segunda-feira, 16 de julho de 2018

DAS NOTHEND / A COTA DE MALHA, de Johann Ludwig Uhland







»Ich muß zu Feld, mein Töchterlein,

Und Böses dräut der Sterne Schein,

Drum schaff du mir ein Notgewand,

Du Jungfrau, mit der zarten Hand!«



»Mein Vater! willst du Schlachtgewand

Von eines Mägdleins schwacher Hand?

Noch schlug ich nie den harten Stahl,

Ich spinn und web im Frauensaal.«



»Ja, spinne, Kind, in heil’ger Nacht,

Den Faden weih der höllischen Macht!

Draus web ein Hemde, lang und weit!

Das wahret mich im blut’gen Streit.«



In heil’ger Nacht, im Vollmondschein,

Da spinnt die Maid im Saal allein.

»In der Hölle Namen!« spricht sie leis,

Die Spindel rollt in feurigem Kreis.



Dann tritt sie an den Webestuhl

Und wirft mit zager Hand die Spul;

Es rauscht und saust in wilder Hast,

Als wöben Geisterhände zu Gast.



Als nun das Heer ausritt zur Schlacht,

Da trägt der Herzog sondre Tracht:

Mit Bildern, Zeichen, schaurig, fremd,

Ein weißes, weites, wallendes Hemd.



Ihm weicht der Feind wie einem Geist:

Wer böt es ihm, wer stellt’ ihn dreist,

An dem das härteste Schwert zerschellt,

Von dem der Pfeil auf den Schützen prellt!



Ein Jüngling sprengt ihm vors Gesicht:

»Halt, Würger, halt! mich schreckst du nicht.

Nicht rettet dich die Höllenkunst,

Dein Werk ist tot, dein Zauber Dunst.«



Sie treffen sich und treffen gut,

Des Herzogs Nothemd trieft von Blut;

Sie haun und haun sich in den Sand,

Und jeder flucht des andern Hand.



Die Tochter steigt hinab ins Feld:

»Wo liegt der herzogliche Held?«

Sie find’t die todeswunden zwei,

Da hebt sie wildes Klaggeschrei.



»Bist du’s, mein Kind? Unsel’ge Maid!

Wie spannest du das falsche Kleid?

Hast du die Hölle nicht genannt?

War nicht jungfräulich deine Hand?«



»Die Hölle hab ich wohl genannt,

Doch nicht jungfräulich war die Hand,

Der dich erschlug, ist mir nicht fremd,

So spannt ich, weh! dein Totenhemd.«





Tradução de Wagner Schadeck:




– Filha, eu vou para a batalha;

No céu atina a má estrela:

Quero uma cota de malha

De tuas mãos de donzela.



– Pai, estarias seguro

Pelas mãos de uma mocinha?

Não sei forjar ferro duro;

Só entendo de agulha e linha.



– À noite, oferte o tecido

Ao Inferno! E com arremate,

Eu estarei protegido

Nesse cruento combate.



Lua-cheia em noite santa,

E sozinha ela urde a trama:

– Invoco o Inferno! E se espanta:

O fuso gira e se inflama.



Quando ela retira a linha

Daquele tear terrível,

Ele torna e redemoinha

Como por mão invisível.



Tão logo a armada se arranca,

O duque salta à vanguarda:

Sob a sua heráldica branca,

A cota de malha guarda.



Dele o inimigo se afasta;

Contra ele ninguém avança.

Despedaçando toda a hasta,

Quebra seta, sabre e lança.



E um infante o atalha no ato:

– Para, homem sanguinolento!

De nada vale teu pacto:

É desfeito o encantamento.



A refrega os incendeia.

Eis rasgada e tinta a cota…

E ambos rolam pela areia,

Amaldiçoando a derrota…



A filha invade o sangrento

Campo. – Onde, o Duque? E depois,

Reconhece com lamento

A pugna horrenda dos dois.



– Minha filha, tu forjaste

A cota como as demais?

O Inferno não invocaste,

Ou não tens mãos virginais?



– Invoquei o Inferno, mas

A mão que teceu tua malha

Pertencera a esse rapaz…

Pai, eu teci tua mortalha!



(Baladas e Romances)



(Ilustração: torneio medieval; autor desconhecido)





sexta-feira, 13 de julho de 2018

O POEMA MAIS TRISTE JÁ ESCRITO, de Nick Ripatrazone





‘Primavera e outono’, escrito por Gerard Manley Hopkins, em setembro de 1880, e recolhido em seu livro Poemas e prosa, é o poema mais triste já escrito. Tenho me emocionado com outros poemas, incluindo ‘Rock me mercy’, de Yusef Komunyakaa, ‘Saying goodbye to very young children’, de John Updike, e ‘Aubade ending with the death of a mosquito’, de Tarfia Faizullah. Existem inumeráveis outros poemas, publicados e inéditos, vistos e nunca vistos, que poderiam deixar cicatrizes em meu coração. Todavia, em 15 linhas e 94 palavras, Hopkins construiu um sentimento melancólico e elegíaco que mexe comigo ainda hoje, centenas de leituras depois. 

O poema evoca “uma criança” [a young child], Margaret, que é a destinatária silenciosa do lamento do narrador adulto. Hopkins compôs o poema enquanto servia como padre de paróquia, em Lydiate, Inglaterra, e ocasionalmente celebrava missas em Rose Hill, uma propriedade particular. Ele não foi um pregador bem-sucedido e, desprovido de ‘força de trabalho’, logo deixou o serviço pastoral. Lecionou latim e grego, em nível intermediário, durante três anos, tornando-se então chefe de Cultura Clássica, no Colégio Universitário, em Dublin. Teve poucas alegrias em todos esses afazeres profissionais e morreu de febre tifoide, em 8 de junho de 1889. Seus poemas só foram publicados em 1918, pelo seu amigo e poeta laureado britânico Robert Bridges. 


Margaret, are you grieving 
Over Goldengrove unleaving? 


Hopkins, do nosso ponto de vista tardio e imperfeito, foi um homem deprimido que amava a Deus. Muito tem sido escrito a respeito da tensão entre o seu eu artístico e o ascético; mesmo esse paradoxo, contudo, é fantasioso. Os exercícios espirituais, a pedra angular da formação jesuítica de Hopkins, não visam anular a personalidade de ninguém, apenas concentrar a mente. Seus versos poéticos vibram de acordo com a paixão de um homem de fé, e devem ser lidos sob essa ótica. Mas ele também foi um homem profundamente melancólico. 

O conceito de melancolia foi essencial para o ensaísta Michel de Montaigne, cujas obras, em suas associações e ritmos, eram poéticas. Em Montaigne e a melancolia: A sabedoria dos ensaios, M. A. Screech argumenta que essa melancolia, considerada então um dos quatro humores do corpo (bílis negra), resultou tanto em tristeza como em êxtase arrebatador. O êxtase do sexo, mas também o êxtase das experiências místicas, muito se parecem com os ânimos polarizados nos poemas de Hopkins. Montaigne estaria mais próximo do humor de Cícero (“Aristóteles disse que todos os gênios são melancólicos. Isso me deixa menos apreensivo por ser aparvalhado.”) do que das sombras de Hopkins, mas eles compartilham da propensão para explorar a tristeza. 

‘Primavera e outono’ é dirigido a Margaret. O seu nome é mencionado no primeiro e no último verso, fechando o poema. Hopkins, como outros poetas, muitas vezes alcança esse envolvimento de palavras e ideias por meio da forma poética e da rima, mas a repetição do seu nome é um lembrete de que a ela está sendo dado um conselho. Ela está triste porque as árvores estão perdendo folhas. Nós talvez quiséssemos dizer a ela para se refazer, não desperdiçando suas lágrimas com uma coisa tão trivial. Momentaneamente, porém, o narrador conserva o amor dela inflexível e sincero. 


