quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

NARCISO E NARCISO, de Ferreira Gullar






Se Narciso se encontra com Narciso
e um deles finge
que ao outro admira
(para sentir-se admirado),
o outro
pela mesma razão finge também
e ambos acreditam na mentira.
Para Narciso
o olhar do outro, a voz
do outro, o corpo
é sempre o espelho
em que ele a própria imagem mira.
E se o outro é
como ele
outro Narciso,
é espelho contra espelho:
o olhar que mira
reflete o que o admira
num jogo multiplicado em que a mentira
de Narciso a Narciso
inventa o paraíso.
E se amam mentindo
no fingimento que é necessidade
e assim
mais verdadeiro que a verdade. 

Mas exige, o amor fingido,
ser sincero
o amor que como ele
é fingimento.
E fingem mais
os dois
com o mesmo esmero
com mais e mais cuidado
- e a mentira se torna desespero.
Assim amam-se agora
se odiando.
O espelho
embaciado,
já Narciso em Narciso não se mira:
se torturam
se ferem
não se largam
que o inferno de Narciso
é ver que o admiravam de mentira.




(Ilustração: Dionisio Baixeras-Verdaguer - Narcissus in love with his own reflection)





segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

OS PÓS-ESCRITOS DO PERDIDO, de Bernardo Soares (Fernando Pessoa)







Invejo — mas não sei se invejo — aqueles de quem se pode escrever uma biografia, ou que podem escrever a própria. Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem fatos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer.

Que há (de alguém) confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações. Compreendo bem as bordadoras por mágoa e as que fazem meia porque há vida. Minha tia velha fazia paciências durante o infinito do serão. Estas confissões de sentir são paciências minhas. Não as interpreto, como quem usasse cartas para saber o destino. Não as ausculto, porque nas paciências as cartas não têm propriamente valia. Desenrolo-me como uma meada multicolor, ou faço comigo figuras de cordel, como as que se tecem nas mãos espetadas e se passam de umas crianças para as outras. Cuido só de que o polegar não falhe o laço que lhe compete. Depois viro a mão e a imagem fica diferente. E recomeço.

Viver é fazer meia com uma intenção dos outros. Mas, ao fazê-la, o pensamento é livre, e todos os príncipes encantados podem passear nos seus parques entre mergulho e mergulho da agulha de marfim com bico reverso. Crochê das coisas... Intervalo... Nada...

De resto, com que posso contar comigo? Uma acuidade horrível das sensações, e a compreensão profunda de estar sentindo... Uma inteligência aguda para me destruir, e um poder de sonho sôfrego de me entreter... Uma vontade morta e uma reflexão que a embala, como a um filho vivo... Sim, crochê...


e do alto da majestade de todos os sonhos, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa.

Mas o contraste não me esmaga — liberta-me; e a ironia que há nele é sangue meu. O que devera humilhar-me é a minha bandeira, que desfraldo; e o riso com que deveria rir de mim, é um clarim com que saúdo e gero uma alvorada em que me faço.

A glória noturna de ser grande não sendo nada! A majestade sombria de esplendor desconhecido... E sinto, de repente, o sublime do monge no ermo, do eremita no retiro, inteirado da substância do Cristo nas pedras e nas cavernas
do afastamento.

E na mesa do meu quarto sou menos reles, empregado e anônimo, escrevo palavras como a salvação da alma [...] anel de renúcia em meu dedo evangélico, jóia parada do meu desdém extático.

A personagem individual e imponente, que os românticos figuravam em si mesmos, várias vezes, em sonho, a tentei viver, e, tantas vezes, quantas a tentei viver, me encontrei a rir alto, da minha idéia de vivê-la. O homem fatal, afinal, existe nos sonhos próprios de todos os homens vulgares, e o romantismo não é senão o virar do avesso do domínio quotidiano de nós mesmos. Quase todos os homens sonham, nos secretos do seu ser, um grande imperialismo próprio, a sujeição de todos os homens, a entrega de todas as mulheres, a adoração dos povos, e, nos mais nobres, de todas as eras... Poucos (são) como eu habituados ao sonho, são por isso lúcidos bastante para rir da possibilidade estética de se sonhar assim.

A maior acusação ao romantismo não se fez ainda: é a de que ele representa a verdade interior da natureza humana. Os seus exageros, os seus ridículos, os seus poderes vários de comover e de seduzir, residem em que ele é a figuração exterior do que há mais dentro na alma, mas concreto, visualizado, até possível, se o ser possível dependesse de outra coisa que não o Destino.

Quantas vezes eu mesmo, que rio de tais seduções da distração, me encontro supondo que seria bom ser célebre, que seria agradável ser ameigado, que seria colorido ser triunfal! Mas não consigo visionar-me nesses papéis de píncaro senão com uma gargalhada do outro eu que tenho sempre próximo como uma rua da Baixa. Vejo-me célebre? Mas vejo-me célebre como guarda-livros. Sinto-me alçado aos tronos do ser conhecido? Mas o caso passa-se no escritório da Rua dos Douradores e os rapazes são um obstáculo. Ouço-me aplaudido por multidões variegadas? O aplauso chega ao quarto andar onde moro e colide com a mobília tosca do meu quarto barato, com o que me rodeia, e me amesquinha desde a cozinha [...] ao sonho. Não tive sequer reles castelos em Espanha, como os grandes espanhóis de todas as ilusões. Os meus foram de cartas de jogar, velhas, sujas, de um baralho incompleto com que se não poderia jogar nunca; nem caíram, foi preciso destruí-los, com um gesto de mão, sob o impulso impaciente da criada velha, que queria recompor sobre a mesa inteira, a toalha atirada sobre a metade de lá, porque a hora do chá soara como uma maldição do Destino. Mas até isto é uma visão improfícua, pois não tenho a casa de província, ou as tias velhas, a cuja mesa eu tome, no fim de uma noite de família, um chá que me saiba a repouso. O meu sonho falhou até nas metáforas e nas figurações. O meu império nem chegou às cartas velhas de jogar. A minha vitória falhou sem um bule sequer nem um gato antiquíssimo. Morrerei como tenho vivido, entre o bric-à-brac dos arredores, apreçado pelo peso entre os pós-escritos do perdido.


