terça-feira, 8 de setembro de 2026

LA JEUNE CAPTIVE / A JOVEM CATIVA, de André Chenier

    



"L'épi naissant mûrit de la faux respecté;

Sans crainte du pressoir, le pampre tout l'été

Boit les doux présents de l'aurore;

Et moi, comme lui belle, et jeune comme lui,

Quoi que l'heure présente ait de trouble et d'ennui,

Je ne veux point mourir encore.



Qu'un stoïque aux yeux secs vole embrasser la mort,

Moi je pleure et j'espère; au noir souffle du Nord

Je plie et relève ma tête.

S'il est des jours amers, il en est de si doux!

Hélas! quel miel jamais n'a laissé de dégoûts?

Quelle mer n'a point de tempête?



L'illusion féconde habite dans mon sein.

D'une prison sur moi les murs pèsent en vain.

J'ai les ailes de l'espérance:

Échappée aux réseaux de l'oiseleur cruel,

Plus vive, plus heureuse, aux campagnes du ciel

Philomène chante et s'élance.



Est-ce à moi de mourir? Tranquille je m'endors,

Et tranquille je veille; et ma veille aux remords

Ni mon sommeil ne sont en proie.

Ma bienvenue au jour me rit dans tous les yeux;

Sur des fronts abattus, mon aspect dans ces lieux

Ranime presque de la joie.



Mon beau voyage encore est si loin de sa fin!

Je pars, et des ormeaux qui bordent le chemin

J'ai passé les premiers à peine,

Au banquet de la vie à peine commencé,

Un instant seulement mes lèvres ont pressé

La coupe en mes mains encor pleine.



Je ne suis qu'au printemps, je veux voir la moisson;

Et comme le soleil, de saison en saison,

Je veux achever mon année.

Brillante sur ma tige et l'honneur du jardin,

Je n'ai vu luire encor que les feux du matin;

Je veux achever ma journée.



Ô mort! tu peux attendre; éloigne, éloigne-toi;

Va consoler les coeurs que la honte, l'effroi,

Le pâle désespoir dévore.

Pour moi Palès encore a des asiles verts,

Les Amours des baisers, les Muses des concerts.

Je ne veux point mourir encore."



Ainsi, triste et captif, ma lyre toutefois

S'éveillait, écoutant ces plaintes, cette voix,

Ces voeux d'une jeune captive;

Et secouant le faix de mes jours languissants,

Aux douces lois des vers je pliais les accents

De sa bouche aimable et naïve.



Ces chants, de ma prison témoins harmonieux,

Feront à quelque amant des loisirs studieux

Chercher quelle fut cette belle:

La grâce décorait son front et ses discours,

Et, comme elle, craindront de voir finir leurs jours

Ceux qui les passeront près d'elle.



Tradução de Machado de Assis:



— “Respeita a foice a espiga que desponta;

Sem receio ao lagar o tenro pâmpano

Bebe no estio as lágrimas da aurora;

Jovem e bela também sou; turvada

A hora presente de infortúnio e tédio

Seja embora; morrer não quero ainda!



De olhos secos o estoico abrace a morte;

Eu choro e espero; ao vendaval que ruge

Curvo e levanto a tímida cabeça.

Se há dias maus, também os há felizes!

Que mel não deixa um travo de desgosto?

Que mar não incha a um temporal desfeito?



Tu, fecunda ilusão, vives comigo.

Pesa em vão sobre mim cárcere escuro,

Eu tenho, eu tenho as asas da esperança:

Escapa da prisão do algoz humano,

Nas campinas do céu, mais venturosa,

Mais viva canta e rompe a filomela.



Deve acaso morrer? Tranquila durmo,

Tranquila velo; e a fera do remorso

Não me perturba na vigília ou sono;

Terno afago me ri nos olhos todos

Quando apareço, e as frontes abatidas

Quase reanima um desusado júbilo.



Desta bela jornada é longe o termo.

Mal começo; e dos olmos do caminho

Passei apenas os primeiros olmos.

No festim em começo da existência

Um só instante os lábios meus tocaram

A taça em minhas mãos ainda cheia.



Na primavera estou, quero a colheita

Ver ainda, e bem como o rei dos astros,

De sazão em sazão findar meu ano.

Viçosa sobre a haste, honra das flores,

Hei visto apenas da manhã serena

Romper a luz, — quero acabar meu dia.



Morte, tu podes esperar; afasta-te!

Vai consolar os que a vergonha, o medo,

O desespero pálido devora.

Pales inda me guarda um verde abrigo,

Ósculos o amor, as musas harmonias;

Afasta-te, morrer não quero ainda!”—



Assim, triste e cativa, a minha lira

Despertou escutando a voz magoada

De uma jovem cativa; e sacudindo

O peso de meus dias langorosos,

Acomodei à branda lei do verso

Os acentos da linda e ingênua boca.



Sócios meus de meu cárcere, estes cantos

Farão a quem os ler buscar solícito

Quem a cativa foi; ria-lhe a graça

Na ingênua fronte, nas palavras meigas;

De um termo à vinda há de tremer, como ela,

Quem aos seus dias for casar seus dias.



(Chrysalidas: poesias).



