segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

VELÓRIO DE SCHOPENHAUER, de Guy de Maupassant










Ele ia morrendo aos poucos, como morrem os tuberculosos. Via-o diariamente, por volta das duas horas, sob as janelas do hotel, diante do mar calmo, sentado num banco do passeio. Ficava certo tempo imóvel, no calor do sol, contemplando com tristeza o Mediterrâneo. De vez em quando, lançava um olhar para as altas montanhas de cumes vaporosos que delimitam a cidade de Menton; depois, cruzava, com um gesto bem lento, suas pernas tão magras, que pareciam dois ossos, ao redor dos quais esvoaçava o tecido de suas calças, e abria um livro, sempre o mesmo.

Então, não se movia mais, apenas lia, lia com os olhos e a mente; todo seu pobre corpo agonizante parecia ler, toda sua alma mergulhava, se perdia, desaparecia nesse livro até que o ar fresco o fizesse tossir um pouco. Então levantava e voltava ao hotel.

Era um alemão alto, de barba loira, que almoçava e jantava em seu quarto, e não falava a ninguém.

Uma vaga curiosidade despertou minha atração por ele. Um dia, sentei a seu lado, também peguei um livro, para disfarçar, um volume dos poemas de Musset. E me pus a percorrer o “Rolla”.

De repente, meu vizinho me disse, em bom francês:

– O senhor sabe alemão?

– Nem um pouco.

– Ah, que pena! Já que o destino nos colocou lado a lado, eu poderia lhe emprestar, lhe mostrar algo inestimável – este livro que tenho em minhas mãos.

– De que se trata?

– É um exemplar de meu mestre, Schopenhauer, anotado por sua própria mão. Todas as margens, como você vê, estão cobertas com sua letra.

Peguei-lhe o livro reverentemente e olhei aquelas formas incompreensíveis para mim, mas que revelavam os pensamentos imortais do maior destruidor de sonhos que passou pela face da Terra.

E então os versos de Musset me surgiram à mente:

“Dormes feliz, Voltaire, e teu sórdido sorriso
ainda paira sobre teus ossos descarnados?”

E comparei involuntariamente o sarcasmo infantil, o sarcasmo religioso de Voltaire à ironia irresistível do filósofo alemão, cuja influência é doravante indelével.

Que se proteste, que se fique furioso ou indignado ou entusiasmado, mas Schopenhauer marcou a humanidade com o timbre de seu desdém e de seu desencanto.

Gozador desiludido, derrubou crenças, esperanças, ideais e quimeras poéticas, destruiu aspirações, devastou a confiança das almas, matou o amor, abateu o culto da mulher ideal, esmagou as ilusões dos corações e concluiu a mais gigantesca obra jamais empreendida pelo ceticismo. Não poupou nada com seu espírito zombeteiro e tudo esvaziou. E mesmo hoje aqueles que o execram parecem carregar nas próprias almas partículas de seu pensamento.

– Então, você conheceu pessoalmente Schopenhauer? – perguntei ao alemão.
Ele sorriu com tristeza.

– Até a morte, meu senhor.

E ele me falou do filósofo e me contou sobre a impressão quase sobrenatural que esse estranho ser causava em todos que dele se aproximavam.

Contou-me da entrevista do velho iconoclasta com um político francês, um republicano doutrinário, que queria vê-lo e encontrou-o numa taverna barulhenta, sentado em meio a seus discípulos, seco, enrugado, rindo uma inesquecível risada, atacando e fazendo em pedaços idéias e crenças com uma única palavra, assim como um cão rasga, com os caninos, os panos com que brinca.

Repetiu-me o comentário desse francês, enquanto ia embora, perplexo e aterrorizado:

– Achei que havia passado uma hora com o diabo.

E acrescentou:

– Ele tinha, de fato, senhor, um sorriso assustador, de meter medo, mesmo depois de sua morte. Há um caso quase desconhecido que eu poderia lhe contar, se for de seu interesse.

E começou, com uma voz cansada, que frequentes acessos de tosse interrompiam.

– Schopenhauer tinha acabado de morrer e combinamos de velá-lo em turnos, dois a dois, até o amanhecer.Ele estava deitado em um salão muito simples, amplo e sombrio. Duas velas de cera ardiam num criado-mudo.

Era meia-noite quando chegou a minha vez, junto com um de nossos camaradas. Os dois amigos que rendêramos já haviam deixado o apartamento e fomos nos sentar ao pé da cama.

