segunda-feira, 22 de junho de 2026

DER PANTHER [IM JARDIN DES PLANTES, PARIS] / A PANTERA (NO JARDIN DES PLANTES, PARIS), de Rainer Maria Rilke

 


Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe

so müd geworden,dass er nichts mehr hält.

Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe

und hinter tausend Stäben keine Welt.

 

Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte,

der sich im allerkleinsten Kreise dreht,

ist wie ein Tanz von Kraft um eine Mitte,

in der betäubt ein grosser Wille steht.

 

Nur manchmal schiebt der Vorhang der Pupille

sich lautlos auf -. Dann geht ein Bild hinein,

geht durch der Glieder angespannte Stille -

und hört im Herzen auf zu sein.

 

 

Tradução de Augusto de Campos:


De tanto olhar as grades seu olhar

esmoreceu e nada mais aferra.

Como se houvesse só grades na terra:

grades, apenas grades para olhar.

 

A onda andante e flexível do seu vulto

em círculos concêntricos decresce,

dança de força em torno a um ponto oculto

no qual um grande impulso se arrefece.

 

De vez em quando o fecho da pupila

se abre em silêncio. Uma imagem, então,

na tensa paz dos músculos se instila

para morrer no coração.

 

 

Tradução de Geir Campos:

 

 

Varando a grade, a nada mais se agarra

o olhar tomado de um torpor profundo:

para ela é como se houvesse mil barras

e, atrás dessas mil barras, nenhum mundo.

 

Seu firme andar de passos gráceis, dentro

dum círculo talvez muito apertado,

é uma dança de força em cujo centro

ergue-se um grande anseio atordoado.

 

De raro em raro, só, o véu das pupilas

abre-se sem ruído — e deixa entrar

a imagem, que sobe, pelas tranquilas

patas, ao coração, para aí ficar.

 

Tradução de José Paulo Paes:

 

Seu olhar, de tanto percorrer as grades,

está fatigado, já nada retém.

É como se existisse uma infinidade

de grades e mundo nenhum mais além.

 

O seu passo elástico e macio, dentro

do círculo menor, a cada volta urde

como que uma dança de força: no centro

delas, uma vontade maior se aturde.

 

Certas vezes, a cortina das pupilas

ergue-se em silêncio. – Uma imagem então

penetra, a calma dos membros tensos trilha –

e se apaga quando chega ao coração.

 

(Neue gedichte I; Novos poemas I; 1907)

 

(Ilustração: foto da pantera negra - no Zoo Negara, Malaysia)

sexta-feira, 19 de junho de 2026

INDO EMBORA, de Antônio Prata

 


Como em tantas outras madrugadas, acordo com um chorinho na babá eletrônica. É a Olivia, minha filha mais velha, de um ano e oito meses. Na maioria das vezes, ela vira pro lado e volta a dormir, sozinha. Em algumas noites, contudo - e é o caso desta aqui -, ela senta no berço e começa a gritar “Papai! Papai! Papai!” ou “Mamãe! Mamãe! Mamãe!” até que um de nós apareça para ouvir suas reivindicações.

São dois filhos, duas babás eletrônicas, cujos sinais se embaralham, de modo que não ouço bem se é “Papai!” - e serei eu a sair tropeçando pela noite fria - ou “Mamãe!” - e caberá à Julia explicar que não é hora de mamar, nem de ir pra escola, nem de brincar com o Senhor Batata, nem de ouvir Galinha Pintadinha, mas hora de dormir.

“É papai ou mamãe?”, balbucio, de olhos fechados, ao que minha mulher, sem nenhuma compaixão, sem nem sequer segurar a minha mão ou fazer um cafuné preparatório, dispara: “É ‘Arthur'”. Uma espada samurai atravessa o meu peito.

É claro que eu sabia que esse dia iria chegar: o dia em que aquele bebezinho lindo que embalei em meus braços, na maternidade, aquele serzinho indefeso que eu trouxe pra casa, a 30 km/h, com pisca alerta ligado, pela Raposo Tavares, aquele bumbunzinho rechonchudo que tantas vezes limpei, aqueles olhões deslumbrantes diante dos quais expliquei “esse é o leão”, “essa é a lua”, “esse é o manjericão”, “essa é a chuva”, iriam me trocar por outro homem. Achava, porém, que esse dia só viria lá por 2030-2027, na previsão mais pessimista.

