terça-feira, 26 de maio de 2026

O TAMBOR CHINÊS, de Ihara Saikaku

 


No bairro de Nishijin, na cidade de Quioto, estão localizadas as oficinas de tecelagem de seda. Entre os mestres que viviam dessa profissão, havia um que, não obstante a sua destreza no ofício, via a sua situação econômica piorar dia por dia. No fim do ano, encontrava-se num beco sem saída. Falou com a mulher, e ficou decidido que deixariam o bairro na calada da noite, às escondidas dos credores. Começou ele, então, a vender os móveis e utensílios da oficina, secretamente, mas o fato não passou desapercebido dos seus colegas. Os mais chegados, que somavam uma dezena, lamentaram que tal ocorresse justamente com quem se mostrara sempre comedido, honesto, prestativo, homem de alma piedosa e isenta de pecados. Desejosos de salvá-lo da situação em que encontrava, encarregaram um deles, escolhido por mais avisado, de indagar do estado real das dívidas do colega. O enviado ficou sabendo que elas mal chegavam a oitenta ryos (cerca de duas libras ouro). Disse então, ao casal em apuros:

– Por que abandonar a oficina, que mantiveram durante tanto tempo por causa de tão pouco? Não se amofinem: são coisas da vida. Deixem tudo por nossa conta. Vão tratar dos preparativos para o Ano Novo. Deem às crianças presentes bonitos. Quanto aos uniformes dos aprendizes, ainda há tempo de mandar fazê-los azuis, sem o emblema da oficina. E a senhora, deve cuidar mais da sua aparência, principalmente numa ocasião como esta. Vá fazer um penteado vistoso: a sabedoria da esposa consiste em não deixar ninguém perceber que o marido está em dificuldades.

Na noite de 26 de dezembro, conquanto estivessem todos atarefados, os dez colegas do mestre tecelão combinaram entre si e foram ter à casa do amigo, levando cada um consigo dez ryos. Pediram um vaso de madeira e nele depuseram as moedas de ouro que haviam trazido, constituindo assim uma caixa de socorro mútuo.

– As moedas aqui juntadas, que somam cem ryos, dentro em breve estarão multiplicadas por dez — diziam.

Um dos tecelões, com ar de entendido, levou o vaso até o santuário do Deus da Prosperidade, diante do qual depois de bater palmas, disse, como se rezasse:

Ó Deus da Prosperidade: multiplicai este tesouro; caso contrário, sereis jogado ao Rio Kamiya.

Entre os risos e aplausos de todos os presentes, teve início uma alegre libação, com os vinhos e vitualhas trazidos pelos visitantes. Beneficiadores e beneficiados estavam eufóricos.

Que bela e inusitada maneira de comemorar a passagem do ano! — exclamavam, erguendo as taças. Mesmo os menos afeitos às bebidas fartaram-se de beber. Cantaram e dançaram até esgotarem todo o seu repertório de habilidades artísticas. Faziam tamanha algazarra que ninguém mais se entendia.

Eram quatro horas da manhã, e os galos cantavam, quando os visitantes se retiraram, após trocarem as sandálias, deixando suas capas e leques. Saíram abraçados uns aos outros, esquecidos de se despedirem dos donos da casa. Fatigado pelas preocupações da véspera, o mestre tecelão deitara-se no meio da sala, onde ficou a roncar alto.

Sua esposa fechou as portas, com maior cautela. Mandou a criadagem ir repousar. Não se continha, porém, de júbilo. Foi acordar o marido e pediu-lhe que fizesse um levantamento das contas a pagar: entregou- lhe, para tanto, o ábaco e o diário.

Brandindo o ábaco, bravateou o marido:

– Neste fim de ano, quando os cobradores me aparecerem, atiro-lhes com as moedas de ouro na cara. Sobretudo aquele maldito Hatiemon, o dono do empório, que, apesar de ser nosso parente afastado, é o mais intolerante de todos. Vou saldar definitivamente nossa dívida com ele. Não lhe compre mais nada. Passe a comprar no empório vizinho. E pague à vista, ouviu?

Enquanto fazia suas contas e projetos de pagamento, o tecelão foi buscar o vaso de madeira no santuário. Qual, porém, não foi a surpresa do casal quando constatou que o vaso estava vazio! Não podia ser obra dos ratos: ratos não roem moedas de ouro. Quem sabe se não seria uma brincadeira do Deus da Prosperidade? Vasculharam o santuário, repetidas vezes, mas não encontraram nem sombra do tesouro.

A grande alegria de havia pouco transformou-se numa tristeza sem fim. O tecelão pôs-se a monologar em voz alta:

– É destino. Não guardarei rancor de quem me roubou. Mas por que teria feito isso? Aceitei um auxílio caritativo e vejo-me em dificuldades maiores do que antes. Qual não será a maledicência das pessoas, agora? Não, não adianta continuar a viver neste mundo ingrato. Vamos, querida, partamos juntos para outra vida, levando as crianças conosco.

– É verdade. Não adianta continuar a viver — concordou, resoluta, a mulher.

Lembrou-se de que viria gente ver ambos, depois de mortos, e vestiu, então, o único quimono de seda branca que ainda lhe restava. Arrumou o cabelo ao espelho, com maior cuidado. Acarinhou a cabeça do marido: disse-lhe que, apesar dos dezenove anos decorridos, o amor conjugal de ambos parecia o orvalho daquela mesma madrugada. Com os olhos turvados pelas lágrimas, marido e mulher acenderam velas no santuário dos antepassados. Acordaram os filhos com cuidado. A menina, que era a mais velha, perguntou se já chegara o Ano Novo. Apesar de sonolento, o caçula não se esqueceu do arco de brinquedo que lhe havia sido prometido de presente.

Penalizados, os dois puseram-se a chorar copiosamente. Nesse momento, banhada também em prantos, a velha criada precipitou-se para dentro da sala:

– Não precisam explicar nada. Sei de tudo. O senhor e a senhora podem morrer, mas roubar a vida a estes inocentes! Não, isso não pode ser. Será que perderam a cabeça? Eu me encarrego de criar estas duas crianças.

Tudo isso foi dito aos gritos, enquanto ela protegia as crianças com seus braços. Os demais residentes acordaram com o barulho e os vizinhos vieram ver o que se passava. Em meio à confusão subsequente, o sol nasceu, e o projeto de suicídio acabou sendo posto de lado.

A notícia da ocorrência chegou aos ouvidos de alguns dos colegas do tecelão, os quais, convocando os companheiros faltantes, promoveram, os dez reunidos, uma sessão para deliberarem sobre o assunto. Ocorrência verdadeiramente incompreensível, na verdade. Como todos se haviam declarado dispostos a salvar o amigo da bancarrota, não seria admissível que algum deles fosse roubar o que ele próprio doara espontaneamente. O ladrão, no entanto, tinha de ser um deles.