(Ilustração: Frederic Leighton (1830-1896) - Andromaque captive)

sábado, 5 de setembro de 2026

SEXO & BARULHOS NA VIDA DE KANT, de Voltaire Schilling



Certo dia, o prefeito de Königsberg, o longínquo porto Báltico da Prússia Oriental, recebeu uma visita ilustre, mas inesperada. Era Immanuel Kant, o filósofo da cidade que vinha fazer-lhe uma queixa. Haveria a possibilidade, arguiu o pequeno homem (ele media pouco mais de metro e meio), de o burgomestre fazer com que o presídio municipal, vizinho à morada de Kant, fechasse as janelas na hora das cantorias do presos? O barulho, alegou o querelante, era terrível, impedindo-o de raciocinar. Além disso, ele, como racionalista, não acreditava que aquele vozerio suplicante fosse deixado de ser ouvido pelos generosos tímpanos de Deus. O todo-poderoso, seguramente, garantiu Kant, os escutaria mesmo que as malditas janelas estivessem cerradas.

O estrago maior dava-se no fato de que aquele coral dos apenados atingia em cheio as suas "faculdades gerais de ânimo", provocando nele uma "sensação de desprazer" que conduzia a afetar gravemente a sua "faculdade de juízo", fazendo com que toda a "sensibilidade estética" dele viesse abaixo. Imagine-se a cara do pobre prefeito.

Uns tempos antes, Kant, já sexagenário, solteirão dado à neurastenia, envolvera-se numa hilariante batalha contra um outro vizinho seu em função de um galo estridente. O tipo teimava em cocoricar nas horas mais improváveis da madrugada. Kant fez de tudo para o homem livrar-se dele. Após ter submetido inutilmente o teimoso aos rigores implacáveis da dialética transcendental, ofereceu-se para comprar-lhe a ave. O vizinho, firme, resistiu com o galo embaixo do braço.

Para ele que, com uma disciplina de oficial prussiano, fizera do seu corpo uma precisa e meticulosa máquina de pensar, qualquer ruído tinha o efeito paralisante. Estancavam-lhe as engrenagens mentais. Esta obsessão pelo silêncio é que o levou a comentar num dos seus impenetráveis ensaios (Crítica da faculdade de juízo, 1790) que aqueles que recomendavam (isto é, os pastores e os padres) às pessoas que fizessem exercícios espirituais domésticos, acompanhados pelas inevitáveis cantorias de hinos religiosos, "não calcularam o dano que aquelas orações ruidosas [e, por isso, geralmente farisaicas, acrescentou ele] provocavam na vizinhança, forçando a que os acompanhassem ou que simplesmente os obrigassem a parar de pensar".

Impertinência com barulhos é que, portanto, não faltou na vida de Immanuel Kant. Já no que toca ao sexo, sabe-se lá. Reparar esta lacuna, tão significativa, senão decisiva para o pensamento ocidental, foi objeto desta sátira que correu pelas praças recentemente intitulada A vida sexual de Kant, de um jornalista francês, herdeiro de Rabelais (outro que foi mordaz com os acadêmicos do seu tempo), chamado Frédéric Pagè, que se ocultou no heterônimo de Jean-Baptiste Botul, um sábio por ele inventado, profundo conhecedor das "coisas em si" e dos "a priori" do pensador de Königsberg. E, claro, dos seus segredos de alcova, ainda que inexistentes.

Sobre isso, aliás, perdeu-se uma valiosa fonte de informações que seria Lampe, o que foi valet de chambre de Kant por 40 anos. Quando sóbrio, aquele ex-granadeiro do rei da Prússia acompanhava-o por toda a parte, com um guarda-chuvas sempre à disposição, inclusive nas discretíssimas visitas ao bordel local, onde Herr professor, um obcecado por questões de saúde e maníaco poupador de energias, fazia uma periódica concessão ao chamado da natureza. Mas o velho Lampe, um incorrigível amigo do trago, terminou por ser despedido e recolhido a uma modesta aposentadoria sem que lhe colhessem uma só palavra sobre possíveis traquinices do patrão.

A aventura mais costumeira de Kant, além das suas religiosas caminhadas diárias pelas ruas da cidade, era encontrar-se com um grupo de amigos na casa de um deles, um comerciante inglês de nome Green. Lá chegando depois do almoço, encontrava o dono estirado no sofá da sala entregue ao cochilo. O filósofo não se fazia de rogado. Encolhendo-se também numa poltrona, punha-se a dormir.

Passado um tempo, mais dois outros conhecidos participavam desse estranho ritual, até que despertavam e punham-se a conversar sobre o mundo. Nem de longe poderíamos suspeitar que isso pudesse passar por uma tertúlia de sodomitas. Essa aproximação com seus companheiros de sesta e palestra é que fez com que ele celebrasse a amizade, colocando-a no centro das suas especulações do seu ensaio Metafísica dos costumes, de 1797, pois viu-a como resultado da coincidência do amor e do respeito. Dando, como bom alemão que era, e súdito do Rei Sargento da Prússia, ênfase ao "respeito" para que, segundo ele, "nem os melhores amigos envileçam-se entre si".

