sábado, 26 de setembro de 2026
SYNTRA / SYNTRA, de Luisa Sigea
Est locus, occiduas ubi sol æstivus ad oram
Inclinat radios, nocte premente diem:
Oceanumque petit, curruque invectus eburno,
Iam cursu lassos æquore tingit equos.
Vallis ibi inclusa, scopulis ad sidera ductis,
Deflectit clivos: murmurat intus aqua.
Obiicit Oceano molem, ternæque minantur
Excelsæ rupes tangere tecta poli.
Et nisi condensi cingant fastigia nimbi,
His cælum credas sistere verticibus.
Rupibus his Fauni, sunt hic quoque lustra ferarum,
Venator matres figat ubi et catulos.
Inferne viridi densantur robora fronde:
Silvano et Satyris efficit umbra domos.
Populus hic, corylique decus, fagusque pirusque,
Et cerasus, prunus, castaneaeque nuces,
Et plantæ innumeræ mortalibus esca beatis,
Quæ sunt divorum munera cælicolum.
Flava Ceres dextra mortales vertere terram,
Et serere, et messes condere, sponte docet.
Pan læva, Arctoum mundus qua surgit ad axem,
Pascere dat passim gramina læta gregi.
Citrea mala rubent, vallis qua tendit ad imum,
Qualia fert rutilans hortulus Hesperidum:
Et lauri frondes, victorum premia quondam,
Quæque poetarum texere serta solent:
Et myrtus Veneri sacra crispatur in umbra:
Cuncta placent fructu, floribus ас redolent.
Hic philomela canit, tirtur gemit atque columba:
Nidificant volucres, quotquot ad astra volant.
Silva avium cantu resonat, florentia subtus
Prata rosas pariunt, liliaque et violas,
Fragrantemque thymon, mentam, roremque marinum,
Narcyssum et neptam, basilicumque sacrum:
Atque alios flores, ramos herbasque virentes,
Terra creat pinguis vallibus ac nemore-.
Queis passim Dryades capiti cinxere corollas,
Et Fauni et Nymphæ cornigerique Dei.
Ast ubi præcipitans leni fluit unda susurro
Per vallem umbrosam rupibus aëriis:
Stagna replet, pulchræ mersant ubi corpora Nymphæ,
Aurora aut splendet, seu tegit umbra polum:
Regia celsa lacu supereminet, unde comantem
Prospectat silvam candida virginitas.
Hinc ego prospiciens, oculis dum singula lustro,
Naturæ admirans munera, delicias,
Liquerat Auroram Cephalus, vultuque rubenti
Illa aperit terras, pandit et illa polum:
Emersit stagnis subito pulcherrima Nympha
Tunc forma referens, corpore, voce deam.
Suspicit, alloquiturque ultro me hac voce sedentem
Vocibus his: “Salve grata puella Deis.
Quid tecum, SYGAEA, putas? Tu principis almæ
Arcibus his spectans noscere fata cupis?”
Tunc ego: “Si superi firmarent numine quantum
Exoptem, dominant tollere ad astra velim,
О quæ cæsarie, vultuque, oculisque, sinuque,
Et certe incessu diva videre mihi!
Nympha loci custos, vitreo quæ gurgite lymphas
Concipis, et Divum pandere fata potes:
Tu mihi fatorum seriem, quæ regia virgo
Regna manet, resera, quosve manet thalamos?”
Illa libens roseo ( dum sic loquor) intonat ore:
“Quod, virgo, rogitas, accipe, nec dubita.
Neptunus genitor nuper me ad summa tonantis
Atria perduxit concelebrata Deis.
Constiterant cuncti vescentes nectare, пес non
Ambrosia: at postquam mensa remota fuit,
Digna petunt divi regali in principe dona,
Imperio ut superet, quas superat meritis.
Docta Minerva aderat, cantusque inventor Apollo,
Nec non Calliope, pignora chara lovis.
Quos coluit virgo, quorumque exercuit artes,
Illi gratantes munera pulchra petunt.
luppiter adridens vultu, quo sidera lustrat,
Respondet divis, qui petiere simul:
“Gaudete, o Superi: perstare immota potentis
Principis augustæ maxima fata volo.
Nec, licet adspiciat quasdam nunc carpere regna,
Desperet: capient mox sua fata locum.
Non nisi per magnos vincuntur magna labores:
Nec tulit ignavos regia celsa Deos.
Quosque aliæ sponsos captent, visuntur ubique:
Quem sibi fata parant, non nisi summa tenet.
Нæс reget Imperium fœlix, quum nupserit, orbis:
Pacatus dominæ cedet uterque polus.
Vade ergo, et timidæ referas, quæ diximus, oro
Fatidico, ut lætos exigat illa dies.
Nec sis sollicita, aut metuas prædicere fata:
Succedent votis ordine cuncta tuis.”
“Augurii, .repeto, tempus mihi, Nympha, recense.”
“Recte, inquit, rogitas: tempora nosse opus est.
Nam Pater omnipotens, epulis de more solutis,
Fatorum superis tempora certa dedit.
Ante polum quam sol circum volvatur utrumque,
Sæpius a Cancro versus ad Ægoceron,
Quæ cecini, venient: voti rea maxima princeps
Ante aram supplex tunc pia thura feret.
Dixerat, et liquidas resilit Dea rursus in undas,
Præcipiti et saltu gurgite mersa latet.
Ast ego, quæ Infantis causa dubitare solebam
Antea, tunc rediens omine certa fui.
Mercurium, credo, Nymphæ sub imagine Olympo
Demissum, ut Dominæ sic mihi fata canat.
Nunc supplex tendo iunctas ad sidera palmas
Pro tali augurio; nec mihi cassa fides.
Нæс ego quum cernam compleri in principe vates,
Spero cælicolas inter habere locum.
Syntra
Tradução do Reverendo Padre Fiadeiro(*):
Junto às praias do ocidente, onde o sol, ao aproximar-se a noite, já demanda o oceano, e levado no seu carro ebúrneo, quase toca o imenso mar, com os seus cavalos cansados pela longa carreira, fica um lugar, onde um vale ameno, por entre rochedos que se elevam até aos céus, se recurva em graciosos outeiros, por entre os quais se sente o murmurar da água.
Circunda o oceano a imensa mole, e três píncaros elevadíssimos guindam-se até aos astros, a ponto de, quando densas nuvens os não coroam, chegarmos a acreditar que o céu assenta sobre tais colunas.