(O Livro do Desassossego)


(Ilustração: escultura de Alberto Giacometti)






sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

SONETO DA PERDIDA ESPERANÇA, de Carlos Drummond de Andrade







Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto
passaria sobre o meu corpo.

Vou subir a ladeira lenta
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
princípio do drama e da flora.

Não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
por que não? na noite escassa

com um insolúvel flautim.
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! ao eterno.


(Ilustração: xfig Loic Allemand 20)


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

IMPOSSÍVEL, ABSURDO, ABJETO, RIDÍCULO E, NO ENTANTO, SAGRADO, DIGNO MESMO, "EU TE AMO", de Thomas Mann






Nada é mais estranho, mais melindroso que a relação de pessoas que só se conhecem de vista - que diariamente, em cada hora mesmo, se encontram, se observam; são obrigadas a manter a aparência de indiferente estranheza, sem cumprimento, sem palavra, pela ética ou capricho pessoal. Entre eles há inquietação e curiosidade sobre-excitada, a histeria de uma insatisfeita e artificialmente oprimida necessidade de conhecimento e intercâmbio, e principalmente também uma espécie de respeitoso interesse. Pois o homem ama e respeita o homem enquanto não consegue julgá-lo; e o anseio é o produto de um conhecimento falho.

Uma relação e um conhecimento qualquer tinham que, necessariamente, formar-se entre Aschenbach e o jovem Tadzio, e, com penetrante alegria, o mais idoso pôde verificar que interesse e atenção não ficaram completamente sem ser correspondidos. Por exemplo, que fazia o belo nunca mais vir pelo caminho de madeira atrás da cabinas, quando aparecia de manhã na praia, mas somente pelo caminho da frente, pela areia, passando o local de Aschenbach desnecessariamente perto, quase tocando em sua mesa, sua cadeira, dirigindo-se em passos lentos para a cabina dos seus? Afetava assim a atração, a fascinação de um sentimento superior o seu delicado e distraído objeto? Aschenbach esperava diariamente a chegada de Tadzio, e, de quando em quando, fingia estar ocupado quando isto se dava, deixando o belo passar, aparentemente despercebido. Às vezes levantava os olhos e os seus se encontravam com os dele. Ambos ficavam profundamente sérios quando isto acontecia. Na culta e grave expressão do idoso nada traia uma emoção íntima, mas nos olhos de Tadzio havia um investigar, um perguntar pensativo, seu andar ficava hesitante, olhava para o chão, erguia deliciosamente de novo os olhos, e, quando passava, algo no seu porte parecia expressar que só a educação o impedia de se voltar.

Uma vez, porém, numa noite, foi diferente. Os irmãos poloneses e a governanta faltaram durante a refeição principal na sala grande - Aschenbach notara-o com preocupação. Depois do jantar, muito inquieto sobre o paradeiro deles, andava em traje de noite e chapéu de palha, em frente do hotel, aos pés do terraço, quando, repentinamente, viu as irmãs com aparência de freiras, a preceptora e, quatro passos atrás delas, Tadzio aparecerem sob a luz da lâmpada de arco. Aparentemente vinham da ponte de barcas, depois de terem jantado na cidade, por uma razão qualquer. Sobre a água devia estar fresco; Tadzio usava um casaco à marinheira azul-escuro com botões dourados e na cabeça um boné combinando. Sol e ar marinho não o queimavam, sua pele continuava de um amarelo marmóreo, como no princípio; porém,hoje parecia mais pálido que de costume, fosse por causa da noite fresca ou do empalidecente luar das lâmpadas. Suas sobrancelhas simétricas destacavam-se mais fortes, seus olhos pareciam mais escuros. Estava indizivelmente belo e Aschenbach sentiu, com pena, como já por muitas vezes, que a palavra só consegue louvar a beleza sensual, porém não reproduzi-la.

Não notou a querida imagem; aparecera inesperadamente, não tivera tempo de se acalmar e trazer dignidade para sua expressão. Alegria, surpresa, admiração deviam transparecer abertamente, quando seu olhar encontrou o do desaparecido - e neste segundo aconteceu que Tadzio sorriu: sorriu para ele, falando íntimo, gracioso e sem rodeios, com lábios que no sorriso se abriam lentamente. Era o sorriso de Narciso que se debruça sobre o espelho de água, aquele sorriso profundo, encantador, prolongado, como o qual estende os braços para o reflexo da própria beleza - um sorriso ligeiramente desfigurado pela inutilidade de seu desejo, de beijar os lindos lábios de sua sombra, galante curioso e ligeiramente atormentado, seduzido e sedutor.

Aquele que recebera este sorriso fugiu  com ele como um presente fatídico. Estava tão abalado que se viu obrigado a evitar a luz do terraço e do jardim da frente e procurou, apressado, a escuridão do parque nos fundos. Admoestações estranhamente revoltadas e carinhosas desprendiam-se dele: "Não deve sorrir assim! Ouça, não se deve sorrir assim para ninguém!" Atirou-se sobre um banco, respirou indignado o perfume noturno das plantas. E, inclinado para trás, de braços pendentes, dominado e sentindo-se percorrido por arrepios, murmurou a eterna fórmula do anseio - aqui impossível, absurdo, abjeto, ridículo e, no entanto, sagrado, digno mesmo, ainda aqui: "Eu te amo!"


