quinta-feira, 29 de outubro de 2015

CHUVA, CHUVA, CHUVA, de Campos de Carvalho





É a primeira chuva a que assisto da minha janela de hóspede — neste verão que bem pode ser a primavera, pois não tenho noção do tempo nem disponho de bússola para me guiar entre as horas do dia e da noite. Ontem o deputado que se senta ao meu lado na mesa garantiu-me que estávamos em agosto, e até fez o sinal da cruz sobre o peito para demonstrar que não estava mentindo; mas eu tenho minhas dúvidas a respeito e continuo acreditando que não estamos sequer em janeiro ou em março, pois o que ouço a distância continua a caminhar para a direita e só com a chegada da primavera é que ele se volta para a esquerda e se torna realmente belo.
 Presumo que aqui me encontro aproximadamente há uns vinte anos, ou uns cinco pelo menos, pois já me habituei com a cama, as cadeiras e a mesinha de cabeceira, e não sou de me habituar muito depressa com as coisas. Eu poderia, bem sei, perguntar ao criado ou à criada que me servem todos os dias, ou mesmo ao próprio gerente do hotel, ou ainda à sua jovem esposa tão louçã e já tão vesga, o tempo exato em que aqui me encontro e o mês e o ano em que porventura estamos vivendo nesta fria noite de chuva; mas tenho receio de que eles me tomem por um maníaco que está sempre a querer saber as coisas, eu que tenho fama de tão discreto e de tão educado, e prefiro morrer sem saber o dia da minha morte a ter que causar-lhes tamanha decepção.
 De resto, a noite não é tão triste assim, e eu bem posso, querendo, sentar-me à beira da cama, colocar as duas mãos na fronte como o faria qualquer sujeito de bom senso, e distrair-me assim com o espetáculo da parede sempre branca e sempre imóvel, a dois palmos do meu nariz. Livros eu não tenho para ler no momento, nem eles dão coisa que preste e que me faça mais sábio do que sou, pelas amostras que já tive nestes últimos tempos. (A Bíblia que me deram a ler era exatamente igual a todas as Bíblias que eu já conhecia antes de vir para cá, e o romance policial que de certa feita me emprestou a empregada trazia uma história ingênua e fácil de ser desvendada, como pude verificar logo pelas últimas páginas.) Violão também não tenho, nem piano, nem saxofone, de maneira que a chuva ainda é a melhor coisa que me poderia acontecer nesta noite sem mês e sem ano, já que as paredes brancas e iguais já não me oferecem segredo nenhum, à força de eu me postar diante delas como diante de um espelho.
 Exatamente: a noite foi feita para os galos dormirem e os insones roerem a sua insônia. Roerem — não disse bem?
 Assombra-me (sempre me assombrou) ver a facilidade com que certas criaturas se recostam num travesseiro e caem logo num sono profundo, como se se houvessem suicidado inteiramente, sem problema nenhum a resolver no dia seguinte. (Parecem bonecos de corda a que de repente faltasse a corda, e a sua consciência é também uma simples questão de corda a mais ou a menos, como é também a sua voz, em tudo igual à de um boneco que fala mamãe.) Em mim, o superlúcido, o sono foi sempre uma conquista muito difícil, e sua escalada através dos anos sempre me pareceu mais penosa e meritória do que a do Himalaia ou mesmo a do monte Everest.
 Agora a chuva baila em torno da minha cabeça, e no hotel todos dormem ou fingem que dormem pelo menos, num silêncio que marca com exatidão o barulho da chuva sobre o telhado. Se eu gritasse é possível que a chuva continuasse caindo, mas o silêncio pelo menos deixaria de existir dentro do meu quarto e dentro dos quartos vizinhos, e a chuva já não teria a marcá-la o compasso unânime do sono de todos os imbecis da terra. Vou gritar, espera!... — Não, é melhor eu deixar para gritar amanhã, ou num domingo, que é dia de júbilo universal e é quando todos gritam sem motivo ou pelos motivos mais tolos. Agora vou pentear o cabelo com a água da chuva, olhar um pouco mais o céu indevassável através das grades da janela (por causa dos ladrões) e depois recolher-me ao leito, como uma criança de dois anos. Nos meus bons tempos esta era a hora exatamente de eu sair à rua, de guarda-chuva aberto e a alma escancarada, até que encontrasse um bar simpático que me acolhesse e ao guarda-chuva e nos deixasse ficar a sós até alta madrugada. (Neste hotel, não sei por quê, o regime é mais severo do que nos outros, e o hóspede não tem direito de pôr o pé na rua sem falar com o gerente ou com o subgerente, que geralmente lhe negam autorização. Coisas da nova democracia, parece-me.)
 Outra coisa que a chuva me faz lembrar sempre são os mortos. Tive um amigo que de certa feita escreveu esta frase lapidar: A chuva dá de beber aos mortos, e talvez por isso eu não possa sentir a chuva sem sentir a presença dos mortos ao meu lado, e até mesmo dentro de mim.
 Por outro lado, não é verdade que os mortos hão de sentir-se apavorados dentro da terra encharcada e gotejante, sobretudo os mortos recentes e que ainda não estão acostumados com a sua solidão? Eu, depois de morto, tanto se me dá que chova ou que deixe de chover, mas aquela frase do meu amigo não deixa de ser bela e profundamente inspiradora. Não acredito que a sede seja o que mais importune os mortos no seu silêncio, mas a poesia é sempre necessária e é bom que os poetas estejam lembrando-se dos mortos nos dias de chuva, como uma mãe dos seus filhos.
 Agora que já olhei a chuva mais uma vez, e que o silêncio persiste dentro deste hotel mal assombrado (mudar-me-ei amanhã) — o que me resta a fazer é não fazer nada, como sempre, e esperar que as horas escoem lentamente e que o meu corpo durma antes de mim, ao peso do cansaço e da mais absoluta monotonia. Deitar-me-ei como um faquir sobre os espinhos do meu leito — bela imagem, sem dúvida — apagarei a luz, rezarei um padre-nosso (eu que não creio em Deus nem creio que ele possa crer em mim) e fingirei de morto por algum tempo, só respirando e deixando que me bata o coração, por via das dúvidas. No escuro a noite é completamente escura como o podem atestar todos os insones da terra, e o jeito que resta é a gente esperar que, mesmo com chuva, a alvorada volte a raiar no vidro da janela, e com ela de novo as esperanças e as ideias felizes, que sao sempre as mesmas sempre, apesar de todas as decepções ou talvez por isso mesmo.

