sábado, 20 de janeiro de 2018

PARIA / PÁRIA, de Tristan Corbière






Qu'ils se payent des républiques,

Hommes libres! – carcan au cou –

Qu'ils peuplent leurs nids domestiques!...

– Moi je suis le maigre coucou.

– Moi, – coeur eunuque, dératé

De ce qui mouille et ce qui vibre...

Que me chante leur Liberté,

A moi: toujours seul. Toujours libre.

– Ma Patrie... elle est par le monde;

Et, puisque la planète est ronde,

Je ne crains pas d'en voir le bout...

Ma patrie est où je la plante:

Terre ou mer, elle est sous la plante

De mes pieds – quand je suis debout.

– Quand je suis couché: ma patrie

C'est la couche seule et meurtrie

Où je vais forcer dans mes bras

Ma moitié, comme moi sans âme;

Et ma moitié: c'est une femme...

Une femme que je n'ai pas.

– L'idéal à moi: c'est un songe

Creux; mon horizon – l'imprévu –

Et le mal du pays me ronge...

Du pays que je n'ai pas vu.

Que les moutons suivent leur route,

De Carcassonne à Tombouctou...

Moi, ma route me suit. Sans doute

Elle me suivra n'importe où.

Mon pavillon sur moi frissonne,

Il a le ciel pour couronne:

C'est la brise dans mes cheveux...

Et dans n'importe quelle langue

Je puis subir une harangue;

Je puis me taire si je veux.

Ma pensée est un souffle aride:

C'est l'air. L'air est à moi partout.

Et ma parole est l'écho vide

Qui ne dit rien – et c'est tout.

Mon passé: c'est ce que j'oublie.

La seule chose qui me lie,

C'est ma main dans mon autre main.

Mon souvenir – Rien – C'est ma trace.

Mon présent, c'est tout ce qui passe

Mon avenir – Demain... demain.

Je ne connais pas mon semblable;

Moi, je suis ce que je me fais.

Le Moi humain est haïssable...

Je ne m'aime ni ne me hais.

Allons! la vie est une fille

Qui m'a pris à son bon plaisir...

Le miens, c'est: la mettre en guenille,

La prostituer sans désir.

– Des dieux?... – Par hasard j'ai pu naître;

Peut-être en est-il – par hasard...

Ceux-là, s'ils veulent me connaître,

Me trouveront bien quelque part.

– Où que je meure, ma patrie

S'ouvrira bien, sans qu'on l'en prie,

Assez grande pour mon linceul...

Un linceul encor: pour que faire?...

Puisque ma patrie est en terre

Mon os ira bien là tout seul...



Tradução de Augusto de Campos:


Que eles paguem por seus países,

Homens livres! – sob o trabuco –

E povoem ninhos felizes!...

– Eu, porém, sou o magro cuco.

– Coração eunuco, amputado

De tudo o que molhe ou que vibre...

A Liberdade é um hino aguado

Para mim: sempre só. Sempre livre.

– A minha Pátria... é todo o mundo;

E já que o planeta é rotundo,

Não temo ver seu fim qual é...

Pátria é onde o meu ser se planta:

Terra ou mar, está sob a planta

De meus pés – quando estou de pé.

Quando me deito, a pátria amada

É a cama triste e maltratada

Onde eu espalmo em minha palma

A metade, como eu sem alma;

Cara metade: é uma dama...

A metade da minha cama.

– Uma idéia oca constrói

Meu ideal; meta – o imprevisto –

Mas a nostalgia me rói...

Do país por mim nunca visto.

Que os carneiros sigam a rota

De Carcassonne a Finisterra...

– Minha rota me segue. A idiota

Me seguirá por toda a terra.

Meu pendão sobre mim revoa,

Tendo só o céu por coroa:

É a brisa no meu cabelo...

Não importa a língua a dizê-lo,

Topo qualquer papo furado;

E também sei ficar calado.

Meu pensamento é um sopro frio:

É o ar. O ar que me cerca, mudo.

Minha palavra, o eco vazio

Que não diz nada – e isso é tudo.

O meu passado não me intriga.

A única coisa que me liga

É a minha mão na outra, irmã.

Minha memória – Nada. – Traça.

O meu presente é o que se passa

No futuro – Amanhã... amanhã.

Eu não conheço o meu vizinho;

Eu sou aquilo que eu me creio.

– O eu humano é tão mesquinho...

Eu não me amo nem me odeio.

– Vamos! a vida é uma garota

Que me convida para um beijo...

Meu desejo é: deixá-la rota,

Prostituí-la sem desejo.

– Os Deuses?... – Por acaso eu vim;

Talvez existam – por acaso...

Eles, decerto, ao cabo e ao fim,

Me encontrarão, se for o caso.

– Minha pátria, quando eu morrer,

Se abrirá bem para acolher

O pó que a mortalha encerra.

Uma mortalha pra meu pó?

Se a minha pátria é a própria terra

Meu osso vai se dar bem, só.

.



(Versos, reverso controverso)




(Ilustração: Tristan Corbière, por Jean Vacher)


quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A DIMENSÃO DO MITO, de Paulo Bomfim







Reza a tradição que um dia, no século XVII, a Vila de Piratininga amanhece embandeirada. Corria, de boca em boca, notícia que D. Sebastião voltava de Alcácer Quibir e surgiria em nosso planalto com seus companheiros sumidos na trágica jornada do Marrocos.

Bandeirismo e sebastianismo sempre estiveram juntos, a começar pelo nome do “Encoberto”, presente no batismo dos futuros sertanistas. Sebastião Preto, Sebastião de Freitas, Sebastião Paes de Barros, Sebastião de Camargo, Sebastião Leme do Prado, Sebastião Pinheiro Raposo, o patriarca Sebastião de Arruda Botelho e muitos outros, nascem sob o signo daquele que finaliza em glória, o ciclo das lanças em África, da dinastia de Avis.

A lenda de D. Sebastião pode ser encontrada nas mais diversas regiões do país. Faz parte de cavalhadas e de danças, de cantos populares e da religiosidade de rituais emergentes do folclore. Se, por um lado ele atirou Portugal em mãos castelhanas, do outro, sua lenda armou o patriotismo português na restauração dos Braganças.

Na neblina que caía sobre o burgo mameluco, havia a expectativa do rei surgir do encantamento.

O mesmo acontecia com bandeirantes jamais retornados do sertão onde permanecem debaixo de sortilégios.

Nas monções, corriam histórias das canoas fantasmas que transportavam tripulações dizimadas pelos paiaguás. Relatos monçoeiros alertam sobre aparições surgidas na curva dos rios, em noites de lua cheia, com barqueiros transparentes e sertanistas hirtos.

Em universos paralelos, D. Sebastião e bandeirantes, aguardam.

Na névoa que desce sobre ruas de São Paulo, o sonho do Quinto Império flutua com o séquito de gibões que seguem a armadura vazia do Esperado.



(Ilustração: Carlos Barahona Possollo - Dom Sebastião, 1992)



domingo, 14 de janeiro de 2018

MAGDALENA, de Aline Miranda







Magdalena

tinha mirada forte

um olhar de contorno brilhante

delineado

esverdeado

que me penetrava.

Precisava forçar-me séria

para o sorriso não soltar-se

a trair-me.

Mas atrás do copo de cerveja

ela me olhava

(não havia mais ninguém a não

ser os homens velhos

que ainda restavam no bar

oferecendo-nos bebidas).

Ela chamava atenção

acentuada com um lenço

na cabeça

nenhum fio se rebelando

e o rosto forte

imponente.

Não havia nada na mesa

a não ser a cerveja.

Nenhuma distração.

Na rua parou um carro

de polícia

piscava luzes


—  Você parece boate,

ela disse.

E olhava fixo.

