 6h30, mergulho na água [para nadar], no gabinete às 7 horas. Relatórios matinais, café, depois trabalho ou viagens com R[unsdstedt]. Ao meio-dia, cozinhas de campanha aqui. Depois, uma pausa de meia hora. À noite, depois do jantar junto com oficiais do estado-maior, como no almoço, os relatórios da noite chegam. E assim continua até 23h30." É flagrante o contraste entre a serenidade do quartel-general do exército e a vasta tragédia humana que suas operações haviam desencadeado. Manstein assinou uma ordem para que as forças alemães que cercavam Varsóvia atirassem contra quaisquer refugiados que tentassem fugir: considerava-se que seria mais fácil forçar um desfecho da campanha e evitar uma batalha nas ruas se os habitantes não pudessem escapar do bombardeio da capital. No entanto, ele era um homem tão melindroso que às vezes deixava a sala onde Rundstedt estava por repulsa à linguagem obscena do chefe. Em 25 de setembro, ele se deleitou com uma visita congratulatória de Hitler, escrevendo para a mulher: "Foi bom ver como os soldados se alegram, em toda parte, quanto o Führer passa num carro." Em 1939, o corpo de oficiais da Wehrmacht já demonstrava a falência moral que caracterizaria sua conduta até 1945.

Um oficial da cavalaria polonesa, Klemens Rudnick, descreveu os apuros de seu regimento e de suas amadas montarias em Varsóvia, em 27 de setembro, a última noite antes que a cidade se rendesse: "Chamas vermelhas, vivas, iluminavam nossos cavalos, que estavam quietos, imóveis, perto dos muros do parque Lazienki, como esqueletos selados. Alguns estavam mortos; outros sangravam, expondo ferimentos enormes. Cenzor, o cavalo de Kowalski, ainda estava vivo, mas jazia com as tripas para fora. Não fazia muito tempo havia conquistado a Copa Desafio do exército, em Tarnopol. Fora nosso orgulho. Um tiro no ouvido acabou com seu sofrimento. No dia seguinte, provavelmente, alguém que precisasse aliviar a fome cortaria um pedaço de seu lombo."

Varsóvia capitulou em 28 de setembro. O pequeno capitão Krysk, do terceiro esquadrão de Rudnicki, declarou, emocionado, que rejeitava a ordem de rendição: "Pela manhã, atacaremos os alemães para preservar a tradição, de que o 9º [Regimento] de Lanceiros jamais se rende." Rudnicki o dissuadiu; juntos, os oficiais esconderam os estandartes do regimento na igreja de Santo Antônio, na rua Senatorska, o único prédio ainda intacto entre hectares de entulho. Rudnick refletiu, com pesar, que o exército polonês deveria ter se posicionado em profundidade para uma ação defensiva mais demorada, em vez de se desdobrar em uma fraca linha de vanguarda que certamente seria rompida. Isso, porém, estaria "em desacordo com nossa aspiração natural - e com nossas tradições militares e esperanças de nos tornarmos uma grande potência."

Em 29 de setembro, o exército Modlin, ao norte de Varsóvia, rendeu-se aos alemães, que tomaram trinta mil prisioneiros. A resistência organizada diminuiu gradualmente; a península de Hel caiu em 1º de outubro; o último confronto registrado ocorreu em Kock, ao norte de Lublin, no dia 5. Centenas de milhares de homens caíram nas mãos dos alemães, enquanto muitos outros faziam o possível para fugir. O jovem piloto B. J. Solak emocionou-se ao encontrar um coronel-aviador sentado debaixo de uma árvore, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Feliks Lachman foi um dos poloneses cujos pensamentos se voltaram para a leitura recente de E o vento levou. Fugindo de casa, pensou: "Por mais arrasada que estivesse a propriedade Tara, Scarlet O'Hara atravessou o fogo e a água para chegar ao lugar a que ela sabia pertencer. Nós tínhamos deixado, de uma vez e para sempre, homens e coisas que formavam o ambiente social, intelectual e emocional de nossas vidas. Andávamos no vácuo, a esmo." Depois de um ataque aéreo na cidade de Krzemieniec, Adam Kruczkiewcz viu, na rua, um velho judeu numa crise de histeria "em cima do corpo da mulher (...) proferindo uma enfiada de xingamentos e blasfêmias e gritando: "Não existe Deus! Hitler e as bombas são os únicos deuses! Não existe graça ou piedade no mundo!"


