quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

SEXO ORAL, de Maurício de Macedo







Ponho as palavras em sua boca.

Você lambe,

lambuza

as palavras intumescidas

que ponho em sua boca.



Você lambe,

lambuza,

faz crescer as palavras

que ponho em sua boca.

Faz florescer as palavras

– pétalas de jasmim –

que ponho em sua boca.



Palavras que ponho

em sua boca

e que aguardo se façam corpo

como o cego pedinte

aguardando o tilintar

da moeda na latinha.



(Ossos da Palavra)





(Ilustração: René Lelong)





segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

MEU AVÔ DESCONHECIDO, de Ricardo Ramos Filho






Muitos me perguntam, já perdi a conta de quantas vezes respondi, mas não conheci Graciliano. Vim ao mundo no começo do ano seguinte à sua morte, primeiro nascimento na família após a partida do autor alagoano (1892-1953).

Dizem que foi grande a alegria, festejaram bastante a minha chegada. Entusiasmo por pouco não transformado em tragédia; fardo dificílimo carregaria para o resto de minha pobre vida se me batizassem como pretendiam.

No início, aventaram a possibilidade de me homenagear com o nome de vovô, ou o contrário, nunca entendi bem a quem seria o tributo. O fato é que, se tivesse vingado, este texto seria assinado por Graciliano Neto. Felizmente minha mãe preferiu presentear o marido --nasci no dia do aniversário de meu pai e virei Ricardo Filho.

Minha avó Heloísa Ramos, recém-viúva, afeiçoou-se demais a mim. Parentes maldosos, versados em Freud, apressaram-se em diagnosticar tanto carinho como transferência. Nunca me importei, até porque só fui precisar do psicanalista austríaco bem mais tarde. Aproveitei ao máximo o convívio com vó Lozinha. O velho Grace, embora avô desconhecido, acabou por tornar-se íntimo, pois vovó falava nele o tempo todo.

Para mim, era um herói igual aos encontrados nos gibis. Tinha muito do Fantasma, a cadela Baleia era o seu Capeto. Imaginava-o um Tarzan nordestino, encontrava-o no Príncipe Valente e no Robbin Hood. Só imaginando-o em uma Sherwood alagoana, aliando-se aos pobres contra os ricos, consegui entender por que tinha sido preso. Da mesma forma que o Popeye não largava o cachimbo, meu avô não desgrudava do cigarro: era assim que o via em todas as fotos.

Como acontece com a maioria das pessoas, cresci. E, ao entrar em contato com a obra de Graciliano Ramos, mudei minha relação com ele. É claro que fiquei impressionado. Como é que alguém podia assinar um texto sem assinar?

Seu jeito característico de arranjar palavras, tão pessoal na maneira de dizê-las, permitia-me encontrá-lo com facilidade em qualquer página avulsa escrita por ele, mesmo sem identificação.

De certa forma, aquele herói tão próximo afastou-se. O respeito instalou-se e virou reverência. Embora tivesse muito carinho pelo primeiro, o segundo transformou-se em exemplo importante, matéria de estudo, referência.

Ao olhar a foto presente na edição de "O Velho Graça", de Dênis de Moraes, que está saindo pela Boitempo, vejo o escritor. Recupero misturadas informações lidas e familiares. Ouço minha mãe referindo-se ao mau humor dele nas vésperas de partir para o estrangeiro, provavelmente inseguro ante perspectiva tão assustadora.

Lembro-me do início de "Viagem", onde ele conta que em abril de 1952 embrenhou-se em uma aventura singular. Foi a Moscou e a outros lugares. Para ele, homem sedentário, resignado ao ônibus e ao bonde quando o movimento era indispensável, não deve ter sido fácil.

Sair de sua toca e entrar em um avião, aparelho assassino, atravessar o oceano e conviver com pessoas diferentes, tendo a necessidade de entendê-las e precisando de intérpretes, encontrar uma polícia que, em vez de levá-lo para a cadeia, como lhe parecia natural, ajudava-o, todas essas experiências novas me parecem marcadas em sua silhueta magra de braços cruzados.

Atento, curioso, divertindo-se com o discurso da menina de sobrancelhas "lobatianas". Vejo no corpo frágil o esforço físico necessário para estar ali. Talvez por eu conhecer seu destino -- em menos de um ano, 20 de março de 1953, estaria morto.

Imagino-o mergulhado em seu humor característico ácido, irônico, inteligente, atento ao que ocorria a seu entorno e tirando suas conclusões. Não encontro o cigarro em seus dedos e sei o quanto deve estar sentindo falta.

Um Dalcídio Jurandir empertigado à sua direita e o amigo Sinval Palmeira, o primeiro à esquerda na foto, também não me parecem confortáveis. Ao vê-lo nessa antiga fotografia em preto e branco, recupero o meu avô desconhecido.

Com carinho e respeito.



(Folha de São Paulo)




(Ilustração: Graciliano Ramos:  em visita a Moscou, em 1952; Sinval Palmeira, 1ª à esquerda; Graciliano Ramos, de braços cruzados e Dalcídio Jurandir, à dir. de Graciliano)


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

PRINCÍPIO DO PRAZER, de Vasco Graça Moura







à sua volta os pombos cor de lava

nos arabescos pretos do basalto

e gente, muita gente que passava

e se detinha a olhá-la em sobressalto



no seu olhar havia uma promessa

nos seus quadris dançava um desafio

num relance de barco mas sem pressa

que fosse ao sol-poente pelo rio



trazia nos cabelos um perfume

a derramar-se em praias de alabastro

e um brilho mais sombrio quase lume

de fogo-fátuo a coroar um mastro



seu porte altivo punha à vista o puro

princípio do prazer que caminhava

carnal e nobre e lúcido e seguro

com qualquer coisa de uma orquídea brava



e nas ruas da baixa pombalina

sua blusa encarnada era a bandeira

e o grito da revolta na retina

de quem fosse atrás dela a vida inteira.





