domingo, 9 de agosto de 2026
NA FENDA DA NOITE, de Elys Regina Zils
Na fenda da noite
ver com claridade
o horizonte parece apodrecer lentamente
diante de nós
silêncio articular
solidão com cheiro de alecrim
a vontade é um retângulo mal desenhado
caminhamos lentos pelo teto do cotidiano
como se nosso caminho fosse levar a outro destino
(Fragmentos de silêncio)
(Ilustração : Andrew Wyeth - chambered nautilus)
Marcadores:
Elys Regina Zils - Na fenda da noite
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
WAKEFIELD, de Nathaniel Hawthorne
Numa velha revista ou jornal, lembro haver lido uma história, contada como verdadeira, de um homem – vamos chamá-lo de Wakefield – que se afastou voluntariamente por um longo tempo de sua esposa. O fato, visto assim de maneira abstrata, não é propriamente incomum e nem deve – sem uma conveniente distinção de circunstâncias – ser condenado por maldade ou por disparate. Seja como for, ainda que distanciado de outros piores, este é talvez o mais estranho exemplo, em registro, de delinquência marital; e, além do mais, um capricho entre os mais notáveis que se possa encontrar na lista das extravagâncias humanas. O casal vivia em Londres. O marido, a pretexto de ter que viajar, alugou um aposento em rua próxima de sua própria casa, e ali, sem que a esposa e os amigos o percebessem, e sem qualquer justificativa para o autodesterro, viveu afastado por mais de vinte anos. Durante esse período, ele olhava o seu lar a cada dia, e com frequência avistava a abandonada senhora Wakefield. E depois de tão grande vazio na sua felicidade matrimonial – quando sua morte já era dada por certa, sua herança dividida, seu nome apagado das memórias, e sua esposa há longo, longo tempo resignada à outonal viuvez – ele entrou pela porta uma noite, tranquilamente, como se houvesse estado ausente apenas um dia, e se tornou um esposo dedicado até morrer. Este resumo é tudo que lembro. Mas o incidente, ainda que da mais pura originalidade, sem precedentes, e que provavelmente nunca virá a ser repetido, é daqueles que, penso eu, despertam a geral simpatia da humanidade. Sabemos, cada um por si, que nenhum de nós seria capaz de cometer tal loucura, entretanto sentimos como se alguns outros pudessem fazê-lo. Em minhas próprias reflexões, pelo menos, o assunto tem voltado muitas vezes, sempre prodigioso, mas com uma sensação de que a história deve ser verdadeira e com um conceito do caráter de seu herói. Sempre que temas tão envolventes afetam a mente, o tempo não é perdido quando se pensa neles. Se o leitor quiser escolher, poderá fazer suas próprias meditações; mas se preferir divagar comigo ao longo dos vinte anos de excentricidade de Wakefield, eu lhe dou as boas-vindas; confiando que, ainda que falhemos em encontrá-los, haverá uma moral e um espírito penetrante sinceramente elaborados e sintetizados na sentença final. O pensamento sempre tem sua eficácia, e todo incidente notável sua moral
Que tipo de homem era Wakefield? Somos livres para dar forma à nossa própria ideia e chamá-la pelo nome dele. Estava agora no meridiano da vida; as afeições conjugais, nunca violentas, permaneciam serenas, num sentimento calmo e habitual. De todos os maridos, é provável que fosse o mais constante, pois uma certa indolência mantinha o seu coração em repouso, onde quer que estivesse. Era intelectual, mas de modo não ativo; ocupava a mente em demorados e preguiçosos devaneios, sem propósito definido ou sem vigor para atingi-lo. Seus pensamentos só raras vezes tinham energia para estruturarem-se em palavras. A imaginação, na significação própria do termo, não alcançava os dons de Wakefield.
Tendo um coração frio, mas não corrompido nem errático e um espírito nunca afetado por pensamentos tumultuosos, nem aturdido por originalidades, quem poderia prever que o nosso amigo iria posicionar-se num lugar de destaque entre os realizadores de façanhas excêntricas? Se fosse perguntado a seus conhecidos quem era, em Londres, o homem mais certo para não fazer algo hoje que pudesse ser recordado amanhã, eles teriam pensado em Wakefield. Só a esposa de seu coração teria hesitado. Ela, sem necessidade de analisar seu caráter, estava parcialmente consciente de um silencioso egotismo incrustado na mente passiva – de uma peculiar espécie de vaidade, seu atributo mais embaraçoso – de uma disposição para a astúcia, que raramente produzia efeitos mais positivos do que guardar insignificantes segredos, demasiado triviais para serem revelados – e, finalmente, do que ela chamava “uma pequena esquisitice”, às vezes, no bom homem. Esta última qualidade é indefinível e talvez não existente.
Vamos agora imaginar Wakefield despedindo-se de sua esposa. É o crepúsculo de uma tarde de outubro. Sua bagagem se compõe de um sobretudo pardacento, um chapéu de oleado, botas altas, um guarda-chuva numa das mãos e uma maleta na outra. Informa à senhora Wakefield que pegará o coche noturno para o campo. De boa vontade, ela deveria indagar sobre a duração da viagem, o objetivo dela, e o tempo provável para o retorno; no entanto, tolerante com o inocente amor do marido pelo mistério, interroga-o apenas com o olhar. Ele lhe diz que não espere com certeza pela volta do coche, nem ficasse alarmada se ele tiver que se demorar por três ou quatro dias; mas que, em todo caso, podia contar com ele para o jantar na sexta-feira à noite. O próprio Wakefield, isto deve ser levado em consideração, não tem a menor suspeita do que vai acontecer. Ele adianta as mãos; ela estende as suas próprias e recebe o beijo de despedida ao modo rotineiro de um casamento de dez anos. E o senhor Walkfield, de meia-idade, segue em frente, quase decidido a desnortear sua boa esposa com uma ausência de uma semana inteira. Depois de fechada a porta atrás dele, a senhora Wakefield percebe que esta se entreabre novamente e uma visão do rosto de seu marido reaparece através da abertura, sorrindo para ela, e isso dura apenas um momento. Em suas múltiplas meditações ela circunda esse sorriso original com uma profusão de fantasias, que o fazem estranho e terrível. Se, por exemplo, ela imagina o marido num ataúde, aquele olhar de despedida mantém-se gélido no rosto pálido; ou, se acaso sonha que ele está no céu, o abençoado espírito ainda mostra um sorriso tranquilo e astucioso. Contudo, no seu interesse, quando todos os demais o têm julgado morto, ela às vezes duvida se é uma viúva.
