quarta-feira, 29 de abril de 2026
TROVA DO VENTO QUE PASSA, de Manuel Alegre
Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.
Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.
Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.
Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.
Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio — é tudo o que tem
quem vive na servidão.
Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.
E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.
Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.
Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).
Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.
E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.
Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.
E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.
Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.
Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
(Praça da Canção, 1965).
(Ilustração: David Lopes - sinais do tempo - os vultos da história)
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Manuel Alegre - Trova do vento que passa
domingo, 26 de abril de 2026
O JABUTI E O LEOPARDO, de Ernesto Rodríguez Abad
O jabuti, distraído como sempre, estava voltando apressado para casa. A noite começava a cobrir a floresta com seu manto escuro e o melhor era apertar o passo.
De repente… caiu numa armadilha!
Um buraco profundo coberto por folhas de palmeiras que havia sido cavado na trilha, no meio da floresta, pelos caçadores da aldeia para aprisionar os animais.
O jabuti, graças a seu grosso casco, não se machucou na queda, mas … como escapulir dali? Tinha que encontrar uma solução antes do amanhecer se não quisesse virar sopa para os aldeões …
Estava ainda perdido em seus pensamentos quando um leopardo caiu também na mesma armadilha!!! O jabuti deu um pulo, fingindo ter sido incomodado em seu refúgio, e berrou para o leopardo:
“- Que é isto? O que está fazendo aqui? Isto são modos de entrar em minha casa? Não sabe pedir licença?!”
E quanto mais gritava. E continuou…
“- Não vê por onde anda? Não sabe que não gosto de receber visitas a estas horas da noite? Saia já daqui! Seu pintado mal-educado!!!”
O leopardo bufando de raiva com tal atrevimento, agarrou o jabuti… e com toda a força jogou-o para fora do buraco!
O jabuti, feliz da vida, foi andando para sua casa tranquilamente!
Ah! Espantado ficou o leopardo…”
(Contos africanos; tradução de Raquel Parrine)
(Ilustração: Daniel Bueno)
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Ernesto Rodríguez Abad - O jabuti e o leopardo
quinta-feira, 23 de abril de 2026
SUNDAY MORNING / MANHÃ DE DOMINGO, de Wallace Stevens
I
Complacencies of the peignoir, and late
Coffee and oranges in a sunny chair,
And the green freedom of a cockatoo
Upon a rug mingle to dissipate
The holy hush of ancient sacrifice.
She dreams a little, and she feels the dark
Encroachment of that old catastrophe,
As a calm darkens among water-lights.
The pungent oranges and bright, green wings
Seem things in some procession of the dead,
Winding across wide water, without sound.
The day is like wide water, without sound,
Stilled for the passing of her dreaming feet
Over the seas, to silent Palestine,
Dominion of the blood and sepulchre.
II
Why should she give her bounty to the dead?
What is divinity if it can come
Only in silent shadows and in dreams?
Shall she not find in comforts of the sun,
In pungent fruit and bright, green wings, or else
In any balm or beauty of the earth,
Things to be cherished like the thought of heaven?
Divinity must live within herself:
Passions of rain, or moods in falling snow;
Grievings in loneliness, or unsubdued
Elations when the forest blooms; gusty
Emotions on wet roads on autumn nights;
All pleasures and all pains, remembering
The bough of summer and the winter branch.
These are the measures destined for her soul.
III
Jove in the clouds had his inhuman birth.
No mother suckled him, no sweet land gave
Large-mannered motions to his mythy mind.
He moved among us, as a muttering king,
Magnificent, would move among his hinds,
Until our blood, commingling, virginal,
With heaven, brought such requital to desire
The very hinds discerned it, in a star.
Shall our blood fail? Or shall it come to be
The blood of paradise? And shall the earth
Seem all of paradise that we shall know?
The sky will be much friendlier then than now,
A part of labor and a part of pain,
And next in glory to enduring love,
Not this dividing and indifferent blue.
IV
She says, “I am content when wakened birds,
Before they fly, test the reality
Of misty fields, by their sweet questionings;
But when the birds are gone, and their warm fields
Return no more, where, then, is paradise?”