(Ilustração: Francisco Ribera Gomez - Raza)



terça-feira, 10 de janeiro de 2017

CIRCUITO FECHADO, de Ricardo Ramos






Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo; pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos,  caneta, chaves, lenço, relógio, maços de cigarros, caixa de fósforos. Jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapos. Quadros.  Pasta,  carro. Cigarro,  fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, telefone, agenda, copo com lápis, canetas, blocos de notas, espátula, pastas, caixas de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio. Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projetos de filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-negro, giz, papel. Mictório, pia, água. Táxi. Mesa,  toalha,  cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa, guardanapo, xícara. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de dentes, pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista, copo de papel, cigarro, fósforo, telefone interno, externo, papéis, prova de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta, telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro, fósforo, papel e caneta. Carro. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Paletó, gravata. Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa,  cadeiras, pratos, talheres, copos, guardanapos. Xícaras, cigarro e fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo. Televisor, poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos, meias, calça, cueca, pijama, espuma, água. Chinelos. Coberta, cama, travesseiro.




(Ilustração: Paul McDevitt)



sábado, 7 de janeiro de 2017

A LA MARQUISE / À MARQUESA, de Pierre Corneille






Marquise, si mon visage

A quelques traits un peu vieux,

Souvenez-vous qu’à mon âge

Vous ne vaudrez guère mieux



Le temps aux plus belles choses

Se plaît à faire un affront,

Et saura faner vos roses

Comme il a ridé mon front.



Le même cours des planètes

Règle nos jours et nos nuits

On m’a vu ce que vous êtes;

Vous serez ce que je suis.



Cependant j’ai quelques charmes

Qui sont assez éclatants

Pour n’avoir pas trop d’alarmes

De ces ravages du temps.



Vous en avez qu’on adore;

Mais ceux que vous méprisez

Pourraient bien durer encore

Quand ceux-là seront usés.



Ils pourront sauver la gloire

Des yeux qui me semblent doux,

Et dans mille ans faire croire

Ce qu’il me plaira de vous.



Chez cette race nouvelle,

Où j’aurai quelque crédit,

Vous ne passerez pour belle

Qu’autant que je l’aurai dit.



Pensez-y, belle marquise.

Quoiqu’un grison fasse effroi,

Il vaut bien qu’on le courtise

Quand il est fait comme moi.



Tradução de Fabio Malavoglia:



Marquesa, se meu semblante

exibe traços um tanto idosos,

lembrai que a vós não se garante

Em idade igual, melhores gozos.



O tempo às coisas mais formosas

apraz secar as belas fontes

fenecerá as vossas rosas

como riscou a minha fronte.



É o mesmo círculo de sóis

que regra os dias no seu voo

Eu já me vi tal qual vós sois

E vós sereis tal como sou.



Possuo porém certos talentos

aqui assentes e evidentes

para não ser mais tão atento

ao fim do tempo e seus poentes.



Tendes os vossos e há quem adora;

mas esses meus que desprezais

podem durar além da hora

que usado aqueles, não tenhais mais.



Pois poderão salvar a glória

Do olhar que a mim surgia doce

E dar mil anos à memória

Do que em vós prazer me fosse.



Eu junto a tal raça futura

serei quem sabe creditado

E assim da vossa formosura

só se dirá o por mim cantado.



Nisso pensai, marquesa bela:

Quem mechas cinzas um dia temeu

melhor faria se a corte dela

Cedesse enfim a um como eu.





(Ilustração: Roberto Ferri)


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

UM AMIGO EM TALAS, de Graciliano Ramos







O meu antigo companheiro de pensão Amadeu Amaral Júnior, um homem louro e fornido, tinha costumes singulares que espantavam os outros hóspedes.

Para falar com propriedade, aquilo não era exatamente pensão, mas isto não tem importância: com um pouco de esforço podíamos admitir que estávamos numa pensão de gente bem comportada. Bocejávamos em demasia, contávamos as pessoas que subiam ou desciam um morro próximo, dormíamos cedo e recebíamos com regularidade a visita do gerente do estabelecimento, o major Nunes, ótima criatura que deixou o cargo por lhe faltar o espírito do negócio.

Amadeu Amaral Júnior vestia-se com sobriedade: usava uma cueca preta e calçava medonhos tamancos barulhentos. Fora isso, o que tinha em cima do corpo era a barba, economicamente desenvolvida, uma barba enorme. Parecia um troglodita. Alimentava-se mal, espichava-se na cama, roncava o dia inteiro e passava as noites acordado, passeando, agitando o soalho, o que provocava a indignação dos outros pensionistas. Quando se cansava, sentava-se a uma grande mesa ao fundo da sala e escrevia o resto da noite. Leu um tratado de psicologia e trocou-o em miúdo, isto é, reduziu-o a artigos, uns quarenta ou cinquenta, que projetou meter nas revistas e nos jornais e com o produto vestir-se, habitar uma casa diferente daquela e pagar ao barbeiro.

Mudamo-nos, separamo-nos, perdemo-nos de vista. Creio que os artigos de psicologia não foram publicados, pois há tempo li este anúncio num semanário: "Intelectual desempregado. Amadeu Amaral Júnior, em estado de desemprego, aceita esmolas, donativos, roupa velha, pão dormido. Também aceita trabalho”.

