quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O DIABO QUE ASSOVIAVA, de João Ubaldo Ribeiro

  

O problema com essas histórias todas é que é tudo offzirrécorde, como se diz atualmente. Quer dizer, quem diz não escreve e quem escreve não assina. Não tolero isso. Pode estar muito na moda, mas não me convence. Eu, você pode escrever aí: foi eu que disse. O resto de quem sabe, não querendo confirmar, não confirme. Escreva aí, sem o offzirrécorde. O camarada tem medo de dizerem que ele é colhudeiro, a verdade é o sol e ele é a lua, essas coisas. Comigo não, escreva. O diabo Beremoalbo, muitas pessoas estiveram pessoalmente com ele - posso citar diversas, aliás não cito nada, hoje em dia o sujeito cita e, quando está bem do seu, já virou alcaguete, pode deixar - o diabo Beremoalbo era um diabão altamente escroto, dos piores que já apareceram por aqui, inclusive fazia as desgraças dele e dava grandes gaitadas, espécie de curriúque-curriúque, só que com aquele bafo de diabo, absolutamente diferentíssimo. Ele chegava na porta das pessoas explodindo fortemente as letras que movimentam os beiços:

— Boa noite. Meu nome é Beremoalbo.

E aí podia se resignar, que seguia uma escrotidão em cima da outra, encarreirado. Leite azedando, mulher abortando, menino de caganeira, boi de bicheira, água podre no purrão, panarício no dedão, moça velha desonrada, casa nova destelhada, tudo o que possa lhe ocorrer. O bicho tinha uma voz péssima, mestiça de gruta, uma coisa horrível de se ouvir assim no meio da noite — meu nome é Beremoalbo —, imagine o senhor. Pessoas há que procuram achar qualidades nesse diabo Beremoalbo, mas a verdade precisa ser dita, porque não existe coisa ruim neste mundo que não apareça algum descarado para elogiar: nesse Beremoalbo não tem nada que se salve, não se pode ter a mínima confiança nele. Para não dizer mais nada, recordo o dia em que seu Beremoalbo se nos aparece por meio do serviço de alto-falantes. O que ele diz é o seguinte:

— Boa noite. Ao microfone, Beremoalbo. Votem no Medebê.

Agora o senhor veja que conselho porreta que ele achou de dar. Interessante. Com certeza é a mãe dele, se diabo tivesse mãe, que vai ficar aqui aguardando quatro anos sem nem o secretário da Justiça, que é o mais esculhambado de todos, aparecer por aqui, mordamos aqui para vermos se sairmos leite, ora me deixe. Acredito ser isto suficiente para saber de quem se trata Beremoalbo.

Entretanto, Beremoalbo está longe de ser o único da raça do cão a frequentar por aqui, aliás, é exatamente de um caso desses que eu quero tratar, mais tarde lhe falo, logo, logo. Tem gente que nega, mas, quando o senhor virar as costas, vão se benzer e espalhar alho pelos cantos da casa, só que Beremoalbo come alho, com ele o negócio é difícil. Tem gente que nega, mas só de fingimento, pois a verdade é que esse pessoal todo vai se lembrar se o senhor chegar para eles e mencionar alguns dos seguintes cães: Balganoel, o espalha-merda; Virifinário, o que conseguiu fazer aparecer mais cornos nesta terra do que se pode contar; o diabão Jugurta, que convencia todo mundo a dizer a verdade e assim causou toda apresentação de fatos maus que a gente seria feliz se não soubesse; Harpagelão, que meteu na cabeça de diversos padres de ir na terra de uns índios mais do que degenerados, os quais comeram Roquiféler - uns índios que comeram Roquiféler, vai se brincar com um povo desses? - e igualmente que os índios comeram os padres e nem pensaram duas vezes, que quando índio pensa meia vez pensa muito; Rolvinésio, o que botava para falar e, botando gente para falar, causou grande número de misérias; Erundino, que peidava nos ambientes e provocava inimizades; Raimundo Humberto, dador de bofetadas estraladas, levantador de saias de mulheres, assoprador de ventos maus de toda consequência, causador de dor de ouvidos, mandador de moscas na hora do sono, broxador de amantes, atiçador de crianças insuportáveis e tudo mais que faça nós o Homem que possamos dirigir blasfêmias ao Nosso Criador - mas esse Raimundo Humberto, o senhor tem de concordar que um diabo chamado Raimundo Humberto nunca que pode ser a mesma coisa de um diabo atendendo por Beremoalbo, então seu Raimundo Humberto se fazia passar, a quantos coubesse a desgraça de topar com ele, por Ascaltenor, mas esse já é outro diabo, que não atenta aqui.

Pode o senhor assim consultar a nossa praça e perceber o que quiser. Porque cada um percebe o que quer, apesar de todo o offzirrécorde. Embora não perceber certas coisas já pareça descaração, mas manda a caridade que se deixe isso de lado. Nunca me esqueço de que uns americanos estiveram aqui e filmaram o povo todo - sem porém pagar um tostão a ninguém, como eles pagam por exemplo a Tarzan, claro que ninguém aqui é Tarzan, mas também é filhos de Deus - e, quando notaram que a maior parte só trabalha quando está com fome, disseram que todo mundo aqui somos uma sociedade rica. E ainda sustentaram e botaram na rádio. Quer dizer, quanto mais a gente estiver morando no oco dos pés de pau e cagando nos matos, mais eles estão gostando. Americano é mais sabido até do que paulista. Estamos de olho neles todos. O diabo Gildélio, conforme o senhor sabe, do contrário não estava perguntando a respeito dele, era mais especial do que esses outros, isto porque, de acordo com todas as testemunhas, trazia sempre franzido o sobrolho e a cara ensombreada, por isso que não suportava ser diabo. Se bem que nessa eu não creio assim cem por cento, porque cansei de ver ele sair da bodega de Ernestino com cada lasca de jabá deste tamanho na mão, que ele roubava, provocando com isso peixeiradas e tentativas de Ernestino contra qualquer pessoa que apresentasse cara de haver comido jabá naqueles dias, notadamente jabá crua. Eu mesmo estive acusado falsamente. Quer dizer, são umas coisas que fazem a pessoa alimentar certas dúvidas.