There is not any haunt of prophesy,
Nor any old chimera of the grave,
Neither the golden underground, nor isle
Melodious, where spirits gat them home,
Nor visionary south, nor cloudy palm
Remote on heaven’s hill, that has endured
As April’s green endures; or will endure
Like her remembrance of awakened birds,
Or her desire for June and evening, tipped
By the consummation of the swallow’s wings.
V
She says, “But in contentment I still feel
The need of some imperishable bliss.”
Death is the mother of beauty; hence from her,
Alone, shall come fulfilment to our dreams
And our desires. Although she strews the leaves
Of sure obliteration on our paths,
The path sick sorrow took, the many paths
Where triumph rang its brassy phrase, or love
Whispered a little out of tenderness,
She makes the willow shiver in the sun
For maidens who were wont to sit and gaze
Upon the grass, relinquished to their feet.
She causes boys to pile new plums and pears
On disregarded plate. The maidens taste
And stray impassioned in the littering leaves.
VI
Is there no change of death in paradise?
Does ripe fruit never fall? Or do the boughs
Hang always heavy in that perfect sky,
Unchanging, yet so like our perishing earth,
With rivers like our own that seek for seas
They never find, the same receding shores
That never touch with inarticulate pang?
Why set the pear upon those river banks
Or spice the shores with odors of the plum?
Alas, that they should wear our colors there,
The silken weavings of our afternoons,
And pick the strings of our insipid lutes!
Death is the mother of beauty, mystical,
Within whose burning bosom we devise
Our earthly mothers waiting, sleeplessly.
VII
Supple and turbulent, a ring of men
Shall chant in orgy on a summer morn
Their boisterous devotion to the sun,
Not as a god, but as a god might be,
Naked among them, like a savage source.
Their chant shall be a chant of paradise,
Out of their blood, returning to the sky;
And in their chant shall enter, voice by voice,
The windy lake wherein their lord delights,
The trees, like serafin, and echoing hills,
That choir among themselves long afterward.
They shall know well the heavenly fellowship
Of men that perish and of summer morn.
And whence they came and whither they shall go
The dew upon their feet shall manifest.
VIII
She hears, upon that water without sound,
A voice that cries, “The tomb in Palestine
Is not the porch of spirits lingering.
It is the grave of Jesus, where he lay.”
We live in an old chaos of the sun,
Or old dependency of day and night,
Or island solitude, unsponsored, free,
Of that wide water, inescapable.
Deer walk upon our mountains, and the quail
Whistle about us their spontaneous cries;
Sweet berries ripen in the wilderness;
And, in the isolation of the sky,
At evening, casual flocks of pigeons make
Ambiguous undulations as they sink,
Downward to darkness, on extended wings.
Tradução de Paulo Henriques Britto:
1.
Complacência de penhoar, café
E laranjas ao sol das onze horas,
Verde indolência de uma cacatua
No tapete – isso ajuda a dissipar
O santo silêncio do sacrifício.
Mas ela sonha, e sente aproximar-se,
Escura e lenta, a catástrofe antiga,
Como o descer da noite sobre as águas.
O odor das frutas, o brilho de asas verdes
Virão talvez da procissão dos mortos,
Que atravessa as águas, silenciosa.
Aquietou-se para dar passagem
A seus pés sonhadores sobre os mares
A Terra Santa de sangue e sepulcro.
2.
Por que legar aos mortos o que é seu?
O que é o divino, se se manifesta
Somente em sonhos, sombras silenciosas?
Por que não encontrar prazer no sol,
No odor das frutas, brilho de asas verdes,
Em qualquer outro bálsamo terreno,
Tão caro quanto o próprio paraíso?
É nela que o divino há de viver:
Paixões chuvosas, cismas de nevascas,
Negras solidões, gozos incontidos
Quando a floresta se abre em flor; lufadas
De emoção em noites frescas de outono;
Toda dor e delícia; gordos ramos
De verão, galhos desnudos de inverno.
Estes, os ritmos próprios de sua alma.
3.
Nas nuvens nasceu Jove, o não-humano,
Que mãe não aleitou, e em relva fresca
Com passos divinais jamais pisou.
Caminhou entre nós, um rei absorto,
Magnífico, portento entre os humildes,
Até que sangue humano e virginal
Mesclou-se ao céu, anseio tão intenso
Que o viram os mais humildes, numa estrela.