O anúncio não produziu nenhum efeito, é o que meses depois nos declara Amadeu Amaral Júnior: "Minha situação continua preta. Reitero o apelo às almas bem formadas: deem de comer a quem tem fome, uma fome atávica, milenária. Deem-me trabalho." E, catalogando as suas habilidades: "Escrevo poesias, crônicas, contos (policiais, psicológicos, de aventura, de terror, de mistério), novelas, discursos, conferências. Sei inglês, francês, italiano, espanhol e um bocado de alemão. Deem-me trabalho pelo amor de Deus ou do diabo."

De literato brasileiro não conheço página mais sincera e razoável que essa. Ao ler o pedido de roupa velha e pão duro, fiquei meio escandalizado, mas refletindo, confessei publicamente que o meu velho companheiro procedia com acerto. E agora, completamente solidário com ele, admiro a exposição que nos faz das suas aptidões e lamento que não as utilizem.

É evidente que Amadeu Amaral Júnior conhece bem o nosso mercado literário e apregoa as mercadorias mais próprias para o consumo: discursos, contos policiais, de aventura, de terror e de mistério. Julgo que vive sem ocupação por não haver falado antes nisso.

O meio cento de artigos redigidos naquelas noites de insônia encalhou certamente na redação, preterido pelas novelas de arrepiar cabelos. Indignado, Amadeu Amaral Júnior oferece de novo os seus préstimos ao editor, afirmando que também sabe compor histórias policiais, de aventura, de terror e de mistério, que arrancam lágrimas e se vendem regularmente.

A maneira como pede trabalho, pelo amor de Deus ou do diabo, revela que o escritor está impaciente e talvez não escrupulize em pôr a sua pena a serviço de qualquer dessas duas entidades, o que não admira, pois Amadeu é jornalista.

Muita gente se espanta com o procedimento desse amigo. Não sei por quê. Os fabricantes anunciam os seus produtos e os sujeitos desempregados costumam, desde que há jornais, dizer neles para que servem. Por que apenas o articulista, precisamente o indivíduo capaz de arrumar umas linhas com decência, deve calar-se e roer chifres?

Eu por mim acho que Amadeu Amaral Júnior andou muito bem. Todos os jornalistas necessitados deviam seguir o exemplo dele. O anúncio, pois não. E, em duros casos, a propaganda oral, numa esquina, aos gritos. Exatamente como quem vende pomada para calos.



(Linhas tortas)



(Ilustração: Peter Churcher - Australian, 1964 -)





domingo, 1 de janeiro de 2017

PONTO DE MULHER, de Elza Beatriz










De vastas saias

em curtas raias

virtude tesa

na asa presa

mulher me sovaram

em ponto de pasta.

De finas rendas

felinas prendas

truques e trinques

trancas e tranças

mulher me cevaram

em ponto de calda.

De pele de pêssego

boca de fruta

sabor de maçã

carne de romã

alma mais vã

mulher me cegaram

em ponto de bala.

De laços de fita

espinhos sem rosa

palavras sem prosa

agulha sem linha

guerreira sem rinha

mulher me segaram

em ponto de fio

esfolando lugar

num espaço vazio.







(Ilustração: Patricia Watwood - gemini)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

“CONTEMPLO O ROSTO DE GRACILIANO RAMOS, MORTO…”, de Augusto Frederico Schmidt







Contemplo o rosto de Graciliano Ramos, morto: parece-me sereno, tranquilo, adormecido como está no fundo de sua ausência. Foi um revoltado, não um ressentido. Sabia que o mundo é mau, que os homens devoram-se, e ao terminar sua carreira sobre a terra, não esperava encontrar mais nada.

Estendido no caixão, coberto de flores — que paz todavia emana desse que fora homem de aparência brusca, personagem desabusado, franco, duro! A mim não enganou, jamais, o jeito de Graciliano: sempre o julguei como realmente era — honesto, incapaz de falsear, de mentir, de odiar gratuitamente quem quer que fosse. Não era um sentimental, um terno ser de fácil emoção, de nervos à flor da pele, de mesmo raras lágrimas. Longe disto, aprendera muito, tivera a experiência da luta, conhecera uma prisão injusta e longa: vira o que o homem pode fazer com o homem inerme…

Suas memórias contarão histórias implacáveis. Quantas vezes, num banco ao fundo da Livraria José Olympio, não me descreveu Graciliano episódios que presenciara e sofrera, numa época de má lembrança e em que não havia liberdade entre nós. Suas queixas pessoais — diga-se, em abono da verdade — não lhe punham na voz as cores do ódio, nem insistia nelas; odiava muito mais o que praticaram contra outros seres, à sua vista, sob o seu testemunho.

Cada qual com a sua experiência. A experiência de Graciliano Ramos fê-lo um revoltado — mas em toda parte há motivos de revolta; e creio mesmo, apesar dos pesares e do que viu o autor de Vidas secas, ainda existe no Brasil uma cordialidade que outros povos não conhecem mais.

***

Esse morto sereno que meus olhos fixam celebrou as viagens dos párias — dos homens fugindo à inclemência das próprias terras desoladas, dos filhos das paragens madrastas onde não há o socorro elementar da água, onde o bicho humano debalde invoca o milagre dos céus impiedosos.