Seu rosto não mudara. Estava rindo. Aquele ricto que conhecíamos tão bem se escavava no canto dos lábios e nos parecia que o finado estava prestes a abrir os olhos, mexer-se e falar. Seu pensamento, ou melhor, seus pensamentos nos envolveram. Sentimo-nos mais do que nunca na atmosfera de seu gênio, envolvidos, possuídos por ele. Seu domínio parecia ser ainda mais soberano, agora que estava morto. Um mistério se mesclava ao poder desse incomparável espírito.

Os corpos de homens como esse desaparecem, mas eles próprios permanecem, eles, e na noite que segue à parada de seus corações, eu lhe asseguro, senhor, eles são aterrorizantes.

Falávamos baixinho sobre ele, relembrando certos ditos, certas fórmulas que enunciava, aquelas máximas surpreendentes que são como luzes lançadas, em poucas palavras, nas trevas do Desconhecido.

– Parece que ele vai falar – disse meu camarada. E ficamos olhando, com uma inquietação que beirava o medo, aquele rosto imóvel e sempre sorridente. Pouco a pouco, começamos a nos sentir incomodados, oprimidos, a ponto de desmaiar. Balbuciei:

– Não sei o que há de errado comigo, mas posso jurar que estou doente.

E naquele momento percebemos que o cadáver cheirava mal. Então, meu companheiro sugeriu irmos para a sala ao lado, deixando a porta aberta, e concordei com a proposta.

Peguei uma das velas que queimava na mesinha, deixando para trás a outra, e fomos nos sentar no outro extremo da sala ao lado, de modo que pudéssemos ver de nossa posição a cama e o cadáver, claramente iluminados.

Mas ele ainda nos obsedava. Poder-se-ia dizer que sua essência imaterial, liberta, livre, todo-poderosa e dominadora, girava em torno de nós. E, às vezes, também, o terrível cheiro do corpo decomposto chegava até nós e nos penetrava, doentio e repulsivo.

De repente, um arrepio nos passou pelos ossos: um barulho, um pequeno barulho se ouviu na câmara mortuária. Imediatamente fixamos nossos olhares nele e então enxergamos, sim senhor, enxergamos claramente, nós dois, uma coisa branca escorrer da cama, cair no tapete e desaparecer sob uma poltrona.

Ficamos de pé, antes de poder pensar em qualquer coisa, alucinados por um terror tremendo, prontos para fugir. Então, nos olhamos um ao outro. Estávamos terrivelmente pálidos. Nosso coração batia tão violentamente, que poderia levantar o peito de nossas camisas. Eu fui o primeiro a falar:

– Você viu aquilo?

– É, vi.

– Será que ele não está morto?

– Mas como, se a putrefação já começou?

– O que vamos fazer?

Meu companheiro murmurou, hesitante:

– Precisamos ir ver.

Peguei nossa vela e entrei primeiro, olhando para todos os cantos do salão escuro. Nada mais se movia agora e me aproximei do leito. Mas fiquei paralisado de estupor e medo… Schopenhauer já não ria! Sorria de um modo horrível, com os lábios cerrados e as bochechas profundamente cavadas em seu rosto. Então balbuciei:

– Ele não está morto!

Mas o odor pavoroso subia ao meu nariz e me sufocava. E eu nem conseguia me mexer, apenas continuava a olhá-lo fixamente, apavorado, como diante de uma assombração.

Então, meu companheiro, que tinha pegado a outra vela, abaixou-se. Depois, tocou-me o braço sem dizer uma palavra. Segui seu olhar e vi, no chão, sob a poltrona ao lado da cama, destacando-se alva no tapete escuro – aberta como para morder – a dentadura de Schopenhauer.

O trabalho da decomposição, soltando as mandíbulas, havia feito a prótese saltar de sua boca. Fiquei realmente apavorado naquele dia, senhor.

E enquanto o sol mergulhava no mar resplandecente, o alemão tuberculoso levantou-se, fez uma reverência de despedida e voltou ao hotel.


(Tradução de Antonio Carlos Olivieri, do conto "Auprès d’un mort”, 1883)



(Ilustração: Sam Dillemans - Schopenhauer)






terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

RIVUS, de Josely Vianna Baptista








A água mede o tempo em reflexos vítreos. Mudez
de clepsidras, no sobrecéu ascendem (como anjos suspensos
numa casa barroca), e em presença de ausências o tempo
se distende. Uns seios de perfil, sono embalando
a rede, campânula encurvada pelas águas da chuva.

