domingo, 19 de julho de 2026

PLANO COHEN: A FARSA DOS MILITARES QUE JUSTIFICOU A DITADURA DE VARGAS, de Estevam Silva




Há 88 anos, em 30 de setembro de 1937[*], o governo brasileiro anunciava publicamente a “descoberta” do Plano Cohen. Atribuído à Comintern, o documento detalhava um suposto plano dos comunistas para tomar o poder no Brasil, fazendo uso de assassinatos em massa, ataques com gás venenoso e outras atrocidades.

Era tudo mentira. O Plano Cohen foi forjado pelos próprios militares, em colaboração com líderes integralistas e membros da cúpula do governo. O objetivo era causar pavor na população e pressionar o Congresso a autorizar a decretação de estado de exceção.

O plano deu certo. O Congresso aprovou a decretação de estado de guerra e Vargas obteve apoio das Forças Armadas e da burguesia para fechar o regime. Quarenta dias depois, em 10 de novembro de 1937, Vargas dissolveu o Congresso, suspendeu as eleições e instaurou a ditadura do Estado Novo, permanecendo no poder por mais oito anos.

Alçado à chefia do poder executivo após a Revolução de 1930, Getúlio Vargas seria responsável por implementar uma série de medidas modernizantes e centralizadoras, deixando um legado ambivalente.

Vargas limitou o poder político das velhas oligarquias, implementou reformas trabalhistas e sociais, incentivou a industrialização e a diversificação da estrutura produtiva. Ao mesmo tempo, ele governou de forma autoritária, reprimindo severamente seus opositores, institucionalizando o controle sobre a imprensa e ampliando os instrumentos de repressão e vigilância.

O discurso anticomunista, em franca ascensão na década de 1930, serviria de lastro a várias medidas repressivas adotadas por Vargas. Alarmadas pela crescente organização da esquerda radical e do movimento operário, as elites passaram a financiar e promover a propaganda anticomunista e as organizações de extrema-direita, quase sempre vinculadas ao pensamento fascista.

É o caso, sobretudo, da Ação Integralista Brasileira (AIB), organização fundada por Plínio Salgado que se expandiu rapidamente no Brasil graças ao patrocínio de banqueiros e industriais. Os integralistas seguiam o modus operandi das grandes agremiações fascistas europeias, com a criação de milícias e a estratégia de infiltração nas organizações da sociedade civil.

O movimento integralista comandava uma grande estrutura editorial, publicando livros, revistas e jornais que serviam à difusão da propaganda anticomunista em larga escala. Frequentemente, essa propaganda buscava adaptar mitos conspiratórios ao contexto brasileiro.

Um dos mitos mais difundidos pelos integralistas afirmava que existia uma aliança judaico-comunista que pretendia dominar o Brasil e o resto do mundo — uma tese que unia a paranoia anticomunista às teorias da conspiração antissemitas, em especial aquelas impulsionadas por uma infame falsificação conhecida como “Os Protocolos dos Sábios de Sião”.

Vários integralistas e admiradores do regime fascista compunham a cúpula do governo Vargas e ajudaram a institucionalizar o anticomunismo. Em abril de 1935, sob o pretexto de combater a “ameaça comunista”, Vargas sancionou a Lei de Segurança Nacional (LSN), suprimindo as liberdades civis asseguradas pela Constituição de 1934, criminalizando a “incitação ao ódio entre as classes sociais” e as tentativas de “subversão da ordem política”.

A LSN possibilitou a Vargas o recrudescimento da ofensiva contra os dissidentes. Três meses após sua criação, a lei seria utilizada para banir a Aliança Nacional Libertadora (ANL), uma frente antifascista vinculada ao Partido Comunista do Brasil (antigo PCB), que fazia firme oposição aos integralistas e ao regime de Vargas.

Uma tentativa fracassada de insurreição organizada pela ANL em novembro de 1935 daria a Vargas o pretexto ideal para ampliar a repressão. Logo após o levante, Vargas decretou estado de sítio, ampliando os poderes do governo para restringir liberdades civis e intensificar a censura à imprensa.

Milhares de pessoas que criticavam o governo seriam presas e torturadas, mesmo sem possuir qualquer ligação com o levante. Muitos comunistas foram assassinados pela repressão levada a cabo por Filinto Müller, o chefe da polícia política.

A “ameaça comunista” seria instrumentalizada por Vargas mais uma vez em 1937, como um subterfúgio para estender o seu mandato. Vargas passou quatro anos no poder como presidente provisório e obteve um mandato adicional por eleição indireta do Congresso, após a promulgação da Constituição de 1934. Ele deveria, portanto, deixar o governo em 1938, quando seria realizada a 14ª eleição presidencial brasileira.

Três presidenciáveis já haviam apresentado suas candidaturas: Armando de Sales Oliveira (apoiado pela oposição liberal paulista), José Américo de Almeida (próximo de Vargas, mas de lealdade questionável) e Plínio Salgado (líder dos integralistas). Nenhuma das candidaturas agradava a Vargas e não havia a possibilidade legal de obter mais um mandato.

O presidente também se ressentia da crescente oposição que sofria no Congresso, principalmente após os parlamentares barrarem a prorrogação do estado de sítio decretado em 1936. Vargas passou a defender a ideia de que era necessário forçar uma mudança do regime político e reformar a Constituição. A solução, portanto, seria um golpe de Estado.

Vargas obteve prontamente o apoio das Forças Armadas ao seu plano golpista, cooptando-as com a promessa de mais recursos financeiros. Ele também conseguiu a adesão de Plínio Salgado, que recebeu a oferta de um ministério. Faltava, no entanto, um pretexto que justificasse o golpe.

