domingo, 20 de maio de 2018

O FEITICEIRO DESPREZADO, de Jorge Luis Borges





Havia em Santiago um deão que desejava ardentemente aprender a arte da magia. Ouviu dizer que Dom Illán de Toledo a sabia mais do que ninguém e foi a Toledo procurá-lo. 

No dia em que chegou, dirigiu-se à casa de Dom Illán com bondade e falou que adiava o motivo de sua visita até depois de comer. Mostrou-lhe um alojamento muito fresco e disse que a sua vinda o deixava muito alegre. Depois de comer, o deão contou a razão daquela visita e pediu que lhe ensinasse a ciência mágica. Dom Illán disse que adivinhava que ele era deão, homem de boa posição e bom futuro, e que temia ser logo esquecido por ele. O deão prometeu e assegurou que jamais esqueceria aquela mercê e que ficaria sempre às suas ordens. Já acertado esse assunto, explicou Dom Illán que as artes mágicas não podiam ser aprendidas senão em lugar afastado e, tomando-o pela mão, levou-o a uma peça contígua, em cujo assoalho havia uma grande argola de ferro. Antes avisou à criada que tivesse perdizes para a ceia, mas que não as pusesse para assar até que ordenasse. Levantaram a argola e desceram por uma escada de pedra bem lavrada, até que ao deão pareceu que tinham descido tanto que o leito do Tejo estava sobre eles. Ao pé da escada havia uma cela e depois uma biblioteca e mais adiante uma espécie de gabinete com instrumentos mágicos. Examinaram os livros e estavam nisso quando entraram dois homens com uma carta para o deão, escrita pelo bispo, seu tio, na qual lhe fazia saber que estava muito doente e que, se quisesse encontrá-lo vivo, não demorasse. Essas notícias contrariaram muito o deão, tanto pela doença do tio como por ter de interromper os estudos. Resolveu escrever uma desculpa e a mandou ao bispo. Três dias depois chegaram alguns homens de luto com outras cartas para o deão, nas quais se lia que o bispo tinha falecido, que estavam escolhendo sucessor e que esperavam pela graça de Deus que fosse ele o eleito. Diziam também que não incomodasse em vir, pois parecia muito melhor que o escolhessem em sua ausência. 

Passaram-se dez dias e vieram dois escudeiros muito bem vestidos, que se atiraram a seus pés, beijaram suas mãos e o saudaram como bispo. Quando Dom Illán viu essas coisas, dirigiu-se com muita alegria ao novo prelado e disse que agradecia ao Senhor que tão boas novas chegassem à sua casa. Em seguida lhe pediu o decanado vacante para um de seus filhos. O bispo informou que tinha reservado o decanado para seu próprio irmão, mas que decidira favorecê-lo e que partissem juntos para Santiago. 

Foram os três para Santiago e os receberam com honras. Seis meses depois recebeu o bispo mensageiros do Papa que lhe oferecia o arcebispado de Tolosa, deixando em suas mãos a nomeação do sucessor. Quando Dom Illán soube disso, lembrou a antiga promessa e pediu o título para o filho. O arcebispo informu que tinha reservado o bispado para seu próprio tio, irmão de seu pai, mas estava resolvido a favorecê-lo e que partissem juntos para Tolosa. Dom Illán não teve outro remédio senão aceitar. 

Foram os três para Tolosa, onde os receberam com honras e missas. Dois anos depois, recebeu o arcebispo mensageiros do Papa que lhe oferecia o chapéu de Cardeal, deixando em suas mãos nomear um sucessor. Quando Dom Illán soube disso, lembrou a antiga promessa e pediu o título para seu filho. O Cardeal informou que tinha reservado o arcebispado para o próprio tio, irmão de sua mãe, mas que determinara favorecê-lo e que partissem juntos para Roma. Dom Illán não teve outro remédio senão aceitar. Foram os três para Roma, onde os receberam com honras, missas e procissões. Quatro anos depois morreu o Papa e nosso Cardeal foi eleito para o papado por todos os demais. Quando Dom Illán soube disso, beijou os pés de sua Santidade, lembrou-lhe a antiga promessa e pediu o cardinalato para o filho. O Papa o ameaçou com a prisão, dizendo-lhe que bem sabia que ele não era mais que um feiticeiro e que em Toledo tinha sido professor de artes mágicas. O mísero Dom Illán disse que ia voltar à Espanha e pediu alguma coisa para comer na viagem. O Papa não o atendeu. Então Dom Illán (cujo rosto estava estranhamente mais jovem) falou com uma voz sem tremor: 

– Pois terei que comer as perdizes que encomendei para esta noite. 

A criada apresentou-se e Dom Illán mandou que assasse. A essas palavras, o Papa se encontrou na cela subterrânea em Toledo, não mais que deão de Santiago, e tão envergonhado de sua ingratidão que nem atinava em desculpar-se. Dom Illán disse que bastava essa prova, negou-lhe a parte que teria das perdizes e o acompanhou até a rua, onde lhe desejou feliz viagem e dele se despediu com grande cortesia. 

(Do Livro de Patrono do infante Dom Juan Manuel, que o extraiu dum livro árabe – As Quarentas Manhãs e as Quaresmas Noites.) 




(História universal da infâmia; tradução de Flávio José Cardozo) 





(Ilustração: Thomas Wijck; 1616-1677; The Alchemist in his laboratory)



quinta-feira, 17 de maio de 2018

ROMANCE, de Mário Faustino








Para as Festas da Agonia

Vi-te chegar, como havia

Sonhado já que chegasses:

Vinha teu vulto tão belo

Em teu cavalo amarelo,

Anjo meu, que, se me amasses,

Em teu cavalo eu partira

Sem saudade, pena, ou ira;

Teu cavalo, que amarraras

Ao tronco de minha glória

E pastava-me a memória,

Feno de ouro, gramas raras.

Era tão cálido o peito

Angélico, onde meu leito

Me deixaste então fazer,

Que pude esquecer a cor

Dos olhos da Vida e a dor

Que o Sono vinha trazer.

Tão celeste foi a Festa,

Tão fino o Anjo, e a Besta

Onde montei tão serena,

Que posso, Damas, dizer-vos

E a vós, Senhores, tão servos

De outra Festa mais terrena —



Não morri de mala sorte,

Morri de amor pela Morte.



(O Homem e sua Hora)


(Ilustgração: William-Adolphe Bouguereau - égalité devant la mort)



segunda-feira, 14 de maio de 2018

SIC TRANSIT GLORIA MUNDI, de Chico de Assis







Monsenhor Pardini, além de sacerdote era um cientista, inventava coisas. 

Entre suas invenções, uma havia que eu, interessado no assunto, achava o máximo. 

Era um invento tão mecanicamente simples que daria inveja a Arquimedes. 

A aparência do invento era a de uma caixa de papelão, assim como uma caixa de sapatos. Uma fenda na tampa que dava o aspecto de um cofre. 

O nome do invento era: máquina de perdoar. 