(Inferno - o mundo em guerra 1939 - 1945; tradução de Berilo Vargas)



(Ilustração: Dürer - os quatro cavaleiros do apocalipse)



sábado, 26 de julho de 2014

UMA NOITE, de Afonso Henriques Neto








o tio cuspia pardais de cinco em cinco minutos.
esta grama de lágrimas forrando a alma inteira
(conforme se diz da jaula de nervos)
recebe os macios passos de toda a família
na casa evaporada

mais os vazios passos
de ela própria menina.

a avó puxava linhas de cor de dentro dos olhos.
uma gritaria de primos e bruxas escalava o vento
escalpelava a tempestade
pedaços de romã podre
no bolor e charco do tanque.

o pai conduzia a festa
como um barqueiro
puxando peixes mortos

nós
os irmãos
jogávamos no fogo
dentaduras pétalas tranças
fotografias cuspes aniversários
e sempre
uma canção
só cal e ossos
a mãe de nuvem parindo orquídeas no cimento.



(Ilustração: Cícero Dias)



quarta-feira, 23 de julho de 2014

UM ESTRANHO MILAGRE NUMA MORGUE DO SÉCULO XVI E A ARTE DE MATEO COLOMBO DE DAR PRAZER ÀS MULHERES, de Federico Andahazi

  





Desde que a bula papal de Bonifácio VIII proibiu a dissecação de cadáveres, obter corpos era um trabalho perigoso. Mas havia em Pádua, naqueles tempos, uma espécie de mercado clandestino de mortos, cujo membro mais solvente era Juliano Batista, que pôs, de certa maneira, as coisas em ordem. Depois da passagem de Marco Antonio della Torre pela Cátedra de Anatomia da Universidade, seus discípulos não vacilavam em abrir sepulturas, saquear os necrotérios dos hospitais e até despendurar defuntos das forcas exemplares. O próprio Marco Antonio teve que refrear a turba de pequenos anatomistas para que não assassinassem passantes durante a noite. Tanto era o afã, que precisavam cuidar-se uns dos outros; tanta era a necrofilia, que o mais alto elogio a que uma mulher podia aspirar era:


- Que belo cadáver tendes - diziam antes de degolá-la.


O seu predecessor mais remoto, Mundini dei Luzzi, que duzentos e cinquenta anos antes fizera a primeira dissecação anatômica pública, de dois cadáveres, na Universidade de Bolonha, pelo menos tivera o infinito decoro de não abrir a cabeça, "morada da alma e da razão".


Juliano Batista tinha, por assim dizer, o patrimônio do mercado de cadáveres; comprava-os dos parentes mais ou menos indigentes, dos algozes e dos coveiros. Após deixá-los em condições apresentáveis, revendia para os universitários, catedráticos e necrófilos mais ou menos reputados.


Sabia, no entanto, que para Mateo Colombo não era preciso engalanar a mercadoria - engano, aliás, impossível com um anatomista -, de modo que poupava o trabalho de corar as faces, devolver o brilho aos olhos com terebintina e às unhas, com verniz de ultramar.


Se o anatomista precisasse, por exemplo, examinar um fígado, Juliano Batista extirpava o órgão, recheava o espaço vazio com uma estopa ou trapos, separava a mercadoria, fechava o cadáver costurando-o com um fio de seda e, finalmente, vendia-o para outro cliente. Se um corpo estivesse irrecuperável, Juliano Batista encontrava para tudo um destino; coisa alguma era jogada fora: os cabelos para a corporação dos barbeiros, e os dentes para o grêmio dos ourives.


A dissecação de cadáveres era tão ilegal quanto corriqueira. A bula de Bonifácio VIII já não tinha, na prática, qualquer vigência. Contudo, o reitor a mantinha em atividade exclusivamente para Mateo Colombo. O anatomista bem sabia que Alessandro Legnano fazia vista grossa para como todos, inclusive os estudantes, menos para com ele. De modo que devia agir com o maior dos cuidados.


Nos últimos tempos Mateo Colombo havia comprado cerca de dez cadáveres, todos pertencentes a mulheres. Confeccionava listas escrupulosas dos corpos dissecados, nas quais anotava: nome, idade, motivo da morte, descrição e até desenhos, não só dos órgãos examinados, mas também da expressão de cada um dos cadáveres.


Mas suas práticas eram mais inclinadas à carne viva do que à morta. Sobretudo a certa carne em particular, que, por outro lado, não era em absoluto frequente no interior da Universidade, pois era carne proibida. Interdição esta que o reitor se empenhava em fazer cumprir com mais escrúpulos do que sucesso. Pelos estatutos da Universidade, de fato, era taxativamente proibido o ingresso de mulheres. Contudo, por razões bem menos relacionadas com os assuntos da ciência do que com os ímpetos da carne, eram mais ou menos frequentes as visitas furtivas de camponesas, vindas do fics lindante à abadia, que vez por outra ofereciam uma noite de júbilo aos doutores e alunos.