Eurico Gaspar Dutra, o Ministro da Guerra de Vargas, foi incumbido de arrumar uma justificativa para a intervenção. A ideia era criar um fato novo, a ser apresentado como uma grave ameaça ao país, justificando a suspensão das eleições e das garantias constitucionais. Surgiu assim o “Plano Cohen”.

A criação do plano ficou a cargo de oficiais do Exército Brasileiro. O autor do texto foi o capitão Olímpio Mourão Filho, membro do serviço de inteligência do Exército e organizador das milícias integralistas. Mourão afirmou ter criado o documento como um exercício hipotético, uma simulação de revolução comunista para uso da AIB. Uma cópia desse documento foi remetida ao general Góis Monteiro, chefe do Estado-Maior do Exército, que a considerou como o subterfúgio ideal para justificar o golpe.

O “Plano Cohen” descrevia complô comunista para tomar o poder no Brasil. O texto foi falsamente atribuído à Internacional Comunista (Comintern) e descrevia uma série de ações violentas: assassinato de líderes políticos e militares, incêndio de prédios públicos, sabotagem de infraestrutura, sequestros de autoridades, uso de gás venenoso, execuções sumárias, libertação dos presos, saques e depredações.

O nome “Cohen”, de origem judaica, foi escolhido para evocar a tese da conspiração judaico-comunista, tão propalada pelos integralistas. O documento tinha diversas semelhanças com os “Protocolos dos Sábios de Sião”. “Cohen” também era uma referência a Béla Kun, líder de uma efêmera revolução comunista na Hungria, que os integralistas costumavam chamar de “Béla Cohen”.

Em posse do documento, Dutra convocou uma reunião de emergência com os altos oficiais das Forças Armadas, a fim de convencê-los sobre a necessidade de tomar medidas urgentes para garantir “a salvação da Pátria”. Góis Monteiro participou da reunião e concordou que havia a necessidade de um golpe de Estado para “preservar as instituições nacionais”.

No dia 30 de setembro de 1937, o governo Vargas anunciou publicamente a “descoberta” do Plano Cohen. Durante um pronunciamento radiofônico no programa “Hora do Brasil”, Góis Monteiro revelou o conteúdo do documento, anunciando as “terríveis barbaridades” que os comunistas pretendiam cometer no Brasil.

A notícia caiu como uma bomba, causando espanto e terror na população. O plano dominou o noticiário pelas semanas seguintes, sendo amplamente difundido pelas rádios e jornais oficiais do governo. Intelectuais, líderes conservadores e religiosos cobravam providências imediatas.

A grande imprensa não cogitou questionar a autenticidade do documento, preferindo endossar integralmente o relato governamental através de matérias sensacionalistas, ajudando a espalhar o pânico moral.

Um dia após a divulgação do Plano Cohen, em 1º de outubro de 1937, o Ministro da Justiça, Macedo Soares, submeteu ao Congresso um pedido de decretação de estado de guerra.

A requisição foi aprovada por ampla maioria — 138 votos favoráveis e 52 contrários na Câmara dos Deputados, 23 votos a favor e 5 contra no Senado. Os poucos parlamentares que exigiram averiguar o documento foram acusados de “antipatriotas” e recriminados por questionarem a “honestidade dos militares”.

Respaldado pelo decreto, Vargas suspendeu as liberdades civis, intensificou a censura e a repressão. Em 6 de outubro, o presidente instalou uma comissão para supervisionar o cumprimento do estado de guerra e das determinações governamentais.

Vargas ordenou a prisão de “todos os praticantes e simpatizantes de doutrinas comunistas” e mandou criar campos de concentração “destinados a receber jovens que tenham transviado de seus deveres cívicos”. Também orientou a criação de espaços para a “reeducação de filhos de comunistas presos”.

Diversas lideranças políticas da oposição foram perseguidas e os parlamentares não alinhados foram presos. O governador gaúcho José Antônio Flores da Cunha foi forçado a renunciar e a partir para o exílio no Uruguai.

No dia 1º de novembro de 1937, uma enorme marcha com mais de 50.000 integralistas saiu às ruas do Rio de Janeiro para demonstrar apoio a Vargas. O presidente assistiu ao desfile de uma sacada do Palácio do Catete e foi reverenciado com a saudação integralista de “Anauê!”.

O Plano Cohen pavimentou o caminho para o golpe de 10 de novembro de 1937, quando Vargas ordenou a dissolução do Congresso, cancelou as eleições presidenciais e outorgou uma nova Constituição, conhecida como “Polaca”, inspirada na carta magna autoritária da Polônia.

Nascia assim o Estado Novo, uma ditadura que aboliu os partidos políticos, baniu os movimentos sociais e sindicatos independentes, proibiu greves e extinguiu a autonomia dos estados. O regime ditatorial se estenderia por oito anos, até a redemocratização em 1945.

Milhares de opositores, sobretudo de esquerda, seriam presos, torturados ou exilados. Lideranças liberais e jornalistas também foram perseguidos. Até mesmo os integralistas se tornaram, posteriormente, alvos do regime, após uma tentativa fracassada de levante. O anticomunismo se consolidou como uma doutrina oficial de Estado, passando a ter enorme influência sobre a formação das Forças Armadas e os princípios basilares da política externa.