Vivem os Faunos nestas solidões, as quais servem de abrigo às feras, vindo frequentemente os caçadores armar laços às mães e aos filhos. Na parte inferior, os carvalhos apinham-se no meio de densa folhagem, fornecendo a sombra amplas casas para Silvano e para os Satyros. Aqui se encontram em grande número, o choupo, a aveleira, a faia, a pereira, a cerejeira, a ameixieira, os castanheiros, e inúmeras outras árvores que dão alimento aos felizes mortais, tudo dádiva dos Deuses do céu. À direita, a flava Ceres espontaneamente ensinou os mortais a lavrar os campos, a semeá-los, e a formar as searas. Do lado esquerdo para a parte do norte, a cada passo oferece Pan amplas pastagens para os rebanhos. Às faldas da serra ostentam-se viçosos limoeiros, tão belos quanto os costuma produzir o jardim das Hespérides. Aqui se encontram as folhas do louro, outrora prémio dos vencedores, com as quais ainda hoje os poetas costumam cingir as suas frontes, e cresce abundantemente a murta, tão querida de Vénus; tudo, enfim, nos encanta e perfuma o ambiente com a sua fragrância e com os seus frutos. Ressoam os bosques com os gorjeios do rouxinol, geme a rola, e a pomba, e fazem ali seus ninhos todas as aves que voam pelo espaço, no meio de um chilrear ensurdecedor.
Nos prados florescem as odoríferas rosas, os lírios, as violetas, o fragrante tomilho, a hortelã, o alecrim, o narciso, o poejo bravo, a videira sagrada, e muitas outras flores, ervas e arbustos que a terra fertilíssima produz, nos vales, e nas selvas, com que a cada passo ornam as suas frontes as Dryades, os Faunos, as Ninfas, e os Deuses cornígeros. Corre a água cristalina com brando murmúrio pelo meio do vale sombrio, por entre enormes rochedos, e nos pequenos lagos que ela forma, costumam vir banhar-se as formosas Ninfas, no romper da aurora, ou mesmo ainda quando a noite tem o seu manto estendido pela serra. Sobranceiro a um destes lagos fica soberbo palácio, de onde a régia prole, na candura da inocência, desfruta o sublime panorama que lhe oferece a espessa mata.
Enquanto eu daqui espraiava os olhos por todo o horizonte, admirando tanto mimo, tantas delícias da natureza, Céfalo tinha deixado a Aurora, e ela ruborizada começou a iluminar as terras afugentando a noite.
Então repentinamente, de um dos lagos, levanta-se uma Ninfa com um corpo e uma voz divina, olha, e assim se me dirige, espontaneamente com estas palavras amigas:
‘Salve! donzela, que tão grata és aos Deuses. Em que pensas, ó Sigeia? Habitando nestas altas mansões, desejas conhecer os destinos da tua querida princesa?"
Então eu:
"Se os Deuses despachassem favoravelmente os meus desejos, levantaria até aos astros Senhora tão excelsa. Ó Ninfa, guarda deste recinto, que semelhas urna deusa com essa tua formosa madeixa, nesse teu rosto, nos olhos, no seio e mais que tudo no teu majestoso porte, tu que reúnes as águas no vítreo pego, e tens poder para revelar os destinos dos Países, diz-me para que reinos e para que tálamos está destinada a princesa real’.
Enquanto assim falo, ela alegre solta dos róseos lábios as seguintes palavras:
“Ó Donzela, ouve a resposta ao que me perguntas e não duvides: O Pai Neptuno conduziu-me há pouco até aos remontados paços onde Júpiter costuma reunir os deuses. Lá os vi todos libando o néctar precioso e a ambrósia: terminado o banquete, os Deuses imploram para a princesa dons régios, que a façam avantajar-se em poder a quantas excede já em merecimentos. Achava-se presente a douta Minerva, Apolo inventor do canto, e também Calíope, todos estimadíssimos de Júpiter, e também estimados da princesa, cultora exímia das suas artes. Agradecidos portanto eles pedem dádivas extraordinárias.
Júpiter com o sorriso com que ilumina os astros, responde assim á súplica unânime dos Deuses:
— Alegrai-vos, ó Deuses! Sabei que é minha vontade que fiquem inabaláveis os destinos da augusta e poderosa princesa. Não desespere, embora veja que outras princesas a vão precedendo no trono: a seu tempo os destinos dela assumirão o seu lugar. As grandes coisas só se alcançam por meio de grandes trabalhos: nem o régio Olimpo detém os Deuses inactivos; por toda a parte são vistos os esposos que outras hão-de tomar, porém aquele que os Fados lhe destinam a ela, só o sabem as mentes celestes. Depois, feliz, quando casar, terá o império do mundo; e um e ouro hemisfério pacificados, curvar-se-ão diante da sua Senhora.
Vai pois, e conta-lhe com discrição o que te acabámos de vaticinar, para que ela passe os dias tranquilos. Nem fiques com cuidados, ou temas relatar-lhe os destinos: todos os teus desejos se irão gradualmente realizando. "
- "Todavia, diz-me ó Ninfa, encarecidamente to peço, o tempo do presságio».
«Perguntas bem; é necessário conhecer também os tempos; porque o Pai omnipotente, levantada a mesa, os marcou nos deuses. Antes que o sol da primavera se volva por sobre um e outro pólo, muitas vezes de Câncer para Capricórnio, sucederão todas as coisas que profetizei.
A ilustre princesa, então, irá súplice diante dos altares oferecer os seus votos, juntamente com o incenso”.
— Assim falara, e a Deusa, de novo salta para as líquidas aguas e veloz na carreira, esconde-se no pego.
E eu que de tudo costumava duvidar em atenção à Princesa, voltei depois segura do vaticínio.
Creio que Mercúrio foi mandado do Olimpo sob a forma de uma Ninfa, para me predizer o futuro da minha Senhora.
Agora, suplicante, levanto para os céus as minhas mãos por tão feliz acontecimento, porque, em verdade, não me falece a crença.
E quando eu vir já tudo completamente realizado na Princesa, espero então obter um lugar entre os habitantes do céu.
Nota:
(*) Actualizou-se a ortografia.
Fontes:
Latim: ALOISIÆ SYGÆÆ Toletana, Syntra, aliaque eiusdem ac nonnullorum præterea virorum ad eamdem epigrammata, PAULLI III epistola, et tumulo eiusdem ab ANDREA RESENDIO et CLAUDIO MONSELLO concinato, in Clarorum Hispanorum opuscula selecta et rariora tum latina, tum hispana, edição de F. Cerdà y Rico, Madrid, 1781, pp. 261-264.