Eu,

que me achava tão segura

me via ali,

aberta, vulnerável.

Onde estariam meus anticorpos

que não trabalhavam?

Para de me olhar assim,

eu dizia,

tapando-lhe levemente

os olhos

em brincadeira.

Ela sorria.

Eu a tocara.

(Em verdade já antes:

cheguei de táxi, chovia

eu molhada

ela me esperava

percebi-a de longe

 —  míope guarda trejeitos 
— 

atravessamos a rua em seu guarda-chuva

seu braço longo abraçava meus ombros

ela tocara-me.

tremia.)

Jamais lembrarei as palavras ditas

saídas como vômito

de algodão-doce

sem filtro

feito flechas

tentando cegar aqueles olhos de capitu

que me petrificavam

e me botavam a falar

como doida

ou criança com sono,

quizás.

Fechou-se o bar.

E aquela rua tão movimentada

de dia!

Parecia viagem

parecia outra cidade.

Sempre gostei do frescor e silêncio

da noite.

As ruas com poças

ainda da chuva.

Sombras coloridas nos olhos

um homem passa

um carro passa

um rato passa

não há ninguém além da noite

já começo de amanhã.





(Ilustração: Odette Dalpé - guarda-chuva vermelho)



quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

ATRAVÉS DO MISTÉRIO, de Clarice Lispector





Perseu abrigara-se da chuva na sala da estação, pousando a mala no banco. Cortara no dia anterior os cabelos. No rosto, mais nu as orelhas pareciam separadas da cabeça; as faces um pouco ossudas davam-lhe um ar de fraqueza obstinada e, apesar disso, de tranquilida

Seu aspecto se transformara bastante desde a época em que andava com Lucrécia. Estava muito mais magro, menos bonito. Agora havia nele um modo de ter doçura que não estava mais na doçura; com o impermeável solto no corpo parecia um estrangeiro que entrasse numa cidade.

Chovia muito. A chuva nos trilhos ainda desertos tinha um sentido reservado de que ele parecia fazer parte. 

Como havia tempo, ligou o rádio que em breve estalava captando o temporal longínquo – percebia-se porém o fio de música através das crepitações da eletricidade. Perseu ouvia de pé, sem sonhos e sem o que se chamaria de entender. A frase musical, muito nobre, era-lhe visível como o rádio. Apreendia o esforço da música com mesmo esforço agradável, e tirava prazer dessa vaga rivalidade. Quando lhe perguntavam se gostava de música, dizia sorrindo com graça que gostar gostava, mas não compreendia, dava quase no mesmo ouvir bater na porta e ouvir música.

O rádio crepitava. Perseu escutava com força pacífica, alisando o peso de papéis da mesinha. Se vivesse em sua época seria tentado a achar que a música o fazia sofrer. Mas este rapaz insignificante não tivera verdadeiras influências nem deixava marcas. Talvez estivesse mesmo perdendo sua época, e tanta liberdade o deixasse muito aquém do que poderia se fosse constrangido. Mas ele parecia sempre arranjar-se em silêncio. Se não entendia as notas obscuras, acompanhava-as com uma pequena parte enigmática sua que se comprazia na nitidez do mistério. Quando a música cessou, desligou o rádio. As gotas tombavam da calha e a bilha que o chefe da estação deixara fora enchia-se dágua. 

Perseu ficou repousando de pé. Estava cansado e tranquilo. Perto da boca duas ligeiras descidas prenunciavam as rugas de homem. Como não era particularmente de sua época, que o faria sofrer, nem possuía uma cultura de onde escolher sentimentos – estava de pé, acariciando o peso de vidro, com as duas rugas se formando: intacto, pensativo, um pouco fatigado. Sem ser pai, já não era filho. Achava-se em ponto luminoso e neutro. E esta realidade ele não transmitiria a ninguém. A nenhuma mulher sobretudo. Como jamais daria sal harmonia ou a forma de seu corpo. Poderia apaziguar uma mulher. Mas sua paz estranha, ele não comunicaria.

O sino da estação anunciava a partida. Perseu entrou no vagão, dispôs mala sob o banco. Quando o trem partiu, agitou-se feliz olhando para os lados.

Em breve saíam da zona urbana e entravam no campo. Continuava a chover, a terra ensopada parecia triste com árvores tão escuras. Dentro do ruído adormecido das rodas e do vento chuvoso, o carro prosseguia calmo nesse fim de tarde. Perseu tomara dois cálices de vinho-do-porto para não se resfriar pois continuava a ser minucioso quanto à saúde e aos exercícios. Com o álcool no coração sentia-se um pouco bem demais, quase inquieto. Aplicava seu mal-estar em coisas concreta: olhava cada objeto do vagão emprestando-lhes sombrio contentamento.

No carro cada pessoa tinha uma cara, extremamente visível à luz transmutada da tarde. Cara era como o nome, pensou com prazer e desassossego. Seu pensamento era apenas o ritmo das rodas. Perseu tinha apenas a forma para um pensamento extraordinário, e não o pensamento, e isso o exaltava – cara é uma coisa, corpo é outra, vinho no corpo é outra. Embora ele se sentisse todo inteiro com o impermeável num trem.

Começou por olhar uma moça vulgar, de traços grandes. “Parece uma flor”, pensou agitado. Tinha olhos redondos. Vazios porque estava sozinha. Não se poderia dizer se alegres, pensativos ou atentos – olhos apenas físicos, e alguém duvidaria de que pudessem ver. No entanto batiam pálpebras com cílios ralos e comiam o ar com delicadeza. De repente Perseu pôs-se a gostar deles com obstinação e prazer. Pousavam sobre um nariz grande que respirava com esforço: a moça estava gripada, e entreabria os lábios grossos. Toda a cara era exterior, uma flor a ser tomada. Veio-lhe mesmo o desejo. O tipo de cabeça pesada que se pegaria nas duas mãos e que se olharia com inútil sinceridade – daí a pouco pensando em outra coisa, só com o objeto fatigante nas mãos, porque seria impossível concentrar-se naquele rosto de corola. Pôs-se a imaginar como seria difícil conhece-la porque ele mentiria – mal a tocassem, ela se fecharia toda em mentiras e sonhos, ficaria “interessante”, diria de como tinha tantos pretendentes, a família tão bem de vida, ela graças a Deus cheia de saúde, e mesmo de como era virgem – Perseu teve um murmúrio de satisfação ao ver que a que ponto chegara sua experiência e ao imaginar-se fingindo acreditar, beijando-a enquanto ela mentisse – o que seria muito indecente e muito terno. 

Enquanto isso ela mostrou ter pressentido o rapaz: parecia pensar mais rapidamente e, quase sem transformar a cara imaculada, tornara-se interessante: Perseu desviou o olhar.

Parecia-lhe impróprio chamar a atenção. Era no entanto o que sempre lhe sucedia. Sua calma insignificância fazia as pessoas erguerem os olhos e fitá-lo em indagação, da qual estranhamente participativa alguma insolência. O que o perturbava. Mas na maior parte das vezes era percebido apenas sem consciência, como se olha o dia. De fato o casal silencioso fitou-o rapidamente, sem tempo, como se ele fosse o único passageiro. A mulher corada tinha queixo sensível e olhos pequenos. O homem era fraco, desorientado: de barba raspada e esverdeada, olhos verdes, mãos cinzentas e bem feitas.

- Os bois.

O trem corria morno na chuva.

- Alfredo, os bois, disse a mulher com voz rouca.

Perseu fixou um canto empoeirado do chão e depois a mala de uma senhora de preto – com a boca cheia de saliva, rebentada no coração a veia mais goras, ele tinha o primeiro sentimento doloroso de paixão e piedade.