A farsa do Plano Cohen só foi admitida publicamente anos depois, em meio à crise do Estado Novo. Em 1945, o general Góis Monteiro, agora convertido em adversário de Vargas, admitiu que o documento fora forjado. Olímpio Mourão Filho confessou ser o autor do plano. Anos mais tarde, Olímpio seria um dos principais líderes do golpe de 1964, que derrubou João Goulart e instaurou uma nova ditadura.



Nota do blog:

[*] O texto é de 2025.



(Operamundi)

(Ilustração: Getúlio Vargas com oficiais militares em 1936 na inaguração do aeroporto Santos Dumont)

quinta-feira, 16 de julho de 2026

AUTORRETRATO, de Antonio Carlos Secchin

 


  

A Flávia Ampan

 

Um poeta nunca sabe

onde sua voz termina,

se é dele de fato a voz

que no seu nome se assina.

Nem sabe se a vida alheia

é seu pasto de rapina,

ou se o outro é que lhe invade,

numa voragem assassina.

Nenhum poeta conhece

esse motor que maquina

a explosão da coisa escrita

contra a crosta da rotina.

Entender inteiro o poeta

é bem malsinada sina:

quando o supomos em cena,

já vai sumindo na esquina,

entrando na contramão

do que o bom senso lhe ensina.

Por sob a zona da sombra,

 

navega em meio à neblina.

Sabe que nasce do escuro

a poesia que o ilumina.

  


(Ilustração: Joseph Severn - John Keats:1795-1821)

segunda-feira, 13 de julho de 2026

COMO O ESTADO NOVO USAVA OBRAS DIDÁTICAS PARA INCUTIR NAS CRIANÇAS O ANTICOMUNISMO, de Felipe Menezes Pinto



Em busca da urdidura de um sentimento de nação, de uma identidade nacional, elegendo suas matrizes constituintes bem como indicando o não-nacional, o regime instituído por Vargas ao final de 1937 investiu com grande afinco em diversos setores, notadamente na educação. Materiais didáticos, palestras educacionais, festividades cívicas e todo um amplo repertório foi mobilizado pelo Estado Novo no afã de conquistar as mentes, estimulando o sentimento nacional e tentando promover a homogeneização da identidade nacional. Nesse processo, não se hesitou em manipular símbolos, amplamente difundidos e cultuados, criar leis e investir em programas de educação em nível nacional. Estava em jogo a construção do projeto cívico do Estado Novo para o Brasil. Projeto que revelou, por um lado, as noções simpáticas ao governo Vargas, como a instituição da família, a religião e o trabalho, mas que, por outro lado, mostrou-se intolerante a determinados grupos e ideias. Os materiais didáticos, instrumentos ativos nessa empreitada da educação durante o Estado Novo, podem ser tomados como testemunhos deste processo.

Em algumas destas obras didáticas destinadas às crianças é possível identificar a questão dos comunistas sendo trabalhada de forma direta, ou seja, citando a palavra “comunista”, sem metáforas ou utilização de termos emprestados dos anticomunistas.

Na História de um menino de São Borja[1], através de uma narrativa bem simples e com linguagem adequada ao público infantil, uma suposta tia Olga conta aos seus sobrinhos a vida do presidente Getúlio Vargas, desde os tempos de São Borja até o advento do Estado Novo. Em uma dessas passagens, a narradora da história debruça-se sobre os primórdios da república no Brasil, caracterizando esse período como a época da “Senhora Política”, ou seja, a personificação da primeira república como uma senhora gananciosa, ambiciosa, senhora das intrigas e da politicagem vil, pouco preocupada com o rumo do Brasil. Após essa desqualificação do período anterior à Revolução de 1930, assim continua a narrativa:

[...] O menino de São Borja, desde os tempos da infância, começou a estudar de longe essa Senhora Dona emproada e todo-poderosa. [...] Presidente do Rio Grande do Sul, ele botou de lado tal:

-Tem paciência, Fulustrequíssima, você aqui não me põe as mãos. E a Fulustréca não pôs as mãos, mas ficou louca da vida com a ousadia do Presidente.

E o Presidente do Rio Grande do Sul passou a ser Presidente da República: e a Fulustréca, louquinha da vida, começou a armar novos planos para se vingar do atrevido.

“Você me paga!”


E foi assim que, por diversas vezes, a Senhora Dona Política tentou passar rasteiras no Presidente, sem resultado.

Deu ela o braço até a amigos perigosos como o Comunismo – mas o Presidente aparou o golpe e jogou os dois por terra.

Que tombo monumental!

Os vermelhinhos foram obrigados a entregar os pontos e a deixar o campo livre.[2]

Em seguida, após discorrer sobre as manobras em torno da eleição que se aproximava, em 1937 a “Senhora Política” agiu de novo e, segundo a narrativa,

[...] os vermelhinhos aproveitaram-se da confusão e começaram de novo a se manifestar. Esses zumbidos chegaram aos ouvidos do Presidente. [...]

A 10 de Novembro de 1937, os deputados que chegaram à Câmara encontraram a casa de portas fechadas; ali não se ouviriam mais bobagens e bate-papos inúteis a 200 mil réis diários por cabeça.

O povo saiu em festa para as ruas.

O céo se encheu de estrelas.

