sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

A NOITE, A MORTE, A SOLIDÃO, O AMOR E A MADRUGADA, de Osman Lins






A lâmpada pendia do fio empoeirado, que desaparecia no alto, entre os caibros grossos, cujas ripas negras e grandes telhas vãs. Gélida, imóvel e ameaçadora. Um anteparo de cartão deixava meio quarto na penumbra. Na zona mais escura, hirto em sua cadeira de vime, Bernardo olhava a mulher e o berço de pinho. Fazia tempo que os dois estavam em silêncio, estremecendo de leve a cada movimento do menino. Quantas manhãs e tardes, pensava o homem, quantas noites duraria ainda o suplício? A sombra do anteparo envolvia Teresa e a criança, uma cadeira vazia, o berço, o toucador.

Nas ruas, a noite emudecera. Sob as aglaias, à sombra dos portões, ao pé das janelas meio fechadas, os namorados haveriam trocado seus adeuses. Com uns gestos cheios de torpor, sem alegria e como sem esperança, as famílias tinham recolhido as cadeiras dos passeios e era quase certo que todas as portas já estavam fechadas. As luzes amarelas dos postes, nas esquinas, iluminavam um mundo semimorto e quente.

O menino gemeu. Teresa estremeceu e curvou-se. O homem voltou o rosto. No fundo de seus olhos azuis houve um lampejo, um brilho intenso de tristeza e raiva. Que cena tão simples havia sido – lembrava. Tão mansa e tão dilacerante. Sua mãe não faria aquilo. Era mulher para levar três noites acordada, para esquecer de si e a ninguém abandonar na hora da aflição. Mas que existia agora, de tudo o que ela fora, de sua como que secreta e áspera, porém inabalável afeição? Que cena simples! “Agora, Teresa, ele está dormindo – tinha falado Suzana. E são horas, Ascânio vai deitar-se, tem aula amanhã. Qualquer coisa que houver...”. Nem ao menos acrescentara: “Chame-me.” Tocara de leve na fronte cada vez mais óssea de José, no ombro da filha e saíra do quarto, sem falar com ele, Bernardo, que por sua vez não levantara a cabeça. Ascânio demorara-se ainda um instante, de pé junto ao berço, fitando o companheiro de brinquedos, sobre quem se habituara a exercer uma vigilância cheia de cuidados. Mas a avó chamara-o autoritária, ele beijara Teresa, abraçara-a, beijara a mão de Bernardo, e saíra correndo. A porta da sala fora fechada. Teresa continuara sentada, sem dizer palavra, olhando para o rosto da criança.

Bernardo refletia: Agira erradamente? Era justa a atitude que assumira, tudo para obedecer a uma exigência íntima, convicção que ninguém – Teresa, sim – parecia entender? E seria que ela realmente a houvera aceito e compreendido? Dentro na alma, no coração? Decerto que um dia, mais cedo ou mais tarde, ele abandonaria o emprego, onde se sentia um pouco desprezível, e onde tinha a certeza de que seu coração murchava, definhava aos poucos, como um preso. Sim, um dia entregaria o lugar. Mas não naquela hora, não assim. Seria tão simples condescender, deixar o tempo passar! E fora tão insensato o que fizera! Se bem executava o seu trabalho, importava-lhe o resto? O certo era contar devidamente, como sempre fizera, os volumes conduzidos pelos caminhões, cobrar o imposto devido, prestar as devidas contas. Que Agripa Coutinho e seu tesoureiro, e seus secretários, fossem todos ladrões, dizia-lhe respeito? Não era ele que roubava o dinheiro arrecadado. E no entanto, se continuasse...

Levantou-se. Trancou a porta da sala, voltou ao quarto e ficou de pé por trás da mulher. Aquela espera, aquelas noites sem sono destruíam-na. Ele recordou com pesar a pacífica beleza que a envolvera sempre e que, até bem pouco tempo, parecia-lhe guardada, externa, imune às violências da vida. Mesmo agora, essa beleza como que pulsava, surdamente, no corpo castigado.

- Teresa...

Não houve resposta e tudo continuou em silêncio, a casa, as ruas desertas. Um homem passou cantando, foi embora, a voz e o rumor de seus passos se perderam. Ele pôs as mãos nos ombros de Teresa, que respirou fundo e, com um movimento súbito, agarrou-as. Bernardo sentiu, por baixo de suas mãos, o corpo da mulher estremecer, arfar e explodir em soluços.

- Teresa... – O menino, prostrado, parecia morto. – Isso não pode continuar assim.

Ela moveu a cabeça, num gesto que podia significar assentimento, impaciência ou temor. Ergueu-se, foi sentar-se na cama, sob a luz da lâmpada, lutando contra o pranto. Estendia as mãos, num gesto de perplexidade:

- Ele, ele... – repetia. Se fosse um de nós... Mas ele! Olhe para o rosto dele, veja o nosso filho.

- Nem tudo pode ser como a gente quer, Teresa.

- Nada tem sido como a gente quer.

O homem veio devagar, sentou-se pesadamente a seu lado.

- Eu sei. Tudo meu é assim.

Espaçaram-se os soluços, cessaram. Uma brisa que ninguém sentiu fez oscilar o duro fio da lâmpada. Ambos, ao mesmo tempo, souberam que a hora temida estava próxima, e deram-se as mãos.

- Não faz dois anos, foi a minha mãe. E agora... Ela estaria aqui. E também Suzana devia ter ficado...

- Foi melhor assim. O que vai acontecer é penitência nossa.

- Eu sei porque ela não ficou.

- Não vale a pena falar nisto, Bernardo. Não importa o que ela diga ou pense. Importa o que eu penso, o que eu sinto.

Ele se desprendeu, ficou de pé entre a penumbra e a claridade. Por que aquela lembrança, repentina e vívida? Por que aquela lembrança, enquanto o filho morria? Às noites de sexta-feira, até de madrugada e entrando pelo sábado, passavam caminhões para o Recife, carregados. Ele ficava na estrada, fazendo a cobrança das taxas municipais, metido num capote grosso, o parabellum escondido na cintura. Serviço ingrato. Mas então... Se a noite era limpa e se havia uma pausa no incessante passar de caminhões, ele ficava na ponte olhando a luz das estrelas sobre o rio e se lembrava das grandes noites antigas, de suas viagens passadas, ou com Antônio Chá, ou com Dominicano. Então prometia a si mesmo que um dia largaria aquele posto, meteria as alpercatas nas estradas, lavaria o sangue e os pulmões com ventos novos.

- Eu queria que você compreendesse.

- Não precisa explicar-me, Bernardo. 

- Mas eu tenho culpa. É preciso...

- Eu não quero saber se você tem culpa.