No horizonte invisível, dobras de anamorfoses;
sombras que se insinuam, a matéria mental.



(Ar)




(Ilustração: Salvador Dali)

sábado, 20 de fevereiro de 2016

O HOMEM DE CABEÇA DE PAPELÃO, de João do Rio






No País que chamavam de Sol, apesar de chover, às vezes, semanas inteiras, vivia um homem de nome Antenor. Não era príncipe. Nem deputado. Nem rico. Nem jornalista. Absolutamente sem importância social.

O País do Sol, como em geral todos os países lendários, era o mais comum, o menos surpreendente em idéias e práticas. Os habitantes afluíam todos para a capital, composta de praças, ruas, jardins e avenidas, e tomavam todos os lugares e todas as possibilidades da vida dos que, por desventura, eram da capital. De modo que estes eram mendigos e parasitas, únicos meios de vida sem concorrência, isso mesmo com muitas restrições quanto ao parasitismo. Os prédios da capital, no centro, elevavam aos ares alguns andares e a fortuna dos proprietários, nos subúrbios, não passavam de um andar sem que por isso não enriquecessem os proprietários também. Havia milhares de automóveis à disparada pelas artérias matando gente para matar o tempo, cabarets fatigados, jornais, tramways, partidos nacionalistas, ausência de conservadores, a Bolsa, o Governo, a Moda, e um aborrecimento integral. Enfim tudo quanto a cidade de fantasia pode almejar para ser igual a uma grande cidade com pretensões da América. E o povo que a habitava julgava-se, além de inteligente, possuidor de imenso bom senso. Bom senso! Se não fosse a capital do País do Sol, a cidade seria a capital do Bom Senso!

Precisamente por isso, Antenor, apesar de não ter importância alguma, era exceção mal vista. Esse rapaz, filho de boa família (tão boa que até tinha sentimentos), agira sempre em desacordo com a norma dos seus concidadãos.

Desde menino, a sua respeitável progenitora descobriu-lhe um defeito horrível: Antenor só dizia a verdade. Não a sua verdade, a verdade útil, mas a verdade verdadeira. Alarmada, a digna senhora pensou em tomar providências. Foi-lhe impossível. Antenor era diverso no modo de comer, na maneira de vestir, no jeito de andar, na expressão com que se dirigia aos outros. Enquanto usara calções, os amigos da família consideravam-no um enfant terrible, porque no País do Sol todos falavam francês com convicção, mesmo falando mal. Rapaz, entretanto, Antenor tornou-se alarmante. Entre outras coisas, Antenor pensava livremente por conta própria. Assim, a família via chegar Antenor como a própria revolução; os mestres indignavam-se porque ele aprendia ao contrário do que ensinavam; os amigos odiavam-no; os transeuntes, vendo-o passar, sorriam.

Uma só coisa descobriu a mãe de Antenor para não ser forçada a mandá-lo embora: Antenor nada do que fazia, fazia por mal. Ao contrário. Era escandalosamente, incompreensivelmente bom. Aliás, só para ela, para os olhos maternos. Porque quando Antenor resolveu arranjar trabalho para os mendigos e corria a bengala os parasitas na rua, ficou provado que Antenor era apenas doido furioso. Não só para as vítimas da sua bondade como para a esclarecida inteligência dos delegados de polícia a quem teve de explicar a sua caridade.

Com o fim de convencer Antenor de que devia seguir os trâmites legais de um jovem solar, isto é: ser bacharel e depois empregado público nacionalista, deixando à atividade da canalha estrangeira o resto, os interesses congregados da família em nome dos princípios organizaram vários meetings como aqueles que se fazem na inexistente democracia americana para provar que a chave abre portas e a faca serve para cortar o que é nosso para nós e o que é dos outros também para nós. Antenor, diante da evidência, negou-se.

— Ouça! bradava o tio. Bacharel é o princípio de tudo. Não estude. Pouco importa! Mas seja bacharel! Bacharel você tem tudo nas mãos. Ao lado de um político-chefe, sabendo lisonjear, é a ascensão: deputado, ministro.

— Mas não quero ser nada disso.

— Então quer ser vagabundo?