Uma das formas de entrar na Universidade - além de escalar os muros - era confundir-se entre os mortos que ingressavam na morgue uma vez por semana, no interior do carro público. Assim, ocultas sob um manto, as mulheres permaneciam quietas até ficarem sozinhas no subsolo da morgue, onde eram recolhidas pelos seus amantes.


Certa vez, impaciente talvez pela longa e forçada continência, um prestigioso doutor despiu uma das camponesas ali mesmo, na morgue, em companhia de todos os mortos, e bem no momento glorioso de uma sublime fellatio o pároco da Universidade, que momentos antes vira entrar o "cadáver" que agora gemia, gritava e se remexia, ingressou no lúgubre subsolo. O ilustre doutor levou um momento para notar a presença do deífico visitante, que, absorto, contemplava tanto as esmirradas pernas do catedrático quanto a sua não tão esmirrada vara palpitante esguichando sobre os bem proporcionados restos da "defunta". Quando, depois do último estertor, viu o pároco de pé no vão da porta, só atinou a gritar, com um trejeito desorbitado:


- Miracolo! Miracolo! - de imediato começou a perorar sobre a sua recente confirmação das teorias aristotélicas acerca do hálito que o sêmen transporta em seu caudal, o qual, segundo o metafísico, produz a vida. E por que não? Se o sêmen é capaz de insuflar ânimo vital na matéria e engendrar, como não haveria de ser possível, pela mesma razão, que ressuscitasse os mortos, argumentava ele enquanto ajeitava a vara - ainda um pouco dura - por baixo das roupas. E após concluir esse enlouquecido solilóquio perdeu-se do outro lado da porta, correndo escada acima aos gritos de "Miracolo! Miracolo!".


O fato é que Mateo Colombo tinha suas boas razões para introduzir mulheres na Universidade. E, decerto, as mulheres que o visitavam secretamente também tinham as delas.


As mãos de Mateo Colombo sabiam tocar numa mulher, como as mãos de um músico sabem tocar seu instrumento. Os imprecisos limites entre a ciência e a arte faziam de suas mãos o instrumento mais sublime, mais elevado e mais difícil: a efêmera arte de dar prazer; disciplina que, como a da conversação, não deixa traços nem testemunhas.




(O Anatomista; tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman)





(Ilustração: Rembrandt - lição de anatomia do dr. Tulp)



domingo, 20 de julho de 2014

COGITO, de Torquato Neto


    




eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.




(Ilustração: De Chirico - le cerveau de l'enfant)



quinta-feira, 17 de julho de 2014

GATO GATO GATO, de Otto Lara Resende




      




Familiar aos cacos de vidro inofensivos, o gato caminhava molengamente por cima do muro. O menino ia erguer-se, apanhar um graveto, respirar o hálito fresco do porão. Sua úmida penumbra. Mas a presença do gato. O gato, que parou indeciso, o rabo na pachorra de uma quase interrogação.

Luminoso sol a pino e o imenso céu azul, calado, sobre o quintal. O menino pactuando com a mudez de tudo em torno — árvores, bichos, coisas. Captando o inarticulado segredo das coisas. Inventando um ser sozinho, na tontura de imaginações espontâneas como um gás que se desprende.

Gato — leu no silêncio da própria boca. Na palavra não cabe o gato, toda a verdade de um gato. Aquele ali, ocioso, lento, emoliente — em cima do muro. As coisas aceitam a incompreensão de um nome que não está cheio delas. Mas bicho, carece nomear direito: como rinoceronte, ou girafa se tivesse mais uma sílaba para caber o pescoço comprido. Girafa, girafa. Gatimonha, gatimanho. Falta um nome completo, felinoso e peludo, ronronante de astúcias adormecidas. O pisa-macio, as duas bandas de um gato. Pezinhos de um lado, pezinhos de outro, leve, bem de leve para não machucar o silêncio de feltro nas mãos enluvadas.

O pelo do gato para alisar. Limpinho, o quente contato da mão no dorso, corcoveante e nodoso à carícia. O lânguido sono de morfinômano. O marzinho de leite no pires e a língua secreta, ágil. A ninhada de gatos, os vacilantes filhotes de olhos cerrados. O novelo, a bola de papel — o menino e o gato brincando. Gato lúdico. O gatorro, mais felino do que o cachorro é canino. Gato persa, gatochim — o espirro do gato de olhos orientais. Gato de botas, as aristocráticas pantufas do gato. A manha do gato, gatimanha: teve uma gata miolenta em segredo chamada Alemanha.