Mas, o nosso assunto é com o marido. Devemos correr ao seu encontro, acompanhá-lo pelas ruas, antes que perca a individualidade e se desvaneça na grande massa da vida de Londres. Seria inútil procurá-lo aí. Por isso, vamos segui-lo bem de perto, até que, após vários giros e voltas supérfluos, o encontramos confortavelmente instalado à frente da lareira, no pequeno aposento já mencionado. Ele está na rua seguinte à de sua própria casa e no final de sua viagem.
Dificilmente pode atribuir à boa sorte o fato de haver chegado ali sem ser visto – recordando que, em dada ocasião, foi retardado pela turba, ao ficar sob o foco de luz de uma lanterna; e, de outra feita, escutou pisadas que pareciam segui-lo, pisadas diferentes do caminhar habitual da multidão ao redor; e, logo depois, ouviu uma voz distante que gritava e ele imaginou que chamava pelo seu nome. Sem dúvida, uma dúzia de pessoas apressadas e curiosas deveria tê-lo visto e ido contar tudo para a esposa. Pobre Wakefield! Quão pouco sabes do brilho de tua própria insignificância neste vasto mundo! Nenhum olho mortal, exceto o meu, seguiu tuas pegadas. Vá tranquilamente para a cama, homem insensato; e, pela manhã, se fores sábio, retorna para casa, para a boa senhora Wakefield e conta a ela a verdade. Não te afastes, nem mesmo por uma semana, do lugar que ocupas em seu puro coração. Se por um único momento, tivesse ela te julgado morto, ou perdido, ou definitivamente afastado dela, terias com aflição tomado consciência de uma mudança irreversível na lealdade dela. É perigoso abrir uma fenda nas afeições humanas; não porque se rompa ou alargue em demasia - mas porque se fecha de novo, rapidamente.
Quase arrependido de sua maluquice, ou qualquer que seja o termo que a denomine, Wakefield deita-se cedo, e acordando depois da primeira soneca, estende os braços no largo e solitário espaço restante da cama inabitual. “Não” – pensa ele, ajeitando o corpo sob as cobertas – “Não dormirei mais sozinho uma única noite.”
Pela manhã, levanta mais cedo que de costume, e se põe a considerar o que realmente deseja fazer. Tão vago e desconexo é o seu modo de pensar, que ele tem consciência de haver dado aquele passo singular com um propósito, é certo, mas acha-se incapaz de defini-lo com suficiente clareza. A vaguidade do projeto e o desordenado esforço empregado na sua execução, caracterizam de modo igual um homem de personalidade débil. Wakefield, entretanto, examina as suas ideias tão minuciosamente quanto pode, e sente-se curioso em saber como vai o curso das coisas em sua casa – como sua esposa exemplar suportará a viuvez de uma semana; e, em síntese, como a pequena esfera de pessoas e situações, na qual ele era um objeto central, será afetada pela sua ausência. Uma vaidade mórbida, por isso, jaz muito próxima do fundo desse caso. Mas, o que fazer para alcançar os seus fins? Não, por certo, manter-se enclausurado neste alojamento confortável, onde, embora tivesse dormido e acordado na rua seguinte à de sua casa, ele efetivamente sente-se tão distante como se tivesse viajado toda a noite numa carruagem. Contudo, se reaparecesse, o projeto inteiro desabaria sobre sua cabeça. Com o pobre cérebro embaraçado nesse dilema sem esperança, ele finalmente aventura-se a atravessar parcialmente a esquina da rua e a lançar um olhar rápido na direção do domicílio abandonado. O hábito – pois ele é um homem de hábitos – segura-o pela mão e o conduz, sem que ele tenha a menor consciência, até a frente da própria porta, onde, justo no momento crítico, ele é despertado pelo arrastar de seus pés sobre o degrau. Wakefield, aonde você vai?
Nesse momento, o seu destino estava girando em torno de um centro. Pouco imaginando sobre a fatalidade que o primeiro passo de retorno proporcionava, sai dali apressado, mal podendo respirar ante a agitação nunca sentida até agora, e apenas ousa virar a cabeça ao chegar na esquina distante. Será que alguém o havia visto? Não teria o pessoal da casa – a honesta senhora Wakefield, a esperta empregada, e o sujo garotinho de recados – feito um alvoroço e saído pelas ruas de Londres, em busca de seu fugitivo senhor e amo? Milagrosa escapada! Ainda arranja coragem para deter-se e olhar na direção da casa, mas é desconcertado pela sensação de mudança que lhe transmite o familiar edifício, assim como somos todos afetados, quando após uma separação de meses ou anos, vemos de novo alguma colina ou lago, ou obra de arte, dos quais, antes, gostávamos especialmente. Nos casos normais, essa impressão indescritível é causada pela comparação e contraste entre as nossas lembranças imperfeitas e a realidade. Em Wakefield, a mágica de uma simples noite produziu uma transformação semelhante, porque, nesse breve período, houve uma forte mudança moral. Mas ele próprio não sabe disso. Antes de deixar o local, percebe um longínquo e momentâneo relance de sua esposa, que passa pela janela da frente, com o rosto voltado para a extremidade da rua. O ingênuo matreiro então foge do local, apavorado com a ideia de que os olhos dela o tenham reconhecido, tal como ele se considera, entre os milhares de átomos mortais. Quando se encontra diante do calor da lareira, em seu alojamento, o coração está alegre, embora o cérebro se ache meio aturdido.
É o suficiente para o começo desta longa extravagância. Depois da ideia inicial, e da incitação do caráter lerdo do nosso personagem para colocá-lo em atividade, todo o assunto desenvolve-se num curso natural. Podemos presumi-lo, como resultado de profunda deliberação, comprando uma nova peruca, de cabelos avermelhados, e escolhendo diversos artigos no baú de liquidação de roupas de um judeu, num estilo diferente de seu costumeiro terno marrom. Está completo.
Wakefield é outro homem. Estabelecido agora o novo sistema de vida, um movimento retrógrado para o antigo seria quase tão difícil quanto a circunstância que o colocou na presente posição sem paralelos. Além disso, ele se obstina num mau humor, ocasionalmente peculiar a seu temperamento, mas que agora se deve à sensação inadequada que ele concebe haver sido produzida no íntimo da senhora Wakefield. Não retornará para casa enquanto não a considerar mortalmente assustada. Bem, ela já passara duas ou três vezes ante seus olhos, a cada vez com um passo mais pesado, um rosto mais pálido, um aspecto mais ansioso; e, na terceira semana de seu desaparecimento, ele nota um presságio do mal a entrar na casa, na figura de um farmacêutico. No dia seguinte, a aldrava da porta traz uma cobertura para abafar o barulho. Ao cair da noite, surge a carruagem de um médico e deposita, à porta da casa de Wakefield, a sua carga solene, de grande peruca, de onde, após um quarto de hora de visita, emerge, talvez o arauto de um funeral. Querida mulher! Estará para morrer?