(A morte em Veneza, tradução de Maria Deling)



(Ilustração: Albert Edwin Fluury - autorritratto - enigma di Narciso)




sábado, 18 de janeiro de 2014

BILHETE, de Mário Quintana






Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...



(Ilustração: Weng Ziyang - The First Kiss)



quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

AS MULHERES DA MINHA GERAÇÃO, de Santiago Gamboa


 





É o único tema em que sou radical e intolerante, no qual não escuto argumentações: As mulheres da minha geração são as melhores e ponto. Hoje têm quarenta e picos, inclusive cinquenta, e são belas, muito belas, porém também serenas, compreensivas, sensatas e sobretudo diabolicamente sedutoras, isto  apesar dos seus incipientes pés-de-galinha ou desta afetuosa celulite que capitoneia suas coxas, mas que as fazem tão humanas, tão reais. Formosamente reais. Quase todas, hoje, estão casadas ou divorciadas, ou divorciados e recasadas, com a intenção de não se equivocar no segundo intento, que às vezes é um modo de acercar-se do terceiro e do quarto intento. Que importa?

Outras, ainda que poucas, mantêm um pertinaz celibatarismo e o protegem como a uma fortaleza sitiada que, de qualquer modo, de vez em quando abre suas portas a algum visitante.

Que belas são, por Deus, as mulheres da minha geração!

Nascidas sob a era de Aquário, com a influência da música dos Beatles, de Bob Dylan, de Lou Reed, do melhor cinema de Kulbrick e do início do boom latino-americano, são seres excepcionais. Herdeiras da revolução sexual da década de 60 e das correntes feministas, que entretanto receberam passadas por vários filtros, elas souberam combinar liberdade com coqueteria, emancipação com paixão, reivindicação com sedução. Jamais viram no homem um inimigo, apesar de que lhe cantaram umas quantas verdades, pois compreenderam que se emancipar era algo mais que colocar o homem para esfregar o banheiro ou trocar o rolo de papel higiênico, quando este tragicamente se acaba, e decidiram pactuar para viver em dupla, essa forma de convivência que tanto se critica, porém, que com o tempo, resulta ser a única possível, ou a melhor, ao menos neste mundo e nesta vida.

São maravilhosas e têm estilo, mesmo quando nos fazem sofrer, quando nos enganam ou nos deixam. Usaram saias indianas aos 18 anos, enfeitaram-se com colares andinos, cobriram-se com suéteres de lã e perderam sua parecença com Maria, a Virgem, em uma noite louca de sexta-feira ou de sábado, depois de dançar El ratón, de Cheo Feliciano, na Teja Corrida ou em Quebracanto, com algum amigo que lhes falou de Kafka, de Gurdjieff e do cinema de Bergman.

No fundo de suas mochilas havia pacotes de Pielroja, livros de Simone de Beauvoir e fitas de Victor Jara, e ao deixar-nos, quando não havia mais remédio senão deixar-nos, dedicavam-nos aquela canção de Héctor Lavoe, que é ao mesmo tempo um clássico do jornalismo e do despeito, e que se chama Teu amor é um jornal de ontem. Falaram com paixão de política e quiseram mudar o mundo, beberam rum cubano e aprenderam de cor canções de Silvio Rodriguez e Pablo Milanez, conheceram os sítios arqueológicos, foram com seus namorados às praias, dormindo em barracas e deixando-se picar pelos pernilongos, porque adoravam a liberdade e, sobretudo, juraram amar-nos por toda a vida, algo que sem dúvida fizeram e que hoje continuam fazendo na sua formosa e sedutora madurez.

Souberam ser, apesar da sua beleza, rainhas bem educadas, pouco caprichosas ou egoístas. Deusas com sangue humano. O tipo de mulher que, quando lhe abrem a porta do carro para que suba, se inclina sobre o assento e, por sua vez, abre a do seu acompanhante por dentro. A que recebe um amigo que sofre às quatro da manhã, ainda que seja seu ex-noivo, porque são maravilhosas e têm estilo, ainda quando nos façam sofrer, quando nos enganam ou nos deixam, pois seu sangue não é tão gelado o suficiente para não nos escutar nessa salvadora e última noite, na qual estão dispostas a servir-nos o oitavo uísque e a colocar, pela sexta vez, aquela melodia do Santana.

Por isso, para os que nascemos entre as décadas de 40 e 60, o dia da  mulher é, na verdade, todos os dias do ano, cada um dos dias com suas noites e seus amanheceres, que são mais belos, como diz o bolero, quando está você.

Que belas são, por Deus, as mulheres da minha geração!



(Tradução de Luiz Augusto Michelazzo)


(Ilustração: Jean-Pierre Ceytaire)




domingo, 12 de janeiro de 2014

PRIMEIRO AMOR, de Leandro Soriano








Um amor cego,
só a saudade enxerga.
Verga o peso do nada,
vê a sombra tornar mais claros
o medo de ser tarde,
o fim de uma obra inacabada.
Alheio ao filtro razão
Meu entendimento brilha no lago.
Vago como a lua reflexa,
distorcida na superfície
pelo movimento profundo
do turvo que há em mim.
Hora de pegar o trem,
não sou estação que me prenda.
Sou bilhete de ida que não está à venda.
Nasci clandestino determinado,
nessa trilha já parti.
Vou como quem volta a enxergar o primeiro amor,
Amor com gosto nostálgico,
Parede sem pintura, quadro sem moldura.
Um amor puro, até me seguro,
desse distante não ter .
Não falo do amor paixão, de rolar pelo chão.
Não falo de amor companhia, que na falta angustia.
Não falo do amor materno, tão parente, tão eterno.
Falo do amor impronunciável,
me atrevo a falar e me calo.
Mais amplo é meu silêncio,
refrescado pelo café
nas tardes despedidas de minha vida.
Santa lida que um dia não quer mais terminar.
Mas esse amor tão sem definição
mora em meu coração
divide o amplo espaço
do tédio que sou e faço.
Somos vizinhos,
sem cumprimentos,
apenas um... “tudo bem?”
E passa incontinente,
parece que nem sente
a menção que faço.
Como se fosse lhe dar um abraço.
E o mundo retorcido guarda semelhança
com o todo que é lembrança
desse amor desconhecido.



