terça-feira, 7 de julho de 2026

EXÍLIO, de Milton Hatoun

  


M.A.C. decidiu ir a pé até a rodoviária: comeria um pastel e seguiria para a W3-Sul. Numa tarde assim, seca e ensolarada, dava vontade de caminhar, mas preferi pegar o ônibus uma hora antes do combinado: saltaria perto do hotel Nacional e desceria a avenida contornando as casas geminadas.

A cidade ainda era estranha para mim: espaço grandioso demais para um ser humano, a superfície de barro e grama rala se perdia no horizonte do cerrado. A Asa Norte estava quase deserta, era sexta-feira, e só às três da tarde alguns estudantes saíram dos edifícios malconservados. Do campus vinham os mais velhos: universitários, professores, funcionários, a turma escaldada. A liderança era invisível, os mais perseguidos não tinham nome: surgiam no momento propício, discursavam, sumiam.

Valmor não quis ir: medo, só isso, ele disse.

Zombavam do Valmor, escarneciam do M.A.C., medroso como um rato, mas agora até o M.A.C. sairia da toca e quem sabe se na próxima vez Valmor…

A revolta se irmanava ao medo, mas a multidão nos protegia e naquela tarde éramos milhares. Os militares esperaram o tumulto crescer na W3, depois se formou o cerco quase perfeito: nas extremidades e laterais da avenida, nos dois Eixos e nos pontos de fuga da capital. Às cinco ouvimos os discursos-relâmpago, urramos as palavras de ordem, pichamos paredes e distribuímos panfletos. A dispersão começou antes de escurecer.

Ninguém iria ao Beirute, um bar visado pela polícia, nem ao Eixo Rodoviário, uma praça de guerra. Durante o corre-corre saí da W3, passei pelos fundos de lojas e bares do setor comercial, tentando caminhar sem alarde, assobiando, e o céu ainda azulado era a paisagem possível. Nunca olhar para trás nem para os lados, nunca se juntar aos outros manifestantes, fingir que todos os outros são estranhos: instruções para evitar gestos e atitudes suspeitos. Até então nenhum rosto conhecido, e a catedral inacabada e o Teatro Nacional não estavam tão longe. Ficaria por ali à espera da noite, anunciada pela torre iluminada.

A dispersão e a correria continuavam: o mais prudente era ficar sentado no gramado da 302 ou da 307 e assistir ao bate-bola das crianças. Amanhã um passeio de bote com Liana no lago Paranoá, domingo a releitura de Huis Clos para o ensaio da peça. Se viver fosse apenas isso e se a minha voz (e não a de outro) gritasse meu próprio nome, duas, três vezes… Assustado, reconheci a voz de M.A.C., o corpo cambaleando em minha direção. A rua e a quadra comercial foram cercadas como num pesadelo, tentar fugir ou reagir seria igualmente desastroso. Depois de chutes e empurrões, eu e o meu colega rumamos para o desconhecido. M.A.C. quis saber para onde íamos, uma voz sem rosto ameaçou: “Calado, mãos para trás e cabeça entre as pernas”.

O trajeto sinuoso, as curvas para despistar o destino da viatura, manobras num labirinto que apenas imaginávamos e agora estava acontecendo. Pobre M.A.C., era o mais retraído da segunda série, misterioso como um bicho esquisito. Tremia ao meu lado, parecia chorar e continuou a tremer quando saltamos da viatura e escutei sua voz fraca: “Sou menor de idade”, e logo uma bofetada, a escolta, o interrogatório. Ainda virou a cabeça, o rosto pedindo socorro…

Não o vi mais na noite longa. Eu também era menor de idade e escutei gritos de dor no outro lado de uma porta que nunca foi aberta. Em algum lugar perto de mim, alguém podia estar morrendo, e essa conjetura dissipou um pouco meu medo. Na noite do dia seguinte me largaram na estrada Parque Taguatinga-Guará. A inocência, a ingenuidade e a ilusão, quase todas as fantasias da juventude tinham sido enterradas…

Na segunda-feira M.A.C. não foi ao colégio nem compareceu aos exames. Mais um desaparecido naquele dezembro em que deixei a cidade.

Durante muito tempo a memória dos gritos de dor trazia de volta o rosto assustado do colega.

Trinta e dois anos depois, na primeira viagem de volta à capital, encontrei um amigo de 1969 e perguntei sobre M.A.C.

“Está morando em São Paulo”, ele disse. “Talvez seja teu vizinho.”