- Mesmo agora, se tivesse que decidir, eu fazia o mesmo. Apesar de tudo, fazia de novo o que fiz. Esse prefeito agora é um ladrão, Teresa. Eu posso ter errado, mas não estava em mim continuar. Outro qualquer ficava, lavava as mãos. – Sentou-se outra vez na cadeira de vime, que rangeu. – É o que todo mundo diz.

- Eu já disse que não era preciso explicar.

- Não tenho mais onde buscar dinheiro. Todos têm juízo, todos acham que eu pedi demissão porque quis e que ninguém tem nada com o que eu faço. Ninguém diz nada, mas eu sinto. Só mesmo sua mãe diz com franqueza o que pensa.

Ambos ficaram a olhar para o menino, fixo. A lâmpada imobilizara-se outra vez e pairava sobre o quarto. Inflexível. Ao longe, uma criança chorava e ainda mais distante, talvez na cadeia, um homem pôs-se a uivar como um demônio. Na sala ou na cozinha, um caibro gemeu. Bernardo cerrou os dentes, cruzou as mãos. Sem se voltar, feriu com brutalidade o núcleo ardente e oculto, em torno do qual, desde a véspera, giravam todos os seus atos e palavras:

- Nós estamos loucos. Esta miséria! Como foi possível a gente ficar de acordo numa decisão como aquela?

Teresa começo a murmurar, os lábios trêmulos:

- Nós ficamos, Bernardo, nós ficamos...

Parecia castigada, supliciada pela evocação do diálogo, aquele surdo, incrível diálogo, ao fim do qual – havendo concordado, por falta de meios, em nada mais fazer pela criança – ambos haviam como que ruído sobre o leito, exaustos, cada um para seu lado e receando tocar-se, os braços em cruz, os olhos nas telhas vãs.

- Deixá-lo morrer! – continuava o homem. Seremos dois monstros? Como é que você pôde concordar?

Ela se levantou, ficou de costas:

- Não fale mais, Bernardo. Eu sabia!

- Que é que você sabia?

- Você tinha de terminar acusando-me. Não me acuse – suplicou.

Ele escondeu o rosto nas mãos. Era a história de sempre -as traições da alma. E chegaria assim ao fim de sua vida, jamais se dominando por completo, sempre em luta com as partes odiosas de si mesmo, aquelas que fugiam, que acusavam, que condescendiam. A quem sobre a terra, a quem no mundo quisera proteger como a Teresa? A quem mais fortemente amara? E quem, mais do que ela, merecia a sua proteção, o seu querer, seu zelo?

- Teresa, eu não queria que você sofresse.

Ela moveu a cabeça tristemente:

- Eu sei. – Permanecia curvada sob o jorro vertical e como abrasador da lâmpada, os braços fortemente cruzados sobre o peito, os pés unidos na sombra. A claridade ocre se enredava, morria em seus cabelos apagados; mas a alvura do colo, apenas inclinado, refletia-a com uma espécie de doçura. – Eu sei.

O homem ergueu-se outra vez, mas não avançou um passo: ficou olhando o dorso da mulher, sem ousar tocá-la, até que ela se volveu penosamente e fitou-o. Aqueles olhos sempre calmos e agora tão desesperados, ardendo numa chama interna e sombria!

Mais uma vez chamou-a – e arrependeu-se, pois a sua voz desvelara no silêncio um círculo acerado, uma ausência ou uma presença, um peso. Que faltava na noite, que laço de esperança lhes fora retirado? Nas têmporas suaves da mulher, Bernardo via o sangue latejar. E de súbito, ela estremeceu, aproximou-se do berço, estendeu a mão. Bernardo chegou perto e se deteve, os punhos cerrados, colérico, olhando os finos dedos trêmulos, erguidos sobre a face tranquila da criança. Naquele instante, pensava, tinha início para ambos uma vida mais severa e mais sábia.

Teresa voltou-se, encontrou seus olhos, baixou a cabeça. Veio devagar, ergueu lentamente os braços e apertou-o de encontro a si. Não tocara o filho – mas sabia! E ali ficaram os dois, de olhos fechados, até que um duplo soluço trespassou-os e eles se abraçaram com mais força.

O anteparo na lâmpada, agora, resguardava o morto. Os galos cantaram nos quintais, silenciaram, voltaram a cantar. Madrugada alta, o homem na cadeia pôs-se novamente a uivar. Depois, as luzes da cidade se apagaram, veio confuso rumor dos passarinhos e uma claridade fresca desceu pelas frestas do telhado.



(O fiel e a pedra)



(Ilustração: Omer Charlet - Mère au chevet de son enfant mort)



terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

FIOS DE OVOS PRA VIAGEM, de Érica Zíngano








para a minha avó 





a minha avó morreu antes

de me ensinar a cozinhar

ela também não ensinou

a minha mãe a cozinhar

a minha mãe é canhota

e não tinha a menor chance

de dar certo na cozinha

dizia a minha avó

repetia a minha mãe

me explicando o porquê

de ter demorado tanto

pra aprender a cozinhar

(a minha mãe não se lamenta

da minha avó porque hoje

a minha mãe já sabe cozinhar

mesmo sendo canhota)

mesmo tendo morrido antes

de me ensinar a cozinhar

a minha avó uma vez tentou

me ensinar a cozinhar

quando eu tinha mais ou menos

oito anos de idade

foi um desastre completo

porque quando eu fui pegar

a chaleira quente com um pano

pra colocar água no arroz

o pano começou a pegar fogo

e fez um pequeno incêndio

na cozinha da minha avó

coisa que ela controlou muito

rápido porque estava ali

por perto administrando tudo

coisa que a minha avó fazia

muito bem era fios de ovos

todo natal tinha fios de ovos

com frutas cristalizadas no peru

pra tomar com sidra cereser

antes da ceia era uma festa

tenho sempre essa lembrança

dela fazendo fios de ovos

na cozinha infelizmente

a minha mãe não aprendeu

a fazer fios de ovos com a minha avó

nem a minha avó teve tempo

de me ensinar a fazer fios de ovos

que são a coisa mais difícil do mundo

de fazer então todo natal

eu sempre compro pronto

peço fios de ovos pra viagem

mas eles nunca têm o sabor

dos fios de ovos da minha avó

as saudades que eu tenho

da minha avó são as saudades

dos fios de ovos da minha avó

acho que o meu irmão tem saudades

diferentes da minha avó

mas nunca conversamos sobre isso



(Ilustração: Diego Velazquez)



sábado, 10 de fevereiro de 2018

A BRUXA DO BAIRRO ALTO DE S. ROQUE, António Manuel Venda





O século ainda ia novo mas a vida, que às idades não parecia ligar muito, já andava outra vez agitada por Lisboa. Ele era milagres de Santo António dia sim dia não, ele era as pessoas a falarem do anjo que alguém tinha avistado no alto da torre da igreja de Nossa Senhora da Graça, ele era ainda outras criaturas, talvez mandadas por Deus e observadas por quem jurava a pés juntos que não eram foliões mascarados. E o bispo inquisidor, enquanto tão grandes maravilhas eram relatadas, lá se ia entretendo a mandar queimar hereges e judeus, uns por coisas vistas, outros porque, bem vistas as coisas, não haveria no reino deles necessidade.