Em cima do muro, o gato recebeu o aviso da presença do menino. Ondulou de mansinho alguns passos denunciados apenas na branda alavanca das ancas. Passos irreais, em cima do muro eriçado de cacos de vidro. E o menino songamonga, quietinho, conspirando no quintal, acomodado com o silêncio de todas as coisas. No se olharem, o menino suspendeu a respiração, ameaçando de asfixia tudo que em torno dele com ele respirava, num só sistema pulmonar. O translúcido manto de calma sobre o claustro dos quintais. O coração do menino batendo baixinho. O gato olhando o menino vegetalmente nascendo do chão, como árvore desarmada e inofensiva. A insciência, a inocência dos vegetais.

O ar de enfado, de sabe-tudo do gato: a linha da boca imperceptível, os bigodes pontudos, tensos por hábito. As orelhas acústicas. O rabo desmanchado, mas alerta como um leme. O pequeno focinho úmido embutido na cara séria e grave. A tona dos olhos reverberando como laguinhos ao sol. Nenhum movimento na estátua viva de um gato. Garras e presas remotas, antigas.

Menino e gato ronronando em harmonia com a pudica intimidade do quintal. Muro, menino, cacos de vidro, gato, árvores, sol e céu azul: o milagre da comunicação perfeita. A comunhão dentro de um mesmo barco. O que existe aqui, agora, lado a lado, navegando. A confidência essencial prestes a exalar, e sempre adiada. E nunca. O gato, o menino, as coisas: a vida túmida e solidária. O teimoso segredo sem fala possível. Do muro ao menino, da pedra ao gato: como a árvore e a sombra da árvore.

O gato olhou amarelo o menino. O susto de dois seres que se agridem só por se defenderem. Por existirem e, não sendo um, se esquivarem. Quatro olhos luminosos — e todas as coisas opacas por testemunha. O estúpido muro coroado de cacos de vidro. O menino sentado, tramando uma posição mais prática. O gato de pé, vigilantemente quadrúpede e, no equilíbrio atento, a centelha felina. Seu íntimo compromisso de astúcia.

O menino desmanchou o desejo de qualquer gesto. Gaturufo, inventou o menino, numa traiçoeira tentativa de aliança e amizade. O gato, organizado para a fuga, indagava. Repelia. Interrogava o momento da ruptura — como um toque que desperta da hipnose. Deu três passos de veludo e parou, retesando as patas traseiras, as patas dianteiras na iminência de um bote para onde? Um salto acrobático sobre um rato atávico, inexistente.

Por um momento, foi como se o céu desabasse de seu azul: duas rolinhas desceram vertiginosas até o chão. Beliscaram levianas um grãozinho de nada e de novo cortaram o ar excitadas, para longe.

O menino forcejando por nomear o gato, por decifrá-lo. O gato mais igual a todos os gatos do que a si mesmo. Impossível qualquer intercâmbio: gato e menino não cabem num só quintal. Um muro permanente entre o menino e o gato. Entre todos os seres emparedados, o muro. A divisa, o limite. O odioso mundo de fora do menino, indecifrável. Tudo que não é o menino, tudo que é inimigo.

Nenhum rumor de asas, todas fechadas. Nenhum rumor.

Ah, o estilingue distante — suspira o menino no seu mais oculto silêncio. E o gato consulta com a língua as presas esquecidas, mas afiadas. Todos os músculos a postos, eletrizados. As garras despertas unhando o muro entre dois abismos.

O gato, o alvo: a pedrada passou assobiando pela crista do muro. O gato correu elástico e cauteloso, estacou um segundo e despencou-se do outro lado, sobre o quintal vizinho. Inatingível às pedras e ao perigoso desafio de dois seres a se medirem, sumiu por baixo da parreira espapaçada ao sol.

O tiro ao alvo sem alvo. A pedrada sem o gato. Como um soco no ar: a violência que não conclui, que se perde no vácuo. De cima do muro, o menino devassa o quintal vizinho. A obsedante presença de um gato ausente. Na imensa prisão do céu azul, flutuam distantes as manchas pretas dos urubus. O bailado das asas soltas ao sabor dos ventos das alturas.

O menino pisou com o calcanhar a procissão de formigas atarantadas. Só então percebeu que lhe escorria do joelho esfolado um filete de sangue. Saiu manquitolando pelo portão, ganhou o patiozinho do fundo da casa. A sola dos pés nas pedras lisas e quentes. À passagem do menino, uma galinha sacudiu no ar parado a sua algazarra histérica.

A casa sem aparente presença humana.

Agarrou-se à janela, escalou o primeiro muro, o segundo, e alcançou o telhado. Andava descalço sobre o limo escorregadio das telhas escuras, retendo o enfadonho peso do corpo como quem segura a respiração. O refúgio debaixo da caixa-d'água, a fresca acolhida da sombra. Na caixa, a água gorgolejante numa golfada de ar. Afastou o tijolo da coluna e enfiou a mão: bolas de gude, o canivete roubado, dois caramujos com as lesmas salgadas na véspera. O mistério. Pessoal, vedado aos outros. Uma pratinha azinhavrada, o ainda perfume da caixa de sabonete. A estampa de São José, lembrança da Primeira Comunhão.