E, nessa noite, noite de luz e de contentamento, o Presidente chegou ao microfone do rádio e anunciou o nascimento do Estado Novo e a morte da Excelentíssima e Fulustrequíssima Senhora Dona Polítca.[3]

É possível depreender das passagens acima que a narrativa em torno da vida e das ações de Getúlio Vargas tinha o claro objetivo de alçar o presidente como o grande estadista, o salvador da nação, aquele que teve coragem de acabar com os desmandos, a corrupção e as politicagens que caracterizam a Primeira República, inaugurando uma nova fase no cenário político brasileiro, bem como aquele que conseguiu barrar as tentativas de avanço comunista no Brasil. Utiliza-se a palavra “tentativa” no plural à medida que, pela disposição do texto e pela sequência narrada, possivelmente trata-se de uma alusão aos movimentos comunistas de 1935, a chamada “Intentona Comunista”, e também os movimentos políticos que possibilitaram a implantação do Estado Novo, motivado por um suposto plano comunista de tomada do poder, o chamado “Plano Cohen”.

Ao que parece, a escolha desses dois momentos de efervescência política não se deu por acaso. Com relação à primeira tentativa, sendo possível considerá-la como os acontecimentos de 1935, a referência na narrativa aos comunistas é explícita. Ainda, é relevante observar a construção da narrativa em torno da aproximação da “Senhora Política” com os comunistas (...Deu ela o braço até a amigos perigosos como o Comunismo...), possivelmente uma tentativa de relacionar os desmandos, os contratempos e a corrupção que imperavam na Primeira República, aos olhos do Estado Novo, como elementos que possibilitaram o crescimento do movimento comunista no Brasil e que culminaram no levante de 1935. Não por acaso, como atesta MOTTA

Os acontecimentos de novembro de 1935 têm uma importância marcante na história do imaginário anticomunista brasileiro, na medida em que forneceram argumentos para solidificar as representações do comunismo como fenômeno essencialmente negativo. [..]

Intentona significa intento louco, motim insensato e é exatamente esta a ideia que se pretende associar ao evento, representado desde então como um “capítulo negro” da história brasileira (MOTTA 2002, 76).

Partindo da possibilidade de se considerar essa primeira tentativa como uma referência ao levante de 1935, a segunda tende a ser, necessariamente, o suposto plano comunista de tomada do poder apresentado ao final de 1937 e que justificaria a criação do Estado Novo. Os “zumbidos” da movimentação comunista que chegaram “aos ouvidos do Presidente” ganharam materialidade através deste plano e justificariam a suspensão da ordem vigente em prol, paradoxalmente, desta mesma ordem. Ainda segunda a narrativa, somente com o nascimento do Estado Novo, o perigo comunista estava minado e a “Senhora Dona Política” estava morta. Agindo dessa maneira, tentava passar às crianças que o advento do Estado Novo representava a conclusão da obra de expurgo da má política, obra iniciada desde a Revolução de 1930, mas que encontra em 1937 o seu epílogo.



Notas:

[1] OLGA. História de um menino de São Borja: a vida do presidente Getulio Vargas contada por tia Olga aos seus sobrinhos Rosa Maria e Chico-Chicote. [S.l.]: D.N.P., 1939. (Acervo Memória Infantil da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa). Não foi possível identificar a autoria da obra. Optou-se, assim, em utilizar a classificação criada pela Biblioteca Estadual Luiz de Bessa, setor de Memória Infantil, local onde a obra foi encontrada.

[2] Idem. p. 69 e 70.

[3] Idem. p. 70 e 71.




(Excerto da tese : O VERMELHO E O NEGRO: Intolerância, Construção da Identidade Nacional e Práticas Educativas durante o Estado Novo, 1937 – 1945)


Ilustração: Getúlio Vargas - cartaz de propaganda getulista)

quinta-feira, 9 de julho de 2026

CANTO OBSCURO ÀS RAÍZES, de Conceição Lima



Em Libreville [1]

não descobri a aldeia do meu primeiro avô.



Não que me tenha faltado, de Alex,

A visceral decisão.

Alex, obstinado primo

Alex, cidadão da Virgínia

que ao olvido dos arquivos

e à memória dos GRIOTS Mandinga [2] [3]

resgatou o caminho para Juffure,[4]

a aldeia de Kunta Kinte – [5]

seu último avô africano

primeiro na América.



Digamos que o meu primeiro avô

meu último continental avô

que da margem do Ogoué [6]foi trazido

e à margem do Ogoué não tornou decerto



O meu primeiro avô

que não se chamava Kunta Kinte

mas, quem sabe, talvez Abessole

O meu primeiro avô

que não morreu agrilhoado em James Island [7]

e não cruzou, em Gorée, a porta do inferno



Ele que partiu de tão perto, de tão perto

Ele que chegou de tão perto, de tão longe



Ele que não fecundou a solidão

nas margens do Potomac



Ele que não odiou a brancura dos algodoais



Ele que foi sorvido em chávenas de porcelana

Ele que foi compresso em doces barras castanhas

Ele que foi embrulhado em chiques papéis de prata

Ele que foi embalado para presente em caixinhas



O meu concreto avô

que não se chamava Kunta Kinte

mas, talvez, quem sabe, Abessole



O meu oral avô

não legou aos filhos

dos filhos dos seus filhos

o nativo nome do seu grande rio perdido.



Na curva onde aportou

a sua condição de enxada

no húmus em que atolou

a sua acossada essência

no abismo que saturou

de verde a sua memória

as águas melancolizam como fios

desabitadas por pirogas e hipopótamos.



São assim os rios das minhas ilhas

e por isso eu sou a que agora fala.



Brotam como atalhos os rios

da minha fala

E meu trazido primeiro avô

(decerto não foi Kunta Kinte,

Porventura seria Abessole)

não pode ter inventado no Água Grande [8]

o largo leito do seu Ogoué.



Disperso num azul sem oásis

talvez tenha chorado meu primeiro avô

um livre, longo, inútil choro.



Terá confundido com um crocodilo

a sombra de um tubarão.