Versão Portuguesa: Conde de Sabugosa, O Paço de Sintra, Câmara Municipal de Sintra, 1989-1990, edição facsimilada da da IN de 1903
(Ilustração: François Boucher - two nymphs)
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Luisa Sigea - Syntra / Syntra
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
FOTOGRAFIA, EROS E THANATOS EM (DES) LIMITES SENSUAIS ENTRE PAIXÃO E DESEJO (UMA REFLEXÃO SOBRE O NU ARTÍSTICO, O EROTISMO E A PORNOGRAFIA), de Adriana Vianna
Tradicionalmente, o pensamento sobre o corpo na nudez artística passa pelo conceito de apelo sexual. Desde a Grécia Antiga, a filosofia dividiu-se entre punir o corpo e os prazeres dos sentidos com o ideal ascético enquanto os hedonistas eram, na melhor hipótese, os imorais. A questão é que o limite entre as manifestações artísticas que envolvem os fenômenos do instinto e os fenômenos emocionais do corpo, foram e ainda são, por muitos, tratados como negativos, ruins e de mau gosto. O sex appeal que faz parte da vida, na fauna e na flora, é inato à existência, apreciado ou não, explorado ou não, ele existe - independente de registros fotográficos ou plásticos. A ênfase e a interpretação que se dá, a cada práxis, pode ser determinante para contornar o artístico - entre o erótico e o antropológico, entre o erótico e o pornográfico, entre a fantasia e a vida.
Não faz muito tempo houve um leilão na Sotheby's com o tema “Erotic: Passion & Desire” que tratou de reunir imagens de obras plásticas e fotográficas de nus em diversas tensões e variações a fim de provocar o que está entre o erótico e o pornográfico. A interpretação do leilão destacou a nudez nas diversas artes para conexões sensuais da paixão, do amor e do sexo, explorando desde a beleza do desejo às representações do nu - até o próprio ato carnal de consumação sexual, despojado de metáforas, enigmas, sutilezas, sugestões. Apresentando mais de cem obras em suportes variados, o leilão arrecadou £ 5.292.625, ultrapassando os valores estimados.
A mobilidade modernista era o contexto de Man Ray. Seus amigos Marcel Duchamp (ready-made) e Francis Picabia perceberam o simbolismo sexual das máquinas: Picabia achava erótico até os carburadores. Mas a imagem surpreendente de Man Ray atribui significado sexual a um secador de cabelo elétrico. Imediatamente, isso sugere “L'Origine du monde” de Courbet, o mais famoso “click” de virilha da história da arte, bem como o estado de espírito “alucinante” (perturbado) cultivado pelos surrealistas. Na verdade, Man Ray enviou suas fotos para Andre Breton, o fundador do Surrealismo, cuja crença era “a beleza deve ser convulsiva” - como de fato aconteceria com uma rajada de ar quente entrando na vagina. Esta fotografia poderosa e transgressora obscureceu as fronteiras da pornografia e do erotismo tanto quanto, ou mais, que a pintura de Courbet.
Voluntariamente provocadora, esta obra distorce as regras vigentes até então. Regras que reservavam — ou pelo menos toleravam — nus inscritos nos contextos das grandes cenas mitológicas ou oníricas, sem se confrontarem diretamente ao real em sua crueza mais extrema.
Costuma-se dizer que a diferença entre pornografia e erotismo é simplesmente uma questão de iluminação e que também há uma diferença de intenção. Uma envolveria coerção e desgraça, o outro, beleza e deleite. Etimologicamente, a palavra pornografia vem do grego porné, derivado do grego peenemi, que significa “vender”. Originalmente, referencia-se àqueles que vendiam seus corpos para prostituição de um modo pouco normal e pouco apropriado, em situações explícitas e até violentas. Mas esses conceitos de “prostituição”, “vender o corpo”, também foram muito ampliados no século 21 e os limites entre os conceitos, que já desde sempre estiveram em linha tênue, se esbarram em muitas obras, sem amalgamar Eros e Thanatos.
A arte erótica sendo um campo muito subjetivo, sempre foi muito difícil diferenciá-la da pornografia. Ao tentar diferenciar os dois, a primeira coisa a considerar, talvez, seja o contexto. Se alguma fotografia erótica de hoje fosse mostrada durante o renascimento, muitas pessoas ficariam indignadas. Mas hoje temos uma abordagem totalmente diferente e mais moderna do que é considerado sexualmente explícito. Com essa ideia de contexto, é importante apreciar cada obra erótica do mesmo jeito que se aprecia qualquer outra arte e questionar o significado de cada obra. Dizem que arte erótica foca na sugestão para transmitir um significado, incentivando o espectador a inventar o resto da história. Se você vai concluir que o único interesse da obra é proporcionar prazer ao espectador, certamente pode ser considerada pornográfica. Talvez o erótico ainda esteja em uma esfera de apelo que convida à observação, como um convite sem promessa de encontro, deixando a ênfase recair sobre a plástica do corpo destacado pela iluminação, e dissociado de intenção. O apelo do pornográfico parece suscitar uma satisfação imediata, para resolver um problema do desejo. O apelo erótico não parece querer resolver objetivamente nada, mas problematizar o desejo, tornando-o ou revelando-o existente e latente.
Mas o limite ainda pode ser muito ambíguo, sem contexto. Por exemplo: a obra mural fálica de Keith Haring poderia, à primeira vista, ser considerada pornográfica, mas, na verdade, a pintura é uma das muitas obras criadas pelo artista, que luta para avançar nas pesquisas sobre a AIDS. Se levarmos em conta que o próprio artista morreu de AIDS, o mural fica ainda mais poderoso. A obra fica ainda mais forte quando se entende que Haring queria derrubar a falocracia instituída pelo falo como poder de governo para ser um simples órgão do corpo que está destinado a proporcionar prazer. Toda a obra desse artista é muito sugestiva, mas o público precisará de mais do que um simples olhar para decifrar todo o seu significado. Isso nunca é uma verdade para a pornografia, onde não há espaço para qualquer debate. Em termos simples, para determinar se uma obra é de fato pornográfica, você deve primeiro considerar essa obra como uma obra de arte, se for possível, pois a arte afirmou-se como cultural.
A obra “Nu Couché” de 1917, óleo sobre tela, do pintor italiano Amadeo Modigliani, representa uma mulher nua totalmente exposta. Esse trabalho tem sido objeto de muita controvérsia desde o início do Século 20 e a peça foi descartada pelo público. Mas, depois de quebrar o recorde do leilão da Christie's em 2015, vendida por 170.405.000 dólares para o empresário chinês Liu Yiqian, a obra foi destaque em jornais de todo o mundo. Contudo, o trabalho, mesmo assim, foi censurado.
Considerando a cultura atual e a atitude em relação à sexualidade, pode-se realmente perguntar por que essa obra foi censurada novamente.