Farsa mesmo o próprio Kant parece ter testemunhado quando o velho Samuel Johnson lá na Inglaterra, um respeitado filólogo e renomado dicionarista, além de implacável homem de letras, revelou aos seus pares que o celebrado trabalho de um tal de James Macpherson, tido por um achado sério, não passava de uma fantasia. Desde que em 1765 aparecera em Londres um volume do The works of Ossian, provocara enorme sensação nos meios do nascente movimento romântico. A chamada "febre de Ossian", que se espalhou pela Europa inteira, chegou a Klopstock, a Herder e também Goethe, na Alemanha, que exultaram com o seu fervor sentimental.

Tratava-se, segundo Macpherson, de uma rara coletânea de antiquíssimos poemas de um honorável bardo celta, uma espécie de Homero escocês, que ele tivera a felicidade de encontrar e traduzir. O doutor Johnson, que devotava horror ao sentimentalismo e às descrições bárbaras sobre a natureza sombria – enevoada e úmida – que o livro abrigava, desmascarou-o mostrando a impropriedade da maioria das expressões que catou ao longo dos versos atribuídos a Ossian. O bardo galês, concluiu ele, deveria ser um fenômeno de paranormalidade, ironizou, porque usou palavras e expressões que surgiriam no inglês dez ou quinze séculos bem depois da sua morte.



(Ilustração: Emil Doerstling (1859–1940) - Kant e seus amigos à mesa)

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O VELHO POILÃO, de Odete Semedo



O tempo fez-me vergar

E as minhas raízes saltar

Agarro ao que de mim resta

E tento reconhecer a minha geração

De extrema solidão

No meu reino



Tenho pesadelos

Tractores de dentes aguçados

Ávidos lenhadores

De machado em punho

Meus oradores

Miram o meu tronco

Carcomido pelo tempo

À espera da queda fatal

Angustiado sonho com os belos tempos

Vejo os meus braços verdes

O meu tronco firme

Ostentando uma cabeça frondosa

De cabelos encarapinhados

Simulando perfis ocos

De rostos apinhados



Ainda recordo

De sombras que dei

Histórias de amor, noites de fogueira...

Quantas não assisti?

Fui símbolo de amor proibido

Refúgio de namorados

Hoje é isto o que de mim resta

Tudo que em mim presta

O tempo levou


E o chão aprovou



Mas não choro



(Entre o ser e o amar. Guiné-Bissau; 1996)



(Ilustração: Poilão - a árvore sagrada de Guiné-Bissau; Mwacir Quadé)

domingo, 30 de agosto de 2026

ÉTICA PROVISIONAL, de Michael Shermer



[...] Na Ética Provisional, "moral" ou "imoral" significa confirmado e justificado em tal extensão que seria razoável oferecer assentimento provisional.

Ou seja, na Ética Provisional seria razoável para nós oferecer nossa concordância de que uma ação é moral ou imoral se a evidência a favor e a justificativa da ação é impressionante. Ela permanece provisional porque, em ciência, a evidência e a justificação podem mudar. E, obviamente, alguns princípios morais têm menos evidência e justificação que outros, e portanto são mais provisionais e mais pessoais.

Aonde eu quero chegar é que há princípios morais pelos quais podemos construir um sistema ético secular. Estes princípios não são absolutos (sem exceções), nem tampouco são relativos (vale tudo). Eles são provisionais -- verdadeiros para a maioria das pessoas na maioria das circunstâncias a maior parte do tempo. Sempre que possível, as questões morais devem ser sujeitas ao escrutínio científico e racional, tanto quanto as questões da natureza são sujeitas ao escrutínio científico e racional. Mas pode a moral se tornar uma ciência?

Invertendo a pergunta, existe moral na ciência? Claro. Se você trapaceia, mente, rouba e é pego, as consequências são devastadoras, mas assassinato científico é algo de que nunca se ouviu falar. Eu desconheço qualquer exemplo de cientista que tenha sido assassinado por outro. Cientistas já foram mortos no passado, mas não por seus colegas. Giordano Bruno foi queimado na fogueira pela Igreja por suas crenças heréticas no sistema copernicano, na pluralidade dos mundos e da vida, e a infinitude do cosmo. O matemático Evariste Galois foi morto aos 20 anos de idade num duelo sobre "uma coquette infame" -- amor e ciúme, não ciência, acabaram com ele.

[...]

O teste de um sistema ético, porém, não está na teoria mas na prática. Vejamos como a Ética Provisional pode funcionar em duas questões éticas: aborto e adultério.

1. Aborto. O debate pró escolha e pró vida, deixando de lado seus fundamentos religiosos e políticos, deve ser capaz de ser resolvido por meio da razão e da ciência. Primeiro de tudo, devemos deixar Deus e a religião fora da equação, já que estamos falando de ética secular. Segundo, temos de deixar os "direitos" fora da equação porque entrar num debate sobre os direitos da mãe versus o direito do feto é algo que não pode ser resolvido. Um direito é um tipo de contrato político entre os indivíduos e o grupo em que vivem. Os direitos são conferidos aos indivíduos por corpos políticos, não são dados da natureza. Como disse Jeremy Bentham (1843):

[Direitos naturais são] confusão, absurdo, e o absurdo, como de costume, é absurdo perigoso. A palavra mal pode ser vista como detentora de um significado. Os direitos naturais são um simples absurdo. Direitos naturais e imprescritíveis, absurdo retórico. Absurdo de muletas.