O funcionamento era mecanicamente simples. Se alguém injuriasse você, uma injuria de difícil perdão era só colocar na fenda da caixa um cartão onde estava escrito: “eu perdoo fulano ou fulana pela injuria que me fez”. Aí era só guardar a caixa num saco de papel que devia ser posto longe dos olhos. Passado um mês a pessoa pegava o saco, tirava a caixa de dentro e conferia todos os cartões que lá estivessem. Relendo os cartões de perdão. Se tudo estivesse bem e você sentisse que realmente tinha perdoado mesmo a injúria era só tirar o cartão da caixa e jogar no lixo. Porém se você percebesse ao ler o cartão que ainda havia um forte sentimento de vingança, por exemplo, era só fechar a caixa com o cartão dentro. Um mês depois, abrir de novo, sentir e conferir. Se tudo estivesse resolvido, então, rasgar o cartão e mandar para o lixo. 

Na primeira vez em que vi o invento, disse ao Monsenhor Pardini que a gente devia saber de alguém, que nos tinha ofendido, os sentimentos dele, depois que o perdoamos. Monsenhor Pardini deu um sorrisinho maroto e falou bem baixo: 

-Perdão é um ato de você com você mesmo. 

Uma tarde fria de junho, Monsenhor Pardini me convidou para um chá. Na verdade, o que ele queria era mostrar seu último invento. Mas antes que me mostrasse alguma coisa, tomamos chá de erva cidreira sem açúcar e falamos sobre a situação do país, coisas assim. 

Lá pras tantas, Monsenhor Pardini veio com o seu mais novo invento. Era uma madeirinha em “T” que ele colocou em pé na mesa, bem a minha frente. Depois tirou de dentro de uma caixa uma porção de passarinhos de papelão, pintados com lápis de cor. Colocou os passarinhos encaixados no poleiro e disse: 

-Esse é o meu último invento, mas só serve pra quem gosta do canto dos passarinhos. 

Eu perguntei como funcionava e ele foi sucinto: 

-Você arma o poleirinho com os passarinhos e fica olhando bem para eles. Quando um deles cantar, você guarda os outros na caixa e fica ouvindo o canto daquele passarinho. Depois muda pra outro e assim vai indo. 

Eu fiquei um tanto intrigado e perguntei de onde saía o canto dos passarinhos. Monsenhor Pardini chegou bem perto de mim e deu uma cutucada com o indicador primeiro na minha cabeça e depois sobre o meu coração: 

- Daqui e daqui! Não vai precisar prender passarinhos em gaiolas que é uma coisa que Deus não gosta. 

Rimos muito e na hora em que fui embora ele me deu uma caixa com aquele seu último invento. 

Cheguei em casa e montei o poleirinho e coloquei os passarinhos, só para ver como ficaria como decoração de minha sala. Era uma coisa bonita, meio infantil. Fiquei ali olhando e lembrando de Monsenhor Pardini. Então, de repente começo ouvir um canto de pássaro que não sabia de onde vinha. Olhei para o poleirinho e logo percebi que quem cantava era um passarinho de papelão amarelo como um canário. Guardei os outros na caixa e fiquei ouvindo só aquele. 

Como cantava bonito! Igual um que meu avô tinha em sua casa e eu gostava de ouvir quando tinha meus cinco anos de idade. E fiquei ali ouvindo, um tempo enorme. Esqueci todos meus problemas com os maravilhosos passarinhos de Monsenhor Pardini. 

Porém a experiência mais impressionante que tive com Monsenhor Pardini foi com: a máquina que vencia a morte. 

Ele me chamou um dia e disse: 

-Este é meu último invento. Depois disso não inventarei mais nada. Quero que seja o primeiro a experimentar “A Máquina que Vence A Morte”. 

Então ele trouxe um cálice de vidro transparente, dentro dele umas bolinhas brancas, e explicou: 

- Quando um ente amado e querido se for, você engole uma destas bolinhas e diz... Em mim você viverá, para sempre. Daí, você vai sentir aquela pessoa bem viva junto a você. Junto não, bem dentro de você e ali o ente querido ficará bem vivo, para sempre, vencendo a morte. 

Bebemos vinho e nos despedimos, antes de sair eu disse a Monsenhor Pardini: não pare de inventar suas máquinas, continue. Ele me abraçou e disse rindo: 

-Não, este é meu último invento. 

Eu estava chegando do trabalho em casa cheio de problemas naquela noite. O telefone tocou e era a irmã do Monsenhor Pardini. Ela me avisou que ele tinha partido horas atrás. 

Saí correndo de casa e fui até o velório. Lá estava ele sorrindo como sempre e em volta gente chorando muito, muitas pessoas. Saí dali e fui para casa, triste, muito triste mesmo. Cheguei a casa e tomei meia garrafa de vinho para diminuir a dor. 

Olhei em cima do etagére e vi a máquina que vencia a morte. Descobri a taça e engoli uma bolinha daquelas. 

Em pouco tempo, coloco um disco pra tocar, pego um lápis e um caderno, começo a inventar uma máquina que me faça viajar no tempo. Do passado para o futuro e do futuro de volta ao tempo presente. Quando termino o desenho, ouço uma risadinha conhecida. A risadinha de Monsenhor Pardini e uma voz que vinha bem lá de dentro de mim dizendo: 

-Não disse que minha máquina vencia a morte? 



(Ilustração: John Bellany - Time will Tell)



sexta-feira, 11 de maio de 2018

A GARGANTA DA SERPENTE, de Agostina Akemi Sasaoka









Não há luz.

O tremor do útero

anuncia a sílaba.

Diga tua profecia

enquanto refaço o evangelho.

A boca sorri tortuosa

maldizendo a dança dos temores.

Pronuncie!

Não ouse sussurrar o caos.

O terço se enrosca

em minha língua

enquanto a primeira estrela se arrebenta.

Hospedo-me

nas gavetas do inferno,

onde os verbos maceram.

Não olhe:

vou nascer.

A garganta arreganhada

permite o sibilar do cio

Esfrego-me em teus pudores

enquanto conjugo um bocado da lua.

As escamas pulsam displicentes

sob a fronteira úmida da dor.

E o verde rasteja

- infindável -

trazendo a serpente.



(Ilustração: escultura de Franz Xaver Bergman - 1861–1936; Viena)




terça-feira, 8 de maio de 2018

OS ROBNIKS, de Vladen Bakhnov


   





A reunião do Conselho Científico terminou tarde da noite e agora o velho catedrático caminhava vagarosamente pelos silenciosos corredores do Instituto. Em alguns laboratórios ainda havia luz. Através do vidro fosco movimentavam-se sombras de estudantes e robôs. 

Na verdade, toda a vida do velho professor se passou neste prédio. Estudou, lecionou e, em seguida, tornou-se diretor... Provavelmente um dia o Instituto levaria o seu nome, mas o professor tinha esperanças de que isto não aconteceria muito brevemente... 

Ele ia devagar, pensando na discussão que novamente surgiu no Conselho Científico. Esta discussão surgia constantemente e, pelo que se depreende, somente o tempo poderá dizer quem está com a razão e se o que acontecia na ocasião com os estudantes era uma tendência da moda ou algo muito mais sério. 