(Ilustração: Keith Haring - Untitled, 1985)
domingo, 20 de setembro de 2026
A MALINCHE[*], de Margarida Vale de Gato
1.
Marina, la que yo sempre conmigo he traido
escreve-o a seu rei Cortés, meu concubino
aquele que me traz me trai, aportou num barco
me recebeu por escrava me trocou por dote
me ofereceu e retomou quando me viu útil
no interceder da fala nesse jogo bizarro
de telefone avariado
em que participaram:
um padre (Aguilar), três línguas, o temido
Moctezuma, o soberbo meu amo e uns quantos
caciques das terras, funcionando assim: Cortés
falava para o padre, o padre em maia para mim,
eu em náhuatl quer para o imperador quer
para outra gente que de bom grado trocava,
como eu, os astecas, seus altares de sangue
pelos cristãos e o deus único que são três
batizaram-me de Marina e em revanche
chamaram os índios “o Malinche” a Cortés;
como eu, que já fui Malintzin, a cativa
que agora é um híbrido, um corpo
estupro, a mãe de Martín o mestiço
do México, a quem os caciques temem
e as mulheres sibilam la chingada
e já esquecem os filhos levados pelo tirano
anterior e dizem que eu trouxe traidor
mais ímpio, a varíola, que por ouro
me despi, não honro a raça (mas como?
se morreu meu pai, me vendeu minha
mãe, se o abandono foi minha senha
o tráfico a minha vantagem, a dual
língua meu passe) que “não as represento”
mas qual entre nós não se sumiria já
criada para desembarcar rainha
qual de nós não sofreu de redução
à míngua, qual de nós, chingada, não teria
se pudesse, trocado de mãos e de língua?
2.
Os meus ovos, logo os pus na cesta
da indiferença do ego—da equi-
distância da sorte; se nasci
nobre, me enjeitaram por molesta
me tomaram por morta, por cativa
moeda, me passaram entre reinos
donos, credos. Por minha parte brandi
sobre um império dotes de linguista.
Quando com Cortés de raspão passámos
no retorno da conquista pela terra
de onde parti, a mãe velha, o irmão
que herdou—deixei-os gratos, pasmos:
nada de nativo me era congénito.
Eu pude ser real na abdicação.
Nota do blog:
[*] La Malinche (1496 d.C. ou 1505 d.C. - 1529 d.C) foi uma mulher nahuatl que se tornou guia, companheira e confidente de Hernán Cortéz durante a Conquista do México. É conhecida por diversos nomes como Malintzin, criado do seu nome Nahuatl de nascença (Malinalli), Marina (Doña Marina), nome que recebeu quando foi batizada, e Malinche, nome pelo qual é mais conhecida.
(Ilustração: Diego Muñoz Camargo - Cortés e Malinche de Lienzo Tlaxcala, c. 1585)
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Margarida Vale de Gato - A Malinche
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
O DIABO NO CONFESSIONÁRIO, de Mary del Priore
Os séculos ditos “modernos” do Renascimento não foram tão modernos assim. Um fosso era então cavado: de um lado, os sentimentos, e do outro, a sexualidade. Mulheres jovens da elite eram vendidas, como qualquer animal, nos mercados matrimoniais. Excluía-se o amor dessas transações. Proibiam-se as relações sexuais antes do casamento. Instituíram-se camisolas de dormir para ambos os sexos. O ascetismo tornava-se o valor supremo. Idolatrava-se a pureza feminina na figura da Virgem Maria. Para as igrejas cristãs, toda relação sexual que não tivesse por finalidade a procriação confundia-se com prostituição. Em toda a Europa, as autoridades religiosas tinham sucesso ao transformar o ato sexual e qualquer atrativo feminino em tentação diabólica. Na Itália, condenava-se à morte os homens que se aventurassem a beijar uma mulher casada. Na Inglaterra, decapitavam-se as adúlteras. E em Portugal, sodomitas eram queimados em praça pública.
A concepção do sexo como pecado, característica do cristianismo, implicava a proibição de tudo o que desse prazer. Desde as carícias que faziam parte dos preparativos do encontro sexual até singelos galanteios. Na verdade, os casamentos contratados pelas famílias, em que pouco contava a existência ou não de atração entre os noivos, submetidos a constante vigilância, deixavam pouco espaço para as práticas galantes, que precisaram se adaptar às proibições. Mensagens e gestos amorosos esgueiravam-se pelas frinchas das janelas ou sobrevoavam o abanar dos leques.
Tanto controle transformava as cerimônias religiosas (uma das únicas ocasiões em que os jovens podiam encontrar-se sem despertar suspeitas e repressões dos pais ou confessores) em palco privilegiado para o namoro. Não foram poucos os amores que começaram num dia de festa do padroeiro ou de procissão, havendo até os que esperavam a Quinta-feira Santa e o momento em que se apagavam as velas, dentro da Igreja, em respeito à Paixão de Cristo, para aproximar-se um do outro. E, no escurinho, choviam beliscões, pisadelas e gestos eróticos.
As igrejas paroquiais foram convertidas, nesse tempo, em espaço para namoricos, marcação de encontros proibidos e traições conjugais. Não foram poucas as ordens dadas por bispos setecentistas exigindo a separação de homens e mulheres no interior das capelas. O clero temia os encontros e suas consequências. Compreende-se, assim, o porquê de uma carta pastoral como a de dom Alexandre Marques, de 1732, proibindo a entrada nas igrejas de “pessoas casadas que estiverem ausentes de seus consortes”. Nas igrejas, brotavam romances sem limites. Não por acaso, um manual português de 1681, escrito por dom Cristóvão de Aguirre, continha as seguintes perguntas: “a cópula tida entre os casais na Igreja tem especial malícia de sacrilégio? Ainda que se faça ocultamente?”. Lugar de culto, lugar público, a igreja seria, então, também um lugar de sedução e de prazer. Onde, vez por outra, Deus dava licença ao Diabo...
No Brasil, as missas do século XVIII eram animadas por toda sorte de risos, acenos e olhares furtivos, transformando as igrejas, para desgosto dos bispos, em concorridos templos de perdição. Mal iluminadas, suas arcadas e colunas e os múltiplos altares laterais ofereciam recantos, resguardados da curiosidade alheia, onde se podia até mesmo tentar gestos ousados: do beijo ao intercurso sexual. A costumeira reclusão das donzelas de família e a permanente vigilância a que estavam expostos todos os seus passos tornavam missas, procissões, ladainhas e novenas ocasiões sedutoras, para as quais contribuíam os moleques de recado e as alcoviteiras, ajudando a tramar encontros. Abrigo de amantes, a igreja logrou converter-se, em certas circunstâncias, num dos raros espaços privados de conversações amorosas e jogos eróticos, nos quais se envolviam nada menos do que os próprios confessores. E tais jogos eram perpetrados até mesmo no refúgio dos confessionários.