- As pessoas, pensou envergonhado. Nos campos as vacas molhadas eram quentes, vagarosas. Gente, disse. Uma sensibilidade nele estava ficando homem. E esta seria sua vida mais interior.

Com o fato de ser um homem quis olhar o mundo, e viu os campos à chuva, as escadas gastas de uma casa. As pessoas eram tépidas no trem, a fumaça confortante. Olhava tudo com inocência, força e domínio.

A senhora de preto fumava, examinando-o com os olhos pintados. Perseu não gostava de mulheres às quais nada escapava. Mas experimentou certa quente promessa no peito ao ver uma mulher perfumada e sábia observá-lo. Embora o intimidasse aquele olhar direto. E atrevido?

Mas não.

Neste momento a mulher preto pensava, soprando a fumaça: sei de repente um homem. O que a maravilhava. Mas era tarde para ela. Eis de repente um homem, adivinhou e, apagando o cigarro, dirigiu a descoberta, em desafio – através da distância cada vez maior – em desafio e misericórdia a uma pessoa que durante a pequena separação não saberia o que fazer de si.

Perseu porém não a olhava mais, agora interessado em penetrar a escuridão através da vidraça. Nenhuma mulher receberia o calor de sua alma que ele um dia talvez desse a um amigo. Esquecera a mulher e espiava a noite pela vidraça – instável, grande, silencioso no impermeável. Mas não era apenas uma força cega. Ser um homem guiava-o através do mistério.



(A cidade sitiada)



(Ilustração: museum artes: Mary Gaspar - Man Sleeping in Train Rain)



segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

NAUS SEM RUMO, de Amílcar Cabral






Dispersas,

emersas,

sozinhas sobre o Oceano …

Sequiosas,

rochosas,

pedaços do Africano,

do negro continente,

as enjeitadas filhas,

nossas ilhas,

navegam tristemente …



Qual naus da antiguidade,

qual naus

do velho Portugal,

aquelas que as entradas

do imenso mar abriram …

As naus

que as nossas descobriram.



Ao vento, à tempestade,

navegam

de Cabo Verde as ilhas,

as filhas

do ingente

e negro continente …



São dez as caravelas

em busca do Infinito …

São dez as caravelas,

sem velas,

em busca do Infinito …

À tempestade e ao vento,

caminham …

navegam mansamente

as ilhas,

as filhas

do negro continente …



- Onde ides naus da Fome,

da Morna,

do Sonho,

e da Desgraça? …



- Onde ides? …



Sem rumo e sem ter fito,

Sozinhas,

dispersas,

emersas,

nós vamos,

sonhando,

sofrendo,

em busca do Infinito! …



(Emergência da poesia em Amílcar Cabral)




(Ilustração: Joannes van Keulen, ca. 1635. The first known painting of the island of Santiago Cape Verde Islands)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

CASAL PERFEITO, de Lya Luft





Um dia me pediram para escrever sobre o “casal perfeito”: bom para quem gosta de desafios. Minha primeira providência foi cercar com aspas o vocábulo “perfeito”.

O que justificaria o rótulo sobre o qual eu devia escrever?

Imediatamente ocorreu-me que parceiro de um casal “perfeito” precisam se querer bem como se querem bem os bons amigos, e temperar esse afeto com a sensualidade que distingue amizade de amor. Duas pessoas que compreendem, sem ressentimentos nem cobranças, a inevitável dose de periculosidades do ser humano e sua dificuldade de comunicação. Em última análise, toda a sua complicação.

A melhor pareceria deve ser aquela em que um aceita o outro sem ter de se submeter a qualquer coisa pelo outro; em que um aprecia e admira o outro, mas tem por ele ternura e cuidados. Sobretudo aquela em que um parceiro não investe no outro todo os seus projetos, à primeira decepção passando de amor a rancor.

Se o outro servir de cabide para os nossos sonhos mais extravagantes de perfeição, o primeiro vento contrário derruba o pobre ídolo que não tem culpa de nada.

No casamento saudável há um propósito geral: quero passar com você o melhor de meus dias, construir com você uma relação gostosa, importante e definitiva.

É importante não correr para os braços do outro fugindo da chatice da família, da mesmice da solidão, do tédio. É essencial não se lançar no pescoço do outro caindo na armadilha do “enfim nunca mais só!”, porque numa união com expectativas exageradas decreta-se o começo do exílio.

Amor bom, além do mais, tem de suportar e superar a convivência diária.

A conta a pagar, a empregada que não veio, o filho doente, a filha complicada, a mãe com Alzheimer, o pai deprimido, ou o emprego sem graça e o patrão grosseiro. Quando cai aquela última gota – pode ser uma trivialíssima gota –, a gente explode. Quer matar e morrer, e nos damos conta: nada mais em nossa relação é como era no começo. Não é nem de longe como planejáramos que fosse.

Não queremos continuar assim, mas não sabemos o que fazer. Ou sabemos, mas nos parece inexequível.

Na verdade, na parceria amorosa como em tudo o mais recomeçamos tudo todos os dias. Então podemos tentar começar diferentes também aqui e agora. O cotidiano conforta, os seus pequenos rituais são os marcos de nossa vida mais segura, mas também traz desencanto e monotonia.

Precisamos de criatividade num relacionamento amoroso, dizem. O problema é que quando se fala em “criatividade” numa relação a maioria pensa logo em inovações no sexo, como se a solução estivesse em novas posições, outro perfume, artifícios exóticos.

Transar bem é resultado, não meio. Como deveriam ser os filhos: fruto de um afeto vivo, não instrumento para consertar o que está falido.

Passada a primeira fase de paixão (desculpem mas ela passa, o que não significa tédio nem fim do tesão), a gente começa a amar de outro jeito. Ou a amar melhor; ou: aí é que a gente começa a amar; a querer bem; a apreciar; a respeitar; a valorizar. A mimar; a sentir falta; a conceder espaço; a querer que o outro cresça e não fique grudado na gente.

“Se você ama alguém, deixe-o livre”, estava escrito no bilhetinho que foi um dos maiores presentes que me deu alguém entre tantos muitos outros bens.

Um pouco de lucidez e um bocado de maturidade (ah, que coisa boa, o tempo) há de mostrar se – e o quê – pode ser ainda conquistado a dois.

Isso entendido, chega o momento da definição: e agora, o que fazer? Investir, se há mais possibilidades do que vazio.

Como a gente desiste fácil – porque afinal somos guerreiros ou nem estaríamos mais aqui, e porque há os filhos, os compromissos, a casa, a grana e até ainda o afeto –, vamos criar um jeito de reconstruir o que parece esfarelado. Isto é: quando há vontade, afeto, quando resta interesse. Desde que seja uma reinvenção a dois, não a submissão de um e o exílio de outro. Pois o espaço entre opressor e oprimido é um vazio.

Mas quando realmente nada mais resta de positivo?

Laços podem ser reconstituídos, remendados ou cortados. O corte se faz com mais ou menos generosidade, carinho ou hostilidade e raiva – sempre com dor. Porém nenhuma união deveria ser a sentença definitiva de aniquilamento mútuo dentro de uma jaula.



(Perdas e ganhos)



(Ilustração: Edvard Munch - The Kiss)

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

FRUTOS, de Mia Couto






A bondade da mangueira

não é o fruto.



É a sombra.



A térrea,

quotidiana,

abnegada sombra:

no inverso do suor colhida,

no avesso da mão guardada.



Há a estação dos frutos.

Ninguém celebra a estação das sombras.



Assim, o amor e a paixão:

um, fruto; outro, sombra.



A suave e cruel mordedura

do fruto em tua boca:

mais do que entrar em ti

eu quero ser tu.



O que em mim espanta:

não a obra do tempo

mas a viagem do Sol na seiva da árvore



A arte da mangueira

é a veste de sombra

embrulhando o seu ventre solar.