(Ilustração: Henry Tuke - bath)



quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

QUINZE COISAS QUE SEU MÉDICO NÃO VAI TE CONTAR SOBRE LONGEVIDADE, de Emiliano Urbim







Alimentação balanceada, exercícios regulares, álcool sob controle, cigarro à distância, muitas horas de sono. Se tudo isso já faz parte da sua rotina, parabéns: você cumpre alguns dos pré-requisitos para viver mais. Acontece que há muitos outros: bons hábitos e fatores externos que são fundamentais para se chegar a uma "melhor idade" digna do nome.

Boa parte dessas novas regras são desdobramentos de estudos que levam em conta a influência que a sua personalidade e o seu entorno podem ter na sua longevidade.

O principal deles é um estudo da Universidade Stanford, na Califórnia, iniciado pelo médico Lewis Terman em 1921. Naquele ano, ele selecionou um grupo de 1500 crianças para acompanhá-las durante os anos seguintes. Terman faleceu em 1958, mas seus assistentes (e os assistentes deles) seguiram acompanhando todo o grupo durante décadas, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, até que suas mortes os separassem.

Em 2012, as conclusões foram apresentadas. Os conselhos clássicos de se manter ativo, bem alimentado e tranquilo continuam valendo, claro. Mas os pesquisadores chegaram a algumas informações surpreendentes: trabalhar muito é um caminho para viver muito, otimismo demais pode ser prejudicial e a genética não é assim tão deterrninante para prever seu futuro.

Conheça essas e outras lições nas próximas páginas. Afinal, o negócio não é só chegar a 100: é chcgar bem.

1.NUNCA, NUNCA se aposente. Pesquisas que comparam trabalhadores e aposentados da mesma idade mostram: quem parou está pior. Claro, vai depender da sua rotina. Mas como sabemos que a poltrona é tentadora, fique esperto. Não precisa trabalhar muito, nem todo dia - ache um hobby, um curso, um compromisso regular. E, não, assistir TV não conta como hobby.

2. PASSAR FIO DENTAL FAZ BEM. PARA O CORAÇAO. O que uma coisa tem a ver com a outra? Acompanhe o raciocínio: se você não passar fio dental, vai acumular placa bacteriana, que vai causar gengivite, que vai provocar a liberação de substâncias conhecidas como químicos da inflamação, que são os vilões por trás de várias doenças cardíacas. Mas se isso não for argumento suficiente pra você...poxa, gengiva inflamada, dentes em falta e mau hálito não ajudam ninguém na terceira idade.

3. OTIMISMO FAZ MAL À SAÚDE. Enxergar apenas o lado bom das coisas tem seu lado ruim. Pois é: pessoas otimistas tendem a subestimar riscos - um traço de personalidade que pode levar de ultrapassagens ousadas a longas ausências no médico. Além disso, otimismo além da conta deixa você frustrado demais com as dificuldades da vida. Ou seja: com um pé atrás, você vai mais longe.

4. SOCIALIZAR É A FONTE DA JUVENTUDE. Quanto mais velhos, menos saímos de casa. Lute contra isso: a ciência garante que conviver com outros é o gatilho de benefícios físicos e mentais que prolongam a vida.

 5. DEUS AJUDA QUEM VAI À IGREJA. Fato: quem comparece à missa, culto, centro espírita, sinagoga, terreiro etc. em geral vive mais. Dilema: religiosos vivem mais porque rezam ou rezam porque vivem mais? Os dados não permitem concluir se a saúde dos anciãos é beneficiada pela experiência ou se, na verdade, quem tem disposição para ritos religiosos são justamente os mais saudáveis. Moral da história: na dúvida, tenha fé em alguma coisa - nem que seja em Richard Dawkins.

6. BEBA. E não precisa ser tacinha de vinho. Quando o assunto é álcool e longevidade, só se fala em vinho tinto. Preconceito: vinho branco, cerveja, uísque e outros fermentados e destilados também podem fazer bem. Há um índice menor de doenças cardiovasculares relacionado ao consumo diário de até duas doses - e de apenas uma para mulheres, ponto para os homens! Mas beba com moderação. Passou de duas doses, já vira problema.

 7. PALAVRAS CRUZADAS SALVAM VIDAS. Atividades que exercitam seu cérebro mantêm sua inteligência e prolongam sua lucidez. Opções não faltam: palavras cruzadas, xadrez, videogame, sudoku, qual-é-a-música. Detalhe: assim que estiver craque, troque de treino - seus neurônios só mantêm o frescor enfrentando novos desafios.

8. MULHER: O NEGÓCIO É IMITAR. Elas vão mais ao médico, comem melhor, fumam menos, envolvem-se em menos acidentes e, assim, vivem mais. Então, deixe de frescura: seja mais feminino.
  
9. NÃO FIQUE VIÚVO. VOCÊ NÃO SABE SE CUIDAR SOZINHO. Não bastasse haver cinco viúvas para cada viúvo no Brasil, elas ainda vivem muito mais depois de perder seus maridos do que nós após perdermos a esposa. A verdade é que, sozinhos, tendemos ao caos - o que aos 30 anos tem seu charme, mas em uma idade avançada é fatal. Então, não fique solteiro: sua saúde agradece.