No entanto, de relação aos assovios, posso muitíssimo bem prestar depoimento, isto porque todos nesta cidade sabem que um certo tipo de assovio, antes muito ouvido por aqui, podia contar como uma espécie de aviso, porque lá vinha miséria. Acúrcio mesmo, depois que ele já tinha metido no juízo de Acúrcio casar com Isabel Rosália e morar com a mãe lá dela, dona Aurora, que só não se podia chamar de jararaca porque a jararaca tem a natureza mais cortês. Por aí o senhor tira a natureza de dona Aurora. Pois Acúrcio garante que, na hora do pedido de casamento, ele ouviu aquele assoviozinho como que de curió, assim no pé do ouvido bem lá dele. A consciência cochichou: atenção nos assobeios, que possa ser Gildélio. Mas aí é que está o particularismo da situação. Na hora, o sujeito não dá importância ao assovio, de forma que a desgraça fica feita. A mesma coisa pode ser dita dúzias e dúzias de vezes, como no caso de Genival, esse mesmo que o senhor está pensando, que vem ouvindo esses assovios toda vez que se candidata, desde vereador aqui até prefeito, deputado, vai a senador — quer dizer, chegando em todas as alturas políticas, não tem quem salve ele do inferno. Como no caso de Totonho, para mim ele continua a ser Totonho, lá fora é que chamam de doutor, doutor para mim é ourinol, não vou chamar de doutor um moleque daquele, que eu vi o pai muitas vezes passando cabresto em jegue alheio nos pastos, ora me deixe. O caso dele é que hoje, de grau em grau, é dono de altos bancos e altíssimas fábricas e é empregador — que ele chama empregador e não gosta que chamem de patrão, por causa do natural acanhamento — de diversas pessoas, porém sempre ele ouvindo o assovio de Gildélio, quanto mais dinheiro ele vai ganhando. Tem uns dinheiros de viúvas que ele também arrecada e escreve numa caderneta e esses incrementam muitíssimo a assoviação. Deixe ele.

Fala-se em Gildélio também, quando, por uma razão ou por outra, a pessoa se engana com alguém e pega esse alguém com a boca na botija em alguma desgraceira contra si, isto porque, segundo se diz, seu Gildélio me comete as piores safadezas por entre os disfarces mais descarados e as mais altas finuras. O sujeito pega ele armando uma sacanagem e ele faz o seguinte discurso:

— Creia, meu senhor, neste mundo é muito fácil condenar e ainda mais fácil ignorar. O senhor me compreenda, eu sou diabo, é uma fatalidade, o que é que se pode fazer? Alguém tem que ser diabo, havemos de convir. Vamos compreender. Não se condena pela profissão, sem conhecer o caráter. Se eu fosse anjo, está certo. Mas eu não sou. De forma que só posso fazer esse tipo de coisa, o senhor por fineza queira relevar. Posso garantir que, se o senhor fosse diabo, estava na mesma situação, firuri-firuri.

Bom consolo, pode o senhor dizer e, de fato, nada disso ia impedir que a desgraceira fosse feita. Pelo contrário, acho que nisso vai a demonstração de que Gildélio pode ser o exemplo de todos os diabos, pois devia ser verdade conhecida que nenhum assovio ou até apito de trem vai desviar o homem de seu mau destino. De maneira que podemos considerar esses assovios na qualidade de deboche, mesmo porque a situação aqui é de molde que, se o urubu de baixo está cagando no de cima, isso se descreve como boas notícias. É assim que vemos as coisas pretas, Deus é grande. Aliás, podia chegar uma banda de assoviadores que nada se alterava, pois desde que este mundo é mundo que existe um assoviador, sem que ninguém devote a ele preocupação, porventura senão um maestro ou outro, para lhe comunicar que o seu dó maior enganchou no si bemol.

Não sei de nada, até nem sou daqui e, mesmo que fosse, não estava aqui e, mesmo que estivesse, não falava nada. Estou ficando nos paraxismos, a culpa é sua, que me deu álcool. Estou sabendo apenas que esse diabo tanto atanazou a vida do meu compadre Tito Procópio que esse compadre, ouvindo embora os assovios, fez mais filhos do que devia a consciência consentir, pois afirmava Tito Procópio que o filho era a riqueza do pobre, convencimento este assoprado pelo Gildélio mencionado. Sendo que Gildélio, que tinha se provado amigo da família, tudo bem disfarçadinho, mostrou que não ter filhos ia ser bem pior. Além de ser maldição, exibia aos vizinhos gala fraca ou mulher maninha e, mais do que importante, podia ser - estou dizendo assim: sempre podia ser, às vezes possa ser até que não podia ser, que eu não sou comunista - podia ser que, sem mais gente para ajudar na produção, podia ser que eles não pudessem mais ficar ali, naquelas terras que não eram deles. Considerado isso, lembre que tanto faz nascer como não nascer, que a comida não aumenta, mas a produção pode aumentar. E tal e coisa. E só os assovios. Pois então Tito Procópio foi tendo filhos, juntamente com despesas de enterros diversos, muito embora tenha feito muitos que viviam ali mesmo, comendo o barrinho deles e esfregando as barriguinhas d'água deles e dois ou três quem sabe se não pode vir a ser até peão, se forte?

Terminou, naturalmente, que Tito Procópio desmascarou Gildélio e se preparou para envergonhar esse diabo, quando ele então começou com a história de que culpa ele tinha se ele era diabo. Mas logo eu, disse Tito Procópio, logo eu, que sou pobre e nada possuo nesse mundo? Podendo vosmecê ir infernar quem por aí explora e torpedeia?

É por isso mesmo, disse o diabo Gildélio, olhando para os meninos amarelos com seus olhos maus e dando um sorriso horrível como só o diabo pode dar, o sorriso mais feio do mundo. E ele sorri porque sabe que não pode obrar coisa pior do que fazer nascer. Pelo menos nascer por aqui.



(Ilustração: Cícero Dias - composição com estátua e monstro; 1928)

domingo, 9 de agosto de 2026

NA FENDA DA NOITE, de Elys Regina Zils



Na fenda da noite

ver com claridade

o horizonte parece apodrecer lentamente

diante de nós

silêncio articular

solidão com cheiro de alecrim

a vontade é um retângulo mal desenhado

caminhamos lentos pelo teto do cotidiano

como se nosso caminho fosse levar a outro destino



(Fragmentos de silêncio)



(Ilustração : Andrew Wyeth - chambered nautilus)

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

WAKEFIELD, de Nathaniel Hawthorne


Numa velha revista ou jornal, lembro haver lido uma história, contada como verdadeira, de um homem – vamos chamá-lo de Wakefield – que se afastou voluntariamente por um longo tempo de sua esposa. O fato, visto assim de maneira abstrata, não é propriamente incomum e nem deve – sem uma conveniente distinção de circunstâncias – ser condenado por maldade ou por disparate. Seja como for, ainda que distanciado de outros piores, este é talvez o mais estranho exemplo, em registro, de delinquência marital; e, além do mais, um capricho entre os mais notáveis que se possa encontrar na lista das extravagâncias humanas. O casal vivia em Londres. O marido, a pretexto de ter que viajar, alugou um aposento em rua próxima de sua própria casa, e ali, sem que a esposa e os amigos o percebessem, e sem qualquer justificativa para o autodesterro, viveu afastado por mais de vinte anos. Durante esse período, ele olhava o seu lar a cada dia, e com frequência avistava a abandonada senhora Wakefield. E depois de tão grande vazio na sua felicidade matrimonial – quando sua morte já era dada por certa, sua herança dividida, seu nome apagado das memórias, e sua esposa há longo, longo tempo resignada à outonal viuvez – ele entrou pela porta uma noite, tranquilamente, como se houvesse estado ausente apenas um dia, e se tornou um esposo dedicado até morrer. Este resumo é tudo que lembro. Mas o incidente, ainda que da mais pura originalidade, sem precedentes, e que provavelmente nunca virá a ser repetido, é daqueles que, penso eu, despertam a geral simpatia da humanidade. Sabemos, cada um por si, que nenhum de nós seria capaz de cometer tal loucura, entretanto sentimos como se alguns outros pudessem fazê-lo. Em minhas próprias reflexões, pelo menos, o assunto tem voltado muitas vezes, sempre prodigioso, mas com uma sensação de que a história deve ser verdadeira e com um conceito do caráter de seu herói. Sempre que temas tão envolventes afetam a mente, o tempo não é perdido quando se pensa neles. Se o leitor quiser escolher, poderá fazer suas próprias meditações; mas se preferir divagar comigo ao longo dos vinte anos de excentricidade de Wakefield, eu lhe dou as boas-vindas; confiando que, ainda que falhemos em encontrá-los, haverá uma moral e um espírito penetrante sinceramente elaborados e sintetizados na sentença final. O pensamento sempre tem sua eficácia, e todo incidente notável sua moral