— Quero trabalhar.

— Vem dar na mesma coisa. Vagabundo é um sujeito a quem faltam três coisas: dinheiro, prestígio e posição. Desde que você não as tem, mesmo trabalhando — é vagabundo.

— Eu não acho.

— É pior. É um tipo sem bom senso. É bolchevique. Depois, trabalhar para os outros é uma ilusão. Você está inteiramente doido.

Antenor foi trabalhar, entretanto. E teve uma grande dificuldade para trabalhar. Pode-se dizer que a originalidade da sua vida era trabalhar para trabalhar. Acedendo ao pedido da respeitável senhora que era mãe de Antenor, Antenor passeou a sua má cabeça por várias casas de comércio, várias empresas industriais. Ao cabo de um ano, dois meses, estava na rua. Por que mandavam embora Antenor? Ele não tinha exigências, era honesto como a água, trabalhador, sincero, verdadeiro, cheio de ideias. Até alegre — qualidade raríssima no país onde o sol, a cerveja e a inveja faziam batalhões de biliosos tristes. Mas companheiros e patrões prevenidos, se a princípio declinavam hostilidades, dentro em pouco não o aturavam. Quando um companheiro não atura o outro, intriga-o. Quando um patrão não atura o empregado, despede-o. É a norma do País do Sol. Com Antenor depois de despedido, companheiros e patrões ainda por cima tomavam-lhe birra. Por quê? É tão difícil saber a verdadeira razão por que um homem não suporta outro homem!

Um dos seus ex-companheiros explicou certa vez:

— É doido. Tem a mania de fazer mais que os outros. Estraga a norma do serviço e acaba não sendo tolerado. Mau companheiro. E depois com ares...

O patrão do último estabelecimento de que saíra o rapaz respondeu à mãe de Antenor:

— A perigosa mania de seu filho é pôr em prática ideias que julga próprias.

— Prejudicou-lhe, Sr. Praxedes?

— Não. Mas podia prejudicar. Sempre altera o bom senso. Depois, mesmo que seu filho fosse águia, quem manda na minha casa sou eu.

No País do Sol o comércio é uma maçonaria. Antenor, com fama de perigoso, insuportável, desobediente, não pôde em breve obter emprego algum. Os patrões que mais tinham lucrado com as suas ideias eram os que mais falavam. Os companheiros que mais o haviam aproveitado tinham-lhe raiva. E se Antenor sentia a triste experiência do erro econômico no trabalho sem a norma, a praxe, no convívio social compreendia o desastre da verdade. Não o toleravam. Era-lhe impossível ter amigos, por muito tempo, porque esses só o eram enquanto não o tinham explorado.

Antenor ria. Antenor tinha saúde. Todas aquelas desditas eram para ele brincadeira. Estava convencido de estar com a razão, de vencer. Mas, a razão sua, sem interesse chocava-se à razão dos outros ou com interesses ou presa à sugestão dos alheios. Ele via os erros, as hipocrisias, as vaidades, e dizia o que via. Ele ia fazer o bem, mas mostrava o que ia fazer. Como tolerar tal miserável? Antenor tentou tudo, juvenilmente, na cidade. A digníssima sua progenitora desculpava-o ainda.

— É doido, mas bom.

Os parentes, porém, não o cumprimentavam mais. Antenor exercera o comércio, a indústria, o professorado, o proletariado. Ensinara geografia num colégio, de onde foi expulso pelo diretor; estivera numa fábrica de tecidos, forçado a retirar-se pelos operários e pelos patrões; oscilara entre revisor de jornal e condutor de bonde. Em todas as profissões vira os círculos estreitos das classes, a defesa hostil dos outros homens, o ódio com que o repeliam, porque ele pensava, sentia, dizia outra coisa diversa.

— Mas, Deus, eu sou honesto, bom, inteligente, incapaz de fazer mal...

— É da tua má cabeça, meu filho.

— Qual?

— A tua cabeça não regula.

— Quem sabe?

Antenor começava a pensar na sua má cabeça, quando o seu coração apaixonou-se. Era uma rapariga chamada Maria Antônia, filha da nova lavadeira de sua mãe. Antenor achava perfeitamente justo casar com a Maria Antônia. Todos viram nisso mais uma prova do desarranjo cerebral de Antenor. Apenas, com pasmo geral, a resposta de Maria Antônia foi condicional.

— Só caso se o senhor tomar juízo.