Apoiado nos cotovelos, o menino apanhou uma joaninha que se encolheu, hermética. A joaninha indevassável, na palma da mão. E o súbito silêncio da caixa-d'água, farta, sua sede saciada.

Do outro lado da cidade, partiram solenes quatro badaladas no relógio da Matriz. O menino olhou a esfera indiferente do céu azul, sem nuvens. O mundo é redondo, Deus é redondo, todo segredo é redondo.

As casas escarrapachadas, dando-se as costas, os quintais se repetindo na modorra da mesma tarde sem data.

Até que localizou embaixo, enrodilhado à sombra, junto do tanque: um gato. Dormindo, a cara escondida entre as patas, a cauda invisível. Amarelo, manchado de branco de um lado da cabeça: era um gato. Na sua mira. Em cima do muro ou dormindo, rajado ou amarelo, todos os gatos, hoje ou amanhã, são o mesmo gato. O gato-eterno.

O menino apanhou o tijolo com que vedava a entrada do mistério. Lá embaixo — alvo fácil — o gato dormia inocente a sua sesta ociosa. Acertar pendularmente na cabeça mal adivinhada na pequena trouxa felina, arfante. Gato, gato, gato: lento bicho sonolento, a decifrar ou a acordar?

A matar. O tijolo partiu certeiro e desmanchou com estrondo a tranquila rodilha do gato. As silenciosas patinhas enluvadas se descompassaram no susto, na surpresa do ataque gratuito, no estertor da morte. A morte inesperada. A elegância desfeita, o gato convulso contorcendo as patas, demolida a sua arquitetura. Os sete fôlegos vencidos pela brutal desarmonia da morte. A cabeça de súbito esmigalhada, suja de sangue e tijolo. As presas inúteis, à mostra na boca entreaberta. O gato fora do gato, somente o corpo do gato. A imobilidade sem a viva presença imóvel do sono. O gato sem o que nele é gato. A morte, que é ausência de gato no gato. Gato — coisa entre as coisas. Gato a esquecer, talvez a enterrar. A apodrecer.

O silêncio da tarde invariável. O intransponível muro entre o menino e tudo que não é o menino. A cidade, as casas, os quintais, a densa copa da mangueira de folhas avermelhadas. O inatingível céu azul.

Em cima do muro, indiferente aos cacos de vidro, um gato — outro gato, o sempre gato — transportava para a casa vizinha o tédio de um mundo impenetrável. O vento quente que desgrenhou o mormaço trouxe de longe, de outros quintais, o vitorioso canto de um galo.



(O elo partido e outras histórias)




(Ilustração: Aldemir Martins)





segunda-feira, 14 de julho de 2014

JOGOS FLORAIS, de Cacaso







Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.
Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.
Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.

(será mesmo com dois esses
que se escreve paçarinho?)




(Ilustração: Inimá de Paula - paisagem)



sexta-feira, 11 de julho de 2014

A MAIS LINDA MULHER DA CIDADE, de Charles Bukowski





     

Das 5 irmãs, Cass era a mais moça e a mais bela. E a mais linda mulher da cidade. Mestiça de índia, de corpo flexível, estranho, sinuoso que nem cobra e fogoso como os olhos: um fogaréu vivo ambulante. Espírito impaciente para romper o molde incapaz de retê-lo. Os cabelos pretos, longos e sedosos, ondulavam e balançavam ao andar. Sempre muito animada ou então deprimida, com Cass não havia esse negócio de meio termo. Segundo alguns, era louca. Opinião de apáticos. Que jamais poderiam compreendê-la. Para os homens, parecia apenas uma máquina de fazer sexo e pouco estavam ligando para a possibilidade de que fosse maluca. E passava a vida a dançar, a namorar e beijar. Mas, salvo raras exceções, na hora agá sempre encontrava forma de sumir e deixar todo mundo na mão.

As irmãs a acusavam de desperdiçar sua beleza, de falta de tino; só que Cass não era boba e sabia muito bem o que queria: pintava, dançava, cantava, dedicava-se a trabalhos de argila e, quando alguém se feria, na carne ou no espírito, a pena que sentia era uma coisa vinda do fundo da alma. A mentalidade é que simplesmente destoava das demais: nada tinha de prática. Quando seus namorados ficavam atraídos por ela, as irmãs se enciumavam e se enfureciam, achando que não sabia aproveitá-los como mereciam. Costumava mostrar-se boazinha com os feios e revoltava-se contra os considerados bonitos — “uns frouxos”, dizia, “sem graça nenhuma. Pensam que basta ter orelhinhas perfeitas e nariz bem modelado… Tudo por fora e nada por dentro…” Quando perdia a paciência, chegava às raias da loucura; tinha um gênio que alguns qualificavam de insanidade mental.