Para o homem

vale a polpa.



Para a terra

só a semente conta.





(Tradutor de chuvas)



(Ilustração: Jacqueline Secor)




sábado, 30 de dezembro de 2017

O MILAGRE DA TÉCNICA, de Hermann Hesse






Nosso amigo Olavo é um sujeito bom, mas um pouco esquisito, que já nos causou muita preocupação. Uma de suas muitas singularidades é uma repulsa fantasticamente exagerada contra pequenas descobertas e resultados práticos da técnica moderna. Fica doido quando vê um isqueiro niquelado, e considera invenções de Satã aqueles pequenos milagres da técnica, como lanternas elétricas em miniatura. Essa repulsa esteve sempre na sua personalidade, fundada na sua maneira de pensar, mas só se manifestou plenamente há pouco tempo, sob a pressão de várias experiências, uma das quais me interessa especialmente, pois, ainda que inocente, participei dela. Vou poupar-me de introduções e, sem qualquer comentário, relato a triste história, assim como Olavo descreveu numa longa carta de Rapallo.


Rapallo, 15 de março

Pois ainda estou vivo, e quero contar-te resumidamente o que me aconteceu nesta viagem. No começo estive muito decepcionado e desconsolado com ela, mas agora as coisas piores se acamaram, e em caso de necessidade posso pensar em toda essa história sem bater a cabeça nas paredes. Começo até a aprender, com meu triste destino.

Quanto às viagens em si, nunca tive muita sorte. Já quando jovem, quando ainda lia Schopenhauer, anotei na minha agenda de viagens as seguintes sentenças:

1) Procura evitar qualquer viagem, mesmo a mais curta!

2) Aquele jornalista que pela primeira vez introduziu o nosso lamentável idioma a expressão “viagem de diversão”, deve ter sido louco. Viajar e divertir-se são conceitos que se excluem totalmente.

3) Nunca te apaixones, muito menos em viagens!

Agora estou em condições de acrescentar a essas recomendações algumas novas, nascidas de recentes experiências. Não te contarei todas elas, mas uma diz: “Protege-te de todos os aparelhos, máquinas e objetos de uso que foram criados por inventores, são recomendados por vendedores, e patenteados pelo Ministério de Patentes, imperial, real ou republicano!” Confesso que com isso, infelizmente, também devo pensar na caneta automática que me deste de presente antes da viagem. Foi bondade tua, e tuas intenções podem ter sido as mais nobres, mas devo dizer-te: amaldiçoei com terríveis palavras tua caneta e a ti. Espero que continues com saúde.

Mas agora basta, quero contar o que houve.

Já sabes mais ou menos por que iniciei aquela maldita viagem. Posso agora confessar, calmamente, foi por causa da Meta Hagemann. Vocês tentaram estragar a coisa com bons conselhos dizendo que a bela moça era uma perigosa flertadora. Bem, soubera que que seus pais queriam viajar com ela para Rapallo, e também sabia em que trem. Preparei minha viagem, comprei um terno novo e um novo chapéu, passei adiante minha motocicleta e preparei-me como pude. Como sabes, tenho um fabuloso respeito por aqueles jovens invejáveis que andam sempre tão elegantes e impecáveis, e fiz novas tentativas nessa direção. Bem, sabia que podia fazer o que quisesse, que comigo sempre alguma coisa havia de dar errado e falhar. Mas, dessa vez, desafiei meu destino. Quando, pouco antes da viagem, ao fazer a barba, me cortei, ocorreu-me que eu deveria possuir um aparelho mais moderno. Comprei um, da marca Siegfried. Era um aparelho misterioso, prateado, num fino estojo de couro preto. No estoja havia a imagem dum homem jovem e elegante, exatamente como eu sonhava ser; esse jovem estava num automóvel em movimento, e barbeava-se com sorriso frio. Embaixo estavam impressas em ouro as seguintes palavras: “Nós alemães tememos a Deus, e a nada mais neste mundo”. Aí, ocorreu-me que esses jovens elegantes sempre têm na boca, ou na mão, um cachimbo inglês de cano curto. Eu sabia que gosto horrível o fumo tem nessas coisas, e que só ingleses e americanos são capazes de aguentá-lo, mas estava disposto a me sacrificar. Comprei um ousado cachimbo, tão curto que a fumaça penetrava diretamente nos meus olhos. Na mesma loja deixei-me atrair por um cortador mecânico de charutos, patente do Reich alemão. Eu também possuía um gorro de seda para viagens, tinha corrente de outro no relógio, e para ocasiões especialmente festivas levava comigo meu distintivo do clube de esqui de Verarlberg.

Assim, apareci na estação. Odeio aquela pressa nojenta que domina a maioria das pessoas antes da partida, por isso comprara a passagem no dia anterior. A carruagem encomendada chegou pontualmente, o carregador botou minha mala no ombro e saiu com ela, mas eu – havia ainda vinte minutos de tempo – tomei calmamente uma xícara de café no restaurante. Quando o trem chegou, fui até lá, lento e indiferente. A mala estava guardada, não havia nada a carregar senão bengala e o guarda-chuva, e podia procurar com calma o melhor lugar no trem. Quase me sentia como um boa-vida. Nisso chegou o condutor, e eu estava sem passagem! Assustei-me, então toda a minha previdência fora em vão, essa viagem começava também com uma calamidade! Nada continham, nem o bolso do casaco, do colete nem das calças. Por fim, pensei que deixara a passagem na mala. Mas esta há muito estava no trem. Demorou um terrível quarto de hora até recebe-la de novo. O funcionário contemplava com infinito desprezo o meu nervosismo crescente. O carregador, que tivera de buscar de novo minha mala, deu-me, com aplauso dos que nos rodeavam, o conselho de levar minha mãezinha comigo, caso viajasse de novo.

Enquanto eu abria a pobre mala no chão de cimento sujo, diante de toda aquela gente, enquanto remexia roupa e pantufas, livros e escova de cabelo, para achar a passagem, enquanto o suor me escorria do rosto e os visitantes mie rodeavam com irônico interesse, chegou a família Hagemann, e percebi as mulheres rindo. Mas ainda assim esperava não ter sido reconhecido. Entre minhas mãos, que remexiam desesperadas, apareceu o estojo de barbear, que caiu da bolsa, rolando pela plataforma.

- Olha aí, marca Siegfried! – exclamou um caixeiro viajante, e todos riram.

No último instante ainda consegui entrar no trem com minha mala. Coberto de suor, exausto, arrastei aquele peso pelo corredor, abri a primeira porta de cabine, e forcei a mala à minha frente, entre as pernas dos passageiros. Com minhas últimas forças tentei colocar a mala no bagageiro, num desesperado impulso, mas meu movimento foi curto demais, e a mala bateu no peito dum senhor, que caiu para trás, apavorado. Por instante, julguei-o morto. Mas ele se ergueu logo, berrando comigo, indignado. Eu o reconheci, era o senhor Hagemann. Não era nada agradável, mas enfim, a gente se conhecia e se desculpou, e furiosos fizemos as pazes. Depois saudei as damas, e só então percebi como parecia desmazelado com meu chapéu amassado, meu rosto suado, meus punhos descolados e a calças sujas de ajoelhar-me na gare. Pois as damas me receberam frias e distantes.