(A Lua Vem da Ásia)


(Ilustração: Natalja Picugina - sound of rain)


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

VIOLONCELO, de Camilo Pessanha









Chorai arcadas


Do violoncelo!


Convulsionadas,


Pontes aladas


De pesadelo...






De que esvoaçam,


Brancos, os arcos...


Por baixo passam,


Se despedaçam,


No rio, os barcos.






Fundas, soluçam


Caudais de choro...


Que ruínas, (ouçam)!


Se se debruçam,


Que sorvedouro!...






Trêmulos astros,


Soidões lacustres...


— Lemes e mastros...


E os alabastros


Dos balaústres!






Urnas quebradas!


Blocos de gelo...


— Chorai arcadas,


Despedaçadas,


Do violoncelo.





(Clepsidra - 1922)


(Ilustração: Catherine Abel  - woman with cello)


sexta-feira, 23 de outubro de 2015

ÉTICA ABSOLUTA, de Michael Shermer





Quando eu tinha 17 anos, tornei-me um cristão evangélico, não por algum motivo nobre ou racional, mas porque a maior parte de meus camaradas estavam fazendo isso, em particular o meu melhor amigo George Oakley, de cuja irmã eu gostava. Mesmo assim, razões rasas e triviais podem se tornar muito sérias, e eu entrei para valer no espírito do movimento, indo a aulas de estudo bíblico, "testemunhando" para não-cristãos (tentando convertê-los), e até me matriculando na graduação em Teologia da Universidade Pepperdine (depois mudei para Psicologia por razões práticas como conseguir um emprego).

Minha primeira noção de problemas com sistemas éticos absolutos veio logo após minha conversão. Meu amigo Frank era realmente religioso e por isso eu deduzi que ele adoraria saber da minha nova fé. Não adorou. Na verdade, ele me deu uma bronca por ter escolhido a fé cristã errada e me disse que eu ainda estaria condenado se não fosse para a igreja dele: as Testemunhas de Jeová. Quanto mais igrejas e fés eu examinava, mais cônscio me tornava do fato de que todas pensam que só elas estão certas e todos mais estão errados.

A maioria dos sistemas éticos são absolutos e a maioria dos sistemas absolutos derivam de fontes religiosas. Nos últimos 2.000 anos, por exemplo, houve aproximadamente 28.000 denominações cristãs diferentes. Só hoje, elas são aproximadamente 1.500, das quais todas professam ter a posse única da verdade absoluta. Não é possível que todas estejam certas.

A maior parte dos sistemas éticos absolutos está baseada na dualidade simplística de recompensa e castigo, céu e inferno, uma moralidade muito infantil, como Isaac Asimov observou (1989, p. 6):

"Eles pressupõem que os seres humanos não têm o sentido do que é certo ou errado. O único motivo de você ser virtuoso é porque isso lhe vale uma entrada para o céu? A única razão pela qual você não bate nas suas crianças até a morte é que você não quer ir para o inferno? Parece-me um insulto aos seres humanos insinuar que só um sistema de recompensas e punições pode fazer de você um ser humano decente. Não é concebível que uma pessoa quer ser um ser humano decente por que dessa forma ela se sente melhor? Por que dessa forma o mundo é melhor?"

Obviamente o sistema de recompensa-punição não funciona, pois, como observou o Arcebispo de Canterbury, mesmo as sociedades mais religiosas têm uma abundância de crimes, violência e todo tipo de pecado. Como Laura Schlessinger diz em seu livro sobre a abdicação da moralidade, em resposta a um cristão que estava tendo um caso adúltero mas era incapaz de articular por que isso era ruim (além de dizer que era "um pecado"): "Ninguém mais hoje em dia está preocupado com raios e trovões, fogo eterno e enxofre, de modo que classificar um comportamento como pecado, em si e por si, não parece impressionar mais" (1996, p. 33). Nós precisamos de definições mais precisas.

A Ética Absoluta, então, pode ser definida como um código inflexível de regras para o comportamento humano certo e errado, derivado de Deus, da Bíblia, do Alcorão, do Estado, da Natureza, ou algum cânon de ética ou filosofia. O problema com todos os sistemas de moralidades absolutas é que eles se põem como árbitros finais da verdade, criando dois tipos de pessoas: Boas e Más, Certas e Erradas, Crentes Verdadeiros e Hereges.