– Só consultando a Providência é que se poderá provar a inocência de cada um de nós — afirmavam alguns. Outros, mais sensatos, achavam que isso não resolvia. Concordaram, por fim, em levar o caso ao conhecimento da autoridade, por escrito, de quem solicitaram julgamento. Deferida a solicitação, a audiência ficou marcada para o dia 25 de janeiro, ao término das festas. Foi, outrossim, ordenado aos suplicantes que não se ausentassem da cidade, sob pena de sofrerem as sanções da lei, e que todos comparecessem à audiência em companhia de suas respectivas esposas ou, na falta desta, de qualquer parente mais próximo, do sexo feminino.

No dia aprazado, os tecelões, acompanhados das esposas, que se mostravam contrariadas, compareceram em juízo. Sorteado o número de ordem e afixada a lista respectiva na parede, a autoridade sentenciou:

– Julgo-vos responsáveis, coletivamente, pelo desaparecimento do dinheiro que constituía o fundo de socorro mútuo, e condeno-vos à pena seguinte: todo o dia, durante dez dias consecutivos, sairá um dos casais à rua, conduzindo, na ponta de uma vara, aquele tambor chinês que ali está, e, fazendo o percurso que vai do palácio até a alameda de pinheiros do templo, na direção oeste, voltará aqui pelo mesmo trajeto. É terminantemente proibida a aproximação de curiosos.

O tambor em questão era um tambor grande e pesado, pintado de vermelho berrante.

Durante dez dias consecutivos, o caso manteve acesa a curiosidade pública.

Que condenação esquisita! — comentavam todos.

Decorridos dez dias, a autoridade convocou novamente os dez casais e disse-lhes:

– Agradeço a colaboração de todos vós para a elucidação deste caso. Sinto muito ter-vos submetido a tal ridículo e vexame. Dirijo-me particularmente aos maridos, que parecem ter sofrido bastante, por causa das queixas e imprecações das mulheres. Eu soube disso por meio de um garoto muito vivo que coloquei dentro do tambor. Ele me contou ainda mais o seguinte: uma das mulheres se mostrou particularmente veemente nas suas invectivas contra o marido. Queixava-se do infortúnio de se ver assim exposta à curiosidade pública por culpa exclusiva dele. Protestava contra a tolice de ajudar a outrem e sacrificar a própria família. Suas lástimas e imprecações foram num crescendo. A certa altura, o marido sussurrou ao ouvido da esposa: “Tenha um pouco de paciência. O dinheiro é nosso. Você o verá em casa.” Não direi aqui de quem se trata, nem penso tenha sido o roubo ato premeditado. Julgo-o, antes, fruto da embriaguez. Em consideração ao seu louvável ato anterior, de ter prestado socorro a um necessitado, suspendo a pena e ordeno ao culpado que se limite a devolver o dinheiro e a desaparecer da cidade com a família. Cumprida minha ordem, arquive-se o processo. Podeis retirar-vos. Tenho dito.



(Tradução de Tejiti Suzuki)



(Ilustração: autor desconhecido: retrato de Ihara Saikaku - 1642-1693)

sábado, 23 de maio de 2026

EVENTUALMENTE PASO DÍAS ENTEROS SANGRANDO / EVENTUALMENTE PASSO DIAS INTEIROS SANGRANDO, de Miriam Reyes

 




Eventualmente paso días enteros sangrando

(por negarme a ser madre).

El vientre vacío sangra

exagerado e implacable como una mujer enamorada.



Si los hijos no salieran nunca

del cuerpo de sus madres

juro que tendría uno ahora mismo,

para sentirlo crecer dentro de mí

hasta poseerme como en una sesión espiritista

o como si mi bebé y yo

fuéramos muñecas rusas

una llena de la otra

mamá llena de bebé.



También tendría un hijo

si ellos siempre fueran bebés

y pudiera sostenerlo en mis brazos por encima de la realidad

para que mi niño nunca pusiera los pies en la tierra.



Pero ellos llegan a ser

tan viejos como uno.



No alimentaré a nadie con mi cuerpo

para que viva este suicidio en cuotas que vivo yo.



Por eso sangro y tengo cólicos

y me aprieto este vientre vacío

y trago pastillas hasta dormirme y olvidar

que me desangro en mi negación.



Tradução de Jorge Melícias:



Eventualmente passo dias inteiros sangrando

(por negar-me a ser mãe).

O ventre vazio sangra

exagerado e implacável como uma mulher enamorada.



Se os filhos não saíssem nunca

do corpo das suas mães

juro que teria um agora mesmo

para senti-lo crescer dentro de mim

até me possuir como numa sessão espírita

ou como se o meu bebé e eu

fossemos bonecas russas

uma cheia da outra

mamã cheia de bebé.



Também teria um filho

se eles fossem sempre bebés

e pudesse sustê-lo em meus braços acima da realidade

para que o meu menino nunca pusesse os pés na terra.



Mas eles chegam a ser

tão velhos como qualquer um.



Não alimentarei ninguém com o meu corpo

para que viva este suicídio em cotas que eu vivo.



Por isso sangro e tenho cólicas

e aperto este ventre vazio

e engulo comprimidos até adormecer e esquecer

que me esvaio na minha negação.



(Ilustração: Tim Okamura – Courage)

quarta-feira, 20 de maio de 2026

EDUCAR PARA A CIDADANIA ATRAVÉS DO ESTUDO DA HISTÓRIA, de Maria Aparecida Gomes de Almeida, Maria Cristina Velly e Diamarante Ferreira




O saber histórico é a luz para a visualização da realidade. A História, como leito dos acontecimentos da Humanidade, nos fornece princípios de leitura dessa realidade. Mas a História não brilha sozinha. Como recurso disponível será manobrada pelas forças sociais, visando a obtenção do poder, a manutenção do poder ou o reforço do mesmo, muitas vezes através de uma centralização da renda.

Assim, não existe uma História. Existem várias Histórias. A História das estruturas que predominaram, a História dos colaboracionistas, a História das intervenções, das incorporações, dos domínios ou impérios (imperando sobre quem?); todas essas variações perfazem a História da dominação. Esta História “maravilhosa” apresenta os feitos grandiosos, cultuando os heróis idolatrados. Estes comandaram povos, destruindo outros povos para usufruir desígnios de grandeza e de “sabedoria”. Destinadores de nações, guias de “civilizações” abençoadas. Este tipo de compreensão parte do princípio de que, entre as populações “superior”, existem divisões e subdivisões; a hierarquia de ordem sustentada, muitas vezes, por religiões organizadas, advindas de forças superiores que se revelam aos comandantes ou do “conhecimento qualificado dos competentes”, sempre prontos a “salvar” a nação e a comandar “os comuns” e, mesmo, a usar a força bruta, sem disfarce de trato cruel aos insubmissos, aos temidos, porque socialmente excluídos.