Então, Wakefield é excitado por algo como uma energia de sentimento, mas ainda permanece afastado do leito de sua esposa, argumentando com sua consciência que não deve perturbá-la em tal conjuntura. Se outra coisa o retém, ele não sabe. No curso de poucas semanas, ela gradualmente se restabelece; a crise passa; o coração é triste, talvez, mas tranquilo; e, volte o marido cedo ou tarde, ela jamais ficará febril por ele de novo. Tais pensamentos bruxuleiam através das névoas da mente de Wakefield, e fazem-no indistintamente consciente de que um quase intransponível abismo divide o seu apartamento alugado de sua antiga casa. “Mas se fica apenas na outra rua!”, diz, às vezes. Tolo! fica num outro mundo. Até agora tem adiado o regresso de um particular dia para outro. De agora em diante fica indeterminado o dia preciso. Não será amanhã – provavelmente na próxima semana – o mais breve possível. Pobre homem! Os mortos têm aproximadamente tantas probabilidades de revisitarem seus lares terrestres quanto o autodesterrado Wakefield.
Pudesse eu escrever um livro, em vez de um artigo de doze páginas! Seria possível então exemplificar como uma influência, que vai além do controle, coloca a sua mão forte em cada ação que cometemos, e tece as suas consequências em férreo tecido de necessidade. Wakefield está enfeitiçado. Devemos deixá-lo, por dez anos ou mais, vaguear em torno de sua casa, sem uma vez sequer traspor o limiar, e ser fiel à sua esposa com todo o afeto de que é capaz seu coração, enquanto vagarosamente vai desvanecendo o dela.
Há muito tempo, deve acentuar-se, que ele perdeu a percepção da singularidade de sua conduta.
Agora, uma cena! Em meio à multidão de uma rua de Londres podemos distinguir um homem, já idoso, com poucas características que possam atrair observadores desatentos, entretanto mostrando em todo seu aspecto, aos que tiverem a habilidade para tal leitura, a caligrafia de um destino incomum. É magro; sua testa estreita e baixa tem vincos profundos; seus olhos, pequenos e sem brilho, às vezes passeiam apreensivos ao redor, mas, na maioria das vezes, parecem olhar para dentro. Abaixa a cabeça, mas se movimenta com uma obliquidade indescritível no jeito de andar, como se não quisesse mostrar-se de frente para o mundo. Observe-o, o tempo suficiente para ver o que descrevi, e irá concordar que as circunstâncias – que muitas vezes produzem homens notáveis a partir de matéria comum da natureza - aqui produziram um deles. Depois disso, deixando-o a andar obliquamente pelas calçadas, lance o olhar na direção oposta, onde uma mulher corpulenta, visivelmente no declínio da vida, dirige-se a uma igreja que fica lá adiante, levando na mão um livro de orações. Tem a plácida aparência da viuvez assumida. Suas tristezas, ou foram embora, ou se fizeram tão essenciais ao seu coração, que dificilmente seriam trocadas por alegrias. No exato instante em que o homem magro e a mulher robusta estão passando um pelo outro, ocorre um rápido incidente, que põe as duas figuras diretamente em contato. Suas mãos se tocam; a pressão da multidão faz roçar o peito dela sobre o ombro dele; estão de pé, cara a cara, olhando cada um nos olhos do outro. Depois de dez anos de separação, é assim que Wakefield encontra-se com sua esposa!
O torvelinho da multidão não deixa de fluir, arrastando-os, separados, em seu curso. A circunspecta viúva retoma o passo anterior e prossegue na direção da igreja, mas se detém no portal, e lança um olhar rápido e perplexo ao longo da rua. Segue adiante, contudo, abrindo o livro de orações. E o homem? Com um rosto tão exaltado que a atarefada e egoísta Londres permite-se parar e olhar para ele, corre para o seu alojamento, aferrolha a porta e joga-se sobre a cama. Os sentimentos latentes de anos irrompem de súbito; sua mente febril imprime um efêmero vigor em suas forças; toda a infeliz esquisitice de sua vida lhe é revelada num relance; e ele grita desesperadamente: “Wakefield! Wakefield! Estás louco?”
Talvez o estivesse. A singularidade de sua conduta modelou-o de tal forma a si mesma, que, examinando-o em relação a seus companheiros e aos afazeres da vida, não se podia dizer que tivesse o juízo perfeito. Ele havia imaginado (ou antes, as coisas haviam acontecido), separar-se do mundo, sumir, abandonar a sua posição e privilégios entre os vivos, sem que fosse admitido entre os mortos. De nenhum modo a vida de um eremita pode ser posta em paralelo com a sua. Ele estava, como outrora, em plena agitação da cidade; mas a multidão movia-se impetuosa e indiferente, ignorando-o. Estava, podemos dizer figuradamente, sempre ao lado da esposa, e junto da lareira, entretanto sem nunca sentir o calor desta, nem a afeição daquela. O destino sem precedentes de Wakefield foi o de conservar a sua parte original de simpatia humana, e estar ainda envolvido nos interesses dos homens, enquanto havia perdido a recíproca influência sobre eles. Seria uma especulação bastante curiosa traçar o efeito de tais circunstâncias em seu coração e intelecto, separadamente, ou em conjunto. Todavia, transformado como estava, raras vezes se dava conta disso, julgando-se o mesmo homem de sempre. Lampejos da verdade, de fato, surgiam, mas só por alguns instantes; e ainda assim teimava em dizer: “Logo estarei de volta”, sem refletir que vinha dizendo isso há vinte anos.
Penso também que, em retrospecto, esses vinte anos deviam parecer a Wakefield um tempo pouca coisa maior que a semana que ele havia definido para sua ausência. Devia olhar a aventura como não mais que um interlúdio no tema principal de sua vida. Quando, após um outro curto espaço de tempo, ele achasse que era o momento de reentrar no salão, sua esposa bateria palmas de alegria, ao rever o homem de meia-idade, Senhor Wakefield. Que infeliz ilusão! Pudesse o Tempo esperar até o final de nossas loucuras preferidas, então seríamos jovens até o Dia do Juízo.