O pai havia morrido alcoólatra e a mãe fugira de casa, abandonando as filhas. As meninas procuraram um parente, que resolveu interná-las num convento. Experiência nada interessante, sobretudo para Cass. As colegas eram muito ciumentas e teve que brigar com a maioria. Trazia marcas de lâmina de gilete por todo o braço esquerdo, de tanto se defender durante suas brigas. Guardava, inclusive, uma cicatriz indelével na face esquerda, que em vez de empanar-lhe a beleza, só servia para realçá-la.

Conheci Cass uma noite no West End Bar. Fazia vários dias que tinha saído do convento. Por ser a caçula entre as irmãs, fora a última a sair. Simplesmente entrou e sentou do meu lado. Eu era provavelmente o homem mais feio da cidade — o que bem pode ter contribuído.

— Quer um drinque? — perguntei.

— Claro, por que não?

Não creio que houvesse nada de especial na conversa que tivemos essa noite. Foi mais a impressão que causava. Tinha me escolhido e ponto final. Sem a menor coação. Gostou da bebida e tomou varias doses. Não parecia ser de maior idade, mas, não sei como, ninguém se recusava a servi-la. Talvez tivesse carteira de identidade falsa, sei lá. O certo é que toda vez que voltava do toalete para sentar do meu lado, me dava uma pontada de orgulho. Não só era a mais linda mulher da cidade como também das mais belas que vi em toda minha vida. Passei-lhe o braço pela cintura e dei-lhe um beijo.

— Me acha bonita? — perguntou.

— Lógico que acho, mas não é só isso… é mais que uma simples questão de beleza…

— As pessoas sempre me acusam de ser bonita. Acha mesmo que eu sou?

— Bonita não é bem o termo, e nem te faz justiça.

Cass meteu a mão na bolsa. Julguei que estivesse procurando um lenço. Mas tirou um longo grampo de chapéu. Antes que pudesse impedir, já tinha espetado o tal grampo, de lado, na ponta do nariz. Senti asco e horror.

Ela me olhou e riu.

— E agora, ainda me acha bonita? O que é que você acha agora, cara?

Puxei o grampo, estancando o sangue com o lenço que trazia no bolso. Diversas pessoas, inclusive o sujeito que atendia no balcão, tinham assistido a cena. Ele veio até a mesa:

— Olha — disse para Cass, — se fizer isso de novo, vai ter que dar o fora. Aqui ninguém gosta de drama.

— Ah, vai te foder, cara!

— É melhor não dar mais bebida pra ela — aconselhou o sujeito.

— Não tem perigo — prometi.

— O nariz é meu — protestou Cass, — faço dele o que bem entendo.

— Não faz, não — retruquei, — porque isso me dói.

— Quer dizer que eu cravo o grampo no nariz e você é que sente dor?

— Sinto, sim. Palavra.

— Está bem, pode deixar que eu não cravo mais. Fica sossegado.

Me beijou, ainda sorrindo e com o lenço encostado no nariz. Na hora de fechar o bar, fomos para onde eu morava. Tinha um pouco de cerveja na geladeira e ficamos lá sentados, conversando. E só então percebi que estava diante de uma criatura cheia de delicadeza e carinho. Que se traía sem se dar conta. Ao mesmo tempo que se encolhia numa mistura de insensatez e incoerência. Uma verdadeira preciosidade. Uma joia, linda e espiritual. Talvez algum homem, uma coisa qualquer, um dia a destruísse para sempre. Fiquei torcendo para que não fosse eu.

Deitamos na cama e, depois que apaguei a luz, Cass perguntou:

— Quando é que você quer transar? Agora ou amanhã de manhã?

— Amanhã de manhã — respondi, — virando de costas pra ela.

No dia seguinte me levantei e fiz dois cafés. Levei o dela na cama.

Deu uma risada.                                    

— Você é o primeiro homem que conheço que não quis transar de noite.

— Deixa pra lá — retruquei, — a gente nem precisa disso.

— Não, para aí, agora me deu vontade. Espera um pouco que não demoro.

Foi até o banheiro e voltou em seguida, com uma aparência simplesmente sensacional — os longos cabelos pretos brilhando, os olhos e a boca brilhando, aquilo brilhando… Mostrava o corpo com calma, como a coisa boa que era. Meteu-se em baixo do lençol.

— Vem de uma vez, gostosão.