É História oculta, não contada, não estudada, que ficou abortada pela brutalidade dos vencedores e sonegada no âmbito da Historiografia oficial, que não chegam aos bancos escolares, que não está presente nos livros didáticos e que, dificilmente, terá sido dada a conhecer na formação acadêmica do professor. É História da resistência, da sobrevivência, da perpetuação de valores e hábitos culturais combatidos, esta História que encerra convicções, resignação e solidariedade silenciosa – patrimônios de profunda grandeza humana – sussurrada como impatriótica e iniciativa de “aventureiros”. Os “conquistadores” são contemplados como novos padrões culturais, ou melhor, por estranhos padrões culturais, porque a cultura dominante é “universal”.

Esta exposição quer deixar suficientemente claro que nem sempre a História estudada mostra a realidade. Antes, induz e introjeta uma outra “realidade”, a que está eleita. Nesta simplificação da complexidade histórica, se absolutiza um projeto – o das forças dominantes. Dominantes porque, apropriadas de tecnologias superiores, submeteram os outros. Aparelhadas na estrutura do Estado, passam a controlar um potencial de alternativas, como exércitos, monopólios, educação em qualquer de suas expressões, para atingir o psicológico, o sociológico, a unanimidade, o controle total. Esta História não salienta o que perdemos, as possibilidades não desenvolvidas, impedidas, interrompidas. No entanto, elas deveriam estar presentes no estudo e nas discussões com nossos alunos. vejamos de que forma ao analisar duas formas de abordar o mesmo fato. Escolhemos para tal, um “lugar comum”, o golpe de 64. Dentro de uma visão tradicional e que favorecia as elites dominantes do país, este episódio político, de longa duração, era chamado de “Revolução”. Na verdade, sabemos que tal acontecimento não se qualifica como revolução, pois, para que esta exista, é preciso que se transformem radicalmente as estruturas políticas, econômicas e sociais. Na verdade, reconhecemos apenas que, naquele momento, as elites reacionárias do país se aliaram às forças armadas para garantir o seu poder. Vemos, desta forma, que uma mesma situação pode servir, dependendo da análise, para a manutenção do sistema e das elites dominantes ou para desvendar este jogo de interesse.

Um dos instrumentos que favorecem a continuidade desse tipo de ideologia são os livros didáticos que, na maioria das vezes, são usados sem uma análise crítica dos posicionamentos que transmitem. Enfatizamos que não estamos subestimando o uso do livro didático, mas sim a possível ideologia subjacente ao mesmo. Questionamos, isto sim, a forma como este material é utilizado, no sentido de causar passividade ou inquietude, conservar ou transformar.

Em certo momento, ao trabalharmos a questão da mão-de-obra escrava africana no Brasil com nossos alunos de 7ª série, solicitamos que pesquisassem sobre a forma de vida dos negros na África, sobre quais os principais grupos que para cá vieram, etc... Os alunos, então, encontraram um livro que apresentava uma visão de que certos grupos negros eram constituídos por seres indolentes e arredios ao trabalho. Neste momento, coube a reflexão sobre a vida dos negros no Brasil e o questionamento sobre sua situação, independente da questão étnica. Foram levantadas questões do tipo: “Existe alguma etnia que seja mais fácil de ser escravizada?”, “Se você estivesse naquela situação, qual seria a sua reação?”, “Você concorda que realmente havia indolência dos negros em relação ao trabalho?”. Indo adiante, o que os manuais didáticos informam sobre a “caça ao índio” e a destruição do seu sistema de vida? Comumente, fazem apologia das Entradas e Bandeiras, ressaltando o “espírito desbravador” e o “alargamento das fronteiras” que “nos” proporcionaram. Nossos estudantes não percebem a carga de preconceitos ativados contra o elemento indígena, que recusara submeter-se ao sistema produtivo imposto pelos ibéricos. Como o sistema colonizador tratou os povos nativos onde ele aportava? Na América Central? Na América do Norte? Na do Sul? Qual o conhecimento de nossos alunos sobre focos de resistência desenvolvidos em nossa América? Por exemplo, a República dos Palmares? Tupac Amaru, no Peru? A independência do Haiti, entre outros? Porque a disciplina de História consagra estudos de novos desaparecidos, sem, no entanto, desvendar o processo histórico de tal desaparecimento? Ou, para citar outra questão importante: como é abordada a Abolição da Escravatura? Normalmente, o aluno estuda Isabel que, num rasgo de “bondade”, resolveu libertar os negros. Analisando o aspecto social do processo abolicionista, percebemos a priorização de interesses externos sobre os interesses internos da Colônia. Leis abolicionistas como a do Ventre Livre, que estabelecia que os filhos de escravos nascidos a partir de 1871 seriam livres, simplesmente camuflavam a realidade. Onde iriam ficar essas crianças? Esta questão era facilmente resolvida: o senhor cuidaria delas até 8 anos de idade, podendo depois entregá-las ao Estado (mediante indenização) ou utilizar seus trabalhos até os 20 anos como forma de pagamento pelos gastos como seu sustento. O mesmo poderia dizer da Lei dos Sexagenários, na qual percebemos claramente benefícios mais direcionados ao senhor do que aos escravos. Como saber, ao certo, a idade de um escravo? Eles portavam documentos? Da forma violenta e desumana com que eram tratados, qual o percentual que efetivamente chegava aos 60 ou 65 anos? De que lhe adiantava a liberdade nessa fase da vida? Não seria mais conveniente, para o senhor, libertar os escravos mais idosos, evitando assim mais despesas com pessoas que já não estavam mais produzindo, ao mesmo em que projetavam sua consciência “civilizadora e misericordiosa”? perguntas que não podemos sonegar aos nossos alunos...

Como um todo, verificamos que a abolição, na verdade, somente deu a liberdade ao negro, mas não lhe possibilitou sua real inserção na sociedade, ficando o mesmo, consequentemente, à margem desta. Seu lugar foi sendo ocupado pelo imigrante europeu (mão-de-obra assalariada) que ampliava o mercado consumidor brasileiro, favorecendo os interesses comerciais ingleses. Notamos as conseqüências destes fatos quando analisamos (mesmo que superficialmente) o papel que o negro ocupa, atualmente, em nossa sociedade. Pouquíssimos são os negros que têm projeção social, pois, mesmo com leis que asseguram penalidades para o exercício da discriminação racial, sabemos que esta realiza-se plenamente, de forma sordidamente camuflada.