Uma noite, transcorridos os vinte anos de seu desaparecimento, Wakefield faz a caminhada costumeira na direção da residência que ainda diz ser dele. É uma noite de outono, de forte vento. Frequentes pancadas d’água caem, tamborilando sobre as calçadas, e cessam repentinas, antes que alguém possa abrir seu guarda-chuva. Detendo-se próximo da casa, Wakefield vislumbra, através das janelas da sala do segundo andar, o brilho rubro, o tremeluzir, os inquietos lampejos de um fogo confortável. Sobre o teto, aparece a sombra grotesca da boa senhora Wakefield. O barrete, o nariz e o queixo, e a larga cintura, desenham uma admirável caricatura, que dança, além disso, em movimentos variados, de acordo com as oscilações das labaredas, numa jovialidade quase excessiva para a sombra de uma idosa viúva.
Nesse momento, cai uma pancada de chuva que, dirigida sem piedade pelo vento, atinge em cheio o rosto e o peito de Wakefield. O frio outonal penetra-o por todo o corpo. Deverá ficar parado naquele lugar, encharcado e tiritando, quando sua própria lareira tem um bom fogo para aquecê-lo, e sua própria esposa correrá para ir buscar o casaco cinza e as roupas de baixo que, sem dúvida, guardou cuidadosamente no armário de seu quarto? Não! Wakefield não chega a ser tão tolo! Ele sobe os degraus – com grande esforço! – pois vinte anos haviam-lhe enrijecido as pernas, desde que descera por ali da última vez –, mas não se dá conta disso. Espera, Wakefield! Estás indo para o único lugar que te resta? Então, podes subir para a tua sepultura! A porta abre. Enquanto ele a transpõe, temos uma rápida visão de despedida de seu rosto, e reconhecemos o sorriso astucioso, precursor do pequeno gracejo que desde aí vem representando à custa de sua esposa. Como zombou desumanamente da pobre mulher! Bem, que ele tenha uma boa noite!
Esse feliz evento – supondo-o assim – só podia ter ocorrido num momento não premeditado. Não seguiremos o nosso amigo além do umbral. Ele nos deixou alimento suficiente para reflexão, parte da qual emprestará sua sabedoria para uma moral, que pode ser modelada numa imagem. Em meio à aparente confusão de nosso mundo misterioso, as pessoas estão ajustadas a um sistema de modo tão preciso, e os sistemas ajustados uns aos outros, e a um todo, que, ao afastar-se disso por um momento, um homem expõe-se ao risco terrível de perder o seu lugar para sempre. Tal como Wakefield, pode tornar-se, por assim dizer, o Pária do Universo.
(Contos contados duas vezes; tradução de Vinícius Santos Loureiro)
(Ilustração: Robyn Burgess - o homem solitário)
Marcadores:
Nathaniel Hawthorne - Wakefield
terça-feira, 4 de agosto de 2026
O TEU DEMÔNIO, de Iracema Macedo
O teu demônio me segue
anos a fio
ele tece flores para mim
divide meu corpo em partes
Ele me culpa
acena feliz por trás das labaredas
dança ao meu redor
cresce como uma planta
eu aparo suas bordas seu rabo seus chifres
O teu demônio me encanta
como um retrato antigo amarelado
uma xícara de louça no mercado
O teu demônio me espanta
canta para mim todas as noites
me arde me explora me atormenta
O hálito quente sobre a minha boca
a febre sempre
O teu demônio vai embora hoje
eu fujo dentro dele a galope
eu vivo dentro dele feito um passarinho
feito uma coisa miúda enorme pobre
dilatada como um crucifixo
dura como uma esmeralda
Me esmero e espero
um dia me chamo Laura
tu me abocanhas os peitos
eu te abocanho a alma
(Lance de Dardos)
(Ilustração : Henri de Toulouse-Lautrec, O Beijo, 1892)
Marcadores:
Iracema Macedo - O teu demônio
sexta-feira, 31 de julho de 2026
CARTA A ROBERT LOWELL, de Elizabeth Bishop
28 de julho de 1953
Caríssimo Cal, [1]
Vou ter alguns poemas em inglês e português publicados num suplemento literário daqui – não existem revistas, assim os jornais cobrem a literatura com graus variados de seriedade. O poeta brasileiro Manuel Bandeira, um homem de uns 65 anos, está traduzindo os poemas, e traduzindo extremamente bem, eu acho. Tenho tentado retribuir a gentileza: tenho lido um bocado de poesia brasileira de lá para cá e é tudo gracioso, delicado, eu acho, se bem que Bandeira às vezes é extremamente mordaz, como um Cummings mais amável. Mas não há meios de escrever em português. No entanto, agora consigo ler Camões etc. muito bem; ele e seus sonetos são soberbos, tão bons quanto qualquer soneto em inglês, sem dúvida.
Porém o Brasil é mesmo um horror; mas um dia vou lhe contar mais. Você ficaria de fato fascinado pelas histórias de família. A sociedade do Rio é inacreditável. Proust nos trópicos com samba em vez da pequena melodia de Vinteuil – não, isso é banal. Mas é algo assim.
Aqui eu sou “dona Elizabétchi” – sempre os prenomes. Você seria “seu Roberto”. Não, acho que como tem um diploma seria o “doutor Roberto”.
“Calígula” não surpreenderia ninguém – conheço um Tácito, um Aristides, um Teófilo, um Praxíteles – & os apelidos são maravilhosos. Magu é o mais encantador – uma amiga chamada Maria Augusta. Lota [2] na verdade se chama Maria Carlota + 3 nomes.
E qual é o seu endereço: Burlington St. ou Summit Street?
O meu é: rua Antonio Vieira 5, Leme, Rio de Janeiro. É o apartamento de Lota no Rio.
Antonio Vieira foi um excelente escritor e também um santo incomum…
Com amor,
Elizabeth
NOTAS:
[1] Cal, de Calígula, era o apelido que Robert Lowell tinha desde a infância devido ao seu temperamento difícil.
[2] Maria Carlota Costallat de Macedo Soares, arquiteta autodidata, paisagista emérita, amante de Elizabeth Bishop
(Uma arte: as cartas de Elizabeth Bishop; tradução de Paulo Henriques Britto)
(Ilustração: Columbano Bordalo Pinheiro - Febo Moniz, Padre António Vieira, D. Luís de Meneses(Conde da Ericeira), e João Pinto Ribeiro)
Marcadores:
Elizabeth Bishop - Carta a Robert Lowell
terça-feira, 28 de julho de 2026
UMA POÉTICA, de Ana Costa dos Santos
A vida dos lepidópteros,
a solidão dos astronautas,
os guarda-chuvas quebrados depois da tempestade,
um sem-teto estendendo roupas ao sol,
a hora do almoço dos operários,
os erros ortográficos nas cartas de amor,
as fotos dos desaparecidos,
os peixes sufocados.