Isso foi expresso por aquele sábio filósofo, Maxwell Smart [N.T: protagonista do seriado humorístico, Agente 86], que observou: "Não seja tola, 99. Nós temos de atirar, matar e destruir. Nós representamos tudo que há de bom e saudável no mundo." Infelizmente, tal retórica não se restringe a programas bobos de televisão. Richard Nixon usou essa retórica para proveito político (in Askenay, 1978): "Pode parecer melodramático dizer que os Estados Unidos e a Rússia representam o Bem e o Mal, a Luz e as Trevas, Deus e o Diabo. Mas pensar dessa forma ajuda a esclarecer a nossa perspectiva do conflito mundial." Numa linha similar, o anti-abortista Randall Terry, fundador da Operação Resgate, resumiu com clareza o absoluto problema com a ética absoluta: "Deixe uma onda de intolerância banhar você... Sim, o ódio é bom... Nosso objetivo é uma nação cristã... Somos chamados por Deus para conquistar este país... Não queremos pluralismo." (in Sagan, 1995, p. 430).

Alguém pode objetar que umas poucas maçãs podres não estragam o barril. O Imperativo Categórico de Immanuel Kant, por exemplo, é uma tentativa razoável (mas falha) no campo da ética absoluta racional. Para Kant, se você quer julgar a correção ou incorreção de uma ação: "Aja somente de acordo com a máxima pela qual você pode ao mesmo tempo desejar que a ação se torne uma lei universal" (1785, p. 268). Alguém iria querer universalizar a mentira, o roubo, o adultério? Claro que não. Isso seria o fim dos contratos, da propriedade, dos casamentos. Mas nós de fato mentimos e muitas vezes há razões perfeitamente racionais para isso.

O problema com a ética absoluta é que, já que virtualmente todo o mundo diz saber o que constitui uma ação correta versus uma ação errada, e já que virtualmente todos os sistemas morais diferem uns dos outros em maior ou menor grau, então não existe isso de uma ética absoluta racionalmente demonstrável.


(Publicado em Skeptic, vol. 4, n.º 2, 1996, pp. 78-87. Tradução de Rodrigo Farias)



(Ilustração: Stu Mead-1955 -view)



terça-feira, 20 de outubro de 2015

TERAPIA, de Izacyl Guimarães Ferreira






Esse passado é meu. Posso mudá-lo.
Posso esconder um corpo e duas lágrimas,
posso fechar os olhos e esperar de novo.
Posso até mudar de nome.
Posso deixar no escuro uma cidade,
secar o mar em meu lenço,
apagar palavras do pensamento.

(Ia escrevendo a seguir:

Este presente hoje ainda, amanhã ontem,
posso inventá-lo.
O que me aflige é que é só isso o que eu
posso fazer.

Mas não era isto o que eu queria dizer.)

Esse passado é meu. Posso salvar
um sonho ou dois
enquanto a amiga enxuga os olhos.
Posso gravar meu nome numa pedra,
posso dizer perdão, amor,
posso deixar
que um tempo morra sem morrer por ele.

Esse passado é meu. Posso adiá-lo.



(Declaração de Bens - 1980)



(Ilustração: Alfred Stevens - au Havre)



sábado, 17 de outubro de 2015

OBSESSÃO ORTOGRÁFICA, de Sírio Possenti






Nossa cultura tem verdadeira obsessão pela ortografia, que se manifesta de diversas maneiras: a) pela correção furiosa de qualquer erro; b) pelo riso que os erros provocam (basta ver as reações às placas que circulam pela internet); c) pela insistência em exercícios escolares de ortografia e por seu peso na avaliação; d) pela identificação da reforma ortográfica com reforma da língua (todos os jornais e muitos intelectuais caíram nessa); e) pela onda recente do emprego 'clínico' da noção de consciência fonológica; f) por último, na verdade reunindo todas as manifestações anteriores, pelo fato de ‘analfabeto’ significar ignorante.

Vou comentar alguns exemplos. No início do governo FHC, a crise na educação era representada, em uma propaganda, pela grafia ‘educasão’. À medida que se anunciavam medidas saneadoras, o ‘s’ se movimentava e finalmente se transformava em um ‘ç’. O sentido é óbvio: os problemas da educação são representados por um erro de ortografia e as soluções são representadas por uma grafia correta, corrigida. A quem ocorreria representar problemas escolares por meio de um erro de geografia ou de aritmética?

Há poucos dias, decidiu-se que o nome da bola da Copa de 2014 será ‘brazuca’. Houve diversas críticas, uma delas ao fato de que a escolha do ‘z’ se deve em parte a questões mercadológicas (‘brazuca’ facilitaria o registro, questão pela qual passam todas as marcas e outros ‘objetos’, como sites e até logins). Também se criticou a decisão pelo fato de que ‘brazuca' (independentemente da grafia) tem sentido pejorativo (equivalente a ‘portuga’ para ‘português’, disseram diversos colunistas). Mas também houve manifestações de receio de que, de novo, nossa língua estivesse correndo riscos em decorrências de grafias erradas! Aparentemente, as manifestações eram sinceras.

Eventualmente, publico textos (semelhantes a este) com algum erro. Lembro-me de um em que escrevi ‘serrado’ por ‘cerrado’. Em poucos minutos, uma dezena de leitores corrigia meu erro e alguns faziam suposições estranhas: que eu teria dito que uma vasta região do país fora ‘serrada’...