Tudo isto, que já não era pouco, ia acontecendo ao mesmo tempo que os castelhanos arranhavam por terra a toda a hora e os franceses picavam por mar de vez em quando. E para ajudar à festa, El-Rei Todo Poderoso, o quinto João com que o reino alombava, ainda se punha a morder dentro das próprias fronteiras com impostos tais que a riqueza de jóias e vestes que à corte se via nunca antes fora assim notada. Mas o povo não era tão desligado como deixava parecer a quem o observava das varandas reais, e por isso nem a desculpa do ouro de terras de Santa Cruz o convencia de que nesses altos enxovais não figurava moeda plebeia.

*

Os casos de admirar eram tantos que os novos logo abafavam outros já bem repisados. E conseguiam-no mais pela força que tinham do que pela falta dela nos anteriores, pois cada um que surgia deixava três ou quatro para trás em matéria de falatórios. Nunca se pensara que no reino pudessem vir a caber todos, mas eles iam cabendo, e isso era uma coisa que ninguém desmentia, tanto mais que Deus também não dava mostras de querer fazê-lo.

Foi por esses tempos que se começou a falar na Bruxa do Bairro Alto de S. Roque. Inês Duarte, que tinha sido o nome que ao baptismo lhe calhara, apareceu de repente aos olhos de todos como uma criatura destinada a tornar ainda mais notável aquele ano de mil setecentos e seis. Deu-se isso de forma tão espantosa que o bispo inquisidor se encarregou de a levar assim que o caso lhe chegou aos ouvidos. E decerto que não iria tardar muito a mandar queimá-la no Rossio, de bruxas e feiticeiros acompanhada, numa fogueira bem grande, que assim era ao gosto do povo, assim D. João aprovava, assim Deus não se opunha, tão-pouco o Diabo, que esse toda a gente dizia ser das chamas apreciador certo.

*

A bruxa saiu à rua só com a pele do corpo, despida de cima a baixo, ou de baixo acima. Ao povo tanto fazia a subir como a descer, que os olhos viam o mesmo e a nudez não mudava vista de uma maneira ou de outra. E na frente de todos a criatura fartou-se de com as mãos dar prazer ao corpo, enquanto perguntava bem alto se por perto havia alguns homens em jeito de a comerem. E houve muitos, pois a tarde já ia adiantada e andavam muitas almas na rua, como era preceito a uma hora assim na cidade toda. Contaram-se por sete os homens que se lhe atiraram e por muito mais do que essa conta os que com grande pena lugar não conseguiram, e o mulherio gritou impropérios tais à tão diferente Inês que mais diferente a fez ainda. E houve sangue da perda da virgindade, e houve quem dissesse que um bicho assim não podia ser virgem, e houve ainda opiniões de que sendo sete os machos não havia mulher que resistisse por mais de má vida que fosse.

Ao sangue não ligou o bispo inquisidor, pois esse só queria a bruxa, sangrada ou por sangrar, que não seria por muito sangue ter que a fogueira não iria apresentar boas chamas. Já as mulheres do Bairro Alto de S. Roque ligaram, e assim lavaram a rua e desinfectaram a casa de Inês, e também varreram os vidros partidos do espelho grande do quarto, não fosse algum habitante futuro picar os pés. Para picar já bastavam os franceses, que o levasse o Diabo para bem longe do reino e dos impérios de além-mar.

*

O que deixava o povo sem saber ao certo o que pensar era que Inês sempre fora uma rapariga recatada e amiga da vizinhança, tanto que dela nunca tinha havido queixas no Bairro Alto de S. Roque. Chegou a dizer-se em Lisboa que até Frei Geraldo, da Ordem Terceira dos Franciscanos, já andava metido a averiguar por conta própria o mal daquela alma. Disseram-se tantas coisas em Lisboa por esses tempos, que estavam para chegar algarvios do Algarve e nortenhos do Norte e também outros de outros lugares para verem a bruxa. Ou pelo menos a queima, já que depois do que a Frei Geraldo acontecera só os guardas do bispo inquisidor dela se aproximavam.

– A mulher-bruxa, ou bruxa-mulher, como queira Vossa Alteza, D. João, Nosso Rei e Senhor, atirou-se-me para cima toda nua, pois roupa não quer e se alguém lha dá rasga-a logo! E não parava de me gritar "Padre, sou sua, padre!"

E Frei Geraldo contou outras coisas ainda piores.

– De três guardas houve precisão para eu daquele tormento sair! E mesmo assim teve um deles que ficar por troca comigo, e depois foi encontrado por dez companheiros que acudiram à gritaria dele, com a roupa rasgada e à bruxa igual em nudez! E o que é certo é que se tratou de um caso de violação das grandes! Até as paredes haveriam de ser testemunhas se alguém tivesse artes para lhes dar voz!

*

Andavam todos tão ocupados a falarem do caso que nem estranhavam os ares do filho mais novo do ferreiro do Bairro de S. Roque, sempre metido pelos cantos e sem dizer palavra. Inês, para ele, não era bruxa e tão-pouco iria morrer na fogueira. Inês tinha ido para onde ele nem conseguia imaginar, se calhar definitivamente, e o mais certo era não voltar a vê-la nua como a vira no dia do aparecimento da bruxa ao povo e em tantas outras alturas das quais já perdera a conta.

Nesse dia, espreitando pelas frestas do telhado da casa de Inês, Crisanto viu-a sair da cama toda nua, como a bruxa tão igual a ela que até o povo fez confusão, e esse engano só ele compreendeu. Ficou de olhar suspenso enquanto ela se mirava ao espelho grande, do qual depois foram jogados os bocados. E viu-a duas vezes, no espelho uma de frente, de costas uma no quarto, e fortes foram as telhas que o impediram de à do quarto se atirar. Mas depois a respiração pareceu-lhe que lhe começava a faltar, pareceu-lhe que tudo dentro de si parava quando Inês se vestiu e mesmo assim continuou nua no espelho. Viu-a calada e vestida e que os movimentos dela não eram acompanhados pela imagem, e a seguir começaram a sair insultos de dentro do vidro.

*

– Estou bem cansada de te seguir, grande vaca! Comida nunca tive, que tu em frente do espelho não comes, homens nunca conheci, que tu nunca tiveste um só que fosse, muito menos em lugar espelhado!

Inês pegou num espelho pequeno que tinha à cabeceira, mirou-se e não se viu, e do grande veio de novo a voz que a fazia tremer.