Esta História Oficial tem sua contrapartida numa percepção mais crítica e social, vista enquanto processo, onde todos os homens atuam, onde desenrola-se o drama dos conflitos entre as classes, contradições, avanços e retrocessos. Percebê-la, assim, de forma dinâmica, através da dialética que a tudo resolve, não é, certamente, fácil. Requer abertura, honestidade intelectual para a análise de conflitos e contradições, pois, como diz Paulo Freire, “o conflito é a parteira da consciência”. Ao desvendar mitos, elucidar e questionar a História, tornando-a mais próxima, estamos incitando o surgimento da consciência crítica, fazendo com que os homens, indistintamente, se sintam sujeitos compromissados com a trajetória do mundo, agentes conscientes desse processo e não meros espectadores de algo linear e imutável. Enfim, com essa abordagem, pretende-se contribuir para que os homens exerçam conscientemente seus direitos de cidadãos e de seres históricos.

Essa consciência histórica é a superação dos interesses individualistas e obtenção de uma compreensão mais elevada, na qual os interesses dos homens superam os do indivíduo e a sociedade passa a ser o espaço da pessoa que, desenvolvendo o todo, desenvolve a si mesma, recebe o reflexo de sua ação. O conhecimento histórico, então, implica em identificar os procedimentos que conduzirão uma história horizontalizada, participada e democrática. Lamentavelmente, no quadro do real, a história tem ocorrido em direção antagônica aos interesses da maioria da população. Seria oportuno estudar os critérios de independência utilizados na América do Sul, comparar o caso do Haiti e o do Brasil, duas economias açucareiras? Ou perceber quais as variáveis que estabeleceram perfil diferenciado à América do Norte e a do Sul na construção de suas “independências” e de seus “heróis” e na participação de suas populações?

Infelizmente, os exemplos de desrespeito aos Direitos Humanos têm sido numerosos no decorrer dos tempos. A crueldade presente nos diversos períodos históricos e nos diferentes povos não cessou o anseio humano de viver a sua consciência na transigência do conjunto das consciências que criam os rumos que livremente escolhem e elegem, como rumos da História da Humanidade. O entendimento de igualdade manifesta-se gradativamente, e aí é necessário retomar o fio da evolução para demonstrar a conquista e o amadurecimento, no sentido de que a liberdade de viver, de pensar e de expressar-se possa vir a ser realidade. Certamente, houve exemplos isolados ou difusos neste movimento de precursores que intentaram um mundo de relações mais justas ou de autonomia a todos os homens. Indiscutivelmente, é no ramo dos grandes movimentos sociais que podemos ver mudanças substanciais, que contemplam parte dos anseios abafados, sufocados pela tradição e pela força bruta. Aqui, destacaríamos a contribuição dos iluministas que souberam elaborar e formalizar conceitos universais de igualdade e dignidade humana, que possibilitaram, dentro do quadro histórico vigente, a sua divulgação, o desencadeamento de fatos novos, acelerando um processo de desadormecimento das consciências. Este movimento, esta revolução se estilhaçando, atingiu as formas de expressão artística, a estrutura do sistema religioso, derrotou o sistema político social baseado na servidão e na escravidão. Estes mesmos conceitos revisaram o quadro geral das relações entre povos, continentes, sistemas de produção e comercialização. Este movimento libertador acarretou, por sua natureza social, novas opressões. São casos típicos as relações da Inglaterra com as colônias da América do Norte que exigiram direito de representatividade, proclamaram sua independência, mas não modificaram as relações de exploração nas suas atividades comerciais com outras regiões ou internamente na sua parte sul, que sustentava a escravidão. Este período histórico demonstrou suficientemente que não são culpa da natureza as desigualdades sociais, onde alguns homens nascem livres, enquanto outros não têm direito à vida, são escravizados, explorados e só têm o dever de servir. Na conquista européia sobre a América, aproximadamente 80% das populações nativas foram dizimadas em função dos interesses mercantilistas dos Estados Nacionais. Vemos aí o massacre cultural e físico dos povos subjugados, pois, como “pagãos”, foram convertidos ao cristianismo e forçados a trabalhar de 16 a 18 horas diárias, passando suas estimativas de vida de 30 para 6 anos no exercício do trabalho (conferir as condições de insalubridade nas minas). Mais um agravante foi a questão social, pois, através deste critério, as pessoas foram separadas em classes, ou seja, europeus e seus descendentes, classe dominante; nativos e negros, classe dominada.

A nova configuração europeia passou a exigir riquezas que não possuía. Diversos fatos históricos de grande relevância passam a comandar a direção dos acontecimentos. Obtenção de matérias primas que serão carregadas de outros continentes; por sua vez, rebentando na rudez da subjugação às antigas culturas que, ao seu modo, tinham selecionado uma forma própria de viver, isto é, de suas relações sociais e com a natureza. A própria população européia será sacudida das propriedades rurais para os aglomerados urbanos, jogada no processo competitivo, quando contingentes de marginalizados serão remetidos como imigrantes para diferentes partes do mudo, agora incorporados ao sistema produtivo europeu. As novas estruturações administrativas consolidam as oligarquias que, por sua vez, usufruíram privilégios e arrogância sobre populações desconsideradas sob todos os padrões humanos de vida: famintas, maltratadas, desassistidas, sem educação, sem direito no trabalho, completamente excluídas politicamente. Estas raízes de embrutecimento continuam a vicejar em nossa América Latina. O trabalho que transformou a Europa em esplendor, em uma primeira fase, explorou milhares de suas criaturas em jornadas extenuantes de até 18 horas diárias, incluíndo aí a mão-de-obra feminina e de crianças a partir dos 8 anos de idade. Estas crueldades exigidas pelo sistema da nova era foram transferidas a outros lugares, a todos os lugares onde gente passou a ser mão-de-obra disponível. Disponível a quem? O certo é que a Europa, com sua cultura, sua economia, sua política, dirigia o carro da História. Hoje, outras a sucedem...

Nesta nova visão de mundo instaurada com o capitalismo, as desigualdades sociais se acentuam e novamente os Direitos Humanos vão se desrespeitados, pois quem detém o poder econômico, detém também o poder político e todos os “aparelhos” necessários para manter a nova ordem. Mas os exemplos históricos de desrespeito e violação dos Direitos Humanos e da cidadania não nos servirão para nada se não forem elos para análise da situação em que vivemos. Assim, fazem-se presentes discussões sobre o racismo, fome, situações do terceiro mundo, etc... Buscando suas raízes históricas, temos conhecimento sobre as decisões que dirigentes tomaram. Quem eram estes dirigentes? Para quem dirigiam? Essa realidade ou natureza de decisões já se modificou? Quantas vezes a maquiagem histórica encobre com chavões velhos velhas práticas, caducas, mas desconhecidas dos nossos estudantes, que tomam por novidade bandeiras que o liberalismo defendeu na Europa do século XVIII. Se a nossa conjuntura histórica está atrasada, não significa que devemos seguir os mesmos passos. Isto nos leva a manter dois séculos de defasagem e de permanente dependência. O que fazem os homens públicos de hoje e como ativam as forças sociais nas suas estratégias de recuperação histórica? O que fazemos nós, educadores? Estamos conseguindo provocar as consciências?