Deitei na cama.

Beijava com entrega, mas sem se afobar. Passei-lhe as mãos pelo corpo todo, por entre os cabelos. Fui por cima. Era quente e apertada. Comecei a meter devagar, compassadamente, não querendo acabar logo. Os olhos dela encaravam, fixos, os meus.

— Qual é o teu nome? — perguntei.

— Porra, que diferença faz? — replicou.

Ri e continuei metendo. Mais tarde se vestiu e levei-a de carro de novo para o bar. Mas não foi nada fácil esquecê-la. Eu não andava trabalhando e dormi até às 2 da tarde. Depois levantei e li o jornal. Estava na banheira quando ela entrou com uma folhagem grande na mão — uma folha de inhame.

— Sabia que ia te encontrar no banho — disse, — por isso trouxe isto aqui pra cobrir esse teu troço aí, seu nudista.

E atirou a folha de inhame dentro da banheira.

— Como adivinhou que eu estava aqui?

— Adivinhando, ora.

Chegava quase sempre quando eu estava tomando banho. O horário podia variar, mas Cass raramente se enganava. E tinha todos os dias a folha de inhame. Depois a gente trepava.

Houve uma ou duas noites em que telefonou e tive que ir pagar a fiança para livrá-la da detenção por embriaguez ou desordem.

— Esses filhos da puta — disse ela, — só porque pagam umas biritas pensam que são donos da gente.

— Quem topa o convite já está comprando barulho.

— Imaginei que estivessem interessados em mim e não apenas no meu corpo.

— Eu estou interessado em você e também no seu corpo. Mas duvido muito que a maioria não se contente com o corpo.

Me ausentei seis meses da cidade, vagabundeei um pouco e acabei voltando. Não esqueci Cass, mas a gente havia discutido por algum motivo qualquer e me deu vontade de zanzar por aí. Quando cheguei, supus que tivesse sumido, mas nem fazia meia hora que estava sentado no West End Bar quando entrou e veio sentar do meu lado.

— Como é, seu sacana, pelo que vejo já voltou.

Pedi bebida para ela. Depois olhei. Estava com um vestido de gola fechada. Cass jamais tinha andado com um traje desses. E logo abaixo de cada olheira, espetados, havia dois grampos com ponta de vidro. Só dava para ver as pontas, mas os grampos, virados para baixo, estavam enterrados na carne do rosto.

— Porra, ainda não desistiu de estragar sua beleza?

— Que nada, seu bobo, agora é moda.

— Pirou de vez.

— Sabe que sinto saudade — comentou.

— Não tem mais ninguém no pedaço?

— Não, só você. Mas agora resolvi dar uma de puta. Cobro dez pratas. Pra você, porém, é de graça.

— Tira esses grampos daí.

— Negativo. É moda.

— Estão me deixando chateado.

— Tem certeza?

— Claro que tenho, pô.

Cass tirou os grampos devagar e guardou na bolsa.

— Por que é que faz tanta questão de esculhambar o teu rosto? — perguntei. — Quando vai se conformar com a idéia de ser bonita?

— Quando as pessoas pararem de pensar que é a única coisa que eu sou. Beleza não vale nada e depois não dura. Você nem sabe a sorte que tem de ser feio. Assim, quando alguém simpatiza contigo, já sabe que é por outra razão.

— Então tá. Sorte minha, né?

— Não que você seja feio. Os outros é que acham. Até que a tua cara é bacana.

— Muito obrigado.

Tomamos outro drinque.

— O que anda fazendo? — perguntou.

— Nada. Não há jeito de me interessar por coisa alguma. Falta de ânimo.

— Eu também. Se fosse mulher, podia ser puta.

— Acho que não ia gostar de um contato tão íntimo com tantos caras desconhecidos. Acaba enchendo.

— Puro fato, acaba enchendo mesmo. Tudo acaba enchendo.

Saímos juntos do bar. Na rua as pessoas ainda se espantavam com Cass. Continuava linda, talvez mais do que antes.

Fomos para o meu endereço. Abri uma garrafa de vinho e ficamos batendo papo. Entre nós dois a conversa sempre fluía espontânea. Ela falava um pouco, eu prestava atenção, e depois chegava a minha vez. Nosso diálogo era sempre assim, simples, sem esforço nenhum. Parecia que tínhamos segredos em comum. Quando se descobria um que valesse a pena, Cass dava aquela risada — da maneira que só ela sabia dar. Era como a alegria provocada por uma fogueira. Enquanto conversávamos, fomos nos beijando e aproximando cada vez mais. Ficamos com tesão e resolvemos ir para a cama, Foi então que Cass tirou o vestido de gola fechada e vi a horrenda cicatriz irregular no pescoço — grande e saliente.