– Estou farta de te seguir! Quero é sair daqui para fora, que ao fim de dezanove anos qualquer uma perde a paciência.

Depois a imagem calou-se e pôs-se a fazer caretas. E Inês, já em desespero, tentou dar-lhe um pontapé, mas a perna foi-se-lhe através do espelho e a imagem aproveitou para puxá-la toda e saltar para fora ao mesmo tempo. Ficou então em liberdade e logo partiu a prisão de Inês com uma cadeira que estava mais à mão e foi à cozinha encher a barriga com o que havia para comer. Fez cara de quem tinha gostado e saiu à rua na figura que deixou o povo de boca aberta. Chamou pelos homens, sete acudiram, e muitos mais tiveram pena de para eles não haver lugar. Pena não teve Crisanto, que à verdade toda assistiu e só desceu do telhado quando a noite chegou à cidade.



(Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade; 1996)




(Ilustração: Paul Delvaux - L'Appel de la Nuit)



quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

PAUPÉRIA REVISITADA, de Ricardo Aleixo









Putas, como os deuses,

vendem quando dão.

Poetas, não.

Policiais e pistoleiros

vendem segurança

(isto é, vingança

ou proteção).

Poetas se gabam

do limbo, do veto

do censor, do exílio, da vaia

e do dinheiro não).

Poesia é pão (para

o espírito, se diz) mas atenção:

o padeiro da esquina balofa

vive do que faz; o mais

fino poeta, não.

Poetas dão de graça

o ar de sua graça

(e ainda troçam

na companhia das traças

de tal "nobre condição").

Pastores e padres vendem

lotes no céu à prestação.

Políticos compram &

(se) vendem

na primeira ocasião.

Poetas (posto que vivem

de brisa) fazem do No, thanks

seu refrão.





(Máquina Zero)



(Ilustração: Diego Rivera – flowerseller)



domingo, 4 de fevereiro de 2018

DEMONIZAÇÃO DOS REVOLUCIONÁRIOS, de Dolf Oehler







A quem, entre aqueles que hoje cruzam a Place Saint-Michel, as figuras da fonte de mesmo nome, cercada de garrafas de cerveja e de Coca-Cola, têm ainda algo a dizer? Quem seria capaz de decifrar historicamente aquela alegoria para turistas, de reconhecer que o arcanjo de espada em punho, nos ombros de Satanás, devia representar na época a vitória da ordem imperial e burguesa sobre a revolução, o triunfo do bem sobre o povo do mal de junho de 1848?

Alguns contemporâneos conceberam as jornadas de junho de 1848, esse primeiro embate de vulto entre a república liberal e o proletariado insurrecto em Paris, como um genocídio social, uma tentativa sem precedentes de exterminar toda uma classe da sociedade. Em razão de sua monstruosidade, esse acontecimento logo foi presa do recalque, e com ele a literatura que, de uma forma ou de outra, quisera lhe dar voz.

“A revolução de junho proporciona o espetáculo de um combate encarniçado como nem Paris nem o mundo jamais viram”, escreve em 28 de junho de 1848 Friedrich Engels na Neue Rheinische Zeitung. Alexandre Dumas, redator e repórter de Le Mois, seu periódico “suprapartidário”, pensa que, comparados a esse combate, tanto a queda da Bastilha quanto o levante monarquista de 13 vendemiário de 1795, esmagado com sangue - é a primeira vez que se usam canhões em Paris -, foram meras brincadeiras de criança, o mesmo valendo para a revolução de julho de 1830 e a Revolução de fevereiro de 1848.

Os romancistas republicanos Erckmann-Chatrian julgam a batalha de junho “mil vezes mais terrível que a de Waterloo”, e Tomasi de Lampedusa apazigua o herói de seu Gattopardo, pouco antes de estourar a revolução siciliana, com a ideia de que todas as revoluções logo se transformam em comédias e que mesmo na França, “com ressalva do junho de 1848, no fundo nunca se deu nada de sério". Herzen, Baudelaire e Flaubert – e também Heine – não economizam superlativos; o significado peculiar que eles conferem às Journées de Juin ressuma do teor e da estrutura de seus próprios textos.

Em fevereiro de 1848, o povo e a burguesia haviam trocado olhares apaixonados. Depois de poucos meses, se não semanas, a atmosfera modificara-se, a percepção social mudara radicalmente: as antigas imagens do inimigo, tidas por superadas, emergiram novamente. Seu uso demagógico pela imprensa contribuiu para o desenrolar catastrófico da repressão, que por sua vez só fez confirmar vencedores e vencidos em seus fantasmas de classe. Desse modo, os acontecimentos de junho de 48 puderam reforçar perenemente um maniqueísmo social já existente na França.

A fórmula “novos bárbaros” aplicada ao proletariado remonta à primeira insurreição dos tecelões lioneses, de 1831. Le Constitutionnel e, com ele, todos os adversários dos insurgentes e dos socialistas advertem, em junho de 1848, com mais urgência do que nunca, sobre os “bárbaros do século XIX”, tomados como o perigo mais manifesto para a civilização. Quer se trate da Kölnische Zeitung ou de um órgão da grande burguesia como a Revue des Deux-Mondes (“Que requinte de barbárie!”), ou ainda do Frankfurter Journal (“esses atos refinados de barbárie selvagem cometidos pelos insurrectos”): qualquer um que teme pela ordem sente os trabalhadores, tão logo façam reivindicações e desçam às ruas para pleiteá-las, como bárbaros – ou age como se eles o fossem. A metáfora dos bárbaros impõe-se como por si mesma a inúmeros contemporâneos, e não só aos jornalistas:

Balzac fala do “longo duelo entre a barbárie da Mão parisiense e a civilização da Cabeça”. Lamartine batiza os insurrectos de “os Bárbaros da república”; Tocqueville, a partir de fevereiro, e Musset, somente em junho, sentem-se impelidos à lembrança dos “vândalos”; a elite intelectual e o burguês mediano recorrem, com espantosa prontidão, a fórmulas como essas ou à bestialização dos adversários sociais e ideológicos, a qual não é mais sentida, por assim dizer, como metafórica. Se em teoria o bárbaro ainda pode ser salvo, já que civilizável – quando ele surge em hordas, é claro, essa possibilidade diminui sensivelmente -, a besta é incorrigível em qualquer hipótese: o inimigo puro e simples, a natureza má, impermeável a motivos razoáveis, movida unicamente por “instintos” e “paixões doentias”. Um protótipo da época como Eugène Pelletan, partidário de Lamartine em 1848, expressa uma opinião corrente quando chama os trabalhadores “a classe tenebrosa que tem paixões e instintos, mas nunca ideias”, e ele não se acha só ao formular com tamanha franqueza a arrogância do burguês em junho.