Sabemos que a forma tradicional de ensino é negadora de consciência histórico-crítica, penetrante nas dimensões reais dos fatos. Mas temos claro o que é a forma tradicional de ensino? Percebemos o que significa adotar manuais simplificados onde a organização esquemática privilegia apenas a memorização? Estamos vigilantes para não reproduzir um entendimento onde as relações de causas e efeitos se dão de maneira direta, como se os fenômenos sociais fossem espontâneos, passivos e resolvidos por tratados? Igualmente, percebemos como é tradicional a aula exclusivamente expositiva, com a sala cheia? Quando a escola está montada em uma visão quantitativa ou mesmo empresarial, não conta a qualidade e condições de trabalho do educador. Este, freqüentemente, tem carga horária reduzida na Instituição. Em seu pequeno espaço de tempo, apela, então, para a exposições monótonas, massacrantes, exatamente para que não ocorra a compreensão histórica. Só que ele não sabe disso, não se apercebe do papel que desempenha no jogo.

Imbuídos desta perspectiva é que consideramos de fundamental importância um estudo crítico sobre a questão dos Direitos Humanos e do trabalho realizado pela Anistia Internacional. Por isso, iniciamos no ano de 1990, no Colégio Sévigné, em Porto Alegre, um projeto com crianças de 5ª série, integrando as áreas de Língua Portuguesa, Ensino Religioso e Estudos Sociais, no qual priorizamos a reflexão sobre os princípios básicos da Anistia Internacional, a constatação da importância destes [rins no atual contexto de violações e a efetivação de uma prática de luta democrática. Assim, em um trabalho realizado em etapas, após a leitura e discussão sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos, as crianças confeccionaram o seu próprio livrinho com ilustrações que expressavam a sua compreensão do tema. A seguir, foram sensibilizadas para a importância dos movimentos que atuam na defesa dos Direitos Humanos. A Anistia Internacional, através de um de seus membros, foi convidada a conversar com as crianças a respeito da Organização. Em momento posterior, as crianças foram conhecer o escritório da Anistia em Porto Alegre e, ao voltar para a Escola, decidiram, de forma espontânea e voluntária, montar uma “lojinha da Anistia”, onde expuseram material e, principalmente, assumiram sobre ela a responsabilidade de explicação e discussão com os visitantes. Tudo isso acabou despertando nas crianças o desejo de formarem um grupo engajado na luta pela preservação dos Direitos Humanos, com foco de ação centrado sobre a mobilização do público na Escola.

As inter-relações desse agir com o específico de suas disciplinas evidentemente estavam claras na intervenção dos educadores. Pensamos dar, assim, um singelo mas mui significativo exemplo de como se pode trabalhar a história em verdadeira perspectiva humanista, fazendo-a.

Para nós, compromisso com o ensino da História é compromisso com a Vida.

Despertando as consciências e promovendo a dignidade humana, estamos fazendo História. A nós, educadores, cabe desencadear esse processo.



(Ilustração : Raphaël - l'école d'Athènes - 1509-1510)


domingo, 17 de maio de 2026

A PINTA DELA, de Raul Pederneiras


Se tua fronte meiga descansas,

Pondo em realce negro botão,

Da cor trevosa de tuas tranças,

— Nasce-me um ponto... de exclamação! —



Ponto de treva! Doces lembranças

Trazes-me à alma, num turbilhão;

Dulçoso ponto das esperanças

Que me despontam no coração.



Liliputiano, grácil enfeite,

Lembra uma pulga num mar de leite,

A tua pinta que o rosto aninha.



Se o Almirante Colombo, um dia,

Visse teu rosto, certo diria:

— "Santa Maria!... Que pinta, niña!"




(Ilustração: Amy Winehouse pintada por Vermeer – autoria desconhecida; homenagem do blog à cantora morta precocemente aos 27 anos)

quinta-feira, 14 de maio de 2026

TOMÁS TRANSTRÖMER OU A FASCINAÇÃO DA INANIDADE, de Luis Costa Lima

    


Ler Tomas Tranströmer é uma experiência única e maravilhosa. A sua obra, embora pequena, alberga uma potência fenomenal. Por isso se encontra traduzida em mais de 30 línguas; por isso Tranströmer é, desde há anos, também um dos principais candidatos favoritos ao Prémio Nobel da Literatura. Infelizmente ainda não o ganhou e talvez nunca o venha a ganhar [*].

Tranströmer inicia-se na poesia com 23 anos de idade. O seu primeiro livro traz o título 17 dikter (17 poemas). A maior parte da obra é escrita em verso livre, embora também tenha experimentado com a linguagem métrica. Na sua escrita nota-se, por vezes, uma certa disciplina horaciana. Como podemos ler no livro de memórias, Minnena ser mig (as recordações vêm-me):

Horácio era para mim como um contemporâneo; era como um René Char, um Oskar Loerke ou um Einar Malm.

Em 1990 foi vítima de um derrame cerebral que lhe afectou a capacidade de falar. No entanto recuperou a saúde de novo. Anos depois sofre uma série de derrames cerebrais. Desde então escreve sob grandes dificuldades. Impedido de escrever por mão própria, é a sua esposa que vai apontando os seus poemas (isto por meio de um processo muito complicado, pois Tranströmer só consegue dizer sim e não), cada vez mais raros e lacónicos, mas nem por isso de menor qualidade. A sua originalidade e magia residem exactamente nessa fantástica capacidade de, num punhado de vocábulos, ser capaz de exprimir aquilo para o qual muitos escritores precisam de cem:


E o que era “eu”

É uma simples palavra

Na boca das trevas de Dezembro


No poema “Em Março de 79”, que sublinha esta sua tendência para o laconismo, podemos ler o seguinte:


Farto de todos aqueles que com palavras fazem palavras mas onde não há uma linguagem;

Dirigi-me para a ilha coberta de neve.

A veação não conhece palavras.

As páginas em branco dispersam-se em todas as direcções.

Eu dei com vestígios de cascos de corça na neve.

Linguagem, mas nenhuma palavra.


Embora Tranströmer nunca tenha escrito textos teóricos acerca da sua poesia, podemos no entanto ver nestas palavras uma espécie de poema programático, ou seja, uma metapoética. Neste poema, como acabamos de ver, defende-se uma poesia do termo singelo e conciso, da pureza inicial, de uma linguagem para lá das palavras “muda”, muito próxima do Budismo Zen. O que interessa aqui não são as palavras em si, ou uma mensagem inteligível, mas sim a linguagem que advém dessas palavras e que se libertou de todos os condicionalismos usurários que elas lhe pudessem impor. Quer dizer as palavras despiram-se dos seus significados individuais para se transfigurarem num corpo unificado e vivo, ou seja, numa linguagem absoluta, que nos deixa compreender tudo para além de todo o entendimento.