Que tipo de homem era Wakefield? Somos livres para dar forma à nossa própria ideia e chamá-la pelo nome dele. Estava agora no meridiano da vida; as afeições conjugais, nunca violentas, permaneciam serenas, num sentimento calmo e habitual. De todos os maridos, é provável que fosse o mais constante, pois uma certa indolência mantinha o seu coração em repouso, onde quer que estivesse. Era intelectual, mas de modo não ativo; ocupava a mente em demorados e preguiçosos devaneios, sem propósito definido ou sem vigor para atingi-lo. Seus pensamentos só raras vezes tinham energia para estruturarem-se em palavras. A imaginação, na significação própria do termo, não alcançava os dons de Wakefield.

Tendo um coração frio, mas não corrompido nem errático e um espírito nunca afetado por pensamentos tumultuosos, nem aturdido por originalidades, quem poderia prever que o nosso amigo iria posicionar-se num lugar de destaque entre os realizadores de façanhas excêntricas? Se fosse perguntado a seus conhecidos quem era, em Londres, o homem mais certo para não fazer algo hoje que pudesse ser recordado amanhã, eles teriam pensado em Wakefield. Só a esposa de seu coração teria hesitado. Ela, sem necessidade de analisar seu caráter, estava parcialmente consciente de um silencioso egotismo incrustado na mente passiva – de uma peculiar espécie de vaidade, seu atributo mais embaraçoso – de uma disposição para a astúcia, que raramente produzia efeitos mais positivos do que guardar insignificantes segredos, demasiado triviais para serem revelados – e, finalmente, do que ela chamava “uma pequena esquisitice”, às vezes, no bom homem. Esta última qualidade é indefinível e talvez não existente.

Vamos agora imaginar Wakefield despedindo-se de sua esposa. É o crepúsculo de uma tarde de outubro. Sua bagagem se compõe de um sobretudo pardacento, um chapéu de oleado, botas altas, um guarda-chuva numa das mãos e uma maleta na outra. Informa à senhora Wakefield que pegará o coche noturno para o campo. De boa vontade, ela deveria indagar sobre a duração da viagem, o objetivo dela, e o tempo provável para o retorno; no entanto, tolerante com o inocente amor do marido pelo mistério, interroga-o apenas com o olhar. Ele lhe diz que não espere com certeza pela volta do coche, nem ficasse alarmada se ele tiver que se demorar por três ou quatro dias; mas que, em todo caso, podia contar com ele para o jantar na sexta-feira à noite. O próprio Wakefield, isto deve ser levado em consideração, não tem a menor suspeita do que vai acontecer. Ele adianta as mãos; ela estende as suas próprias e recebe o beijo de despedida ao modo rotineiro de um casamento de dez anos. E o senhor Walkfield, de meia-idade, segue em frente, quase decidido a desnortear sua boa esposa com uma ausência de uma semana inteira. Depois de fechada a porta atrás dele, a senhora Wakefield percebe que esta se entreabre novamente e uma visão do rosto de seu marido reaparece através da abertura, sorrindo para ela, e isso dura apenas um momento. Em suas múltiplas meditações ela circunda esse sorriso original com uma profusão de fantasias, que o fazem estranho e terrível. Se, por exemplo, ela imagina o marido num ataúde, aquele olhar de despedida mantém-se gélido no rosto pálido; ou, se acaso sonha que ele está no céu, o abençoado espírito ainda mostra um sorriso tranquilo e astucioso. Contudo, no seu interesse, quando todos os demais o têm julgado morto, ela às vezes duvida se é uma viúva.

Mas, o nosso assunto é com o marido. Devemos correr ao seu encontro, acompanhá-lo pelas ruas, antes que perca a individualidade e se desvaneça na grande massa da vida de Londres. Seria inútil procurá-lo aí. Por isso, vamos segui-lo bem de perto, até que, após vários giros e voltas supérfluos, o encontramos confortavelmente instalado à frente da lareira, no pequeno aposento já mencionado. Ele está na rua seguinte à de sua própria casa e no final de sua viagem.

Dificilmente pode atribuir à boa sorte o fato de haver chegado ali sem ser visto – recordando que, em dada ocasião, foi retardado pela turba, ao ficar sob o foco de luz de uma lanterna; e, de outra feita, escutou pisadas que pareciam segui-lo, pisadas diferentes do caminhar habitual da multidão ao redor; e, logo depois, ouviu uma voz distante que gritava e ele imaginou que chamava pelo seu nome. Sem dúvida, uma dúzia de pessoas apressadas e curiosas deveria tê-lo visto e ido contar tudo para a esposa. Pobre Wakefield! Quão pouco sabes do brilho de tua própria insignificância neste vasto mundo! Nenhum olho mortal, exceto o meu, seguiu tuas pegadas. Vá tranquilamente para a cama, homem insensato; e, pela manhã, se fores sábio, retorna para casa, para a boa senhora Wakefield e conta a ela a verdade. Não te afastes, nem mesmo por uma semana, do lugar que ocupas em seu puro coração. Se por um único momento, tivesse ela te julgado morto, ou perdido, ou definitivamente afastado dela, terias com aflição tomado consciência de uma mudança irreversível na lealdade dela. É perigoso abrir uma fenda nas afeições humanas; não porque se rompa ou alargue em demasia - mas porque se fecha de novo, rapidamente.

Quase arrependido de sua maluquice, ou qualquer que seja o termo que a denomine, Wakefield deita-se cedo, e acordando depois da primeira soneca, estende os braços no largo e solitário espaço restante da cama inabitual. “Não” – pensa ele, ajeitando o corpo sob as cobertas – “Não dormirei mais sozinho uma única noite.”