O professor desejava sinceramente que isto fosse um simples modismo. 

É difícil precisar quando e como tudo começou, há talvez uns cinco anos. No começo esta desconcertante inclinação dos estudantes de imitar em tudo os robôs, somente provocava risos e irritava. Os jovens, que se denominavam Robniks, começaram a falar de si próprios como se fossem máquinas cibernéticas: “Hoje estou programado para fazer isto ou aquilo”, “Este livro introduziu em mi mais ou menos tantas unidades de nova informação...” 

Depois eles aprenderam a imitar as maneiras e os movimentos dos robôs, acostumaram-se a olhar sem piscar, com uma expressão ausente e os seus rostos se tornaram tão inexpressivos e impessoais, como os achatados rostos dos robôs. 

É claro que qualquer nova moda sempre irrita alguém. O professor lembrava perfeitamente que há cincoenta anos, os jovens e ele, inclusive, começaram a deixar crescer a barba, imitando os beatniks. 

Antes disso estava na moda o penteado à la Tarzan. E agora convencionou-se eliminar à navalha todos os pelos do rosto e da cabeça, já que os robôs, como se sabe, não possuem cabelos. 

Mas não era isto o que preocupava o professor. 

Naquela ocasião considerava-se, no mínimo, antiquado divertir-se e ficar triste, rir e chorar; todo a exteriorização de quaisquer sentimentos era considerada grave falta de educação pelos verdadeiros robniks. 

- No nosso século – diziam eles – quando estamos em condições de modelar qualquer emoção e decompor, em laboratório, todos os sentimentos em suas partes essenciais, tê-los seria risonhamente desatualizado e irracional. 

E ser considerado desatualizado e irracional era o maior temor de cada um dos robniks. 

Todas as ações dos robniks eram dirigidas pela razão. Não, não pela razão em si mesma, mas por algo consideravelmente menos importante: racionalização, racionalidade. 

Os robniks estudavam bem porque isto era racional. 

Os robniks não faltavam às aulas porque isto seria irracional. 

A cada quinze dias, aos sábados, os robniks organizavam festas, bebiam, dançavam e, separando-se em casais, procuravam isolar-se. Os cérebros destas máquinas imperfeitas precisavam descansar. 

Os robniks interessavam-se somente pela ciência, porque isto era atual. 

Lógica e matemática. Sejamos como os robôs! 

O que seria isto? Moda ou algo mais terrível? E se isto fosse somente moda, então por que durava tanto tempo?... 

- Eu não posso viver sem você, entende, não consigo! – o professor ouviu de repente uma voz angustiada. – Quando você não está, penso que você e minha alma se enche de alegria assim que me lembro que verei você novamente. Não sei que nome dar a este meu sentimento. E fico triste e me sinto bem por estar triste. Você entende o que quer dizer? 

- Claro, querido... 

- “Aí está – pensou alegremente o professor – ainda existem verdadeiros sentimentos e verdadeiros seres humanos”! E isto o encheu de tanta gratidão para com aquele cuja conversa ouviu sem querer, que não se conteve e entrou no laboratório de onde vinham as vozes. 

No laboratório hão havia ninguém a não ser dois robôs. 

O velho professor balançou a cabeça, saiu e fechou a porta. 

Ele havia esquecido desta moda idiota que surgiu entre os robôs: agora tentavam imitar as fraquezas humanas. 



(Os Robniks; tradução de Victor E. Selin) 



(Ilustração: Eric Joyner)



sábado, 5 de maio de 2018

FUNERAL BLUES / BLUES FÚNEBRES, de W. H. Auden







Stop all the clocks, cut off the telefone,

Prevent the dog from barking with a juicy bone,

Silence the pianos and with muffled drum

Bring out the coffin, let the mourners come.



Let aeroplanes circle moaning overhead

Scribbling on the sky the message He is Dead,

Put crêpe bows round the white necks of the public doves,

Let the traffic policemen wear black cotton gloves.



He was my North, my South, my East and West,

My working week and my Sunday rest,

My noon, my midnight, my talk, my song;

I thought that love would last for ever: I was wrong.



The stars are not wanted now: put out every one;

Pack up the moon and dismantle the sun;

Pour away the ocean and sweep up the wood;

For nothing now can ever come to any good.





Tradução de Nelson Ascher:




"Que parem os relógios, cale o telefone,

jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,

que emudeça o piano e que o tambor sancione

a vinda do caixão com seu cortejo atrás.



Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,

escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.

Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —

e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.



Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto

viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,

meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;

quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.



É hora de apagar estrelas — são molestas —

guardar a lua, desmontar o sol brilhante,

de despejar o mar, jogar fora as florestas,

pois nada mais há de dar certo doravante." 




Tradução de Nelson Ascher (outra versão):


"Detenham-se os relógios, cale o telefone,

jogue-se um osso para o cão não ladrar mais,

façam silêncio os pianos e o tambor sancione

o féretro que sai com seu cortejo atrás.



Aviões acima, circulando em alvoroço,

escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.

Pombas de luto ostentem crepe no pescoço

e os guardas ponham luvas negras como breu.



Ele era norte, sul, leste, oeste meus e tanto

meus dias úteis quanto o meu fim-de-semana,

meu meio-dia, meia-noite, fala e canto.

Julguei o amor eterno: quem o faz se engana.



Apaguem as estrelas: já nenhuma presta.

Guardem a lua. Arriado, o sol não se levante.

Removam cada oceano e varram a floresta.

Pois tudo mais acabará mal de hoje em diante."





Tradução de Vasco Graça Moura:




Parem já os relógios, corte-se o telefone,

dê-se um bom osso ao cão para que ele não rosne,

emudeçam pianos, com rufos abafados

transportem o caixão, venham enlutados.



Descrevam aviões em círculos no céu

a garatuja de um lamento: Ele Morreu.

no alvo colo das pombas ponham crepes de viúvas,

polícias-sinaleiros tinjam de preto as luvas.



Era-me Norte e Sul, Leste e Oeste, o emprego

dos dias da semana, Domingo de sossego,

meio-dia, meia-noite, era-me voz, canção;

julguei o amor pra sempre: mas não tinha razão.



Não quero agora estrelas: vão todos lá para fora;

enevoe-se a lua e vá-se o sol agora;

esvaziem-se os mares e varra-se a floresta.

Nada mais vale a pena agora do que resta.





Tradução de Rodrigo Suzuki Cintra:




Parem todos os relógios, calem o telefone,

Impeçam o latido do cão com um osso para a fome,

Silenciem os pianos e com tambores chamem

A vinda do caixão, deixem que os desconsolados clamem.



Que aviões circulem no alto, um voo torto,

Rabiscando no céu a mensagem: ele está morto.

Que se coloque nos brancos pescoços de pombas coleiras pretas,

E os guardas de trânsito usem luvas de algodão negras.



Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste,

Minha semana de trabalho, um domingo campestre,

Meu meio-dia, meia-noite, minha fala, minha canção;

Eu pensava que o amor duraria para sempre: eu não tinha razão.



