quinta-feira, 9 de julho de 2026

CANTO OBSCURO ÀS RAÍZES, de Conceição Lima



Em Libreville [1]

não descobri a aldeia do meu primeiro avô.



Não que me tenha faltado, de Alex,

A visceral decisão.

Alex, obstinado primo

Alex, cidadão da Virgínia

que ao olvido dos arquivos

e à memória dos GRIOTS Mandinga [2] [3]

resgatou o caminho para Juffure,[4]

a aldeia de Kunta Kinte – [5]

seu último avô africano

primeiro na América.



Digamos que o meu primeiro avô

meu último continental avô

que da margem do Ogoué [6]foi trazido

e à margem do Ogoué não tornou decerto



O meu primeiro avô

que não se chamava Kunta Kinte

mas, quem sabe, talvez Abessole

O meu primeiro avô

que não morreu agrilhoado em James Island [7]

e não cruzou, em Gorée, a porta do inferno



Ele que partiu de tão perto, de tão perto

Ele que chegou de tão perto, de tão longe



Ele que não fecundou a solidão

nas margens do Potomac



Ele que não odiou a brancura dos algodoais



Ele que foi sorvido em chávenas de porcelana

Ele que foi compresso em doces barras castanhas

Ele que foi embrulhado em chiques papéis de prata

Ele que foi embalado para presente em caixinhas



O meu concreto avô

que não se chamava Kunta Kinte

mas, talvez, quem sabe, Abessole



O meu oral avô

não legou aos filhos

dos filhos dos seus filhos

o nativo nome do seu grande rio perdido.



Na curva onde aportou

a sua condição de enxada

no húmus em que atolou

a sua acossada essência

no abismo que saturou

de verde a sua memória

as águas melancolizam como fios

desabitadas por pirogas e hipopótamos.



São assim os rios das minhas ilhas

e por isso eu sou a que agora fala.



Brotam como atalhos os rios

da minha fala

E meu trazido primeiro avô

(decerto não foi Kunta Kinte,

Porventura seria Abessole)

não pode ter inventado no Água Grande [8]

o largo leito do seu Ogoué.



Disperso num azul sem oásis

talvez tenha chorado meu primeiro avô

um livre, longo, inútil choro.



Terá confundido com um crocodilo

a sombra de um tubarão.



Terá triturado sem ilusão

a doçura de um naco de mandioca.

circunvagou nas asas de um falcão.



Terá invejado a liquidez de caudas e barbatanas

enquanto o limo dos musgos sequestrava os seus pés

e na impiedosa lavra de um vindouro tempo

emergia uma ambígua palavra

para devorar o tempo do seu nome.



Aqui terá testemunhado

o esplendor do pôr-do-sol, o luar, o arco-íris.

Decerto terá pressentido a calidez dos pingos

nas folhas das bananeiras

E terá sofrido no Equador o frio da Groenlândia.



Mas não legou aos estrangeiros filhos

e aos filhos dos filhos dos estrangeiros filhos

o nativo nome do seu grande rio perdido.



Por isso eu, a que agora fala,

não encontrei em Libbreville o caminho para a aldeia de Juffure.



Perdi-me na linearidade das fronteiras.



E os velhos GRIOTS

os velhos GRIOTS que detinham os segredos

de ontem e de antes de ontem



Os velhos GRIOTS que pelas chuvas contavam

a marcha do tempo e os feitos da tribo



Os velhos GRIOTS que dos acertos e erros

forjavam o ténue balanço



Os velhos GRIOTS que da ignóbil saga

guardavam um recto registo



Os velhos GRIOTS que na íris da dor

plantaram a raiz do micondó [9]

partiram

levando nos olhos o horror

e a luz da sua verdade e das suas palavras.



Por isso eu que não descobri o caminho para Juffure

eu que não dançarei sobre o pó da aldeia do meu primeiro avô

meu último continental avô

que não se chamava Kunta Kinte mas, talvez, quem sabe, Abessole



Eu que em cada porto confundi o som da fonte submersa

encontrei em ti, Libreville, o injusto património a que chamo casa:

estas paredes de palha e sangue entrançadas,

a fractura no quintal, este sol alheio à assimetria dos prumos,

a fome do pomar intumescida nas gargantas.



Por isso percorri os becos

as artérias do teu corpo

onde não fenecem arquivos

sim palpita um rijo coração, o rosto vivo

uma penosa oração, a insana gesta

que refunda a mão do meu pai

transgride a lição de minha mãe

e narra as cheias e gravanhas [10], os olhos e os medos

as chagas e desterros, a vez e a demora

o riso e os dedos de todos os meus irmãos e irmãs.



Que nenhum idioma nos proclame ilhéus de nós próprios

vocábulo que não és

Mbanza Congo [11]

mas podias ser

Que não és Malabo [12]

poderias ser

Que não és

Luanda

e podias ser

Que não és

Kinshasa

nem Lagos

Monróvia não és, podias ser.



Nascente e veia, profundo ventre

conheces a estrutura que sabota os ponteiros:

novos sobas [13], barcos novos, o conluio antigo.



E consomes a magreza dos celeiros

num bazar de retalhos e tumultos

Petit Paris!

onde tudo se vende, se anuncia

onde as vidas baratas desistiram de morrer.