Leaves like the things of man, you 
With your fresh thoughts care for, can you? 


Nos primeiros quatro versos, Hopkins usa variantes de ‘você’ quatro vezes, o refrão parece um toque consolador no ombro da menina. ‘Unleaving’ [desfolhando] vai dar em ‘leaves’ [folhas]. Uma pergunta é seguida por outra, embora a segunda esteja mais dirigida ao leitor, que seria o verdadeiro sujeito do poema. 

Esse questionamento ao leitor é a razão inicial pela qual o poema de Hopkins continua comigo. Acho que a melhor poesia é um modo de interrogar a si próprio. Posso passar boa parte do dia ouvindo a linguagem esvaziada pelos políticos e transformada em expediente pela publicidade. Mas rezo para que a poesia ampare a linguagem. Não acho que a linguagem sempre precise ser ressuscitada de uma maneira melancólica. Michael Robbins beijoca a linguagem poética de volta à vida por intermédio do humor (I am small,/I contain platitudes.), mas a melancolia é particularmente apropriada a uma poesia da permanência. 


Ah! as the heart grows older 
It will come to such sights colder 
By and by, nor spare a sigh 
Though worlds of wanwood leafmeal lie; 
And yet you wíll weep and know why. 


A poesia nos torna crianças de novo. Isso poderia soar incompatível com a imagem estereotipada de jovens estudantes enfileirados, procurando por significados que os poetas nunca cogitaram, no entanto muitas de nossas mais antigas e profundas experiências com a linguagem se deram quando elas foram proferidas de um modo poético. O ponto central e doloroso de ‘Primavera e outono’ é que Margaret é você e sou eu. Ela é as minhas filhas gêmeas, as quais, com pouco mais de um ano de idade, falam mais por meio de gritos do que por palavras. Isso me faz pensar na complexidade intelectual de ser pai ou mãe: amando nossos filhos, estamos também, em certa medida, amando a nós mesmos. Não quero que minhas filhas se sintam tristes algum dia. É um anseio irreal, pois “mundos de bosques descamisados persist[e]m” [worlds of wanwood leafmeal lie]. Esse anseio, ainda que frágil e ingênuo, é, todavia, bastante necessário. 

O narrador de ‘Primavera e outono’ quer que Margaret saiba – quer que nós saibamos – que a melancolia é, em última análise, a consciência de nossa mortalidade. Poemas a respeito da morte são numerosos, mas a cuidadosa construção de Hopkins permitiu ao seu canto rechaçar outros versos. A segunda pessoa, quando bem usada, é um espelho poético maravilhoso. 


Now no matter, child, the name: 
Sorrow’s spríngs áre the same. 
Nor mouth had, no nor mind, expressed 
What heart heard of, ghost guessed: 


A brevidade e a tendência ao paradoxo por meio da interiorização do conteúdo tornam a poesia o veículo artístico perfeito para a melancolia. Passamos os nossos dias vivendo e falando em prosa. Poesia é câmbio manual. Poesia é um carro velho remoçado. Para ler um poema, devemos ocupar outro espaço, mais monacal. Nesse sentido, a melancolia é um excelente estado de espírito para a poesia, visto que a sensação é uma chacoalhada emocional. Romances me machucam. Histórias perfuram minha pele cética. Ensaios me fazem repensar o mundo. Mas um poema melancólico me destroça, me empurra para outro espaço emocional. Alarga o meu eu. A brevidade de ‘Primavera e outono’ significa que a questão, ainda que curta, é intensa. Saio da sala e, embora as palavras retornem como sussurros, regresso à vida. Obras extensas me fazem submergir no mundo delas, de modo que a volta ao mundo real é mais difícil. ‘Primavera e outono’ é, no entanto, suficientemente pequena, cabendo dentro do meu bolso e debaixo da minha língua. Seus ritmos suaves me acalentam, e acolho a inevitabilidade da sua narrativa. 


It is the blight man was born for, 
It is Margaret you mourn for. 


Algumas interpretações de ‘Primavera e outono’ criticam a tendência do orador a não se emocionar, assim como outros adultos de corações ‘frios’, com a natureza. Uma interpretação ambientalista seria compatível com Hopkins, para quem o mundo natural inteiro estaria “impregnado com a grandeza de Deus”. Hopkins propositalmente elaborou um narrador imperfeito, alguém que parece farto do mundo, magoado. Um orador que está propenso a revelar o fim da inocência. 

Um poema bem-arranjado nos faz lembrar que as nossas existências, em termos cósmicos, são tão efêmeras como esses 15 versos. Os versos de ‘Primavera e outono’ se amontoam em direção à dura conclusão de que a nossa tristeza mais verdadeira é o reconhecimento de que o que dói em nós não é a queda das folhas, mas são as nossas próprias quedas, públicas ou privadas. Embora Hopkins tivesse uma visão de mundo bem particular, ‘Primavera e outono’ não tem restrição de credo, raça, gênero ou época. É um poema a respeito da nossa ‘ruína’ [blight]. Aquela que compartilhamos com aqueles que odiamos e amamos. Às vezes, a poesia deve nos abater, antes de nos confortar. Por essas razões, ‘Primavera e outono’ é o poema mais triste já escrito. 



(The saddest poem ever written; tradução de F. Ponce de León)



(Ilustração: Edvard Munch - Melancholy -1894-96)




terça-feira, 10 de julho de 2018

SPRING AND FALL / PRIMAVERA E OUTONO, de Gerard Manley Hopkins








to a young child 



Margaret, are you grieving

Over Goldengrove unleaving?

Leaves, like the things of man, you

With your fresh thoughts care for, can you?

Ah! as the heart grows older

It will come to such sights colder

By and by, nor spare a sigh

Though worlds of wanwood leafmeal lie;

And yet you will weep and know why.

Now no matter, child, the name:

Sorrow's springs are the same.

Nor mouth had, no nor mind, expressed

What heart heard of, ghost guessed:

It is the blight man was born for,

It is Margaret you mourn for.



Tradução de F. Ponce de León:




A uma criança 



Margaret, você está sofrendo

Pelo Arvoredo Dourado desfolhando?

Folhas, como as coisas do homem, a você

Com suas ideias puras, importam – não?

Ah, mas o coração envelhece

E diante dessas visões arrefece

Pouco a pouco, não resta um lamento

Embora mundos de bosques descamisados persistam;

E, contudo, você irá chorar e saberá a razão.

O nome, criança, não importa mais:

Primaveras de pesar seguem iguais.

A boca não expressou, nem a mente,

O que ouve o coração, o espírito pressente:

Eis a ruína que com o homem nasce,

Eis, Margaret, o que a aflige.



Tradução de Alípio Correia de França Neto:



Margarida, você sofre se olha

O Bosque de Ouro que se desfolha?

Nas folhas, como no que pertença

Ao homem, você, inocente, pensa?

Ah, quando um coração envelhece,

Fica mais frio a imagens como essa,

Não solta ais se o bosque branco em tais

Mundos folha-esfarelados jaz;

Mas vai chorar, vai saber mais.

Ora, não importa o nome, pequena:

São as mesmas as fontes da pena;

A boca não exprime, nem a mente,

O que o coração ouve, a alma, sente:

É a praga a que o homem nasce – agora,

É Margarida que você chora.



(Poems and Prose)



(Ilustração: Alyssa Monks)




sábado, 7 de julho de 2018

O QUADRADO DE JOANA, de Maura Lopes Cançado





Marcha completando o pátio, o fim da linha sendo justamente princípio da outra, sem descontinuidade, quebrando-se para o ângulo reto. Não cede um milímetro na posição do corpo, justo, ereto. Porque Joana julga-se absolutamente certa na nova ordem. Assim, anda de frente, o ombro direito junto à parede. Teima em flexionar as pernas, um passo, outro e mais, as solas dos pés quentes através do solado gasto. Agora o rosto sente a quentura do muro, voltado inteiramente, quase roçante – até o fim da linha onde junta ombro esquerdo e marcha de costas na retidão da parede. 