Foi um romancista de bandidos, de incompreendidos, de solitários e desgraçados, de gente infeliz e condenada a não inspirar piedade a ninguém. Foi um forte, nunca um fanático; os que o conheceram sabem que seu pudor sempre o manteve a distância do fanatismo, da beatitude. Não serviu, como escritor, a partido ou credo nenhum, religioso nem político, senão por coincidência. O que almejava era escrever bem, atender às regras do jogo literário. Não se orgulhava de nada, mas gostava que o consultassem sobre questões de sintaxe, sobre dificuldades da língua e da arte.

Esse modesto revolucionário era um escritor clássico, amante das leis do estilo e dos grandes modelos e exemplos…

***

Jamais vingou, entre Graciliano e eu, o menor equívoco, o mínimo juízo mau. Em vão tentaram intrigar-nos, mesmo em público. Graciliano resistia: sabia-me alvo de ressentimentos inconfessáveis. Pouco se lhe dava, aliás, o que eu pensasse quanto à existência de Deus ou sobre a necessidade e a maneira de defender o homem humano nesta trágica conjuntura: e de minha parte, o comunismo de Graciliano não me arrepiava — parecia-me, ao contrário bem integrado e compreensível na revolta desse homem que a vida fizera desiludido de tudo. A adesão a um partido representava para ele o retorno a uma esperança de dias mais justos e melhores para a humanidade, mas em nada lhe solapava o senso de justiça — e o fato de alguém ser branco ou vermelho não ajudava nem prejudicava o seu julgamento e a sua consideração.

***

Da última visita que fiz a Graciliano, guardo lembrança marcante: falou-me de seu passeio à Rússia, dos encontros e das surpresas que lá encontrara, das paisagens avistadas… Depois ficamos a rememorar episódios velhos, desde o nosso primeiro encontro, mal chegara ele ao Rio; generosamente, pela primeira vez, aludiu aos anos decorridos. Lembrou-se dos dois artigos que escrevi, em protesto contra a sua prisão, numa hora em que quase todos se calavam, mesmo os profissionais da contumélia e do insulto.

Saberia ele estar condenado à morte próxima? — indagava-me eu, a cada instante vendo-o acender o cigarro incessantemente e ouvindo-o conversar. Nunca o encontrara tão desempenado, tão bom palestrador, tão ameno, como nesse dia de domingo claro e festivo em que, já às vésperas do término de seus padecimentos, Graciliano fazia de conta que não sabia de nada, heroico em seu pudor… Mas não lhe faltava o conhecimento exato de seu mal, e já as grandes dores o atormentavam: ia morrer. Mas morria no seu natural, sem quebrar a linha de sua natureza áspera e intratável que guardava, porém, o ouro fino do amor dissimulado e escondido, negado e renegado.


 (Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 22 mar. 1953, 1º Caderno, p. 2.)



(Ilustração: Graciliano Ramos no esquife em 1963 - foto de a. desconhecido)





segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

LE MIROIR / O ESPELHO, de Edmond Jabès








Au dortoir des ressemblances

les feuilles ont leurs pensées

les pierres savent le bruit

doré que font les abeilles

Le jour est intimement lié

à leur désespoir à leur oreille

Pour l’air l’eau du temps

la nature danse

L’herbe dans la terre a

un pied nu qui avance

Mais tu n’entendras jamais

un murmure de fatigue.



Tradução de Eclair Antonio Almeida Filho:



No dormitório das semelhanças

as folhas têm seus pensamentos

as pedras sabem o rumor

dourado que fazem as abelhas

O dia está intimamente ligado

ao seus desesperos às suas orelhas

Para o ar a água do tempo

a natureza dança

A relva na terra tem

um pé nu que avança

Mas tu não ouvirás jamais

um murmúrio de fadiga.



(De l’écorce du monde – 1954)




(Ilustração: Paulo Martinez Fernandez)



sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

NOITE DE GALA, de Yara Maria Camillo







Passa da uma da manhã. A Missa do Galo foi longa e a fila para beijar os pés do Menino Jesus estende-se, procissão para além do pátio, até a esquina da Rua Glicério.

A Menina arregala os olhos para tudo: esta sua Noite de Gala. Delicia-se com o Hosana das Filhas de Maria e o presépio junto ao altar, onde chegará para beijar os pés do Deus feito Menino.

Não a incomoda, como às vezes ocorre, a mão esquecida da mãe sobre a sua, nem o ajuntamento, nem o olhar do "tio" que, meio-rude-meio-terno, afasta-lhe a outra mão que estava a explorar o nariz meio chato, nariz que é a primeira coisa que ela sente ao acordar, porque a avó o aperta de leve, todas as manhãs, afilando-o para que assuma a forma do nariz materno, para que perca a qualidade esborrachada, herança do pai, herança de negro. Apenas, a avó, nesse obstinado ato de esculpir um novo nariz, se esquece de arrebitar-lhe a ponta, de modo que com o passar dos anos ele se tomará afilado, sim, mas ligeiramente adunco.

—Tira a mão do nariz — diz o "tio". — É feio.

Ela consente. Peçam-lhe o que quiserem.

A fila anda mais rápido.

— Beijem o Deus Menino e deixem para rezar em volta do presépio; não vamos retardar a fila — adverte o Padre Romano, que a Menina acha muito bonito, assim, vestido de branco.

A poucos passos do altar a mãe se abaixa e avisa:

— Não encoste a boca no Menino Jesus. Beije de longe, que é a mesma coisa.

...Coisa que a Menina não obedece, porque tomada pelo Adeste Fidelis, porque feliz. Sabe que na volta a mãe e o "tio" Rodrigues serão os primeiros a entrar no kitchenette, sabe que ficará na portaria esperando, junto com a avó, enquanto os dois vão ver se os presentes já chegaram.