As coisas perdidas ou deixadas a um canto,
o primeiro cão, a primeira morte,
as casinhas à beira da estrada
e quem dorme dentro delas,
as abóboras que não viraram carruagens douradas,
as últimas palavras de pessoas comuns,
a última dança de Kazuo Ohno,
a canção mais triste de Sérgio Sampaio.
A paz dos amnésicos e dos recém-nascidos,
meu destino nas cartas de tarô,
cada sístole e diástole,
o fato de dizermos sempre “até amanhã”
ou “parece que foi ontem”,
o susto dos telefones tocando fora de hora,
o milagre de chegarmos quase intactos à noite,
as aves-do-paraíso apaixonadas,
tudo o que escrevo quando tentava escrever outra coisa
e tudo o que jamais caberá neste poema.
(Voo Breve sob o Sol; 2025)
(Ilustração: Marc Chagall - Liebende mit Vogel)
Marcadores:
Ana Costa dos Santos - Uma poética
sábado, 25 de julho de 2026
ESPELHO DA EXISTÊNCIA, de Raul Tartarotti
O ser humano é a única criatura que goza do privilégio de poder tirar novos e sutis prazeres da dor, da catástrofe e da fatalidade. Mesmo sendo um caminhante sombrio e solitário, imerso na corrente das multidões, os seres humanos, são eles próprios, seus grandes inimigos, por serem naturalmente violentos, escreveu o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588 – 1679).
Os que sabem, observam-se a si mesmos e guardam as lembranças de suas impressões; dessa forma souberam construir seu barômetro espiritual no observatório de seu pensamento, por isso, permitem surgir belas estações, dias felizes e minutos deliciosos em sua existência.
No “Espelho da Existência”, me lembro do dia em que descobri meu reflexo em um deles, e não apenas minha imagem, mas também minha alma.
Meu rosto refletido não era o mesmo que eu via todos os dias. Era um rosto cansado, marcado pelas linhas do tempo e da experiência. Mas havia algo mais, algo que não conseguia definir. Era como se o espelho estivesse me mostrando a essência do meu ser.
Perguntei ao espelho: ”Qual é o sentido da existência?”
O espelho começou a se turvar, como se a névoa da ignorância estivesse se dissipando. E então, vi que a existência não tem sentido, mas é o sentido que damos a ela que a torna significativa.
Vi que a vida é um mistério, mas é o nosso olhar que o torna claro.
O espelho me mostrou que a verdade não está fora, mas dentro de nós. Que a busca pelo conhecimento é uma jornada interior. Que a existência é um espelho que reflete nossa própria essência.
Entendi que a verdadeira reflexão é a que ocorre dentro de mim. E que o sentido da existência está em cada momento, em cada escolha, em cada respiração.
O espelho da existência me ensinou que a sabedoria não está na resposta, mas na pergunta. E que a vida é um enigma que só podemos resolver olhando para dentro.
Não devemos criar Paraísos Artificiais para contentar algumas horas de nosso desejo. Basta observar como o frio aumenta e toma nossas ideias quando mentimos para nós mesmos a tal ponto que nossa busca se torne vazia e pequena, ao aceitar que “o resto seja o resultado que nos resta”.
Ao final de todas as histórias, “O bom senso nos diz que as coisas da terra não existem inteiramente e que a verdadeira realidade só é encontrada nos sonhos”. (Charles Pierre Baudelaire).
(Ilustração: Caravaggio - Narciso; 1597–1599)
Marcadores:
Raul Tartarotti - Espelho da existência
quarta-feira, 22 de julho de 2026
LAVORARE STANCA / TRABALHAR CANSA, de Cesare Pavese
Traversare una strada per scappare di casa
Lo fa solo un ragazzo, ma quest'uomo che gira
Tutto il giorno le strade, non è più un ragazzo
E non scappa di casa.
Ci sono d'estate
Pomeriggi che fino le piazze son vuote, distese
Sotto il sole che sta per calare, e quest'uomo, che giunge
Per un viale d'inutili piante, si ferma.
Val la pena esser solo, per essere sempre più solo?
Solamente girarle, le piazze e le strade
Sono vuote. Bisogna fennare una donna
E parlarle e deciderla a vivere insieme.
Altrimenti, uno parla da solo. È per questo che a volte
C'è lo sbronzo notturno che attacca discorsi
E racconta i progetti di tutta la vita.
Non è certo attendendo nella piazza deserta
Che s'incontra qualcuno, ma chi gira le strad
Si sofferma ogni tanto. Se fossero in due,
Anche andando per strada, la casa sarebbe
Dove c'è quella donna e varrebbe la pena.
Nella notte la piazza ritorna deserta
E quest'uomo, che passa, non vede le case
Tra le inutili luci, non leva più gli occhi
Sente solo il selciato, che han fatto altri uomini
Dalle mani indurite, come sono le sue.
Non è giusto restare sulla piazza deserta,
Ci sarà certamente quella donna per strada
Che, pregata, vorrebbe dar mano alla casa.
Tradução de Rubens Ricupero:
Atravessar uma rua para fugir de casa
Só um menino faz isso, mas este homem que anda
O dia inteiro pelas ruas não é mais um menino
E não está fugindo de casa.
Há tardes no verão em que até as praças estão vazias, oferecidas
Ao sol que está se pondo, e este homem que avança
Por uma avenida de árvores inúteis, se detém.
Vale a pena estar só, para sempre ficar mais só?
Por mais que se ande de um lado para outro, as praças e as ruas
Estão vazias. É preciso parar uma mulher
E lhe falar e convencê-la a viver juntos.
De outra forma, a gente começa a falar sozinho.
É por isso que às vezes
Surge um bêbado noturno que te aborda com discursos
E te conta os projetos de uma vida inteira.
Não é certamente esperando na praça deserta
Que se encontra alguém, mas quem anda pelas ruas
Se detém de vez em quando. Se fossem dois,
Mesmo andando pelas ruas, o lar estaria
Onde estivesse aquela mulher e valeria a pena.
De noite a praça volta a ser deserta
E este homem que passa não vê as casas
Entre as luzes inúteis, já não levanta mais os olhos:
Ele sente apenas o pavimento que fizeram outros homens
Com mãos calejadas como as suas.
Não é justo ficar na praça deserta.
Haverá certamente aquela mulher na rua
Que, se lhe fosse pedido, gostaria de dar uma mão na casa.