A todo “cidadão honesto” impunham-se nos lábios e na pena tais referências animais, e isso sem prejuízo de seu grau de cultura; Mérimée, Musset ou Berlioz falam e escrevem com a mesma naturalidade, a propósito dos insurrectos, como de animais selvagens, cães raivosos, tigres, hienas, lobos e parasitas imundos, a exemplo dos escrevinhadores de segunda, dos romancistas de folhetim ou dos filisteus. Não há mais diferença digna de menção entre o que se diz privadamente e o discurso público. Berlioz vê a França como “uma floresta povoada de homens inquietos e lobos raivosos”, Mérimée pergunta a uma amiga se ela é capaz de compreender “esses enraivecidos” e logo arremata: “Eles aprendem do melodrama umas migalhas de heroísmo, e todos têm os mesmos instintos de animal feroz”. Em outra ocasião, ele elogia um amigo da província por ter atirado nos trabalhadores como se fossem coelhos de sua fazenda; depois, ele se rejubila novamente com as delações entre a população operária: “Sabeis que é um bom sinal quando os lobos se batem entre si”.

Não era nada incomum – e isso também foi dito do republicano Cavaignac – falar do povo como da “canalha” que devia ser fuzilada tão logo arreganhasse os dentes. Seria possível coligir volumes inteiros com tais citações, que não se restringem ao momento específico do junho de 48, mas pertencem ao repertório da retórica contrarrevolucionária e florescem especialmente nas situações de crise. Quanto mais os conflitos se agravam, menores são os escrúpulos, parece, em recorrer à bestialização do inimigo, o que explica por que, na história da França moderna, esse fenômeno nunca foi tão observado quanto na época da Revolução Francesa, no verão de 1848 e durante a Comuna de Paris. (Dessa perspectiva, também, o maio de 68 foi um eco remoto).

Para os partidários da ordem, todos os "vermelhos" sonham com um futuro irrealizável. Em junho, a associação do revolucionário ou socialista ao sonhador é um reflexo conservador; por exemplo, cite-se aqui o Le Contitutionnel de 24 de junho de 1848: "Os sonhos, as extravagâncias [...], as quimeras orgulhosas renderam os seus frutos". Entretanto, observadores moderados ainda distinguem os sonhadores inofensivos dos sonhadores perigosos, como por exemplo os socialistas utópicos, que querem realizar seus objetivos sem violência, e os blanquistas, que, "em outras épocas, teriam incitado uma noite de São Bartolomeu"; porém todos se inclinam a acusar os representantes da esquerda radical de serem os sonhadores que confundiram os sentidos dos bravos trabalhadores. Não raro essa censura prende-se à da perfídia diabólica, da barbárie, do delírio ou da bestialidade. Assim diz Hugo sobre o antes tão belo povo de fevereiro, corrompido pelas "más leituras": "Há os que alimentam não sei que tristes sonhos de pilhagem, de massacre e de incêndio", e acrescenta que os panfletistas tornaram selvagens os mesmos homens dos quais Napoleão teria transformado em heróis. E o tom de Hugo é o de toda a imprensa burguesa, o da literatura panegírica de junho dos Prarond-Le Vavasseur, de Boullaye, de Dügge, o das declarações privadas do mais obscuro filisteu de província, como aquele Vachez de Lyon, que numa carta emprega a expressão "veneno dos sonhos socialistas". 



(O Velho Mundo Desce aos Infernos; tradução de José Marcos Macedo.)



(Ilustração:  Saint Michel terrassant le dragon by Francisque Duret)



quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

DAYS / DIAS, de Ralph Waldo Emerson






Daughters of Time, the hypocritic Days.

Muffled and dumb like barefoot dervishes,

And marching single in an endless file,

Bring diadems and fagots in their hands.

To each they offer gifts after his will,

Bread, kingdoms, stars, or sky that holds them all.

I, in my pleached garden, watched the pomp,

Forgot my morning wishes, hastily

Took a few herbs and apples, and the Day

Turned and departed silent. I, too late,

Under her solemn fillet saw the scorn.




Tradução de José Lino Grünewald:



Prole do Tempo, Dias hipocríticos,

Tampados, mudos, dervixes descalços,

Seguindo sós em fila sem mais fim,

Com diademas e adornos nas mãos.

Oferecem regalos para todos,

Pão, reinos, astros e céu que os sustém.

Eu, em meu jardim curvo, olhava a pompa,

Esquecia os desejos matinais,

Na pressa, peguei ervas e maçãs,

E saiu e voltou, silente, o Dia.

Vi tarde, em seu solene aro, o desdém.




(Grandes Poetas da Língua Inglesa do século 19)




(Ilustração: Valquíria Cavalcante)






segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

MANIFESTO SOBRE A VIDA DO ARTISTA, de Marina Abramović






1 a conduta de vida do artista:

- O artista nunca deve mentir a si próprio ou aos outros

- O artista não deve roubar ideia de outros artistas

- Os artistas não devem comprometer seu próprio nome ou comprometer-se com o mercado de arte

- O artista não deve matar outros seres humanos

- Os artistas não devem se transformar em ídolos

- Os artistas não devem se transformar em ídolos


2 a relação entre o artista e sua vida amorosa:


- O artista deve evitar se apaixonar por outro artista

- O artista deve evitar se apaixonar pó outro artista

- O artista deve evitar se apaixonar pó outro artista



3 a relação entre o artista e o erotismo:



- O artista deve ter uma visão erótica do mundo

- O artista deve ter erotismo

- O artista deve ter erotismo

- O artista deve ter erotismo



4 a relação entre artista e sofrimento:



– O artista deve sofrer

- O sofrimento cria as melhores obras

- O sofrimento traz a transformação

- O sofrimento leva o artista a transcender seu espírito

- O sofrimento leva o artista a transcender seu espírito



5 a relação entre o artista e a depressão:



- O artista nunca deve estar deprimido

- A depressão é uma doença e deve ser curada

- A depressão não é produtiva para os artistas

- A depressão não é produtiva para os artistas

- A depressão não é produtiva para os artistas



6 a relação entre o artista e o suicídio:



- O suicídio é um crime contra a vida

- O artista não deve cometer suicídio

- O artista não deve cometer suicídio

- O artista não deve cometer suicídio



7 a relação entre o artista e a inspiração:



- Os artistas devem procurar a inspiração em seu âmago

- Quanto mais se aprofundarem em seu âmago, mais universais serão

- O artista é um universo

- O artista é um universo

- O artista é um universo



8 a relação entre o artista e o autocontrole:



– O artista não deve ter autocontrole em sua vida

- O artista deve ter autocontrole total em relação a sua obra

- O artista não deve ter autocontrole em sua vida

- O artista deve ter autocontrole total em relação a sua obra



9 a relação entre o artista e a transparência:



