domingo, 1 de fevereiro de 2026
O PAI DE HORACIO, de Enrique Vila-Matas
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
UN ANARQUISTA / UM ANARQUISTA, de William Ospina
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
O BONDE DE BERLIM OU, KURT TUCHOLSKY E O FASCISMO, de Bruna Della Torre
O fiscalizadoEis o bonde berlinense… mas não deve ser tão diferente em outros trens… Nele as pessoas se sentam e sonham e fitam e conversam e às vezes leem ––. De repente, um homem uniformizado adentra o vagão e diz: “passagens, por favor” – é um funcionário cuja função principal é controlar os passageiros.Obedientemente, tudo nas bolsas é revirado. Todos apresentam o pedacinho de papel ao funcionário. Apenas um perdeu a sua passagem.É realmente um povo subserviente, o povo alemão. Porque todos agora encaram o homem como se ele tivesse cometido um crime. Eles acreditam que o funcionário os controla. Lá está o funcionário educado, que não faz nada para reforçar essa superstição. Mas eles pensam assim e estão tomados pelo medo e desprezam todos o homem que perdeu a passagem. Num piscar de olhos, todo o vagão está contra ele. Alguns poderiam observar com um pouco de empatia a maneira como ele se debate e estremecem ao se pensar nessa situação terrível…Eles se encolhem. Ficam com os rostos vermelhos. O perdedor, roxo. Ele se desculpa. Ele não diz: “Eu o perdi, mas vou pagar minha parte…” Ele se sente flagrado. Não se pode imaginar que se tem diante de si um adulto, que talvez tenha uma esposa, filhos que deve criar, funcionários para quem ele rosna… Aqui ele é muito pequeno. Porque aqui apareceu o mais sagrado para um alemão: o uniforme. E aqui acaba a diversão.Uma pequeneza, uma insignificância, certamente. Mas, mais uma vez, uma simples observação da vida cotidiana, que mostra como aqui o indivíduo nem sequer se atreve a dizer: “Olá! Cá estou eu!” – Ao contrário, ele fica com o rosto vermelho, se encolhe e procura a passagem.E isso é uma miséria da vida alemã.Vorwärts, 18.09.1913 (tradução da autora)
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
1970 / 1970, de Elke Erb
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
SAUDAÇÃO PARA O FUTURO, de Kurt Tucholsky
sábado, 17 de janeiro de 2026
CANÇÃO DO AMOR LIVRE, de Jacinta Passos
Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.
Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.
Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.
Se me quiseres amar.
Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.
Teu corpo.
Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.
(Ilustração: Gerda Wegener: 1886-1940 - Lili Elbe)
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
O SEXO DA VOVÓ, de André Caramuru Aubert
domingo, 11 de janeiro de 2026
MANUAL DE DESPEDIDA PARA MULHERES SENSÍVEIS, de Filipa Leal
não chorar para não enfraquecer o emigrante,
mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo,
dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas
com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala
que não pode levar mais de vinte quilos
(quanto pesará o coração dele? e o meu?),
três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento,
oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia
e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre,
ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda
(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui),
pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe,
pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas
e mesmo assim não chorar, nunca chorar,
mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar,
tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes,
uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar,
apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente,
mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas,
que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também
os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas
até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem,
com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico,
e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez,
cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado,
cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal.
É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um.
Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro.
Mas que não chore.
(Vem à Quinta-feira; 2016)
(Ilustração: Yana Khliebnikova – Invisível)
quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
POR QUE LER?, de Harold Bloom
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
SEGREDO, de Fernando Pinto do Amaral
Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.
(Às Cegas)
(Ilustração: Johannes Vermeer de Delft - Girl with a Pearl Earring)
sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
COLINAS COMO ELEFANTES BRANCOS, de Ernest Hemingway





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