Não me importam mais as estrelas; tirem-nas da minha frente,

Empacotem a lua, desmantelem o sol quente,

Despejem o oceano, tirem as florestas de perto:

Pois agora nada mais pode vir a dar certo.



Tradução de Maria de Lourdes Guimarães:




Parem todos os relógios, desliguem o telefone,

Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,

Silenciem os pianos e com os tambores em surdina

Tragam o féretro, deixem vir o cortejo fúnebre.



Que os aviões voem sobre nós lamentando,

Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,

Ponham laços de crepe em volta dos pescoços das pombas da cidade,

Que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão.



Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,

A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,

O meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;

Pensei que o amor ia durar para sempre: enganei-me.



Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;

Emalem a lua e desmantelem o sol;

Despejem o oceano e varram o bosque;

Pois agora tudo é inútil.




(Ilustração: foto do filme O Sétimo Selo, de Bergman)



quarta-feira, 2 de maio de 2018

A CARNE NEGRA, de William S. Burroughs







“A gente amigos, sim?” 

O pequeno engraxate estampou seu sorriso malandro e olhou para os olhos mortos, frios e submarinos do Marinheiro, olhos sem rastros de calor, volúpia ou ódio, ou de qualquer sentimento que o garoto jamais tivesse experimentado ou visto em outros, ao mesmo tempo frios e intensos, impessoais e predatórios. 

O Marinheiro se inclinou pra frente e pôs o dedo na parte interna do braço do garoto, na altura do cotovelo. E falou em seu murmúrio amortecido de drogado. 

“Com essas veias, menino, eu faria uma festa!” 

E riu um riso negro de inseto que parecia cumprir certa obscura função orientadora, como os guinchos do morcego. O Marinheiro riu três vezes. Depois parou de rir e ficou imóvel, ouvindo sua própria voz interna. Havia sintonizado a frequência silenciosa da droga. Seu rosto se alisou como cera amarela sobre as altas bochechas. Esperou meio cigarro. O Marinheiro sabia esperar. Mas seus olhos ardiam com um apetite seco e maligno. Virou o rosto de controlada urgência em lento meio giro, até enquadrar o homem que acabara de entrar. “Fats” Terminal sentou-se frente a uma mesa e varreu o café com olhos inexpressivos que pareciam periscópios. Quando seus olhos enfocaram o Marinheiro, fez um lento gesto com a cabeça. Só os nervos expostos da ausência de droga poderiam ter registrado o movimento. 

O Marinheiro deu uma moeda ao garoto. E foi-se em direção à mesa de Fats com andar flutuante – sentou-se. Ficaram muito tempo sentados em silêncio. O café fora construído num dos lados de uma rampa de pedra, ao fundo de um alto canyon de alvenaria. Rostos vindos da Cidade passavam, silenciosos como peixes, manchados por vícios infames, lascívias de inseto. O café iluminado como um sino submerso, o cabo cortado, assentando-se em sóbrias profundezas. 

O Marinheiro estava polindo as unhas na lapela de seu terno xadrez justo. Assobiava uma música por entre os dentes amarelos e brilhantes. 

Quando se movia, um eflúvio de húmus se desprendia de suas roupas, um odor mofado de depósitos desertos. Estudava suas unhas com fosforescente intensidade. 

“Estamos bem aqui, Fats. Posso entregar vinte. Mas preciso, claro, de um adiantamento.” 

“Em espécie?” 

“Não tenho os vinte no meu bolso. Mas tou te dizendo: é coisa limpa, fina. É dizer e apanhar.” O Marinheiro olhou as unhas como se estivesse estudando um mapa. “Você sabe que eu não falho.” 

“Deixa por trinta. Com um adiantamento de dez. Amanhã, a esta mesma hora.” 

“Fats, estou precisando do bagulho agora.” 

“Dá uma voltinha que eu te consigo um.” 

O Marinheiro afastou-se até a praça. Um garoto de rua aproximava um jornal do rosto do Marinheiro para cobrir sua mão que estava sobre a caneta dele. O Marinheiro continuou em frente. Tirou a caneta e quebrou-a como a uma noz, com seus dedos grossos e fibrosos e rosados. Tirou o recipiente de carga. Cortou uma das pontas do tubinho com uma faquinha curva. Uma névoa escura brotou do pequeno tubo e parou suspensa no ar, como uma pele fervendo. O rosto do Marinheiro se dissolveu. Sua boca ondulou para a frente formando um tubo comprido e sugou a substância numa explosão silenciosa e rosada. Seu rosto entrou em foco de novo, insuportavelmente nítido e claro, e a ardente marca amarela da droga queimava as nádegas cinzentas de um milhão de drogados aos berros. 

“Essa vai durar um mês”, decidiu ele, consultando um espelho invisível. 

Todas as ruas da cidade descem por entre vales cada vez mais profundos, e desembocam em uma enorme praça em forma de rim e escura. As paredes da rua e da praça são perfuradas por cubículos habitados e cafés, alguns com poucos metros de profundidade, outros se estendem a perder de vista numa rede de quartos e corredores. 

Em todos os níveis um emaranhado de pontes, caminhos de gato e linhas de bonde. Jovens catatônicos vestidos de mulher em camisolas de serapilheira e farrapos sujos, rostos forte e toscamente pintados em cores vivas sobre camadas de marcas e arabescos de cicatrizes aberta e supuradas que chegam até os ossos opalinos, empurram-se de encontro aos transeuntes com repetida e silenciosa insistência. 

Traficantes da Carne Negra, a carne da gigante e escura centopeia aquática – que às vezes atinge um comprimento de mais de dois metros – encontrada num beco de pedras negras e iridescentes lagoas pardas, exibem crustáceos paralisados nos bolsos camuflados da praça, visíveis apenas para os Comedores da Carne. 

Adeptos de ofícios obsoletos e inconcebíveis balbuciando em etrusco, viciados em drogas ainda não sintetizadas, traficantes do mercado negro da Terceira Guerra Mundial, praticantes de sensibilização telepática, osteopatas do espírito, investigadores de infrações denunciadas por suaves jogadores de xadrez paranoides, servidores de multas fragmentárias escritas em hebefrência taquigrafia acusando indescritíveis mutilações do espírito, funcionários de estados policiais mutilações do espírito, funcionários de estados policiais ainda não constituídos, corretores de sonhos estranhos e nostalgias testadas nas células sensibilizadas da doença da droga e trocadas pela matéria-prima da vontade, bebedores do Fluido Pesado lacrado no translúcido âmbar dos sonhos. 

O Café de Encontro ocupa um lado da praça, um labirinto de cozinhas, restaurantes, cubículos para dormir, perigosas sacadas de ferro e sótãos que se abrem nos quartos de banho subterrâneos. 