Tal foi o sucedido com Marciana Evangelha, moça solteira de 29 anos que, no Maranhão, denunciara o jesuíta José Cardoso ao comissário do Santo Ofício em outubro de 1753. Ela o acusara de pedir-lhe “seu sêmen”, de dizer que “a desejava ver nua” e ainda de lhe pegar “nos peitos no confessionário”. Sobre as relações do padre e a moça, sabia-se, por exemplo – e é o comissário quem anota –, que “o trazia doido e fora de si e que por ela perdia muitas vezes o sono da noite, o que nunca lhe sucedera com outra mulher alguma”, e que “por amor dela havia de sair fora da religião”. Seduzida por declarações ardentes e promessas, a moça atrapalhava-se nos depoimentos. Tanto que, passados mais dois dias, voltou novamente à presença do comissário para declarar que o padre lhe garantira que, “se consentisse com ele lhe daria remédio para que ficando corrupta parecesse virgem e que para não conceber lhe daria também remédio”.
Românticos não eram raros. E havia alguns como o padre Francisco Xavier Tavares, capaz de uma súplica cavalheiresca a Maria Joaquina da Assunção, mulher casada: “se queria ter com ele uns amores e se consentia que ele fosse a sua casa”. Outros confessores chegavam a requintes galantes, ofertando flores às suas escolhidas em pleno confessionário ou fazendo como o padre Custódio Bernardo Fernandes, que, no Recolhimento das Macaúbas, em Minas Gerais, dissera a Catarina Vitória de Jesus que lhe queria bem. Mais, perguntando se ela era sua, meteu na boca um raminho, pedindo a ela que o puxasse com seus dentes.
Mas existia, também, o avesso da história. O confessionário era tido como espaço ideal para abordagem de mulheres diabolicamente sedutoras. Na Bahia, ao receber “um escrito” amoroso da parda Violante Maria, o pároco João Ferreira Ribeiro mandou-lhe um recado “por um mulato seu confidente” para que fosse à igreja de Santo Antônio e, acabada a missa, se encontrasse com ele no confessionário. Marcaram então um encontro no caminho que ia para o lago e “lá entraram ambos no mato e teve ele acesso carnal a ela”. Fora dela que partira a iniciativa da conquista.
Essas atitudes parecem surpreendentes, sobretudo por virem de indivíduos que deveriam atuar como agentes da Reforma Católica dos costumes. Chocante? Não. As pesquisas têm demonstrado que as ideias reformadoras de católicos e protestantes só lentamente se traduziram em efetivas mudanças de comportamento por parte da população cristã. O processo variou em seu ritmo conforme as regiões atingidas, mesmo se considerarmos apenas o continente europeu. A exportação da Reforma Católica para o além-mar multiplicou as dificuldades normalmente impostas a uma tarefa dessa natureza. Basta lembrar as grandes distâncias, a falta de clérigos, a precária estrutura paroquial em um imenso território de ocupação populacional dispersa, as peculiaridades culturais de uma sociedade híbrida na qual se despejavam continuamente, através do degredo, elementos desviantes da metrópole, os vícios inerentes à escravidão e ao desmedido poder local concedido aos senhores. Isso tudo atrasou a efetivação da Reforma – entendida como projeto da aculturação – na colônia. Isso tudo retardou a possibilidade de os padres serem homens acima de qualquer suspeita. Como tantos, eram feitos de carne e osso. Mais carne, até.
(Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil)
(Ilustração : Clovis Trouille (1889-1975) - le bon confesseur)
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Mary del Priore - O diabo no confessionário
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
TRICKS WITH MIRRORS / TRUQUES DE ESPELHOS, de Margaret Atwood
i
It's no coincidence this is a used furniture warehouse.
I enter with you and become a mirror.
Mirrors
are the perfect lovers,
that’s it, carry me up the stairs by the edges, don’t drop me,
that would be bad luck, throw me on the bed
reflecting side up, fall into me,
it will be your own
mouth you hit, firm and glassy,
your own eyes you find you are up against closed closed
ii
There is more to a mirror than you looking at
your full-length body flawless but reversed,
there is more than this dead blue oblong eye turned outwards to you.
Think about the frame.
The frame is carved, it is important,
it exists, it does not reflect you,
it does not recede and recede, it has limits
and reflections of its own. There’s a nail in the back
to hang it with; there are several nails, think about the nails,
pay attention to the nail marks in the wood, they are important too.
iii
Don’t assume it is passive or easy, this clarity
with which I give you yourself. Consider what restraint it
takes: breath withheld, no anger or joy disturbing the surface
of the ice.
You are suspended in me
beautiful and frozen, I preserve you, in me you are safe.
It is not a trick either, it is a craft: mirrors are crafty.
iv
I wanted to stop this,
this life flattened against the wall,
mute and devoid of colour, built of pure light,
this life of vision only, split and remote, a lucid impasse.
I confess: this is not a mirror, it is a door
I am trapped behind.
I wanted you to see me here,
say the releasing word, whatever that may be, open the wall.
Instead you stand in front of me combing your hair.
v
You don’t like these metaphors. All right:
Perhaps I am not a mirror. Perhaps I am a pool.
Think about pools.
Tradução de Carolina Paganine:
i
Não é coincidência que este seja um armazém de móveis usados.
Entro com você e me torno um espelho.
Espelhos
são as namoradas ideais,
é isso, me carregue escada acima pelas bordas, não me deixe cair,
isso daria azar, me jogue na cama
reflexo pra cima, deite-se sobre mim,
vai bater com a própria boca, firme e vítrea,
seus próprios olhos você vê estão contra você fechados fechados
ii
há mais coisas em um espelho do que você olhar pro
seu corpo inteiro perfeito mas invertido,
há mais coisas que esse olho azul oblongo e mortiço voltado pra você.
Pense na moldura.
A moldura é entalhada, é importante,
ela existe, ela não reflete você, não recua e recua, tem limites
e reflexões próprias. Há um prego atrás
pra pendurar; há muitos pregos, pense nos pregos,
preste atenção nos pregos e suas marcas na madeira, elas são importantes também.
iii
Não acredite que seja passiva ou fácil essa claridade
com a qual eu te ofereço a si mesmo. Considere o comedimento
necessário: prender a respiração, sem raiva ou alegria agitando a superfície
de gelo.
Você está suspenso em mim
elegante e congelado, eu te preservo, em mim está seguro.