Seria de extremo interesse haver clareza em relação a essa questão. Em primeiro lugar, sempre vale a pena ressaltar que a invenção de sistemas de escrita de tipo alfabético é uma complexa tarefa. Não basta representar o ‘mesmo som’ pela mesma letra (ainda há quem proponha saídas assim, em épocas de reformas: que se escreva, por exemplo, ‘ezemplo’, ‘eseto’, ‘faka’, ‘sereja’, ‘jente’ etc.). Suponha-se que estivéssemos inventando uma escrita para o português falado no Brasil. Não é fácil decidir se a última letra de palavras como ‘final’ e ‘Brasil’ deve ser ‘u’ (como a maioria fala) ou ‘l’.

Se o fundamento fosse o som produzido quando essas palavras são proferidas, a solução deveria ser um ‘u’ final para a maior parte da população (a variação de pronúncia é por si um impedimento para essa solução). A solução criaria um problema para palavras como ‘finalidade’, nas quais um ‘l’ aparece (na verdade, reaparece). Ou seja: considerando famílias de palavras, é-se levado a uma análise que conclui que o ‘u’ final de ‘final’ não é um ‘u’, mas um ‘l’ (como o de ‘Brasil’ – como o provam ‘brasileiro’, ‘brasilidade’ etc.).

Este é, na verdade, um caso simples, comparado com as questões suscitadas por palavras cujos traços históricos, por uma ou outra razão, parece interessante preservar (como o ‘h’ de ‘homem’ e de ‘hoje’, o ‘sc’ de ‘ascender’ e, para muitos portugueses, por exemplo, o ‘c’ de ‘facto’).

Em segundo lugar, não é necessário ver no erro de grafia sintomas de derrocada da língua ou do pensamento. Basta considerar, por exemplo, que muitos casos de ‘problemas’ decorrentes de grafia errada simplesmente desaparecem quando não se trata de escrita, mas de fala. Se sugiro ‘plantar soja no cerrado’, ninguém pode adivinhar se grafaria a palavra com ‘s’ ou com ‘c’. O fato de não se distinguir ‘serrado’ de ‘cerrado’ não produz nenhum problema de interpretação.

Além disso, o fato de que muitos cidadãos, mesmo que nunca escrevam nada, assim que são confrontados com qualquer erro, logo fazem uma correção (e tripudiam!), indica que o erro não impede a leitura, a compreensão (‘cesta-feira’ logo é reescrito ‘sexta-feira’, o que indica que, com base em alguns critérios, descobre-se o que o trecho significa, a despeito de grafia). Ou seja, um erro de grafia é um erro, mas é só um erro de grafia. Nem destrói a língua nem impede a compreensão. Ou não mais que outros fatores.

É urgente que a escola dê ao erro de grafia seu justo estatuto. Isso evitaria que a grafia deixasse de ser ensinada, por um lado, e, por outro, que seja quase o único (ou mesmo o mais importante) critério de avaliação de um texto.

Comento outro fato: caso alguém decida ler as autorizações oficiais (da Inquisição e da Coroa) para a publicação de Os lusíadas, vai encontrar grafias como as seguintes: ‘declarão’, ‘descobrio’, ‘aver’, ‘licença/licnça’, ‘imprimir/emprimir’, ‘diãte’, ‘cõ’, ‘valhão’, ‘algũs’, ‘hũa’, ‘n’, ‘mãdado’, ‘fizerão’, ‘bõs’, ‘custumes’, ‘toda via’, ‘conhecendoa’. Convenhamos, é uma boa lista de erros que poderiam ser encontrados num caderno de aluno da terceira ou quarta série.

O que isso significa? Duas coisas, pelo menos: a) que, quando não havia lei ortográfica, a escrita dos profissionais era variável, isto é, não uniforme –eventualmente, encontram-se até mesmo duas grafias para a mesma palavra a pouca distância uma da outra; maior uniformidade pode ser vista nas edições, porque as editoras tinham sua política de escrita e b) que os ‘erros’ de ontem e de hoje são muito semelhantes; de fato, alguns se repetem totalmente.

Deveriam ser razões para que se tentasse compreender o que é a escrita alfabética (um misto de análise, de história, de acordo político, de política editorial, pelo menos). E que dificilmente os erros são sintomas de deficiências neurológicas. São apenas sintomas da relação nada óbvia entre sons e letras, especialmente se se consideram as pronúncias populares.

Quando se diz que há no Brasil cerca de 20% de disléxicos, e dado que muitos diagnósticos são fundados na falta de domínio da grafia oficial, provavelmente o índice releva graves deficiências de análise da escrita, um desconhecimento mais ou menos elementar das razões que levam alguém a escrever errado.




(Ilustração:Idade Média monges copistas)



quarta-feira, 14 de outubro de 2015

HISTÓRIA MINEIRA, de Homero Faria








Madeira rangendo


- podre –


sobre o pó


de passos


e pedras:


pesadas,


pisadas,


prensadas...


Impensadas penas


paulatinamente


pagas...


Pacatas minas


precipitadamente


perdidas...







(Ilustração: Anderson Bolcato - o testamento filosófico, morrendo e renascendo)



domingo, 11 de outubro de 2015

FITA VERDE NO CABELO, de João Guimarães Rosa






Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam.

Todos com juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo. Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia.

Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.

Daí, que, indo, no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo.

Então, ela, mesma, era quem se dizia:

– Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou.

A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.

E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vinha-lhe correndo, em pós.

Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa.

Vinha sobejadamente.

Demorou, para dar com a avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:

– Quem é?

– Sou eu… – e Fita-Verde descansou a voz. – Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou.

Vai, a avó, difícil, disse: – Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe. Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.

A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo: – Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.

Mas agora Fita-Verde se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:

– Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!