Isso nos deixa com esta questão básica sobre o aborto: ele é assassinato? Se não é, então o aborto é moral. Se é, então o aborto é imoral. Esta é uma questão relativamente simples que a ciência pode nos ajudar a responder por meio da resposta a esta indagação: Quando a vida começa? Agora estamos chegando a algum lugar... de certa forma

Na edição de 16 de outubro de 1995, a revista The New Republic, a autora feminista Naomi Wolf chocou o movimento pró escolha ao declarar que o feto, em qualquer estágio de desenvolvimento, é um indivíduo humano e por isso o aborto é imoral (embora ela ainda apoie a livre-escolha da mãe). The Los Angeles Times (Rivenburg, 1996) afirmou que esse era o artigo mais importante sobre o aborto em anos. No ensaio de 6.700 palavras, porém, não há um único fato científico apresentado por Wolf que sustente sua declaração pela individualidade humana do feto. Em vez disso, temos referências a "alfinetes de lapela com os pezinhos", "desenhos detalhados do feto" em What to Expect When You're Expecting [O Que Esperar Quando Você Está Esperando], e "Mozart para a sua barriga, fotos de monograma, estetoscópios domésticos para os batimentos cardíacos do feto". Com defeitos similares, num debate da PBS Firing Line em 1995, Arianna Huffington declarou que os cientistas haviam provado que a vida começa na concepção. Bobagem.

O problema com as "origens" é que a vida, como os eventos históricos, não tem um único ponto de origem. A vida é um contínuo de esperma e óvulo para zigoto, entidade multicelular, embrião, feto e criança recém-nascida. Não há nenhum momento em que a vida "começa" porque ela nunca acabou, e certamente ninguém pode chamar a menstruação ou a masturbação masculina de assassinato (cf. Amici Curiae Brief, 1988.)

Poderíamos propor a questão desta forma: quando um feto se torna um indivíduo humano? Obviamente nem o óvulo nem o esperma são indivíduos humanos, nem é o zigoto, já que ele poderia se dividir e se tornar gêmeos, ou desenvolver-se em menos que um indivíduo e abortar naturalmente. Nem após duas semanas, uma vez que a geminação ainda poderia ocorrer. Nem às oito semanas -- enquanto há traços humanos reconhecíveis tais como rosto, mãos, e pés, as conexões sinápticas ainda estão sendo feitas. Só após oito semanas é que os embriões começam a exibir movimentos primitivos de resposta. Entre oito e vinte e quatro semanas, no entanto, o organismo é incapaz de existir por conta própria (Pleasure et al, 1984; Milner e Beard, 1984; Koops et al, 1982).

Há um assentimento provisional entre a maioria dos médicos e cientistas -- i.e., trata-se de um "fato" -- que a viabilidade de um feto é 24 semanas de gestação. São seis meses. Parece que não pode ser antes porque órgãos críticos -- pulmões e rins -- não amadurecem antes dessa época. Por exemplo, o desenvolvimento suficiente de alvéolos para a troca gasosa não acontece pelo menos até as 23 semanas de gestação, e frequentemente mais tarde do que isso (Beddis et al., 1979)..

Adicionalmente, não é até 28 semanas de gestação que o feto desenvolve complexidade neocortical suficiente para exibir algumas das capacidades cognitivas encontradas tipicamente em recém-nascidos de gestação completa. Os registros de eletroencefalograma de um feto com as características de um eletroencefalograma de adulto aparecem por volta das 30 semanas. Em outras palavras, a capacidade para o pensamento humano não pode existir até 28 ou 30 semanas de gestação (Flower, 1989; Purpura, 1975; Molliver et all, 1973). De todas as características usadas para definir o que significa ser "humano", a capacidade de pensar é provisionalmente considerada pela maioria dos cientistas como sendo a mais importante (cf. Sagan e Druyan, 1992, para uma boa discussão dos termos deste debate).

Já que virtualmente nenhum aborto é feito após o segundo trimestre, e antes do fim do segundo trimestre não há evidência científica de que o feto é um indivíduo humano pensante, por esta definição o aborto não é um assassinato. Se não é um assassinato, então não é imoral, do ponto de vista social. Isto é, o Estado não deve impedir as mulheres de escolher o aborto. Se uma mulher diz acreditar por razões pessoais que o aborto é um ato imoral para ela, apesar de podermos não concordar com ela em termos científicos, não há por que discutir sua decisão.

Da perspectiva de uma Ética Provisional, seria razoável para nós dar nossa concordância provisional de que os abortos durante os dois primeiros trimestres de gestação não são imorais, já que a evidência confirma que nesse período o feto não é um indivíduo humano e que a ação de abortar o feto é justificada se a mãe assim o desejar.

2. Adultério. Deixe-me introduzir este assunto com uma confissão pública do que alguns podem considerar uma séria falha ética. Mês passado eu cometi adultério... na minha mente.