Não é truque nenhum, é uma arte espelhos são arteiros.
iv
Queria acabar com isso,
essa vida achatada contra a parede,
muda e desprovida de cor, feita de luz pura,
essa vida de visão apenas, apartada e remota, um lúcido impasse.
Confesso: isto não é um espelho, é uma porta
Estou presa atrás.
Queria que você me visse aqui,
dissesse a palavra que libertasse, qualquer que fosse, abrisse a parede.
Ao invés você está à minha frente penteando o cabelo.
v
Você não gosta dessas metáforas. Tudo bem:
Talvez eu não seja um espelho. Talvez eu seja um lago.
Pense nos lagos.
(Atwood, 1976, posição 1554-1589)
(Ilustração: Vera Rocline - la mujer y el espejo)
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
BRUXAS: AS MULHERES EM CHAMAS, de Cadu Ladeira e Beth Leite
As pilhas de lenhas e gravetos já estavam acesas e a multidão, inquieta, aguardava o início do ritual que conhecia tão bem. Afinal, execuções eram espetáculos imperdíveis, que atraíam a atenção de pessoas vindas de vários cantos. Em meio ao ruído abafado dos comentários sobre os horrores que havia cometido, surgiu enfim a condenada. A turba, que já estava agitada, aproveitou para liberar a tensão reprimida: objetos, palavras de ódio, risos e piadas partiam de todas as direções contra a terrível criatura. Não houve muitas delongas. A sentença foi lida rapidamente, o carrasco, num gesto piedoso, estrangulou a condenada para que não enfrentasse as chamas viva e, em poucos minutos, seu corpo ardia, diante da aclamação selvagem da assistência. Durante mais de 300 anos, cenas como essa se tornaram corriqueiras nas praças públicas de boa parte da Europa e o caminho da fogueira se transformou no destino de milhares de mulheres. Nuas, montadas em vassouras, aterrorizando cidades, aldeias e castelos, no imaginário popular e religioso da época, as bruxas estavam por toda parte, semeando o pavor. A perversidade feminina campeava solta, a serviço dos mandos do demônio e precisava ser contida a qualquer custo. De 1450 a 1750, poucas pessoas ousariam contradizer essa doutrina, repetida em tom de ameaça nos púlpitos dos pregadores católicos, assim como nos sermões protestantes depois da Reforma religiosa de Martinho Lutero no século XVI. Bruxaria era uma calamidade tão real quanto tempestades ou pestes, e intimamente ligada à natureza feminina. Com exceção de Portugal e Espanha, onde os principais perseguidos eram cristãos novos e judeus, em quase toda a Europa a porcentagem de mulheres excedeu 75% dos casos.
Em algumas localidades, como o condado de Namur (atual Bélgica), elas responderam por 90% das acusações. Estima-se que 100 000 processos foram instalados pelo continente afora e pelo menos 60 000 vidas se perderam em meio às chamas. Foi em plena Idade Moderna - a mesma que presenciou a descoberta de um novo mundo com as grandes navegações, a ascensão da burguesia comercial, o fim do domínio feudal e a formação dos primeiros Estados nacionais europeus - que o temor às forças do mal deixou o campo da crendice popular para se tornar alvo de uma perseguição sistemática de tribunais leigos, religiosos e da Inquisição - sob controle papal. Não que as fogueiras tenham sido estranhas à sociedade medieval. A Idade Média também presenciou exibições do poder purificador das chamas, a mais notável delas, sem dúvida, aquela que consumiu a vida da jovem Joana d'Arc em 30 de maio de 1431, na cidade de Rouen, então sob domínio inglês. Heroína nacional, Joana ficou famosa depois que conduziu o exército francês à vitória sobre os ingleses em Orléans e deu início à revanche de seu país na Guerra dos Cem Anos (1337-1453), até aquele momento vencida fragorosamente pelos britânicos. Em 1430, quando caiu prisioneira nas mãos do duque de Borgonha, aliado ao rei inglês Henrique V, seus inimigos aproveitaram a fama das visões que ela costumava ter desde pequena para levá-la à fogueira, mesmo sabendo de sua extrema devoção religiosa. Nesse caso, porém, o cunho político da condenação era tão óbvio, que antes do final daquele século ela seria reabilitada e em 1920 finalmente transformada em santa.
Para bruxas menos famosas, no entanto, a chegada da Idade Moderna trouxe uma mudança radical na atitude da igreja e dos tribunais em relação ao universo da superstição, do paganismo e do mito com o qual, havia mais de 1500 anos, a Europa convivia. Na mitologia romana, Diana, deusa dos bosques e dos animais, já costumava guiar amazonas noturnas em cavalgadas celestes.
Entre as crenças imemoriais germânicas, acreditava-se que figuras ameaçadoras, conhecidas como streghe, se reuniam na floresta em torno de caldeirões para realizar seus rituais. Depois se volatilizavam e invadiam as casas para chupar a vitalidade das crianças. Mas em meio à insegurança da aurora da modernidade, um tempo marcado por mudanças e desgraças como fomes, pestes, guerras e conflitos religiosos, boa parte dessa tradição fantasiosa do passado acabou associada à certeza de que o demônio e suas seguidoras estavam determinados a dominar o mundo. Feitiços e mulheres voadoras tornaram-se, da noite para o dia parte de uma grande conspiração demoníaca. Encantos e unguentos - chamados na época de maleficia - que antes serviam para ajudar as pessoas se transformavam em passaporte certo para a morte. Não era preciso muito para provar que a ação infernal estava em andamento. Além das tradicionais acusações de possessões diabólicas, crises políticas e sociais, calamidades naturais ou qualquer outro acontecimento anormal eram capazes de detonar a mortandade. Em Trier, na França, uma feroz epidemia de processos contra as bruxas ocorreu entre 1580 e 1599, quando duas grandes colheitas foram dizimadas por alterações climáticas. No principado alemão de Ellwagen, em 1611, em Genebra em 1530, 1545, 1571 e 1615 e em Milão em 1630, para citar uns poucos exemplos, centenas foram condenadas à morte após um surto de peste. No século XVII, em Cambrai, também na França, a instalação de novas indústrias no campo gerou uma onda de ansiedade entre os camponeses que logo desembocou numa grande caça. Algumas alegações contra a bruxaria eram tão descabidas, que só mesmo o clima de paranoia coletiva explicava a relação: em 1590, depois que uma tormenta no Mar do Norte destruiu um dos navios da comitiva de Jaime VI da Escócia e de sua noiva, Ana da Dinamarca, os dois países iniciaram uma cruel perseguição a feiticeiras. As grandes caçadas vinham assim: como tempestades de verão, chegavam avassaladoras e de surpresa, mas tinham curta duração. Quase sempre, após um período de frenética perseguição, as comunidades se aquietavam durante os anos seguintes.