Sabe e não tem pressa, prolonga com delícia o gozo próximo.

Se a mãe a viu beijar de verdade os pés do Menino, se a viu encostar a boca onde todos encostam, fingiu que não.

A noite é sereno na volta, os quatro dobram a esquina da Rua Oscar Cintra, a Menina de mãos dadas com a avó, e entram no Edifício Ouro Branco.

A mãe passa altiva pelas louras oxigenadas e um marinheiro, todos aglomerados na portaria, tomando champanhe barato com o zelador. Passa altiva, braços dados com o "tio", que assume ares de carranca.

A avó, soltando a Menina, senta-se no banco de madeira, junto à árvore de Natal, armada perto dos elevadores.

A Menina acha bonitas aquelas moças decotadas, de cabelos cor de ouro; sorri de volta aos sorrisos, e também para o marinheiro Rosalvo, que uma vez lhe deu um chinezinho de louça, pelado.

— Eu queria ser bonita como a Nina — ela disse, um dia, à mãe, que comentou com o "tio" a urgência de sair daquele prédio, "antes que a Menina cresça e comece a entender".

Também agora a Menina queria ser Nina, a mais loura, a mais linda; queria ser Rosalvo, que a abraça.

O "tio" volta pelo corredor e avisa que os presentes chegaram. Estabanada ante o gozo iminente, a Menina dispara corredor afora, escorrega no capacho para deslumbrar-se com os jogos, a boneca, uma xícara com desenhos de flores, um vestido amarelo, tanta coisa, um carrossel com cinco cavalinhos que giram como no Parque Xangai.

Foi-se a surpresa, nada mais a esperar. A Menina sabe que agora virá o guaraná e avelã e amêndoas, sabe que virá o sono e então o dia, os dias.

Mas a noite acontece em outro tom: a avó se levanta da mesa e se apoia na guarda da cama, arfante, a mãe atrás. A Menina quer ir para as duas, o "tio" avisa que fique onde está.

— Rodrigues, corre aqui.

O "tio" se ergue, depois de repetir a ordem.

— Acode aqui, Rodrigues.

Não é a primeira vez da avó doente.

— Um táxi. Chama um táxi.

A Menina se agita. Ela pode ajudar? Não pode, e termina o guaraná que de repente perdeu o gosto. Com quem a deixarão dessa vez, se a vizinha, Dona Laura, viajou?

Demora.

A avó respira com dificuldade, dói só de olhar.

Demora.

A mãe reza, lamenta-se, "linda, a minha mãe", pensa a Menina.

Demora.

O "tio" volta, o táxi chegou. A Menina segue os três pelo corredor, a porta ficou aberta.

Na portaria, as mulheres e o marinheiro correm a ajudar. A mãe chama o zelador para pedir que fique com a filha, desiste ao vê-lo cambaleante e solícito.

Com quem deixar a Menina?

— Você fica — o "tio" propõe à Mãe, que não responde, apenas olha todas aquelas pessoas coloridas, não tem muito tempo, a avó arqueja.

 Se o problema é a Menina, pode deixar que eu tomo conta — diz Nina. — Deixe comigo... Senhora.

A mãe, altivez pejada, assente:

— Obrigada... Nina.

— Por nada... Senhora.

A Menina quer juntar a alegria de ficar com Nina a essa hora triste dos seus, da avó que parece um brinquedo quebrado, assim, encolhida.

A mãe avisa a Nina que a porta do kitchenette ficou aberta, agradece, olha a filha, sai. O táxi contorna a praça, entra na contramão na Rua Helena Zerrener e desaparece. Chuvisca.

A sós com tantos ídolos, a Menina quer rir.

— A tal pensa que tem o rei na barriga — ouve Nina dizer. — Grande senhora ela é, só porque tem um caso permanente.

As mulheres brincam com a Menina, inesperada boneca. Uma delas passa-lhe batom. Rosalvo, o marinheiro, promete-lhe uma tiara. De que cor? Azul. Você gosta de azul?

Gosta, a Menina diz que sim. A avó doente vai virando uma dor longínqua, com gosto de ontem; a alegria do agora vai contagiando a Menina, que não sente medo, como quando fica com Dona Laura, que logo a põe na cama e apaga a luz.

Nina deixa que ela experimente o champanhe, um gole só. A Menina quer... E adora.

O tempo não passa, de tão novo. É um olhar demoradamente para cada mulher, brincos, golas, saias, relógios, meias, é um gostar demais do uniforme azul-marinho de Rosalvo. Timidamente, a Menina aponta-lhe o quepe:

— "Seu" Rosalvo, deixa eu ver seu chapéu?

É bom que todos sorriam com ela, o centro, o miolo da flor cujo pólen é inteiro e somente para Nina, que se despede dos outros e, tomando a mão da Menina, pergunta cadê a chave.

— A porta ficou aberta.

— É mesmo.

A mão conducente de Nina é um suave caminho.

— Então é aqui que você mora? Que chique!

Nina é toda sorrisos, a Menina deslumbra-se mil vezes, mostra os presentes, oferece avelãs e amêndoas e nozes. As duas comem e brincam e riem e tudo parece assim, diferente.

— Agora, cama.

— Não.

— Já, gracinha.

O tempo se apaga, a Menina acorda e vê Nina sentada aos pés da cama, fumando, olhando. A luz acesa.

— Mamãe não voltou ainda, meu bem. Pode dormir de novo, que a Nina está aqui com você.