– É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta… – a avó murmurou.

– Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados!

– É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta… – a avó suspirou.

– Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido?

– É porque já não estou te vendo, nunca mais, minha netinha… – a avó ainda gemeu.

Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez. Gritou: 

– Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!…

Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.


(Meus primeiros contos)



(Ilustração: Zinaida Serebryakova)



quinta-feira, 8 de outubro de 2015

AUTOCRÍTICA, de André Caramuru Aubert



eu sempre sonhei escrever um poema longo, imponente e épico, nem que não   fosse, vá lá, como a Odisseia, a Divina Comédia, os Lusíadas, o Eugene Onegin ou, ainda, o Fausto. Mas que quando alguém lesse pudesse dizer, ah, este moço se inspirou no Cobra Norato, ou nos Cantos, ou no Waste Land, talvez Patterson, quem sabe no Poema Sujo, ou ainda na Morte e Vida Severina, nas Dream Songs, ou no The Morning of the Poems.

eu também pretendi compor poemas como as canções tão lindas que os brasileiros criam, poemas que saíssem leves e líricos, falando de  barquinhos que vão e vêm, de pegar trens azuis e de lugares onde o imperador fez xixi.

e teve uma época em que eu queria, como os poetas concretos, usar tesoura, cola e xerox e formar quadrados, círculos labirínticos e imagens de efeito com as letras e as palavras, mas

depois desisti, embora nunca tenha abandonado o desejo de saber redigir poemas meio surrealistas, meio vagos e pouco claros até mesmo para mim, tão na moda, tão em uso, daqueles que são mais ou menos desse jeito: pássaros voam, rios de fogo / a boneca estraçalhada / asfalto / luz /o que há? a moça pálida atravessa a rua, o velho / o que há? a vida / de dentro do buraco o bueiro me olha nos olhos /meus dentes apodrecem e  caem / o sobrevoo.

no fim das contas, o que eu gostaria mesmo era de poder escrever poemas que   impressionassem as pessoas, que as comovessem e as deixassem sem fôlego; que as levassem a rir de tristeza e a chorar de alegria; que fossem o sinônimo da arte em sua mais pura realização; e que, o mais importante,        fizessem com que os homens (sofridamente) me invejassem, e as mulheres (ardentemente) me  desejassem...

ah, eu queria tanta coisa! nada disso, porém, eu consigo; limitado que sou, só   faço poemas sobre os meus fantasmas, e os danados teimam em ser simples,concisos, piegas e até (fazer o quê?) meio sem graça.

que pena.



(Ilustração: Ceri Richard - pastoralle)



segunda-feira, 5 de outubro de 2015

VÍSCERAS, de Chuck Palahniuk





Inspire.

Inspire o máximo de ar que conseguir. Essa história deve durar aproximadamente o tempo que você consegue segurar sua respiração, e um pouco mais. Então escute o mais rápido que puder.

Um amigo meu aos 13 anos ouviu falar sobre “fio-terra”. Isso é quando alguém enfia um consolo na bunda. Estimule a próstata o suficiente, e os rumores dizem que você pode ter orgasmos explosivos sem usar as mãos. Nessa idade, esse amigo é um pequeno maníaco sexual. Ele está sempre buscando uma melhor forma de gozar. Ele sai para comprar uma cenoura e lubrificante. Para conduzir uma pesquisa particular. Ele então imagina como seria a cena no caixa do supermercado, a solitária cenoura e o lubrificante percorrendo pela esteira o caminho até o atendente no caixa. Todos os clientes esperando na fila, observando. Todos vendo a grande noite que ele preparou.

Então, esse amigo compra leite, ovos, açúcar e uma cenoura, todos os ingredientes para um bolo de cenoura. E vaselina.

Como se ele fosse para casa enfiar um bolo de cenoura no rabo.

Em casa, ele corta a ponta da cenoura com um alicate. Ele a lubrifica e desce seu traseiro por ela. Então, nada. Nenhum orgasmo. Nada acontece, exceto pela dor.

Então, esse garoto, a mãe dele grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para descer, naquele momento.

Ele remove a cenoura e coloca a coisa pegajosa e imunda no meio das roupas sujas debaixo da cama.

Depois do jantar, ele procura pela cenoura, e não está mais lá. Todas as suas roupas sujas, enquanto ele jantava, foram recolhidas por sua mãe para lavá-las. Não havia como ela não encontrar a cenoura, cuidadosamente esculpida com uma faca da cozinha, ainda lustrosa de lubrificante e fedorenta.

Esse amigo meu, ele espera por meses na surdina, esperando que seus pais o confrontem. E eles nunca fazem isso. Nunca. Mesmo agora que ele cresceu, aquela cenoura invisível aparece em toda ceia de Natal, em toda festa de aniversário. Em toda caça de ovos de páscoa com seus filhos, os netos de seus pais, aquela cenoura fantasma paira por sobre todos eles. Isso é algo vergonhoso demais para dar um nome.

As pessoas na França possuem uma expressão: “sagacidade de escadas.” Em francês: esprit de l’escalier. Representa aquele momento em que você encontra a resposta, mas é tarde demais. Digamos que você está numa festa e alguém o insulta. Você precisa dizer algo. Então sob pressão, com todos olhando, você diz algo estúpido. Mas no momento em que sai da festa… enquanto você desce as escadas, então – mágica. Você pensa na coisa mais perfeita que poderia ter dito. A réplica mais avassaladora.

Esse é o espírito da escada.