Era como se tivessem se livrado de um cancro. Escritos da época registram o quase inacreditável. Na diocese italiana de Como, 1000 execuções em um ano. Em Toulouse, na França, 400 cremações são contadas em um único dia. No arcebispado francês de Trier, em 1585, 306 bruxas delataram cerca de 1500 cúmplices. Embora a maior parte das acusadas tenha escapado à morte, isso não impediu que duas aldeias da região ficassem à beira do extermínio: sobraram apenas duas mulheres em cada uma delas. O mais impressionante é que a maior parte dessas mulheres, e mesmo dos homens, condenadas chegaram às fogueiras por confissão própria, graças à tortura. Durante esses quase três séculos de morte, conseguir uma confissão era apenas questão de tempo. Quando acontecia de o acusado resistir muito, durante uma sessão de maus tratos, isso só aumentava a convicção de culpa dos interrogadores: afinal, tamanha resistência só podia ter por trás o auxílio de forças que não eram apenas naturais. Hoje, sabe-se que o uso indiscriminado desse instrumento macabro se confunde com o próprio mapeamento da caça às bruxas pela Europa. O predomínio do temido Tribunal de Inquisição, por exemplo, serviu para atenuar os casos de condenação à morte de bruxas nos países da Península Ibérica e na Itália. Embora tenha ficado famoso na Idade Média pela prática da tortura, na época em que começou a grande repressão europeia, a partir do século XV, os inquisidores já haviam elaborado uma extensa reforma jurídica que garantia não só assistência legal aos acusados como restringia a ação dos torturados a casos muito especiais.
Na Inglaterra, onde suspeitos de bruxaria só podiam ser submetidos à tortura com autorização dos conselhos superiores de Justiça, a caça às bruxas também teve pouca expressão. Já na Alemanha, dividida em dezenas de ducados e principados independentes política e judicialmente, a caça às bruxas ganhou proporções assustadoras. Nada menos de 50% dos processos contra elas aconteceram em terras germânicas, e a maior parte resultou em morte. Às vezes, a descoberta de uma fraude conseguia evitar que a perseguição chegasse a um final dramático. Em 1633, o jovem inglês Edmund Robinson denunciou uma mulher que o teria levado a um sabá de bruxas, onde estavam reunidas cerca de sessenta feiticeiras. O menino deu o nome de dezessete delas, todas imediatamente presas e condenadas. Algumas dúvidas sobre o depoimento, no entanto, levaram o bispo de Chester a interrogar Edmund e ele acabou admitindo ter forjado a história por sugestão do pai, que havia indicado todos os nomes "por inveja, vingança e desejo de tirar vantagem"', descobriram os juízes. Na Escócia, o ensaio de uma grande repressão nacional em 1661 entrou em colapso quando os eméritos caçadores de bruxas John Kincaid e John Dick foram flagrados dando picadas em mulheres acusadas de bruxaria: nos tribunais, essas pequenas marcas eram a prova de que elas haviam feito pacto com o diabo. Foram poucas, porém, as caças detidas por evidência de fraudes. Normalmente, quando uma perseguição se instalava, nada conseguia detê-la e o pânico tomava conta da população. A princípio, todos estavam sob suspeita e a melhor defesa era o ataque. Uma vez iniciada a caça, delações não paravam mais.
Assustadas com a perseguição, muitas pessoas logo se punham a entregar as vizinhas na tentativa de livrar a própria pele de potenciais acusações. Cada possível bruxa levada a julgamento, por sua vez, não tardava a incriminar mais uma lista de acusadas num efeito dominó que levava grandes levas de pessoas diante dos juízes. Cenas e relatos como esses não só foram realidade como contavam com uma robusta fundamentação teórica de uma obra sinistra. Publicado em 1486, o livro Malleus Maleficarum, escrito pelos inquisidores papais alemães Heinrich Kramer e James Sprenger, foi um eficaz instrumento nos tribunais para consolidar a crença de que uma grande conspiração arquitetada por Satã e suas seguidoras, as bruxas, tomava conta do mundo. Até o final do século XV, o manual já era um best seller, recordista absoluto entre qualquer livro anterior ou posterior sobre demonologia, com mais de uma dúzia de edições.
Na detalhada obra, que explicava desde os feitiços mais comumente praticados até como localizar a presença das malignas criaturas no seio da sociedade, Kramer e Sprenger não pouparam esforços para mostrar que a mesma mulher que provocou a expulsão do homem do paraíso ainda era uma ameaça presente. O velho temor católico de monges e padres celibatários estava mais forte do que nunca. "A perfídia é mais encontrada nas pessoas do sexo frágil do que nos homens", garantiam os dois. Bruxas eram o mal total: renunciavam ao batismo, dedicavam seus corpos e almas ao demônio e, suprema lascívia, costumavam manter relações sexuais com ele. Principalmente durante os sabás, reuniões em que as forças do mal se reuniam para banquetear-se com criancinhas não batizadas e que sempre terminavam em fabulosas orgias. Testemunhos da época davam notícia de sabás reunindo até 1000 bruxas.
Para provar a propensão natural da mulher à maldade não faltavam argumentos aos autores do Malleus. A começar por "uma falha na formação da primeira mulher, por ser ela criada a partir de uma costela recurva, ou seja, uma costela no peito, cuja curvatura é, por assim dizer, contrária à retidão do homem. A própria etimologia da palavra feminina confirmava essa fraqueza original: segundo eles, femina, em latim, reunia em sua formação as palavras fide e minus, o que quer dizer menos fé. Defender ideias assim não era exclusividade dos dois inquisidores alemães. A aversão à mulher como ser mais fraco e, portanto, mais propenso a sucumbir à tentação diabólica era moeda corrente em todas as regiões da Europa - dos pequenos vilarejos camponeses aos grandes centros urbanos. Nos sermões de padres por toda a Europa, proliferava a concepção de que a bruxaria estava ligada à cobiça carnal insaciável do "sexo frágil", que não conhece limites para satisfazer seus prazeres. Com seu "furor uterino", para o homem a mulher era uma armadilha fatal, que podia levá-lo à destruição, impedindo-o de seguir sua vida tranquilamente e de estar em paz com sua espiritualidade.