– O artista deve doar e receber ao mesmo tempo

- Transparência significa receptividade

- Transparência significa doar

- Transparência significa receber

- Transparência significa receptividade

- Transparência significa doar

- Transparência significa receber

- Transparência significa receptividade

- Transparência significa doar

- Transparência significa receber



10 a relação entre o artista e os símbolos:



– O artista crias seus próprios símbolos

- Os símbolos são a língua do artista

- E a língua tem que ser traduzida

- Às vezes, é difícil encontrar a palavra chave

- Às vezes, é difícil encontrar a palavra chave

- Às vezes, é difícil encontrar a palavra chave



11 a relação com o silêncio:



- O artista deve compreender o silêncio

- O artista deve criar um espaço para que o silêncio adentre a sua obra

- O silêncio é como uma ilha no meio de um oceano turbulento

- O silêncio é como uma ilha no meio de um oceano turbulento

- O silêncio é como uma ilha no meio de um oceano turbulento



12 a relação entre o artista o artista e a solidão:



- O artista deve reservar para si longos períodos de solidão

- A solidão é extremamente importante

- Longe de casa

- Longe da família

- Longe dos amigos

- O artista deve passar longos períodos perto das cachoeiras

- O artista deve passar longos períodos perto dos vulcões em erupção

- O artista deve passar longos períodos olhando as corredeiras dos rios

- O artista deve passar longos períodos contemplando a linha do horizonte onde o oceano e o céu se encontram

- O artista deve passar longos períodos de tempo admirando as estelas no céu da noite



13 a conduta do artista com relação ao seu trabalho:



- O artista deve evitar ir para o seu ateliê todos os dias

- O artista não deve considerar seu horário de trabalho como o de um funcionário de um banco

- O artista deve explorar a vida, e trabalhar apenas quando uma ideia se revela no sonho, ou durante o dia, como uma visão que irrompe uma surpresa

– O artista não deve se repetir

- O artista não deve produzir em demasia

- O artista deve evitar poluir sua própria arte

- O artista deve evitar poluir sua própria arte

- O artista deve evitar poluir sua própria arte



14 as posses do artista:



- Os monges budistas entendem que o ideal na vida é possuir nove objetos:

roupão para o verão

roupão para o inverno

par de sapatos

pequena tigela para pedir alimentos

tela de proteção contra insetos

livro de orações

guarda-chuva

colchonete para dormir

par de óculos se necessário

– O artista deve tomar sua própria decisão sobre os objetos pessoais que deve ter

– O artista deve, cada vez mais, ter menos

– O artista deve, cada vez mais, ter menos

– O artista deve, cada vez mais, ter menos



15 a lista de amigos do artista:



- O artista deve ter amigos que elevem seu estado de espírito

- O artista deve ter amigos que elevem seu estado de espírito

- O artista deve ter amigos que elevem seu estado de espírito



16 os inimigos do artista:



– Os inimigos são muito importantes

- O Dalai Lama afirmou que é fácil ter compaixão pelos amigos; porém, muito mais difícil ter compaixão pelos inimigos

- O artista deve aprender a perdoar

- O artista deve aprender a perdoar

- O artista deve aprender a perdoar



17 a morte e seus diferentes contextos:



– O artista deve ter consciência de sua mortalidade

- Para o artista, como viver é tão importante quanto morrer

- O artista deve morrer conscientemente e sem medo

- O artista deve morrer conscientemente e sem medo

- O artista deve morrer conscientemente e sem medo



18 o funeral e seus diferentes contextos:



– O artista deve deixar as instruções para o seu próprio funeral, para que tudo seja feito segundo a sua vontade

– O funeral é a última obra de arte do artista antes de sua partida

- O funeral é a última obra de arte do artista antes de sua partida

- O funeral é a última obra de arte do artista antes de sua partida




(Ilustração: Marina Abramovic - Photo MAI Archive)


sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

NOCHE OSCURA / NOITE ESCURA, de San Juan de la Cruz








Canciones del alma que se goza 

de haber llegado al alto estado de la perfección, 

que es la unión con Dios, 

por el camino de la negación espiritual.





En una noche oscura

con ansias, en amores inflamada,

¡oh dichosa ventura!

salí sin ser notada,

estando ya mi casa sosegada.



A oscuras, y segura,

por la secreta escala disfrazada,

¡Oh dichosa ventura!

a oscuras, y en celada,

estando ya mi casa sosegada.



En la noche dichosa

en secreto, que nadie me veía,

ni yo miraba cosa,

sin otra luz y guía,

sino la que en el corazón ardía.



Aquesta me guiaba

más cierto que la luz del mediodía,

adonde me esperaba

quien yo bien me sabía,

en parte donde nadie parecía.



¡Oh noche que guiaste!

¡Oh noche amable más que la alborada:

oh noche que juntaste

Amado con Amada.

Amada en el Amado transformada!



En mi pecho florido,

que entero para él solo se guardaba,

allí quedó dormido,

y yo le regalaba,

y el ventalle de cedros aire daba.



El aire de la almena,

cuando yo sus cabellos esparcía,

con su mano serena

en mi cuello hería,

y todos mis sentidos suspendía.



Quedeme, y olvideme,

el rostro recliné sobre el Amado,

cesó todo, y dejeme,

dejando mi cuidado

entre las azucenas olvidado.



Tradução de José Bento:



Canções da alma que rejubila 

por ter chegado ao alto estado da perfeição,

que é a união com Deus,

pelo caminho da negação espiritual.







Em uma noite escura,

com ânsias, em amores inflamada,

oh ditosa ventura!,

saí sem ser notada,

estando minha casa sossegada.




Às escuras, segura,

pela secreta escada, disfarçada,

oh ditosa ventura!,

às escuras e emboscada,

estando minha casa sossegada.




Nessa noite ditosa,

secretamente, que ninguém me via,

de nada curiosa,

sem outra luz nem guia

senão a que no coração me ardia.




Só esta me guiava

mais segura que a luz do meio-dia,

aonde me esperava

quem eu já bem sabia,

em parte onde ninguém aparecia.




Oh noite, que guiaste!

Oh noite, amável mais que a alvorada!

Oh noite que juntaste

Amado com amada,

amada em seu Amado transformada!




Em meu peito florido,

que inteiro só para ele se guardava,

ficou adormecido,

e eu o afagava,

e o leque de cedros brisa dava.




A viração da ameia,

enquanto eu seus cabelos espargia,

com sua mão que enleia

o meu colo feria,

e meus sentidos todos suspendia.




Fiquei e olvidei-me,

O rosto reclinei sobre o Amado;

cessou tudo, e deixei-me,

deixando o meu cuidado

por entre as açucenas olvidado.





Tradução de Jorge de Sena:








Em uma Noite escura,

com ânsias em amores inflamada,

ó ditosa ventura!

saí sem ser notada,

estando minha casa sossegada.




A ocultas, e segura,

pela secreta escada, disfarçada,

ó ditosa ventura!,

a ocultas, embuçada,

estando minha casa sossegada.