Finalmente, acha-se na metade da quarta vez, todo pátio contido no âmbito do olhar parado. Anda certo, costas deslizantes como lâminas, na proteção do seu tempo, o muro. Repete, sentindo a certeza da quarta vez. Mais e mais, porque cumpre um dever. 

Quantas vezes Joana marcha rigidamente de ângulo a ângulo? 

– Ninguém sabe. Nem Joana. 

Vê-se parada, imaginando o quadrado das horas. Isto vem justamente aliviá-la da sensação incômoda de que um corpo redondo ilumina o pátio. Retesa-se, ajustando-se no espaço certo, fora de perigo. Perfeitamente integrada, em forma. Uma pausa completa. Como na pedra. Joana imóvel, quadriculada no pano do vestido, marcando um tempo ainda imarcado, porque novo. Um novo tempo, nascido duro, sofredor. O quadrado das horas. 

No meio do pátio, parada, obedecendo a ordem. Não sabe por que, a palavra meio salta-lhe morna, insinuante como uma ameaça remota. Um orifício no muro, meio de fuga. 

– Para onde e por quê? 

Deve ter ouvido isto. Ela não se desviaria tanto da lógica, mesmo pensando num momento de descuido e a lógica está no quadro. Precisa pensar certo. Joana não pode deixar-se trair. Entretanto, não sabe de régua que lhe permita certificar-se da justeza, da retidão das palavras. Há neste verbo precisar uma sinuosidade que vagamente percebe e isto é uma ameaça. Não poderá admitir contrariando sua posição na vida como verbo poder, neste tempo, fere sua época. 

Época de Joana. 

Não lhe foi dada ainda uma linguagem adequada e não consegue pensar sem palavras. Sente-se incompleta. Sente-se incompleta, sem os instrumentos necessários. 

– Não pensar, em posição de sentido, é a ordem, por enquanto. 

E Joana enquadra-se no momento. 

Plana – lisa – justa. 

Um marco no novo tempo. Cumprido o dever, fortalecida e distanciada das curvas, o pensamento quadrado no ar, quase sólido e o olhar, reto como lâmina sofrendo o impacto, voltando e enquadrando-se nos olhos impossíveis. Joana está certa no plano vertical. 

Ela somente compreende o grande significado disto. Imóvel poupando o corpo, principalmente o rosto que sente duro na parte inferior, sustentando o quadro. Não pode mutilar-se na lisura da curva. Não pode perder a forma. Mas a impertinência do seu nome é uma realidade e Joana escuta-o num tom irritado, sentindo-se gelar nos ângulos, pontos vulneráveis. Procura a proteção do novo tempo e sem pensar anda de costas dois passos, sofrendo as modulações das vozes, que como um espelho mostram-se refletidas no corpo de Joana; como um espelho o corpo reflete sem aberturas. Na perfeição do quadro, sente-se sensível ao formigamento que a rodeia. A futilidade das coisas irrita até o muro de pedra. Joana acredita no que é e na certeza do seu tempo. 

Entretanto, está só, num quadro ainda infecto de moscas e serpentes ondeadas. Dançam ao seu redor e Joana não tem palavras. Num tempo quadrado, vive-se sem elas na perfeição das coisas, mas a dança dos sons é característica fútil dum subtempo e ela não deve perder-se. Joana teme a roda que ameaçou mostrar-se nos rostos redondos fitando-a. Concentra-se nas linhas certas do seu próprio e vê-se refletida no muro cinzento. Uma nova figura, um destino. 

Nasceu, inaugurando um tempo. É o marco da nova época. 

Entretanto, um milímetro de desatenção pode levar-lhe os olhos a rotações incalculáveis, catastróficas. Pode até cair numa espiral e, em ascensão, transformar-se num ponto irritante como a cabeça de um alfinete. Luta para manter-se enquadrada na hora, o pensamento liso à espera da forma de expressão: uma nova linguagem. Fugindo das palavras, pensa em números certos, como 44 e 77. Desenha-os mentalmente no muro para a sua sobrevivência, até que estremece na sinuosidade do 60. Ah! Joana não sabe por que, mas o número 60 aproxima-se qual cobrinha traiçoeira. Uma áspide. Também os números têm nome. Figuras sinuosas passeiam no âmbito de sua visão quadrada. Não procura vê-las. Impõem-se impertinentes formando uma quase culpa para Joana que nasceu sem lembranças, porque estas chegariam sinuosas, e isto é outro mundo. 

– A pedra não repele os flocos fúteis de neve. Apenas pedra é pedra. 

Mas pessoas são como moscas, tentando atrair atenção, fazendo dançar, correr o risco de quebrar-se nas curvas, caindo esfacelada, sem significado. Joana ignora, propositadamente, a curva duma folha banal perto de seus pés. Esqueceu as flores e espera sons rápidos, retos, geométricos para fazer-se entender. Vagamente tem noção das figuras incomodativas, ondeadas de banalidade que tentam atrair-lhe atenção. 

– Não cede um milímetro para não desmoralizar-se. Deve sobreviver. 

Alarmada, sente o suor correr-lhe pela testa, numa linha reta. Uma intermitência, o ponto trazendo-lhe o caos. 

– Não, não admito bagas de suor. 

Haverá sim, uma linha reta até o solo, subindo imediatamente evaporada. Porque uma pocinha seria seu afogamento. 

Foge do círculo. 

– Mas a linha é formada de pontos! 

Não no seu tempo, raciocina rápido, quadrando o pensamento. 

Joana não pode sentir-se alarmada. O alarma começa de um ponto. Significativo ou consciencioso, atingindo num crescendo o grau de alerta ou alarma? 

– Alarma pode surgir como numa tela de cinema, de repente? 

Ah! Como faltam instrumentos! 

– Joana, saia do pátio, venha para o dormitório. 

Muitas danças numa banalidade sônica. Entretanto, escutou quase contorcendo-se. Não pode responder, que não tem ainda meio de expressão. Como fazer pra explicar que está enquadrada num novo tempo? Não pode sequer dar meia volta. Precisa poupar-se, conservando a forma. Entretanto, precisa explicar o que só ela entende. Puseram-na quadrada, certa, objetiva, num tempo novo, forte, mas ameaçado até por flores. Sim, Joana será vencida na curva de uma pétala. A palavra beleza, levada a sério, pode desconjuntá-la e nuances, mesmo de cores ou principalmente cores, seriam a sua perdição. Tenta ainda ignorar os sons inúteis. Mais um pouco e fica livre de pensamentos, na hora quarta do tempo morto. É aí que Joana inveja a estátua imóvel há muitos anos. Não sabe que a estátua perdeu a contagem dos anos. Também com a nova ordem não há concessão. A realidade é o quadrado do pátio ainda cheio de moscas e serpentes ondeadas. A realidade é o perigo de ser levada para cama. A realidade é a pedra. 

Joana pode dependurar a hora na parede e acrescentar realidade a isto. Foi feita certa, num tempo certo, num mundo remoto. Haverá a nova língua que a dança dos sons talvez esteja impedindo de se formar. Joana é grande e teme um laço de fita cor de rosa. Não pode ferir-se nas curvas ou deixar-se mutilar. 

Está sozinha neste novo tempo. Só ela o conhece e às suas regras. Não deseja nem pode sair dele. Mas nunca poderá deitar-se que isto é cair escombrada num monte. Tenta observar as regras absolutamente certas, mas não compreendidas. Joana está só. Por exemplo: qualquer inclinação será o encontro da curva e Joana não passará deste plano para o horizontal se vergar-se, perdendo-se. Decididamente não pode deitar-se. Antevê-se amassada e, junto a outros ingredientes, aproveitada numa construção. 