Medram quarteirões de ouro

nos teus poros – diurnos, desprevenidos.

Medra implacável o semblante das mansões

Medram farpas na iníqua muralha

E um taciturno anel de lama em seu redor.



A chuva tem agora a cadência de um tambor

outro silêncio se ergue

no vazio dos salões das coiffeuses.



E no rasto do tam-tam revelarei

o medo adolescente encolhido nas vielas

beberei a sede da planta no teu grão.



Eu que trago Deus por incisão em minha testa

e nascida a 8 de Dezembro

tenho de uma madona cristã o nome.



A neta de Manuel da Madre de Deus Pereira dos Santos Lima

que enjeitou santos e madre

ficou Manuel de Deus Lima, sumu sun Malé Lima

Ele que desafiou os regentes intuindo nação –

descendente de Abessole, senhor de abessoles. [14]



Eu que encrespei os cabelos de san Plentá, minha três vezes avó

e enegreci a pele de san Nôvi, a soberana mãe de meu pai. [15]



Eu que no espelho tropeço

na fronte dos meus avós.



Eu e o temor do batuque da puíta

o terror e fascínio do cuspidor de fogo



Eu e os dentes do pawen [16] que da costa viria me engolir

Eu que tão tarde descobri em minha boca os caninos do antropófago.



Eu que tanto sabia mas tanto sabia

de Afonso V o chamado Africano

Eu que drapejei no promontório do Sangue

Eu que emergi no paquete Império

Eu que dobrei o Cabo das Tormentas

Eu que presenciei o milagre das rosas

Eu que brinquei a caminho de Viseu

Eu que em Londres, aquém de Tombuctú [17]

decifrei a epopeia dos fantasmas elementares.



Eu e minha tábua de conjugações lentas

Este avaro, inconstruído agora

Eu e a constante inconclusão do meu porvir



Eu, a que em mim agora fala.



Eu, Katona [18], ex-nativa de Angola

Eu Kalua[19], nunca mais em Quelimane [20]

Eu, nha Xica [21], que fugi à grande fome

Eu que libertei como carta de alforria

Este dúbio canto e sua turva ascendência.



Eu nesta lisa, escarificada face

Eu e nossa vesga, estratificada base

Eu e a confusa transparência deste traço.



Eu que degluti a voz do meu primeiro avô

que não se chamava Kunta Kinte

mas, talvez, quem sabe, Abessole



Meu sombrio e terno avô

Meu inexorável primeiro avô

Que das margens do Benin foi trazido

e às margens do Benin [22] não tornou decerto



Na margem do Calabar [23] foi colhido

e às águas do Calabar não voltou decerto



Nas margens do Congo foi caçado

e às margens do Congo não tornou decerto



Da nascente do Ogoué chegou um dia

e a foz do Ogoué não voltou jamais.



Eu que em Libreville não descobri a aldeia

do meu primeiro avô

meu eterno continental avô



Eu, a peregrina que não encontrou o caminho para Juffure

Eu, a nómada que regressará sempre a Juffure.



(A Dolorosa Raiz do Micondó; 2006)



Notas do blog:

[1] Libreville ou Librevile[1][nota 1] é a capital e a maior cidade do Gabão. Oficialmente, sua população é estimada em 703.904 habitantes (estimativa de 2013).

[2] Os griots (ou griôs) são guardiões da tradição oral na África Ocidental. Desde o século XI, atuam como historiadores, músicos e conselheiros, preservando a genealogia, mitos e canções de geração em geração. Eles utilizam instrumentos como o corá e o balafon para manter viva a identidade de seus povos.

[3] Mandinga refere-se originalmente a um grupo étnico do antigo Império de Mali e à sua língua. Com a escravidão, o termo passou a designar feitiços, simpatias e amuletos de proteção. Na capoeira, o termo descreve o jogo malicioso, o gingado e a simulação de golpes.

[4] Jufureh, Juffureh ou Juffure é uma povoação da Gâmbia, situada na margem direita do rio Gâmbia, frente à ilha James, a 30 km da foz. Encontra-se atualmente ligada à povoação de Albreda.

[5] Kunta Kinte é o protagonista do famoso romance "Raízes: A Saga de uma Família Americana", escrito por Alex Haley e lançado em 1976. A obra narra a saga de um guerreiro da etnia mandinga, nascido na Gâmbia por volta de 1750, que foi capturado e levado para os Estados Unidos para viver como escravizado.

[6] O Ogoué (também chamado de Ogooué ou Ogowe) é o principal rio do Gabão, na África centro-ocidental. Com mais de 1.200 km de extensão, nasce na República do Congo, atravessa quase todo o território gabonês e deságua no Oceano Atlântico. O nome também batiza várias províncias do Gabão.

[7] James Island é uma ilha na Carolina do Sul, ao largo da costa de Charleston. A ilha é separada de Charleston pelo rio Ashley . Cerca de metade da ilha está dentro dos limites da cidade de Charleston , e o restante é composto pela cidade de James Island e áreas não incorporadas. A ilha tem uma população de aproximadamente 35.000 pessoas. Diversas escaramuças da Guerra Civil Americana ocorreram na ilha.