Como o senhor Hagemann acendesse um charuto, pedi permissão para fumar. Tirei meu novo cachimbo esportivo, e o tabaco e enchi-o cuidadosamente. O brilhante cachimbo, como como todo o aparato de enchê-lo, e acendê-lo, interessou à senhorita. Mas o cachimbo não puxava, cheirava horrivelmente, e quando, depois de desgastar toda a força dos meus pulmões e incontáveis fósforos, ele ainda não acendesse, soprei desesperado. Todo o conteúdo do tabaco, cinza, fuligem e fogo espalhou-se pelos ares, enchendo a cabine com uma infernal chuva de cinzas. Por essa cortina acinzentada ainda pude ver a senhora Hagemann esfregando desesperada os olhos, seu marido lutando com um acesso de tosse, enquanto a filha tentava afastar com os dedos alguns restos de tabaco em fogo, que tinham caído sobre seus sapatos de tecido cor de creme. Gaguejei uma palavra de desculpa, e fugi para o corredor, amaldiçoando a mim, ao cachimbo e à viagem.

Foi esse o começo da minha viagem italiana. Através de longa experiência conheço as armadilhas e obstinação com que nesses dias o destino persegue suas vítimas, e decidi resignar-me por aquele dia. Estou absolutamente convencido: tivesse voltado à minha cabine, outras desgraças teriam acontecido, uma após as outras e eu teria me prejudicado para sempre com a família. Teria pisado nos pés da mãe e furado o olho da filha com meu cotovelo, e ao pai, em vez de conhaque, teria oferecido meu frasco com a loção de barba. Ou, tentando abrir a janela para as damas, teria puxado o alarme de emergência, causado um escândalo, teria lançado a mim e à inocente família em opróbrio, perigo e infinito embaraço. Conheço tudo isso.

Por isso enfiei-me quieto num corredor lateral, depois numa outra cabine, onde passei, triste e sozinho, as 12 horas até Milão, entre comerciantes que jogavam cartas, mas ali não causei nenhuma desgraça. Joguei pela janela o cachimbo inglês junto com o tabaco. Só na alfândega revi os Hagemann, por um momento. Os velhos me ignoraram, e ainda pareciam furiosos, mas mocinha me presentou um olhar compassivo, sorrindo com simpatia, ao ver minha tristeza e contrição. Afinal eu dançara com ela algumas vezes, e recebera dela muitos pequenos sinais de simpatia. Colocara toda a minha esperança em Rapallo. Meu azar teria de ter um fim.

Mas não pensei que levava comigo na mala um instrumento do diabo. Por sorte o cachimbo inglês se fora, mas devia ter logo jogado fora também o aparelho de barba, o cortador de charutos e a caneta-tinteiro. Mas tudo aconteceu como tinha de acontecer.

Em Rapallo, pedi um quarto e desfiz a mal. Na primeira manhã quis usar o aparelho Sigfried, inaugurar o terno e chapéu novos, e assegurar uma estreia decente. Mas, ou porque o aparelho estava mal montado, ou por ter sofrido com a queda da mala, minha tentativa com o Siegfried não deu certo. Li ainda uma vez a inscrição: “Nós alemães tememos a Deus” etc. Depois comecei a agir. Foi uma terrível catástrofe. Sangrando de cima abaixo, cortado e esfolado, fitava-me meu rosto no desbotado espelho do hotel. Com dores, tive que permanecer no quarto alguns dias. Depois, deformado e desanimado, reapareci pela noite, dando meu primeiro passeio, ainda com alguns esparadrapos no rosto.

Mas eis que chegou a boa sorte. Na praia encontrei o senhor Hagemann com sua filha sem a mãe. Embevecidos com a paisagem tão bonita, estavam tão contentes e bem-dispostos, que me saudaram com a maior amabilidade. A senhorita Meta nunca fora tão gentil comigo. Obviamente sentia, por instinto, que eu estava em Rapallo só por causa dela, e veio tão abertamente ao encontro do meu silencioso cortejar, que imediatamente esqueci todas as desgraças.

Foi um anoitecer lindo, eles queriam sair de barco para o mar. Como eu soubesse italiano, aceitaram gratos minha ajuda, convidando-me para acompanha-los. Tratei tudo com o barqueiro, dei-lhe às escondidas seis francos, mentido ao encantado senhor Hagemann que barganhara até chegar a dois francos. Tornara-me quase um herói, e de qualquer modo era considerado amigo da família.

Mas devo mencionar uma pequena perturbação dessa felicidade. Enquanto passeávamos de barco sobre as águas azuis, o pai de Meta se preparara para um prazer todo especial. Conforme me contou em muitos detalhes, contrabandeara pela fronteira finos charutos importados, e guardara o último para aquela hora. Mas esquecera o canivete, e não podia cortar a ponta do charuto e isso o aborrecia. Entusiasmado, tirei do bolso o meu cortador de charutos patenteado, oferecendo-o ao senhor Hagemann. Ele contemplou o moderno instrumento, expressando desconfiança, mas depois pediu que eu lhe cortasse o charuto. Lembrava-me exatamente das instruções, e metendo a ponta do charuto no pequeno orifício, segurei-o e lancei sobre Hagemann um olhar triunfante, enquanto este olhava em expectativa. Despois, exatamente segundo as instruções, apertei a mola, rapidamente. O resultado foi horrível. O belo charuto rachou ao meio em todo o comprimento, ficando estragado, enquanto o meu indicador, prensado no aparelho, inchava, todo azul, com violentas dores.

Devo dizer que meu amigo se portou de modo brilhante. Naturalmente, ficou furioso, mas dominou-se e conseguiu esboçar um sorriso azedo, enquanto Meta ecoava uma clara gargalhada. Mordi os dentes, disfarçando a dor, que só me teria envergonhado ainda mais, e o passeio prosseguiu. O sol mergulhava no mar, tudo estava violeta e ouro, e por trás das costas do pai subitamente a mão de Meta colocara-se sobre a minha. Por mim, naquela hora, o mundo todo poderia acabar, tão feliz eu estava. Começava a escurecer, eu segurava a mão de Meta e brincava com seus dedos, e quando o senhor Hagemann disse que ele mesmo queria remar um pouco, ajudei-o a passar para o banco do remador, instruindo o barqueiro com o meu melhor italiano. Agora eu estava bem junto de Meta, seu vestido branco rebrilhava fosco no azul-escuro, e quando coloquei o casaco nos seus ombros, beijei-lhe rápida e secretamente os cabelos.

O velho sentava-se à nossa frente, na penumbra, e tínhamos de ter cuidado. No começo fiquei rígido e longe da moça, com as mãos nos bolsos do casaco, onde por nervosismo brinquei com o porta-moedas, a caixa de fósforos e depois com um pauzinho arredondado, que entrou nos meus dedos e parecia ser um lápis.

Mas quando escureceu, e infelizmente, já nos aproximávamos de novo da terra, não pude me conter mais. Tirei as mãos dos bolsos, fiz de conta que queria ajeitar meu colarinho, depondo suavemente, por trás, o braço direito em volta da cintura de Meta. Assim seguimos, felizes, sentindo-nos no paraíso, mas a praia iluminada se aproximava cada vez mais, finalmente tivemos de nos levantar e desembarcar. Ajudei a moça a passar sobre os bancos e a pequena ponte até à terra, o velho pagou ao barqueiro suas duas liras, e eu fiquei junto dos dois Hagemanns, para acompanha-los até seu hotel.

Passávamos por uma vitrina bem iluminada quando um senhor, saindo da loja, parou fitando Meta, depois a mim, depois de novo a moça. Ela percebera tudo, ficou inquieta, e olhou para si mesma. Por um momento parou, empalidecendo, depois num louco nervosismo fechou mais seu casaco, lançou-me do belo rosto branco um olhar cheio de raiva e mortal desprezo, e começou a correr, a correr o mais que podia. O pai, pensando que ela estava doente, seguiu-a destemperado com o olhar, e começou a trotar também. Fiquei atrás, perplexo e paralisado. O que acontecera agora?