(Ilustração : Camille Pissarro - Kensington gardens - London, 1890)
domingo, 19 de julho de 2026
PLANO COHEN: A FARSA DOS MILITARES QUE JUSTIFICOU A DITADURA DE VARGAS, de Estevam Silva
Há 88 anos, em 30 de setembro de 1937[*], o governo brasileiro anunciava publicamente a “descoberta” do Plano Cohen. Atribuído à Comintern, o documento detalhava um suposto plano dos comunistas para tomar o poder no Brasil, fazendo uso de assassinatos em massa, ataques com gás venenoso e outras atrocidades.
Era tudo mentira. O Plano Cohen foi forjado pelos próprios militares, em colaboração com líderes integralistas e membros da cúpula do governo. O objetivo era causar pavor na população e pressionar o Congresso a autorizar a decretação de estado de exceção.
O plano deu certo. O Congresso aprovou a decretação de estado de guerra e Vargas obteve apoio das Forças Armadas e da burguesia para fechar o regime. Quarenta dias depois, em 10 de novembro de 1937, Vargas dissolveu o Congresso, suspendeu as eleições e instaurou a ditadura do Estado Novo, permanecendo no poder por mais oito anos.
Alçado à chefia do poder executivo após a Revolução de 1930, Getúlio Vargas seria responsável por implementar uma série de medidas modernizantes e centralizadoras, deixando um legado ambivalente.
Vargas limitou o poder político das velhas oligarquias, implementou reformas trabalhistas e sociais, incentivou a industrialização e a diversificação da estrutura produtiva. Ao mesmo tempo, ele governou de forma autoritária, reprimindo severamente seus opositores, institucionalizando o controle sobre a imprensa e ampliando os instrumentos de repressão e vigilância.
O discurso anticomunista, em franca ascensão na década de 1930, serviria de lastro a várias medidas repressivas adotadas por Vargas. Alarmadas pela crescente organização da esquerda radical e do movimento operário, as elites passaram a financiar e promover a propaganda anticomunista e as organizações de extrema-direita, quase sempre vinculadas ao pensamento fascista.
É o caso, sobretudo, da Ação Integralista Brasileira (AIB), organização fundada por Plínio Salgado que se expandiu rapidamente no Brasil graças ao patrocínio de banqueiros e industriais. Os integralistas seguiam o modus operandi das grandes agremiações fascistas europeias, com a criação de milícias e a estratégia de infiltração nas organizações da sociedade civil.
O movimento integralista comandava uma grande estrutura editorial, publicando livros, revistas e jornais que serviam à difusão da propaganda anticomunista em larga escala. Frequentemente, essa propaganda buscava adaptar mitos conspiratórios ao contexto brasileiro.
Um dos mitos mais difundidos pelos integralistas afirmava que existia uma aliança judaico-comunista que pretendia dominar o Brasil e o resto do mundo — uma tese que unia a paranoia anticomunista às teorias da conspiração antissemitas, em especial aquelas impulsionadas por uma infame falsificação conhecida como “Os Protocolos dos Sábios de Sião”.
Vários integralistas e admiradores do regime fascista compunham a cúpula do governo Vargas e ajudaram a institucionalizar o anticomunismo. Em abril de 1935, sob o pretexto de combater a “ameaça comunista”, Vargas sancionou a Lei de Segurança Nacional (LSN), suprimindo as liberdades civis asseguradas pela Constituição de 1934, criminalizando a “incitação ao ódio entre as classes sociais” e as tentativas de “subversão da ordem política”.
A LSN possibilitou a Vargas o recrudescimento da ofensiva contra os dissidentes. Três meses após sua criação, a lei seria utilizada para banir a Aliança Nacional Libertadora (ANL), uma frente antifascista vinculada ao Partido Comunista do Brasil (antigo PCB), que fazia firme oposição aos integralistas e ao regime de Vargas.
Uma tentativa fracassada de insurreição organizada pela ANL em novembro de 1935 daria a Vargas o pretexto ideal para ampliar a repressão. Logo após o levante, Vargas decretou estado de sítio, ampliando os poderes do governo para restringir liberdades civis e intensificar a censura à imprensa.
Milhares de pessoas que criticavam o governo seriam presas e torturadas, mesmo sem possuir qualquer ligação com o levante. Muitos comunistas foram assassinados pela repressão levada a cabo por Filinto Müller, o chefe da polícia política.
A “ameaça comunista” seria instrumentalizada por Vargas mais uma vez em 1937, como um subterfúgio para estender o seu mandato. Vargas passou quatro anos no poder como presidente provisório e obteve um mandato adicional por eleição indireta do Congresso, após a promulgação da Constituição de 1934. Ele deveria, portanto, deixar o governo em 1938, quando seria realizada a 14ª eleição presidencial brasileira.
Três presidenciáveis já haviam apresentado suas candidaturas: Armando de Sales Oliveira (apoiado pela oposição liberal paulista), José Américo de Almeida (próximo de Vargas, mas de lealdade questionável) e Plínio Salgado (líder dos integralistas). Nenhuma das candidaturas agradava a Vargas e não havia a possibilidade legal de obter mais um mandato.
O presidente também se ressentia da crescente oposição que sofria no Congresso, principalmente após os parlamentares barrarem a prorrogação do estado de sítio decretado em 1936. Vargas passou a defender a ideia de que era necessário forçar uma mudança do regime político e reformar a Constituição. A solução, portanto, seria um golpe de Estado.
Vargas obteve prontamente o apoio das Forças Armadas ao seu plano golpista, cooptando-as com a promessa de mais recursos financeiros. Ele também conseguiu a adesão de Plínio Salgado, que recebeu a oferta de um ministério. Faltava, no entanto, um pretexto que justificasse o golpe.
Eurico Gaspar Dutra, o Ministro da Guerra de Vargas, foi incumbido de arrumar uma justificativa para a intervenção. A ideia era criar um fato novo, a ser apresentado como uma grave ameaça ao país, justificando a suspensão das eleições e das garantias constitucionais. Surgiu assim o “Plano Cohen”.
A criação do plano ficou a cargo de oficiais do Exército Brasileiro. O autor do texto foi o capitão Olímpio Mourão Filho, membro do serviço de inteligência do Exército e organizador das milícias integralistas. Mourão afirmou ter criado o documento como um exercício hipotético, uma simulação de revolução comunista para uso da AIB. Uma cópia desse documento foi remetida ao general Góis Monteiro, chefe do Estado-Maior do Exército, que a considerou como o subterfúgio ideal para justificar o golpe.
O “Plano Cohen” descrevia complô comunista para tomar o poder no Brasil. O texto foi falsamente atribuído à Internacional Comunista (Comintern) e descrevia uma série de ações violentas: assassinato de líderes políticos e militares, incêndio de prédios públicos, sabotagem de infraestrutura, sequestros de autoridades, uso de gás venenoso, execuções sumárias, libertação dos presos, saques e depredações.