Foi esse um ato imoral? Quão significativa é a diferença entre cometer adultério na mente e cometê-lo num quarto de hotel? Podem esses divertimentos mentais levar a atos físicos reais? Como a maconha leva à heroína, poderia a luxúria em sua mente levar à luxúria em seu corpo (e daí ser considerada imoral)? Por que eu cometi adultério na minha mente? Terá isso vindo do meu passado evolucionário, no qual meus ancestrais tiveram desejos em suas mentes por milhões de anos? Ou terá vindo de assistir a muitos filmes quentes da Sharon Stone? (Não era Sharon Stone, aliás.) Eu nunca cometi adultério físico, mas por que não fantasiar a respeito? Será porque eu tenho medo de incorrer na ira de Deus na próxima vida, ou na ira da minha mulher nesta aqui? Vejamos como a Ética Provisional poderia lidar tanto com o adultério mental quanto o físico.

Primeiro de tudo, o adultério mental certamente não é imoral já que estudos demonstram que o "autoerotismo" (como Havelock Ellis o chamava) é uma das mais onipresentes atividades sexuais. Como um exemplo da diferença entre a ética evolucionária e a ética teológica, um penitente medieval recebia as seguintes penitências por ter fantasias eróticas: 25 dias para um diácono, 30 dias para um monge, 40 dias para um padre e 50 dias para um bispo. (Eu acho que o Papa não apenas é infalível como muito pouco imaginativo.)

Como pode algo tão inofensivo para os outros e tão satisfatório e divertido para o indivíduo ser imoral? A ciência vê o problema de forma bastante diversa. As fantasias eróticas podem servir a uma variedade de funções pessoais, incluindo o fato de que às vezes é muito mais fácil apenas fantasiar sobre um encontro sexual do que realmente investir tempo, energia, dinheiro e risco de rejeição, falha, doença ou simplesmente experiência insatisfatória.

Eu não sei se a fantasia sexual em si evoluiu, provendo alguma vantagem seletiva para indivíduos que as tinham versus os que não as tinham. Mas com certeza a habilidade de fantasiar se desenvolveu como um maravilhoso produto colateral de um grande córtex cerebral, e sem dúvida esta habilidade de fato significou uma vantagem seletiva (imaginando o resultado positivo de uma caçada, ou as consequências negativas de uma luta). As fantasias sexuais são provavelmente um bônus contingente que veio junto com um grande cérebro.

Da perspectiva de uma Ética Provisional, seria razoável que oferecêssemos nossa concordância provisional de que as fantasias sexuais não são imorais porque a evidência confirma que quase todo o mundo as tem, que elas fornecem numerosos benefícios, não prejudicam ninguém e, portanto, são justificáveis se o indivíduo assim o desejar.

O adultério físico real, por outro lado, é outra história. Seus benefícios evolucionários são óbvios. Para o macho, depositar seus genes em mais lugares aumenta a probabilidade desta forma de imortalidade genética. Para a fêmea, é uma oportunidade de barganhar por melhores genes e status social mais alto.

Seus riscos evolucionários são igualmente óbvios. Para o macho, ser pego pelo marido da mulher adúltera pode ser extremamente perigoso. E ao passo que ser pego pela própria mulher provavelmente não resultará em morte, pode resultar, sim, em perda de contato com as crianças, perda da família e da segurança, e risco de retaliação sexual, diminuindo assim as possibilidades de o parceiro criar a prole do adúltero. Para a fêmea, ser pega pela mulher do homem adúltero envolve pouco risco físico, mas se pega pelo próprio marido não só pode como muitas vezes leva a abusos físicos extremos e até à morte.

Além destas implicações evolucionárias, há também os problemas socioculturais, tais como o risco de doenças transmitidas sexualmente, rejeição familiar, ostracismo social, e similares. Seria difícil justificar o adultério como um ato moral tanto da perspectiva evolucionária quanto da cultural. (Exceções extremas me vêm à cabeça, claro, como uma mulher cujo marido está há muito tempo em coma e que acha consolo e sexo com outro homem.)

Da perspectiva de uma Ética Provisional, a maior parte dos atores morais -- especialmente aqueles envolvidos, como o próprio parceiro, o parceiro do cônjuge adúltero, as famílias de ambos os adúlteros, a comunidade e a sociedade -- provavelmente concordariam provisionalmente que o adultério é um ato imoral para a maior parte das pessoas na maioria das circunstâncias a maior parte do tempo, pois as evidências confirmam que o adultério causa consideravelmente mais prejuízo do que benefício e por isso não pode ser justificado.

Um experimento muito simples para testar essa conclusão é perguntar à parte potencialmente afetada. Uma vez eu perguntei à minha esposa, Kim, como ela se sentiria se eu fizesse sexo com outra mulher. Ela respondeu: "O que você acharia se eu fizesse sexo com outro homem?" Isso pôs fim à discussão. A Ética Provisional pode ser tão simples quanto perguntar ao outro agente moral, numa variação da regra áurea de fazer aos outros como gostaríamos que fizessem conosco.



(O Enigma da Ética sem Religião; publicado originalmente em Skeptic, 
vol. 4, n.º 2, 1996; tradução de Rodrigo Farias)



(Ilustração : Jean Leon Gerome - Le roi Candaules; 1859)

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O CÁGADO, de Guimarães Rosa

  


Numa dobra da serra

há um minadouro,

uma bica,

e um poço azul.

E ali, na água redonda, pequenina e fria,

mora um cágado escafandrista,

filósofo pessimista,

que tem a mania de perseguição.