Nisso aproximou-se o senhor que tanto assustara Meta, e apontou com discreto sorriso para a minha mão direita. Meu Deus, ela estava preta como a noite. Primeiro pensei nalgum terrível castigo de Deus, até que devagar entendi todo o triste acontecimento. A coisa com que eu brincara, em nervosa distração, no meu bolso, fora a tua caneta-tinteiro, que vasara, enchendo minha mão e punho de uma indestrutível tinta azul-escuro. Essa minha mão com tinta eu pusera na cintura de Meta, onde ficara, eternizado preto no branco, cada delicado aperto dos meus dedos!

Tombei junto da primeira mesinha de mármore, mandei trazer um vermute, depois outro, voltei à praia dos barcos, olhei longa e iradamente o mar escuro. Depois pesquei a caneta que pingava do bolso molhado, jogando-a nas ondas. Teria gostado de estar junto dela, pois teria me sentido melhor.

A família Hagemann viajou, e eu, há muito, não estaria mais aqui, mas ainda não tive coragem de me confiar de novo a um trem.


(por volta de 1908)



(Vivências; tradução de Lya Luft)



(Ilustração: James Tissot, Jeune fille dans une barque)





quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

AFTER “LES FLEURS”* / DEPOIS DE “LES FLEURS”, de Anne Waldman








Paul Éluard


I am 20 years old and holding on

Knowing I’m still young, I love you world


I am not 20 years old. My past is deaf, deaf


I dream a life of crystals and lie down in the grass


You think I’m crying; I don’t

Don’t hurt me — let me be



My eyes a strength the color of my wounds,

Love, what is the sun when it rains?


I tell you there are things as true as this story


When I close my eyes I kill you.





Tradução de André Caramuru Aubert:






Paul Éluard


Eu tenho 20 anos e vou levando

Sabendo que ainda sou jovem, eu te amo, mundo


Eu não tenho 20 anos. Meu passado é surdo, surdo


Eu sonho com uma vida de cristais e me deito na grama


Você pensa que eu estou chorando; eu não estou

Não me machuque — deixe-me ser


Meus olhos uma força da cor de minhas feridas,

Amor, o que é o sol quando chove?


Eu te digo que há coisas tão verdadeiras quanto esta história


Quando eu fecho os meus olhos eu te mato.




(*) Inspirado no poema do surrealista francês Paul Éluard (1895-1952), cujos últimos versos são: “Eu te asseguro que há coisas tão claras quanto esta história de amor; se eu morrer,/eu não mais saberei quem é você.”


(Ilustração: Tamara de Lempicka)








domingo, 24 de dezembro de 2017

VIVER OUTRA VEZ – Márcio Barbosa








Com o solzinho da tarde, ela entrou no apartamento. Sábado.

– A entrevista, lembra?

Olhou as roupas espalhadas, móveis empoeirados e ele desculpou-se:

– Poucos vêm aqui. Achava que minha próxima visita seria a morte.

Observou-a. Pequena, inquieta, mãozinhas curiosas nos discos e livros. Depois, pernas cruzadas – gravador ligado – murmurou, voz rouca:

– O terreiro do bairro quer fazer um trabalho sobre memória.

Ele, aborrecido, negou depoimento. Tentava esquecer o passado – fantasma que se escondia sob a cama.

– O senhor ajudou a fundar associações, a desmascarar a ideologia da falsa democracia racial – ela insistiu.

Um dia fora professor. Mas ela não sabia que agora não era mais nada? Que, há algum tempo, o coração vinha ameaçando parar?

– Minha filha, esqueça-se de mim.

Com o esforço de levantar-se arregalou os olhos. Ela assustou-se:

– Que foi?

– Tonturas, já passa.

Caiu, sem dizer mais nada.

Apavorada, ela procurou vizinhos. Um taxista veio. Gordo, dirigia com a barriga encostada ao volante. No pronto-socorro lotado, brigaram para serem atendidos. Um jovem médico os recebeu, perguntando:

– Seu pai? É só pressão um pouco alta. Vocês da raça negra são muito sujeitos a ter hipertensão.

Receitou maleato de enalapril e mandou-os embora. Na volta, no táxi, ela ouviu-o, voz trêmula de velho, sussurrar “obrigado”.

– Por fazer o senhor ficar nervoso – sorriu -, ir para o hospital?

– Por se preocupar comigo. Sabe, já estou no fim…

Ele olhou pela janela do carro. Viu crianças sem camisas jogando futebol nas ruas.

– Só não pensei – continuou – que fosse terminar viúvo, sem filhos, aqui, neste bairro, que é quase outra cidade. Quem povoou Perdizes, Bela Vista? A negrada. Minha família sempre morou lá.

– Nasci aqui – ela afirmou. – É legal. Um pouco perigoso, ultimamente. Uns amigos morrendo por causa de drogas. Dezesseis, dezessete anos. Não lhe parece que existe um plano para exterminar nosso povo?

O que o tocou, quando ela ergueu o rosto e fitou-o? Os olhos úmidos? Quase menina, tão preocupada com sua gente. Queria dizer-lhe para não se iludir, mas a frase ficou presa dentro do peito, mesmo quando ela voltou outras vezes, depois do trabalho, para ver como estava. Um dia chegou, tirou o walk-man, passou os dedos nos móveis e exclamou:

– Tem tanto pó!

– Foi acumulando com as decepções – ele brincou.

No dia seguinte, de bermudas, coxas roliças à mostra, ela espanou, varreu. Não podia ver nada envelhecer? Pensava, com a alegria de menina, em remoçá-lo? Num domingo, chegou com discos:

– Racionais, conhece? Bom pra caramba.

Ouviu e gostou. Parecia escutar a si mesmo nos versos dos raps, rapaz crescendo revoltado nos cortiços do Bixiga. Mas o que a moça queria, enchendo o lugar com música, verificando se comia direito, arrumando as camisas no guarda-roupa?

– Vê-lo recuperar-se – ela dizia. – Já está mais moço.

Acreditava no poder de cura de mãos movidas por carinho. Deu-lhe as suas e levou-o a bares onde pagodeiros punham a alma para percutir os instrumentos. Dançou com ele, sob olhares curiosos, diferentes daqueles que os vizinhos lhes dirigiam, quando passavam nas ruas, mãos entrelaçadas.

Ouvia-os dizer: Podia ser sua filha, que sem-vergonha.

Ela nem ligava. O velho mais desiludido tornava-se o mais animado. O homem que ajudara seu povo a se organizar despertava, às vezes, no trovão da gargalhada. Mas, num sábado, tristezas de outrora emergiram no poço dos olhos. Ao vislumbrá-las, fez de tudo para levá-lo à praia. Pularam sete ondas, despachando as coisas ruins que pesavam nos ombros. Gotas de água em seus cabelos eram minúsculos sóis. Deitadinhos na areia, contou a ele sobre o pai, disse que jamais o conhecera. Os olhos marejaram, uma sombra passou por seu rosto. Então, mudou de assunto e puxou-o para brincar na água.

Voltaram da viagem à noite. Entraram no pequeno apartamento rindo de tudo, de nada. Dono ainda de olhos tristes, mas animado. Bateu-lhe no peito sem feri-lo. Acariciou sua carapinha. Depois, olhou-o durante um bom tempo e beijou sua boca sorridente. Idade pra ser o pai?

– Sou virgem – ela murmurou. – Não posso engravidar.

As roupas ficaram sobre o tapete, espalhadas.

De mãos dadas na padaria, no mercado, ouviam os vizinhos:

É a sobrinha?- uns perguntavam.

Amante. – outros diziam, baixinho.

Ele ia receber a aposentadoria e ficava no ponto de ônibus meia hora. Enquanto outros reclamavam, permanecia impassível, dono de um segredo.

É a concubina. – Parecia escutar alguém sussurrando.

Sentia-se leve, até ser acometido por uma dorzinha besta no peito.