[8] Água Grande é um distrito de São Tomé e Príncipe. Sua capital, São Tomé, também é a capital nacional das ilhas equatoriais atlânticas de São Tomé e Príncipe. Cobre 17 quilometros quadrados e é o menor dos 7 distritos em termos de área mas é o maior em população com estimados 54,300 residentes em 2004.

[9] Micondó é o nome dado em São Tomé e Príncipe ao baobá (Adansonia digitata). Esta árvore colossal destaca-se pela sua longevidade, pelo tronco largo (podendo ultrapassar 10 metros de diâmetro) e pela enorme capacidade de armazenamento de água. [1, 2]

[10] Gravanhas (também grafado como gravalhas ou garvalhas) é um regionalismo, principalmente da língua portuguesa europeia, utilizado para designar a caruma seca, ou seja, as folhas e agulhas caídas dos pinheiros.

[11] M'banza Congo,[2] também grafada como M'banza Kongo[3][4] e Mabanza Congo,[5][6] é uma cidade e município angolana, capital da província do Zaire.

[12] Malabo é a capital e principal cidade da Guiné Equatorial. Localizada na costa norte da ilha de Bioko, abriga cerca de 300.000 habitantes. O idioma oficial é o espanhol, e a cidade é conhecida por seu contraste entre a arquitetura colonial e áreas modernas de luxo.

[13] Soba é o chefe tradicional ou líder comunitário em Angola. Ele atua como administrador local, juiz, mediador de conflitos e guardião da cultura e dos valores ancestrais da comunidade.

[14] Abessole (ou Abessolo) é um nome próprio de forte ressonância na África Central e Ocidental continental — muito comum, por exemplo, na etnia Fang (comunidade profundamente ligada à história demográfica e migratória do Golfo da Guiné e do próprio arquipélago de São Tomé e Príncipe).

[15] Em São Tomé e Príncipe, especialmente no contexto da língua crioula local (o forro ou santomense), a palavra "san" (derivada de "senhor" ou "senhora", e muitas vezes associada à ideia de "santo/santa") é um termo de profundo respeito, veneração e senioridade usado para se referir às matriarcas, parteiras, rezadeiras ou mulheres mais velhas da comunidade. Não se trata necessariamente de uma canonização religiosa ocidental, mas de uma sacralização da ancestralidade familiar e comunitária.

[16] No Dicionário do santomense-português, a palavra pawen significa canibal, pessoa voraz ou insaciável.

[17] Tombuctu fica no Mali. Durante os séculos XIV e XVI, no auge do Império do Mali e do Império Songai, a cidade foi a capital intelectual, científica e espiritual de África. Abrigava a célebre Universidade de Sankoré e centenas de milhares de manuscritos que cobriam áreas como astronomia, matemática, medicina e filosofia.

[18] Katona evoca a figura do trabalhador contratado forçado vindo de Angola.

[19] Kalua representa os trabalhadores contratados traficados a partir de Moçambique.

[20] Quelimane é uma importante cidade portuária e capital da província da Zambézia, em Moçambique. Historicamente, foi um dos maiores portos de escoamento de escravizados e, mais tarde, de trabalhadores forçados da África Oriental em direção às ilhas do Atlântico.

[21] Nha Xica (Dona Francisca, onde "Nha" é o termo crioulo respeitoso para "Senhora") evoca a migração forçada dos caboverdianos.

[22] Benin (O Reino da Arte e do Poder), histórico Reino do Benin (localizado no território da atual Nigéria), famoso por sua corte refinada e pelos célebres "Bronzes do Benin". No início da colonização de São Tomé, o arquipélago serviu como um entreposto comercial e de escravos. Os colonos portugueses compravam pessoas escravizadas no Reino do Benin para trabalhar nas primeiras plantações de cana-de-açúcar de São Tomé ou para serem revendidas.

[23] Calabar é uma cidade portuária situada no sudeste da Nigéria (na região do Delta do Níger). Entre os séculos XVI e XIX, Calabar foi um dos portos de escoamento de escravizados mais ativos e violentos de toda a África Ocidental (no Golfo de Biafra). Milhares de pessoas das etnias Efik, Igbos e Ibibios foram capturadas no interior e embarcadas em Calabar. Muitas delas desembarcaram em São Tomé e Príncipe para o trabalho forçado ou morreram na travessia.



(Ilustração: René Tavares (Saint Tome and Principe) - les femmes des iles)

terça-feira, 7 de julho de 2026

EXÍLIO, de Milton Hatoun

  


M.A.C. decidiu ir a pé até a rodoviária: comeria um pastel e seguiria para a W3-Sul. Numa tarde assim, seca e ensolarada, dava vontade de caminhar, mas preferi pegar o ônibus uma hora antes do combinado: saltaria perto do hotel Nacional e desceria a avenida contornando as casas geminadas.

A cidade ainda era estranha para mim: espaço grandioso demais para um ser humano, a superfície de barro e grama rala se perdia no horizonte do cerrado. A Asa Norte estava quase deserta, era sexta-feira, e só às três da tarde alguns estudantes saíram dos edifícios malconservados. Do campus vinham os mais velhos: universitários, professores, funcionários, a turma escaldada. A liderança era invisível, os mais perseguidos não tinham nome: surgiam no momento propício, discursavam, sumiam.

Valmor não quis ir: medo, só isso, ele disse.