Em bancos cobertos de branco cetim sentam-se, nus, os Mugwumps que bebem translúcidos xaropes coloridos em canudos de alabastro. Os Mugwumps não têm fígado e se alimentam exclusivamente de doces. Os lábios finos, azul-púrpura, cobrem um bico de osso negro afiado como uma navalha com o qual às vezes se fazem em pedaços nas lutas por clientes. Essas criaturas secretam de seus pênis erectos um fluido que vicia e prolonga a vida desacelerando o metabolismo. (De fato, todos os agentes de longevidade criam dependência na proporção exata da sua efetividade de prolongar a vida.) Os viciados do fluido dos Mugwumps são conhecidos como Répteis. Alguns deles escorrem pelas cadeiras com seus ossos flexíveis e carne negra rosada. De trás de cada orelha brota um abanico de cartilagem verde coberta de ocos pelos erécteis pelos quais os Répteis absorvem o fluido. Esses abanicos, que se movem de tempos em tempos, tocados por correntes invisíveis, servem também para estabelecer uma forma de comunicação conhecida apenas pelos Répteis. 

Durante os Pânicos bienais, quando a tosca e desolada Polícia do Sonho toma de assalto a cidade, os Mugwumps refugiam-se nas fendas mais profundas das paredes, enclausurando-se em cubículos de barro, e durante semanas permanecem em estado de biostase. Durante esses dias de terror cinzento, os Répteis se arremessam para todos os lados, cada vez mais rápidos, e berram uns para os outros quando se cruzam numa velocidade supersônica, se seus crânios flexíveis golpeiam ventos negros de agonia animal. 

A Polícia do Sonho desintegra-se em bolhas de ectoplasma podre varridas por um velho drogado que tosse cospe na manhã doente. O Homem Mugwump vem com jarras de alabastro do fluido e os Répteis se abrandam. 

O ar aparece outra vez claro e parado como glicerina. 

O Marinheiro localizou o seu Réptil. Derivou até ele e pediu um xarope verde. O Réptil tinha uma boquinha redonda em forma de disco, de cartilagem parda, inexpressivos olhos verdes quase cobertos por uma delgada membrana de pálpebra. O Marinheiro esperou uma hora até que a criatura percebesse sua presença. 

“Algum bagulho pro Fats?”, perguntou ele, e suas palavras estremeceram os pelos do abanico do Réptil. 

O Réptil precisou de duas horas para levantar três dedos róseos e transparentes cobertos de uma substância negra. 

Vários Comedores da Carne jazem em meio ao vômito, fracos demais para se mover. (A Carne Negro é como queijo estragado, excepcionalmente delicioso e nauseante, de modo que os comedores ingerem-na, vomitam-na e novamente a comem até caírem exaustos.) 

Um jovem pintado deslizou para dentro e pegou uma das grandes garras negras, das quais se desprendia o odor doce e doentio que impregnava o Café. 



(Almoço Nu; tradução de Mauro Sá Rego Costa e Flávio Moreira da Costa) 



(Ilustração: foto do filme Naked Lunch, de David Cronenberg)


domingo, 29 de abril de 2018

FELICIDADE É COISA QUE NÃO TEM, de Judas Isgorogota









Era órfã e infeliz. Tinha o pesar profundo

De ser só, de não ter, como as outras meninas,

O carinho, a atenção, o desvelo dos pais.

Sofria por saber que, sozinha no mundo,

Ela, que havia tido a mais negra das sinas,

Deste mundo de dor nada esperava mais…

Mas, ouvindo, por fim, a fervorosa prece

Que altas horas da noite entre prantos brotava

Daquele ingênuo coração,

O Senhor a atendeu. E eis que um dia aparece

Um casal que de há muito desejava

Uma menina assim, para sua afeição.

E ela foi a sorrir, ela que não sorria…

A mansão do casal era toda cercada

De um mimoso jardim.

Seus vestidos agora eram lindos. Dir-se-ia

Que a andrajosa infeliz se transmudara em fada

E que a sua desdita, enfim, tivera um fim…

Não tivera, porém. Há três anos

Que ela era na escola a estudante pior.

Entanto, ela fazia esforços sobre-humanos

Para ao menos dizer uma frase de cor…

A memória, porém, só lhe causava danos

E era aquilo, afinal, sua mágoa maior…

Uma noite, o casal lhe disse: "Temos pena

De lembrar que você já não é tão pequena,

Que precisa estudar…

Pois, se perder este ano, é coisa resolvida,

Você vai passar a sua vida

Na copa, a trabalhar."

Aquela repreensão como um punhal lhe doía.

Tendo a alma a afogar-se em pranto, noite e dia

Aos livros a sem-sorte inda mais se aplicou.

Não, não queria ser uma simples copeira,

Ela que, pobrezinha, a sua infância inteira

Entre angústias passou…

Dezembro. A criançada. Antegozando as férias,

Mui longe de pensar nessas coisas tão sérias

Que a vida nos impõe quando a idade já vem,

Corre aos exames, rindo a criançada…

E no meio daquela revoada

Com um riso triste e bom, a órfão sorri também…

A escola é nesse dia um ninho delicioso,

Forrado de jasmins, de palmas e florões.

E a voz do mestre é a voz de um Todo-poderoso

Que as almas infantis enche de comoções…

Chega a vez da orfãzinha. É agora a vez terceira

Que se senta naquela humílima cadeira

Tal como se sentasse em um banco de réu…

Fala o mestre o seu nome, ao que ela diz: "Presente!"

Mas, o corpo era só que estava ali…realmente,

A sua alma vagava, entre os anjos, no céu…

O mestre a conhecia: era uma retardada

Mental, um caso à parte, e mister se fazia

Que com amor procedesse à mais leve arguição.

Dentre todas talvez fosse a mais aplicada…

Mas a ideia faltava…o cérebro dormia…

E a memória vivia em profunda inação.

-"Minha filha, você sabe perfeitamente

O que é "substantivo": a palavra que indica

Um animal, um ente,

Uma coisa ou pessoa, ou mesmo uma ilusão…

Por exemplo, você, o seu nome, "Lilica";

"Palácio", "Deus", "Amor", "Jornal", "Antônio"…

"Demônio" é um ser também, muito embora "Demônio"

Somente exista na imaginação…"

-"Muito bem, - prosseguiu o mestre. Estou contente.

Agora, diga o que é "substantivo abstrato"…

Diga…Lembre-se bem…coisa mais fácil não há…

Substantivo abstrato…uma coisa em que a gente

Ouve sempre falar mas não viu, de fato,

Nunca viu nem verá…"

-"Vamos… Só um exemplo, e eu fico satisfeito…

Substantivo abstrato…um entre sobre-humano,

Um ser a cujo canto alma alguma resiste,

Mas que não passa de ilusão…

Um sentimento bom que vive em nosso peito…

Uma coisa que o mundo inteiro diz que existe

E entretanto jamais a tivemos à mão…"

Nesse instante, uma luz brilhou nos olhos pequeninos

Da orfãzinha infeliz; e eis que, rasgando o denso

Nevoeiro, a ideia acorda em lampejos divinos,

A memória reluz como uma estranha vela;

Inicia a razão sua marcha triunfal,

E o cérebro, por fim, despertando daquela

Sonolência fatal,

Começa a funcionar com um dínamo imenso!

-"Mestre…mestre…eu já sei!" – grita a coitada como

Temendo que a razão se apagasse outra vez.