No centro da sala, o homem sentado no sofá é uma pálida lembrança daquele que, outrora, acreditara na sua gente. Que fantasmas o acompanhariam ao cemitério? Ela assustou-se, ao vê-lo com as mãos sobre o peito.

– Coração?

– Um coração enfraquecido pelas desilusões.

Por que não falava desses fantasmas?

– Não confia em mim? Quer dizer que eu não sou nada?

– O gravador – ele pediu, imediatamente após ouvi-la falar.

Esperou-a tirar o sony da bolsa e continuou:

– No início do século, previa-se o desaparecimento da nossa, não digo raça, que só existe a raça humana. É melhor etnia. As elites brasileiras queriam um país sem negros e mulatos. Quando soube dessas ideias, a luz da revolta me iluminou. Uns amigos falaram-me sobre Zumbi, sobre os quilombos, sobre união. Acreditei que a união fosse possível. Mas o sonho se desfez tão rápido! Os amigos se cansaram. O nosso povo? Desinteressado, apático. Não sei – enxugou uma lágrima – como não desapareceu.

– O que vocês fizeram foi bonito.

– São coisas que eu preciso esquecer.

– Hoje os problemas são os mesmos. Mas há pessoas jovens, querendo aprender, como eu. Quero acreditar em algo. Nosso povo sobreviveu porque acreditou na vida.

– É verdade. Parece que nós temos de adquirir uma força tão grande, parece que um amor pela vida se enraíza tão fundo dentro da gente, que nada nos abala com facilidade. E se a gente cai, é pra levantar mais forte; se apanhamos, voltamos a brigar com mais garra; se choramos, também aprendemos a extrair, lá de dentro, uma gargalhada tão gostosa, que é como se toda a alegria do mundo coubesse em nosso peito. Somos negros e temos essa força. Isso é maravilhoso.

Ela abraçou-o, beijou-o. Só então ele se deu conta de que falara com entusiasmo. Uma parte do sonho ainda vivia. Mas as dores no peito persistiram. Ela vinha mais vezes, preparava arroz integral, moderou no sal e tirou o açúcar branco.

– A pinga com carqueja eu não jogo fora – ele protestou.

Era para diabetes, um amigo tinha ensinado.

Ficava irritado com os excessos de cuidados. No fundo, sentia falta quando ela não vinha. A menina de uma geração tão diferente, com quem reaprendia a viver. A moça que acreditava nas coisas em que ele acreditara.

Num domingo, sentindo o relógio no peito se acelerar, disse-lhe:

– Não vou durar muito. Só lamento não ter tido filhos.

Notou que ela ficou calada, pensativa. Escondia algo?

Veio na segunda-feira. Preocupada, tensa. Acusou-o de cerceá-la. Tensão pré-menstrual? Que havia?

– Estou grávida – disse, por fim. – Não posso. Tenho estudos. Também não quero um filho pra crescer como eu, sem pai.

Foi até a janela. Suas lágrimas rolavam como a chuva lá fora.

– Um filho? – ele perguntou, incrédulo. – A soma do meu e do teu sonho. Olhe – pegou-lhe a mão e pôs sobre seu próprio peito – parou de doer. Podemos criar esse filho, se você quiser. – Então abraçou-a e, com a voz embargada, soluçando, falou: – Te amo.

Quando eles passavam, grávidos, ouviam os vizinhos comentarem:

É o filho – uns diziam.

O neto – outros apostavam.

– É o amor nos recriando – diziam um ao outro.




(Ilustração: Frank Morrison)



quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

DREAMING THE BREASTS / SONHANDO OS SEIOS, de Anne Sexton







Mother,

strange goddess face

above my milk home,

that delicate asylum,

I ate you up.

All my need took

you down like a meal.



What you gave

I remember in a dream:

the freckled arms binding me,

the laugh somewhere over my woolly hat,

the blood fingers tying my shoe,

the breasts hanging like two bats

and then darting at me,

bending me down.



The breasts I knew at midnight

beat like the sea in me now.

Mother, I put bees in my mouth

to keep from eating

yet it did no good.

In the end they cut off your breasts

and milk poured from them

into the surgeon’s hand

and he embraced them.

I took them from him

and planted them.



I have put a padlock

on you, Mother, dear dead human,

so that your great bells,

those dear white ponies,

can go galloping, galloping,

wherever you are.



Tradução de Beatriz Regina Guimarães Barboza:



Mãe,

estranha face divina

sobre meu lar leitoso,

aquele delicado asilo,

te comi toda.

Toda minha falta te

engoliu como um prato.



O que você ofertou

eu lembro em um sonho:

os braços sardentos me enlaçando,

o riso n’algum lugar sobre meu chapéu de lã,

os dedos de sangue atando meu sapato,

os seios pendurados como dois tacos

e então me atingindo assim,

me curvando.



Os seios que eu soube à meia-noite

soam como o mar em mim agora.

Mãe, ponho abelhas em minha boca

para me impedir a comida

mas isso de nada adiantou.

No fim cortaram fora seus seios

e o leite derramou deles

nas mãos do cirurgião

e ele os abraçou.

Eu os tomei dele

e plantei-os.



Coloquei um cadeado

em você, Mãe, querida humana morta,

para que seus grandes sinos,

aqueles queridos pôneis brancos,

sigam galopando, galopando,

onde quer que você esteja.



Tradução de Jorge Sousa Braga:



Mãe,

estranho rosto de deusa

sobre a minha casa de leite,

esse delicado asilo,

devorei-te.

Todas as minhas necessidades tragaram-te

como se fosses comida.





O que me deste

recordo-o num sonho:

os braços sardentos envolvendo-me,

o riso algures sobre o meu chapéu de lã,

os dedos de sangue atando os meus sapatos,

os seios suspensos como dois morcegos,

precipitando-se depois sobre mim,

até me dobrar.





Agora os seios que conheci à meia-noite

batem em mim como o mar.

Mãe enchi a boca de abelhas

para evitar comer

e isso não foi nada bom para ti.

Finalmente amputaram os teus seios

e o leite derramou-se

nas mãos do cirurgião

e ele abraçou-os

e eu retirei-lhos

e plantei-os.





Coloquei-te um cadeado,

mãe, querida morta humana,

para que as tuas grandes campânulas,

aqueles queridos póneis brancos,

possam galopar, galopar,

aonde quer que estejas.





(Ilustração: Frida Kahlo - My Nurse And I; 1937)