Zombavam do Valmor, escarneciam do M.A.C., medroso como um rato, mas agora até o M.A.C. sairia da toca e quem sabe se na próxima vez Valmor…

A revolta se irmanava ao medo, mas a multidão nos protegia e naquela tarde éramos milhares. Os militares esperaram o tumulto crescer na W3, depois se formou o cerco quase perfeito: nas extremidades e laterais da avenida, nos dois Eixos e nos pontos de fuga da capital. Às cinco ouvimos os discursos-relâmpago, urramos as palavras de ordem, pichamos paredes e distribuímos panfletos. A dispersão começou antes de escurecer.

Ninguém iria ao Beirute, um bar visado pela polícia, nem ao Eixo Rodoviário, uma praça de guerra. Durante o corre-corre saí da W3, passei pelos fundos de lojas e bares do setor comercial, tentando caminhar sem alarde, assobiando, e o céu ainda azulado era a paisagem possível. Nunca olhar para trás nem para os lados, nunca se juntar aos outros manifestantes, fingir que todos os outros são estranhos: instruções para evitar gestos e atitudes suspeitos. Até então nenhum rosto conhecido, e a catedral inacabada e o Teatro Nacional não estavam tão longe. Ficaria por ali à espera da noite, anunciada pela torre iluminada.

A dispersão e a correria continuavam: o mais prudente era ficar sentado no gramado da 302 ou da 307 e assistir ao bate-bola das crianças. Amanhã um passeio de bote com Liana no lago Paranoá, domingo a releitura de Huis Clos para o ensaio da peça. Se viver fosse apenas isso e se a minha voz (e não a de outro) gritasse meu próprio nome, duas, três vezes… Assustado, reconheci a voz de M.A.C., o corpo cambaleando em minha direção. A rua e a quadra comercial foram cercadas como num pesadelo, tentar fugir ou reagir seria igualmente desastroso. Depois de chutes e empurrões, eu e o meu colega rumamos para o desconhecido. M.A.C. quis saber para onde íamos, uma voz sem rosto ameaçou: “Calado, mãos para trás e cabeça entre as pernas”.

O trajeto sinuoso, as curvas para despistar o destino da viatura, manobras num labirinto que apenas imaginávamos e agora estava acontecendo. Pobre M.A.C., era o mais retraído da segunda série, misterioso como um bicho esquisito. Tremia ao meu lado, parecia chorar e continuou a tremer quando saltamos da viatura e escutei sua voz fraca: “Sou menor de idade”, e logo uma bofetada, a escolta, o interrogatório. Ainda virou a cabeça, o rosto pedindo socorro…

Não o vi mais na noite longa. Eu também era menor de idade e escutei gritos de dor no outro lado de uma porta que nunca foi aberta. Em algum lugar perto de mim, alguém podia estar morrendo, e essa conjetura dissipou um pouco meu medo. Na noite do dia seguinte me largaram na estrada Parque Taguatinga-Guará. A inocência, a ingenuidade e a ilusão, quase todas as fantasias da juventude tinham sido enterradas…

Na segunda-feira M.A.C. não foi ao colégio nem compareceu aos exames. Mais um desaparecido naquele dezembro em que deixei a cidade.

Durante muito tempo a memória dos gritos de dor trazia de volta o rosto assustado do colega.

Trinta e dois anos depois, na primeira viagem de volta à capital, encontrei um amigo de 1969 e perguntei sobre M.A.C.

“Está morando em São Paulo”, ele disse. “Talvez seja teu vizinho.”

“Pensei que tivesse morrido.”

“De alguma forma ele morreu. Sumiu do colégio e da cidade, depois ressuscitou e foi anistiado.” “Exílio”, murmurei.

“Delação”, corrigiu Carlos Marcelo. “M.A.C. era um dedo-duro. Entregou muita gente e caiu fora.”



(Um solitário à espreita)



(Ilustração: Tropa do exército em frente ao Congresso Nacional - 31.4.1964, foto agência O Globo)


sábado, 4 de julho de 2026

RECÉM-CASADO, de Lélia Coelho Frota






É pelos corpos que nos perdemos

de nós mesmos, para nos ganharmos.

É pelos beijos que nos despedimos

para nos encontrarmos pelos olhos.

É pela pele que escaldamos

o que em nós havia de secreto:

e é o nosso corpo entregue um corpo

estranho

pois pertence só a quem amamos

por quem morosamente devassamos

o alheamento da carne -

o barqueiro, o pastor que a atravessa

num profundo arremesso vagaroso

levantando ondas, ondas, ondas e

ervas

a subir e descer vagas e montes

levando-me com ele à raia clara

onde água a quebrar-se eu me

constele

na sua barca, conduzida à praia.



(Ilustração: Fernando Botero)

quarta-feira, 1 de julho de 2026

CONVICÇÃO E FANATISMO, de Delia Steinberg Guzman



A nossa intenção é de clarificar a diferença que vemos entre convicção e fanatismo para que, postas as coisas no seu devido lugar, cada qual possa ajuizar sobre si mesmo e sobre os outros com um pouco mais de precisão.

A convicção é um alto compromisso psicológico, intelectual e moral que surge de uma adesão progressiva e fundada em boas razões, em provas, em experiências, em modelos e bases sólidas.