— Mas que chama você juízo?

— Ser como os mais.

— Então você gosta de mim?

— E por isso é que só caso depois.

Como tomar juízo? Como regular a cabeça? O amor leva aos maiores desatinos. Antenor pensava em arranjar a má cabeça, estava convencido.

Nessas disposições, Antenor caminhava por uma rua no centro da cidade, quando os seus olhos descobriram a tabuleta de uma "relojoaria e outros maquinismos delicados de precisão". Achou graça e entrou. Um cavalheiro grave veio servi-lo.

— Traz algum relógio?

— Trago a minha cabeça.

— Ah! Desarranjada?

— Dizem-no, pelo menos.

— Em todo o caso, há tempo?

— Desde que nasci.

— Talvez imprevisão na montagem das peças. Não lhe posso dizer nada sem observação de trinta dias e a desmontagem geral. As cabeças como os relógios para regular bem...

Antenor atalhou:

— E o senhor fica com a minha cabeça?

— Se a deixar.

— Pois aqui a tem. Conserte-a. O diabo é que eu não posso andar sem cabeça...

— Claro. Mas, enquanto a arranjo, empresto-lhe uma de papelão.

— Regula?

— É de papelão! explicou o honesto negociante. Antenor recebeu o número de sua cabeça, enfiou a de papelão, e saiu para a rua.

Dois meses depois, Antenor tinha uma porção de amigos, jogava o pôquer com o Ministro da Agricultura, ganhava uma pequena fortuna vendendo feijão bichado para os exércitos aliados. A respeitável mãe de Antenor via-o mentir, fazer mal, trapacear e ostentar tudo o que não era. Os parentes, porém, estimavam-no, e os companheiros tinham garbo em recordar o tempo em que Antenor era maluco.

Antenor não pensava. Antenor agia como os outros. Queria ganhar. Explorava, adulava, falsificava. Maria Antônia tremia de contentamento vendo Antenor com juízo. Mas Antenor, logicamente, desprezou-a propondo um concubinato que o não desmoralizasse a ele. Outras Marias ricas, de posição, eram de opinião da primeira Maria. Ele só tinha de escolher. No centro operário, a sua fama crescia, querido dos patrões burgueses e dos operários irmãos dos spartakistas da Alemanha. Foi eleito deputado por todos, e, especialmente, pelo presidente da República — a quem atacou logo, pois para a futura eleição o presidente seria outro. A sua ascensão só podia ser comparada à dos balões. Antenor esquecia o passado, amava a sua terra. Era o modelo da felicidade. Regulava admiravelmente.

Passaram-se assim anos. Todos os chefes políticos do País do Sol estavam na dificuldade de concordar no nome do novo senador, que fosse o expoente da norma, do bom senso. O nome de Antenor era cotado. Então Antenor passeava de automóvel pelas ruas centrais, para tomar pulso à opinião, quando os seus olhos deram na tabuleta do relojoeiro e lhe veio a memória.

— Bolas! E eu que esqueci! A minha cabeça está ali há tempo... Que acharia o relojoeiro? É capaz de tê-la vendido para o interior. Não posso ficar toda vida com uma cabeça de papelão!

Saltou. Entrou na casa do negociante. Era o mesmo que o servira.

— Há tempos deixei aqui uma cabeça.

— Não precisa dizer mais. Espero-o ansioso e admirado da sua ausência, desde que ia desmontar a sua cabeça.

— Ah! fez Antenor.

— Tem-se dado bem com a de papelão?

— Assim...

— As cabeças de papelão não são más de todo. Fabricações por séries. Vendem-se muito.

— Mas a minha cabeça?

— Vou buscá-la.

Foi ao interior e trouxe um embrulho com respeitoso cuidado.

— Consertou-a?

— Não.

— Então, desarranjo grande?

O homem recuou.

— Senhor, na minha longa vida profissional jamais encontrei um aparelho igual, como perfeição, como acabamento, como precisão. Nenhuma cabeça regulará no mundo melhor do que a sua. É a placa sensível do tempo, das ideias, é o equilíbrio de todas as vibrações. O senhor não tem uma cabeça qualquer. Tem uma cabeça de exposição, uma cabeça de gênio, hors-concours.

Antenor ia entregar a cabeça de papelão. Mas conteve-se.

— Faça o obséquio de embrulhá-la.

— Não a coloca?