Será seu destino se for para a cama. 

– Sentir os membros distantes, dentes opacos, pé no terceiro andar e a boca no ângulo direito da porta principal. 

Os olhos, sim, estes verão as noites enquadradas nos azulejos frente à janela do banheiro. 

Sim, porque na melhor das hipóteses, Joana ficará no arranha-céu, mas sem a marcha que ainda lhe é permitida. E nem haverá esperança da nova linguagem, tendo a boca fixa. 

Joana não pode, não deixar-se perder. 

– Joana. 

Movem-se ao seu redor. Sente que alguém quer forçá-la. Joana, sem virar-se, marcha de costas dois passos para sentir-se hirta ainda antes da queda. Não sabe onde estão os olhos teimosos olhando. Sabe-se desmoronada, sem salvação, ferida de morte. Mais que isso, ruída. 

Joana ruiu. 

Os olhos enfrentam rostos impacientes. 

Fica no ar uma palavra nova: 

Catatônica. 

Joana gostaria de medi-la: 

Ca-ta-tô-ni-ca. 

Pensa desesperada: será o princípio da nova língua, agora que estou desmoronada?



(Ilustração: Bernard Buffet,1928-1999 - 1970, as loucas)


quarta-feira, 4 de julho de 2018

AGNUS DEI / AGNUS DEI, de Nicanor Parra







Horizonte de tierra

astros de tierra

Lágrimas y sollozos reprimidos

Boca que escupe tierra

dientes blandos

Cuerpo que no es más que un saco de tierra

Tierra con tierra — tierra con lombrices.

Alma inmortal — espíritu de tierra.



Cordero de dios que lavas los pecados del mundo

Dime cuántas manzanas hay en el paraíso terrenal.



Cordero de dios que lavas los pecados del mundo

Hazme el favor de decirme la hora.



Cordero de dios que lavas los pecados del mundo

Dame tu lana para hacerme un sweater.



Cordero de dios que lavas los pecados del mundo

Déjanos fornicar tranquilamente:

No te inmiscuyas en ese momento sagrado.



Tradução de Carlos Machado:



Horizonte de terra

astros de terra

Lágrimas e soluços reprimidos

Boca que cospe terra

dentes moles

Corpo que não é mais que um saco de terra

Terra com terra — terra com minhocas.

Alma imortal — espírito de terra.



Cordeiro de deus que lavas os pecados do mundo

Diz-me quantas maçãs existem no paraíso terrestre.



Cordeiro de deus que lavas os pecados do mundo

Faz-me o favor de dizer-me que horas são.



Cordeiro de deus que lavas os pecados do mundo

Dá-me tua lã para eu fazer um suéter.



Cordeiro de deus que lavas os pecados do mundo

Deixa-nos fornicar tranquilamente:

Não te imiscuas nesse momento sagrado.





(Parranda Larga - Antología Poética)




(Ilustração: Fernando Botero)






domingo, 1 de julho de 2018

ATRAÇÃO FATAL, de Evan Hunter






Empurrava a rapariga, Cora, à sua frente e esta tropeçava no capim que lhe batia nos joelhos, tinha a saia repuxada para trás sobre as nádegas. Ele sentia a pressão do Colt 38, contra a barriga. Caminhou até ao local onde ela se encontrava agachada no chão. 

- Levante-se – disse-lhe. 

- Orry, que vai fazer? Porque... 

- Levante-se e ande. Preciso qualquer coisa do seu pequeno. 

Cora puxou a saia para baixo. Orry olhou-a enquanto ela se levantava, virou-se, acanhada, quando o seu olhar se tornou demasiado perscrutador. 

- Que quer do Bob? – perguntou. 

- Agora é Bob, não é? – disse comprimindo os lábios. – Antes de ir e tornar-se um herói, chamávamos-lhe apenas Robby. Agora é Bob. 

Fechou os punhos com raiva e quando ela hesitou, disse: 

- Continue a caminhar, Cora. 

A rapariga tropeçava à sua frente, o capim alto chicoteava-lhe as pernas, rasgava-lhe a saia fina. Ele ficou parado atrás dela, um pouco distante, observando a curva das costas sob o vestido. 

- Que vai fazer? – perguntou Cora. 

- Vou meter este 38 no rosto do seu grande major e tirar-lhe aquela medalha do peito. Então enterro-lhe uma bala onde estava a medalha. É isto que vou fazer, Cora. 

- Orry, não sabe o que está a dizer. Você... 

- Sei perfeitamente o que estou a dizer. Desde que saltou daquele comboio como se fosse uma pessoa muito importante, estive a planear isto. Ele e aquela medalha pendurada no peito. Vou agarrar aquela medalha, Cora, vou enfiar-lha pela garganta e dar-lhe um tiro antes que tenha tempo de cuspi-la. 

- Não! – gritou Cora e começou a correr, antes porém de ter dado três passos, segurou-a pelo braço. Obrigou-a a voltar-se e apertou-a contra si. Cora voltou a cabeça, tentando fugir aos seus lábios, todavia ele colou a boca na sua com esmagadora intensidade. Quando desviou o rosto, disse-lhe: 

- Veremos como será quando for eu a usar aquela medalha. Nessa altura veremos como é, Cora. 

- Orry, - disse Cora com voz sumida – Orry, por favor, esqueça tudo isso. Farei o que quiser. Eu... eu serei sua namorada. Qualquer coisa... contanto que deixe o Bob em paz. Se... se esquecer isso. Farei... tudo o que disser. 

Orry deu uma gargalhada breve, desprovida de humor. 

- Já está a mudar de ideias, não? Bem, fará realmente o que eu disser. No entanto, vou tirar-lhe aquela medalha do peito e meter-lhe algumas balas. Juro-lhe. 

- Orry... 

- Cale a boca – gritou, dando-lhe uma violenta bofetada na boca, tão violenta que ela quase caiu. 

- Agora caminhe até aquela cabana. Não quero perder o dia todo nisto. 

Foram andando vagarosamente, o capim alto, ocultava-os. A cabana estava situada à beira da clareira e o som da voz de um homem cantando vinha da janela aberta. 

- O major está a cantar – murmurou Orry – mas não cantará por muito tempo. É só até o ver. 

- Por favor, Orry, não poderemos esquecer isto? Ele nunca lhe fez mal. Por que lhe quer mal? Porque tem... 

- Não lhe vou fazer mal nenhum – corrigiu. – Vou matá-lo. 

A canção continuava enquanto eles se aproximavam da cabana. Quando atingiu o crescendo, Orry gritou: 

- Ei, Robby, ouça! 

A canção foi bruscamente interrompida. Houve um repentino silêncio. Orry gritou: 

- Robby, está a ouvir-me? 

Uma voz clara respondeu: 

- Estou a ouvir. 

- Então, escute, vim procurá-lo. Cora está aqui comigo, portanto não se admire. Ouviu? 

Novo silêncio. 

- Ouviu-me, Robby? 

- Que quer, Orry? 

- Não se preocupe com o que eu quero. Não tente fazer nada. Tenho uma arma comigo, e não tenho medo de usá-la no rosto de Cora. Não quer que ela fique desfeita, não é verdade? 

- Bob – gritou Cora. – Tenha cuidado! Ele está louco, Bob, ele... 

Orry puxou o braço dela para trás e com a outra mão tirou o 38 do cinto. 

- Estou a aproximar-me Robby. Se tem um revólver é melhor esquecê-lo, porque Cora está à minha frente. 

Da cabana não veio som algum. Orry empurrou Cora a sua frente, os dedos agarrando fortemente o pulso do braço torcido. Manteve a arma afastada do corpo dela, pronta para atirar e curvou-se por trás de Cora, de maneira a tornar-se o menos visível possível a qualquer pessoa que se encontrasse na cabana. 