Quem sabe nosso sangue ainda virá
A ser do paraíso? Será a terra
O único paraíso possível?
O céu ainda será nosso aliado,
Na dor e no cansaço, quase igual
Em glória ao próprio amor imorredouro,
Não mais um muro indiferente e azul.
4.
Diz ela: “Quando os pássaros questionam
Com cantos matinais a realidade
Dos campos enevoados, sou feliz;
Mas quando vão-se embora, e vai-se junto
Toda a paisagem, onde o paraíso?”.
Não há nenhuma negra profecia,
Não há quimera sepulcral tampouco,
Nem ilha melodiosa, habitada
Por espíritos, nem doce eldorado
No sul, nem palmeira em longínqua névoa
De outeiro no céu, que perdure mais
Do que o verdor da primavera, mais
Que a lembrança de uma manhã com pássaros,
Ou um desejo de tarde de verão
Consumada em asas de andorinhas.
5.
Diz ela: “Ainda assim, sei que preciso
De alguma alegria imperecível”.
A morte é a mãe do belo, e só a morte
Satisfaz nossos sonhos e desejos.
Ainda que ela espalhe as folhas secas
Do aniquilamento a nossa frente
Pelo caminho da dor, pelos muitos
Caminhos onde exultou a vitória,
Ou onde o amor sussurrou sua ternura,
Faz o salgueiro estremecer ao sol,
Para moças que antes sonhavam na relva
E agora se levantam. Faz rapazes
Juntarem maçãs e ameixas novas
Num prato esquecido. As moças provam,
E apaixonadas andam sobre folhas.
6.
Não haverá morte no paraíso?
Não cairá a fruta madura? Os galhos
Hão de ficar para sempre carregados
Naquele céu perfeito e imutável,
E ao mesmo tempo semelhante ao mundo
Mortal, com rios que buscam sempre mares
Que nunca hão de tocar com lábios mudos?
De que servem as maçãs nessas margens?
Por que adoçar com ameixas aquelas praias?
Que triste, lá brilharem nossas cores,
Tecer-se a seda de nossas manhãs,
Soarem nossos violões insípidos!
A morte é a mãe de todo o belo, mística,
E no seu seio cálido sonhamos
A mãe terrena, insone, a nossa espera.
7.
Homens ágeis e alegres, de mãos dadas,
Numa manhã de verão, em plena orgia,
Hão de cantar em devoção ao sol,
Não como deus, mas como um deus seria,
Nu entre eles, uma fonte bárbara.
E seu canto há de ser paradisíaco,
Saído do seu sangue para o céu;
E em seu canto entrará, em cada voz,
O lago que deleita o seu senhor,
As árvores seráficas, e os montes
Por muito tempo a repetir sua música.
Conhecerão a sagrada irmandade
De homens mortais e estivais manhãs.
E de onde vieram, e para onde irão,
O orvalho em seus pés indicará.
8.
Ela ouve, nas águas silenciosas,
Uma voz gritar: “O Santo Sepulcro
Não é alpendre onde repousem espíritos,
É o túmulo onde jazeu Jesus”.
Vivemos nesse velho caos de sol,
Ou velha servidão de noite e dia,
Ou solidão de ilha, livre e solta,
De águas silenciosas e implacáveis.
Cervos andam pelos montes; codornas
Assobiam, espontâneas; e nas matas
Amoras silvestres amadurecem.
E, no isolamento do azul,
Ao entardecer, pombas revoam a esmo,
Fazendo ondulações ambíguas, vagas,
Em direção à sombra, com suas asas.