— Não.

— V. Exª. faz bem. Quem possui uma cabeça assim não a usa todos os dias. Fatalmente dá na vista.

Mas Antenor era prudente, respeitador da harmonia social.

— Diga-me cá. Mesmo parada em casa, sem corda, numa redoma, talvez prejudique.

— Qual! V. Exª. terá a primeira cabeça.

Antenor ficou seco.

— Pode ser que V., profissionalmente, tenha razão. Mas, para mim, a verdade é a dos outros, que sempre a julgaram desarranjada e não regulando bem. Cabeças e relógios querem-se conforme o clima e a moral de cada terra. Fique V. com ela. Eu continuo com a de papelão.

E, em vez de viver no País do Sol um rapaz chamado Antenor, que não conseguia ser nada tendo a cabeça mais admirável — um dos elementos mais ilustres do País do Sol foi Antenor, que conseguiu tudo com uma cabeça de papelão.



(Antologia de Humorismo e Sátira)



(Ilustração:  Paul Klee - young proletarian)




quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

LLAMADO DEL DESEOSO / CHAMADO DO DESEJOSO, de José Lezama Lima







Deseoso es aquel que huye de su madre.
Despedirse es cultivar un rocío para unirlo con la secularidad de la saliva.
La hondura del deseo no va por el secuestro del fruto.
Deseoso es dejar de ver a su madre.
Es la ausencia del sucedido de un día que se prolonga
y es la noche que esa ausencia se va ahondando como un cuchillo.
Es esa ausencia se abre una torre, en esa torre baila un fuego hueco.
y así se ensancha y la ausencia de la madre es un mar en calma.
Pero el huidizo no ve el cuchillo que le pregunta,
es la madre, de los postigos asegurados, de quien se huye.
Lo descendido en vieja sangre suena vacío.
La sangre es fría cuando desciende y cuando se esparce circulizada.
la madre es fría y está cumplida.
Si es por la muerte, su peso es doble y ya no nos suelta.
No es por las puertas donde se asoma nuestro abandono.
Es por un claro donde la madre sigue marchando, pero ya no nos sigue.
Es por un claro, allí se ciega y bien nos deja.
Ay del que no marcha esa marcha donde la madre ya no le sigue, ay.
No es desconocerse, el conocerse sigue furioso como en sus días,
pero el seguirlo sería quemarse dos en un árbol,
y ella apetece mirar el árbol como una piedra,
como una piedra con la inscripción de ancianos juegos.
Nuestro deseo no es alcanzar o incorporar un fruto ácido.
El deseoso es el huidizo.
Y de los cabezazos con nuestras madres cae el planeta centro de mesa
y ¿de dónde huimos, si no es de nuestras madres de quien huimos
que nunca quieren recomenzar el mismo naipe, la misma
                                                                   noche de igual ijada descomunal?




Tradução de Josely Vianna Baptista:



Desejoso é aquele que foge de sua mãe.
Despedir-se é lavrar um orvalho para uni-lo à secularidade da saliva.
A profundidade do desejo não está no sequestro do fruto.
Desejoso é deixar de ver sua mãe.
É a ausência do acontecido de um dia que se prolonga
e é na noite que essa ausência vai afundando como um punhal.
Nessa ausência se abre uma torre, nessa torre dança um fogo oco.
E assim se alastra e a ausência da mãe é um mar em calma.
Mas o fugidio não vê o punhal que lhe pergunta,
é da mãe, dos postigos fechados, que ele foge.
O descendido em sangue antigo soa vazio.
O sangue é frio quando desce e quando se espalha circulizado.
A mãe é fria e está perfeita.
Se for por morte seu peso dobra e não mais nos solta.
Não é pelas portas onde assoma nosso abandono.
É por um claro onde a mãe ainda anda, mas já não os segue.
É por um claro, ali se cega e logo nos deixa.
Ai do que não anda esse andar onde a mãe não o segue mais, ai.
Não é desconhecer-se, o conhecer-se segue furioso como em seus dias, mas segui-lo seria o incêndio de dois numa só árvore,
e ela adora olhar a árvore como uma pedra,
como uma pedra com a inscrição de antigos jogos.
Nosso desejo não é pegar ou incorporar um fruto ácido.
O desejo é o fugidio
e das cabeçadas com nossas mães cai o planeta centro de mesa
e de onde fugimos, se não é de nossas mães que fugimos,
que nunca querem recomeçar o mesmo jogo, a mesma
noite de igual ilharga descomunal?