Pensando bem, nem havia pessimismo na previsão. Imaginava, não sei se do alto do meu narcisismo ou do fundo da minha ingenuidade, que iria encarar tal dia com satisfação. Afinal, eu haveria criado minha filha para o mundo. Que ela saísse por aí se apaixonando e namorando seria um sinal da sua saúde e do nosso acerto.

Um pai enciumado? Coisa mais anos 1950 - e, no entanto, meus amigos, quando descubro que não é a mim que ela implora para salvá-la do escuro e da solidão, mas ao Arthur, colega da escola – um rapaz mais velho, diga-se de passagem, já beirando os três anos - um nó de marinheiro se forma na minha garganta.

Estirado na cama, trêmulo, me dou conta de que, nas últimas semanas, ela já vinha dando sinais daquela paixão, e, pior, eu os vinha recebendo com patente irritação. Eu pegava o “Marcelo, Marmelo, Martelo”, a Olivia punha o dedo na capa e dizia: “Arthur!”. “Não, Olivia, não é o Arthur, é o Marcelo!”. Aparecia o irmão da Peppa, na TV, ela corria até a tela, sorrindo: “Arthur!”. “Não, Olivia, não é o Arthur, é o irmão da Peppa!”. Huguinho, Zezinho, Luizinho? “Arthur! Arthur! Arthur!”. “Não, Olivia, eles são patos, não são o Arthur!”.

“Se você não vai, eu vou!”, resmunga a Julia, saindo da cama, surpreendentemente insensível ao meu cataclismo emocional. Só, vendo a Olivia na telinha da babá eletrônica, compreendo que não é ciúmes o que eu sinto, é solidão, uma solidão inédita e brutal: aquela menininha sentada no berço já começou a sair de casa, está indo embora, minuto a minuto, desde o dia em que a embalei no colo, na maternidade; logo, logo, ela parte, de braços dados com algum Arthur, depois eu fico velho, aí eu morro, então acabou-se o que era doce, ou agridoce, tão rápido, tão rápido, que coisa mais doida é isso tudo.



(Ilustração : Norman Rockwell - Girl at Mirror – 1954)

terça-feira, 16 de junho de 2026

ISAÍAS / ISAÍAS, de Olalla Castro


Destrúyelo todo para mí, Señor.

Que los impíos caigan sobre la tierra

cono el fruto de un árbol al varear sus ramas.

Que la muerte se esparza cual semilla.

Castiga, Señor, castiga,

a los cínicos, los ciegos, los violentos.

Golpea a quienes nos han golpeado.

Júzgalos. Condénalos.

Aplasta con tu mano sus manos miserables.

Que todos los pueblos menos el nuestro mueran.

Que las ciudades caigan menos Jerusalén.

Que nosotros, los únicos justos,

reeinemos con nuestra única verdad.



Tradução de Isaias Edson Sidney:



Destrói tudo por mim, Senhor.

Que caiam os ímpios sobre a terra

como o fruto de uma árvore quando se fustigam seus ramos.

Que a morte se espalhe como semente.

Castiga, Senhor, castiga

os cínicos, os cegos, os violentos.

Fere quem nos feriu.

Julga-os. Condena-os.

Esmaga com tua mão suas mãos miseráveis.

Que morram todos os povos, menos o nosso.

Que se destruam as cidades, menos Jerusalém.

Que nós, os únicos justos,

reinemos com a nossa única verdade



(Todas las veces que el mundo se acabó)



(Ilustração: Viktor Vasnetsov - quatro cavaleiros do Apocalipse – 1887)

sábado, 13 de junho de 2026

O QUE QUEREMOS SABER?, Alberto Manguel



A maior parte de minha infância em Tel Aviv transcorreu em silêncio: eu quase nunca fazia perguntas. Não que eu não fosse curioso. É claro que eu queria descobrir o que se guardava trancado na caixa pirogravada ao lado da cama de minha preceptora, ou quem morava atrás das cortinas dos trailers estacionados na praia de Herzliya, onde eu era severamente advertido a nunca passear. Minha preceptora respondia cuidadosamente a quaisquer perguntas, após o que me parecia uma longa e desnecessária consideração, e suas respostas eram sempre breves, factuais, não permitindo réplica ou discussão. Quando eu quis saber do que era feita a areia, sua resposta foi “de conchas e de pedras”. Quando eu fui buscar informação sobre o horrível Erlkönig, do poema de Goethe, que eu tinha de aprender de cor, a explicação foi: “É só um pesadelo”. (Como a palavra alemã para pesadelo é Alpentraum, eu imaginava que pesadelos só poderiam acontecer nas montanhas.) Quando eu me perguntei por que era tão escuro à noite e tão claro durante o dia, ela desenhou uma série de pontos formando um círculo num pedaço de papel, que tencionava representar o sistema solar, e depois me fez decorar os nomes dos planetas. Nunca se recusou a responder e nunca me estimulou a questionar.