O nome “Cohen”, de origem judaica, foi escolhido para evocar a tese da conspiração judaico-comunista, tão propalada pelos integralistas. O documento tinha diversas semelhanças com os “Protocolos dos Sábios de Sião”. “Cohen” também era uma referência a Béla Kun, líder de uma efêmera revolução comunista na Hungria, que os integralistas costumavam chamar de “Béla Cohen”.
Em posse do documento, Dutra convocou uma reunião de emergência com os altos oficiais das Forças Armadas, a fim de convencê-los sobre a necessidade de tomar medidas urgentes para garantir “a salvação da Pátria”. Góis Monteiro participou da reunião e concordou que havia a necessidade de um golpe de Estado para “preservar as instituições nacionais”.
No dia 30 de setembro de 1937, o governo Vargas anunciou publicamente a “descoberta” do Plano Cohen. Durante um pronunciamento radiofônico no programa “Hora do Brasil”, Góis Monteiro revelou o conteúdo do documento, anunciando as “terríveis barbaridades” que os comunistas pretendiam cometer no Brasil.
A notícia caiu como uma bomba, causando espanto e terror na população. O plano dominou o noticiário pelas semanas seguintes, sendo amplamente difundido pelas rádios e jornais oficiais do governo. Intelectuais, líderes conservadores e religiosos cobravam providências imediatas.
A grande imprensa não cogitou questionar a autenticidade do documento, preferindo endossar integralmente o relato governamental através de matérias sensacionalistas, ajudando a espalhar o pânico moral.
Um dia após a divulgação do Plano Cohen, em 1º de outubro de 1937, o Ministro da Justiça, Macedo Soares, submeteu ao Congresso um pedido de decretação de estado de guerra.
A requisição foi aprovada por ampla maioria — 138 votos favoráveis e 52 contrários na Câmara dos Deputados, 23 votos a favor e 5 contra no Senado. Os poucos parlamentares que exigiram averiguar o documento foram acusados de “antipatriotas” e recriminados por questionarem a “honestidade dos militares”.
Respaldado pelo decreto, Vargas suspendeu as liberdades civis, intensificou a censura e a repressão. Em 6 de outubro, o presidente instalou uma comissão para supervisionar o cumprimento do estado de guerra e das determinações governamentais.
Vargas ordenou a prisão de “todos os praticantes e simpatizantes de doutrinas comunistas” e mandou criar campos de concentração “destinados a receber jovens que tenham transviado de seus deveres cívicos”. Também orientou a criação de espaços para a “reeducação de filhos de comunistas presos”.
Diversas lideranças políticas da oposição foram perseguidas e os parlamentares não alinhados foram presos. O governador gaúcho José Antônio Flores da Cunha foi forçado a renunciar e a partir para o exílio no Uruguai.
No dia 1º de novembro de 1937, uma enorme marcha com mais de 50.000 integralistas saiu às ruas do Rio de Janeiro para demonstrar apoio a Vargas. O presidente assistiu ao desfile de uma sacada do Palácio do Catete e foi reverenciado com a saudação integralista de “Anauê!”.
O Plano Cohen pavimentou o caminho para o golpe de 10 de novembro de 1937, quando Vargas ordenou a dissolução do Congresso, cancelou as eleições presidenciais e outorgou uma nova Constituição, conhecida como “Polaca”, inspirada na carta magna autoritária da Polônia.
Nascia assim o Estado Novo, uma ditadura que aboliu os partidos políticos, baniu os movimentos sociais e sindicatos independentes, proibiu greves e extinguiu a autonomia dos estados. O regime ditatorial se estenderia por oito anos, até a redemocratização em 1945.
Milhares de opositores, sobretudo de esquerda, seriam presos, torturados ou exilados. Lideranças liberais e jornalistas também foram perseguidos. Até mesmo os integralistas se tornaram, posteriormente, alvos do regime, após uma tentativa fracassada de levante. O anticomunismo se consolidou como uma doutrina oficial de Estado, passando a ter enorme influência sobre a formação das Forças Armadas e os princípios basilares da política externa.
A farsa do Plano Cohen só foi admitida publicamente anos depois, em meio à crise do Estado Novo. Em 1945, o general Góis Monteiro, agora convertido em adversário de Vargas, admitiu que o documento fora forjado. Olímpio Mourão Filho confessou ser o autor do plano. Anos mais tarde, Olímpio seria um dos principais líderes do golpe de 1964, que derrubou João Goulart e instaurou uma nova ditadura.
Nota do blog:
[*] O texto é de 2025.
(Operamundi)
(Ilustração: Getúlio Vargas com oficiais militares em 1936 na inaguração do aeroporto Santos Dumont)
quinta-feira, 16 de julho de 2026
AUTORRETRATO, de Antonio Carlos Secchin
A Flávia Ampan
Um poeta nunca sabe
onde sua voz termina,
se é dele de fato a voz
que no seu nome se assina.
Nem sabe se a vida alheia
é seu pasto de rapina,
ou se o outro é que lhe invade,
numa voragem assassina.
Nenhum poeta conhece
esse motor que maquina
a explosão da coisa escrita
contra a crosta da rotina.
Entender inteiro o poeta
é bem malsinada sina:
quando o supomos em cena,
já vai sumindo na esquina,
entrando na contramão
do que o bom senso lhe ensina.
Por sob a zona da sombra,
navega em meio à neblina.
Sabe que nasce do escuro
a poesia que o ilumina.
(Ilustração: Joseph Severn
- John Keats:1795-1821)
Marcadores:
Antonio Carlos Secchin - Autorretrato
segunda-feira, 13 de julho de 2026
COMO O ESTADO NOVO USAVA OBRAS DIDÁTICAS PARA INCUTIR NAS CRIANÇAS O ANTICOMUNISMO, de Felipe Menezes Pinto
Em busca da urdidura de um sentimento de nação, de uma identidade nacional, elegendo suas matrizes constituintes bem como indicando o não-nacional, o regime instituído por Vargas ao final de 1937 investiu com grande afinco em diversos setores, notadamente na educação. Materiais didáticos, palestras educacionais, festividades cívicas e todo um amplo repertório foi mobilizado pelo Estado Novo no afã de conquistar as mentes, estimulando o sentimento nacional e tentando promover a homogeneização da identidade nacional. Nesse processo, não se hesitou em manipular símbolos, amplamente difundidos e cultuados, criar leis e investir em programas de educação em nível nacional. Estava em jogo a construção do projeto cívico do Estado Novo para o Brasil. Projeto que revelou, por um lado, as noções simpáticas ao governo Vargas, como a instituição da família, a religião e o trabalho, mas que, por outro lado, mostrou-se intolerante a determinados grupos e ideias. Os materiais didáticos, instrumentos ativos nessa empreitada da educação durante o Estado Novo, podem ser tomados como testemunhos deste processo.