Quando o sol bate de cheio,

ele traz para fora a cuia emborcada,

e se aquece, aberto, em cima da laje,

chato, cascudo e feio.

Mas, se alguém pisa perto,

ele escorrega e pula, na água mansa

que explode e respinga.



Leva bom tempo

para assomar o focinho

de periscópio.

Mas, se é falso o alarma,

lá vem aflorando, levemente, à tona,

a concha remendada com fiapos de limo.

Depois, mais afoito,

o prudente reptil

passeia o dorso, convexo e abaulado,

como um “U-18”

da base de Kiel.



E o caipira guarda a vida do monstrengo

(Ai! meus pecados todos!…),

se o matarem, o olho d’água se evapora

(Ai! minha felicidade pequenina!…)

E o cágado, lento e pré-diluviano,

na cacimba da grota, espera outro Dilúvio…



(Magma - Rio de Janeiro, 1997).



(Ilustração: Phrynops hilarii; foto de autoria não identificada)

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

MILAGRES, FALÁCIAS, IMPRENSA, de Carlos Orsi




A palavra “milagre” chamou-me a atenção duas vezes nas semanas finais de 2022. Primeiro, porque encontrei à venda a tradução para o espanhol, publicada na Argentina, de meu Livro dos Milagres, primeiro livro de ceticismo científico que escrevi, e cuja segunda edição atualizada saiu em 2021. Este também é o primeiro livro de minha autoria publicado fora do Brasil. Segundo, por causa de um artigo que saiu na edição de 24 de dezembro do New York Times com o título “How Would You Prove That God Performed a Miracle?” (“Como Você Provaria que Deus Fez um Milagre?”).

A peça no NY Times, embora publicada sob a rubrica de “opinião”, executa toda a pantomima do jornalismo imparcial – chega até a incluir um depoimento crítico da exploração do sofrimento humano por curandeiros neopentecostais –, mas essa mímica não passa de um gesto retórico, desprovido de sinceridade: o artigo todo é um exercício da técnica narrativa jornalística que em inglês recebe o nome de mystery mongering.

Não conheço uma boa tradução para o português, mas dá para chamar de “camelódromo de mistérios”: quando o repórter ou articulista faz uma ginástica hercúlea para obscurecer a conclusão que obviamente decorre dos fatos que, com relutância, apresenta, travando uma batalha semântica para escondê-la do leitor e manter o público fascinado por uma pergunta que tem resposta óbvia mas que, para quem se deixa levar pelo fluxo narrativo do autor, “fica sem resposta”. No Brasil, o caso mais gritante das últimas décadas talvez tenha sido o da autópsia alienígena.

O camelódromo não é criminoso como a mentira pura e simples. Também se faz menos descarado do que a mera omissão dos fatos inconvenientes para a narrativa (que estão lá, apenas minimizados ou escamoteados). Mas nem por isso chega a ser bom jornalismo.

A maior parte do artigo é composta de depoimentos de pessoas que testemunharam ou viveram eventos interpretados como milagrosos, pontuados por breves intervenções em que céticos são desafiados a explicar o que “realmente” aconteceu – ficando implícita a ideia de que, na ausência de uma explicação científica imediata à mão, é coisa de gente chata e implicante não aceitar que houve milagre.

Há até mesmo um entrevistado que tenta esboçar uma “epistemologia do testemunho pessoal” – dizendo que se a palavra de uma testemunha não for suficiente para estabelecer a ocorrência de um milagre, então todas as atividades que dependem de depoimentos (como o jornalismo) devem ser postas em questão. No que ele está certo, claro, mas não do jeito que imagina.

Ao mobilizar tantas falácias de modo tão cândido e inocente, o texto no NY Times oferece uma oportunidade didática – de mostrar o que está errado em raciocínios como os expostos acima. Oportunidade que o artigo despreza, mas que vamos aproveitar aqui.

Começando pela tal “epistemologia do testemunho”: a palavra de uma testemunha é evidência, sim, mas é a forma mais fraca e ordinária de evidência. Basicamente, seres humanos podem mentir. E, mesmo quando são sinceros e acreditam piamente na realidade do que contam, podem estar enganados ou iludidos. Também, é preciso distinguir entre testemunho factual e inferência a partir do fato. Podemos acreditar quando um amigo nos diz que tomou uma canja e depois sarou de um resfriado, mas temos muito menos razão para concordar quando ele conclui que sarou por causa da canja que tomou.

Se uma pessoa quer convencer os outros de que um evento fantástico e extraordinário teve lugar, não é razoável esperar que apenas evidência fraca e ordinária vá dar conta do recado.

Reprisando um velho clichê, alegações extraordinárias requerem evidência extraordinária. Se não tivermos nenhuma razão especial para duvidar da honestidade da pessoa à nossa frente, podemos acreditar, sem maiores problemas, quando ela nos diz que veio de ônibus de São Paulo. Já se ela disser que veio de Marte, a bordo de um disco voador, a situação é bem diferente.