O clima de desconfiança em relação às mulheres teve também predileções profissionais. Quando não era o caso de grandes perseguições orquestradas para expurgar males como a peste, certos ofícios tipicamente femininos tinham precedência na lista de denúncias. Curandeiras, vitais para uma sociedade onde a medicina ainda era uma ciência incipiente, tornavam-se hereges e apóstatas da noite para o dia. Cozinheiras também viviam sob constante desconfiança, assim como as parteiras. Acusadas frequentemente de batizar os recém-nascidos em nome do diabo ou de matá-los para usar seus corpos em rituais, elas foram vítimas de anos de suspeita acumulada, numa época em que a taxa de mortalidade infantil era altíssima. Em 1587, a parteira alemã Walpurga Hausmannin, foi processada por ter causado a morte de quarenta crianças, algumas com até 12 anos. Entre os métodos que ela empregava, estavam o estrangulamento, esmagamento de cérebro da criança no parto e aplicação de "um unguento do diabo sobre a placenta", de modo que a mãe e a criança morressem juntas. Seu destino foi a fogueira. O mesmo de uma parteira húngara, que em 1728 conseguiu uma marca duvidosa, mas perfeitamente factível para seus contemporâneos: ela morreu queimada por ter batizado nada menos do que 2000 crianças em nome do demônio. Para quem se acostumou a relacionar a figura das bruxas a personagens pitorescas de contos da carochinha - como a madrasta de Branca de Neve ou a fada malvada de Cinderela -, às vezes fica difícil acreditar em histórias assim. Mas elas existiram e deixaram em seu rastro uma cruel realidade da morte de milhares de mulheres inocentes em fogueiras piamente acesas para limpar o mundo.
(Ilustração: Francisco de Goya - El aquelarre (sabá das bruxas) - 1797-98)
terça-feira, 8 de setembro de 2026
LA JEUNE CAPTIVE / A JOVEM CATIVA, de André Chenier
"L'épi naissant mûrit de la faux respecté;
Sans crainte du pressoir, le pampre tout l'été
Boit les doux présents de l'aurore;
Et moi, comme lui belle, et jeune comme lui,
Quoi que l'heure présente ait de trouble et d'ennui,
Je ne veux point mourir encore.
Qu'un stoïque aux yeux secs vole embrasser la mort,
Moi je pleure et j'espère; au noir souffle du Nord
Je plie et relève ma tête.
S'il est des jours amers, il en est de si doux!
Hélas! quel miel jamais n'a laissé de dégoûts?
Quelle mer n'a point de tempête?
L'illusion féconde habite dans mon sein.
D'une prison sur moi les murs pèsent en vain.
J'ai les ailes de l'espérance:
Échappée aux réseaux de l'oiseleur cruel,
Plus vive, plus heureuse, aux campagnes du ciel
Philomène chante et s'élance.
Est-ce à moi de mourir? Tranquille je m'endors,
Et tranquille je veille; et ma veille aux remords
Ni mon sommeil ne sont en proie.
Ma bienvenue au jour me rit dans tous les yeux;
Sur des fronts abattus, mon aspect dans ces lieux
Ranime presque de la joie.
Mon beau voyage encore est si loin de sa fin!
Je pars, et des ormeaux qui bordent le chemin
J'ai passé les premiers à peine,
Au banquet de la vie à peine commencé,
Un instant seulement mes lèvres ont pressé
La coupe en mes mains encor pleine.
Je ne suis qu'au printemps, je veux voir la moisson;
Et comme le soleil, de saison en saison,
Je veux achever mon année.
Brillante sur ma tige et l'honneur du jardin,
Je n'ai vu luire encor que les feux du matin;
Je veux achever ma journée.
Ô mort! tu peux attendre; éloigne, éloigne-toi;
Va consoler les coeurs que la honte, l'effroi,
Le pâle désespoir dévore.
Pour moi Palès encore a des asiles verts,
Les Amours des baisers, les Muses des concerts.
Je ne veux point mourir encore."
Ainsi, triste et captif, ma lyre toutefois
S'éveillait, écoutant ces plaintes, cette voix,
Ces voeux d'une jeune captive;
Et secouant le faix de mes jours languissants,
Aux douces lois des vers je pliais les accents
De sa bouche aimable et naïve.
Ces chants, de ma prison témoins harmonieux,
Feront à quelque amant des loisirs studieux
Chercher quelle fut cette belle:
La grâce décorait son front et ses discours,
Et, comme elle, craindront de voir finir leurs jours
Ceux qui les passeront près d'elle.
Tradução de Machado de Assis:
— “Respeita a foice a espiga que desponta;
Sem receio ao lagar o tenro pâmpano
Bebe no estio as lágrimas da aurora;
Jovem e bela também sou; turvada
A hora presente de infortúnio e tédio
Seja embora; morrer não quero ainda!
De olhos secos o estoico abrace a morte;
Eu choro e espero; ao vendaval que ruge
Curvo e levanto a tímida cabeça.
Se há dias maus, também os há felizes!
Que mel não deixa um travo de desgosto?
Que mar não incha a um temporal desfeito?
Tu, fecunda ilusão, vives comigo.
Pesa em vão sobre mim cárcere escuro,
Eu tenho, eu tenho as asas da esperança:
Escapa da prisão do algoz humano,
Nas campinas do céu, mais venturosa,
Mais viva canta e rompe a filomela.
Deve acaso morrer? Tranquila durmo,
Tranquila velo; e a fera do remorso
Não me perturba na vigília ou sono;
Terno afago me ri nos olhos todos
Quando apareço, e as frontes abatidas
Quase reanima um desusado júbilo.
Desta bela jornada é longe o termo.
Mal começo; e dos olmos do caminho
Passei apenas os primeiros olmos.
No festim em começo da existência
Um só instante os lábios meus tocaram
A taça em minhas mãos ainda cheia.
Na primavera estou, quero a colheita
Ver ainda, e bem como o rei dos astros,
De sazão em sazão findar meu ano.
Viçosa sobre a haste, honra das flores,
Hei visto apenas da manhã serena
Romper a luz, — quero acabar meu dia.
Morte, tu podes esperar; afasta-te!
Vai consolar os que a vergonha, o medo,
O desespero pálido devora.
Pales inda me guarda um verde abrigo,
Ósculos o amor, as musas harmonias;
Afasta-te, morrer não quero ainda!”—
Assim, triste e cativa, a minha lira
Despertou escutando a voz magoada
De uma jovem cativa; e sacudindo
O peso de meus dias langorosos,
Acomodei à branda lei do verso
Os acentos da linda e ingênua boca.
Sócios meus de meu cárcere, estes cantos
Farão a quem os ler buscar solícito
Quem a cativa foi; ria-lhe a graça
Na ingênua fronte, nas palavras meigas;
De um termo à vinda há de tremer, como ela,
Quem aos seus dias for casar seus dias.
(Chrysalidas: poesias).
(Ilustração: Frederic Leighton (1830-1896) - Andromaque captive)
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