Pela manhã, levanta mais cedo que de costume, e se põe a considerar o que realmente deseja fazer. Tão vago e desconexo é o seu modo de pensar, que ele tem consciência de haver dado aquele passo singular com um propósito, é certo, mas acha-se incapaz de defini-lo com suficiente clareza. A vaguidade do projeto e o desordenado esforço empregado na sua execução, caracterizam de modo igual um homem de personalidade débil. Wakefield, entretanto, examina as suas ideias tão minuciosamente quanto pode, e sente-se curioso em saber como vai o curso das coisas em sua casa – como sua esposa exemplar suportará a viuvez de uma semana; e, em síntese, como a pequena esfera de pessoas e situações, na qual ele era um objeto central, será afetada pela sua ausência. Uma vaidade mórbida, por isso, jaz muito próxima do fundo desse caso. Mas, o que fazer para alcançar os seus fins? Não, por certo, manter-se enclausurado neste alojamento confortável, onde, embora tivesse dormido e acordado na rua seguinte à de sua casa, ele efetivamente sente-se tão distante como se tivesse viajado toda a noite numa carruagem. Contudo, se reaparecesse, o projeto inteiro desabaria sobre sua cabeça. Com o pobre cérebro embaraçado nesse dilema sem esperança, ele finalmente aventura-se a atravessar parcialmente a esquina da rua e a lançar um olhar rápido na direção do domicílio abandonado. O hábito – pois ele é um homem de hábitos – segura-o pela mão e o conduz, sem que ele tenha a menor consciência, até a frente da própria porta, onde, justo no momento crítico, ele é despertado pelo arrastar de seus pés sobre o degrau. Wakefield, aonde você vai?

Nesse momento, o seu destino estava girando em torno de um centro. Pouco imaginando sobre a fatalidade que o primeiro passo de retorno proporcionava, sai dali apressado, mal podendo respirar ante a agitação nunca sentida até agora, e apenas ousa virar a cabeça ao chegar na esquina distante. Será que alguém o havia visto? Não teria o pessoal da casa – a honesta senhora Wakefield, a esperta empregada, e o sujo garotinho de recados – feito um alvoroço e saído pelas ruas de Londres, em busca de seu fugitivo senhor e amo? Milagrosa escapada! Ainda arranja coragem para deter-se e olhar na direção da casa, mas é desconcertado pela sensação de mudança que lhe transmite o familiar edifício, assim como somos todos afetados, quando após uma separação de meses ou anos, vemos de novo alguma colina ou lago, ou obra de arte, dos quais, antes, gostávamos especialmente. Nos casos normais, essa impressão indescritível é causada pela comparação e contraste entre as nossas lembranças imperfeitas e a realidade. Em Wakefield, a mágica de uma simples noite produziu uma transformação semelhante, porque, nesse breve período, houve uma forte mudança moral. Mas ele próprio não sabe disso. Antes de deixar o local, percebe um longínquo e momentâneo relance de sua esposa, que passa pela janela da frente, com o rosto voltado para a extremidade da rua. O ingênuo matreiro então foge do local, apavorado com a ideia de que os olhos dela o tenham reconhecido, tal como ele se considera, entre os milhares de átomos mortais. Quando se encontra diante do calor da lareira, em seu alojamento, o coração está alegre, embora o cérebro se ache meio aturdido.

É o suficiente para o começo desta longa extravagância. Depois da ideia inicial, e da incitação do caráter lerdo do nosso personagem para colocá-lo em atividade, todo o assunto desenvolve-se num curso natural. Podemos presumi-lo, como resultado de profunda deliberação, comprando uma nova peruca, de cabelos avermelhados, e escolhendo diversos artigos no baú de liquidação de roupas de um judeu, num estilo diferente de seu costumeiro terno marrom. Está completo.

Wakefield é outro homem. Estabelecido agora o novo sistema de vida, um movimento retrógrado para o antigo seria quase tão difícil quanto a circunstância que o colocou na presente posição sem paralelos. Além disso, ele se obstina num mau humor, ocasionalmente peculiar a seu temperamento, mas que agora se deve à sensação inadequada que ele concebe haver sido produzida no íntimo da senhora Wakefield. Não retornará para casa enquanto não a considerar mortalmente assustada. Bem, ela já passara duas ou três vezes ante seus olhos, a cada vez com um passo mais pesado, um rosto mais pálido, um aspecto mais ansioso; e, na terceira semana de seu desaparecimento, ele nota um presságio do mal a entrar na casa, na figura de um farmacêutico. No dia seguinte, a aldrava da porta traz uma cobertura para abafar o barulho. Ao cair da noite, surge a carruagem de um médico e deposita, à porta da casa de Wakefield, a sua carga solene, de grande peruca, de onde, após um quarto de hora de visita, emerge, talvez o arauto de um funeral. Querida mulher! Estará para morrer?

Então, Wakefield é excitado por algo como uma energia de sentimento, mas ainda permanece afastado do leito de sua esposa, argumentando com sua consciência que não deve perturbá-la em tal conjuntura. Se outra coisa o retém, ele não sabe. No curso de poucas semanas, ela gradualmente se restabelece; a crise passa; o coração é triste, talvez, mas tranquilo; e, volte o marido cedo ou tarde, ela jamais ficará febril por ele de novo. Tais pensamentos bruxuleiam através das névoas da mente de Wakefield, e fazem-no indistintamente consciente de que um quase intransponível abismo divide o seu apartamento alugado de sua antiga casa. “Mas se fica apenas na outra rua!”, diz, às vezes. Tolo! fica num outro mundo. Até agora tem adiado o regresso de um particular dia para outro. De agora em diante fica indeterminado o dia preciso. Não será amanhã – provavelmente na próxima semana – o mais breve possível. Pobre homem! Os mortos têm aproximadamente tantas probabilidades de revisitarem seus lares terrestres quanto o autodesterrado Wakefield.

Pudesse eu escrever um livro, em vez de um artigo de doze páginas! Seria possível então exemplificar como uma influência, que vai além do controle, coloca a sua mão forte em cada ação que cometemos, e tece as suas consequências em férreo tecido de necessidade. Wakefield está enfeitiçado. Devemos deixá-lo, por dez anos ou mais, vaguear em torno de sua casa, sem uma vez sequer traspor o limiar, e ser fiel à sua esposa com todo o afeto de que é capaz seu coração, enquanto vagarosamente vai desvanecendo o dela.

Há muito tempo, deve acentuar-se, que ele perdeu a percepção da singularidade de sua conduta.