Uma pessoa com convicções demonstra uma saúde integral, uma segurança interior invejável, sabe de onde vem e para onde vai, que lhe permite mover-se com equilíbrio e sensatez. As convicções nascem de exercício constante das nossas capacidades interiores e da transformação paulatina de opiniões mutáveis em juízos estáveis. Não se trata de anquilosamento nem de estagnação; pelo contrário, quem tem convicções vive ao ritmo das Ideias, pois estas têm uma energia própria e um ritmo natural de desenvolvimento.

Uma pessoa com convicções é tolerante. É firme no que lhe diz respeito, mas dá lugar aos outros. Sempre disposta a ouvir, não despreza os que pensam de outro modo. Possui uma tolerância ativa: ouve os outros, expõe e defende os seus próprios pensamentos sem ferir, sem insultar. Sabe criar espaço para si mesma e para os demais. Abre espaço, gera espaço, reconhece o seu espaço, não invade o espaço alheio, não importuna, não inquieta nem maltrata os que estão à sua volta. Não se impõe de forma tirânica nem se considera o cume da perfeição. É a sua convicção que a ajuda a avançar, a ser cada vez um pouco melhor.

Uma pessoa fanática pensa pouco ou nada. Admite como bom o que os outros lhe dão e desenvolve, em vez de sentimentos, paixões incontroláveis que a arrastam para ações inconscientes das quais nem sequer se arrepende porque não pode avaliá-las.

O fanático só conhece uma ideia, se é que a conhece. Digamos antes que só aceita uma ideia, e que chegou a essa ideia não por uma adesão pessoal, mas sob o efeito de uma coação habilmente dissimulada na maioria dos casos.

O fanático é, por definição, intolerante. Nem sequer aceita a existência dos que possam sentir e pensar de outro modo; por isso, procura eliminá-los a qualquer preço, sendo a morte e a tortura algumas das terríveis manifestações desta atitude. O fanático não ouve, é incapaz de dialogar. Só sabe gritar alto e em bom som os seus princípios para ficar atordoado com a sua própria voz e não deixar espaço a nenhuma outra opinião. Contenta-se amplamente com o que tem e despreza tudo o resto que para ele não existe ou deveria deixar de existir. O fanatismo é raiz da tirania.

É certo que devemos conviver com muitos – demasiados – fanáticos, mas não podemos cair na cópia inconsciente desta aberração por muito que o absurdo que nos rege faça com que esta aberração ocupe mais tempo e espaço que as obras nobres e produtivas para a Humanidade. Devemos manter a nossa integridade moral e convertermo-nos em seres humanos cabais e com autênticas convicções.



(Do blog Nova Acrópole)



(Ilustração: Nicolai Pimonenko - Victime of fanatisme)

domingo, 28 de junho de 2026

PALIMPSESTO, de Paulo Raviere

  


Meu coração é um palimpsesto

de cicatrizes: escara devora

escara; o sangue se mistura

com os sangues; os tecidos

sofrem eclipses; a pele tece

lençóis sobre as feridas. Nódoa

na memória: o sonho se afoga

no banho de sol; o olho implora

para ver as veredas verdes de uma

verdade; a ferida se degenera,

se regenera o tecido; somente

o sonho me ensina a renascer.

Palimpsesto é resistência: jamais

houve pensamento que não fosse

canibal; cada novo nascimento

é uma punhalada na História.



(As Maçãs do Fel; inédito)



(Ilustração: Tony Ashton - Palimpsesto série três 
- você nunca está sozinho com um rinoceronte)

quinta-feira, 25 de junho de 2026

OS OCIOSOS, de Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares


A era atômica, a cortina que cai sobre o colonialismo, a luta de interesses encontrados, a postulação comunista, a alta do custo de vida e a retratação dos meios de pagamento, o chamado do papa à concórdia, o progressivo debilitamento do nosso signo monetário, a prática do trabalho sem vontade, a proliferação de supermercados, a extensão de cheques sem fundos, a conquista do espaço, despovoamento do agro e o auge correlativo das favelas compõem todo um panorama inquietante que dá o que pensar. Diagnosticar os males é uma coisa; prescrever sua terapêutica é outra. Sem aspirar ao título de profetas, atrevemo-nos, no entanto, a insinuar que a importação de Ociosos no país, com vistas à sua fabricação, contribuirá não pouco para diminuir, à maneira de sedativo, o nervosismo hoje tão generalizado. O reino da máquina é um fenômeno que já ninguém disputa; o Ocioso comporta um passo a mais de tão inelutável processo.

Qual foi o primeiro telégrafo, qual o primeiro trator, qual a primeira Singer são perguntas que põem o intelectual em apuros; o problema não se coloca com relação aos Ociosos. Não há no orbe um iconoclasta que negue que o primeiro de todos obrou em Mulhouse e que seu incontestável progenitor foi o engenheiro Walter Eisengardt (1914-1941). Duas personalidades lutavam nesse valioso teutão: o incorrigível sonhador que publicou as duas monografias ponderáveis, hoje esquecidas, em torno das figuras de Molinos e do pensador de raça amarela Lao-tsé, e o sólido metódico de realização tenaz e de cérebro prático que, depois de arquitetar uma porção de máquinas claramente industriais, deu à luz, em 3 de junho de 1939, ao primeiro Ocioso de que se tem notícia. Falamos do modelo que se conserva no Museu de Mulhouse: apenas um metro e vinte e cinco de longitude, setenta centímetros de altura e quarenta de largura, mas nele quase todos os detalhes, desde os recipientes de metal até os condutos.