- Ei, major – gritou – está morto ou coisa que o valha? Estou aqui para lhe dar uma lição. 

A cabana continuou imersa em silêncio. Continuaram a andar através do capim e alcançaram finalmente a clareira. 

- Pare um instante – ordenou Orry, examinando a cabana com uma sobrancelha erguida. – Creio que ele está a tremer, metido num canto. Vamos. 

Ocultou-se de novo atrás de Cora, somente os olhos e a testa surgiam acima do ombro da rapariga. Avançou cuidadosamente, os olhos fixos na janela escura que estava à sua frente. 

- Ei, major! – gritou. – Olhe bem, major, porque será a última vez que... 

Os tiros ecoaram numa sucessão rápida, foram dois, tão juntos, que pareciam ter sido apenas um. Orry apertou o dedo no gatilho e a bala levantou pedacitos de terra. Porém as balas anteriores tinham-no atingido na fronte e ele caiu para trás, morto antes de o eco dos tiros se haver desvanecido no espaço. 

Cora gritou e ficou imóvel, olhando para o homem morto. Os orifícios das balas formavam dois pontos pretos entre os olhos e podiam ser cobertos por uma moeda de cinco centavos. 

- Cora! 

Bob saiu a correr da cabana segurando a espingarda que ainda fumegava. Estava de uniforme. Ela correu e lançou-se-lhe nos braços, soluçando, o rosto comprimido contra o peito dele, que ficou levemente marcado pela cruz. 

- Ele estava louco, louco. Ia matá-lo. Disse que... 

- Mas por quê? Por sua causa? Era isso, querida? 

Cora tentou dominar os soluços. 

- Sim, sim, isso e a medalha. Queria a sua medalha. Ele... 

Bob afastou-se meigamente. 

- Isto? - perguntou incrédulo, e os dedos tocaram na cruz que tinha um olho de boi no centro. 

- Que queria ele fazer com uma pequena medalha de atirador? 




(26 grandes mestres da literatura policial; org. e trad. de RossPynn) 



(Ilustração: Bernard Buffet (1928-1999) - la mort)







quinta-feira, 28 de junho de 2018

VOZES MULHERES, de Conceição Evaristo








A voz da minha bisavó

Ecoou criança

nos porões do navio.

ecoou lamentos

de uma infância perdida. A voz de minha avó

ecoou obediência

aos brancos-donos de tudo.



A voz de minha mãe

ecoou baixinho revolta

no fundo das cozinhas alheias

debaixo das trouxas

roupagens sujas dos brancos

pelo caminho empoeirado

rumo à favela.

A minha voz ainda

ecoa versos perplexos

com rimas de sangue

e

fome.



A voz de minha filha

recolhe todas as nossas vozes

recolhe em si

as vozes mudas caladas

engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha

recolhe em si

a fala e o ato

O ontem – o hoje – o agora.

Na voz de minha filha

se fará ouvir a ressonância

o eco da vida-liberdade.



(Poemas da recordação e outros movimentos)


(Ilustração: 
Makiwa Mutomba - Zimbawe)



segunda-feira, 25 de junho de 2018

THE END / FIM, de Fredric Brown








Professor Jones had been working on time theory for many years. “And I have found the key equation,” he told his daughter one day. “Time is a field. This machine I have made can manipulate, even reverse, that field.” Pushing a button as he spoke, he said, “This should make time run backward backward run time make should this,” said he, spoke he as button a pushing. “Field that, reverse even, manipulate can made have I machine this. Field is a time.” Day one daughter his told he, “Equation key the found have I and.” Years many for theory time on working been had Jones Professor. 



Tradução de Luiz Roberto Guedes: 



O professor Jones vinha trabalhando na teoria do tempo havia muitos anos. 

– E descobri a equação-chave – ele disse um dia a sua filha. – O tempo é um campo. Esta máquina que construí pode manipular – e até inverter – esse campo. 

Premindo um botão enquanto falava, acrescentou: – Isto deveria fazer com que o tempo corresse ao contrário contrário ao corresse tempo o que com fazer deveria isto: acrescentou, falava enquanto botão um premindo. Campo esse – inverter até e – manipular pode construí que máquina esta. Campo um é tempo o. – Filha sua a dia um disse ele – chave-equação a descobri e. Anos muitos havia tempo do teoria na trabalhando vinha Jones professor o. Fim 



(Ilustração: Ohmuller Gyuri - time) 
 


sexta-feira, 22 de junho de 2018

SENZA NOME / SEM NOME, de Ada Negri







Io non ho nome.—Io son la rozza figlia

Dell'umida stamberga;

Plebe triste e dannata è mia famiglia,

Ma un'indomita fiamma in me s'alberga.



Seguono i passi miei maligno un nano

E un angelo pregante.

Galoppa il mio pensier per monte e piano,

Come Mazeppa sul caval fumante.



Un enigma son io d'odio e d'amore,

Di forza e di dolcezza;

M'attira de l'abisso il tenebrore,

Mi commovo d'un bimbo alla carezza.



Quando per l'uscio de la mia soffitta

Entra sfortuna, rido;

Rido se combattuta o derelitta,

Senza conforti e senza gioie, rido.



Ma sui vecchi tremanti e affaticati,

Sui senza pane, piango;

Piango su i bimbi gracili e scarnati,

Su mille ignote sofferenze piango.



E quando il pianto dal mio cor trabocca,

Nel canto ardito e strano

Che mi freme nel petto e sulla bocca,

Tutta l'anima getto a brano a brano.



Chi l'ascolta non curo; e se codardo

Livor mi sferza o punge,

Provocando il destin passo e non guardo,

E il venefico stral non mi raggiunge.



Tradução de Fabio Malavoglia:


Eu sou sem nome.— Eu sou a tosca filha

Do úmido pardieiro;

Plebe triste e danada por família,

Mas indômito é o fogo companheiro.



Segue meus passos maligno um duende

E ora um anjo adiante.

Galopa meu pensar e sobe e pende,

Como Mazeppa no cavalo arfante.



Enigma sou de amor e de sadismo,

De força e de doçura;

Atrai-me a treva do abismo,

Comove-me a criança e sua candura.



Se pela porta da água-furtada

O infortúnio entra, rio;

Rio se atacada ou enjeitada,

Sem alegrias e sem confortos, rio.



Mas pelos velhos tremendo fatigados,

Pelos sem pão, eu choro;

Pelo menino magro e esfomeado,

Por mil desconhecidas dores, choro.



E quando o pranto do peito me transborda,

Num canto estranho e ardente

A alma toda arranco corda a corda

Na melodia que à boca vem fremente.



De quem ouve não cuido e se covarde

Palor me fere e cinge,

Peito o destino de vez que não me atarde,

E o viperino fel já não me atinge.





(Ilustração: Horace Vernet - Mazeppa, 1826)




terça-feira, 19 de junho de 2018

UMA ROSA PARA EMILY, de William Faulkner





Quando Miss Emily Grierson morreu, toda a nossa cidade compareceu ao enterro: os homens em atenção a essa espécie de carinho respeitoso que se tem por um monumento tombado; as mulheres movidas pela curiosidade de ver o interior de sua casa, onde ninguém entrara nos últimos dez anos, exceto um velho negro, ao mesmo tempo cozinheiro e jardineiro. 

Era um casarão quadrado, de madeira, outrora branco, decorado de cúpulas, de flechas, de balcões, no estilo pesadamente frívolo da época de 1870, situado na rua que já tinha sido a mais distinta da cidade. Mas as garagens e as debulhadoras de algodão, multiplicando-se em derredor, acabaram por fazer desaparecer até os nomes augustos daquele bairro. A casa de Miss Emily era a única, levantando sua decrepitude teimosa e faceira acima dos vagões de algodão e das bombas de gasolina. Emily tinha ido juntar-se aos representantes daqueles nomes augustos, no cemitério adormecido sob os cedros, onde jaziam entre os túmulos enfileirados e anônimos, dos soldados da União e dos Confederados mortos no campo de batalha de Jefferson. 