O problema é que até mesmo os franceses não possuem uma expressão para as coisas estúpidas que você diz sob pressão. Essas coisas estúpidas e desesperadas que você pensa ou faz.

Alguns atos são baixos demais para receberem um nome. Baixos demais para serem discutidos.

Agora que me recordo, os especialistas em psicologia dos jovens, os conselheiros escolares, dizem que a maioria dos casos de suicídio adolescente eram garotos se estrangulando enquanto se masturbavam. Seus pais os encontravam, uma toalha enrolada em volta do pescoço, a toalha amarrada no suporte de cabides do armário, o garoto morto. Esperma por toda a parte. É claro que os pais limpavam tudo. Colocavam calças no garoto. Faziam parecer… melhor. Ao menos, intencional. Um caso comum de triste suicídio adolescente.

Outro amigo meu, um garoto da escola, seu irmão mais velho na Marinha dizia como os caras do Oriente Médio se masturbavam de forma diferente do que fazemos por aqui. Esse irmão tinha desembarcado num desses países cheios de camelos, onde o mercado público vendia o que pareciam abridores de carta chiques. Cada uma dessas coisas é apenas um fino cabo de latão ou prata polida, do comprimento aproximado de sua mão, com uma grande ponta numa das extremidades, ou uma esfera de metal ou uma dessas empunhaduras como as de espadas. Esse irmão da Marinha dizia que os árabes ficavam de pau duro e inseriam esse cabo de metal dentro e por toda a extremidade de seus paus. Eles então batiam punheta com o cabo dentro, e isso os fazia gozar melhor. De forma mais intensa.

Esse irmão mais velho viajava pelo mundo, mandando frases em francês. Frases em russo. Dicas de punhetagem.

Depois disso, o irmão mais novo, um dia ele não aparece na escola. Naquela noite, ele liga pedindo para eu pegar seus deveres de casa pelas próximas semanas. Porque ele está no hospital.

Ele tem que compartilhar um quarto com velhos que estiveram operando as entranhas. Ele diz que todos compartilham a mesma televisão. Que a única coisa para dar privacidade é uma cortina. Seus pais não o vêm visitar. No telefone, ele diz como os pais dele queriam matar o irmão mais velho da Marinha.

Pelo telefone, o garoto diz que, no dia anterior, ele estava meio chapado. Em casa, no seu quarto, ele deitou-se na cama. Ele estava acendendo uma vela e folheando algumas revistas pornográficas antigas, preparando-se para bater uma. Isso foi depois que ele recebeu as notícias de seu irmão marinheiro. Aquela dica de como os árabes se masturbam. O garoto olha ao redor procurando por algo que possa servir. Uma caneta é grande demais. Um lápis, grande demais e áspero. Mas escorrendo pelo canto da vela havia um fino filete de vela derretida que poderia servir. Com as pontas dos dedos, o garoto descola o filete da vela. Ele o enrola na palma de suas mãos. Longo, e liso, e fino.

Chapado e com tesão, ele enfia lá dentro, mais e mais fundo por dentro do canal urinário de seu pau. Com uma boa parte da cera ainda para fora, ele começa o trabalho.

Até mesmo nesse momento ele reconhece que esses árabes eram caras muito espertos.

Eles reinventaram totalmente a punheta. Deitado totalmente na cama, as coisas estão ficando tão boas que o garoto nem observa a filete de cera. Ele está quase gozando quando percebe que a cera não está mais lá.

O fino filete de cera entrou. Bem lá no fundo. Tão fundo que ele nem consegue sentir a cera dentro de seu pau.

Das escadas, sua mãe grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para ele descer naquele momento. O garoto da cenoura e o garoto da cera eram pessoas diferentes, mas viviam basicamente a mesma vida.

Depois do jantar, as entranhas do garoto começam a doer. É cera, então ele imagina que ela vá derreter dentro dele e ele poderá mijar para fora. Agora suas costas doem. Seus rins. Ele não consegue ficar ereto corretamente.

O garoto falando pelo telefone do seu quarto de hospital, no fundo pode-se ouvir campainhas, pessoas gritando. Game shows.

Os raios-X mostram a verdade, algo longo e fino, dobrado dentro de sua bexiga. Esse longo e fino V dentro dele está coletando todos os minerais no seu mijo. Está ficando maior e mais espesso, coletando cristais de cálcio, está batendo lá dentro, rasgando a frágil parede interna de sua bexiga, bloqueando a urina. Seus rins estão cheios. O pouco que sai de seu pau é vermelho de sangue.

O garoto e seus pais, a família inteira, olhando aquela chapa de raio-X com o médico e as enfermeiras ali, um grande V de cera brilhando na chapa para todos verem, ele deve falar a verdade. Sobre o jeito que os árabes se masturbam. Sobre o que o seu irmão mais velho da Marinha escreveu.

No telefone, nesse momento, ele começa a chorar.

Eles pagam pela operação na bexiga com o dinheiro da poupança para sua faculdade. Um erro estúpido, e agora ele nunca mais será um advogado.

Enfiando coisas dentro de você. Enfiando-se dentro de coisas. Uma vela no seu pau ou seu pescoço num nó, sabíamos que não poderia acabar sem problemas.
O que me fez ter problemas, eu chamava de Pesca Submarina. Isso era bater punheta embaixo d’água, sentando no fundo da piscina dos meus pais. Pegando fôlego, eu afundava até o fundo da piscina e tirava meu calção. Eu sentava no fundo por dois, três, quatro minutos.