1O.PARE DE SE INCOMODAR COM BOBAGEM. Mágoa, rancor, ressentimento: se ao ler essa lista você já recorda de vários exemplos pessoais, calma. Não é por aí. Se cultivados, esses sentimentos descambam na produção de cortisol, um hormônio que ataca seu coração, metabolismo e sistema imunológico. Diversos estudos relacionam uma alta taxa de cortisol a uma morte precoce. Portanto, aprenda a perdoar, relevar, deixar pra lá. Como dizia o guru indiano Meher Baba: Don't worry, be happy - pois é, também achava que vinha daquela música.

 11. NÃO CONFIE NOS SEUS GENES. "Meu avô viveu 90 anos, não preciso me
preocupar." Precisa. Uma nova pesquisa concluiu que apenas 25% da duração da nossa  vida podem ser atribuídos à herança genética; os outros 75% dependem de você. Se quiser chegar aos 90 como o seu avô, descubra como ele fez para chegar lá.

12. NÃO TENHA AMIGOS LEGAIS. TENHA A,MIGOS SAUDAVEIS. Ok, eles não são excludentes. Mas o ponto é: da mesma maneira que, para ganhar  dinheiro, é melhor se cercar de ricos, e para emagrecer convém conviver com magros, para se ter saúde a receita é arranjar uma turma saudável - você melhora sem querer querendo.

13. TENHA FILHOS - OU ALGO PARECIDO, COMO CACHORROS. Caso tenha se ofendido, por favor, volte ao item 10. Pronto. É o seguinte: possuir uma conexão com alguém mais jovem que você (filho, enteado, sobrinho, neto) é algo que te mantém interessado pelo mundo à sua volta - e mais a fim de continuar vivendo nele. E, sim, cachorro e gato também contam: além de manter você conectado, curtir um animal de estimação libera ocitocina, o hormônio benéfico liberado na convivência pais e filhos.

14. SEJA BOM NO QUE VOCÊ FAZ. AO MENOS TENTE. Quanto menos trabalho, melhor. Esse conselho, que parece vindo do personagem Macunaíma, de Mário de Andrade, foi durante muito tempo adotado pelos especialistas em longevidade. Acreditava-se que uma vida sem esforço seria uma vida longa. Mas os médicos observaram que parece haver uma relação entre longevidade e empenho profissional. Por incrível e justo que pareça, passar décadas se dedicando e evoluindo em algo que você valoriza, ou seja, ralando muito, pode lhe valer vários anos a mais. Ao menos, garantem os especialistas, em comparação com quem passar o mesmo bocado de tempo trabalhando no que não gosta - essa sim é uma receita garantida para viver menos e pior.

15. SER UM POUCO HIPOCONDRÍACO VALE A PENA. Você vai continuar sendo considerado chato pela maioria dos amigos, mas pesquisas apontam que quem desconfia mais da própria saúde vive mais. No caso, é melhor prevenir e se remediar.


(Revista ALFA, fevereiro/2013)



(Ilustração: Melany Fay - L'Empereur)



sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

UIVO, de Allen Ginsberg







para Carl Solomon


I

Eu vi os expoentes da minha geração
destruídos pela loucura, esfomeados, histéricos, nus,
arrastando-se na aurora pelas ruas dos negros buscando uma dose violenta
"hipsters" com cabeça de anjo ardendo pela antiga ligação celestial
com o dínamo estrelado da maquinaria da noite
que pobres, que esfarrapados, que olhos encovados, que pedrados
fumando sentados na escuridão sobrenatural
dos apartamentos míseros só com água fria
flutuando sobre os tetos das cidades contemplando o jazz.
que desnudaram seus cérebros ao Paraíso sob o Metro
que viram anjos maometanos cambaleando iluminados
nos telhados dos bairros sociais,
que passaram por universidades com olhos radiantes e frios
alucinando com o Arkansas e as tragédias à luz de William Blake
entre os aprendizes da guerra,
que foram expulsos das academias por serem loucos
& publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se agacharam em cuecas em quartos por barbear
queimando dinheiro em cestos de papel, escutando
o Terror através da parede.
que foram presos pelas suas barbas púbicas voltando por Laredo
com um cinturão de marijuana para Nova York,
que comeram fogo em hoteis pintados
ou beberam terebentina no Beco do Paraíso, da Morte,
ou flagelaram seus torsos noite após noite
com sonhos, com drogas, com pesadelos acordados,
com álcool e caralhos e colhões sem fim,
cegueira incomparável; ruas de nuvem trêmula e
relampagos na mente pulando postes do Canadá a Paterson,
iluminando pelo caminho o mundo do Tempo parado,
Vestíbulos sólidos de mezcal,
auroras no quintal com árvores verdes de cemitério,
embriaguez de vinho sobre telhados,
o prazer da corrida pelas fachadas das lojas de subúrbio
no neon intermitente do tráfego, na vibração do sol e da lua e
da árvore no estrondoso crepúsculo invernal de Brooklyn,
gritos entre latas de lixo e a suave e soberana luz da mente,
que se acorrentaram ao Metropolitano para o infindável percurso
entre Battery ao sagrado Bronx sob o efeito de benzedrina
até que o barulho das rodas e das crianças os trouxesse de volta,
trêmulos, de boca arrebentada e o cérebro despovoado, deserto e
despojado de qualquer brilho da luz lúgubre do zoo,
que se afundaram toda a noite na luz submarina de Bickford's,
voltaram à tona e aguentaram a tarde de cerveja morta no desolado Fuggazi's
escutando o matraquear da desgraça na Jukebox de hidrogênio,
que falaram setenta e duas horas sem parar do parque
a casa, ao bar, ao Bellevue, ao Museu, à Ponte de Brooklyn,
batalhão perdido de conversadores platônicos
saltando dos patamares das escadas de incêndio,
dos parapeitos das janelas do Empire State,
de dentro da Lua,
tagarelando, berrando, vomitando, sussurrando fatos e
memórias e anedotas e pontapés nos olhos
e choques nos hospitais e nas prisões e nas guerras,
intelectos inteiros regurgitados em remeniscência total
com os olhos brilhantes por sete dias e noites,
carne para a Sinagoga lançada ao chão,
que desvaneceram no Zen de New Jersey em lugar nenhum
deixando um rastro de ambíguos postais da Câmara de Atlantic City,
sofrendo suores orientais, pulverizações tangerianas nos ossos
e enxaquecas da China em ressaca de heroína
num quarto desolado e sórdido de Newark,
que à meia-noite deram voltas e voltas na oficina ferroviária
imaginando para onde ir
e foram, sem deixar corações partidos,
que acenderam cigarros em vagões, vagões, vagões
que rumavam ruidosamente pela neve fora
até quintas solitárias na noite antiga,
que estudaram Plotino, Edgar Allan Poe, São João da Cruz, telepatia e Kabbalah-bop
porque o Cosmos instintivamente vibrava a seus pés em Kansas,
que passaram solitários pelas ruas de Idaho
em busca de anjos índios visionários que eram anjos índios visionários,
que julgaram estarem apenas loucos
quando Baltimore reluziu num êxtase sobrenatural,
que pularam em limusines com o Chinoca de Oklahoma
impulsionados pela chuva de inverno à meia-noite na luz das ruas da pequena cidade,
que vaguearam sozinhos e famintos por Houston
procurando jazz ou sexo ou sopa
e seguiram o brilhante Espanhol para conversar sobre a América e a Eternidade,
tarefa deseperante e impossível, e  por isso embarcaram num navio rumo a África,
que desapareceram nos vulcões do México
não deixando nada para trás além da sombra das calças de ganga
e a lava e a cinza da poesia dispersas na lareira de Chicago,
que reapareceram na Costa Oeste investigando o FBI
de barba e calções com grandes olhos pacifistas e sensuais nas suas peles morenas,
distribuindo folhetos imcompreensiveis,
que apagaram cigarros acesos nos seus braços
protestando contra o nevoeiro narcótico de tabaco do Capitalismo,
que distribuíram panfletos supercomunistas em Union Square,
chorando e despindo-se enquanto as
sirenes de Los Alamos os afugentava protestando mais alto que eles,
protestando pela Wall Street
e protestando também o Ferry de Staten Island,
que caíram em prantos em ginásios brancos,
nus e trêmulos diante da maquinaria de outros esqueletos,
que morderam policiais no pescoço
e berraram de prazer nos carros presidiários
por não terem cometido qualquer crime
a não ser sua propria intoxicação e pederástia selvagem,
que uivaram de joelhos no Metro
e foram arrancados do telhado sacudindo genitais e manuscritos,
que se deixaram enrabar por motociclistas santificados e gritaram de prazer,
que mamaram e foram mamados por esses serafins humanos,
os marinheiros, carícias de amor atlântico e caribeano,
que fizeram sexo pela manhã, pela tarde em roseirais
na relva de jardins públicos e cemitérios,
espalhando livremente seu sêmem para quem quer que fosse,
fosse quem fosse que se quisesse vir,
que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar
mas acabaram em lágrimas atrás de um tabique de banho turco
onde o anjo loiro e nu veio penetrá-los com sua espada,
que perderam os seus amantes para as três megeras do destino,
a megera zarolha do dólar heterossexual,
a megera zarolha que pestaneja de dentro do útero
e a megera zarolha que só sabe assentar o cu
retalhando os dourados fios intelectuais do tear do artesão,
que copularam extasiados e insaciáveis com uma garrafa de cerveja,
uma namorada, um maço de cigarros, uma vela,
e caíram da cama e continuaram pelo chão e pelo corredor
e terminaram desmaiando contra a parede com uma visão derradeira de cona e de esporra
a iludir o ultimo jacto de consciência,
que provaram a pachacha de um milhão de miúdas trêmulas ao anoitecer,
e mesmo de olhos vermelhos na manhã seguinte estavam prontos para
fornicar o nascer do sol, exibindo as peidas nos celeiros e nus no lago,
que se prostituíram no Colorado numa miríade de carros roubados na noite,
N.C., herói secreto destes poemas, garanhão e Adonis de Denver,
bem haja a memória das suas incontáveis pinocadas com tipas
em terrenos baldios & pátios dos fundos de restaurantes de beira de estrada,
nas periclitantes filas de poltronas de cinema, no cimo de montanhas em grutas,