Viva, Miss Emily fora uma ‘tradição, um dever e um aborrecimento: espécie de obrigação hereditária, pesando sobre a cidade desde o dia em que, em 1894, o Coronel Sartóris (o prefeito que baixou o decreto proibindo às negras saírem à rua sem avental) a isentara do pagamento de impostos, isenção definitiva, que datava da morte de seu pai. Isto não quer dizer que Miss Emily aceitasse a caridade. O Coronel Sartóris inventara a complicada história de um empréstimo em dinheiro, feito pelo pai de Miss Emily à cidade e que a cidade, por conveniência própria, preferia reembolsar dessa maneira. Só um homem da geração e com as idéias do Coronel Sartóris poderia ter imaginado semelhante coisa, e só uma mulher poderia ter acreditado. 

Quando a geração seguinte, com suas ideias modernas, deu, por sua vez, prefeitos e intendentes municipais, essa concessão provocou alguns descontentamentos. No primeiro dia do ano, dirigiram a Miss Emily uma notificação de impostos. Fevereiro chegou, sem trazer resposta. Enviaram-lhe uma carta oficial, pedindo-lhe para passar, quando pudesse, no gabinete do delegado. Na semana seguinte, o próprio prefeito lhe escreveu, oferecendo-se para ir, em pessoa, à sua casa, ou para mandar buscá-la no seu carro particular. Recebeu, como resposta, uma folha de papel de feitio arcaico, escrita com tinta desbotada, numa letra miúda e fluente, comunicando-lhe que não saía mais de casa. A notificação dê pagamento de imposto vinha inclusa, sem comentários. 

O Conselho Municipal reuniu-se em sessão extraordinária. Uma delegação dirigiu-se à sua casa e bateu naquela porta que nenhum visitante transpusera desde que, oito ou dez anos antes, Miss Emily deixara de dar lições de pintura em porcelana. Os membros da delegação foram introduzidos num saguão escuro, de onde uma escada se projetava para as sombras ainda mais que espessas do andar superior. Havia em tudo um cheiro de poeira, de guardado, de coisas que nunca são usadas -um cheiro de mofo e umidade. O negro conduziu-os ao salão, de mobiliário pesado, forrado de couro. Quando o negro abriu as cortinas de uma das janelas, viram que o couro estava estalado, descascando e, ao se sentarem, uma nuvem leve de pó subiu-lhe preguiçosamente em volta das coxas e se espalhou em círculos vagarosos, desenrolando-se, desagregada, na única réstia de sol. Num cavalete de moldura dourada, perto da lareira, via-se o retrato a carvão do pai de Miss Emily. 

Levantaram-se à sua entrada. Era uma mulherzinha pequena e gorda, vestida de preto, com uma fina corrente de ouro descendo-lhe do pescoço até a cintura, onde desaparecia no cós da saia. Tinha a ossatura pequena e delicada; talvez, por isso, o que em outra pessoa seria apenas gordura, parecia, nela, obesidade. Dava a impressão de estar inchada, como um cadáver muito tempo submerso numa água estagnada; tinha, mesmo, de um afogado, a carne lívida e balofa. Seus olhos, perdidos nas intumescências de sua face, lembravam dois pedacinhos de carvão enfiados numa bola de massa e iam de um rosto a outro, enquanto os visitantes expunham o caso. 

Não mandou que sentassem. Conservou-se, apenas, em pé no limiar da sala, e esperou tranquilamente que o porta-voz se interrompesse, balbuciando. Então, puderam ouvir o tic-tac do relógio invisível, preso na ponta de sua corrente de ouro. 

Sua voz era seca e fria: 

– Não tenho impostos a pagar em Jefferson. O Corenel Sartóris me explicou isso. Talvez um dos senhores possa consultar os arquivos da cidade e dar satisfações aos demais. 

– Mas nós o fizemos. Nós somos as autoridades no município, Miss Emily. A senhora não recebeu a notificação assinada pelo delegado? 

– Sim, recebi um papel – disse Miss Emily. – Talvez ele se considere realmente o delegado… Não tenho impostos a pagar em Jefferson. 

– Mas não há, nos livros, nada que o possa provar. Veja a senhora… É preciso que nós… 

– Procurem o Coronel Sartóris. Não tenho impostos a pagar em Jefferson. 

– Mas, Miss Emily – 

– Procurem o Coronel Sartóris. (Havia quase dez anos que o Coronel Sartóris estava morto) – Não tenho impostos a pagar em Jefferson. Tobe! – O negro apareceu. – Acompanha estes cavalheiros. 

Assim ela os venceu irremediavelmente, como já lhes vencera os pais, trinta anos antes, a respeito do cheiro. Isso aconteceu dois anos após a morte de seu pai, e quase em seguida à ocasião em que o namorado – aquele mesmo que nós pensávamos iria se casar com ela – a abandonou. Aquela morte e o abandono do namorado fizeram que ela depois pouco saísse de casa. Algumas senhoras tiveram a temeridade de ir visitá-la, mas não foram recebidas e, naquela casa, o único sinal de vida era o negro – ainda moço, então – que entrava e saía com um cesto de compras. 

– Como se um homem – seja quem for! – pudesse conservar limpa uma cozinha! – diziam as senhoras. Assim, ninguém se surpreendeu quando se começou a sentir o cheiro. Foi um novo laço que se estendeu entre a gente grosseira e prolífica do bairro e os grandes e poderosos Grierson. 

Uma mulher, sua vizinha, foi queixar-se ao prefeito, Juiz Stevens, que contava, então, oitenta anos. 

– Mas que quer a senhora que eu faça? – perguntou ele, 

– Ora, que ela acabe com isso – disse a mulher. Não existe lei? 

– Estou certo de que não será necessário – afirmou o Juiz Stevens. Provavelmente, é só uma cobra ou um rato que o negro matou no quintal. Amanhã falarei com ele a esse respeito. 

No dia seguinte, recebeu duas novas queixas; uma partiu de um homem, que apresentou uma súplica tímida. 

– Nós precisamos, realmente, fazer alguma coisa nesse caso, sr. Juiz. Eu seria a última pessoa neste mundo capaz de incomodar Miss Emily, mas precisamos fazer alguma coisa. 

Nessa mesma noite, reuniu-se o Conselho Municipal: três barbas grisalhas e um rapaz moço, membro da nova geração. 

– A coisa é muito simples – disse o moço. – Mandem. lhe dizer para limpar a casa. Deem-lhe um certo prazo para obedecer e, se ela não… 

– Deus me livre, senhor! – exclamou o Juiz Stevens. Quer então dizer a uma senhora, nas bochechas, que ela cheira mal? 

Assim, na noite seguinte, de madrugada, quatro homens atravessaram o gramado do jardim de Miss Emily e, como assaltantes, rondaram a casa, farejando os alicerces de tijolos e os respiradouros do porão, enquanto um deles, com um saco nos ombros, fazia, com regularidade, o gesto do semeador. Arrombaram a porta da adega, que salpicaram de cal, assim como todas as dependências. Quando, de volta, atravessaram o gramado, uma janela, até então sombria, iluminou-se de repente e viram Miss Emily sentada à contraluz, ereta, rígida, imóvel como um ídolo. Atravessaram em silêncio o gramado, metendo-se por entre as sombras das acácias que margeavam a rua. Depois de uma ou duas semanas, o cheiro desapareceu. 