(Ilustração : George Henry Grenville Manton - Isabella and the pot of basil)
segunda-feira, 20 de abril de 2026
A MORTE DE TÂNIA RADEK, de Rita Coitinho
Há um grupo de insetos presente em todo o planeta cujo tempo de vida adulta é de vinte e quatro horas. São os efemerópteros. Com suas asas transparentes, voam em busca de um parceiro, deixam seus ovos e morrem. Comparada à efêmera vida desses pequenos insetos, a existência humana é longa. Esta, no entanto, frente à idade das estrelas, não passa de um raio de luz. Mas há vidas humanas cuja duração é suficiente para uma experimentação satisfatória. Alguns indivíduos são capazes de imprimir sua marca em nossa memória, por força de seus feitos, prolongando sua existência além da vida. A maioria das vidas humanas, porém, sequer tem a chance de empenhar-se na busca da imortalidade da memória, pois têm suas existências subsumidas no turbilhão das engrenagens sociais e comem, dormem, despertam e amam conforme os usos de sua época ou de acordo com os usos que a época lhes destina. Essa é, aliás, a regra. Humanos são também efemerópteros, empurrados pelo ritmo da natureza e das forças sociais, do nascimento até a morte. Assim viveu e morreu Tânia Radek. Uma existência efêmera, como tantas outras e como é a desta que escreve. Dela tenho notícias não por sua obra ou por algo que a destaque em meio à revoada de seres humanos que vaga pelo planeta em nossos dias, mas por essas coincidências que se atravessam em nosso caminho e que moldam, sem que tenhamos condições de interferir, o fluxo de nossas vidas. Tânia foi, por mais de dez anos, minha colega de sala na repartição pública. Compartilhávamos o vidro de biscoitos, a conta do pó de café e comentários sobre o cotidiano e o trabalho. Nessa convivência eu soube que ela não gostava de lugares fechados. Nunca entrava em um elevador. Embora pareça irrelevante, essa informação acerca da claustrofobia de Tânia será importante para o desfecho de sua breve existência. Antes, é preciso rememorar os acontecimentos provocados por gente do tipo que teima em deixar marcas. Alguns o fazem por seu brilhantismo. Outros não têm nada a oferecer, mas são lembrados pelo horror.
Não sou estudiosa dos fenômenos da mente, mas estou convencida de que se tratou de uma patologia coletiva o fervor que, de um ano para o outro, levou a uma tal situação de frenesi político que setenta e um por cento dos eleitores elegeu presidente um candidato bizarro, vil, mal vestido e autoritário, cercado de fanáticos. O novo governo declarava-se “adversário das luzes”, pois todo esclarecimento é ilusório, turva a moral e afasta os homens de Deus. A perseguição que se seguiu à eleição levou ao abandono completo das universidades e centros de pesquisa. Os poucos cientistas renitentes foram perseguidos pela massa em transe. Os museus foram apinhados de obras sacras, queimou-se a arte considerada herética. Cinemas e teatros foram fechados. No mundo das artes, o medievo ascendeu como tendência estética irresistível. Em pouco mais de cinco anos do novo Governo Supremo, estavam instituídas as fogueiras para livros, obras de arte e indivíduos desviantes. Foi escrita uma nova constituição e tribunais televisionados ocupados por religiosos animavam o povo com julgamentos em tempo real que quase sempre terminavam com sentença condenatória. A carta magna instituía um quarto poder: o da cúpula religiosa.
Logo notamos o desaparecimento de alguns colegas da repartição. O primeiro foi o Oliveira, do sindicato. Depois Maria Antônia, do protocolo, que era atriz nas horas de folga. Já Tânia e eu nos adaptávamos aos novos tempos e acatávamos as ordens. Levávamos nossas vidas como observadoras e sentíamo-nos seguras, pois éramos invisíveis. No oitavo ano do novo regime as coisas entraram em um novo patamar. Novos decretos tratavam das vestimentas da população. Estavam proibidas as roupas curtas, as blusas deveriam ter gola até a altura do queixo, as mangas deviam abotoar-se nos punhos, as calças deveriam ser largas e compridas. Estavam banidas as cores heréticas: vermelho, amarelo, rosa, verde, azul, laranja e violeta. Somente o preto e o cinza escuro estavam autorizados. O fervor popular favorável às novas medidas morais levou ao incêndio das coleções de moda. Grandes fogueiras espalharam-se pelas cidades e cerca de cinquenta modistas que planejavam um manifesto foram condenados à prisão. Pela primeira vez em muitos anos ouvi uma queixa de Tânia: sentia-se sufocada com aquelas golas. No décimo ano, veio o decreto fatal. Para comemorar uma década de combate às luzes, o governo determinava o aumento das golas: deveriam cobrir completamente o rosto, até a testa. Era permitida apenas uma leve transparência na área dos olhos. A justificativa era que somente o Criador era digno de contemplação. Impunha-se ainda um toque de recolher, das dez da noite às seis da manhã, e uma prece pública, transmitida por aparelhos de som espalhados nas cidades, deveria preencher o caminho dos cidadãos até o trabalho. Estavam proibidas as músicas não religiosas e os fones de ouvido.