Agora, uma cena! Em meio à multidão de uma rua de Londres podemos distinguir um homem, já idoso, com poucas características que possam atrair observadores desatentos, entretanto mostrando em todo seu aspecto, aos que tiverem a habilidade para tal leitura, a caligrafia de um destino incomum. É magro; sua testa estreita e baixa tem vincos profundos; seus olhos, pequenos e sem brilho, às vezes passeiam apreensivos ao redor, mas, na maioria das vezes, parecem olhar para dentro. Abaixa a cabeça, mas se movimenta com uma obliquidade indescritível no jeito de andar, como se não quisesse mostrar-se de frente para o mundo. Observe-o, o tempo suficiente para ver o que descrevi, e irá concordar que as circunstâncias – que muitas vezes produzem homens notáveis a partir de matéria comum da natureza - aqui produziram um deles. Depois disso, deixando-o a andar obliquamente pelas calçadas, lance o olhar na direção oposta, onde uma mulher corpulenta, visivelmente no declínio da vida, dirige-se a uma igreja que fica lá adiante, levando na mão um livro de orações. Tem a plácida aparência da viuvez assumida. Suas tristezas, ou foram embora, ou se fizeram tão essenciais ao seu coração, que dificilmente seriam trocadas por alegrias. No exato instante em que o homem magro e a mulher robusta estão passando um pelo outro, ocorre um rápido incidente, que põe as duas figuras diretamente em contato. Suas mãos se tocam; a pressão da multidão faz roçar o peito dela sobre o ombro dele; estão de pé, cara a cara, olhando cada um nos olhos do outro. Depois de dez anos de separação, é assim que Wakefield encontra-se com sua esposa!

O torvelinho da multidão não deixa de fluir, arrastando-os, separados, em seu curso. A circunspecta viúva retoma o passo anterior e prossegue na direção da igreja, mas se detém no portal, e lança um olhar rápido e perplexo ao longo da rua. Segue adiante, contudo, abrindo o livro de orações. E o homem? Com um rosto tão exaltado que a atarefada e egoísta Londres permite-se parar e olhar para ele, corre para o seu alojamento, aferrolha a porta e joga-se sobre a cama. Os sentimentos latentes de anos irrompem de súbito; sua mente febril imprime um efêmero vigor em suas forças; toda a infeliz esquisitice de sua vida lhe é revelada num relance; e ele grita desesperadamente: “Wakefield! Wakefield! Estás louco?”

Talvez o estivesse. A singularidade de sua conduta modelou-o de tal forma a si mesma, que, examinando-o em relação a seus companheiros e aos afazeres da vida, não se podia dizer que tivesse o juízo perfeito. Ele havia imaginado (ou antes, as coisas haviam acontecido), separar-se do mundo, sumir, abandonar a sua posição e privilégios entre os vivos, sem que fosse admitido entre os mortos. De nenhum modo a vida de um eremita pode ser posta em paralelo com a sua. Ele estava, como outrora, em plena agitação da cidade; mas a multidão movia-se impetuosa e indiferente, ignorando-o. Estava, podemos dizer figuradamente, sempre ao lado da esposa, e junto da lareira, entretanto sem nunca sentir o calor desta, nem a afeição daquela. O destino sem precedentes de Wakefield foi o de conservar a sua parte original de simpatia humana, e estar ainda envolvido nos interesses dos homens, enquanto havia perdido a recíproca influência sobre eles. Seria uma especulação bastante curiosa traçar o efeito de tais circunstâncias em seu coração e intelecto, separadamente, ou em conjunto. Todavia, transformado como estava, raras vezes se dava conta disso, julgando-se o mesmo homem de sempre. Lampejos da verdade, de fato, surgiam, mas só por alguns instantes; e ainda assim teimava em dizer: “Logo estarei de volta”, sem refletir que vinha dizendo isso há vinte anos.

Penso também que, em retrospecto, esses vinte anos deviam parecer a Wakefield um tempo pouca coisa maior que a semana que ele havia definido para sua ausência. Devia olhar a aventura como não mais que um interlúdio no tema principal de sua vida. Quando, após um outro curto espaço de tempo, ele achasse que era o momento de reentrar no salão, sua esposa bateria palmas de alegria, ao rever o homem de meia-idade, Senhor Wakefield. Que infeliz ilusão! Pudesse o Tempo esperar até o final de nossas loucuras preferidas, então seríamos jovens até o Dia do Juízo.

Uma noite, transcorridos os vinte anos de seu desaparecimento, Wakefield faz a caminhada costumeira na direção da residência que ainda diz ser dele. É uma noite de outono, de forte vento. Frequentes pancadas d’água caem, tamborilando sobre as calçadas, e cessam repentinas, antes que alguém possa abrir seu guarda-chuva. Detendo-se próximo da casa, Wakefield vislumbra, através das janelas da sala do segundo andar, o brilho rubro, o tremeluzir, os inquietos lampejos de um fogo confortável. Sobre o teto, aparece a sombra grotesca da boa senhora Wakefield. O barrete, o nariz e o queixo, e a larga cintura, desenham uma admirável caricatura, que dança, além disso, em movimentos variados, de acordo com as oscilações das labaredas, numa jovialidade quase excessiva para a sombra de uma idosa viúva.

Nesse momento, cai uma pancada de chuva que, dirigida sem piedade pelo vento, atinge em cheio o rosto e o peito de Wakefield. O frio outonal penetra-o por todo o corpo. Deverá ficar parado naquele lugar, encharcado e tiritando, quando sua própria lareira tem um bom fogo para aquecê-lo, e sua própria esposa correrá para ir buscar o casaco cinza e as roupas de baixo que, sem dúvida, guardou cuidadosamente no armário de seu quarto? Não! Wakefield não chega a ser tão tolo! Ele sobe os degraus – com grande esforço! – pois vinte anos haviam-lhe enrijecido as pernas, desde que descera por ali da última vez –, mas não se dá conta disso. Espera, Wakefield! Estás indo para o único lugar que te resta? Então, podes subir para a tua sepultura! A porta abre. Enquanto ele a transpõe, temos uma rápida visão de despedida de seu rosto, e reconhecemos o sorriso astucioso, precursor do pequeno gracejo que desde aí vem representando à custa de sua esposa. Como zombou desumanamente da pobre mulher! Bem, que ele tenha uma boa noite!

Esse feliz evento – supondo-o assim – só podia ter ocorrido num momento não premeditado. Não seguiremos o nosso amigo além do umbral. Ele nos deixou alimento suficiente para reflexão, parte da qual emprestará sua sabedoria para uma moral, que pode ser modelada numa imagem. Em meio à aparente confusão de nosso mundo misterioso, as pessoas estão ajustadas a um sistema de modo tão preciso, e os sistemas ajustados uns aos outros, e a um todo, que, ao afastar-se disso por um momento, um homem expõe-se ao risco terrível de perder o seu lugar para sempre. Tal como Wakefield, pode tornar-se, por assim dizer, o Pária do Universo.