E aos brados, a chorar, num doloroso assomo,

Grita como uma douda

Que quisesse dizer a sua angústia toda

Naquele instante só de estranha lucidez!

- "Mestre, eu sei o que é! Se há uma coisa, em verdade,

Que o mundo inteiro diz que existe e que ninguém

Conseguiu ver jamais, nem a sentiu também,

Essa coisa só pode ser "Felicidade"!

Felicidade é coisa que não tem" 





(Ilustração: Diego Rivera)



quinta-feira, 26 de abril de 2018

PESCARIA, de Ernest Hemingway









Lá pelos recifes onde foram fazer pesca submarina havia os destroços do naufrágio de um vapor velho e mesmo com a maré alta as caldeiras de ferro enferrujado ainda apareciam à tona da água. Naquele dia o vento soprava para o sul, e Thomas Hudson ancorou ao abrigo de uma rocha, não demasiado perto, e Roger e os meninos aprontaram as máscaras e os arpões. Os arpões eram muito toscos e de vários tipos, feitos de acordo com as ideias pessoais de Thomas Hudson e dos meninos. 

Joseph tinha vindo junto para remar o escaler. Levando Andrew consigo, dirigiu-se para os recifes, enquanto os outros escorregavam pela amurada para nadar. 

- Você não vem? – gritou David ao pai, que havia ficado na segunda ponte de comando do barco de pesca. O círculo de vidro encobrindo os olhos, o nariz e a testa, com a armação de borracha que pressionava as faces, o nariz e a testa presa com firmeza na carne pela tira de borracha em torno da nuca, deixava-o semelhante às personagens de histórias pseudocientíficas em quadrinhos. 

- Daqui a pouco eu vou. 

- Não espere demais senão os peixes se assustam. 

- Há recifes que cheguem. Vocês não vão esgotar tudo. 

- Mas eu sei de duas tocas ali adiante, depois das caldeiras, que são uma maravilha. Descobri no dia em que viemos sozinhos. Estavam tão intatas e cheias de peixe que deixei pra quando a gente viesse todos juntos. 

- Eu me lembro. Daqui a uma hora, mais ou menos, irei. 

- Vou deixá-las pra quando você vier – disse David, e se pôs a nadar atrás dos outros, mão direita segurando a haste de quase dois metros de madeira dura, o arpão talhado à mão, de pontas gêmeas, fixo na extremidade e amarrado com um pedaço de corda de pescaria. Mantinha o rosto debaixo d’água, examinando o fundo pelo vidro da máscara enquanto nadava. Era um menino submarino e agora que estava tão queimado de sol e nadava apenas com a nunca molhada à mostra lembrava a Thomas Hudson mais do que nunca uma lontra. 

Observou-o contornar o barco, usando o braço esquerdo e movendo as pernas compridas e os pés em lento impulso contínuo, erguendo ocasionalmente, e cada vez por mais tempo, por tempo muito maior do que era lícito esperar, o rosto meio de lado para respirar. Roger e o filho mais velho de Hudson tinham saído nadando de máscara na testa e já se achavam longe. Andrew e Joseph estavam no escaler junto da rocha, mas Andrew ainda não havia saltado pela amurada. O vento soprava de leve e a água perto dos recifes parecia clara e espumosa, com os pardos rochedos e o distante mar azul-escuro. 

Thomas Hudson desceu à cozinha de bordo, onde Eddy descascava batatas em cima de um balde preso entre os joelhos. Espiava pela escotilha para o lado dos recifes. 

- Os meninos não deviam dispersar-se – comentou ele. – Deviam ficar perto do bote. 

- Você acha que é capaz de entrar alguma coisa por cima dos recifes? 

- A maré está muito alta. Isso aí é maré de primavera. 

- A água está tremendamente transparente – disse Thomas Hudson. 

- O oceano está infestado de bichos ruins – disse Eddy. – Estas águas por aqui são um perigo se eles chegarem a sentir o cheiro desses peixes. 

- Por enquanto ninguém pescou nada. 

- Mas não demora vão pescar. Eles têm que botar esses peixes de uma vez dentro daquela canoa, antes que o cheiro de peixe ou de sangue seja levado pela maré. 

- Vou dar um pulo até lá. 

- Não. Diga pra eles ficarem bem juntos um do outro e guardarem os peixes na canoa. 

Thomas Hudson subiu ao convés e gritou a Roger o que Eddy tinha dito. Roger levantou o arpão e acenou que havia entendido. 

Eddy veio até a popa com a panela cheia de batatas numa mão e a faca na outra. 

- Pegue aquela espingarda boa, a pequena, que é boa, e fique de olho aí em cima, Tom – disse ele. Não estou gostando disso. Não me agrada ver crianças lá longe com essa maré. A gente está muito perto do oceano verdadeiro. 

- Vamos buscá-los. 

- Não. Pode ser que seja só nervosismo meu. É que ontem tive uma noite ruim mesmo. Eu gosto deles como se fossem meus filhos e me preocupo muito com eles. – Largou a panela de batatas no chão. – Vou lhe dizer o que a gente vai fazer. Você liga o motor, eu puxo a âncora e depois a gente chega bem perto das pedras e atraca ali. Com essa maré e o vento, o barco arranca num instante. Vamos levá-lo pra lá. 

Thomas Hudson ligou o possante motor e foi para a segunda ponte de comando, nos controles externos. À frente, enquanto Eddy levantava a âncora, podia vê-los agora todos dentro d’água e, nesse tempo, David surgiu à tona com um peixe se debatendo no arpão que mantinha no alto e Thomas Hudson ouviu-o chamando pelo escaler. 

- Aponte bem em direção à rocha – gritou Eddy da proa, onde segurava a âncora. 

Thomas Hudson avançou devagar até quase encostar na rocha, avistando as enormes saliências pardas de coral, os ouriços-cacheiros presos na areia e as algas roxas oscilando na maré em sua direção. Eddy suspendeu a âncora e Thomas Hudson deu marcha à ré. O barco girou, desviando-se do recife. Eddy amarou o cabo até retesar a corrente. Thomas Hudson desligou o motor e fundearam ali. 

- Agora já dá pra gente ficar de olho neles – disse Eddy parado de pé na proa. – Não aguento preocupação com esses meninos. Estraga essa droga da minha digestão. Como se não bastasse o jeito ruim eu ela anda. 

- Vou ficar aqui cuidando. 

- Eu trago a espingarda e volto pra estas porcarias de batatas. Os meninos gostam de salada de batata, não é? Assim como a gente faz? 

- Claro. Roger também. Ponha bastante ovo duro e cebola. 

- Vou deixar as batatas bem boas. Aqui está a espingarda. 