Terá triturado sem ilusão

a doçura de um naco de mandioca.

circunvagou nas asas de um falcão.



Terá invejado a liquidez de caudas e barbatanas

enquanto o limo dos musgos sequestrava os seus pés

e na impiedosa lavra de um vindouro tempo

emergia uma ambígua palavra

para devorar o tempo do seu nome.



Aqui terá testemunhado

o esplendor do pôr-do-sol, o luar, o arco-íris.

Decerto terá pressentido a calidez dos pingos

nas folhas das bananeiras

E terá sofrido no Equador o frio da Groenlândia.



Mas não legou aos estrangeiros filhos

e aos filhos dos filhos dos estrangeiros filhos

o nativo nome do seu grande rio perdido.



Por isso eu, a que agora fala,

não encontrei em Libbreville o caminho para a aldeia de Juffure.



Perdi-me na linearidade das fronteiras.



E os velhos GRIOTS

os velhos GRIOTS que detinham os segredos

de ontem e de antes de ontem



Os velhos GRIOTS que pelas chuvas contavam

a marcha do tempo e os feitos da tribo



Os velhos GRIOTS que dos acertos e erros

forjavam o ténue balanço



Os velhos GRIOTS que da ignóbil saga

guardavam um recto registo



Os velhos GRIOTS que na íris da dor

plantaram a raiz do micondó [9]

partiram

levando nos olhos o horror

e a luz da sua verdade e das suas palavras.



Por isso eu que não descobri o caminho para Juffure

eu que não dançarei sobre o pó da aldeia do meu primeiro avô

meu último continental avô

que não se chamava Kunta Kinte mas, talvez, quem sabe, Abessole



Eu que em cada porto confundi o som da fonte submersa

encontrei em ti, Libreville, o injusto património a que chamo casa:

estas paredes de palha e sangue entrançadas,

a fractura no quintal, este sol alheio à assimetria dos prumos,

a fome do pomar intumescida nas gargantas.



Por isso percorri os becos

as artérias do teu corpo

onde não fenecem arquivos

sim palpita um rijo coração, o rosto vivo

uma penosa oração, a insana gesta

que refunda a mão do meu pai

transgride a lição de minha mãe

e narra as cheias e gravanhas [10], os olhos e os medos

as chagas e desterros, a vez e a demora

o riso e os dedos de todos os meus irmãos e irmãs.



Que nenhum idioma nos proclame ilhéus de nós próprios

vocábulo que não és

Mbanza Congo [11]

mas podias ser

Que não és Malabo [12]

poderias ser

Que não és

Luanda

e podias ser

Que não és

Kinshasa

nem Lagos

Monróvia não és, podias ser.



Nascente e veia, profundo ventre

conheces a estrutura que sabota os ponteiros:

novos sobas [13], barcos novos, o conluio antigo.



E consomes a magreza dos celeiros

num bazar de retalhos e tumultos

Petit Paris!

onde tudo se vende, se anuncia

onde as vidas baratas desistiram de morrer.



Medram quarteirões de ouro

nos teus poros – diurnos, desprevenidos.

Medra implacável o semblante das mansões

Medram farpas na iníqua muralha

E um taciturno anel de lama em seu redor.



A chuva tem agora a cadência de um tambor

outro silêncio se ergue

no vazio dos salões das coiffeuses.



E no rasto do tam-tam revelarei

o medo adolescente encolhido nas vielas

beberei a sede da planta no teu grão.



Eu que trago Deus por incisão em minha testa

e nascida a 8 de Dezembro

tenho de uma madona cristã o nome.



A neta de Manuel da Madre de Deus Pereira dos Santos Lima

que enjeitou santos e madre

ficou Manuel de Deus Lima, sumu sun Malé Lima

Ele que desafiou os regentes intuindo nação –

descendente de Abessole, senhor de abessoles. [14]



Eu que encrespei os cabelos de san Plentá, minha três vezes avó

e enegreci a pele de san Nôvi, a soberana mãe de meu pai. [15]



Eu que no espelho tropeço

na fronte dos meus avós.



Eu e o temor do batuque da puíta

o terror e fascínio do cuspidor de fogo



Eu e os dentes do pawen [16] que da costa viria me engolir

Eu que tão tarde descobri em minha boca os caninos do antropófago.



Eu que tanto sabia mas tanto sabia

de Afonso V o chamado Africano

Eu que drapejei no promontório do Sangue

Eu que emergi no paquete Império

Eu que dobrei o Cabo das Tormentas

Eu que presenciei o milagre das rosas

Eu que brinquei a caminho de Viseu

Eu que em Londres, aquém de Tombuctú [17]

decifrei a epopeia dos fantasmas elementares.



Eu e minha tábua de conjugações lentas

Este avaro, inconstruído agora

Eu e a constante inconclusão do meu porvir



Eu, a que em mim agora fala.



Eu, Katona [18], ex-nativa de Angola

Eu Kalua[19], nunca mais em Quelimane [20]

Eu, nha Xica [21], que fugi à grande fome

Eu que libertei como carta de alforria

Este dúbio canto e sua turva ascendência.



Eu nesta lisa, escarificada face

Eu e nossa vesga, estratificada base

Eu e a confusa transparência deste traço.



Eu que degluti a voz do meu primeiro avô

que não se chamava Kunta Kinte

mas, talvez, quem sabe, Abessole



Meu sombrio e terno avô

Meu inexorável primeiro avô

Que das margens do Benin foi trazido

e às margens do Benin [22] não tornou decerto



Na margem do Calabar [23] foi colhido

e às águas do Calabar não voltou decerto



Nas margens do Congo foi caçado

e às margens do Congo não tornou decerto



Da nascente do Ogoué chegou um dia

e a foz do Ogoué não voltou jamais.