— Nina?

— Que é?

— Eu suei.

— Você o quê?

— Suei.

— Você... — Dos cabelos louros de Nina, que se abaixa para descobri-la, exala um perfume forte.

— Deixa eu ver... Ah, você fez pipi. Levanta daí.

Em pé, na cama, a Menina apoia-se na mulher, que lhe tira o vestido e a calcinha.

— Vamos trocar de roupa. — Erguendo-a nos braços, leva-a até o bidê. — Senta aí pra eu te lavar. Veja se a água está muito fria... Muito fria?

— Não.

— Bom. Então... Pronto.

A toalha não é tão macia quanto as mãos de Nina.

— Agora me diga onde estão suas roupas.

— Ali — a Menina aponta a cômoda.

— Vem.

Nina a coloca em pé sobre o colchão e abre a primeira gaveta.

— Nina, você foi na Missa do Galo beijar o Menino Jesus?

— Você é meu Menino Jesus, benzinho.

Risos. Nina encontra uma camiseta, uma calcinha:

— Tá bom assim?

— Tá.

— Deixa eu te vestir. Dá o pé, louro.

A Menina obedece e enlaça Nina, aspira com deleite o perfume dos cabelos claros. A mulher a aperta contra si. A Menina não quer soltar-se nunca mais.

— Você é meu Menino Jesus — Nina repete, repelindo-a com doçura.

— Jura?

— Juro.

— Você é linda, Nina. Linda como a Nossa Senhora.

— Não fala assim, gracinha. É pecado.

A Menina se atira no colo que ainda quer rejeitá-la, mas não consegue. E é como se algo nascesse, na noite sem idades.

O marinheiro Rosalvo bate levemente e entra. Com os olhos, Nina lhe pede silêncio. A Menina está quase dormindo. Rosalvo toca o ombro da mulher, deixa que a mão escorregue até os seios. Nina o repele com um tapa. A Menina se mexe um pouco, depois se abandona. Rosalvo volta a apoiar a mão no ombro de Nina, perguntando-se que bicho a terá mordido. Mas não ousa outro gesto e apenas fica ali, imóvel, olhando e olhando.

Num quintal da Rua Tabatinguera, o primeiro galo canta.



(Hiatos)




(Ilustração: Patrice Murciano)



terça-feira, 20 de dezembro de 2016

MA BOHÈME (FANTASIE) / MINHA BOEMIA (FANTASIA), de Arthur Rimbaud









Je m' en allais, les poings dans mes poches crevées;

Mon paletot aussi devenait idéal;

J' allais sous le ciel, Muse! et j' étais ton féal;

Oh! là là! que d' amours splendides j' ai rêvées!



Mon unique culotte avait un large trou.

— Petit-Poucet rêveur, j' égrenais dans ma course

Des rimes. Mon auberge était à la Grande-Ourse.

— Mes étoilles au ciel avaient un doux frou-frou.



Et je les écoutais, assis au bord des routes,

Ces bons soirs de septembre où je sentais des gouttes

De rosée à mon front, comme un vin de vigueur;



Où, rimant au millieu des ombres fantastiques,

Comme des lyres, je tirais des élastiques

De mes souliers blessés, un pied près de mon coeur!



Tradução de Claudio Daniel:



Eu caminhava, as mãos soltas nos bolsos gastos;

O meu paletó não era bem o ideal;

Ia sob o céu, Musa! Teu amante leal;

Ah! E sonhava mil amores insensatos



Minha única calça tinha um largo furo.

Pequeno Polegar, eu tecia no percurso

Um rosário de rimas. A Grande Ursa,

O meu albergue, brilhava no céu escuro.



Sentado na sarjeta, só, eu a ouvia

Nessa noite de setembro em que sentia

O odor das rosas, que vinho vigoroso!



Ali, entre inúmeros ombros fantásticos,

Rimava com a débil lira dos elásticos

De meus sapatos, e o coração doloroso!





(Ilustração: Nicolás Berlingiere - Homage to the Painters)


sábado, 17 de dezembro de 2016

BARBARIDADE, de Mariana Mesquita






Bárbara é uma doce menina de 13 anos, saudável e feliz. Acorda todos os dias, bem-disposta, às sete da manhã. Cantarola, abre as janelas, respira fundo, sorri e exclama que a vida é bela e que ela é a garota mais feliz do mundo! Deseja bom ­dia às suas bonecas, toma um refrescante banho, penteia seu lindo e sedoso cabelo, veste uma roupa esvoaçante e desce as escadas como uma borboleta sobrevoando um jardim. Antes que a mãe a chame para o café, Bárbara grita: Já estou indo, minha linda mamãe!

O pai lhe dá um beijo na testa e diz que a filha está um bibelô! Bárbara acha graça e lhe devolve o carinhoso beijo. Ela é o orgulho dos pais. A mãe traz a margarina e a família toma seu desjejum feliz.

Depois do café, o pai de Bárbara diz que tem uma surpresa. A mãe lhe entrega uma caixa colorida, com um laço de fita cor-de-rosa. A cor predileta de Bárbara. Ansiosa, ela desembrulha o presente tentando adivinhar o que será. Quase chora de emoção. Seu sonho mais recente foi realizado: é uma linda boneca Barbie vestida de noiva. Bárbara imagina como será o dia de seu casamento e, emocionada, comenta, mais uma vez, que ama muito seus pais. Depois, guarda a boneca junto com as suas outras trinta e cinco Barbies. As esportivas, as executivas, as vestidas para o campo e para o baile. Todas lindas e perfeitas! Mas nenhuma com a graciosidade de Bárbara. Quem sabe um dia não existirá uma Barbie Bárbara?, pensou, sorriu e foi se arrumar para não se atrasar para a aula.