Só muito mais tarde descobri que fazer perguntas poderia ser outra coisa, semelhante à emoção de uma busca, promessa de algo que tomava forma enquanto acontecia, uma progressão de explorações que cresciam numa troca recíproca entre duas pessoas e que não requeria uma conclusão. Não há como exagerar a importância de ter liberdade para fazer tais inquirições. Para uma criança, elas são essenciais para a mente assim como o movimento é essencial para o corpo. No século XVII, Jean-Jacques Rousseau afirmou que uma escola deveria ser um espaço onde se dava livre alcance à imaginação e à reflexão, sem qualquer propósito óbvio ou prático ou qualquer objetivo utilitário. “O homem civil nasce, vive e morre na escravidão”, ele escreveu. “Ao nascer, ele é costurado em panos que o enfaixam; ao morrer, é pregado dentro de um caixão. Enquanto mantém forma humana, é acorrentado por nossas instituições.” Não é treinando nossas crianças para ingressar em qualquer atividade requerida por nossa sociedade, insiste Rousseau, que elas serão e cientes em suas tarefas. Elas devem ser capazes de usar a imaginação sem constrangimentos antes de poderem criar qualquer coisa de valor.

Um dia, um novo professor de história começou a aula nos perguntando o que queríamos saber. Estaria se referindo ao que nós queríamos saber? Sim. Sobre o quê? Sobre qualquer coisa, qualquer noção que nos ocorresse, qualquer coisa que quiséssemos perguntar. Após um silêncio de espanto, alguém levantou a mão e fez uma pergunta. Não me lembro qual foi (uma distância de mais de meio século me separa daquele valente inquiridor), mas lembro que as primeiras palavras do professor eram menos uma resposta do que uma dica para outra pergunta. Talvez tenhamos começado querendo saber o que faz um motor funcionar; acabamos perguntando como Aníbal tinha conseguido cruzar os Alpes, o que lhe dera a ideia de usar vinagre para quebrar as rochas congeladas, o que deve ter sentido um elefante ao cair mortalmente congelado na neve. Naquela noite cada um de nós sonhou seu próprio e secreto Alpentraum.



(Uma história natural da curiosidade; tradução de Paulo Geiger)



(Ilustração: Frans Francken le Jeune (1619) - Un Cabinet de curiosités)


quarta-feira, 10 de junho de 2026

NO TITLE / SEM TÍTULO, de Upile Chisala

  




sadly,

when the ocean is your border

you must make do.

home is far

and your hunger for it

might make your bones ache.

so you study supermarkets

till you know where

to can find

goat meat

and

cassava

and

corn meal

and

peanut flour

and

okra

and

dried fish

and

pumpkin leaves,

food that jogs your memory,

after all

you must make do.

I am sorry,

home is far and

you’re hungry for it

and

the stubborn ocean won’t disappear.



Tradução de Melissa Quintela Martinez:



infelizmente,

quando o oceano é sua fronteira

você não tem muita escolha.

seu lar está longe

e você está faminta por ele

é de doer na alma

então você pesquisa por supermercados

até saber onde

pode encontrar

carne de cabra

e

mandioca

e

farinha de milho

e

farinha de amendoim

e

quiabo

e

peixe seco

e

folhas de abóbora,

alimentos que trazem lembranças,

afinal de contas

você não tem outra escolha.

Eu sinto muito,

seu lar está longe

e você está faminta por ele

e

o teimoso oceano não vai desaparecer.



Tradução de Izabel Aleixo:



Infelizmente,

Quando o oceano é o seu limite,

Você tem que se virar.

Seu lar está distante

E a sua fome dele

Pode fazer os seus ossos doerem.