Isso foi quando as pessoas começaram realmente a ter pena dela. A gente de nossa cidade, que se lembrava de Lady Wyatt, sua tia-avó, que acabara louca, achava que os Grierson se julgavam muito mais importantes do que eram na realidade. Nenhum dos rapazes da cidade fora jamais considerado à altura de Miss Emily. Nós os imaginávamos muitas vezes como um quadro: ao fundo, Miss Emily, esguia figura vestida de branco; no primeiro plano, a silhueta de seu pai, virando-lhe as costas, com as pernas abertas, um chicote na mão; ambos, enquadrados pelos caixilhos da porta escancarada. Assim, quando ela chegou aos trinta anos ainda solteira, não posso dizer que isso tenha causado uma verdadeira alegria, mas nós, os rapazes, nos sentimos vingados; mesmo com os casos de loucura na família, ela não teria virado as costas a todas as oportunidades, se essas se tivessem verdadeiramente materializado. 

Morto o pai, correu o boato de que só lhe tinha ficado a casa de herança, o que, de certo modo, alegrou todo mundo. Até que enfim, podiam apiedar-se de Miss Emily. Sozinha e na pobreza, iria humanizar-se. Agora, ela também conheceria a velha satisfação e o velho desespero de um vintém a mais ou de um vintém a menos. 

No dia seguinte ao da morte do velho, as senhoras da cidade preparavam-me para ir à sua casa, apresentar-lhe os pêsames, conforme o costume. Miss Emily recebeu-as no limiar da porta, vestida como nos outros dias, e sem a menor marca de tristeza ou sofrimento na expressão. Disse-lhes que o pai não tinha morrido. Repetiu essas palavras durante três dias, quando os pastores e os médicos iam vê-la, tentando persuadi-la a deixar dispor do cadáver. Mas, no momento em que estavam resolvidos a recorrer à Lei e à força, ela cedeu, e enterraram-lhe o pai a toda pressa. 

Não se disse, então, que estava louca. Pensamos que tinha agido como devia. Lembrávamo-nos de todos os moços que seu pai afastara, e sabíamos que, achando-se sem nada, ela deveria agarrar-se àquele que a despojara de tudo, como em geral acontece. 

Esteve muito tempo doente. Quando tornamos a vê-la, tinha os cabelos cortados, o que a fazia parecer uma menina e lhe dava uma vaga semelhança com os anjos dos vitrais de igreja – uma mistura de trágico e sereno. 

A cidade acabava justamente de firmar o contrato para pavimentação das calçadas e, no verão que seguiu a morte de seu pai, começaram os trabalhos. A companhia construtora trouxe negros, mulas e máquinas, e um contramestre chamado Homer Barron, um “yankee”, homem grande, moreno e decidido, com um vozeirão enorme e olhos mais claros do que a pele do rosto. Os garotos seguiam-no aos bandos, para ouvi-lo gritar com os negros, e para ouvir os negros cantando em compasso, enquanto erguiam e abaixavam a picareta. Em breve, o contramestre conhecia toda a gente da cidade. Cada vez que se ouviam ruidosas gargalhadas na praça, podia-se jurar que Homer Barron estava no centro do grupo. Não tardamos a avistá-lo, nos domingos à tarde, passeando com Miss Emily na carriola de aluguel, que tinha rodas amarelas e era puxada por uma parelha de cavalos baios. 

A princípio, todos ficaram satisfeitos de ver que Miss Emily tinha agora um interesse na vida. As senhoras andavam dizendo: “Naturalmente, nunca uma Grierson tomará a sério um nortista, um assalariado.” 

Mas havia outras pessoas, as mais velhas, que achavam que nem mesmo o desgosto deveria fazer que uma verdadeira senhora se esquecesse de que “noblesse oblige”. (Sem no entanto, empregar essa expressão: Noblesse oblige). Diziam, apenas: “Pobre Emily. Os parentes deviam procurá-la.” 

Tinha parentes em Alabama, mas, alguns anos antes, o pai rompera com eles por causa da herança da velha Lady Wyatt, a louca, e não havia mais relações entre as duas famílias. Nem sequer se tinham feito representar no enterro. 

E, mal a gente velha exclamou “Pobre Emíly”, os mexericos começaram: “Vocês imaginam que, realmente. . .” diziam uns para os outros. – “Mas nem há dúvida. Porque, a não ser isso. . ” tudo sussurrado atrás das mãos no amarrotado farfalhar de sedas e cetins por detrás das janelas fechadas ao sol das tardes de domingo, enquanto a parelha de cavalos baios passava num leve e apressado clop-clop-clop. – “Pobre Emily!” 

Ela, porém, erguia a cabeça bem alto, mesmo quando pensávamos que tinha decaído. Parecia, mais do que nunca, exigir que se reconhecesse sua dignidade de última dos Grierson, como se fosse necessário aquele toque de vulgaridade terrestre para acentuar mais profundamente a sua impenetrabilidade. Tal como no dia em que comprou o veneno para ratos, o arsênico. Isso aconteceu um ano depois de terem começado a dizer: 

“Pobre Emily”, e quando as duas primas estavam hospedadas em sua casa. 

– Quero comprar veneno – disse ao farmacêutico. Contava, então, mais de trinta anos; era ainda delgada, embora estivesse mais magra do que de costume, com os olhos negros, altivos e frios num rosto cuja pele se repuxava na altura das têmporas e em volta das pálpebras, como se imaginava que deveria ser o rosto de um guardião de farol. – Quero comprar veneno. 

– Pois não, Míss Emily. Que espécie de veneno? para ratos ou qualquer coisa assim? Recomen… 

– Quero o que o senhor tiver de melhor. Não importa qual seja. 

O farmacêutico citou alguns: 

– Matariam até mesmo um elefante. Mas o que a senhora quer e… 

– Arsênico – disse ela. – É bom? 

– É… arsênico? Pois sim, senhora. Mas o que a senhora quer …. 

– Eu quero arsênico. 

– Pois, naturalmente – disse ele. – Se é isso que a senhora quer. Porém, a lei determina que a senhora declare o fim que dará ao veneno. 

Miss Emily limitou-se a fitá-lo, com a cabeça pendida para melhor fixar os olhos nos olhos dele, até forçá-lo a desviar o olhar e a ir buscar o arsênico, que embrulhou. O caixeiro negro que fazia entregas trouxe-lhe o pacote, pois o farmacêutico não tornou a aparecer. Ao chegar em casa, tirou o papel; na tampa da caixa, debaixo da caveira e os dois ossos, estava escrito: “Para ratos”. 

Assim, no dia seguinte, nós dizíamos: “Ela vai suicidar-se”, e achávamos que era a melhor solução. Quando começáramos a vê-la com Homer Barrou, tínhamos dito: “Vai casar-se com ele”. Depois, dizíamos: “Ela ainda acabará por persuadi-lo”, porque o próprio Homer observava – gostava da companhia dos homens e sabia-se que bebia com os rapazes no Elk’s Club – que não era feito para casamento. Mais tarde, dissemos: “Pobre Emily”, por detrás das venezianas, quando ambos passavam, nas tardes de domingo, na carriola vistosa, Miss Emily de cabeça erguida e Homer Barrou com o chapéu de lado e um charuto entre os dentes, segurando as rédeas e o chicote nas luvas amarelas. 

Então, algumas senhoras começaram a declarar que aquilo era uma vergonha para a cidade e um mau exemplo para a gente moça. Os homens não ousavam intervir, mas, finalmente, as mulheres forçaram o pastor batista – a gente de Miss Emily era episcopal – a ir procurá-la. O pastor negou-se sempre a contar o que acontecera durante a entrevista e recusou-se a voltar à sua casa. No domingo seguinte, saíram juntos novamente e, no outro dia, a mulher do ministro escreveu aos parentes de Miss Emily, em Alabama. 