Só de bater punheta eu tinha conseguido uma enorme capacidade pulmonar. Se eu tivesse a casa só para mim, eu faria isso a tarde toda. Depois que eu gozava, meu esperma ficava boiando em grandes e gordas gotas.

Depois disso eram mais alguns mergulhos, para apanhar todas. Para pegar todas e colocá-las em uma toalha. Por isso chamava de Pesca Submarina. Mesmo com o cloro, havia a minha irmã para se preocupar. Ou, Cristo, minha mãe.

Esse era meu maior medo: minha irmã adolescente e virgem, pensando que estava ficando gorda e dando à luz a um bebê retardado de duas cabeças. As duas parecendo-se comigo. Eu, o pai e o tio. No fim, são as coisas com as quais você não se preocupa que te pegam.

A melhor parte da Pesca Submarina era o duto da bomba do filtro. A melhor parte era ficar pelado e sentar nela.

Como os franceses dizem, Quem não gosta de ter seu cu chupado? Mesmo assim, num minuto você é só um garoto batendo uma, e no outro nunca mais será um advogado.

Num minuto eu estou no fundo da piscina e o céu é um azul claro e ondulado, aparecendo através de dois metros e meio de água sobre minha cabeça. Silêncio total exceto pelas batidas do coração que escuto em meu ouvido. Meu calção amarelo-listrado preso em volta do meu pescoço por segurança, só em caso de algum amigo, um vizinho, alguém que apareça e pergunte porque faltei aos treinos de futebol. O constante chupar da saída de água me envolve enquanto delicio minha bunda magra e branquela naquela sensação.

Num momento eu tenho ar o suficiente e meu pau está na minha mão. Meus pais estão no trabalho e minha irmã no balé. Ninguém estará em casa por horas.

Minhas mãos começam a punhetar, e eu paro. Eu subo para pegar mais ar. Afundo e sento no fundo. Faço isso de novo, e de novo.

Deve ser por isso que garotas querem sentar na sua cara. A sucção é como dar uma cagada que nunca acaba. Meu pau duro e meu cu sendo chupado, eu não preciso de mais ar. O bater do meu coração nos ouvidos, eu fico no fundo até as brilhantes estrelas de luz começarem a surgir nos meus olhos. Minhas pernas esticadas, a batata das pernas esfregando-se contra o fundo. Meus dedos do pé ficando azul, meus dedos ficando enrugados por estar tanto tempo na água.

E então acontece. As gotas gordas de gozo aparecem. É nesse momento que preciso de mais ar. Mas quando tento sair do fundo, não consigo. Não consigo colocar meus pés abaixo de mim. Minha bunda está presa.

Médicos de plantão de emergência podem confirmar que todo ano cerca de 150 pessoas ficam presas dessa forma, sugadas pelo duto do filtro de piscina. Fique com o cabelo preso, ou o traseiro, e você vai se afogar. Todo o ano, muita gente fica. A maioria na Flórida.

As pessoas simplesmente não falam sobre isso. Nem mesmo os franceses falam sobre tudo. Colocando um joelho no fundo, colocando um pé abaixo de mim, eu empurro contra o fundo. Estou saindo, não mais sentado no fundo da piscina, mas não estou chegando para fora da água também.

Ainda nadando, mexendo meus dois braços, eu devo estar na metade do caminho para a superfície mas não estou indo mais longe que isso. O bater do meu coração no meu ouvido fica mais alto e mais forte.

As brilhantes fagulhas de luz passam pelos meus olhos, e eu olho para trás… mas não faz sentido. Uma corda espessa, algum tipo de cobra, branco-azulada e cheia de veias, saiu do duto da piscina e está segurando minha bunda. Algumas das veias estão sangrando, sangue vermelho que aparenta ser preto debaixo da água, que sai por pequenos cortes na pálida pele da cobra. O sangue começa a sumir na água, e dentro da pele fina e branco-azulada da cobra é possível ver pedaços de alguma refeição semi-digerida.

Só há uma explicação. Algum horrível monstro marinho, uma serpente do mar, algo que nunca viu a luz do dia, estava se escondendo no fundo escuro do duto da piscina, só esperando para me comer.

Então… eu chuto a coisa, chuto a pele enrugada e escorregadia cheia de veias, e parece que mais está saindo do duto. Deve ser do tamanho da minha perna nesse momento, mas ainda segurando firme no meu cu. Com outro chute, estou a centímetros de conseguir respirar. Ainda sentindo a cobra presa no meu traseiro, estou bem próximo de escapar.

Dentro da cobra, é possível ver milho e amendoins. E dá pra ver uma brilhante esfera laranja. É um daqueles tipos de vitamina que meu pai me força a tomar, para poder ganhar massa. Para conseguir a bolsa como jogador de futebol. Com ferro e ácidos graxos Ômega 3.

Ver essa pílula foi o que me salvou a vida. Não é uma cobra. É meu intestino grosso e meu cólon sendo puxados para fora de mim. O que os médicos chamam de prolapso de reto. São minhas entranhas sendo sugadas pelo duto.

Os médicos de plantão de emergência podem confirmar que uma bomba de piscina pode puxar 300 litros de água por minuto. Isso corresponde a 180 quilos de pressão. O grande problema é que somos todos interconectados por dentro. Seu traseiro é apenas o término da sua boca. Se eu deixasse, a bomba continuaria a puxar minhas entranhas até que chegasse na minha língua. Imagine dar uma cagada de 180 quilos e você vai perceber como isso pode acontecer.