“Pensei que tivesse morrido.”

“De alguma forma ele morreu. Sumiu do colégio e da cidade, depois ressuscitou e foi anistiado.” “Exílio”, murmurei.

“Delação”, corrigiu Carlos Marcelo. “M.A.C. era um dedo-duro. Entregou muita gente e caiu fora.”



(Um solitário à espreita)



(Ilustração: Tropa do exército em frente ao Congresso Nacional - 31.4.1964, foto agência O Globo)


sábado, 4 de julho de 2026

RECÉM-CASADO, de Lélia Coelho Frota






É pelos corpos que nos perdemos

de nós mesmos, para nos ganharmos.

É pelos beijos que nos despedimos

para nos encontrarmos pelos olhos.

É pela pele que escaldamos

o que em nós havia de secreto:

e é o nosso corpo entregue um corpo

estranho

pois pertence só a quem amamos

por quem morosamente devassamos

o alheamento da carne -

o barqueiro, o pastor que a atravessa

num profundo arremesso vagaroso

levantando ondas, ondas, ondas e

ervas

a subir e descer vagas e montes

levando-me com ele à raia clara

onde água a quebrar-se eu me

constele

na sua barca, conduzida à praia.



(Ilustração: Fernando Botero)

quarta-feira, 1 de julho de 2026

CONVICÇÃO E FANATISMO, de Delia Steinberg Guzman



A nossa intenção é de clarificar a diferença que vemos entre convicção e fanatismo para que, postas as coisas no seu devido lugar, cada qual possa ajuizar sobre si mesmo e sobre os outros com um pouco mais de precisão.

A convicção é um alto compromisso psicológico, intelectual e moral que surge de uma adesão progressiva e fundada em boas razões, em provas, em experiências, em modelos e bases sólidas.

Uma pessoa com convicções demonstra uma saúde integral, uma segurança interior invejável, sabe de onde vem e para onde vai, que lhe permite mover-se com equilíbrio e sensatez. As convicções nascem de exercício constante das nossas capacidades interiores e da transformação paulatina de opiniões mutáveis em juízos estáveis. Não se trata de anquilosamento nem de estagnação; pelo contrário, quem tem convicções vive ao ritmo das Ideias, pois estas têm uma energia própria e um ritmo natural de desenvolvimento.

Uma pessoa com convicções é tolerante. É firme no que lhe diz respeito, mas dá lugar aos outros. Sempre disposta a ouvir, não despreza os que pensam de outro modo. Possui uma tolerância ativa: ouve os outros, expõe e defende os seus próprios pensamentos sem ferir, sem insultar. Sabe criar espaço para si mesma e para os demais. Abre espaço, gera espaço, reconhece o seu espaço, não invade o espaço alheio, não importuna, não inquieta nem maltrata os que estão à sua volta. Não se impõe de forma tirânica nem se considera o cume da perfeição. É a sua convicção que a ajuda a avançar, a ser cada vez um pouco melhor.

Uma pessoa fanática pensa pouco ou nada. Admite como bom o que os outros lhe dão e desenvolve, em vez de sentimentos, paixões incontroláveis que a arrastam para ações inconscientes das quais nem sequer se arrepende porque não pode avaliá-las.

O fanático só conhece uma ideia, se é que a conhece. Digamos antes que só aceita uma ideia, e que chegou a essa ideia não por uma adesão pessoal, mas sob o efeito de uma coação habilmente dissimulada na maioria dos casos.

O fanático é, por definição, intolerante. Nem sequer aceita a existência dos que possam sentir e pensar de outro modo; por isso, procura eliminá-los a qualquer preço, sendo a morte e a tortura algumas das terríveis manifestações desta atitude. O fanático não ouve, é incapaz de dialogar. Só sabe gritar alto e em bom som os seus princípios para ficar atordoado com a sua própria voz e não deixar espaço a nenhuma outra opinião. Contenta-se amplamente com o que tem e despreza tudo o resto que para ele não existe ou deveria deixar de existir. O fanatismo é raiz da tirania.

É certo que devemos conviver com muitos – demasiados – fanáticos, mas não podemos cair na cópia inconsciente desta aberração por muito que o absurdo que nos rege faça com que esta aberração ocupe mais tempo e espaço que as obras nobres e produtivas para a Humanidade. Devemos manter a nossa integridade moral e convertermo-nos em seres humanos cabais e com autênticas convicções.