(Contos contados duas vezes; tradução de Vinícius Santos Loureiro)


(Ilustração: Robyn Burgess - o homem solitário)


terça-feira, 4 de agosto de 2026

O TEU DEMÔNIO, de Iracema Macedo

  



O teu demônio me segue

anos a fio

ele tece flores para mim

divide meu corpo em partes

Ele me culpa

acena feliz por trás das labaredas

dança ao meu redor

cresce como uma planta

eu aparo suas bordas seu rabo seus chifres

O teu demônio me encanta

como um retrato antigo amarelado

uma xícara de louça no mercado

O teu demônio me espanta

canta para mim todas as noites

me arde me explora me atormenta

O hálito quente sobre a minha boca

a febre sempre

O teu demônio vai embora hoje

eu fujo dentro dele a galope

eu vivo dentro dele feito um passarinho

feito uma coisa miúda enorme pobre

dilatada como um crucifixo

dura como uma esmeralda

Me esmero e espero

um dia me chamo Laura

tu me abocanhas os peitos

eu te abocanho a alma



(Lance de Dardos)



(Ilustração : Henri de Toulouse-Lautrec, O Beijo, 1892)

sexta-feira, 31 de julho de 2026

CARTA A ROBERT LOWELL, de Elizabeth Bishop

 


28 de julho de 1953



Caríssimo Cal, [1]



Vou ter alguns poemas em inglês e português publicados num suplemento literário daqui – não existem revistas, assim os jornais cobrem a literatura com graus variados de seriedade. O poeta brasileiro Manuel Bandeira, um homem de uns 65 anos, está traduzindo os poemas, e traduzindo extremamente bem, eu acho. Tenho tentado retribuir a gentileza: tenho lido um bocado de poesia brasileira de lá para cá e é tudo gracioso, delicado, eu acho, se bem que Bandeira às vezes é extremamente mordaz, como um Cummings mais amável. Mas não há meios de escrever em português. No entanto, agora consigo ler Camões etc. muito bem; ele e seus sonetos são soberbos, tão bons quanto qualquer soneto em inglês, sem dúvida.

Porém o Brasil é mesmo um horror; mas um dia vou lhe contar mais. Você ficaria de fato fascinado pelas histórias de família. A sociedade do Rio é inacreditável. Proust nos trópicos com samba em vez da pequena melodia de Vinteuil – não, isso é banal. Mas é algo assim.

Aqui eu sou “dona Elizabétchi” – sempre os prenomes. Você seria “seu Roberto”. Não, acho que como tem um diploma seria o “doutor Roberto”.

“Calígula” não surpreenderia ninguém – conheço um Tácito, um Aristides, um Teófilo, um Praxíteles – & os apelidos são maravilhosos. Magu é o mais encantador – uma amiga chamada Maria Augusta. Lota [2] na verdade se chama Maria Carlota + 3 nomes.

E qual é o seu endereço: Burlington St. ou Summit Street?

O meu é: rua Antonio Vieira 5, Leme, Rio de Janeiro. É o apartamento de Lota no Rio.

Antonio Vieira foi um excelente escritor e também um santo incomum…



Com amor,



Elizabeth





NOTAS:

[1] Cal, de Calígula, era o apelido que Robert Lowell tinha desde a infância devido ao seu temperamento difícil.

[2] Maria Carlota Costallat de Macedo Soares, arquiteta autodidata, paisagista emérita, amante de Elizabeth Bishop



(Uma arte: as cartas de Elizabeth Bishop; tradução de Paulo Henriques Britto)



(Ilustração: Columbano Bordalo Pinheiro - Febo Moniz, Padre António Vieira, D. Luís de Meneses(Conde da Ericeira), e João Pinto Ribeiro)

terça-feira, 28 de julho de 2026

UMA POÉTICA, de Ana Costa dos Santos




A vida dos lepidópteros,

a solidão dos astronautas,

os guarda-chuvas quebrados depois da tempestade,

um sem-teto estendendo roupas ao sol,

a hora do almoço dos operários,

os erros ortográficos nas cartas de amor,

as fotos dos desaparecidos,

os peixes sufocados.



As coisas perdidas ou deixadas a um canto,

o primeiro cão, a primeira morte,

as casinhas à beira da estrada

e quem dorme dentro delas,

as abóboras que não viraram carruagens douradas,

as últimas palavras de pessoas comuns,

a última dança de Kazuo Ohno,

a canção mais triste de Sérgio Sampaio.



A paz dos amnésicos e dos recém-nascidos,

meu destino nas cartas de tarô,

cada sístole e diástole,

o fato de dizermos sempre “até amanhã”

ou “parece que foi ontem”,

o susto dos telefones tocando fora de hora,

o milagre de chegarmos quase intactos à noite,

as aves-do-paraíso apaixonadas,

tudo o que escrevo quando tentava escrever outra coisa

e tudo o que jamais caberá neste poema.



(Voo Breve sob o Sol; 2025)



(Ilustração: Marc Chagall - Liebende mit Vogel)

sábado, 25 de julho de 2026

ESPELHO DA EXISTÊNCIA, de Raul Tartarotti




O ser humano é a única criatura que goza do privilégio de poder tirar novos e sutis prazeres da dor, da catástrofe e da fatalidade. Mesmo sendo um caminhante sombrio e solitário, imerso na corrente das multidões, os seres humanos, são eles próprios, seus grandes inimigos, por serem naturalmente violentos, escreveu o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588 – 1679).

Os que sabem, observam-se a si mesmos e guardam as lembranças de suas impressões; dessa forma souberam construir seu barômetro espiritual no observatório de seu pensamento, por isso, permitem surgir belas estações, dias felizes e minutos deliciosos em sua existência.

No “Espelho da Existência”, me lembro do dia em que descobri meu reflexo em um deles, e não apenas minha imagem, mas também minha alma.

Meu rosto refletido não era o mesmo que eu via todos os dias. Era um rosto cansado, marcado pelas linhas do tempo e da experiência. Mas havia algo mais, algo que não conseguia definir. Era como se o espelho estivesse me mostrando a essência do meu ser.

Perguntei ao espelho: ”Qual é o sentido da existência?”

O espelho começou a se turvar, como se a névoa da ignorância estivesse se dissipando. E então, vi que a existência não tem sentido, mas é o sentido que damos a ela que a torna significativa.

Vi que a vida é um mistério, mas é o nosso olhar que o torna claro.

O espelho me mostrou que a verdade não está fora, mas dentro de nós. Que a busca pelo conhecimento é uma jornada interior. Que a existência é um espelho que reflete nossa própria essência.

Entendi que a verdadeira reflexão é a que ocorre dentro de mim. E que o sentido da existência está em cada momento, em cada escolha, em cada respiração.

O espelho da existência me ensinou que a sabedoria não está na resposta, mas na pergunta. E que a vida é um enigma que só podemos resolver olhando para dentro.

Não devemos criar Paraísos Artificiais para contentar algumas horas de nosso desejo. Basta observar como o frio aumenta e toma nossas ideias quando mentimos para nós mesmos a tal ponto que nossa busca se torne vazia e pequena, ao aceitar que “o resto seja o resultado que nos resta”.

Ao final de todas as histórias, “O bom senso nos diz que as coisas da terra não existem inteiramente e que a verdadeira realidade só é encontrada nos sonhos”. (Charles Pierre Baudelaire).



(Ilustração: Caravaggio - Narciso; 1597–1599)



quarta-feira, 22 de julho de 2026

LAVORARE STANCA / TRABALHAR CANSA, de Cesare Pavese




Traversare una strada per scappare di casa

Lo fa solo un ragazzo, ma quest'uomo che gira

Tutto il giorno le strade, non è più un ragazzo

E non scappa di casa.



Ci sono d'estate

Pomeriggi che fino le piazze son vuote, distese

Sotto il sole che sta per calare, e quest'uomo, che giunge

Per un viale d'inutili piante, si ferma.