Eu que em Libreville não descobri a aldeia

do meu primeiro avô

meu eterno continental avô



Eu, a peregrina que não encontrou o caminho para Juffure

Eu, a nómada que regressará sempre a Juffure.



(A Dolorosa Raiz do Micondó; 2006)



Notas do blog:

[1] Libreville ou Librevile[1][nota 1] é a capital e a maior cidade do Gabão. Oficialmente, sua população é estimada em 703.904 habitantes (estimativa de 2013).

[2] Os griots (ou griôs) são guardiões da tradição oral na África Ocidental. Desde o século XI, atuam como historiadores, músicos e conselheiros, preservando a genealogia, mitos e canções de geração em geração. Eles utilizam instrumentos como o corá e o balafon para manter viva a identidade de seus povos.

[3] Mandinga refere-se originalmente a um grupo étnico do antigo Império de Mali e à sua língua. Com a escravidão, o termo passou a designar feitiços, simpatias e amuletos de proteção. Na capoeira, o termo descreve o jogo malicioso, o gingado e a simulação de golpes.

[4] Jufureh, Juffureh ou Juffure é uma povoação da Gâmbia, situada na margem direita do rio Gâmbia, frente à ilha James, a 30 km da foz. Encontra-se atualmente ligada à povoação de Albreda.

[5] Kunta Kinte é o protagonista do famoso romance "Raízes: A Saga de uma Família Americana", escrito por Alex Haley e lançado em 1976. A obra narra a saga de um guerreiro da etnia mandinga, nascido na Gâmbia por volta de 1750, que foi capturado e levado para os Estados Unidos para viver como escravizado.

[6] O Ogoué (também chamado de Ogooué ou Ogowe) é o principal rio do Gabão, na África centro-ocidental. Com mais de 1.200 km de extensão, nasce na República do Congo, atravessa quase todo o território gabonês e deságua no Oceano Atlântico. O nome também batiza várias províncias do Gabão.

[7] James Island é uma ilha na Carolina do Sul, ao largo da costa de Charleston. A ilha é separada de Charleston pelo rio Ashley . Cerca de metade da ilha está dentro dos limites da cidade de Charleston , e o restante é composto pela cidade de James Island e áreas não incorporadas. A ilha tem uma população de aproximadamente 35.000 pessoas. Diversas escaramuças da Guerra Civil Americana ocorreram na ilha.

[8] Água Grande é um distrito de São Tomé e Príncipe. Sua capital, São Tomé, também é a capital nacional das ilhas equatoriais atlânticas de São Tomé e Príncipe. Cobre 17 quilometros quadrados e é o menor dos 7 distritos em termos de área mas é o maior em população com estimados 54,300 residentes em 2004.

[9] Micondó é o nome dado em São Tomé e Príncipe ao baobá (Adansonia digitata). Esta árvore colossal destaca-se pela sua longevidade, pelo tronco largo (podendo ultrapassar 10 metros de diâmetro) e pela enorme capacidade de armazenamento de água. [1, 2]

[10] Gravanhas (também grafado como gravalhas ou garvalhas) é um regionalismo, principalmente da língua portuguesa europeia, utilizado para designar a caruma seca, ou seja, as folhas e agulhas caídas dos pinheiros.

[11] M'banza Congo,[2] também grafada como M'banza Kongo[3][4] e Mabanza Congo,[5][6] é uma cidade e município angolana, capital da província do Zaire.

[12] Malabo é a capital e principal cidade da Guiné Equatorial. Localizada na costa norte da ilha de Bioko, abriga cerca de 300.000 habitantes. O idioma oficial é o espanhol, e a cidade é conhecida por seu contraste entre a arquitetura colonial e áreas modernas de luxo.

[13] Soba é o chefe tradicional ou líder comunitário em Angola. Ele atua como administrador local, juiz, mediador de conflitos e guardião da cultura e dos valores ancestrais da comunidade.

[14] Abessole (ou Abessolo) é um nome próprio de forte ressonância na África Central e Ocidental continental — muito comum, por exemplo, na etnia Fang (comunidade profundamente ligada à história demográfica e migratória do Golfo da Guiné e do próprio arquipélago de São Tomé e Príncipe).

[15] Em São Tomé e Príncipe, especialmente no contexto da língua crioula local (o forro ou santomense), a palavra "san" (derivada de "senhor" ou "senhora", e muitas vezes associada à ideia de "santo/santa") é um termo de profundo respeito, veneração e senioridade usado para se referir às matriarcas, parteiras, rezadeiras ou mulheres mais velhas da comunidade. Não se trata necessariamente de uma canonização religiosa ocidental, mas de uma sacralização da ancestralidade familiar e comunitária.

[16] No Dicionário do santomense-português, a palavra pawen significa canibal, pessoa voraz ou insaciável.

[17] Tombuctu fica no Mali. Durante os séculos XIV e XVI, no auge do Império do Mali e do Império Songai, a cidade foi a capital intelectual, científica e espiritual de África. Abrigava a célebre Universidade de Sankoré e centenas de milhares de manuscritos que cobriam áreas como astronomia, matemática, medicina e filosofia.

[18] Katona evoca a figura do trabalhador contratado forçado vindo de Angola.

[19] Kalua representa os trabalhadores contratados traficados a partir de Moçambique.