(Do blog Nova Acrópole)



(Ilustração: Nicolai Pimonenko - Victime of fanatisme)

domingo, 28 de junho de 2026

PALIMPSESTO, de Paulo Raviere

  


Meu coração é um palimpsesto

de cicatrizes: escara devora

escara; o sangue se mistura

com os sangues; os tecidos

sofrem eclipses; a pele tece

lençóis sobre as feridas. Nódoa

na memória: o sonho se afoga

no banho de sol; o olho implora

para ver as veredas verdes de uma

verdade; a ferida se degenera,

se regenera o tecido; somente

o sonho me ensina a renascer.

Palimpsesto é resistência: jamais

houve pensamento que não fosse

canibal; cada novo nascimento

é uma punhalada na História.



(As Maçãs do Fel; inédito)



(Ilustração: Tony Ashton - Palimpsesto série três 
- você nunca está sozinho com um rinoceronte)

quinta-feira, 25 de junho de 2026

OS OCIOSOS, de Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares


A era atômica, a cortina que cai sobre o colonialismo, a luta de interesses encontrados, a postulação comunista, a alta do custo de vida e a retratação dos meios de pagamento, o chamado do papa à concórdia, o progressivo debilitamento do nosso signo monetário, a prática do trabalho sem vontade, a proliferação de supermercados, a extensão de cheques sem fundos, a conquista do espaço, despovoamento do agro e o auge correlativo das favelas compõem todo um panorama inquietante que dá o que pensar. Diagnosticar os males é uma coisa; prescrever sua terapêutica é outra. Sem aspirar ao título de profetas, atrevemo-nos, no entanto, a insinuar que a importação de Ociosos no país, com vistas à sua fabricação, contribuirá não pouco para diminuir, à maneira de sedativo, o nervosismo hoje tão generalizado. O reino da máquina é um fenômeno que já ninguém disputa; o Ocioso comporta um passo a mais de tão inelutável processo.

Qual foi o primeiro telégrafo, qual o primeiro trator, qual a primeira Singer são perguntas que põem o intelectual em apuros; o problema não se coloca com relação aos Ociosos. Não há no orbe um iconoclasta que negue que o primeiro de todos obrou em Mulhouse e que seu incontestável progenitor foi o engenheiro Walter Eisengardt (1914-1941). Duas personalidades lutavam nesse valioso teutão: o incorrigível sonhador que publicou as duas monografias ponderáveis, hoje esquecidas, em torno das figuras de Molinos e do pensador de raça amarela Lao-tsé, e o sólido metódico de realização tenaz e de cérebro prático que, depois de arquitetar uma porção de máquinas claramente industriais, deu à luz, em 3 de junho de 1939, ao primeiro Ocioso de que se tem notícia. Falamos do modelo que se conserva no Museu de Mulhouse: apenas um metro e vinte e cinco de longitude, setenta centímetros de altura e quarenta de largura, mas nele quase todos os detalhes, desde os recipientes de metal até os condutos.

O segundo é de uso em toda localidade fronteiriça, uma das avós maternas do inventor era de cepa gaulesa e o mais notável da vizinhança a conhecia pelo nome de Germaine Baculard. O folheto no qual nos baseamos para este trabalho de fôlego intui que essa elegância, que é a marca da obra de Eisengardt, tem fonte de origem naquela irrigação de sangue cartesiano. Não regateamos nosso aplauso a esta amável hipótese que, além do mais, é adotada por Jean-Christophe Baculard, continuador e divulgador do mestre. Eisengardt faleceu mediante um acidente de automóvel da marca Bugatti; não lhe foi dado ver os Ociosos que hoje triunfam em usinas e escritórios. Prega que os contemple do céu, diminuídos pela distância e, por isso, mais de acordo com o protótipo que ele mesmo rematara!

Aqui vai agora um esboço do Ocioso, para aqueles leitores que ainda não tiveram o escrúpulo de ir examiná-lo em San Justo, na fábrica de Pistões Ubalde. O monumental artefato cobre a largura do terraço que centra o ponto da usina. Assim, a olho, lembra um linotipo desmesurado. É duas vezes mais alto que o capataz; seu peso se computa em várias toneladas de areia; a cor é de ferro pintado de preto; o material, de ferro.

Uma passarela em escadaria permite que o visitante o escrute e toque. Sentirá lá dentro como um leve pulsar e, se aplicar o ouvido, detectará um longínquo sussurro. De fato, há em seu interior um sistema de condutos pelos quais corre água na escuridão e uma que outra pedra. Ninguém pretenderá, no entanto, que são as qualidades físicas do Ocioso as que redundam na massa humana que o rodeia; é a consciência de que em suas entranhas palpita algo silencioso e secreto, algo que brinca e dorme.