Então você estuda os supermercados

Até saber onde achar

Carne de cordeiro e

Aipim e

Fubá e

Farinha de amendoim e

Quiabo e

Peixe seco e

Folhas de abóbora,

Comida que mexe com a sua memória,

Afinal,

Você tem que se virar.

Sinto muito,

Seu lar está distante

E

Você tem fome dele

E

O oceano obstinado não irá desaparecer.



(Soft Magic / Eu destilo melanina e mel)


(Ilustração: Norman Rokwell - immigrants stepping onto Ellis Island)

domingo, 7 de junho de 2026

DESCOBRI QUE PINTAR É COMO ESCREVER UM POEMA, de Antônio Aurélio Cassiano



Não quero pintar o óbvio: lua sobre o mar e seu rastro de luz. O sol poente e um céu laranja com eventuais pássaros, em preto, a flutuar sobre a paisagem.

Ou árvores esguias e jogos de luz e sombras, ou cenas nordestinas de estradas de terras vermelhas, montanhas e caatinga seca e cinzenta.

Eu queria algo que contivesse tudo isso, mas sem pauta ou compromisso com cartas-programas de movimentos, muitos dos quais já fiz até parte, e ainda hoje defendo. Gostaria de manipular tintas, através de pincéis, para fazer alquimia com as possibilidades que as cores oferecem.

Sem compromisso com o certo ou o errado — afinal, não domino a ciência dessa arte — mas acho que ela é tão ampla, bela e generosa, que permite a senhores (no sentido da idade mesmo) se dar ao desfrute de exercê-la sem pudor.

Claro que não espero que vejam o resultado das minhas aventuras como arte, apesar de me permitir me alegrar — não com opinião meramente estética, mas até mesmo consciente das minhas limitações de manejar o pincel, contentando tintas sobre a tela em branco e produzindo imagens que ainda não sei fazer.

Mas a possibilidade única de apenas misturar cores e dar formas, através do manejo do pincel sobre a superfície em estado de passividade ao nosso desejo de criar luz e movimentos sobre a tela branca, é incrível.

Descobri que é como escrever um poema.

Você diz o que quer e deixa o outro ler o que quiser.

E daí, os dois — você e o leitor/observador — constroem a sua própria história sobre o que você foi capaz de fazer.

Não pretendo aprender a pintar como os mestres que expõem e usam a pintura como comunicação de beleza estética. Só a quero fazer como outra forma de escrever poemas.



(Ilustração: Antônio Aurélio Cassiano - vert comum)


quinta-feira, 4 de junho de 2026

TARDE NO RECIFE, de Joaquim Cardozo



Da ponta Maurício o céu e a cidade.

Fachada verde do Café Máxime.

Cais do Abacaxi. Gameleiras.

Da torre do Telégrafo Ótico

A voz colorida das bandeiras anuncia

Que vapores entraram no horizonte.



Tanta gente apressada, tanta mulher bonita.

A tagarelice dos bondes e dos automóveis.

Um carreto gritando — alerta!

Algazarra, Seis horas. Os sinos.



Recife romântico dos crepúsculos das pontes.

Dos longos crepúsculos que assistiram à passagem dos fidalgos holandeses.

Que assistem agora ao mar, inerte das ruas tumultuosas,

Que assistirão mais tarde à passagem de aviões para as costas do Pacífico.

Recife romântico dos crepúsculos das pontes.

E da beleza católica do rio.




(Ilustração: Militão dos Santos - Recife antigo - marco zero)


segunda-feira, 1 de junho de 2026

O SEGREDO IRREDUTÍVEL DA POESIA, de Ivan Junqueira

  


Na poesia de Manuel Bandeira, como na de qualquer poeta cuja obra comporte momentos de transição entre um e outro estágio instrumental, o recurso da dissolução rítmica encontra-se intimamente relacionado à técnica do verso livre, ou seja, à ''libertinagem'' (Advirta-se que esse conceito de dissolução rítmica não corresponde, como o pretende Adolfo Casais Monteiro em seu longo estudo sobre Manuel Bandeira, à supressão do ritmo, o que, em outras palavras, equivaleria, conforme didaticamente observa Emanuel de Moraes, à aceitação de ''sua tese da poesia sem ritmo nenhum, mais do que dissoluta, portanto''. O que se deve entender aqui por ''dissolução rítmica'' refere-se apenas à modulação do ritmo mediante uma ruptura dos esquemas métricos tradicionais). Ao analisar esses processos de fratura em O ritmo dissoluto, o próprio Bandeira o define como ''um livro de transição entre dois momentos'' de sua poesia, acrescentando ainda haver sido através dele que alcançou a ''completa liberdade de movimentos, liberdade de que cheguei a abusar no livro seguinte, a que por isso mesmo chamei libertinagem, torna-se assim muito claro em que sentido se deve interpretar essa ''libertinagem'', ou seja, enquanto lúcida e lírica licenciosidade poética. Em suma: ''libertinagem de temas, de matéria. Total liberdade. A liberdade que é a primeira condição para a libertinagem''.