Em uma Noite ditosa,

tão em segredo que ninguém me via,

nem eu nenhuma cousa,

sem outra luz e guia

senão aquela que em meu seio ardia.




Só ela me guiava

mais certa do que a luz do meio-dia,

aonde me esperava

quem eu mui bem sabia,

em parte onde ninguém aparecia.




Ó Noite que guiaste!,

ó Noite amável mais que a alvorada!,

ó Noite que juntaste

Amado com amada,

amada nesse Amado transformada!




No meu peito florido,

que inteiro para ele se guardava,

quedou adormecido

do prazer que eu lhe dava,

e a brisa no alto cedro suspirava.




Da torre a brisa amena,

quando eu a seus cabelos revolvia,

com fina mão serena

a meu colo feria,

e todos meus sentidos suspendia.




Quedei-me e me olvidei,

e o rosto inclinei sobre o do Amado:

tudo cessou, me dei,

deixando meu cuidado

por entre as açucenas olvidado.




(Poesia de 26 Séculos, Coimbra, 1993)



(Ilustração: Daniel Lezama, le songe de Tepeyac, 2003)





terça-feira, 23 de janeiro de 2018

O LACRAU, de Antonio Callado




Na mão de Jupira o vestido novo de Herinha, que a modista boliviana acabava de trazer – vestido do churrasco, tinha sido apelidado –, de mocinha, pedido pela menina para a festa, feito de fresca seda chinesa, de contrabando, trêmula, creme, friso encarnado na barra da saia, gola de renda. Na prova da costureira, apenas alinhavado, o vestido já criava uma Herinha nova, diferente, que apenas guardava uma certa semelhança andrógina como o quase menino que vagava pela cidade carregando no ombro um macaquinho que, por sua vez, carregava uma mochila.

Mas agora, os olhos se virando, com frequência para dentro, Herinha mal olhava o vestido, perdia o mundo de vista, pois ninguém faz promessa de olho aberto e a vida de Herinha era toda ela uma oração de achar perdidos, uma prece a S. Longuinho ou – e aqui Jupira se arrepiava – ao lacrau. Porque, cada dia mais, o lugar certo de encontrar Herinha era o fundo do fundo quintal, para lá do limite do engradado das cobras, para lá da sombra das mangas e dos sabiás, além da área chamada paizinho, num devaneio entre os escorpiões. A culpa, achava Jupira, em mais de um sentido e sobretudo no sentido inicial, era sua, só sua, pois contara a Herinha, embora sem maiores detalhes, uma história que tinha para a menina interesse até biográfico mas que ainda era, para a mãe, perigosa, ativa: a história de como tinham sido elas duas picadas pelo lavrado, arpão da cauda requintada e peçonhenta que se enrosca feito um arabesco por cima do lacrau.

Ela com Herinha na palhoça do posseiro amigo, companheiro de luta, uma choça onde se escondera na esperança de ver o noivo, que ainda não conhecia a filha, onde não o veria, mas onde, isto sim, quase tinha deixado a menina que dele ficara, morta sobre a esteira, por cima do jirau baixo, no chão de terra batida.

Se o noivo não tinha vindo, algum outro ser, em compensação viera, alguma reorganização, feita no escuro, de matérias decompostas, sob uma pedra limosa, dentro de algum tronco esfarinhado, borbulhante de vermes, para ferrar e depositar, de madrugada, como um latejante ovo, na nádega de Herinha, o inchaço, o vergão.

O médico, tardo, só chegou de tarde num cavalo tordilho, tinha Jupira dito a Herinha, ao contar a história, para fazer sorrir a menina tensa, concentrada no que ouvia. Apesar de pensar que era tudo gente posseira, sem eira nem beira, o médico encantou os olhos com a menina, misturou, à boa aspiração profissional médica de operar milagres, o desejo de apagar, da carinha bonita, o sofrimento: mas precisava saber, para saber o soro a empregar, que picada era aquela que enfebrava Herinha, que escuma, que baba. Ele voltava, sem falta, mas tratassem de encontrar o peçonhento, mandou – e começou a revista dentro do fogão de barro, dos bambus do sopapo da parede, do baú de guardados, dos mourões, do sapé do teto. Como um bando de formigas carregadeiras apareceu a vizinhança azafamada, fuçando terreno em volta da casa e grotas próximas, as mulheres trazendo a Jupira panelas de água quente, panos, caldos e mezinhas, enquanto Herinha se revolvia na esteira, ardendo em febre ao ponto de secar compressa fria na testa, os grandes, doces olhos, rolando pela primeira vez nas órbitas feito estrelas extraviadas.

E Jupira tinha vivido então aquilo que, ao narrar a história, chamava, sorrindo, o grande momento maternal, em parte para desarmar, em quem quer que a ouvisse, mas sobretudo em Herinha, qualquer noção de que tinha tido uma revelação, sofrido uma possessão. Acentuava e insistia que apenas descobrira, no seu desamparo, deslocada do seu ambiente, simplificada, descarnada em maternalidade, o meio mais lógico de lidar com a crise, com a aflição, só isso.

Tinha mandado embora, a saber, um velho que em geral pedia comida, ou esmola, mas que quando havia doença aparecia, curandeiro repentino, apoiado num bordão de peregrino e guiado por um curumim; as velhas rezadeiras, que debulhavam terços dizendo as contas em voz cada vez mais alta, prontas para carpir a morta, quando houvesse; os vizinhos em geral, que, cansados de cavucar os cantos e desvãos, em busca do bicho que atacara a menina, esperavam alguma coisa, a morte, ou quem sabe um café.

Depois de assim se despojar de todos, Jupira, como se soubesse o que fazer e apenas esperasse que a hora soasse e a solidão se cumprisse, despojou-se também das roupas, de tudo que vestia e usava, das alpercatas ao brinquinho de ouro, até que fiquei, ela contava, nua em pelo, nuinha, e assim me deitei no chão de erra ao lado da cama de Herinha e palavra que rezei, eu que nunca tinha rezado na minha vida, ou pelo menos fechei os olhos e falei, falei não, rezei mesmo o que me vinha à cabeça, e aí é que vem o que é mais difícil de explicar mas que no momento era o que se apresentava, era o natural: minha reza não podia ser reza igual à de quem reza em geral, quer dizer, reza a Deus, ao princípio bom e certo das coisas, que mantém seres e corpos no seu lugar respectivo, as estrelas, por exemplo, em suas órbitas, e os olhos das crianças também.