Oito e meia é a hora do ônibus. Bárbara sai de casa saltitante. O motorista que a leva todos os dias pensa: Que graça de menina! Bárbara tem a pele lisa como uma pétala de rosa, os dentes mais brancos que a neve e os cabelos macios, sedosos e com balanço. No colégio, suas notas são as melhores, seus assuntos, os mais interessantes, e todos querem sua amizade. Ela comanda as brincadeiras no recreio. Os professores se orgulham da aluna, e os amigos a amam. Bárbara não faz esforço para agradar, mas é a mais querida do colégio. No recreio, observa os meninos e prevê o dia em que terá que optar entre se casar com Rodrigo Martins ou Eduardo Carvalho. Uma decisão difícil, mas que ainda tem tempo para ser tomada. Certeza, só uma: quer ser mãe de uma linda menina. Como ela. Bárbara suspira, volta para casa, faz seu dever e corre para brincar com sua nova Barbie. A noiva. Sorri. Como sou feliz!

Era assim, foi sempre assim até aquela madrugada maldita. Bárbara dormia ingenuamente. Sonhava com anjos e brinquedos que ganhavam vida. Mas, sem aviso prévio, seu sonho foi interrompido por imagens estranhas, sem nexo, que lhe davam arrepios e tremedeiras. Os anjos fugiram, os brinquedos desapareceram. Ela fazia força para voltar ao sono antigo, mas nada adiantava. Bárbara se debatia, tremia como se seu corpo estivesse sendo invadido, abduzido, carcomido... suava. Tentou, em vão, acordar. Por instinto, tentava negar o que estava fadado a acontecer. Mas era tarde... A natureza havia marcado a data. Às três horas e cinco minutos do dia 15 de abril de 2009... Mais uma adorável e indefesa criança se tornava adolescente!

No dia seguinte, sem lembrar de nada, Bárbara acordou tarde e perdeu a hora do ônibus. Estava molhada de suor, exausta, e não sabia por quê. Eram muitas as novidades. Reparou que seu peito apresentava duas protuberantes bolinhas, de tamanhos diferentes, que despontavam para o alto. Precisava com urgência de um sutiã que escondesse aquelas azeitonas. Seus pés saíram na frente, haviam crescido mais que o resto do corpo. Seu esqueleto, agora, era quase um poste — alto e envergado. O cabelo já não balançava como antes, e ela reparou que seus dentes da frente estavam trepados uns por cima dos outros. Não era justo, mas provavelmente teria que usar aparelho fixo por muitos anos. Sentiu ódio!

Sua casa também parecia ter mudado, estava bem menor. Mas logo percebeu que era ela que não cabia mais no quarto. Havia crescido. Esbarrando em móveis, foi tomar seu banho.

Não! isso não!! Bárbara se olhou no espelho e gritou horrorizada. A acne marcava todo o seu rosto Na ponta do nariz crescia uma volumosa espinha cercada de pequenos e negros cravos. Bárbara quis morrer! Gritava que era a menina mais infeliz do mundo, que ninguém a compreendia, que seus pais eram os culpados por tudo, que nunca mais sairia de casa! Que estava horrorosa! Que odiava sua vida, seus brinquedos, a escola e sua família por ter permitido que essa desgraça acontecesse! A mãe veio, aflita, perguntar que estava acontecendo. O pai chegou a pensar em chamar a ambulância, os bombeiros ou a polícia. Mas Bárbara bateu a porta do quarto, furiosa. Já ia se jogar na cama para se afogar em lágrimas quando viu as trinta e seis Barbies sorrindo e zombando do seu infortúnio... Sem parar para pensar, chutou a Barbie executiva! Que alívio! Sentiu tanto prazer em destruir aquela boneca ridícula que arrancou a cabeça da esportiva e devorou a perna da Barbie noiva! Ninguém me compreende! Oh dia! Oh céus! Oh vida!

O tempo passou, o mato cresceu ao redor e agora ela tinha pentelhos em lugares nunca antes imagináveis. Não demorou muito e a menstruação chegou, para enfatizar a transformação de menina em monstro. Seu corpo inteiro doía, movido e exaurido. Milhares de hormônios borbulhavam em seu corpo, provocando novas e estranhas sensações. Foram três dias de um fluxo intenso. Sentia cólica, tesão, alívio, ódio, calafrio, amor, e chorava, chorava...

Os pais de Bárbara tentaram de tudo. Psicologia, psicanálise, medicina, pedagogia, psico-pedagogia, terapia familiar, individual, ocupacional, homeopatia, fitoterapia, astrologia, filosofia, espiritismo, ciências alternativas, ocultas e nada! Fizeram reuniões com o colégio, com os vizinhos, com pais dos amigos... Foram compreensivos, repressivos, alternativos e autoritários. Mas não era fácil domar a fera. Nada acalmava Bárbara.

Ela agora fazia o que bem queria, na hora em que bem quisesse. Essa era a parte boa. Matava aula, fumava escondido, e, para provar que era a tal, deu para Rodrigo Martins numa noite e para Eduardo Carvalho na outra. Achou tudo um saco!

Cada vez que olhava sua coleção de Barbies, já meio destruídas, tinha mais ódio delas, de si mesma e do mundo. Eu odeio Barbie!