A meta perseguida pelas românticas vigílias de Eisengardt foi plenamente alcançada; onde quer que haja um Ocioso, a máquina descansa e o homem, reanimado, trabalha.



(Crônicas de Bustos Domecq Novos Contos de Bustos Domecq; tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro)



(Ilustração : escultura de Kris Kuksi - Liner AM 13)

segunda-feira, 22 de junho de 2026

DER PANTHER [IM JARDIN DES PLANTES, PARIS] / A PANTERA (NO JARDIN DES PLANTES, PARIS), de Rainer Maria Rilke

 


Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe

so müd geworden,dass er nichts mehr hält.

Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe

und hinter tausend Stäben keine Welt.

 

Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte,

der sich im allerkleinsten Kreise dreht,

ist wie ein Tanz von Kraft um eine Mitte,

in der betäubt ein grosser Wille steht.

 

Nur manchmal schiebt der Vorhang der Pupille

sich lautlos auf -. Dann geht ein Bild hinein,

geht durch der Glieder angespannte Stille -

und hört im Herzen auf zu sein.

 

 

Tradução de Augusto de Campos:


De tanto olhar as grades seu olhar

esmoreceu e nada mais aferra.

Como se houvesse só grades na terra:

grades, apenas grades para olhar.

 

A onda andante e flexível do seu vulto

em círculos concêntricos decresce,

dança de força em torno a um ponto oculto

no qual um grande impulso se arrefece.

 

De vez em quando o fecho da pupila

se abre em silêncio. Uma imagem, então,

na tensa paz dos músculos se instila

para morrer no coração.

 

 

Tradução de Geir Campos:

 

 

Varando a grade, a nada mais se agarra

o olhar tomado de um torpor profundo:

para ela é como se houvesse mil barras

e, atrás dessas mil barras, nenhum mundo.

 

Seu firme andar de passos gráceis, dentro

dum círculo talvez muito apertado,

é uma dança de força em cujo centro

ergue-se um grande anseio atordoado.

 

De raro em raro, só, o véu das pupilas

abre-se sem ruído — e deixa entrar

a imagem, que sobe, pelas tranquilas

patas, ao coração, para aí ficar.

 

Tradução de José Paulo Paes:

 

Seu olhar, de tanto percorrer as grades,

está fatigado, já nada retém.

É como se existisse uma infinidade

de grades e mundo nenhum mais além.

 

O seu passo elástico e macio, dentro

do círculo menor, a cada volta urde

como que uma dança de força: no centro

delas, uma vontade maior se aturde.

 

Certas vezes, a cortina das pupilas

ergue-se em silêncio. – Uma imagem então

penetra, a calma dos membros tensos trilha –

e se apaga quando chega ao coração.

 

(Neue gedichte I; Novos poemas I; 1907)

 

(Ilustração: foto da pantera negra - no Zoo Negara, Malaysia)

sexta-feira, 19 de junho de 2026

INDO EMBORA, de Antônio Prata

 


Como em tantas outras madrugadas, acordo com um chorinho na babá eletrônica. É a Olivia, minha filha mais velha, de um ano e oito meses. Na maioria das vezes, ela vira pro lado e volta a dormir, sozinha. Em algumas noites, contudo - e é o caso desta aqui -, ela senta no berço e começa a gritar “Papai! Papai! Papai!” ou “Mamãe! Mamãe! Mamãe!” até que um de nós apareça para ouvir suas reivindicações.

São dois filhos, duas babás eletrônicas, cujos sinais se embaralham, de modo que não ouço bem se é “Papai!” - e serei eu a sair tropeçando pela noite fria - ou “Mamãe!” - e caberá à Julia explicar que não é hora de mamar, nem de ir pra escola, nem de brincar com o Senhor Batata, nem de ouvir Galinha Pintadinha, mas hora de dormir.

“É papai ou mamãe?”, balbucio, de olhos fechados, ao que minha mulher, sem nenhuma compaixão, sem nem sequer segurar a minha mão ou fazer um cafuné preparatório, dispara: “É ‘Arthur'”. Uma espada samurai atravessa o meu peito.