Tranströmer aposta, assim, sobretudo, na intensidade e, a partir desta linguagem de imagens concentradas, fulgurante, a qual não precisa de muitas palavras, provoca no leitor uma sensação de deslumbramento e surpresa, que, em muitos casos, pode ser considerada fantástica e até mágica. Esta linguagem simples e clara, mas carregada de metáforas audazes, de uma imaginação fantástica e de uma imensa variedade de associações, possui, de facto, uma intensidade e uma força ao mesmo tempo telúricas e surreais. Vejamos um exemplo:


Encontro-me de pé sob um céu estrelado

E sinto como o mundo rasteja

no meu sobretudo, para fora e para dentro,

qual um formigueiro


Ainda que a lírica de Tomas Tranströmer possa, por vezes, à primeira vista, levar o leitor mais desprevenido a considerá-la uma lírica da natureza, dado que são constantes as referências a animais, objectos e fenómenos da natureza (a formiga vermelha, as tempestades, o mar, a floresta, as estações do ano, os campos etc. ) ela é, porém, muito mais do que isso. Ela não se constrói a partir de certos “acontecimentos“ que se efectuam na natureza, e que por isso são considerados, como acontece na Naturlyrik dos alemães, uma primeira base do ser, nem pretende descrever simples fenómenos da natureza. Através da observação do mundo físico o poeta vai-nos revelando a inanidade existencial: o invisível torna-se-nos acessível porquanto nos sentimos seduzidos pela magia das verdades ocultas e pelos segredos impenetráveis e por isso vazios. Este universo poético mantém-se sempre muito próximo da realidade do dia a dia, no entanto, como nos diz Harald Hartung no ensaio “Tomas Trantrömer: Der Kampf um den Namen”:


ele não é deste mundo, ele é antes um espaço imaginário que projecta uma luz fresca, mas intensa, sobre os objectos e os homens.


Esta poesia tem como peculiaridade o momento. Na maior parte dos poemas de Tranströmer, deparamos com a evocação de um momento, vivido ou imaginado, que nos é transmitido quase fotograficamente. No entanto este momento, que lhe provocou a necessidade de poetar, ou seja, que ele procurou fixar em palavras, e que à primeira vista pode parecer uma mimésis da realidade circundante, já nada tem a ver com aquilo que o poeta em determinado momento observou, viveu, ou mesmo sonhou. Ao ser integrado no corpo do poema por meio da palavra poética, o momento sofreu uma transmutação: ele tornou-se numa realidade autónoma, ele tornou-se como António Ramos Rosa diz num dos seus ensaios: “presença da ausência”. Por isso o poema transcende a fugacidade do momento, dando-lhe uma continuidade que o transgride e ultrapassa a simples experiência física e sensorial:


Fim de estação. Eu continuei a viagem

Para além do fim da estação.

Quantos eram? Quatro,

Cinco, poucos mais.

Casas, caminhos, nuvens,

Enseadas azuis, montanhas

Abrem as suas portas


Como podemos ver, esta poesia é uma evocação do momento, único e irrepetível. O mundo natural, com todos os seus fenómenos inerentes, ao tornar-se palavra, torna-se numa nova realidade, uma realidade que se pode encontrar, por vezes, muito perto do delírio surrealista. Esta nova realidade já nada tem a ver com os fenómenos apreendidos pelo eu lírico. Dentro do poema ela transcende-se até à irracionalidade. Em torno de uma simples imagem, abrem-se ao leitor portas e portas: esta linguagem não precisa de uma interpretação, ela é a voz do silêncio, a voz do vazio total, do vazio do sujeito e das coisas, ponto de saída e ponto de encontro. Por isso a linguagem poética de Tranströmer aproxima-se bastante dos princípios do Budismo Zen. Vejamos a primeira quadra do poema “Adernagem da noite para o dia”:


Quieta, a formiga acorda, espreita para dentro do

nada. E para além das gotas da escura folhagem e

do murmúrio nocturno, profundo no desfiladeiro do verão,

não se ouve mais nada.


Nestes quatro versos encontramo-nos perante uma atmosfera própria do Budismo Zen, ou seja, aqui tudo é silêncio e inanidade, aqui toda a vontade e cobiça foram abolidas, tudo comunga do nada, tudo se encontra imerso nesse nada. O próprio EU lírico abdicou da sua identidade e de toda a vontade. Ele já não é apenas um observador, ele é parte integrante deste momento-nada.

Frente à intensidade deste universo poético, o leitor não coloca questões. Ele vive a sensação do momento, a sensação electrizante desta linguagem, a sua magia toda poderosa, que se movimenta entre a frase lacónica, simples e clara e uma metafísica irracional. E o poeta, sabendo isto melhor do que ninguém, leva-nos a a participar deste momento único - momento em que natureza, homem e cosmos, se unem sob a aliança do indizível, do silêncio do vazio-essência:


grande e vagaroso vento

da biblioteca do mar.

Aqui posso descansar.



(Revista Agulha, nº 60, novembro/dezembro de 2007)



Nota do blog:

[*] O poeta foi laureado pelo Nobel de 2011.



(Ilustração: Lennart Rodhe - Dag och natt (Dia e noite) – 1967)

segunda-feira, 11 de maio de 2026

SORGEGONDOL NR 2 / GÔNDOLA LÚGUBRE NR 2, de Tomas Tranströmer

 



I

Två gubbar, svärfar och svärson, Liszt och Wagner, bor vid

Canal Grande

tillsammans med den rastlösa kvinnan som är gift med

kung Midas

han som förvandlar allting han rör vid till Wagner.

Havets gröna köld tränger upp genom golven i palatset.

Wagner är märkt, den kända kasperprofilen är tröttare

än förr

ansiktet en vit flagg.

Gondolen är tungt lastad med deras liv, två tur och retur

och en enkel.



II

Ett fönster i palatset flyger upp och man grimaserar i det

plötsliga draget.

Utanför på vattnet visar sig sorgondolen paddlad av två

enårade banditer.

Liszt har skrivit ner några ackord som är så tunga att de

borde skickas

till mineralogiska institutionen i Padova för analys.

Meteoriter!

För tunga för att vila, de kan bara sjunka och sjunka genom

framtiden ända ner

till brunskjortornas år.

Gondolen är tungt lastad med framtidens hopkurade stenar.



III

Gluggar mot 1990.



25 mars. Oro för Litauen.

Drömde att jag besökte ett stort sjukhus.

Ingen personal. Alla var patienter.



I samma dröm en nyfödd flicka

som talade i fullständiga meningar.



IV

Bredvid svärsonen som är tidens man är Liszt en maläten

grandseigneur.

Det är en förklädnad.

Djupet som prövar och förkastar olika masker har valt just

den här åt honom –

djupet som vill stiga in till människorna utan att visa sitt

ansikte.



V

Abbé Liszt är van att bära sin resväska själv genom snöglopp

och solsken

och när han en gång skall dö är det ingen som möter vid

stationen.