Dessa forma, ela teve pessoas de seu sangue outra vez debaixo de seu teto e nós ficamos todos à espera dos acontecimentos. A princípio, nada aconteceu. Depois, ficamos convencidos de que iam se casar. Soubemos que Miss Emily fôra à joalheria e encomendara um jogo de toucador para homem, todo de prata, com as iniciais II. B. gravadas em cada peça. Dois dias mais tarde, fomos informados de que comprara um enxoval masculino completo, inclusive uma camisola de dormir, e dissemos: “Estão casados”. E ficamos contentes, porque as duas primas eram mais Grierson ainda do que Miss Emily jamais o fora. 

Não tivemos grande surpresa quando, terminado o calçamento das ruas, Homer Barron partiu. Sentimo-nos um pouco decepcionados por não ter havido nenhuma manifestação pública de regozijo, mas julgamos que se tivesse afastado para preparar a ida de Miss Emily, ou para lhe dar a oportunidade de se livrar das primas. (Por essa época formáramos uma verdadeira cabala, e éramos todos aliados de Miss Emily no sentido de ajudá-la a alijar as primas). O que é certo é que elas partiram ao fim de outra semana. E, como esperávamos, no terceiro dia após essa partida, Homer Barron estava de volta à cidade. Os vizinhos viram o negro abrir-lhe a porta da cozinha, uma tarde ao escurecer. 

Foi essa a última vez que vimos Homer Barron. E, durante algum tempo, não tornamos também a ver Miss Emily. O negro ia e vinha com a cesta das compras, mas a porta da entrada continuava fechada. Uma vez ou outra conseguimos avistá-la à janela por alguns instantes, como naquela noite em que os homens foram à sua casa espalhar a cal; durante mais de seis meses, porém, ela não apareceu nas ruas. Compreendemos que isso também era de esperar; como se aquele aspecto do caráter de seu pai, que tantas vezes constrangera sua vida de mulher, fosse virulento e furioso demais para morrer assim. 

Quando a vimos novamente, Miss Emily tinha engordado muito e seus cabelos estavam ficando grisalhos. Nos anos seguintes, foram ficando cada vez mais grisalhos, até o momento em que, tendo adquirido um tom cinzento-de-aço, sua cabeleira não mudou mais de cor. Até o dia de sua morte, aos setenta e quatro anos, aqueles cabelos conservavam ainda esse vigoroso tom cinzento-de-aço, como os cabelos de um homem ativo. 

Desde aquela época, sua porta ficara fechada, exceto no decorrer de um período de seis ou sete anos, quando ela, quarentona, dava aulas de pintura em porcelana. Instalara, num aposento do andar térreo, o atelier onde as filhas e netas dos contemporâneos do Coronel Sartóris lhe eram enviadas com a mesma regularidade e dentro do mesmo espírito com que as mandavam à igreja, nos domingos, munidas de uma moedinha de vinte centavos para a hora da coleta. Nesse ínterim, Miss Emily se vira dispensada do pagamento de impostos. 

A nova geração tornou-se, então, a espinha dorsal e a alma da cidade, as alunas cresceram e dispersaram-se, e não lhe mandaram as filhas com as caixinhas de tinta, os aborrecidos pincéis e os modelos recortados das revistas ilustradas femininas. A porta fechou-se sobre a última aluna e ficou fechada desde então. Quando a cidade adotou a distribuição gratuita do correio, Miss Emily foi a única pessoa que se negou a consentir que fixassem um número de metal acima de sua porta e uma caixa postal ao lado. Não houve argumento que a convencesse. 

Dias, meses e anos, vimos o negro, cada vez mais grisalho e curvado, entrando e saindo com a cesta de compras. Anualmente, em dezembro, mandavam-lhe a declaração de impostos, que o correio devolvia na semana seguinte, com a nota de não haver sido reclamada. Uma vez ou outra, nós a avistávamos diante da janela do andar térreo – tinha, evidentemente, fechado todo o andar superior da casa – semelhante ao busto esculpido de um ídolo no seu nicho, e nunca chegamos a saber se estava olhando para nós, ou se nem sequer nos via. E assim passou ela de geração para geração – querida, inevitável, impenetrável, tranquila e perversa. 

E, então, ela morreu. Caiu doente no seu casarão cheio de sombras e de pó, tendo como único auxílio o negro caduco. Nem ao menos soubéramos que estava doente, pois havia já muito tempo que desistíramos de arrancar qualquer informação ao negro. Não falava com pessoa alguma, talvez nem mesmo com ela; sua voz se tornara áspera e rouquenha como uma voz que não serve nunca. 

Morreu num dos quartos do andar térreo, numa cama de nogueira maciça com cortinados, a cabeça grisalha erguida por um travesseiro amarelo e mofado pelo tempo e pela falta de sol. 

O negro encontrou a primeira das senhoras na porta da frente; deixou-as entrar, com suas vozes sussurradas e sibilantes, com seus olhares rápidos, furtivos e curiosos, e depois desapareceu. Meteu-se pela casa a dentro, atravessou-a toda, saiu pelos fundos e sumiu para sempre. 

A duas primas não tardaram a chegar. Fizeram o enterro no segundo dia. A cidade em peso compareceu para ver Miss Emily coberta por um montão de flores compradas, o retrato, a carvão, de seu pai profundamente pensativo, acima do caixão, cercado pelas senhoras sibilantes e macabras. No saguão e no gramado, homens, muito velhos – alguns nos uniformes de confederados muito bem escovadinhos – falavam de Miss Emily como se fosse uma de suas contemporâneas, imaginando que tinham dançado com ela, e até mesmo, talvez, que a tinham namorado, confundindo o tempo e a progressão matemática, como fazem os velhos, para os quais o passado não é uma estrada que se vai encurtando, porém uma vasta planície nunca atingida pelo inverno, dividida para eles, agora, pelo estreito gargalo da ampulheta dos últimos dez anos. 

Nós todos já sabíamos da existência, naquela região, do andar superior, onde ninguém pisara há quarenta anos, de um quarto fechado que seria preciso arrombar. Esperamos que Miss Emily estivesse docemente enterrada, antes de forçá-lo. 

A violência com que pusemos a porta abaixo pareceu encher o quarto de uma poeira penetrante. Era como se uma mortalha, tênue e acre, se estendesse sobre todas as coisas daquele quarto, mobiliado e enfeitado para urna noite de núpcias: sobre as desbotadas cortinas de pesada seda cor-de-rosa, sobre os quebra. Luzes rosados das lâmpadas, sobre a penteadeira, sobre os delicados objetos de cristal, sobre as peças do aparelho de toucador para homem, com seus dorsos de prata embaciados, tão embaciados que nem se distinguiam os monogramas escurecidos. 

Entre os pertences do toucador, estavam jogados um colarinho e uma gravata, como se tivessem acabado de tirá-los naquele momento; quando os levantamos, deixaram na superfície uma pálida meia lua traçada na poeira. O terno de roupa estava dobrado cuidadosamente numa cadeira, debaixo da qual se viam os dois sapatos mudos e as meias largadas no chão. 

E o homem estava deitado na cama. 

Durante muito tempo, ali ficamos, imóveis, olhando para o seu ríctus profundo e descarnado, O corpo devia ter, a princípio, repousado na atitude de carícia, abraçado a outro corpo, mas agora o grande sono que sobrevive ao amor, o grande sono que vence até mesmo as carícias do amor, dominara-o afinal. O que restava dele, em decomposição dentro do que restava de sua camisola de dormir, tornara-se inseparável do leito em que jazia; e sobre ele, assim como sobre o travesseiro vazio ao seu lado, estendera-se aquela camada espessa de paciente e obstinada poeira. 

Notamos, então, que no segundo travesseiro havia a marca funda de uma cabeça. Um de nós encontrou qualquer coisa caída sobre esse travesseiro e, debruçando-se, enquanto a leve, impalpável poeira acre e seca, nos entrava pelas narinas, vimos um longo fio de cabelo de um tom cinzento-de-aço. 



(Tradução de Lia Corrêa Dutra) 


(Ilustração: Jan Davidsz de Heem  - Vanitas)