É claro que eu sabia que esse dia iria chegar: o dia em que aquele bebezinho lindo que embalei em meus braços, na maternidade, aquele serzinho indefeso que eu trouxe pra casa, a 30 km/h, com pisca alerta ligado, pela Raposo Tavares, aquele bumbunzinho rechonchudo que tantas vezes limpei, aqueles olhões deslumbrantes diante dos quais expliquei “esse é o leão”, “essa é a lua”, “esse é o manjericão”, “essa é a chuva”, iriam me trocar por outro homem. Achava, porém, que esse dia só viria lá por 2030-2027, na previsão mais pessimista.

Pensando bem, nem havia pessimismo na previsão. Imaginava, não sei se do alto do meu narcisismo ou do fundo da minha ingenuidade, que iria encarar tal dia com satisfação. Afinal, eu haveria criado minha filha para o mundo. Que ela saísse por aí se apaixonando e namorando seria um sinal da sua saúde e do nosso acerto.

Um pai enciumado? Coisa mais anos 1950 - e, no entanto, meus amigos, quando descubro que não é a mim que ela implora para salvá-la do escuro e da solidão, mas ao Arthur, colega da escola – um rapaz mais velho, diga-se de passagem, já beirando os três anos - um nó de marinheiro se forma na minha garganta.

Estirado na cama, trêmulo, me dou conta de que, nas últimas semanas, ela já vinha dando sinais daquela paixão, e, pior, eu os vinha recebendo com patente irritação. Eu pegava o “Marcelo, Marmelo, Martelo”, a Olivia punha o dedo na capa e dizia: “Arthur!”. “Não, Olivia, não é o Arthur, é o Marcelo!”. Aparecia o irmão da Peppa, na TV, ela corria até a tela, sorrindo: “Arthur!”. “Não, Olivia, não é o Arthur, é o irmão da Peppa!”. Huguinho, Zezinho, Luizinho? “Arthur! Arthur! Arthur!”. “Não, Olivia, eles são patos, não são o Arthur!”.

“Se você não vai, eu vou!”, resmunga a Julia, saindo da cama, surpreendentemente insensível ao meu cataclismo emocional. Só, vendo a Olivia na telinha da babá eletrônica, compreendo que não é ciúmes o que eu sinto, é solidão, uma solidão inédita e brutal: aquela menininha sentada no berço já começou a sair de casa, está indo embora, minuto a minuto, desde o dia em que a embalei no colo, na maternidade; logo, logo, ela parte, de braços dados com algum Arthur, depois eu fico velho, aí eu morro, então acabou-se o que era doce, ou agridoce, tão rápido, tão rápido, que coisa mais doida é isso tudo.



(Ilustração : Norman Rockwell - Girl at Mirror – 1954)

terça-feira, 16 de junho de 2026

ISAÍAS / ISAÍAS, de Olalla Castro


Destrúyelo todo para mí, Señor.

Que los impíos caigan sobre la tierra

cono el fruto de un árbol al varear sus ramas.

Que la muerte se esparza cual semilla.

Castiga, Señor, castiga,

a los cínicos, los ciegos, los violentos.

Golpea a quienes nos han golpeado.

Júzgalos. Condénalos.

Aplasta con tu mano sus manos miserables.

Que todos los pueblos menos el nuestro mueran.

Que las ciudades caigan menos Jerusalén.

Que nosotros, los únicos justos,

reeinemos con nuestra única verdad.



Tradução de Isaias Edson Sidney:



Destrói tudo por mim, Senhor.

Que caiam os ímpios sobre a terra

como o fruto de uma árvore quando se fustigam seus ramos.

Que a morte se espalhe como semente.

Castiga, Senhor, castiga

os cínicos, os cegos, os violentos.

Fere quem nos feriu.

Julga-os. Condena-os.

Esmaga com tua mão suas mãos miseráveis.

Que morram todos os povos, menos o nosso.

Que se destruam as cidades, menos Jerusalém.

Que nós, os únicos justos,

reinemos com a nossa única verdade



(Todas las veces que el mundo se acabó)