En ljum bris av mycket begåvad konjak för honom bort mitt i

ett uppdrag.

Han har alltid uppdrag.

Tvåtusen brev om året!

Skolpojken som skriver det felstavade ordet hundra gånger

innan han får gå hem.

Gondolen är tungt lastad med liv, den är enkel och svart.



VI

Åter till 1990.



Drömde att jag körde tjugo mil förgäves.

Då förstorades allt. Sparvar stora som höns

sjöng så att det slog lock för öronen.



Drömde att jag ritat upp pianotangenter

på köksbordet. Jag spelade på dem, stumt.

Grannarna kom in för att lyssna.



VII

Klaveret som har tigit genom hela Parsifal (men lyssnat)

får äntligen säga något.

Suckar… sospiri…

När Liszt spelar ikväll håller han havspedalen nertryckt

så att havets gröna kraft stiger upp genom golvet och flyter

samman med all sten i byggnaden.

Godafton vackra djup!

Gondolen är tungt lastad med liv, den är enkel och svart.



VIII

Drömde att jag skulle börja skolan men kom för sent.

Alla i rummet bar vita masker för ansiktet.

Vem som var läraren gick inte att säga.



Kommentar

Vid årsskiftet 1882/1883 besökte Liszt sin dotter Cosima och hennes man, Richard Wagner, i Venedig. Wagner dog några månader senare. Under denna tid komponerade Liszt två pianostycken som publicerades under titeln ”Sorgegondol”.




Tradução de Enaiê Mairê Della Torre Azambuja:



I

Dois senhores, sogro e genro, Liszt e Wagner, vivem no

Canal Grande

junto com a mulher nervosa que é esposa do

rei Midas

ela que transforma tudo o que toca em Wagner.

O verde gelado do oceano escoa através dos andares do palácio.

Wagner está marcado, seu reconhecido perfil Kaspar

decadente,

sua face é uma bandeira branca.

A gôndola pesada carrega as suas vidas, duas viagens de ida e volta

e uma de ida.



II

Uma janela do palácio está escancarada e alguém faz caretas contra

a súbita rajada de vento.

Lá fora na água, a gôndola lúgubre passa, movida por dois remadores

criminosos.

Liszt compôs alguns acordes tão pesados que deveriam

ser entregues

para análise no Instituto de Mineralogia em Pádua.

Meteoritos!

Muito pesados para ficar onde estão, eles simplesmente afundam e afundam

ao longo dos anos

até alcançar o ano dos camisas-marrons.

A gôndola pesada carrega o amontoado de pedras do futuro.



III

Pequena abertura para 1990.



25 de Março: preocupação com a Lituânia.

Sonhei que visitava um grande hospital.

Ninguém a trabalho. Todos pacientes.



No mesmo sonho, uma menina recém-nascida

falava frases inteiras.



IV

Diferente do genro, que é modernista, Liszt é um antiquado

grand seigneur.

Um disfarce.

A profundidade, que examina e rejeita diferentes máscaras, escolheu

apenas esta para ele –

profundidade que invadirá o homem sem mostrar o rosto.



V

O velho Liszt está acostumado a carregar sua própria bagagem debaixo de neve e

e sol

e quando ele visitar a morte, ninguém o encontrará na

estação.

Um sopro quente de um bom conhaque levou-o embora no meio de

um encargo.

Ele sempre tem encargos.

Duas mil cartas por ano!

O aluno deve escrever a palavra certa cem vezes

antes que ele possa ir pra casa.

A gôndola pesada carrega vida, é simples e negra.



VI

De volta a 1990.



Sonhei que dirigia por 200 quilômetros em vão.

Então, tudo se ampliou. Pardais grandes como galinhas

cantaram tão alto que meus ouvidos se fecharam.



Sonhei que havia esboçado teclas de piano

na mesa da cozinha. Toquei-as, em silêncio.

Os vizinhos vieram para ouvir.



VII

O piano, que tem estado em silêncio durante todo o Parsifal

(mas que escutava) pode finalmente dizer algo.

Suspiros… sospiri…

Esta noite, quando Liszt toca, ele mantém pressionado o pedal do mar

para que a energia verde do oceano suba pelo chão e penetre

cada pedra do edifício.

Boa noite, bela profundeza!

A gôndola pesada carrega vida, é simples e negra.



VIII

Sonhei que eu começaria a escola, mas cheguei atrasado.

Todos na sala usavam máscaras brancas nos rostos.

Impossível saber quem era o professor.



Comentário

Ao fim do ano de 1882 e no começo do ano de 1883, Liszt visitou sua filha Cosima e o marido Richard Wagner, em Veneza. Wagner faleceu alguns meses mais tarde. As duas peças para piano de Liszt, publicadas sob o título A Gôndola Lúgubre, foram compostas durante este tempo.



(Ilustração : Josef Danhauser (1805–1845) - Liszt at the Piano. 
Pessoas retratadas: Franz Liszt, George Sand, Niccolò Paganini, Marie d'Agoult, Victor Hugo, Alexandre Dumas. Data: 1840)





sexta-feira, 8 de maio de 2026

O MAPA DO PODER, de Oscar Vilhena Vieira

 


As constituições são verdadeiros mapas do poder. Quem analisar nosso texto constitucional com cuidado perceberá que vivemos sob um regime mais constitucional do que democrático, de caráter majoritário. Isto explica a irritação e indignação cada vez maior de alguns políticos com o Supremo Tribunal Federal e com o Judiciário em geral. Como o Supremo tem por missão proteger a Constituição, se necessário contra a vontade da maioria do Parlamento, ele se torna o principal alvo do Congresso, cada vez que declara inconstitucional um ato normativo por este produzido, ou mesmo quando concede habeas corpus a elegantes réus da República.

Das trinta e seis mais antigas democracias hoje existentes, apenas quatro, Inglaterra, Nova Zelândia, Israel e Islândia, dispensam uma Constituição rígida, que estabeleça limites às decisões tomadas pela maioria parlamentar. Nessas democracias majoritárias o legislativo tudo pode, não havendo qualquer espaço para que os tribunais bloqueiem a vontade da maioria dos parlamentares. De acordo com uma clássica passagem dos Commentaries, de Blackstone, sobre o sistema político inglês, “o poder e a jurisdição do Parlamento são tão absolutos e transcendentes, que não podem ser confinados, por qualquer razão ou pessoa, dentro de qualquer fronteira”, ou numa expressão menos erudita, mas igualmente notória na Inglaterra “o Parlamento pode fazer qualquer coisa, menos transformar mulher em homem e homem em mulher.” Portanto, o parlamento é soberano.