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

ESTÃO APENAS ENSAIANDO, de Bernardo Carvalho







Estão apenas ensaiando. Ao mesmo tempo em que os dois atores avançam pelo palco, saindo das coxias à esquerda para o centro da cena, um homem entra na sala escura, e com ele uma nesga da luz das cinco pela fresta da porta que entreabriu ao fundo e que separa a plateia do hall e da rua, onde o dia segue o seu curso com um burburinho de buzinas, motores e sirenes. O diretor, na quinta fila, procura com a mão, tateando, a coxa de sua assistente, para lhe dizer alguma coisa ao ouvido, e o iluminador interrompe a piada que ia sussurrando ao técnico a seu lado, no mezanino, já que retomam a cena. Quando os dois atores colocam os pés de novo no palco, avançando das coxias à esquerda para o centro, e interrompendo também o que sussurravam um ao outro nos bastidores, para passar em alto e bom som ao diálogo que decoraram, o homem que acabou de entrar ao fundo é ainda menos que um vulto sem rosto, porque já não tem nem mesmo a nesga de luz das cinco para destacá-lo da penumbra, agora que a porta que separa a sala escura do hall e da rua se fechou. O diretor com a mão na coxa da assistente, depois de lhe sussurrar qualquer coisa ao ouvido, que a faz rir baixinho, controlada, espera ansioso, e pela enésima vez, que a fala seja dita pelo ator com a entonação desejada, e o iluminador, no mezanino, aguarda por seu turno uma nova interrupção - no fundo, mesmo que inconscientemente, torce por mais um fracasso da interpretação, para poder terminar de uma vez por todas a piada que contava ao técnico. Um ator diz ao outro, no centro do palco: "Você é o malfeitor; e por isso preciso saber quem é você, onde está, de onde vem, do que é capaz para ter tamanho poder e me provocar sem prevenir, devastando o meu pasto verdejante, e minando, para derrubá-lo, o meu muro de arrimo." E é quando o outro, que embora sem a foice ou o manto (estão apenas ensaiando) responde pela morte, vai abrindo a boca, que o diretor mais uma vez, tirando a mão da coxa da assistente, interrompe a cena com um gesto, para perguntar num tom propositalmente inaudível, de tão irritado que está, quantas vezes mais vai ter de explicar. Ele repete, como se falasse para dentro, que se trata de um texto do século XV, que o humilde lavrador invoca a morte (aqui representada por um homem) com as palavras que lhe restam como último recurso, quer que ela se compadeça dele e lhe devolva a mulher adorada, vítima das atrocidades da guerra. O diretor repete irritado que falta vigor à interpretação do ator, e desespero, não parece que o humilde lavrador esteja realmente sofrendo ou indignado pela injustiça da morte da mulher na flor da idade. Diz isso aos dois atores e depois, enquanto eles voltam para as coxias, sussurra a mesma coisa ao ouvido da assistente, arrematando com uma gracinha que a faz sacudir num risinho sincopado. De volta às coxias, o ator que interpreta o humilde lavrador aproveita para retomar com o outro que interpreta a morte o sussurro que havia interrompido. Desanca o diretor, diz que não dá para mostrar desespero com um texto daqueles, inverossímil, ninguém vai falar com a morte daquele jeito depois de perder a mulher de uma maneira violenta. Resmunga baixinho qualquer coisa sobre o tipo de representação que aquela cena exige, na sua opinião, e que tem a ver com um certo distanciamento. De repente, no meio da frase sussurrada, olhando o relógio (não precisa tirá-lo, estão apenas ensaiando), exclama a hora num murmúrio, fala qualquer coisa sobre o atraso da própria mulher, que ela já devia ter chegado, e ao mesmo tempo em que diz isso, o iluminador no mezanino tenta inutilmente sussurrar o final da sua piada, porque mal esboça o desenlace cômico e os dois atores já estão de volta ao palco, seguindo os sinais mudos da assistente do diretor, e o homem ao fundo da sala, após uns instantes parado indistinto dentro da sombra, já avança alguns passos pelo corredor lateral da plateia. O ator que interpreta o humilde lavrador vira-se para o outro, que interpreta a morte, embora sem foice ou manto (estão apenas ensaiando), e vai abrir a boca quando percebe que, em vez de olhá-lo, o diretor, sempre com a mão na coxa da assistente, cochicha algo ao seu ouvido que a faz levar a mão aos lábios para impedir que o riso transborde. Percebe o diretor, que está no centro da sala, na quinta fila, mas não o vulto que avança pelo lado, na penumbra. Irritado, o ator repete a cena idêntica à que tinha feito antes, declamando sua fala com o mesmo distanciamento que lhe parece tão apropriado, ao que o diretor enfurecido se levanta e, balançando os braços e sacudindo a cabeça, mudo, dá a entender que está péssimo. Com a nova interrupção, o iluminador trata de retomar do início a piada que contava ao técnico, porque, a cada vez que a retoma, volta sempre ao começo com medo de que a quebra interfira no efeito cômico. Seu sussurro agora é mais corrido, tentando fazer caber a piada inteira no espaço de tempo entre a interrupção do diretor e o retorno dos atores ao palco. Nas coxias, enquanto olha o relógio (estão apenas ensaiando), o ator que faz o humilde lavrador repete baixinho ao outro, que faz a morte, que a mulher a esta altura já devia ter chegado, como tinham combinado, porque ele próprio lhe dissera que tudo terminaria às cinco, não podia imaginar que o diretor se revelasse um tamanho idiota justamente com esse texto inverossímil, e que o ensaio se arrastasse tanto. A assistente dá o sinal mudo para que recomecem e o iluminador interrompe inconformado, mais uma vez, já quase no fim, a piada que sussurrava ao técnico no mezanino, e que corre o risco de perder a graça pela repetição. O homem que vinha avançando lentamente pelo corredor lateral agora para à altura da quinta fila ao ver os dois atores de novo no palco. O humilde lavrador vira-se para a morte e diz: "Você é o malfeitor." O diretor pede que parem. O tom compreensivo de sua voz é apenas um disfarce que o ator está cansado de conhecer e em geral precede uma crise de nervos. O diretor está tentando se controlar, sussurra: "Será que você não compreende? Ele perdeu a mulher, na flor da idade, está desesperado, indignado contra a injustiça da morte e dos homens e por isso a invoca, ainda acredita que pode convencê-la a lhe devolver a mulher adorada. Ninguém diz isso com distanciamento.” Os dois saem do palco. Olhando o relógio, o humilde lavrador sussurra de novo à morte sem foice ou manto algo sobre o atraso da mulher, que a esta altura já devia estar sentada na plateia. Não entende por que ela ainda não chegou, como se já não bastasse o atraso do ensaio, graças à imbecilidade do diretor. E enquanto o humilde lavrador sussurra a sua indignação, o homem que antes era apenas um vulto já avança pela quinta fila, agora de lado, na direção do diretor e de sua assistente, que só o veem quando já está a apenas algumas poltronas deles. Senta-se para se fazer menos notado quando a assistente já está com o braço levantado, indicando aos atores que podem recomeçar, e enquanto ele lhes revela num murmúrio o que veio anunciar sobre o mundo do lado de fora, e que os petrifica, o iluminador no mezanino se aproxima num sussurro da conclusão da piada. O humilde lavrador de relógio e a morte sem foice ou manto (estão apenas ensaiando) entram no palco. O lavrador vira-se para a morte e reinicia a sua ladainha com a mesma entonação e o distanciamento que lhe parecem mais apropriados. Mas desta vez, para sua surpresa, o diretor não o interrompe, porque tem os olhos arregalados e está lívido enquanto o homem, antes apenas um vulto, lhe sussurra algo ao ouvido. E ao ver o homem que sussurra ao ouvido do diretor, e o olhar deste e de sua assistente, que pela primeira vez não o interrompem, mas permanecem a encará-lo com os olhos aterrados e arregalados (a assistente com os olhos cheios de lágrimas diante da súplica que o lavrador faz à morte) enquanto escutam o que o outro lhes diz ao ouvido, curvado na poltrona ao lado, embora a entonação no palco tenha sido a mesma e devesse portanto, pela lógica, ser mais uma vez interrompida, o próprio ator interrompe a ação e por fim compreende aterrorizado e a um só tempo a sinistra coincidência da cena e do momento, o que aquele vulto veio anunciar sobre o mundo do lado de fora, com buzinas, motores e sirenes; compreende por que a mulher não apareceu e afinal o que sente o humilde lavrador; compreende por que o diretor não o interrompeu desta vez, porque por fim esteve perfeito na pele do lavrador em sua súplica diante da morte; compreende que por um instante encarnou de fato o lavrador, que involuntária e inconscientemente, por uma trapaça do destino, tornou-se o próprio lavrador pelo que aquele vulto veio anunciar; compreende tudo num segundo, antes mesmo de saber dos detalhes do acidente que a matou atravessando a rua a duas quadras do teatro, diante dos olhos arregalados do diretor e da assistente, sob as gargalhadas incontidas do iluminador e do técnico no mezanino, chegando ao fim da piada.



(Ilustração: Edvard Munch - The Death and the Young Girl, 1893)