Val la pena esser solo, per essere sempre più solo?

Solamente girarle, le piazze e le strade

Sono vuote. Bisogna fennare una donna

E parlarle e deciderla a vivere insieme.

Altrimenti, uno parla da solo. È per questo che a volte

C'è lo sbronzo notturno che attacca discorsi

E racconta i progetti di tutta la vita.



Non è certo attendendo nella piazza deserta

Che s'incontra qualcuno, ma chi gira le strad

Si sofferma ogni tanto. Se fossero in due,

Anche andando per strada, la casa sarebbe

Dove c'è quella donna e varrebbe la pena.

Nella notte la piazza ritorna deserta

E quest'uomo, che passa, non vede le case

Tra le inutili luci, non leva più gli occhi

Sente solo il selciato, che han fatto altri uomini

Dalle mani indurite, come sono le sue.

Non è giusto restare sulla piazza deserta,

Ci sarà certamente quella donna per strada

Che, pregata, vorrebbe dar mano alla casa.





Tradução de Rubens Ricupero:





Atravessar uma rua para fugir de casa

Só um menino faz isso, mas este homem que anda

O dia inteiro pelas ruas não é mais um menino

E não está fugindo de casa.



Há tardes no verão em que até as praças estão vazias, oferecidas

Ao sol que está se pondo, e este homem que avança

Por uma avenida de árvores inúteis, se detém.

Vale a pena estar só, para sempre ficar mais só?

Por mais que se ande de um lado para outro, as praças e as ruas

Estão vazias. É preciso parar uma mulher

E lhe falar e convencê-la a viver juntos.

De outra forma, a gente começa a falar sozinho.

É por isso que às vezes

Surge um bêbado noturno que te aborda com discursos

E te conta os projetos de uma vida inteira.



Não é certamente esperando na praça deserta

Que se encontra alguém, mas quem anda pelas ruas

Se detém de vez em quando. Se fossem dois,

Mesmo andando pelas ruas, o lar estaria

Onde estivesse aquela mulher e valeria a pena.

De noite a praça volta a ser deserta

E este homem que passa não vê as casas

Entre as luzes inúteis, já não levanta mais os olhos:

Ele sente apenas o pavimento que fizeram outros homens

Com mãos calejadas como as suas.

Não é justo ficar na praça deserta.

Haverá certamente aquela mulher na rua

Que, se lhe fosse pedido, gostaria de dar uma mão na casa.




(Ilustração : Camille Pissarro - Kensington gardens - London, 1890)

domingo, 19 de julho de 2026

PLANO COHEN: A FARSA DOS MILITARES QUE JUSTIFICOU A DITADURA DE VARGAS, de Estevam Silva




Há 88 anos, em 30 de setembro de 1937[*], o governo brasileiro anunciava publicamente a “descoberta” do Plano Cohen. Atribuído à Comintern, o documento detalhava um suposto plano dos comunistas para tomar o poder no Brasil, fazendo uso de assassinatos em massa, ataques com gás venenoso e outras atrocidades.

Era tudo mentira. O Plano Cohen foi forjado pelos próprios militares, em colaboração com líderes integralistas e membros da cúpula do governo. O objetivo era causar pavor na população e pressionar o Congresso a autorizar a decretação de estado de exceção.

O plano deu certo. O Congresso aprovou a decretação de estado de guerra e Vargas obteve apoio das Forças Armadas e da burguesia para fechar o regime. Quarenta dias depois, em 10 de novembro de 1937, Vargas dissolveu o Congresso, suspendeu as eleições e instaurou a ditadura do Estado Novo, permanecendo no poder por mais oito anos.

Alçado à chefia do poder executivo após a Revolução de 1930, Getúlio Vargas seria responsável por implementar uma série de medidas modernizantes e centralizadoras, deixando um legado ambivalente.

Vargas limitou o poder político das velhas oligarquias, implementou reformas trabalhistas e sociais, incentivou a industrialização e a diversificação da estrutura produtiva. Ao mesmo tempo, ele governou de forma autoritária, reprimindo severamente seus opositores, institucionalizando o controle sobre a imprensa e ampliando os instrumentos de repressão e vigilância.

O discurso anticomunista, em franca ascensão na década de 1930, serviria de lastro a várias medidas repressivas adotadas por Vargas. Alarmadas pela crescente organização da esquerda radical e do movimento operário, as elites passaram a financiar e promover a propaganda anticomunista e as organizações de extrema-direita, quase sempre vinculadas ao pensamento fascista.

É o caso, sobretudo, da Ação Integralista Brasileira (AIB), organização fundada por Plínio Salgado que se expandiu rapidamente no Brasil graças ao patrocínio de banqueiros e industriais. Os integralistas seguiam o modus operandi das grandes agremiações fascistas europeias, com a criação de milícias e a estratégia de infiltração nas organizações da sociedade civil.

O movimento integralista comandava uma grande estrutura editorial, publicando livros, revistas e jornais que serviam à difusão da propaganda anticomunista em larga escala. Frequentemente, essa propaganda buscava adaptar mitos conspiratórios ao contexto brasileiro.

Um dos mitos mais difundidos pelos integralistas afirmava que existia uma aliança judaico-comunista que pretendia dominar o Brasil e o resto do mundo — uma tese que unia a paranoia anticomunista às teorias da conspiração antissemitas, em especial aquelas impulsionadas por uma infame falsificação conhecida como “Os Protocolos dos Sábios de Sião”.

Vários integralistas e admiradores do regime fascista compunham a cúpula do governo Vargas e ajudaram a institucionalizar o anticomunismo. Em abril de 1935, sob o pretexto de combater a “ameaça comunista”, Vargas sancionou a Lei de Segurança Nacional (LSN), suprimindo as liberdades civis asseguradas pela Constituição de 1934, criminalizando a “incitação ao ódio entre as classes sociais” e as tentativas de “subversão da ordem política”.

A LSN possibilitou a Vargas o recrudescimento da ofensiva contra os dissidentes. Três meses após sua criação, a lei seria utilizada para banir a Aliança Nacional Libertadora (ANL), uma frente antifascista vinculada ao Partido Comunista do Brasil (antigo PCB), que fazia firme oposição aos integralistas e ao regime de Vargas.

Uma tentativa fracassada de insurreição organizada pela ANL em novembro de 1935 daria a Vargas o pretexto ideal para ampliar a repressão. Logo após o levante, Vargas decretou estado de sítio, ampliando os poderes do governo para restringir liberdades civis e intensificar a censura à imprensa.

Milhares de pessoas que criticavam o governo seriam presas e torturadas, mesmo sem possuir qualquer ligação com o levante. Muitos comunistas foram assassinados pela repressão levada a cabo por Filinto Müller, o chefe da polícia política.