O segundo é de uso em toda localidade fronteiriça, uma das avós maternas do inventor era de cepa gaulesa e o mais notável da vizinhança a conhecia pelo nome de Germaine Baculard. O folheto no qual nos baseamos para este trabalho de fôlego intui que essa elegância, que é a marca da obra de Eisengardt, tem fonte de origem naquela irrigação de sangue cartesiano. Não regateamos nosso aplauso a esta amável hipótese que, além do mais, é adotada por Jean-Christophe Baculard, continuador e divulgador do mestre. Eisengardt faleceu mediante um acidente de automóvel da marca Bugatti; não lhe foi dado ver os Ociosos que hoje triunfam em usinas e escritórios. Prega que os contemple do céu, diminuídos pela distância e, por isso, mais de acordo com o protótipo que ele mesmo rematara!

Aqui vai agora um esboço do Ocioso, para aqueles leitores que ainda não tiveram o escrúpulo de ir examiná-lo em San Justo, na fábrica de Pistões Ubalde. O monumental artefato cobre a largura do terraço que centra o ponto da usina. Assim, a olho, lembra um linotipo desmesurado. É duas vezes mais alto que o capataz; seu peso se computa em várias toneladas de areia; a cor é de ferro pintado de preto; o material, de ferro.

Uma passarela em escadaria permite que o visitante o escrute e toque. Sentirá lá dentro como um leve pulsar e, se aplicar o ouvido, detectará um longínquo sussurro. De fato, há em seu interior um sistema de condutos pelos quais corre água na escuridão e uma que outra pedra. Ninguém pretenderá, no entanto, que são as qualidades físicas do Ocioso as que redundam na massa humana que o rodeia; é a consciência de que em suas entranhas palpita algo silencioso e secreto, algo que brinca e dorme.

A meta perseguida pelas românticas vigílias de Eisengardt foi plenamente alcançada; onde quer que haja um Ocioso, a máquina descansa e o homem, reanimado, trabalha.



(Crônicas de Bustos Domecq Novos Contos de Bustos Domecq; tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro)



(Ilustração : escultura de Kris Kuksi - Liner AM 13)

segunda-feira, 22 de junho de 2026

DER PANTHER [IM JARDIN DES PLANTES, PARIS] / A PANTERA (NO JARDIN DES PLANTES, PARIS), de Rainer Maria Rilke

 


Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe

so müd geworden,dass er nichts mehr hält.

Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe

und hinter tausend Stäben keine Welt.

 

Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte,

der sich im allerkleinsten Kreise dreht,

ist wie ein Tanz von Kraft um eine Mitte,

in der betäubt ein grosser Wille steht.

 

Nur manchmal schiebt der Vorhang der Pupille

sich lautlos auf -. Dann geht ein Bild hinein,

geht durch der Glieder angespannte Stille -

und hört im Herzen auf zu sein.

 

 

Tradução de Augusto de Campos:


De tanto olhar as grades seu olhar

esmoreceu e nada mais aferra.

Como se houvesse só grades na terra:

grades, apenas grades para olhar.

 

A onda andante e flexível do seu vulto

em círculos concêntricos decresce,

dança de força em torno a um ponto oculto

no qual um grande impulso se arrefece.

 

De vez em quando o fecho da pupila

se abre em silêncio. Uma imagem, então,

na tensa paz dos músculos se instila

para morrer no coração.

 

 

Tradução de Geir Campos:

 

 

Varando a grade, a nada mais se agarra

o olhar tomado de um torpor profundo:

para ela é como se houvesse mil barras

e, atrás dessas mil barras, nenhum mundo.

 

Seu firme andar de passos gráceis, dentro

dum círculo talvez muito apertado,

é uma dança de força em cujo centro

ergue-se um grande anseio atordoado.

 

De raro em raro, só, o véu das pupilas

abre-se sem ruído — e deixa entrar

a imagem, que sobe, pelas tranquilas

patas, ao coração, para aí ficar.

 

Tradução de José Paulo Paes:

 

Seu olhar, de tanto percorrer as grades,

está fatigado, já nada retém.

É como se existisse uma infinidade

de grades e mundo nenhum mais além.

 

O seu passo elástico e macio, dentro

do círculo menor, a cada volta urde

como que uma dança de força: no centro

delas, uma vontade maior se aturde.

 

Certas vezes, a cortina das pupilas

ergue-se em silêncio. – Uma imagem então

penetra, a calma dos membros tensos trilha –

e se apaga quando chega ao coração.

 

(Neue gedichte I; Novos poemas I; 1907)

 

(Ilustração: foto da pantera negra - no Zoo Negara, Malaysia)

sexta-feira, 19 de junho de 2026

INDO EMBORA, de Antônio Prata

 


Como em tantas outras madrugadas, acordo com um chorinho na babá eletrônica. É a Olivia, minha filha mais velha, de um ano e oito meses. Na maioria das vezes, ela vira pro lado e volta a dormir, sozinha. Em algumas noites, contudo - e é o caso desta aqui -, ela senta no berço e começa a gritar “Papai! Papai! Papai!” ou “Mamãe! Mamãe! Mamãe!” até que um de nós apareça para ouvir suas reivindicações.