E assim também o entenderam, já na época, ensaístas tão argutos quanto Sérgio Buarque de Holanda. Onestaldo de Pennafort e Pedro Dantas, que assinam, ao lado de Abgar Renault (autor de um magistral estudo sobre os milagres operados por Bandeira em suas traduções de poetas) e de Rodrigo Melo Franco de Andrade, os textos de avaliação crítica mais percucientes até então escritos sobre a poesia de Bandeira. Ainda com relação a essa ''libertinagem'', a esse lirismo que se quis apenas enquanto ''libertação,'' surpreende a funda incompreensão com que a analisou Tristão de Ataíde, segundo quem ela seria como que um ''sonho mau'' ou um ''manto efêmero de algodão'' que o poeta teria atirado aos ombros ''para chocar a galeria''. O propósito de ''chocar a galeria'' era exclusivo do Modernismo, e não de Bandeira, cuja poesia, além de prescindir da nova ordem estética, perdura para aquém e além dos limites cronológicos do movimento. E mesmo que se pudesse arguir o fascínio de uma libertinagem espiritual por parte do autor, admita-se que esta foi sempre de natureza antes estética do que mundana e social.

Mas o que teria de fato levado Bandeira a adotar o verso livre? E como pôde ele, cuja formação poética transcorre em estrita observância aos cânones da tradição clássica, realizá-lo com tanta mestria, executando assim o salto que o impeliu da evanescente melodia simbolista à áspera harmonia do Modernismo? No estupendo ensaio que escreveu sobre a poética do autor, Onestado de Pennafort pinça o nervo da questão: ''Como todo mestre, ele sentiu um dia a necessidade de se evadir da ordem estabelecida para uma ordem especial de desmanchar tudo para começar de novo. Toda evasão supõe o cansaço daquilo a que se deseja fugir. Sua obra resumia, condensado, estratificado, todo o acervo dos princípios estéticos que permitiram e inspiraram em todas as línguas e em tantos séculos de literatura a criação de tantas obras-primas; numa palavra, sua obra era um racourci de toda a arte poética que desde os latinos regeu a pena dos poetas.'' Assim, Bandeira só pôde desencadear sua revolução poética - que é, também, a rebelião humanística de um homem de cultura - a partir da tradição, ou seja, só pôde descobrir o novo através do antigo.

Na verdade, ao alcançar essa encruzilhada, Bandeira não mais dispunha de quaisquer opções. Apesar de haver sido uma ''conquista difícil'', como ele próprio confessa no Itinerário de Pasárgada, o verso livre se lhe impunha então não tanto como alternativa, e sim como fatal desiderato. Bandeira já esgotara todas as possibilidades rítmicas da polimetria e, saturado da usura e da algidez da linguagem convencional, começara a tangenciar, como observa Sérgio Buarque de Holanda, o ideal da ''forma significante'' ou do ''ritmo semântico''. E acrescenta o ensaísta: ''À medida que assim se apuram, no entanto, as possibilidades técnicas de Bandeira, uma recusa em atender aos padrões bem aceitos evolui para uma impaciência quase agressiva ante certos processos gastos e fáceis.'' Seus poemas vão gradualmente perdendo aquele ''sentimento da medida'' e, em alguns casos, como seria o do Noturno da Rua da Lapa, já florescem naquela terra de ninguém que se estende como um desafio entre a poetry e a fiction. Restava-lhe, porém, o segredo irredutível da poesia, ou seja, a unidade rítmica do verso, único elemento capaz de tornar poética até mesmo a prosa mais banal, Bandeira se antecipara assim ao Modernismo. E seu verso era agora ''belo, áspero, intratável'', como aquele cacto que ''lembrava os gestos desesperados da estatuária''.



(Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 2/2/2005)



(Ilustração: Rafal Olbinski - to have or to have not – 2021)


sexta-feira, 29 de maio de 2026

CARTA A MARIA CLEA, de Maria Ângela Alvim





Embora faça sol, a dor oprime a altura.

Converso com você, mas sei que é conjetura.



E sendo aqui montanha, verdade aprofundo:

Por quê? Por que nos nutrirmos deste mundo?



Deste mundo, exílio, — porta de nossas perdas

onde o tempo nos soma pelas horas esquerdas.



Não sabemos talvez, ou em saber não bastamos

que o mundo é sedento e nós o desalteramos.



Secam rios de pranto onde a sede se apura

e desagua o labirinto de uma carne obscura.



É preciso nos nutrirmos deste mundo, — quantos

somos, sirvamos à sua fome, — fome de tantos.




(Ilustração : Camille Corot - Jadins da Villa d'Este 1843)


terça-feira, 26 de maio de 2026

O TAMBOR CHINÊS, de Ihara Saikaku

 


No bairro de Nishijin, na cidade de Quioto, estão localizadas as oficinas de tecelagem de seda. Entre os mestres que viviam dessa profissão, havia um que, não obstante a sua destreza no ofício, via a sua situação econômica piorar dia por dia. No fim do ano, encontrava-se num beco sem saída. Falou com a mulher, e ficou decidido que deixariam o bairro na calada da noite, às escondidas dos credores. Começou ele, então, a vender os móveis e utensílios da oficina, secretamente, mas o fato não passou desapercebido dos seus colegas. Os mais chegados, que somavam uma dezena, lamentaram que tal ocorresse justamente com quem se mostrara sempre comedido, honesto, prestativo, homem de alma piedosa e isenta de pecados. Desejosos de salvá-lo da situação em que encontrava, encarregaram um deles, escolhido por mais avisado, de indagar do estado real das dívidas do colega. O enviado ficou sabendo que elas mal chegavam a oitenta ryos (cerca de duas libras ouro). Disse então, ao casal em apuros:

– Por que abandonar a oficina, que mantiveram durante tanto tempo por causa de tão pouco? Não se amofinem: são coisas da vida. Deixem tudo por nossa conta. Vão tratar dos preparativos para o Ano Novo. Deem às crianças presentes bonitos. Quanto aos uniformes dos aprendizes, ainda há tempo de mandar fazê-los azuis, sem o emblema da oficina. E a senhora, deve cuidar mais da sua aparência, principalmente numa ocasião como esta. Vá fazer um penteado vistoso: a sabedoria da esposa consiste em não deixar ninguém perceber que o marido está em dificuldades.

Na noite de 26 de dezembro, conquanto estivessem todos atarefados, os dez colegas do mestre tecelão combinaram entre si e foram ter à casa do amigo, levando cada um consigo dez ryos. Pediram um vaso de madeira e nele depuseram as moedas de ouro que haviam trazido, constituindo assim uma caixa de socorro mútuo.

– As moedas aqui juntadas, que somam cem ryos, dentro em breve estarão multiplicadas por dez — diziam.

Um dos tecelões, com ar de entendido, levou o vaso até o santuário do Deus da Prosperidade, diante do qual depois de bater palmas, disse, como se rezasse:

Ó Deus da Prosperidade: multiplicai este tesouro; caso contrário, sereis jogado ao Rio Kamiya.

Entre os risos e aplausos de todos os presentes, teve início uma alegre libação, com os vinhos e vitualhas trazidos pelos visitantes. Beneficiadores e beneficiados estavam eufóricos.

Que bela e inusitada maneira de comemorar a passagem do ano! — exclamavam, erguendo as taças. Mesmo os menos afeitos às bebidas fartaram-se de beber. Cantaram e dançaram até esgotarem todo o seu repertório de habilidades artísticas. Faziam tamanha algazarra que ninguém mais se entendia.

Eram quatro horas da manhã, e os galos cantavam, quando os visitantes se retiraram, após trocarem as sandálias, deixando suas capas e leques. Saíram abraçados uns aos outros, esquecidos de se despedirem dos donos da casa. Fatigado pelas preocupações da véspera, o mestre tecelão deitara-se no meio da sala, onde ficou a roncar alto.

Sua esposa fechou as portas, com maior cautela. Mandou a criadagem ir repousar. Não se continha, porém, de júbilo. Foi acordar o marido e pediu-lhe que fizesse um levantamento das contas a pagar: entregou- lhe, para tanto, o ábaco e o diário.