A “ameaça comunista” seria instrumentalizada por Vargas mais uma vez em 1937, como um subterfúgio para estender o seu mandato. Vargas passou quatro anos no poder como presidente provisório e obteve um mandato adicional por eleição indireta do Congresso, após a promulgação da Constituição de 1934. Ele deveria, portanto, deixar o governo em 1938, quando seria realizada a 14ª eleição presidencial brasileira.

Três presidenciáveis já haviam apresentado suas candidaturas: Armando de Sales Oliveira (apoiado pela oposição liberal paulista), José Américo de Almeida (próximo de Vargas, mas de lealdade questionável) e Plínio Salgado (líder dos integralistas). Nenhuma das candidaturas agradava a Vargas e não havia a possibilidade legal de obter mais um mandato.

O presidente também se ressentia da crescente oposição que sofria no Congresso, principalmente após os parlamentares barrarem a prorrogação do estado de sítio decretado em 1936. Vargas passou a defender a ideia de que era necessário forçar uma mudança do regime político e reformar a Constituição. A solução, portanto, seria um golpe de Estado.

Vargas obteve prontamente o apoio das Forças Armadas ao seu plano golpista, cooptando-as com a promessa de mais recursos financeiros. Ele também conseguiu a adesão de Plínio Salgado, que recebeu a oferta de um ministério. Faltava, no entanto, um pretexto que justificasse o golpe.

Eurico Gaspar Dutra, o Ministro da Guerra de Vargas, foi incumbido de arrumar uma justificativa para a intervenção. A ideia era criar um fato novo, a ser apresentado como uma grave ameaça ao país, justificando a suspensão das eleições e das garantias constitucionais. Surgiu assim o “Plano Cohen”.

A criação do plano ficou a cargo de oficiais do Exército Brasileiro. O autor do texto foi o capitão Olímpio Mourão Filho, membro do serviço de inteligência do Exército e organizador das milícias integralistas. Mourão afirmou ter criado o documento como um exercício hipotético, uma simulação de revolução comunista para uso da AIB. Uma cópia desse documento foi remetida ao general Góis Monteiro, chefe do Estado-Maior do Exército, que a considerou como o subterfúgio ideal para justificar o golpe.

O “Plano Cohen” descrevia complô comunista para tomar o poder no Brasil. O texto foi falsamente atribuído à Internacional Comunista (Comintern) e descrevia uma série de ações violentas: assassinato de líderes políticos e militares, incêndio de prédios públicos, sabotagem de infraestrutura, sequestros de autoridades, uso de gás venenoso, execuções sumárias, libertação dos presos, saques e depredações.

O nome “Cohen”, de origem judaica, foi escolhido para evocar a tese da conspiração judaico-comunista, tão propalada pelos integralistas. O documento tinha diversas semelhanças com os “Protocolos dos Sábios de Sião”. “Cohen” também era uma referência a Béla Kun, líder de uma efêmera revolução comunista na Hungria, que os integralistas costumavam chamar de “Béla Cohen”.

Em posse do documento, Dutra convocou uma reunião de emergência com os altos oficiais das Forças Armadas, a fim de convencê-los sobre a necessidade de tomar medidas urgentes para garantir “a salvação da Pátria”. Góis Monteiro participou da reunião e concordou que havia a necessidade de um golpe de Estado para “preservar as instituições nacionais”.

No dia 30 de setembro de 1937, o governo Vargas anunciou publicamente a “descoberta” do Plano Cohen. Durante um pronunciamento radiofônico no programa “Hora do Brasil”, Góis Monteiro revelou o conteúdo do documento, anunciando as “terríveis barbaridades” que os comunistas pretendiam cometer no Brasil.

A notícia caiu como uma bomba, causando espanto e terror na população. O plano dominou o noticiário pelas semanas seguintes, sendo amplamente difundido pelas rádios e jornais oficiais do governo. Intelectuais, líderes conservadores e religiosos cobravam providências imediatas.

A grande imprensa não cogitou questionar a autenticidade do documento, preferindo endossar integralmente o relato governamental através de matérias sensacionalistas, ajudando a espalhar o pânico moral.

Um dia após a divulgação do Plano Cohen, em 1º de outubro de 1937, o Ministro da Justiça, Macedo Soares, submeteu ao Congresso um pedido de decretação de estado de guerra.

A requisição foi aprovada por ampla maioria — 138 votos favoráveis e 52 contrários na Câmara dos Deputados, 23 votos a favor e 5 contra no Senado. Os poucos parlamentares que exigiram averiguar o documento foram acusados de “antipatriotas” e recriminados por questionarem a “honestidade dos militares”.

Respaldado pelo decreto, Vargas suspendeu as liberdades civis, intensificou a censura e a repressão. Em 6 de outubro, o presidente instalou uma comissão para supervisionar o cumprimento do estado de guerra e das determinações governamentais.

Vargas ordenou a prisão de “todos os praticantes e simpatizantes de doutrinas comunistas” e mandou criar campos de concentração “destinados a receber jovens que tenham transviado de seus deveres cívicos”. Também orientou a criação de espaços para a “reeducação de filhos de comunistas presos”.

Diversas lideranças políticas da oposição foram perseguidas e os parlamentares não alinhados foram presos. O governador gaúcho José Antônio Flores da Cunha foi forçado a renunciar e a partir para o exílio no Uruguai.

No dia 1º de novembro de 1937, uma enorme marcha com mais de 50.000 integralistas saiu às ruas do Rio de Janeiro para demonstrar apoio a Vargas. O presidente assistiu ao desfile de uma sacada do Palácio do Catete e foi reverenciado com a saudação integralista de “Anauê!”.

O Plano Cohen pavimentou o caminho para o golpe de 10 de novembro de 1937, quando Vargas ordenou a dissolução do Congresso, cancelou as eleições presidenciais e outorgou uma nova Constituição, conhecida como “Polaca”, inspirada na carta magna autoritária da Polônia.

Nascia assim o Estado Novo, uma ditadura que aboliu os partidos políticos, baniu os movimentos sociais e sindicatos independentes, proibiu greves e extinguiu a autonomia dos estados. O regime ditatorial se estenderia por oito anos, até a redemocratização em 1945.

Milhares de opositores, sobretudo de esquerda, seriam presos, torturados ou exilados. Lideranças liberais e jornalistas também foram perseguidos. Até mesmo os integralistas se tornaram, posteriormente, alvos do regime, após uma tentativa fracassada de levante. O anticomunismo se consolidou como uma doutrina oficial de Estado, passando a ter enorme influência sobre a formação das Forças Armadas e os princípios basilares da política externa.

A farsa do Plano Cohen só foi admitida publicamente anos depois, em meio à crise do Estado Novo. Em 1945, o general Góis Monteiro, agora convertido em adversário de Vargas, admitiu que o documento fora forjado. Olímpio Mourão Filho confessou ser o autor do plano. Anos mais tarde, Olímpio seria um dos principais líderes do golpe de 1964, que derrubou João Goulart e instaurou uma nova ditadura.



Nota do blog:

[*] O texto é de 2025.



(Operamundi)

(Ilustração: Getúlio Vargas com oficiais militares em 1936 na inaguração do aeroporto Santos Dumont)