No dia marcado para a entrada em vigor do novo traje obrigatório, Tânia não apareceu no escritório. Saí a sua procura, pois ela vivia só, tendo apenas um gato como companhia. Imaginei que estivesse enferma. Depois de alguns dias apurei que fora vista saindo da sua casa de manhã, no horário de sempre. As câmeras de vigilância das ruas flagraram sua corrida em meio à multidão de golas pretas. Seus movimentos evidenciavam pavor. Desviava de toda gente e, aos gritos, atravessou uma avenida movimentada, causando um engavetamento de carros. Fecho meus olhos e consigo imaginar o pavor de Tânia. Vejo a multidão de golas à sua volta, verdadeiros seres sem rosto, os murmúrios, a prece nos alto-falantes, o zunir dos carros. Ouço seus gritos e sinto sua desorientação. Desfaleceu em meio à confusão. Foi recolhida sem vida e descartada em um incinerador público. Adotei seu velho gato. Está ao meu lado enquanto redijo essa pequena memória, minha revolta particular contra o esquecimento. A invisibilidade não manteve Tânia Radek a salvo do horror e da escuridão. Todos os dias perecem outras Tânias, efemerópteros surpreendidos pela chuva. O regime não nos teme, e cedo ou tarde atinge a todos. Ninguém contabiliza nossas efêmeras vidas. Enquanto escrevo, acompanho as notícias na rádio clandestina, deixei de ser indiferente. O regime está caindo. Tenta manter-se, feroz, mas será derrotado. Haverá luzes no futuro.
(Revista Zunái; 25 de dez. de 2021)
(Ilustração: Andrea Kowch; 1986 simbolista)
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Rita Coitinho - A morte de Tânia Radek
sexta-feira, 17 de abril de 2026
THE LOVECRAFTER / ARTESÃ DO AMOR, de Patti Smith
I saw you who was myself
slightly stopped whistling mouth
with leather sack and breeches brown
striding the naked countryside
with summer bones long and dry
into the breadth of our glad day
mid afternoon the longer night
as you tread bareheaded bright
I saw you a wraith bemoan
stir the fires of ancien tones
scarred with sticks pome and haw
as the néctar for their script
I saw you walk the length of fields
Far as the finger of Providence
far as the mouns we call hills
ranges cut from the heart of slate
I saw you dip into your sack
scattering seed where they may
as the woodsman hews his way
through oak ash and variant pines
for writing desks that shall reflect
a sheaf of lines that speak of trees
all sober hopes requires within
all drunkenness as sacred swims
I saw the book upon the shelf
I saw you who was myself
I saw the empty sack at last
I saw the branch your shadow cast
Tradução de Fergath (Fernanda Burgath):
Eu vi você, que era eu
boca assobiando em entretom
sacola de couro e calça marrom
caminhando longe pelo campo nu
por debaixo da roupa, vi seus ossinhos
eram eles e eu, mas não sozinhos
no meio da tarde da noite mais longa
brilha no céu a sua careca redonda
te vi como um fantasma lamurioso
por detrás do grande fogo ancestral
suas cicatrizes ainda visíveis e frescas
tão necessárias a sua narrativa
galgando o campo todo
até o limite da Providência
às montanhas, que chamamos de colinas
corações de ardósia cortados em lâminas
Eu vi você meter a mão em sua sacola
e deixar cair sementes estrada afora
como o lenhador que segue seu caminho
por freixos de carvalho e pinheiros variados
por escrivaninhas que devem refletir
um feixe de linhas que falam de árvores
todas as esperanças sóbrias requerem
a embriaguez como nado sagrado
um livro na estante, no quase breu
eu vi você, que era eu
por fim, em sua sacola vazia
eu vi sua sombra que me estendia
(Ilustração: Remedios Varo - el trovador, 1959)
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Patti Smith - The lovecrafter / Artesã do amor
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