[20] Quelimane é uma importante cidade portuária e capital da província da Zambézia, em Moçambique. Historicamente, foi um dos maiores portos de escoamento de escravizados e, mais tarde, de trabalhadores forçados da África Oriental em direção às ilhas do Atlântico.

[21] Nha Xica (Dona Francisca, onde "Nha" é o termo crioulo respeitoso para "Senhora") evoca a migração forçada dos caboverdianos.

[22] Benin (O Reino da Arte e do Poder), histórico Reino do Benin (localizado no território da atual Nigéria), famoso por sua corte refinada e pelos célebres "Bronzes do Benin". No início da colonização de São Tomé, o arquipélago serviu como um entreposto comercial e de escravos. Os colonos portugueses compravam pessoas escravizadas no Reino do Benin para trabalhar nas primeiras plantações de cana-de-açúcar de São Tomé ou para serem revendidas.

[23] Calabar é uma cidade portuária situada no sudeste da Nigéria (na região do Delta do Níger). Entre os séculos XVI e XIX, Calabar foi um dos portos de escoamento de escravizados mais ativos e violentos de toda a África Ocidental (no Golfo de Biafra). Milhares de pessoas das etnias Efik, Igbos e Ibibios foram capturadas no interior e embarcadas em Calabar. Muitas delas desembarcaram em São Tomé e Príncipe para o trabalho forçado ou morreram na travessia.



(Ilustração: René Tavares (Saint Tome and Principe) - les femmes des iles)

terça-feira, 7 de julho de 2026

EXÍLIO, de Milton Hatoun

  


M.A.C. decidiu ir a pé até a rodoviária: comeria um pastel e seguiria para a W3-Sul. Numa tarde assim, seca e ensolarada, dava vontade de caminhar, mas preferi pegar o ônibus uma hora antes do combinado: saltaria perto do hotel Nacional e desceria a avenida contornando as casas geminadas.

A cidade ainda era estranha para mim: espaço grandioso demais para um ser humano, a superfície de barro e grama rala se perdia no horizonte do cerrado. A Asa Norte estava quase deserta, era sexta-feira, e só às três da tarde alguns estudantes saíram dos edifícios malconservados. Do campus vinham os mais velhos: universitários, professores, funcionários, a turma escaldada. A liderança era invisível, os mais perseguidos não tinham nome: surgiam no momento propício, discursavam, sumiam.

Valmor não quis ir: medo, só isso, ele disse.

Zombavam do Valmor, escarneciam do M.A.C., medroso como um rato, mas agora até o M.A.C. sairia da toca e quem sabe se na próxima vez Valmor…

A revolta se irmanava ao medo, mas a multidão nos protegia e naquela tarde éramos milhares. Os militares esperaram o tumulto crescer na W3, depois se formou o cerco quase perfeito: nas extremidades e laterais da avenida, nos dois Eixos e nos pontos de fuga da capital. Às cinco ouvimos os discursos-relâmpago, urramos as palavras de ordem, pichamos paredes e distribuímos panfletos. A dispersão começou antes de escurecer.

Ninguém iria ao Beirute, um bar visado pela polícia, nem ao Eixo Rodoviário, uma praça de guerra. Durante o corre-corre saí da W3, passei pelos fundos de lojas e bares do setor comercial, tentando caminhar sem alarde, assobiando, e o céu ainda azulado era a paisagem possível. Nunca olhar para trás nem para os lados, nunca se juntar aos outros manifestantes, fingir que todos os outros são estranhos: instruções para evitar gestos e atitudes suspeitos. Até então nenhum rosto conhecido, e a catedral inacabada e o Teatro Nacional não estavam tão longe. Ficaria por ali à espera da noite, anunciada pela torre iluminada.

A dispersão e a correria continuavam: o mais prudente era ficar sentado no gramado da 302 ou da 307 e assistir ao bate-bola das crianças. Amanhã um passeio de bote com Liana no lago Paranoá, domingo a releitura de Huis Clos para o ensaio da peça. Se viver fosse apenas isso e se a minha voz (e não a de outro) gritasse meu próprio nome, duas, três vezes… Assustado, reconheci a voz de M.A.C., o corpo cambaleando em minha direção. A rua e a quadra comercial foram cercadas como num pesadelo, tentar fugir ou reagir seria igualmente desastroso. Depois de chutes e empurrões, eu e o meu colega rumamos para o desconhecido. M.A.C. quis saber para onde íamos, uma voz sem rosto ameaçou: “Calado, mãos para trás e cabeça entre as pernas”.

O trajeto sinuoso, as curvas para despistar o destino da viatura, manobras num labirinto que apenas imaginávamos e agora estava acontecendo. Pobre M.A.C., era o mais retraído da segunda série, misterioso como um bicho esquisito. Tremia ao meu lado, parecia chorar e continuou a tremer quando saltamos da viatura e escutei sua voz fraca: “Sou menor de idade”, e logo uma bofetada, a escolta, o interrogatório. Ainda virou a cabeça, o rosto pedindo socorro…

Não o vi mais na noite longa. Eu também era menor de idade e escutei gritos de dor no outro lado de uma porta que nunca foi aberta. Em algum lugar perto de mim, alguém podia estar morrendo, e essa conjetura dissipou um pouco meu medo. Na noite do dia seguinte me largaram na estrada Parque Taguatinga-Guará. A inocência, a ingenuidade e a ilusão, quase todas as fantasias da juventude tinham sido enterradas…

Na segunda-feira M.A.C. não foi ao colégio nem compareceu aos exames. Mais um desaparecido naquele dezembro em que deixei a cidade.