(Ilustração: Viktor Vasnetsov - quatro cavaleiros do Apocalipse – 1887)

sábado, 13 de junho de 2026

O QUE QUEREMOS SABER?, Alberto Manguel



A maior parte de minha infância em Tel Aviv transcorreu em silêncio: eu quase nunca fazia perguntas. Não que eu não fosse curioso. É claro que eu queria descobrir o que se guardava trancado na caixa pirogravada ao lado da cama de minha preceptora, ou quem morava atrás das cortinas dos trailers estacionados na praia de Herzliya, onde eu era severamente advertido a nunca passear. Minha preceptora respondia cuidadosamente a quaisquer perguntas, após o que me parecia uma longa e desnecessária consideração, e suas respostas eram sempre breves, factuais, não permitindo réplica ou discussão. Quando eu quis saber do que era feita a areia, sua resposta foi “de conchas e de pedras”. Quando eu fui buscar informação sobre o horrível Erlkönig, do poema de Goethe, que eu tinha de aprender de cor, a explicação foi: “É só um pesadelo”. (Como a palavra alemã para pesadelo é Alpentraum, eu imaginava que pesadelos só poderiam acontecer nas montanhas.) Quando eu me perguntei por que era tão escuro à noite e tão claro durante o dia, ela desenhou uma série de pontos formando um círculo num pedaço de papel, que tencionava representar o sistema solar, e depois me fez decorar os nomes dos planetas. Nunca se recusou a responder e nunca me estimulou a questionar.

Só muito mais tarde descobri que fazer perguntas poderia ser outra coisa, semelhante à emoção de uma busca, promessa de algo que tomava forma enquanto acontecia, uma progressão de explorações que cresciam numa troca recíproca entre duas pessoas e que não requeria uma conclusão. Não há como exagerar a importância de ter liberdade para fazer tais inquirições. Para uma criança, elas são essenciais para a mente assim como o movimento é essencial para o corpo. No século XVII, Jean-Jacques Rousseau afirmou que uma escola deveria ser um espaço onde se dava livre alcance à imaginação e à reflexão, sem qualquer propósito óbvio ou prático ou qualquer objetivo utilitário. “O homem civil nasce, vive e morre na escravidão”, ele escreveu. “Ao nascer, ele é costurado em panos que o enfaixam; ao morrer, é pregado dentro de um caixão. Enquanto mantém forma humana, é acorrentado por nossas instituições.” Não é treinando nossas crianças para ingressar em qualquer atividade requerida por nossa sociedade, insiste Rousseau, que elas serão e cientes em suas tarefas. Elas devem ser capazes de usar a imaginação sem constrangimentos antes de poderem criar qualquer coisa de valor.

Um dia, um novo professor de história começou a aula nos perguntando o que queríamos saber. Estaria se referindo ao que nós queríamos saber? Sim. Sobre o quê? Sobre qualquer coisa, qualquer noção que nos ocorresse, qualquer coisa que quiséssemos perguntar. Após um silêncio de espanto, alguém levantou a mão e fez uma pergunta. Não me lembro qual foi (uma distância de mais de meio século me separa daquele valente inquiridor), mas lembro que as primeiras palavras do professor eram menos uma resposta do que uma dica para outra pergunta. Talvez tenhamos começado querendo saber o que faz um motor funcionar; acabamos perguntando como Aníbal tinha conseguido cruzar os Alpes, o que lhe dera a ideia de usar vinagre para quebrar as rochas congeladas, o que deve ter sentido um elefante ao cair mortalmente congelado na neve. Naquela noite cada um de nós sonhou seu próprio e secreto Alpentraum.



(Uma história natural da curiosidade; tradução de Paulo Geiger)



(Ilustração: Frans Francken le Jeune (1619) - Un Cabinet de curiosités)


quarta-feira, 10 de junho de 2026

NO TITLE / SEM TÍTULO, de Upile Chisala

  




sadly,

when the ocean is your border

you must make do.

home is far

and your hunger for it

might make your bones ache.

so you study supermarkets

till you know where

to can find

goat meat

and

cassava

and

corn meal

and

peanut flour

and

okra

and

dried fish

and

pumpkin leaves,

food that jogs your memory,

after all

you must make do.

I am sorry,

home is far and

you’re hungry for it

and

the stubborn ocean won’t disappear.



Tradução de Melissa Quintela Martinez:



infelizmente,

quando o oceano é sua fronteira

você não tem muita escolha.

seu lar está longe

e você está faminta por ele

é de doer na alma

então você pesquisa por supermercados

até saber onde

pode encontrar

carne de cabra

e

mandioca

e

farinha de milho

e

farinha de amendoim

e

quiabo

e

peixe seco

e

folhas de abóbora,

alimentos que trazem lembranças,

afinal de contas

você não tem outra escolha.

Eu sinto muito,

seu lar está longe

e você está faminta por ele

e

o teimoso oceano não vai desaparecer.



Tradução de Izabel Aleixo:



Infelizmente,

Quando o oceano é o seu limite,

Você tem que se virar.