Eu tinha ali era que atrair o outro, não é mesmo, o contrário, nua, quieta, sozinha e fechada a Deus, caso ele existisse – e no momento eu não queria ofender nada nem ninguém – para que o contrário, o adversário viesse ao meu encontro, eu como coisa nua, entregue. A ele eu rezava, ao adversário, já que se tratava de bicho, fosse lá qual fosse, de maldade e peçonha, bicho de desfazer o feito, de apodrecer o são, bicho de sombra, do outro reino. Me dirigi ao inimigo com aquele calafrio de maleita que dá na gente quando a sinceridade do que a gente diz, ou reza, é apaixonada, falei com o contrário vibrando toda, os dentes, os ossos, nua, só.

E foi aí que ele saiu da toca dele onde acho que me escutou até me acreditar e me ferrou também como tinha ferrado Herinha e no meio da dor do ferrão dele enterrado na minha coxa, por dentro, na sombra, peguei ele palpitante, apertei, quebrei ele na mão e guardei e quando veio o médico mostrei a ele e ele viu, então, o lacrau.

Agora, mirando a filha absorta, que, quando inquieta, infeliz, buscava, talvez por culpa dela e da sua história, a companhia de lacraus, Jupira se perguntava, ainda uma vez, se não errara contando a Herinha o conto daquela noite na choça do posseiro, já que esse conto antigo, ela sentia obscuramente, a obrigara a contar um dia à filha o segundo conto do lacrau, a segunda parte, que a Quinho também não queria contar, a história da segunda nudez nas trevas, do segundo leito onde os dois tinham se espojado – era bem isso – até um fundo cansaço e imobilidade que tinha sido não um fim honroso de luta, como no conto um, mas, simplesmente, uma rendição, uma entrega. Ao lacrau.

Assim, Jupira revivia na carne o caso, os dois casos do lacrau, a treva e a nudez de ambos tornadas, respectivamente, mais densa e mais nua pelo contraste com a friagem do vestido de seda que tinha na mão, trêmula e creme.



(Sempreviva)



(Ilustração: Francisco Brennand - Lacrau; 1980)





sábado, 20 de janeiro de 2018

PARIA / PÁRIA, de Tristan Corbière






Qu'ils se payent des républiques,

Hommes libres! – carcan au cou –

Qu'ils peuplent leurs nids domestiques!...

– Moi je suis le maigre coucou.

– Moi, – coeur eunuque, dératé

De ce qui mouille et ce qui vibre...

Que me chante leur Liberté,

A moi: toujours seul. Toujours libre.

– Ma Patrie... elle est par le monde;

Et, puisque la planète est ronde,

Je ne crains pas d'en voir le bout...

Ma patrie est où je la plante:

Terre ou mer, elle est sous la plante

De mes pieds – quand je suis debout.

– Quand je suis couché: ma patrie

C'est la couche seule et meurtrie

Où je vais forcer dans mes bras

Ma moitié, comme moi sans âme;

Et ma moitié: c'est une femme...

Une femme que je n'ai pas.

– L'idéal à moi: c'est un songe

Creux; mon horizon – l'imprévu –

Et le mal du pays me ronge...

Du pays que je n'ai pas vu.

Que les moutons suivent leur route,

De Carcassonne à Tombouctou...

Moi, ma route me suit. Sans doute

Elle me suivra n'importe où.

Mon pavillon sur moi frissonne,

Il a le ciel pour couronne:

C'est la brise dans mes cheveux...

Et dans n'importe quelle langue

Je puis subir une harangue;

Je puis me taire si je veux.

Ma pensée est un souffle aride:

C'est l'air. L'air est à moi partout.

Et ma parole est l'écho vide

Qui ne dit rien – et c'est tout.

Mon passé: c'est ce que j'oublie.

La seule chose qui me lie,

C'est ma main dans mon autre main.

Mon souvenir – Rien – C'est ma trace.

Mon présent, c'est tout ce qui passe

Mon avenir – Demain... demain.

Je ne connais pas mon semblable;

Moi, je suis ce que je me fais.

Le Moi humain est haïssable...

Je ne m'aime ni ne me hais.

Allons! la vie est une fille

Qui m'a pris à son bon plaisir...

Le miens, c'est: la mettre en guenille,

La prostituer sans désir.

– Des dieux?... – Par hasard j'ai pu naître;

Peut-être en est-il – par hasard...

Ceux-là, s'ils veulent me connaître,

Me trouveront bien quelque part.

– Où que je meure, ma patrie

S'ouvrira bien, sans qu'on l'en prie,

Assez grande pour mon linceul...

Un linceul encor: pour que faire?...

Puisque ma patrie est en terre

Mon os ira bien là tout seul...



Tradução de Augusto de Campos:


Que eles paguem por seus países,

Homens livres! – sob o trabuco –

E povoem ninhos felizes!...

– Eu, porém, sou o magro cuco.

– Coração eunuco, amputado

De tudo o que molhe ou que vibre...

A Liberdade é um hino aguado

Para mim: sempre só. Sempre livre.

– A minha Pátria... é todo o mundo;

E já que o planeta é rotundo,

Não temo ver seu fim qual é...

Pátria é onde o meu ser se planta:

Terra ou mar, está sob a planta

De meus pés – quando estou de pé.

Quando me deito, a pátria amada

É a cama triste e maltratada

Onde eu espalmo em minha palma

A metade, como eu sem alma;

Cara metade: é uma dama...

A metade da minha cama.

– Uma idéia oca constrói

Meu ideal; meta – o imprevisto –

Mas a nostalgia me rói...

Do país por mim nunca visto.

Que os carneiros sigam a rota

De Carcassonne a Finisterra...

– Minha rota me segue. A idiota

Me seguirá por toda a terra.

Meu pendão sobre mim revoa,

Tendo só o céu por coroa:

É a brisa no meu cabelo...

Não importa a língua a dizê-lo,

Topo qualquer papo furado;

E também sei ficar calado.

Meu pensamento é um sopro frio:

É o ar. O ar que me cerca, mudo.

Minha palavra, o eco vazio

Que não diz nada – e isso é tudo.

O meu passado não me intriga.

A única coisa que me liga

É a minha mão na outra, irmã.

Minha memória – Nada. – Traça.

O meu presente é o que se passa

No futuro – Amanhã... amanhã.

Eu não conheço o meu vizinho;

Eu sou aquilo que eu me creio.

– O eu humano é tão mesquinho...

Eu não me amo nem me odeio.

– Vamos! a vida é uma garota

Que me convida para um beijo...

Meu desejo é: deixá-la rota,

Prostituí-la sem desejo.

– Os Deuses?... – Por acaso eu vim;

Talvez existam – por acaso...

Eles, decerto, ao cabo e ao fim,

Me encontrarão, se for o caso.

– Minha pátria, quando eu morrer,

Se abrirá bem para acolher

O pó que a mortalha encerra.

Uma mortalha pra meu pó?

Se a minha pátria é a própria terra

Meu osso vai se dar bem, só.

.



(Versos, reverso controverso)




(Ilustração: Tristan Corbière, por Jean Vacher)