Em algumas destas obras didáticas destinadas às crianças é possível identificar a questão dos comunistas sendo trabalhada de forma direta, ou seja, citando a palavra “comunista”, sem metáforas ou utilização de termos emprestados dos anticomunistas.
Na História de um menino de São Borja[1], através de uma narrativa bem simples e com linguagem adequada ao público infantil, uma suposta tia Olga conta aos seus sobrinhos a vida do presidente Getúlio Vargas, desde os tempos de São Borja até o advento do Estado Novo. Em uma dessas passagens, a narradora da história debruça-se sobre os primórdios da república no Brasil, caracterizando esse período como a época da “Senhora Política”, ou seja, a personificação da primeira república como uma senhora gananciosa, ambiciosa, senhora das intrigas e da politicagem vil, pouco preocupada com o rumo do Brasil. Após essa desqualificação do período anterior à Revolução de 1930, assim continua a narrativa:
[...] O menino de São Borja, desde os tempos da infância, começou a estudar de longe essa Senhora Dona emproada e todo-poderosa. [...] Presidente do Rio Grande do Sul, ele botou de lado tal:-Tem paciência, Fulustrequíssima, você aqui não me põe as mãos. E a Fulustréca não pôs as mãos, mas ficou louca da vida com a ousadia do Presidente.E o Presidente do Rio Grande do Sul passou a ser Presidente da República: e a Fulustréca, louquinha da vida, começou a armar novos planos para se vingar do atrevido.“Você me paga!”
E foi assim que, por diversas vezes, a Senhora Dona Política tentou passar rasteiras no Presidente, sem resultado.Deu ela o braço até a amigos perigosos como o Comunismo – mas o Presidente aparou o golpe e jogou os dois por terra.Que tombo monumental!Os vermelhinhos foram obrigados a entregar os pontos e a deixar o campo livre.[2]
Em seguida, após discorrer sobre as manobras em torno da eleição que se aproximava, em 1937 a “Senhora Política” agiu de novo e, segundo a narrativa,
[...] os vermelhinhos aproveitaram-se da confusão e começaram de novo a se manifestar. Esses zumbidos chegaram aos ouvidos do Presidente. [...]A 10 de Novembro de 1937, os deputados que chegaram à Câmara encontraram a casa de portas fechadas; ali não se ouviriam mais bobagens e bate-papos inúteis a 200 mil réis diários por cabeça.O povo saiu em festa para as ruas.O céo se encheu de estrelas.E, nessa noite, noite de luz e de contentamento, o Presidente chegou ao microfone do rádio e anunciou o nascimento do Estado Novo e a morte da Excelentíssima e Fulustrequíssima Senhora Dona Polítca.[3]
É possível depreender das passagens acima que a narrativa em torno da vida e das ações de Getúlio Vargas tinha o claro objetivo de alçar o presidente como o grande estadista, o salvador da nação, aquele que teve coragem de acabar com os desmandos, a corrupção e as politicagens que caracterizam a Primeira República, inaugurando uma nova fase no cenário político brasileiro, bem como aquele que conseguiu barrar as tentativas de avanço comunista no Brasil. Utiliza-se a palavra “tentativa” no plural à medida que, pela disposição do texto e pela sequência narrada, possivelmente trata-se de uma alusão aos movimentos comunistas de 1935, a chamada “Intentona Comunista”, e também os movimentos políticos que possibilitaram a implantação do Estado Novo, motivado por um suposto plano comunista de tomada do poder, o chamado “Plano Cohen”.
Ao que parece, a escolha desses dois momentos de efervescência política não se deu por acaso. Com relação à primeira tentativa, sendo possível considerá-la como os acontecimentos de 1935, a referência na narrativa aos comunistas é explícita. Ainda, é relevante observar a construção da narrativa em torno da aproximação da “Senhora Política” com os comunistas (...Deu ela o braço até a amigos perigosos como o Comunismo...), possivelmente uma tentativa de relacionar os desmandos, os contratempos e a corrupção que imperavam na Primeira República, aos olhos do Estado Novo, como elementos que possibilitaram o crescimento do movimento comunista no Brasil e que culminaram no levante de 1935. Não por acaso, como atesta MOTTA
Os acontecimentos de novembro de 1935 têm uma importância marcante na história do imaginário anticomunista brasileiro, na medida em que forneceram argumentos para solidificar as representações do comunismo como fenômeno essencialmente negativo. [..]Intentona significa intento louco, motim insensato e é exatamente esta a ideia que se pretende associar ao evento, representado desde então como um “capítulo negro” da história brasileira (MOTTA 2002, 76).
Partindo da possibilidade de se considerar essa primeira tentativa como uma referência ao levante de 1935, a segunda tende a ser, necessariamente, o suposto plano comunista de tomada do poder apresentado ao final de 1937 e que justificaria a criação do Estado Novo. Os “zumbidos” da movimentação comunista que chegaram “aos ouvidos do Presidente” ganharam materialidade através deste plano e justificariam a suspensão da ordem vigente em prol, paradoxalmente, desta mesma ordem. Ainda segunda a narrativa, somente com o nascimento do Estado Novo, o perigo comunista estava minado e a “Senhora Dona Política” estava morta. Agindo dessa maneira, tentava passar às crianças que o advento do Estado Novo representava a conclusão da obra de expurgo da má política, obra iniciada desde a Revolução de 1930, mas que encontra em 1937 o seu epílogo.
Notas:
[1] OLGA. História de um menino de São Borja: a vida do presidente Getulio Vargas contada por tia Olga aos seus sobrinhos Rosa Maria e Chico-Chicote. [S.l.]: D.N.P., 1939. (Acervo Memória Infantil da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa). Não foi possível identificar a autoria da obra. Optou-se, assim, em utilizar a classificação criada pela Biblioteca Estadual Luiz de Bessa, setor de Memória Infantil, local onde a obra foi encontrada.
[2] Idem. p. 69 e 70.
[3] Idem. p. 70 e 71.
(Excerto da tese : O VERMELHO E O NEGRO: Intolerância, Construção da Identidade Nacional e Práticas Educativas durante o Estado Novo, 1937 – 1945)
Ilustração: Getúlio Vargas - cartaz de propaganda getulista)
Assinar:
Postagens (Atom)



,%20e%20Jo%C3%A3o%20Pinto%20Ribeiro.png)

.jpg)


.jpg)