Thomas Hudson estendeu a mão para apanhá-la. Era volumosa e pesada no estojo forrado de lã de ovelha tosquiada que conservada sempre saturado de lubrificante para que não enferrujasse com a maresia. Retirou-a pelo cabo e guardou o estojo debaixo da coberta da segunda ponte de comando. Era uma Mannlicher Shoenauer calibre 256, de cano antigo de dezoito polegadas, cuja venda hoje estava proibida. A coronha e a parte dianteira tinham adquirido uma tonalidade castanha de tanto serem polidas e lubrificadas, e o cano, depois de ter roçado meses a fio na sela de cavalos, reluzia de óleo, sem uma mancha de ferrugem. A parte da culatra onde ele apoiava o rosto estava lustrosa, pelo uso, e quando ele puxou o ferrolho, o carregador surgiu cheio de grossos cartuchos pesados, a bala comprida e fina, revestida de metal em forma de lápis, expondo apenas uma minúscula ponta de chumbo. 

Era realmente uma arma boa demais para se guardar num barco, mas Thomas Hudson se afeiçoara tanto àquela espingarda, que lhe lembrava tantas coisas, pessoas e lugares, que preferia tê-la consigo. Descobrira que no estojo de pele de ovelha, depois que a lã tosquiada já se achava bem impregnada de lubrificante, a arma não sofria dano algum com o ar salgado. Seja como for, pensava, uma espingarda é para dar tiros, não para ser preservada num estojo, e aquela era de fato uma das boas, de fácil manejo, excelente para aprender a atirar e útil no barco. Sempre se sentia mais seguro com ela quando queria disparar de distâncias curtas e médias do que com todas as outras que já possuíra. E agora se alegrava com o mero ato de retirá-la do estojo, puxar o ferrolho para trás e meter uma cápsula na culatra. 

O barco pairava quase imóvel na maré e na brisa. Pendurou a bandoleira da arma numa das alavancas de controle externo, para tê-la bem à mão, e deitou-se no colchão ensolarado da ponte de comando. De bruços, para queimar as costas, avistava o lugar onde Roger e os meninos pescavam. Estavam todos mergulhados, conservando-se no fundo por espaços de tempo diversos, voltando à tona para respirar e logo desaparecer novamente, trazendo de vez em quando peixes nos arpões. Joseph remava entre um e outro, recolhendo os peixes das pontas dos arpões e largando-os dentro do escaler. Podia ouvi-lo gritando e rindo, e ver a cor viva dos peixes, vermelha ou vermelha salpicada de marrom, ou vermelha e amarela, ou listrada de amarelo, quando Joseph os arrancava dos arpões, jogando-os outra vez à sobra da popa do escaler. 

- Eddy, quer trazer-me um drinque, por favor? – pediu Thomas Hudson pelo costado do barco. 

- O que você quer? 

Eddy esticou a cabeça para fora da cabina dianteira. Estava com o chapéu velho de feltro e uma camisa branca, e sob o sol brilhante tinha os olhos injetados de sangue. Thomas Hudson notou que ele havia passado mercurocromo nos lábios. 

- O que você fez na boca? – perguntou-lhe. 

- Uma espécie de encrenca ontem à noite. Só passei um pouco. Aparece muito? 

- Deixa você parecendo uma puta do interior da ilha. 

- Ah, porra – disse Eddy. – Passei no escuro, sem enxergar. Só pelo tato. Quer um drinque com água de coco? Tenho uns aqui. 

- Ótimo. 

- Quem sabe um Green Isaac’s Special? 

- Muito bem. Prepare um Special. 

Deitado ali no colchão, a cabeça de Thomas Hudson ficava na sombra projetada pela plataforma da extremidade dianteira da ponte, onde estavam os controles, e quando Eddy veio até a popa com o copo grande gelado, cheio de gim, suco de lima, água de coco verde, gelo picado e apenas a proporção exata de bíter de angustura para lhe dar aquele tom rosa-ferrugem, ele o manteve na sombra para que o gelo não derretesse enquanto ele olhava o mar. 

- Parece que os meninos estão com sorte – disse Eddy. – Já tem peixe que chega pro jantar. 

- Que mais vai ter? 

- Purê de batata com peixe. Um pouco de tomate também. E aquela salada de batatas pra começar. 

- Parece bom. Como vai a salada? 

- A batata ainda não esfriou, Tom. 

- Eddy, você gosta de cozinhar, não é? 

- Se gosto! Gosto de andar de barco e de cozinhar. Não gosto é de discussão, briga e encrenca. 

- Mas você sempre foi bom pra se meter em encrenca. 

- Sempre evitei, Tom. Às vezes não dá pra evitar, mas sempre tento. 

- O que houve ontem à noite? 

- Nada. 

Não queria falar naquilo. Nunca falava nos velhos tempos tampouco, quando tinha se metido em várias encrencas. 

- Está bem. Que mais teremos para comer? Precisamos alimentar esses meninos. Eles estão crescendo. 

- Trouxe um bolo que fiz em casa e tem dois abacaxis frescos no gelo. Vou partir em fatias. 

- Ótimo. Como é que vai ser o peixe? 

- Do jeito você quiser. Vamos esperar pra ver qual é o melhor que eles pegam, pra depois cozinhar como eles, você e o Roger quiserem. O David acabou de pegar um bom olho-de-boi. Tinha outro, mas ele o deixou escapar. Esse é grandão, todo mole. Mas ele está se distanciando mito. Ainda segura o peixe e o Joe está muito longe com a canoa, está perto do Andy. 

Thomas Hudson largou o copo no chão e se pôs de pé. 

- Caramba – exclamou Eddy. – Olhe só aquilo ali! 

Aparecendo ao longe no mar azul, feito uma vela parda de embarcação e cortando a superfície em veloz investida impelida pelo rabo, a alta barbatana dorsal vinha chispando em direção ao barco à beira do rochedo onde o menino de máscara no rosto segurava um peixe fora d’água. 

- Minha nossa – disse Eddy. – Que cação mais filha da puta. Puxa vida, Tom. Santo Deus. 

Mais tarde Thomas Hudson lembrou que a primeira impressão que teve foi da grande altura da barbatana, do modo como ela mudava de direção, como um cão de caça rastreando a presa, e como parecia avançar feito uma tesoura e no entanto hesitar. 

Levantou a espingarda e atirou bem na frente da barbatana. O tiro disparou e lançou um esguicho d’água. O cano estava pegajoso de óleo. O peixe continuou avançando em curvas, sem parar. 

- Jogue pra ele essa droga de peixe – gritou Eddy a David, recuando de um salto e descendo depressa para a cabina. 

Thomas Hudson atirou de novo e errou, com outro esguicho d’água na retaguarda. Sentiu uma náusea no estômago, como se alguma coisa o estivesse apertando e espremendo por dentro, e tornou a atirar com toda a firmeza e cuidado possível, sabendo perfeitamente a importância do tiro, e o esguicho d'água jorrou à frente da barbatana. Ele prosseguia em seu caminho com a mesma pertinácia horrenda. Agora só lhe restava uma bala, não tinha cartuchos extras, e o tubarão se achava a cerca de trinta metros do menino, adiantando-se no mesmo movimento cortante. David arrancara o peixe do arpão e o segurava na mão, com a máscara no alto da testa, sem tirar os olhos do tubarão já próximo. 