Durante muito tempo a memória dos gritos de dor trazia de volta o rosto assustado do colega.

Trinta e dois anos depois, na primeira viagem de volta à capital, encontrei um amigo de 1969 e perguntei sobre M.A.C.

“Está morando em São Paulo”, ele disse. “Talvez seja teu vizinho.”

“Pensei que tivesse morrido.”

“De alguma forma ele morreu. Sumiu do colégio e da cidade, depois ressuscitou e foi anistiado.” “Exílio”, murmurei.

“Delação”, corrigiu Carlos Marcelo. “M.A.C. era um dedo-duro. Entregou muita gente e caiu fora.”



(Um solitário à espreita)



(Ilustração: Tropa do exército em frente ao Congresso Nacional - 31.4.1964, foto agência O Globo)


sábado, 4 de julho de 2026

RECÉM-CASADO, de Lélia Coelho Frota






É pelos corpos que nos perdemos

de nós mesmos, para nos ganharmos.

É pelos beijos que nos despedimos

para nos encontrarmos pelos olhos.

É pela pele que escaldamos

o que em nós havia de secreto:

e é o nosso corpo entregue um corpo

estranho

pois pertence só a quem amamos

por quem morosamente devassamos

o alheamento da carne -

o barqueiro, o pastor que a atravessa

num profundo arremesso vagaroso

levantando ondas, ondas, ondas e

ervas

a subir e descer vagas e montes

levando-me com ele à raia clara

onde água a quebrar-se eu me

constele

na sua barca, conduzida à praia.



(Ilustração: Fernando Botero)

quarta-feira, 1 de julho de 2026

CONVICÇÃO E FANATISMO, de Delia Steinberg Guzman



A nossa intenção é de clarificar a diferença que vemos entre convicção e fanatismo para que, postas as coisas no seu devido lugar, cada qual possa ajuizar sobre si mesmo e sobre os outros com um pouco mais de precisão.

A convicção é um alto compromisso psicológico, intelectual e moral que surge de uma adesão progressiva e fundada em boas razões, em provas, em experiências, em modelos e bases sólidas.

Uma pessoa com convicções demonstra uma saúde integral, uma segurança interior invejável, sabe de onde vem e para onde vai, que lhe permite mover-se com equilíbrio e sensatez. As convicções nascem de exercício constante das nossas capacidades interiores e da transformação paulatina de opiniões mutáveis em juízos estáveis. Não se trata de anquilosamento nem de estagnação; pelo contrário, quem tem convicções vive ao ritmo das Ideias, pois estas têm uma energia própria e um ritmo natural de desenvolvimento.

Uma pessoa com convicções é tolerante. É firme no que lhe diz respeito, mas dá lugar aos outros. Sempre disposta a ouvir, não despreza os que pensam de outro modo. Possui uma tolerância ativa: ouve os outros, expõe e defende os seus próprios pensamentos sem ferir, sem insultar. Sabe criar espaço para si mesma e para os demais. Abre espaço, gera espaço, reconhece o seu espaço, não invade o espaço alheio, não importuna, não inquieta nem maltrata os que estão à sua volta. Não se impõe de forma tirânica nem se considera o cume da perfeição. É a sua convicção que a ajuda a avançar, a ser cada vez um pouco melhor.

Uma pessoa fanática pensa pouco ou nada. Admite como bom o que os outros lhe dão e desenvolve, em vez de sentimentos, paixões incontroláveis que a arrastam para ações inconscientes das quais nem sequer se arrepende porque não pode avaliá-las.

O fanático só conhece uma ideia, se é que a conhece. Digamos antes que só aceita uma ideia, e que chegou a essa ideia não por uma adesão pessoal, mas sob o efeito de uma coação habilmente dissimulada na maioria dos casos.

O fanático é, por definição, intolerante. Nem sequer aceita a existência dos que possam sentir e pensar de outro modo; por isso, procura eliminá-los a qualquer preço, sendo a morte e a tortura algumas das terríveis manifestações desta atitude. O fanático não ouve, é incapaz de dialogar. Só sabe gritar alto e em bom som os seus princípios para ficar atordoado com a sua própria voz e não deixar espaço a nenhuma outra opinião. Contenta-se amplamente com o que tem e despreza tudo o resto que para ele não existe ou deveria deixar de existir. O fanatismo é raiz da tirania.

É certo que devemos conviver com muitos – demasiados – fanáticos, mas não podemos cair na cópia inconsciente desta aberração por muito que o absurdo que nos rege faça com que esta aberração ocupe mais tempo e espaço que as obras nobres e produtivas para a Humanidade. Devemos manter a nossa integridade moral e convertermo-nos em seres humanos cabais e com autênticas convicções.



(Do blog Nova Acrópole)



(Ilustração: Nicolai Pimonenko - Victime of fanatisme)

domingo, 28 de junho de 2026

PALIMPSESTO, de Paulo Raviere

  


Meu coração é um palimpsesto

de cicatrizes: escara devora

escara; o sangue se mistura

com os sangues; os tecidos

sofrem eclipses; a pele tece

lençóis sobre as feridas. Nódoa

na memória: o sonho se afoga

no banho de sol; o olho implora

para ver as veredas verdes de uma

verdade; a ferida se degenera,

se regenera o tecido; somente

o sonho me ensina a renascer.

Palimpsesto é resistência: jamais

houve pensamento que não fosse

canibal; cada novo nascimento

é uma punhalada na História.



(As Maçãs do Fel; inédito)



(Ilustração: Tony Ashton - Palimpsesto série três 
- você nunca está sozinho com um rinoceronte)