Que ninguém viesse dizer que Bárbara não tinha motivos para se rebelar. A culpa de sua revolta foi aquela noite fatídica quando houve a transformação da criança em fera. Pelo menos, esta certeza ela tinha: a vítima era, e sempre seria, ELA.

No café da manhã em família do dia 13 de agosto, Bárbara havia acordado de mau humor. O pai, exausto, caiu na asneira de chamá-la de rebelde sem causa. A mãe, tolinha, comentou que a nova personalidade da filha fazia com que ela se lembrasse de Gonga, a mulher gorila. Bárbara quis matá-los! Calma, Gonga! Mas será que eles não percebem que são os culpados por tudo? Ela já não suportava mais aquela conversa mole: Um dia você vai nos compreender! Nós te amamos muito, meu bibelô! Essa fase difícil vai passar! ... Chega! Correu para o quarto, bateu a porta e foi devorar uma nova Barbie, quando se deu conta de que não havia sobrado mais nenhuma para abrandar sua ira. Calma, Gonga! Mais raivosa do que nunca, desceu as escadas como um caveirão. E, quando os pais tentaram impedir que ela demolisse a casa, Bárbara virou uma mulher-bomba e explodiu. Estraçalhou o casal como se eles fossem bonecos — Barbie e Ken —, agora sem pernas nem cabeças. Devorou os dois! Comeu o pai, depois a mãe... Não sobrou nem um órgão, nem um membro, nem um pedaço do corpo humano para contar a história. Ufa! Estavam todos em frangalhos. Inclusive Bárbara. Ela saiu ferida e os pais despedaçados. 

Finalmente, suspirou mais calma, olhou o cenário de devastação, sorriu e pensou: Ah, não fode.


(Dez contos de terror)



(Ilustração: Stu Mead (1955) - prelude)


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

NAVILOUCA, de Chacal






quero encontrar você

o dia amanhecendo

num buteco

tomando média

olhos claros

translúcidos

- você, aqui?



de repente nós dois

e o resto.



a gente vai

andando andando

dando risada

falando bobagem

pisando a paisagem

viagem



de repente

numa esquina

de terno o tempo

vai passar

apertado apressado.

a gente para o tempo.

diz a ele, calmamente,



como é a felicidade

e vai seguir seguir seguir…



(Belvedere)



(Ilustração: Gwenn Seemel - Répandre la joie)




domingo, 11 de dezembro de 2016

PÁSSAROS VORAZES, de Katia da Silva






Conheci uma senhora cujas palavras fluíam fáceis e insólitas. Ela acreditava que certas mulheres são capazes de voar durante a noite, metamorfoseando-se em vorazes pássaros noturnos. Seduzida pela eloquência e teatralidade de suas próprias palavras, ela acrescentava eufórica a opinião que tais pássaros noturnos não são apenas mulheres velhas, e que todas são, finalmente, mulheres fatais.

Olhar imperturbável, ela me disse que o voo noturno é uma característica das "bondosas damas", acrescentando com uma voz trovejante: "Pássaros vorazes de cabeça desmesurada, olhos fixos, bico afiado para a rapina, plumas brancas e garras tortas. Estes pássaros, sejam eles o fruto de uma reprodução entre sua própria raça, criados por um encanto infernal ou ainda, sejam somente velhas senhoras metamorfoseadas, nós os reconhecemos sempre pelos gritos estridentes com que amedrontam as noites."

De resto, ela me revelou ter ouvido isso em algum lugar. E eu acreditei. Alguém certamente também acreditou ser uma boa ideia falar sobre o assunto. E ela ficava assim pensativa repetindo estas palavras, com o olhar perdido. Olhar de vingança. Esse era o seu passatempo predileto, sonhar com asas largas que a levariam a distantes províncias e lhe dariam a força de escapar. Ela sonhava em escapar. Escapar dos murros, dos muros, dos gritos, das ironias, dos insultos, das dores e dos silêncios.

Gestos e nomes apoiando os seus contares, numa destas ocasiões ela me falou do escritor que disse que a força das sereias está no silêncio! "No seu silêncio! Pode imaginar pior insulto!?".

Ela me contou também que um conhecido seu, passeando em Montreal às margens do canal e numa noite de lua, entendeu uma voz que perfurou o silêncio do matagal:

"Muitos gostam de acreditar que somos todas iguais, pela nossa voz estridente ou sedutora. Julgam que somos instrumento de perdição, que somos o sonho. Desiludam-se! Somos o rosto cansado das velhas, o rosto apaixonado das jovens. Companheiras dos sonhos, com os animais elegemos nosso lar. Assim, temos uma forma bestial. Vejam aí só o que vocês sabem, pois no entanto, ignoram que mesmo sendo veneração, somos também horror. Horror e veneração.”

Quanto à mim, não sou velha; sou relativamente jovem. Meus urros, vocês não conseguem diferenciá-los no mais claro do dia. Mas quando a noite se desponta no alto dos edifícios cinzentos e que me vem este desejo de correr e gritar e gritar... gritar... e nunca mais parar... e bem, nestes momentos, o meu corpo se contorce, treme... e eu tenho frio, tenho frio, tenho um frio de morrer... e as minhas asas, elas, se armam para cobrir o meu corpo e com estas asas trêmulas escondo a minha cabeça desmesurada, os meus olhos fixos, o meu bico afiado, as minhas plumas e as minhas unhas tortas. Os meus gritos não amedrontam a noite. Enrolo-me em mim mesma, como as minhas garras, e fico lá no canto, quieta, torta e doente deste silêncio.





(Ilustração: José Luis Muñoz)