Thomas Hudson procurou manter-se calmo mas firme, lutando para prender a respiração e não pensar em nada além do tiro; para comprimir e acertar a apenas um átimo de distância da base da barbatana, que agora avançava mais sinuosamente do que antes. Nisso ouviu a metralhadora portátil abrindo fogo da popa e viu a água começar a esguichar ao redor da barbatana. Tornou a ouvir uma curta rajada e a água espirrou numa área mais compacta bem na base da barbatana. Quando atirou, ouviu outra vez a descarga, rápida e tensa. A barbatana mergulhou, provocando uma ebulição na superfície, e depois o maior cação que jamais vira ergueu a barriga branca fora do mar e começou a retorcer-se loucamente à tona, de costas, espalhando água como um esqui aquático. A barriga reluziu com um branco obsceno, a boca de um metro de largura contorcida numa espécie de sorriso, as grandes trompas da cabeça com os olhos na ponta, esbugalhados, ao descrever um salto e deslizar para baixo d’água, enquanto a metralhadora de Eddy retinia e rompia a alvura da barriga com manchas pretas que avermelharam antes que girasse para submergir e Thomas Hudson pudesse vê-lo mergulhando em lenta espiral. 

- Chame esses meninos desgraçados pra cá – escutou Eddy gritar. – Não aguento esse tipo de coisa. 

Roger tinha nadado depressa em direção a David, e Joseph estava puxando Andy para dentro do escaler e depois remando para perto dos outros dois. 

- Puta que o pariu – exclamou Eddy. – Já se viu cação desse tamanho? Graças a Deus que eles aparecem na superfície quando querem pegar alguém. Graças a Deus. Os miseráveis sempre vêm à tona. Viu como ele afundou? 

- Me dê uma caixa de cartuchos – pediu Thomas Hudson. Estava trêmulo e sentia uma fraqueza no estômago. – Voltem pra cá – gritou. 

Nadavam em torno do escaler e Roger puxava David para cima da amurada. 

- Agora eles podem pescar – disse Eddy. – Qualquer tubarão no oceano só vai querer saber dele. O oceano em peso vai cair em cima dele. Viu como ele virou de costas, Tom, e depois deu aquele salto desgraçado? Nossa mãe, que cação. E  o menino pronto pra jogar o peixe pra ele? Só o meu David, mesmo. Ah, que colosso esse Davy. 

- É melhor eles voltarem. 

- Lógico que é melhor. Falei só por falar. Eles vão voltar. Não se impressione que eles voltam. 

- Santo Deus, que coisa terrível. Onde é que você tinha guardado a metralhadora? 

- O delegado começou a implicar comigo porque eu estava com ela lá em casa, por isso guardei-a aqui no paiol, embaixo do meu beliche. 

- Não há dúvida de que você sabe lidar com ela. 

- Porra, e não haveria de saber, com aquele tubarão vindo zunindo pra cima do meu Davy, esperando lá, quietinho, pronto pra jogar aquele peixe? Olhando firme pra onde o tubarão vinha vindo? Porra, por mim podia ser a última coisa que eu havia de enxergar nesta bosta de vida. 

O escaler se aproximou da lancha e eles subiram pelo costado. Os garotos estavam molhados e animadíssimos. Roger parecia muito abalado. Dirigiu-se a Eddy e apertou-lhe a mão. 

- A gente nunca deveria ter deixado que eles saíssem com essa maré – disse Eddy. 

Roger sacudiu a cabeça e passou o braço pelo ombro de Eddy. 

- A culpa foi minha – insistiu Eddy. – Eu nasci aqui. O senhor é de fora. Não podia saber. Eu é que sou o responsável. 

- Você se comportou à altura – disse Roger. 

- Porra – retrucou Eddy. – Como é que alguém ia errar àquela distância? 

- Você chegou a vê-lo, Dave? – perguntou Andrew, com toda a delicadeza. 

- Só a barbatana dele até bem quase no fim. Depois pude ver antes do Eddy acertar nele. Ele mergulhou e aí então apareceu de costas. 

Eddy estava esfregando-o com uma tolha e Thomas Hudson viu que tinha a pele ainda arrepiada nas pernas, costas e ombros. 

- Nunca vi nada semelhante àquilo, quando ele saiu da água e começou a virar de lado – afirmou Tom Jr. – Nunca vi nada no mundo parecido com aquilo. 

- Você não verá muita coisa igual a essa – retrucou o pai. 

- Devia pesar mais de meia tonelada – disse Eddy. – Acho que nem existe cação maior do que esse. Caramba, Roger, você viu a barbatana que ele tinha? 

- Vi, sim – respondeu Roger. 

- Será que não dá pra gente ir buscá-lo? – perguntou David. 

- Claro que não, porra – disse Eddy. – Ele afundou girando sem parar sabe lá até onde. Está a umas oitenta braças de profundidade e o oceano em peso vai se banquetear. A estas horas já tão caindo em cima dele. 

- Eu gostaria que a gente pudesse ir buscá-lo – insistiu David. 

- Calma, menino. Você ainda está com a pele toda arrepiada. 

- Você sentiu muito medo, Dave? – perguntou Andrew. 

- Senti, sim – confessou David. 

- Que é que você ia fazer? – perguntou Tom, cheio de respeito. 

- Ia jogar o peixe pra ele – respondeu David, e enquanto Thomas Hudson o observava, a pequena erupção aguda de arrepio se espalhou pelos ombros. – Depois ia bater com o arpão bem no focinho dele. 

- Ora essa – disse Eddy, afastando-se com a toalha. – O que você vai tomar, Roger? 

- Não tem um pouco de cicuta? – indagou Roger. 

- Não amole, Roger – respondeu Thomas Hudson. – Todos nós fomos responsáveis. 

- Irresponsáveis. 

- Está tudo terminado. 

- Muito bem. 

- Vou preparar um gim – disse Eddy. – O Tom estava bebendo um quando o negócio aconteceu. 

- Ainda está lá em cima. 

- Agora já deve ter ficado uma droga – disse Eddy. - Vou fazer um novo. 

- Você se saiu muito bem, Davy – afirmou Tom Jr., todo orgulhoso. – Espere até eu contar isso aos rapazes no colégio. 

- Não vão acreditar – disse David. – Não conte pra eles, se eu for pra lá. 

- Por quê? – estranhou Tom Jr. 

- Sei lá – respondeu David. E de repente rompeu a chorar feito uma criança. – Ah, merda, eu não suportaria se não acreditassem. 

Thomas Hudson tomou-o nos braços, segurando-lhe a cabeça contra o peito. Os outros meninos viraram o rosto. Roger desviou o olhar e depois Eddy surgiu com três drinques, o polegar enfiado num dos copos. Thomas Hudson notou logo que ele havia bebido na cozinha. 

- O que é que há com você, Davy? – perguntou. 

- Nada. 

- Ótimo – disse Eddy. – Assim é que eu gosto de ouvir você falar, seu desgraçado filho da mãe. Vá lá pra baixo, pare de choramingar e deixe o seu velho beber. 



(As ilhas da corrente; tradução de Milton Persson) 






(Ilustração: foto Fabien Michenet)