Vamos presumir que a testemunha é honesta, não está enganada e que algo espantoso de fato ocorreu. O argumento favorito “se a ciência não explica, foi um milagre” segue uma forma geral, falaciosa, conhecida como apelo à ignorância (não confundir com a versão pugilística “partir para a ignorância”): se você não provar que estou errado, então estou certo. Isso não é verdade! Durante milênios, antes da invenção da espectroscopia e das viagens espaciais, foi impossível provar que a Lua não era feita de queijo. Nem por isso as pessoas que diziam que a Lua era um queijo gigante pendurado no céu estavam certas.

No contexto da discussão sobre milagres, essa manobra se dá em uma série de etapas: primeiro, salta-se de “a ciência não explica” para “a ciência jamais explicará”; de “se a ciência jamais explicará” para “então é sobrenatural”; de “se é sobrenatural” para “então foi uma entidade da minha mitologia favorita que fez”.

Ou, resumindo, “se os médicos não entendem como o câncer sumiu, foi milagre de [preencha a lacuna com seu messias/guru/santo/divindade favorito]”. O admirável aí é que absolutamente nenhum dos elos da cadeia de raciocínio tem a menor validade. A coisa toda faz tanto sentido quanto dizer que se laranjas são pêssegos, então dois mais dois é igual a cinco.

O fato de alguns cientistas hoje não conseguirem dar conta de um fenômeno não implica que nenhum cientista jamais dará; mesmo se nenhum cientista jamais for capaz de explicar o evento, isso não põe o ocorrido fora da natureza (a ciência, afinal, sempre terá questões em aberto); e mesmo se o evento estiver fora da natureza, nada implica necessariamente que a sua versão favorita do sobrenatural é a que está correta.

E em torno dessa falácia, preenche-se um espaço nobre no jornal mais importante do mundo. O artigo saiu na véspera de Natal, o que sugere uma publicação de caráter estratégico – para oferecer ao leitor algo que traga um calorzinho gostoso na barriga, um eco de Papai Noel disfarçado em curiosidade intelectual.

Para tanto, o artigo, como todo bom camelódromo de mistérios, esconde do leitor o fato evidente que decorre de tudo aquilo que expõe: milagres nunca são provados. No máximo, são aceitos – e por razões que muito pouco têm a ver com a razão.



(Ilustração : Peter Paul Rubens - The miracles of St. Francis Xavier)

sábado, 22 de agosto de 2026

VIVER VERÁ, de Nic Cardeal (Eunice Maria Cardeal)





Dizem que viver é verbo intransitivo,

autossuficiente,

não pede qualquer complemento,

mas em mim se esvazia

— sozinho não sobrevive —

pede água, casa, comida,

amor, amigos, poesia,

loucura, sonhos, contrastes,

primaveras acesas,

réstias de outonos,

chuvas passageiras,

algumas lágrimas,

alegrias inteiras,

muitos versos,

objetos diretos, indiretos,

controversos.



Viver é verbo imperativo,

hiperativo,

de fazer profundidades na alma da gente

— até que finalmente

seja gasta a carne,

seja fraca a mente,

nossos corpos sejam depostos,

devolvidos como sementes

ao canteiro de obras

de um mundo quase indecente.

Quem viver

verá

— transitivamente.



(21.02.2017)



(Ilustração : Adrien-Jean Le Mayeur de Merpres - Women around the lotus pond)

terça-feira, 18 de agosto de 2026

SABIÁS E ROUXINÓIS, de Vera Pacheco Jordão


Nos meus tempos de criança tive um tio que era grande contador de histórias. Este dom, se o tornava querido da criançada, era também uma fonte de maçadas. Bastava um dia de chuva, ou um de nós preso na cama por um resfriado, já Tio Fausto era requisitado para nos distrair. Embora sua paciência e imaginação fossem quase inesgotáveis, certas vezes refugavam a tarefa, e vinha então o recurso que nos obrigava a desistir do intento: "Em Portugal canta o rouxinol e aqui no Brasil canta o sabiá, mas a distância entre cá e lá é tão grande que o que se canta cá não se ouve lá, e o que se canta lá não se ouve cá. Por isso é que ninguém sabe a história da casinha amarela que eu vou contar. Quer que eu conte?... Em Portugal canta o rouxinol..." E a cantilena recomeçava até que o mais persistente entregasse os pontos,

Lembrei-me desta velha história quando, viajando por quase toda a Europa sem qualquer dificuldade, em Portugal apenas consegui fazer-me entender e a custo compreendia a gente da terra. Não é só que o português engula bom número de sílabas, nem que a pronúncia seja carregada e outra a sintaxe, dando à frase um tom que ao brasileiro parece pomposo. É que as palavras usadas na linguagem corrente são outras ou têm sentido diferente do nosso. Assim foi que, perguntando ao porteiro do hotel em Lisboa se havia trem para a praia da Nazaré, o homem respondeu-me em tom de espanto: — "Trem não, minha Senhora, que é demasiado distante..."

Que eu saiba, o trem foi inventado justamente para as grandes distâncias, mas não discuti, — "E ônibus?"

— "Ai, minha Sra., de ônibus V. Excia. levaria o dia todo para lá chegar. É preferível a camionete". — "Camionete... (pensei num caminhão pequeno e fechado) mas não será muito incômodo?" E o diálogo continuou até que se esclarecesse o quiproquó: em Portugal trem é carro puxado por cavalos, ônibus é o nosso trem vagaroso que chamamos leiteiro, camionete é nosso ônibus, sendo que toda esta complicação teria sido evitada se, de início, eu tivesse perguntado pelo combóio.