ou com esqueléticas empregadas de mesa num íntimo e solitário
levantar de saiotes à beira da estrada & especialmente solipsismos secretos em urinois de Estações de Serviço & também becos da cidade natal,
que se eclipsaram em longos filmes sórdidos, sendo transportados em sonhos,
acordando numa Manhattan súbita e conseguiram voltar com uma
impiedosa ressaca de do fundo das adegas do insensivel Tokay
e o horror dos sonhos de ferro da Terceira Avenida
& cambalearam rumo aos centros de emprego,
que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de sangue
pelo cais repleto de neve, esperando que se abrisse uma porta no East River
dando para um quarto cheio de vapor e ópio,
que criaram grandes dramas suicidas
nos penhascos de apartamentos do Hudson
à luz de azulado holofote anti-aéreo da lua & suas cabeças
deverão ser coroadas de louros no esquecimento,
que comeram o estufado de cordeiro da imaginação
ou digeriram o caranguejo no fundo lodoso dos rios de Bovery,
que choraram diante do romance das ruas
com seus carrinhos de mão cheios de cebola e péssima música,
que ficaram sentados em caixotes respirando na escuridão sob a ponte
e ergueram-se para construir cravos nas suas águas-furtadas,
que tossiram num sexto andar do Harlem coroado de chamas
sob um céu tuberculoso rodeados pelos caixotes alaranjados de teologia,
que rabiscaram a noite toda deitando e rolando sobre encantações sublimes
que á luz amarela do amanhecer revelaram-se estrofes inintelegíveis,
que cozinharam animais apodrecidos, pulmão, coração, patas, cauda,
borsht & tortillas sonhando com o puro reino vegetal,
que se atiraram sob caminhões de carne em busca de um ovo,
que jogaram seus relógios do telhado
fazendo a sua aposta pela Eternidade
fora do Tempo & despertadores caíram nas suas cabeças
por todos os dias da década seguinte,
que cortaram três vezes seus pulsos sucessivamente sem sucesso,
desistiram e foram forçados a abrir antiquários
onde acharam iam envelhecer e choraram,
que foram queimados vivos em seus inocentes fatos de flanela em Madison Avenue
no meio de disparos de versos de chumbo
& o estrondo abafado dos férreos esquadrões da moda
& os guinchos de nitroglicerina das bichas da publicidade
& o gás mostarda dos editores inteligentes e sinistros
ou foram presseguidos pelos táxis embriagados da Realidade Absoluta,
que salataram da Ponte de Brooklyn, isto realmente aconteceu
e partiram desconhecidos e esquecidos
para dentro da espectral confusão das ruelas de sopa & carros de bombeiros
de Chinatown, nem mesmo uma cerveja de borla,
que cantaram nas suas janelas em desepero,
atiraram-se pela janela do Metro, saltaram no imundo rio Passaic,
pularam nos braços dos negros, choraram pela rua afora,
dançaram descalços sobre estilhaços de copos de vinho
destruindo nostálgicos discos de jazz europeu alemão dos anos 30,
terminaram o whisky e vomitaram gemendo em retretes ensanguentadas,
lamentações nos ouvidos e o sopro de colossais apitos a vapor,
que tombaram pelas auto-estradas das viagens do passado
no relógio da solidão prisional no Gólgota do “tunning” de cada um
ou então a encarnação do Jazz de Birmingham,
que guiaram atravessando o país durante setenta e duas horas para saber
se eu tinha tido uma visão ou se tu tinhas tido uma visão ou se ele tinha tido
uma visão para descobrir a Eternidade,
que viajaram rumo a Denver, que morreram em Denver, que retornaram a Denver
& esperaram em vão, que espreitaram Denver & ficaram parados pensando
& solitários em Denver e finalmente partiram para descobrir o Tempo
& agora Denver tem saudades dos seus heróis,
que caíram de joelhos em catedrais sem esperança
rezando pela salvação uns dos outros e luz e os peitos
até que a alma iluminasse seu cabelo por um segundo,
que se esmagaram suas mentes na prisão
aguardando impossíveis criminosos de cabeça dourada
e o encanto da realidade nos seus corações que entoavam docemente
o Blues de Alcatraz,
que se retiraram para ao México para cultivar o vício
ou para as Montanhas Rochosas para venerarem Buda
ou para Tanger para os rapazes ou para Pacifico Sul, para a locomotiva negra,
ou para Harvard, ou para Narciso, para Woodlawn,para o branqueamento ou o túmulo,
que exigiram exames de sanidade mental acusando o rádio de hipnotismo
& foram deixados com sua loucura & suas mãos & um júri suspeito,
que atiraram salada de batata na conferência do City College de New York sobre Dadaísmo
e em seguida se apresentaram na escadaria de granito do manicômio
com cabeças raspadas e fala de arlequim sobre suicídio,
exigindo lobotomia imediata,
e que em lugar disso receberam o vazio concreto da insulina Metrazol
electrochoques, hidroterapia, psicoterapia, terapia ocupacional
pingue-pongue & amnésia,
que num protesto sem graça derrubaram apenas uma simbólica mesa de pingue-pongue, momentaneamente catatônicos,
voltando anos depois, realmente carecas exceto uma peruca de sangue
e lágrimas e dedos para a visível perdição do louco
nas celas das cidades-manicômio do Leste,
os corredores fétidos Pilgrim State, Rockland, Greystone,
lutando com os ecos da alma,
ás cambalhotas à meia-noite no banco da solidão
dos domínios do Dólmen do amor, um pesadelo de sonho de vida,
corpos tornados pedra tão pesados como a lua,
com a mãe finalmente ****** e o último livro fantástico atirado pela janela da casa pobre
e a última porta fechada às 4 da madrugada e o último telefone arremessado
contra a parede em resposta e o último quarto mobiliado
esvaziado até a última peça de mobília mentálica,
uma rosa de papel amarelo retorcida num cabide de arame do armário
e até essa imaginária, nada mais que um bocadinho esperançoso de alucinação
ah, Carl, enquanto tu não estiveres a salvo eu não estarei a salvo
e agora tu estás inteiramente mergulhado no caldo animal do tempo
e que por isso correram obcecados pelas ruas geladas
por um súbito clarão da alquimia do uso
da elipse, do catálogo, da métrica & do plano vibratório
que sonharam e encarnaram brechas no Tempo &
Espaço através de imagens justapostas
e encurralaram o arcanjo da alma entre 2 imagens visuais
e reuniram os verbos elementares
e juntaram o substantivo e o esmagamento da consciência
fervilhando numa sensação de Pater Omnipotens Aeterni Deus,
para recriar a sintaxe e a medida da pobre prosa humana
e ficaram parados à sua frente, mudos e inteligentes e trêmulos de vergonha,
rejeitados todavia expondo a alma
para conformar-se com o ritmo do pensamento na sua cabeça nua e infinita,
o louco vagabundo e o anjo soam ao mesmo Tempo, desconhecido,
mas mesmo assim deixando aqui o que houver para ser dito
no tempo que virá após a morte,
e reergueram-se reencarnados na roupagem fantasmagórica do jazz
no espectro de trombeta dourada da banda
e fizeram soar o sofrimento da mente nua da América pelo amor
num grito de saxofone de eli eli lama lama sabactani
que estilhaçou as cidades até ao último rádio,
com o coração absoluto do poema da vida arrancado dos seus corpos
comestível por mais mil anos.