São dois filhos, duas babás eletrônicas, cujos sinais se embaralham, de modo que não ouço bem se é “Papai!” - e serei eu a sair tropeçando pela noite fria - ou “Mamãe!” - e caberá à Julia explicar que não é hora de mamar, nem de ir pra escola, nem de brincar com o Senhor Batata, nem de ouvir Galinha Pintadinha, mas hora de dormir.

“É papai ou mamãe?”, balbucio, de olhos fechados, ao que minha mulher, sem nenhuma compaixão, sem nem sequer segurar a minha mão ou fazer um cafuné preparatório, dispara: “É ‘Arthur'”. Uma espada samurai atravessa o meu peito.

É claro que eu sabia que esse dia iria chegar: o dia em que aquele bebezinho lindo que embalei em meus braços, na maternidade, aquele serzinho indefeso que eu trouxe pra casa, a 30 km/h, com pisca alerta ligado, pela Raposo Tavares, aquele bumbunzinho rechonchudo que tantas vezes limpei, aqueles olhões deslumbrantes diante dos quais expliquei “esse é o leão”, “essa é a lua”, “esse é o manjericão”, “essa é a chuva”, iriam me trocar por outro homem. Achava, porém, que esse dia só viria lá por 2030-2027, na previsão mais pessimista.

Pensando bem, nem havia pessimismo na previsão. Imaginava, não sei se do alto do meu narcisismo ou do fundo da minha ingenuidade, que iria encarar tal dia com satisfação. Afinal, eu haveria criado minha filha para o mundo. Que ela saísse por aí se apaixonando e namorando seria um sinal da sua saúde e do nosso acerto.

Um pai enciumado? Coisa mais anos 1950 - e, no entanto, meus amigos, quando descubro que não é a mim que ela implora para salvá-la do escuro e da solidão, mas ao Arthur, colega da escola – um rapaz mais velho, diga-se de passagem, já beirando os três anos - um nó de marinheiro se forma na minha garganta.

Estirado na cama, trêmulo, me dou conta de que, nas últimas semanas, ela já vinha dando sinais daquela paixão, e, pior, eu os vinha recebendo com patente irritação. Eu pegava o “Marcelo, Marmelo, Martelo”, a Olivia punha o dedo na capa e dizia: “Arthur!”. “Não, Olivia, não é o Arthur, é o Marcelo!”. Aparecia o irmão da Peppa, na TV, ela corria até a tela, sorrindo: “Arthur!”. “Não, Olivia, não é o Arthur, é o irmão da Peppa!”. Huguinho, Zezinho, Luizinho? “Arthur! Arthur! Arthur!”. “Não, Olivia, eles são patos, não são o Arthur!”.

“Se você não vai, eu vou!”, resmunga a Julia, saindo da cama, surpreendentemente insensível ao meu cataclismo emocional. Só, vendo a Olivia na telinha da babá eletrônica, compreendo que não é ciúmes o que eu sinto, é solidão, uma solidão inédita e brutal: aquela menininha sentada no berço já começou a sair de casa, está indo embora, minuto a minuto, desde o dia em que a embalei no colo, na maternidade; logo, logo, ela parte, de braços dados com algum Arthur, depois eu fico velho, aí eu morro, então acabou-se o que era doce, ou agridoce, tão rápido, tão rápido, que coisa mais doida é isso tudo.



(Ilustração : Norman Rockwell - Girl at Mirror – 1954)

terça-feira, 16 de junho de 2026

ISAÍAS / ISAÍAS, de Olalla Castro


Destrúyelo todo para mí, Señor.

Que los impíos caigan sobre la tierra

cono el fruto de un árbol al varear sus ramas.

Que la muerte se esparza cual semilla.

Castiga, Señor, castiga,

a los cínicos, los ciegos, los violentos.

Golpea a quienes nos han golpeado.

Júzgalos. Condénalos.

Aplasta con tu mano sus manos miserables.

Que todos los pueblos menos el nuestro mueran.

Que las ciudades caigan menos Jerusalén.

Que nosotros, los únicos justos,

reeinemos con nuestra única verdad.



Tradução de Isaias Edson Sidney:



Destrói tudo por mim, Senhor.

Que caiam os ímpios sobre a terra

como o fruto de uma árvore quando se fustigam seus ramos.

Que a morte se espalhe como semente.

Castiga, Senhor, castiga

os cínicos, os cegos, os violentos.

Fere quem nos feriu.

Julga-os. Condena-os.

Esmaga com tua mão suas mãos miseráveis.

Que morram todos os povos, menos o nosso.

Que se destruam as cidades, menos Jerusalém.