Quem passou por Lisboa numa escala rápida, sabe da inutilidade de indagar onde se toma o bonde, expressão totalmente desconhecida e sem relação com "o elétrico", e se, na pressa da partida, quiser saber como ir até o navio, terá que perguntar pelo barco, à moda da terra. Na conversa, portugueses e brasileiros regalam-se de ouvir um do outro expressões e modismos que lhes parecem do melhor cômico. O português não sabe o que é "dar uma prosa", e se quer tirar um cochilo fala em "passar pelas brasas". Já no telefone leva-se um susto quando em vez de alô ouve-se um berro: — "Está lá?..." e a telefonista perplexa não entende que meia dúzia é seis.

Nas compras a confusão é ainda maior; quem quiser ir a uma loja de armarinho comprar carretel de linha, cadarço, colchetes, grampos, terá que procurar o retroveiro onde peça um carrinho de fio, nastro, molas e ganchos, sendo que as vitrinas são montras, as meias de homem peúgas, as mulheres é que usam cuecas e o homens calções. Numa casa de doces pedi balas, e responderam-me que só em loja de armas; quando apontei o que queria foi um alívio: — "Ah, V. Excia. quer rebuçados e caramelos, ou, sob a influência americana, "drops", mas nada de balas.

Ali chocolate é uma coisa e cacau outra, conforme aprendeu uma brasileira que pedindo "chocolate na xícara" teve a pronta resposta: — "Não há, minha Sra. Só temos cacau em chávena." Realmente existe a diferença, o chocolate sendo o cacau preparado com leite e a chávena um termo caído em desuso, só empregado pelos que apreciam os arcaísmos.

Creio que o português tem um vocabulário mais amplo que o nosso e usa os termos com mais exatidão, sendo também incapaz de interpretar o pensamento incorretamente expresso pela sintaxe brasileira. Assim foi que um amigo meu, pedindo uma lata de bolachas, após longa espera recebeu uma lata cuidadosamente aberta e esvaziada. Ao seu protesto, o próprio gerente da loja veio dar razão ao empregado: — "V. Excia. pediu uma lata "de" bolachas, e aí está. Se pedisse uma lata "com" bolachas, a coisa era outra".

Foi para evitar mal-entendidos que, ainda na praia da Nazaré, o copeiro da pensão encerrou assim nosso diálogo: — "Seu Leandro, esta noite os pernilongos não me deixaram dormir". — "Perdão, minha Sra.?" — "Os mosquitos, Seu Leandro". — "Ai, V. Excia. quer dizer os melgas?..." — "Não sei se são melgas, mas diga-me, aqui há maleita?" — "Perdão, minha Sra.?" — "Digo malária.." O homem olhou-me de banda e teve uma inspiração: — "V. Excia. não prefere falar em francês ou inglês?..."

Tinha razão o bom do homem. Assim que abandonamos o vernáculo nos entendemos perfeitamente.

Vejo agora nos jornais que vamos ter um Congresso da Língua Portuguesa, ao qual comparecerão seis filólogos lusitanos, e tenho medo que este grupo de escol resolva mexer outra vez na nossa ortografia, quando não tente unificar a língua d'aquém e d'além-mar.

Francamente, não vejo porque reviram e reformam a pobre ortografia, quando a língua falada em cada país é tão diversa. As reformas só têm tido o magnífico resultado de tornar analfabetos nossos poucos alfabetizados. Quantos de nós, que escrevemos profissionalmente, sabemos onde colocar os acentos ou se, afinal de contas, Pedro Calmon conseguiu defender o H de Bahia? O escritor ou jornalista geralmente escreve como aprendeu em criança, fiando-se no trabalho do especialista que é o revisor ortográfico indispensável a cada editora e redação. O povo escreve como lhe dá na cabeça, e a meninada que já passou por mais de uma reforma manda a ortografia às favas.

Os ingleses pouco se incomodam que os americanos simplifiquem "night", em "nite" e "through" em "thru", e não me consta que a França jamais se tenha preocupado com o francês falado e escrito no Canadá ou nas colônias, nem que a "Madre Pátria" espanhola estenda seu cuidado maternal até zelar pelo castiço da língua de Cervantes, cujos termos, nesta América Latina, mudam perigosamente de sentido de um país a outro.

Que venham os filólogos lusitanos, mas não se assanhem os mestres nacionais. Aproveitem a ocasião para ouvir as últimas maledicências correntes no Chiado e as novas anedotas sobre Salazar. Por sua vez, forneçam aos nossos irmão d'além-mar um estoque de anedotas cariocas que, repetidas em Lisboa, terão "imensa piada", e tenham a camaradagem de ensinar-lhes os sambas deste carnaval, que o samba é o produto brasileiro mais cotado em Portugal. No mais, lembrem-se que "o que se canta cá não se ouve lá, e o que se canta lá não se ouve cá".

Se temos garganta de sabiá, não vamos desafinar fingindo de rouxinóis.



(Antologia do Humorismo e Sátira — Rio de Janeiro, 1957)


(Ilustração: Mário Dionísio - O Músico; 1948)