Brandindo o ábaco, bravateou o marido:

– Neste fim de ano, quando os cobradores me aparecerem, atiro-lhes com as moedas de ouro na cara. Sobretudo aquele maldito Hatiemon, o dono do empório, que, apesar de ser nosso parente afastado, é o mais intolerante de todos. Vou saldar definitivamente nossa dívida com ele. Não lhe compre mais nada. Passe a comprar no empório vizinho. E pague à vista, ouviu?

Enquanto fazia suas contas e projetos de pagamento, o tecelão foi buscar o vaso de madeira no santuário. Qual, porém, não foi a surpresa do casal quando constatou que o vaso estava vazio! Não podia ser obra dos ratos: ratos não roem moedas de ouro. Quem sabe se não seria uma brincadeira do Deus da Prosperidade? Vasculharam o santuário, repetidas vezes, mas não encontraram nem sombra do tesouro.

A grande alegria de havia pouco transformou-se numa tristeza sem fim. O tecelão pôs-se a monologar em voz alta:

– É destino. Não guardarei rancor de quem me roubou. Mas por que teria feito isso? Aceitei um auxílio caritativo e vejo-me em dificuldades maiores do que antes. Qual não será a maledicência das pessoas, agora? Não, não adianta continuar a viver neste mundo ingrato. Vamos, querida, partamos juntos para outra vida, levando as crianças conosco.

– É verdade. Não adianta continuar a viver — concordou, resoluta, a mulher.

Lembrou-se de que viria gente ver ambos, depois de mortos, e vestiu, então, o único quimono de seda branca que ainda lhe restava. Arrumou o cabelo ao espelho, com maior cuidado. Acarinhou a cabeça do marido: disse-lhe que, apesar dos dezenove anos decorridos, o amor conjugal de ambos parecia o orvalho daquela mesma madrugada. Com os olhos turvados pelas lágrimas, marido e mulher acenderam velas no santuário dos antepassados. Acordaram os filhos com cuidado. A menina, que era a mais velha, perguntou se já chegara o Ano Novo. Apesar de sonolento, o caçula não se esqueceu do arco de brinquedo que lhe havia sido prometido de presente.

Penalizados, os dois puseram-se a chorar copiosamente. Nesse momento, banhada também em prantos, a velha criada precipitou-se para dentro da sala:

– Não precisam explicar nada. Sei de tudo. O senhor e a senhora podem morrer, mas roubar a vida a estes inocentes! Não, isso não pode ser. Será que perderam a cabeça? Eu me encarrego de criar estas duas crianças.

Tudo isso foi dito aos gritos, enquanto ela protegia as crianças com seus braços. Os demais residentes acordaram com o barulho e os vizinhos vieram ver o que se passava. Em meio à confusão subsequente, o sol nasceu, e o projeto de suicídio acabou sendo posto de lado.

A notícia da ocorrência chegou aos ouvidos de alguns dos colegas do tecelão, os quais, convocando os companheiros faltantes, promoveram, os dez reunidos, uma sessão para deliberarem sobre o assunto. Ocorrência verdadeiramente incompreensível, na verdade. Como todos se haviam declarado dispostos a salvar o amigo da bancarrota, não seria admissível que algum deles fosse roubar o que ele próprio doara espontaneamente. O ladrão, no entanto, tinha de ser um deles.

– Só consultando a Providência é que se poderá provar a inocência de cada um de nós — afirmavam alguns. Outros, mais sensatos, achavam que isso não resolvia. Concordaram, por fim, em levar o caso ao conhecimento da autoridade, por escrito, de quem solicitaram julgamento. Deferida a solicitação, a audiência ficou marcada para o dia 25 de janeiro, ao término das festas. Foi, outrossim, ordenado aos suplicantes que não se ausentassem da cidade, sob pena de sofrerem as sanções da lei, e que todos comparecessem à audiência em companhia de suas respectivas esposas ou, na falta desta, de qualquer parente mais próximo, do sexo feminino.