II

Que esfinge de cimento e aluminio lhes rachou os crânios
e lhes comeu os miolos e a imaginação?
Moloch! Solidão! Sugidade! Fealdade! Cinzas e Dolars por alcançar!
Crianças gritando nos vãos de escadas! Rapazes em pranto nos exércitos!
Velhos chorosos nos parques!
Moloch! Moloch! Pesadelo de Moloch! Moloch mal-amado!
Moloch mental! Moloch o severo juiz do homem!
Moloch é a prisão incompreensivel! Moloch a cadeia de esqueletos sem alma
e um Congresso de Mágoas! Moloch cujos prédios são julgamento!
Moloch a vasta pedra da guerra! Moloch os governos aturdidos!
Moloch cuja mente é pura maquinaria! Moloch cujo sangue é dinheiro circulando!
Moloch cujos dedos são dez exércitos! Moloch cujo peito é um dínamo canibal!
Moloch cujo ouvido é um tumulo de fumo! Moloch com olhos de mil janelas cegas!
Moloch cujos arranha-céus se estendem por longas ruas como Jeovás intermináveis!
Moloch cujas fabricas sonham e morrem na neblina!
Moloch cujas chaminés e antenas coroam as cidades!
Moloch cujo amor é pedra e petróleo interminável! Moloch cuja alma é electricidade e bancos!
Moloch cuja pobreza é o espectro do génio! Moloch cujo destino é uma nuvem assexuada de hidrogênio! Moloch cujo nome é a Mente!
Moloch em que me sinto sozinho! Moloch em que sonho Anjos! Maluco em Moloch!
Brochista em Moloch! Sem amor e sem homens em Moloch!
Moloch que penetrou cedo em minha alma! Moloch em que sou uma consciência incorpórea!
Moloch que aterrorizando-me me arrancou do meu êxtase natural!
Moloch que eu abandono! Despertem em Moloch! Luz flui dos céus!
Moloch! Moloch! Apartamentos robóticos! subúrbios invisíveis! Tesoureiros esqueletos! Capitais cegas! indústrias demoníacas! nações de espectros! manicômios invenciveis! caralhos de granito! bombas monstruosas!
Deram cabo das costas elevando Moloch aos Céus! Pavimentos, árvores, rádios, toneladas! Ergueram a cidade ao Céu que existe e que está em toda a parte!
Visões! presságios! alucinações! milagres! êxtases! Tudo pelo rio americano abaixo!
Sonhos! Adorações! Iluminações! Religiões! Um amontoado de sensibilidades de merda!
Descobertas! sobre o rio! saltos e cruxificações! Tudo vai com a inundação! Pedradas! Epifanias! Deseperos! Dez anos de gritos animalescos e suicídios! Mentes! Novos Amores!
Geração louca! Em baixo nas rochas do Tempo!
Risos sinceros e sagrados no rio! Eles observaram tudo! Os olhos selvagens! Os gritos sagrados! Despediram-se! Saltaram do telhado! para a solidão! acenando! levando flores!
em direcção ao rio! em direcção á rua!

III

Carl Solomon! Estou contigo em Rockland
onde és mais louco do que eu
Estou contigo em Rockland
onde te deves sentir muito estranho
Estou contigo em Rockland
onde imitas a sombra da minha mãe
Estou contigo em Rockland
onde matas-te as tuas doze secretárias
Estou contigo em Rockland
onde te ris deste humor invisível
Estou contigo em Rockland
onde somos grandes escritores na mesma horrível maquina de escrever
Estou contigo em Rockland
onde o teu estado de saúde se agravou e foi noticiado na rádio
Estou contigo em Rockland
onde as faculdades do crânio já não admitem os vermes dos sentidos
Estou contigo em Rockland
onde bebes chá das mamas das solteironas de Utica
Estou contigo em Rockland
onde gozas com os corpos das tuas enfermeiras, as harpias do Bronx
Estou contigo em Rockland
onde gritas numa camisa de forças que estás a peder o jogo de pingue-pongue do abismo
Estou contigo em Rockland
onde violentas o piano catatônico e a alma é inocente e imortal e jamais deverá morrer ímpia num manicômio armado
Estou contigo em Rockland
onde cinquenta choques adicionais não farão a alma regressar ao corpo de novo da sua peregrinação a uma cruz no vazio.
Estou contigo em Rockland
onde acusas os teus médicos de insanidade e conspiras na revolução Hebraico-socialista contra o nacional-fascismo Gólgota.
Estou contigo em Rockland
onde apartas os céus de Long Island e ressuscitas um Jesus humano e vivo do seu tumulo sobre-humano
Estou contigo em Rockland
onde há vinte e cinco mil camaradas que cantam em conjunto as estrofes finais da Internacional
Estou contigo em Rockland
onde abraçamos e beijamos os Estados Unidos, debaixo dos lençóis os Estados Unidos que tossem toda a noite e não nos deixam dormir.
Estou contigo em Rockland
onde acordamos electrificados de coma pelo barulho dos aviões da nossa alma pelos telhados, eles vieram para lançar bombas angélicas, os hospitais se iluminam, os muros imaginários colapsam,
Ó legiões magras corram lá para fora,
Ó chegou o choque misericordioso de estrelas ornando a guerra eterna,
Ó vitória, esqueçe as cuecas, somos livres
Estou contigo em Rockland
nos meus sonhos caminhas a pingar de uma viagem marítima pelas estradas da América lavado em lágrimas rumo á porta da minha cabana na noite do Oeste.


(Tradução: Ricardo Bargão)




(Ilustração: Uma multidão ouve Allen Ginsberg dar uma leitura de poesia sem censura em Washington parque Square, em Nova York, 1966. AP)