Na grande maioria das democracias contemporâneas, no entanto, o parlamento não merece tanta confiança, e suas decisões devem respeitar a Constituição, que coloca determinados direitos e princípios acima do jogo político cotidiano, das maiorias circunstanciais. A importância de mecanismos institucionais de controle das maiorias parece estar diretamente relacionada com os níveis de submissão voluntária de cada sociedade, aos valores da tolerância e da democracia. Em muitos sistemas as regras de sociabilidade ou o consenso são tão fortes, que dispensam-se instituições artificiais voltadas a restringir a vontade da maioria. Porém, para países onde os confrontos entre maiorias e minorias são muito intensos ou com fortes tradições autoritárias, como é o nosso caso, a rigidez constitucional parece essencial para preservar direitos e garantir a regra democrática.

Nesses países de constituições rígidas, cabe a todo o Judiciário, ou a uma Corte Constitucional em particular, contrastar os atos do parlamento face à Constituição. Em caso de conflito, prevalece a norma constitucional. Assim, o único remédio para derrubar a decisão judicial que declarou inconstitucional uma decisão parlamentar é emendar a Constituição. Para o que é necessário um quorum diferenciado, variando o grau de dificuldade de país a país. Quanto mais difícil for alterar a Constituição, mais constitucionais e menos majoritários serão esses regimes.

A Constituição brasileira, embora exija apenas três quintos dos parlamentares para que seja alterada, podendo ser considerada uma constituição pouco rígida, impôs limitações quase intransponíveis ao Congresso Nacional, por intermédio do que se convencionou chamar de cláusulas pétreas. Quanto à federação, à separação de poderes, ao voto e aos direitos, não é autorizado sequer propor emenda tendente a aboli-los. Ao impor estas limitações às gerações futuras o constituinte demonstrou a sua mais absoluta desconfiança no sistema político que estava sendo produzido.

Assim, além de ter que se defrontar com o Supremo Tribunal Federal cada vez que um dos seus atos é declarado inconstitucional, o que tem ocorrido com certa frequência, o Congresso percebe agora que em algumas circunstâncias não terá como reagir. Em face desta situação as perguntas inevitáveis são: o que justifica, dentro de uma perspectiva democrática, que o passado possa bloquear o futuro, por intermédio das cláusulas pétreas? E mais, em que medida a função de custodiar as gerações futuras deve ser entregue a um órgão, sem legitimidade democrática, como o Supremo Tribunal Federal?

A meu ver as cláusulas pétreas, quando bem compreendidas e interpretadas, não constituem uma ameaça à democracia ou uma pretensão autoritária das gerações passadas buscando governar as futuras, mas uma limitação paradoxalmente habilitadora e emancipatória. Ao proibir que o sistema político restrinja direitos e princípios fundamentais do Estado democrático de direito, as cláusulas pétreas estarão apenas habilitando cada geração a escolher o seu próprio caminho, sem, no entanto, estar constitucionalmente autorizada a furtar esse mesmo direito aos que virão; limitando-nos minimamente, para que não possamos limitar a nós mesmos e aos nossos filhos maximamente.

Quanto ao Supremo Tribunal Federal, a sua legitimidade derivará de sua própria habilidade. Se buscar defender do poder de reforma, mais do que aqueles elementos essenciais a perpetuação do sistema democrático, do Estado de direito e da dignidade humana, conformadas pelas cláusulas pétreas, poderá estar iniciando um processo de erosão da obra que pretende preservar. Caso abstenha-se de defender estes valores, no entanto, estará permitindo que se abandone os caminhos traçados pela Constituição. Acertar, portanto, é o ônus de quem tem a responsabilidade de falar por último.



(Ilustração: Têmis de Rhamnous (deusa da justiça) , Ática, pelo escultor Chairestratos, c. 280 a.C.)

terça-feira, 5 de maio de 2026

CONFISSÃO, de Adriano Botelho de Vasconcelos




ah, desconsolação por não poder

pedir-me em

s.o.s.!



não sei se sou sinceramente quem peregrina

nas estrofes das confissões em saber quens

ou o que resta de real em

meu ser.



Podes crer que muitas vezes

verteremos o nosso ser em avessos

de dúvidas, querendo ser outros

querendo ser nadas

violentando-nos

com espadas.



Ah, os dias saltam sem esperarem

por mim, tudo se adia em amarelecimentos

e fico sem saber em que lugar

ficar, sem ter

em que verdade

me ouvir

e dar.



Sou um alvo, tenho procurado

atingir-me - dizem-me os dias ajoelhados nos

degraus.



Confissão

é ter que percorrer os húmidos escolhos

de meu ser, despedir-me do "eu"

crescido no teatro

da vida, despedir-me

de identidades estranhas

que moldaram o meu

rosto.



Não sei de que mortes fala o meu ser

cansado de tanto tropeçar na calçada

das desilusões. Fulmino com dor

o corpo que tenho e estou

sempre à procura

de me agarrar em pedaços

e achar a desordem das minhas idades.



Era o vazio distante de um abismo

denso de muitas noites sobre as manhãs

e eu dizia em delírio branco

que era a terra desadubada

no silêncio da

loucura! (havia ainda

fragmentos de luz pálida de sombra

nas portas de meus

olhos).



Quero sentir-me como as plantas

que no interior das casas esticam o pescoço

dos seus corpos à procura da luz



há muito que estou

atrás dos biombos das sombras em conflitos

que desconfiguram ainda mais

o meu rosto! Necessito de lentes

de luz para conhecer

a miopia do

meu ser!



Além de tanta tempestade, o que resta

se não simplesmente a recordação

de que por aqui passei em

castigos Íntimos.



Ai escutem já não posso guardar-me

nas esteiras das noites que levantam os morcegos

da minha alma mirrada

em não se conhecer.



Quero confessar-me, num só dia permitir

que minhas mãos percorram os labirintos

do meu corpo ... por isso

preciso de chaves que abram

as janelas da minha

existência.



Dicção de angústias que fendem

o mármore das quimeras em minhas mãos.

Esvaziou-me de ante os olhos a existência

nada em mim está além do agora

o ir sem saber em que lugar

sair. Os olhos espiritualizados na voz

não descodificam o sintagma dos passos

que hermetizam o castiçal

do meu corpo.



Oh, deus destino, sentir vivo

quando me interrogo e me invade a infância

em ofertas de balões, mas se penso

espessa solidão me desperta

em culpas e confina-me

no beco trivial

da vida.



Estarei na praça pública

sem fantasias estranhas

para dizer que vivo, sob penas

de castigos em não me

aceitar. Não me acudirei

quero que vossos olhares atinjam

com pedras o meu masturbante silêncio

e que preguem em meu corpo cartazes

com dizeres que degredem

o meu ser.



Caros amigos, meus pés tenho-os rede

em mares amantizados de luas e barcos que me têm

inumado em luzes mansas de ouro

a seguir o que me é

olvidado, por não

me dar a

Viver.



(Poeta angolano)


(Ilustração: Ayogu Kingsley)