No dia aprazado, os tecelões, acompanhados das esposas, que se mostravam contrariadas, compareceram em juízo. Sorteado o número de ordem e afixada a lista respectiva na parede, a autoridade sentenciou:

– Julgo-vos responsáveis, coletivamente, pelo desaparecimento do dinheiro que constituía o fundo de socorro mútuo, e condeno-vos à pena seguinte: todo o dia, durante dez dias consecutivos, sairá um dos casais à rua, conduzindo, na ponta de uma vara, aquele tambor chinês que ali está, e, fazendo o percurso que vai do palácio até a alameda de pinheiros do templo, na direção oeste, voltará aqui pelo mesmo trajeto. É terminantemente proibida a aproximação de curiosos.

O tambor em questão era um tambor grande e pesado, pintado de vermelho berrante.

Durante dez dias consecutivos, o caso manteve acesa a curiosidade pública.

Que condenação esquisita! — comentavam todos.

Decorridos dez dias, a autoridade convocou novamente os dez casais e disse-lhes:

– Agradeço a colaboração de todos vós para a elucidação deste caso. Sinto muito ter-vos submetido a tal ridículo e vexame. Dirijo-me particularmente aos maridos, que parecem ter sofrido bastante, por causa das queixas e imprecações das mulheres. Eu soube disso por meio de um garoto muito vivo que coloquei dentro do tambor. Ele me contou ainda mais o seguinte: uma das mulheres se mostrou particularmente veemente nas suas invectivas contra o marido. Queixava-se do infortúnio de se ver assim exposta à curiosidade pública por culpa exclusiva dele. Protestava contra a tolice de ajudar a outrem e sacrificar a própria família. Suas lástimas e imprecações foram num crescendo. A certa altura, o marido sussurrou ao ouvido da esposa: “Tenha um pouco de paciência. O dinheiro é nosso. Você o verá em casa.” Não direi aqui de quem se trata, nem penso tenha sido o roubo ato premeditado. Julgo-o, antes, fruto da embriaguez. Em consideração ao seu louvável ato anterior, de ter prestado socorro a um necessitado, suspendo a pena e ordeno ao culpado que se limite a devolver o dinheiro e a desaparecer da cidade com a família. Cumprida minha ordem, arquive-se o processo. Podeis retirar-vos. Tenho dito.



(Tradução de Tejiti Suzuki)



(Ilustração: autor desconhecido: retrato de Ihara Saikaku - 1642-1693)

sábado, 23 de maio de 2026

EVENTUALMENTE PASO DÍAS ENTEROS SANGRANDO / EVENTUALMENTE PASSO DIAS INTEIROS SANGRANDO, de Miriam Reyes

 




Eventualmente paso días enteros sangrando

(por negarme a ser madre).

El vientre vacío sangra

exagerado e implacable como una mujer enamorada.



Si los hijos no salieran nunca

del cuerpo de sus madres

juro que tendría uno ahora mismo,

para sentirlo crecer dentro de mí

hasta poseerme como en una sesión espiritista

o como si mi bebé y yo

fuéramos muñecas rusas

una llena de la otra

mamá llena de bebé.



También tendría un hijo

si ellos siempre fueran bebés

y pudiera sostenerlo en mis brazos por encima de la realidad

para que mi niño nunca pusiera los pies en la tierra.



Pero ellos llegan a ser

tan viejos como uno.



No alimentaré a nadie con mi cuerpo

para que viva este suicidio en cuotas que vivo yo.



Por eso sangro y tengo cólicos

y me aprieto este vientre vacío

y trago pastillas hasta dormirme y olvidar

que me desangro en mi negación.



Tradução de Jorge Melícias:



Eventualmente passo dias inteiros sangrando

(por negar-me a ser mãe).

O ventre vazio sangra

exagerado e implacável como uma mulher enamorada.



Se os filhos não saíssem nunca

do corpo das suas mães

juro que teria um agora mesmo

para senti-lo crescer dentro de mim

até me possuir como numa sessão espírita

ou como se o meu bebé e eu

fossemos bonecas russas

uma cheia da outra

mamã cheia de bebé.



Também teria um filho

se eles fossem sempre bebés

e pudesse sustê-lo em meus braços acima da realidade

para que o meu menino nunca pusesse os pés na terra.



Mas eles chegam a ser

tão velhos como qualquer um.



Não alimentarei ninguém com o meu corpo

para que viva este suicídio em cotas que eu vivo.



Por isso sangro e tenho cólicas

e aperto este ventre vazio

e engulo comprimidos até adormecer e esquecer

que me esvaio na minha negação.



(Ilustração: Tim Okamura – Courage)