Que nós, os únicos justos,

reinemos com a nossa única verdade



(Todas las veces que el mundo se acabó)



(Ilustração: Viktor Vasnetsov - quatro cavaleiros do Apocalipse – 1887)

sábado, 13 de junho de 2026

O QUE QUEREMOS SABER?, Alberto Manguel



A maior parte de minha infância em Tel Aviv transcorreu em silêncio: eu quase nunca fazia perguntas. Não que eu não fosse curioso. É claro que eu queria descobrir o que se guardava trancado na caixa pirogravada ao lado da cama de minha preceptora, ou quem morava atrás das cortinas dos trailers estacionados na praia de Herzliya, onde eu era severamente advertido a nunca passear. Minha preceptora respondia cuidadosamente a quaisquer perguntas, após o que me parecia uma longa e desnecessária consideração, e suas respostas eram sempre breves, factuais, não permitindo réplica ou discussão. Quando eu quis saber do que era feita a areia, sua resposta foi “de conchas e de pedras”. Quando eu fui buscar informação sobre o horrível Erlkönig, do poema de Goethe, que eu tinha de aprender de cor, a explicação foi: “É só um pesadelo”. (Como a palavra alemã para pesadelo é Alpentraum, eu imaginava que pesadelos só poderiam acontecer nas montanhas.) Quando eu me perguntei por que era tão escuro à noite e tão claro durante o dia, ela desenhou uma série de pontos formando um círculo num pedaço de papel, que tencionava representar o sistema solar, e depois me fez decorar os nomes dos planetas. Nunca se recusou a responder e nunca me estimulou a questionar.

Só muito mais tarde descobri que fazer perguntas poderia ser outra coisa, semelhante à emoção de uma busca, promessa de algo que tomava forma enquanto acontecia, uma progressão de explorações que cresciam numa troca recíproca entre duas pessoas e que não requeria uma conclusão. Não há como exagerar a importância de ter liberdade para fazer tais inquirições. Para uma criança, elas são essenciais para a mente assim como o movimento é essencial para o corpo. No século XVII, Jean-Jacques Rousseau afirmou que uma escola deveria ser um espaço onde se dava livre alcance à imaginação e à reflexão, sem qualquer propósito óbvio ou prático ou qualquer objetivo utilitário. “O homem civil nasce, vive e morre na escravidão”, ele escreveu. “Ao nascer, ele é costurado em panos que o enfaixam; ao morrer, é pregado dentro de um caixão. Enquanto mantém forma humana, é acorrentado por nossas instituições.” Não é treinando nossas crianças para ingressar em qualquer atividade requerida por nossa sociedade, insiste Rousseau, que elas serão e cientes em suas tarefas. Elas devem ser capazes de usar a imaginação sem constrangimentos antes de poderem criar qualquer coisa de valor.

Um dia, um novo professor de história começou a aula nos perguntando o que queríamos saber. Estaria se referindo ao que nós queríamos saber? Sim. Sobre o quê? Sobre qualquer coisa, qualquer noção que nos ocorresse, qualquer coisa que quiséssemos perguntar. Após um silêncio de espanto, alguém levantou a mão e fez uma pergunta. Não me lembro qual foi (uma distância de mais de meio século me separa daquele valente inquiridor), mas lembro que as primeiras palavras do professor eram menos uma resposta do que uma dica para outra pergunta. Talvez tenhamos começado querendo saber o que faz um motor funcionar; acabamos perguntando como Aníbal tinha conseguido cruzar os Alpes, o que lhe dera a ideia de usar vinagre para quebrar as rochas congeladas, o que deve ter sentido um elefante ao cair mortalmente congelado na neve. Naquela noite cada um de nós sonhou seu próprio e secreto Alpentraum.



(Uma história natural da curiosidade; tradução de Paulo Geiger)



(Ilustração: Frans Francken le Jeune (1619) - Un Cabinet de curiosités)


quarta-feira, 10 de junho de 2026

NO TITLE / SEM TÍTULO, de Upile Chisala

  




sadly,

when the ocean is your border

you must make do.

home is far

and your hunger for it

might make your bones ache.

so you study supermarkets

till you know where

to can find

goat meat

and

cassava

and

corn meal

and

peanut flour

and

okra

and

dried fish

and

pumpkin leaves,

food that jogs your memory,

after all

you must make do.

I am sorry,

home is far and

you’re hungry for it

and

the stubborn ocean won’t disappear.



Tradução de Melissa Quintela Martinez:



infelizmente,

quando o oceano é sua fronteira

você não tem muita escolha.

seu lar está longe

e você está faminta por ele

é de doer na alma

então você pesquisa por supermercados

até saber onde

pode encontrar

carne de cabra

e

mandioca

e

farinha de milho

e

farinha de amendoim

e

quiabo

e

peixe seco

e

folhas de abóbora,

alimentos que trazem lembranças,

afinal de contas

você não tem outra escolha.

Eu sinto muito,

seu lar está longe

e você está faminta por ele

e

o teimoso oceano não vai desaparecer.



Tradução de Izabel Aleixo:



Infelizmente,

Quando o oceano é o seu limite,

Você tem que se virar.

Seu lar está distante

E a sua fome dele

Pode fazer os seus ossos doerem.

Então você estuda os supermercados

Até saber onde achar

Carne de cordeiro e

Aipim e

Fubá e

Farinha de amendoim e

Quiabo e

Peixe seco e

Folhas de abóbora,

Comida que mexe com a sua memória,

Afinal,

Você tem que se virar.

Sinto muito,

Seu lar está distante

E

Você tem fome dele

E

O oceano obstinado não irá desaparecer.



(Soft Magic / Eu destilo melanina e mel)


(Ilustração: Norman Rokwell - immigrants stepping onto Ellis Island)