O que eu posso dizer é que suas entranhas não sentem tanta dor. Não da forma que sua pele sente dor. As coisas que você digere, os médicos chamam de matéria fecal. No meio disso tudo está o suco gástrico, com pedaços de milho, amendoins e ervilhas.

Essa sopa de sangue, milho, merda, esperma e amendoim flutua ao meu redor. Mesmo com minhas entranhas saindo pelo meu traseiro, eu tentando segurar o que restou, mesmo assim, minha vontade é de colocar meu calção de alguma forma.

Deus proíba que meus pais vejam meu pau.

Com uma mão seguro a saída do meu rabo, com a outra mão puxo o calção amarelo-listrado do meu pescoço. Mesmo assim, é impossível puxar de volta.

Se você quer sentir como seria tocar seus intestinos, compre um camisinha feita com intestino de carneiro. Pegue uma e desenrole. Encha de manteiga de amendoim. Lubrifique e coloque debaixo d’água. Então tente rasgá-la. Tente partir em duas. É firme e ao mesmo tempo macia. É tão escorregadia que não dá para segurar.

Uma camisinha dessas é feita do bom e velho intestino.

Você então vê contra o que eu lutava.

Se eu largo, sai tudo.

Se eu nado para a superfície, sai tudo.

Se eu não nadar, me afogo.

É escolher entre morrer agora, e morrer em um minuto.

O que meus pais vão encontrar depois do trabalho é um feto grande e pelado, todo curvado. Mergulhado na água turva da piscina de casa. Preso ao fundo por uma larga corda de veias e entranhas retorcidas. O oposto do garoto que se estrangula enquanto bate uma. Esse é o bebê que trouxeram para casa do hospital há 13 anos. Esse é o garoto que esperavam conseguir uma bolsa de jogador de futebol e eventualmente um mestrado. Que cuidaria deles quando estivessem velhinhos. Seus sonhos e esperanças. Flutuando aqui, pelado e morto. Em volta dele, gotas gordas de esperma.

Ou isso, ou meus pais me encontrariam enrolado numa toalha encharcada de sangue, morto entre a piscina e o telefone da cozinha, os restos destroçados das minhas entranhas para fora do meu calção amarelo-listrado.

Algo sobre o que nem os franceses falam. Aquele irmão mais velho na Marinha, ele ensinou uma outra expressão bacana. Uma expressão russa. Do jeito que nós falamos “Preciso disso como preciso de um buraco na cabeça…”, os russos dizem, “Preciso disso como preciso de dentes no meu cu…”

Mne eto nado kak zuby v zadnitse.

Essas histórias de como animais presos em armadilhas roem a própria perna fora, bem, qualquer coiote poderá te confirmar que algumas mordidas são melhores que morrer.

Droga… mesmo se você for russo, um dia vai querer esses dentes.

Senão, o que você pode fazer é se curvar todo. Você coloca um cotovelo por baixo do joelho e puxa essa perna para o seu rosto. Você morde e rói seu próprio cu. Se você ficar sem ar você consegue roer qualquer coisa para poder respirar de novo.

Não é algo que seja bom contar a uma garota no primeiro encontro. Não se você espera por um beijinho de despedida. Se eu contasse como é o gosto, vocês não comeriam mais frutos do mar.

É difícil dizer o que enojaria mais meus pais: como entrei nessa situação, ou como me salvei. Depois do hospital, minha mãe dizia, “Você não sabia o que estava fazendo, querido. Você estava em choque.” E ela teve que aprender a cozinhar ovos pochê.

Todas aquelas pessoas enojadas ou sentindo pena de mim…

Precisava disso como precisaria de dentes no cu.

Hoje em dia, as pessoas sempre me dizem que eu sou magrinho demais. As pessoas em jantares ficam quietas ou bravas quando não como o cozido que fizeram. Cozidos podem me matar. Presuntadas. Qualquer coisa que fique mais que algumas horas dentro de mim, sai ainda como comida. Feijões caseiros ou atum, eu levanto e encontro aquilo intacto na privada.

Depois que você passa por uma lavagem estomacal super-radical como essa, você não digere carne tão bem. A maioria das pessoas tem um metro e meio de intestino grosso. Eu tenho sorte de ainda ter meus quinze centímetros. Então nunca consegui minha bolsa de jogador de futebol. Nunca consegui meu mestrado. Meus dois amigos, o da cera e o da cenoura, eles cresceram, ficaram grandes, mas eu nunca pesei mais do que pesava aos 13 anos.

Outro problema foi que meus pais pagaram muita grana naquela piscina. No fim meu pai teve que falar para o cara da limpeza da piscina que era um cachorro. O cachorro da família caiu e se afogou. O corpo sugado pelo duto. Mesmo depois que o cara da limpeza abriu o filtro e removeu um tubo pegajoso, um pedaço molhado de intestino com uma grande vitamina laranja dentro, mesmo assim meu pai dizia, “Aquela porra daquele cachorro era maluco.”

Mesmo do meu quarto no segundo andar, podia ouvir meu pai falar, “Não dava para deixar aquele cachorro sozinho por um segundo…”

E então a menstruação da minha irmã atrasou.

Mesmo depois que trocaram a água da piscina, depois que vendemos a casa e mudamos para outro estado, depois do aborto da minha irmã, mesmo depois de tudo isso meus pais nunca mencionaram isso novamente.

Nunca.

Essa é a nossa cenoura invisível.

Você.

Agora você pode respirar.

Eu ainda não.


(Assombro; tradução de Paulo Reis)




(Ilustração:Danny Quirk - anatomical selfdissections)