(Ilustração: Anderson Bolcato - o peregrino eterno)



domingo, 14 de fevereiro de 2016

ARRAES NO PALACIO DO POVO, de Everardo Norões








O Palais du Peuple – Palácio do Povo – ocupa um quarteirão da cidade de Argel e faz esquina com a Avenida Franklin Roosevelt, uma das artérias mais movimentadas da cidade. O palácio, como quase todo o casario ao redor, é caiado de branco, com portas e janelas pintadas de azul. Ali, no número 21, Miguel Arraes, governador de Pernambuco, banido pelo regime militar, inaugurou, em 1965, um exílio de 15 anos. O destino assim o quis. Conforme dizem os árabes: Maktub, estava escrito. Tendo recusado submeter-se à vontade dos militares e jurado honrar o cargo que o povo pernambucano lhe outorgara, aquele palácio certamente surgira a Arraes como uma espécie de metáfora. Os aposentos anexos do Palácio do Povo, retomado dos franceses após sete anos de uma das guerras coloniais mais violentas, serviram para abrigar, por um dos acasos da História, aquele que, durante toda a sua vida, centrara o seu pensamento sobre o destino de um outro povo, o povo brasileiro.

A Avenida Franklin Roosevelt, onde residiu Arraes, desemboca numa das principais ruas do centro da cidade, a Didouche Mourad, nome de um grande herói e mártir, lugar de muitos embates durante a famosa Batalha de Argel. Muitas vezes descemos juntos aquela rua ladeirosa, em busca de notícias, chegadas sempre com atraso à caixa postal da Grande Poste – o prédio de arquitetura mourisca do correio central. As comunicações eram falhas, a vigilância policial no Brasil era cerrada, não convinha usar endereços residenciais. Caixas postais e brasileiros que chegavam à Europa eram as fontes de informação mais seguras.

No caminho de volta sentávamos no Café Bardo, vizinho ao museu de etnologia do mesmo nome, para tomar um café, falar de política, de trabalho, da situação internacional, de leituras. Arraes tinha sempre uma história para cada circunstância, uma ilustração para cada caso. Depois da conversa, seguíamos para seu escritório, simples: uma mesa de madeira e estantes improvisadas, que abrigavam documentos, livros e jornais os mais diversos, nas mais diferentes línguas. Suas anotações, numa caligrafia tortuosa e graúda, concatenavam observações que iriam desembocar, mais tarde, no livro publicado pela famosa editora parisiense François Maspero, Brésil, le pouvoir et le peuple, proibido no Brasil.

Eu gostava de olhar suas mãos quando ele escrevia. Mãos delicadas que contrastavam com sua maneira quase rude; mãos de gestos raros, que acompanhavam um falar quase silêncio, de cortes ríspidos, induzindo o interlocutor a perseguir a linha de pensamento do estrategista nato. O raciocínio, instintivamente dialético, nem sempre era fácil de ser alcançado por pessoas habituadas às categorias da lógica formal.

Quando estava exposto no Palácio das Princesas, morto, pude mais uma vez olhar suas mãos, finalmente cruzadas. E, à vista delas, chegaram-me lembranças que a História nunca irá contar, de um exilado solitário e firme, apesar de abandonado por muitos, até mesmo por alguns que depois voltaram a cercá-lo no mesmo palácio que o acolheu pela última vez. Em Argel, sonhava com um Brasil bem diferente daquele que iria encontrar no seu retorno. Nas vezes em que o futuro lhe inquietou, certamente foi por ter pressentido que a nossa tragédia coletiva poderia resvalar para uma quase comédia...

O carisma é um atributo especial de um indivíduo e Arraes teve esse dom, percebido não apenas por nós, pernambucanos e brasileiros.  No exílio ele era também observado assim, e o povo que o acolheu o considerava como um dos seus: um frére, um irmão. Fato singular, o nome Arrais, em árabe, significa cabeça, chefe, senhor do barco.

Os argelinos que o conheceram, quando cruzarem agora aquela esquina do Palácio do Povo, lembrar-se-ão dele e hão de murmurar, como fazem ao pensar num irmão defunto: “Deus é o mais alto, o Misericordioso e o Misericordiador”.



(Ilustração: Palais du Peuple, Argel - foto sem indicação de autoria)