— Puta que pariu, criatura — exclamei, já deitado. — Puta que pariu. Como é que você foi me fazer uma coisa dessas?

— Experimentei uma noite, com um caco de garrafa. Não gosta mais de mim? Deixei de ser bonita?

Puxei-a para a cama e dei-lhe um beijo na boca. Me empurrou para trás e riu.

— Tem homens que me pagam as dez pratas, aí tiro a roupa e desistem de transar. E eu guardo o dinheiro pra mim. É engraçadíssimo.

— Se é — retruquei, — estou quase morrendo de tanto rir… Cass, sua cretina, eu amo você… mas para com esse negócio de querer se destruir. Você é a mulher mais cheia de vida que já encontrei.

Beijamos de novo. Começou a chorar baixinho. Sentia-lhe as lágrimas no rosto. Aqueles longos cabelos pretos me cobriam as costas feito mortalha. Colamos os corpos e começamos a trepar, lenta, sombria e maravilhosamente bem.

Na manhã seguinte acordei com Cass já em pé, preparando o café. Dava a impressão de estar perfeitamente calma e feliz. Até cantarolava. Fiquei ali deitado, contente com a felicidade dela. Por fim veio até a cama e me sacudiu.

— Levanta, cafajeste! Joga um pouco de água fria nessa cara e nessa pica e vem participar da festa!

Naquele dia convidei-a para ir à praia de carro. Como estávamos na metade da semana e o verão ainda não tinha chegado, encontramos tudo maravilhosamente deserto. Ratos de praia, com a roupa em farrapos, dormiam espalhados pelo gramado longe da areia. Outros, sentados em bancos de pedra, dividiam uma garrafa de bebida tristonha. Gaivotas esvoaçavam no ar, descuidadas e no entanto aturdidas. Velhinhas de seus 70 ou 80 anos, lado a lado nos bancos, comentavam a venda de imóveis herdados de maridos mortos há muito tempo, vitimados pelo ritmo e estupidez da sobrevivência. Por causa de tudo isso, respirava-se uma atmosfera de paz e ficamos andando, para cima e para baixo, deitando e espreguiçando-nos na relva, sem falar quase nada. Com aquela sensação simplesmente gostosa de estar juntos. Comprei sanduíches, batata frita e uns copos de bebida e nos deixamos ficar sentados, comendo na areia. Depois me abracei a Cass e dormimos encostados um no outro durante quase uma hora. Não sei por quê, mas foi melhor do que se tivessemos transado. Quando acordamos, voltamos de carro para onde eu morava e fiz o jantar. Jantamos e sugeri que fôssemos para a cama. Cass hesitou um bocado de tempo, me olhando, e respondeu, pensativa:

— Não.

Levei-a outra vez até o bar, paguei-lhe um drinque e vim-me embora. No dia seguinte encontrei serviço como empacotador numa fábrica e passei o resto da semana trabalhando. Andava cansado demais para cogitar de sair à noite, mas naquela sexta-feira acabei indo ao West End Bar. Sentei e esperei por Cass. Passaram-se horas. Depois que já estava bastante bêbado, o sujeito que atendia no balcão me disse:

— Uma pena o que houve com sua amiga.

— Pena por quê? — estranhei.

— Desculpe. Pensei que soubesse.

— Não.

— Se suicidou. Foi enterrada ontem.

— Enterrada? — repeti.

Estava com a sensação de que ela ia entrar a qualquer momento pela porta da rua. Como poderia estar morta?

— Sim, pelas irmãs.

— Se suicidou? Pode-se saber de que modo?

— Cortou a garganta.

— Ah. Me dá outra dose.

Bebi até a hora de fechar. Cass, a mais bela das 5 irmãs, a mais linda mulher da cidade. Consegui ir dirigindo até onde morava. Não parava de pensar. Deveria ter insistido para que ficasse comigo em vez de aceitar aquele “não”. Todo o seu jeito era de quem gostava de mim. Eu é que simplesmente tinha bancado o durão, decerto por preguiça, por ser desligado demais. Merecia a minha morte e a dela. Era um cão. Não, para que pôr a culpa nos cães? Levantei, encontrei uma garrafa de vinho e bebi quase inteira. Cass, a garota mais linda da cidade, morta aos vinte anos.

Lá fora, na rua, alguém buzinou dentro de um carro. Uma buzina fortíssima, insistente. Bati a garrafa com força e gritei:

— MERDA! PARA COM ISSO, SEU FILHO DA PUTA!

A noite foi ficando cada vez mais escura e eu não podia fazer mais nada.



(Crônica de um Amor Louco;  tradução: Milton Persson)




(Ilustração: Clovis Trouille - mon tombeau)