Seu lar está distante

E a sua fome dele

Pode fazer os seus ossos doerem.

Então você estuda os supermercados

Até saber onde achar

Carne de cordeiro e

Aipim e

Fubá e

Farinha de amendoim e

Quiabo e

Peixe seco e

Folhas de abóbora,

Comida que mexe com a sua memória,

Afinal,

Você tem que se virar.

Sinto muito,

Seu lar está distante

E

Você tem fome dele

E

O oceano obstinado não irá desaparecer.



(Soft Magic / Eu destilo melanina e mel)


(Ilustração: Norman Rokwell - immigrants stepping onto Ellis Island)

domingo, 7 de junho de 2026

DESCOBRI QUE PINTAR É COMO ESCREVER UM POEMA, de Antônio Aurélio Cassiano



Não quero pintar o óbvio: lua sobre o mar e seu rastro de luz. O sol poente e um céu laranja com eventuais pássaros, em preto, a flutuar sobre a paisagem.

Ou árvores esguias e jogos de luz e sombras, ou cenas nordestinas de estradas de terras vermelhas, montanhas e caatinga seca e cinzenta.

Eu queria algo que contivesse tudo isso, mas sem pauta ou compromisso com cartas-programas de movimentos, muitos dos quais já fiz até parte, e ainda hoje defendo. Gostaria de manipular tintas, através de pincéis, para fazer alquimia com as possibilidades que as cores oferecem.

Sem compromisso com o certo ou o errado — afinal, não domino a ciência dessa arte — mas acho que ela é tão ampla, bela e generosa, que permite a senhores (no sentido da idade mesmo) se dar ao desfrute de exercê-la sem pudor.

Claro que não espero que vejam o resultado das minhas aventuras como arte, apesar de me permitir me alegrar — não com opinião meramente estética, mas até mesmo consciente das minhas limitações de manejar o pincel, contentando tintas sobre a tela em branco e produzindo imagens que ainda não sei fazer.

Mas a possibilidade única de apenas misturar cores e dar formas, através do manejo do pincel sobre a superfície em estado de passividade ao nosso desejo de criar luz e movimentos sobre a tela branca, é incrível.

Descobri que é como escrever um poema.

Você diz o que quer e deixa o outro ler o que quiser.

E daí, os dois — você e o leitor/observador — constroem a sua própria história sobre o que você foi capaz de fazer.

Não pretendo aprender a pintar como os mestres que expõem e usam a pintura como comunicação de beleza estética. Só a quero fazer como outra forma de escrever poemas.



(Ilustração: Antônio Aurélio Cassiano - vert comum)


quinta-feira, 4 de junho de 2026

TARDE NO RECIFE, de Joaquim Cardozo



Da ponta Maurício o céu e a cidade.

Fachada verde do Café Máxime.

Cais do Abacaxi. Gameleiras.

Da torre do Telégrafo Ótico

A voz colorida das bandeiras anuncia

Que vapores entraram no horizonte.



Tanta gente apressada, tanta mulher bonita.

A tagarelice dos bondes e dos automóveis.

Um carreto gritando — alerta!

Algazarra, Seis horas. Os sinos.



Recife romântico dos crepúsculos das pontes.

Dos longos crepúsculos que assistiram à passagem dos fidalgos holandeses.

Que assistem agora ao mar, inerte das ruas tumultuosas,

Que assistirão mais tarde à passagem de aviões para as costas do Pacífico.

Recife romântico dos crepúsculos das pontes.

E da beleza católica do rio.




(Ilustração: Militão dos Santos - Recife antigo - marco zero)


segunda-feira, 1 de junho de 2026

O SEGREDO IRREDUTÍVEL DA POESIA, de Ivan Junqueira

  


Na poesia de Manuel Bandeira, como na de qualquer poeta cuja obra comporte momentos de transição entre um e outro estágio instrumental, o recurso da dissolução rítmica encontra-se intimamente relacionado à técnica do verso livre, ou seja, à ''libertinagem'' (Advirta-se que esse conceito de dissolução rítmica não corresponde, como o pretende Adolfo Casais Monteiro em seu longo estudo sobre Manuel Bandeira, à supressão do ritmo, o que, em outras palavras, equivaleria, conforme didaticamente observa Emanuel de Moraes, à aceitação de ''sua tese da poesia sem ritmo nenhum, mais do que dissoluta, portanto''. O que se deve entender aqui por ''dissolução rítmica'' refere-se apenas à modulação do ritmo mediante uma ruptura dos esquemas métricos tradicionais). Ao analisar esses processos de fratura em O ritmo dissoluto, o próprio Bandeira o define como ''um livro de transição entre dois momentos'' de sua poesia, acrescentando ainda haver sido através dele que alcançou a ''completa liberdade de movimentos, liberdade de que cheguei a abusar no livro seguinte, a que por isso mesmo chamei libertinagem, torna-se assim muito claro em que sentido se deve interpretar essa ''libertinagem'', ou seja, enquanto lúcida e lírica licenciosidade poética. Em suma: ''libertinagem de temas, de matéria. Total liberdade. A liberdade que é a primeira condição para a libertinagem''.

E assim também o entenderam, já na época, ensaístas tão argutos quanto Sérgio Buarque de Holanda. Onestaldo de Pennafort e Pedro Dantas, que assinam, ao lado de Abgar Renault (autor de um magistral estudo sobre os milagres operados por Bandeira em suas traduções de poetas) e de Rodrigo Melo Franco de Andrade, os textos de avaliação crítica mais percucientes até então escritos sobre a poesia de Bandeira. Ainda com relação a essa ''libertinagem'', a esse lirismo que se quis apenas enquanto ''libertação,'' surpreende a funda incompreensão com que a analisou Tristão de Ataíde, segundo quem ela seria como que um ''sonho mau'' ou um ''manto efêmero de algodão'' que o poeta teria atirado aos ombros ''para chocar a galeria''. O propósito de ''chocar a galeria'' era exclusivo do Modernismo, e não de Bandeira, cuja poesia, além de prescindir da nova ordem estética, perdura para aquém e além dos limites cronológicos do movimento. E mesmo que se pudesse arguir o fascínio de uma libertinagem espiritual por parte do autor, admita-se que esta foi sempre de natureza antes estética do que mundana e social.

Mas o que teria de fato levado Bandeira a adotar o verso livre? E como pôde ele, cuja formação poética transcorre em estrita observância aos cânones da tradição clássica, realizá-lo com tanta mestria, executando assim o salto que o impeliu da evanescente melodia simbolista à áspera harmonia do Modernismo? No estupendo ensaio que escreveu sobre a poética do autor, Onestado de Pennafort pinça o nervo da questão: ''Como todo mestre, ele sentiu um dia a necessidade de se evadir da ordem estabelecida para uma ordem especial de desmanchar tudo para começar de novo. Toda evasão supõe o cansaço daquilo a que se deseja fugir. Sua obra resumia, condensado, estratificado, todo o acervo dos princípios estéticos que permitiram e inspiraram em todas as línguas e em tantos séculos de literatura a criação de tantas obras-primas; numa palavra, sua obra era um racourci de toda a arte poética que desde os latinos regeu a pena dos poetas.'' Assim, Bandeira só pôde desencadear sua revolução poética - que é, também, a rebelião humanística de um homem de cultura - a partir da tradição, ou seja, só pôde descobrir o novo através do antigo.

Na verdade, ao alcançar essa encruzilhada, Bandeira não mais dispunha de quaisquer opções. Apesar de haver sido uma ''conquista difícil'', como ele próprio confessa no Itinerário de Pasárgada, o verso livre se lhe impunha então não tanto como alternativa, e sim como fatal desiderato. Bandeira já esgotara todas as possibilidades rítmicas da polimetria e, saturado da usura e da algidez da linguagem convencional, começara a tangenciar, como observa Sérgio Buarque de Holanda, o ideal da ''forma significante'' ou do ''ritmo semântico''. E acrescenta o ensaísta: ''À medida que assim se apuram, no entanto, as possibilidades técnicas de Bandeira, uma recusa em atender aos padrões bem aceitos evolui para uma impaciência quase agressiva ante certos processos gastos e fáceis.'' Seus poemas vão gradualmente perdendo aquele ''sentimento da medida'' e, em alguns casos, como seria o do Noturno da Rua da Lapa, já florescem naquela terra de ninguém que se estende como um desafio entre a poetry e a fiction. Restava-lhe, porém, o segredo irredutível da poesia, ou seja, a unidade rítmica do verso, único elemento capaz de tornar poética até mesmo a prosa mais banal, Bandeira se antecipara assim ao Modernismo. E seu verso era agora ''belo, áspero, intratável'', como aquele cacto que ''lembrava os gestos desesperados da estatuária''.



(Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 2/2/2005)



(Ilustração: Rafal Olbinski - to have or to have not – 2021)