sexta-feira, 2 de outubro de 2026

REPASTOS, de Fernando Campanella


Penso nas vacas como num mundo cifrado —

a cosmogonia circunscrita das vacas.

Mas que sei de universos fechados?

Eu, que suposta ciência tenho da alma,

dissipo noites, a cismar.

Sei que os bezerros às vezes param, e me observam,

quando por sobre o muro de silêncio os contemplo —

uma súbita luz, então, elide o tempo.

Depois nada mais acontece

a não ser um delicado ruminar de bezerros

absolvendo a tarde de metafísicas inúteis.

 


(Ilustração: Philipe Jacques de Loutherbourg (1740-1812) - paisagem com gado e figuras)

terça-feira, 29 de setembro de 2026

A MÁSCARA DA MORTE RUBRA, de Edgar Allan Poe



Por muito tempo a “Morte Rubra” devastara o país. Jamais pestilência alguma fora tão mortífera ou tão terrível. O sangue era seu avatar e seu sinal — a vermelhidão e o horror do sangue. Surgia com dores agudas, súbitas vertigens; depois, vinha profusa sangueira pelos poros e a decomposição. As manchas vermelhas no corpo, em particular no rosto da vítima, estigmatizavam-na, isolando-a da compaixão e da solidariedade de seus semelhantes. A irrupção, o progresso e o desenlace da moléstia eram coisa de apenas meia hora.

Mas o príncipe Próspero sabia-se feliz, intrépido e sagaz. Quando seus domínios começaram a despovoar-se, chamou à sua presença um milheiro de amigos sadios e frívolos, escolhidos entre os fidalgos e damas da corte, e com eles se encerrou numa de suas abadias fortificadas. Era um edifício vasto e magnífico, criação do gosto excêntrico, posto que majestoso, do próprio príncipe. Forte e alta muralha, com portões de ferro, cercava-o por todos os lados. Uma vez lá dentro, os cortesãos, com auxílio de forjas e pesados martelos, rebitaram os ferrolhos, a fim de cortar todos os meios de ingresso ao desespero dos de fora, e de escape, ao frenesi dos de dentro. A abadia estava amplamente abastecida. Com tais precauções, podiam os cortesãos desafiar o contágio. O mundo externo que se arranjasse. Por enquanto, era loucura pensar nele ou afligir-se por sua causa. O príncipe tomara todas as providências para garantir o divertimento dos hóspedes. Contratara bufões, improvisadores, bailarinos, músicos. Beleza, vinho e segurança estavam dentro da abadia. Além de seus muros, campeava a “Morte Rubra”.

Ao fim do quinto ou sexto mês de reclusão, quando mais furiosamente lavrava a pestilência lá fora, o príncipe Próspero decidiu entreter seus amigos com um baile de máscaras de inédita magnificência.

Que cena voluptuosa, essa mascarada! Mas me permitam, primeiramente, falar das salas em que se realizou. Era uma série imperial de sete salões. Na maioria dos palácios, tais séries formam longas perspectivas em linha reta, as portas abrindo-se de par em par, possibilitando a visão de todo o conjunto. Aqui, o caso era diverso, como se devia esperar do gosto bizarro do duque. Os apartamentos estavam dispostos de forma tão irregular que a vista abarcava pouco mais de um por vez. A cada vinte ou trinta metros, havia um cotovelo brusco, proporcionando novas perspectivas. À direita e à esquerda, no meio de cada parede, uma alta e estreita janela gótica abria-se para o corredor fechado que acompanhava as sinuosidades do conjunto. Essas janelas estavam providas de vitrais cuja cor variava de acordo com o tom predominante da decoração da sala para a qual davam. A sala da extremidade oriental, por exemplo, fora decorada em azul, e intensamente azuis eram suas janelas. A segunda sala tinha ornamento e tapeçarias purpúreas; purpúreas eram as vidraças. A terceira fora pintada de verde, sendo também verdes as armações das janelas. A quarta havia sido decorada e iluminada de alaranjado; a quinta, de branco; a sexta, de violeta. O sétimo aposento estava completamente revestido de veludo preto, que, pendendo do teto e ao longo das paredes, caía em dobras pesadas sobre um tapete de mesmo estofo e cor. Nesse aposento, entretanto, a cor das janelas não correspondia à das decorações. Suas vidraças eram vermelhas, de uma escura tonalidade sanguínea. Cumpre notar que em nenhum dos aposentos havia lâmpada ou candelabro pendendo do teto ricamente ornamentado a ouro. Luz alguma emanava de lâmpada ou candelabro em qualquer das salas. Contudo, nos corredores que as acompanhavam, em frente de cada janela, havia um pesado trípode a sustentar um braseiro cuja luz, filtrando-se através dos vitrais, iluminava o aposento, ocasionando uma infinidade de vistosas e fantásticas aparências. Na sala negra, porém, o clarão, infletindo sobre as negras cortinas através dos vitrais sanguíneos, produzia um efeito extremamente lívido e dava aparência tão estranha à fisionomia dos que ali entrassem que poucos tinham coragem de atravessar-lhe o umbral.

Era nesse mesmo aposento que havia, encostado à parede oeste, um gigantesco relógio de ébano. Seu pêndulo ia e vinha num tique-taque lento, pesado, monótono. Quando o ponteiro dos minutos completava a volta do mostrador e a hora estava para soar, saía dos brônzeos pulmões do relógio um som limpo, alto, agudo, extremamente musical, mas de ênfase e timbre tão peculiares que, a cada intervalo de hora, os músicos da orquestra viam-se constrangidos a interromper momentaneamente a execução para ouvi-lo. Nesses momentos, era forçoso que os dançarinos parassem de dançar, e um breve desconcerto se apoderava da alegre companhia. Enquanto vibrava o carrilhão do relógio, os mais afoitos empalideciam, e os mais idosos e sensatos passavam a mão pela fronte, como em sonho ou meditação confusa. Tão logo se esvaíam os ecos, um riso ligeiro percorria a assembleia. Os músicos se entreolhavam, sorrindo da própria nervosidade e loucura, fazendo juras sussurradas, uns aos outros, de que o próximo carrilhonar do relógio não mais produziria neles tal comoção. Todavia, sessenta minutos mais tarde (que abrangem três mil e seiscentos segundos do tempo que voa), quando vinha outro carrilhonar do relógio, de novo se dava o mesmo desconcerto, o mesmo tremor, a mesma meditação de antes.

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A despeito de tudo isso, a folia ia alegre e magnífica. Os gostos do duque eram originais. Tinha ele olho esperto para cores e efeitos. Desprezava as maneiras da moda em vigor. Seus projetos eram audazes e vivos; suas concepções esplendiam de um lustro bárbaro. Muitos acreditariam tratar-se de um louco. Seus adeptos, porém, sabiam que não. Era preciso ouvi-lo, vê-lo e tocá-lo para assegurar-se de seu juízo perfeito.

Em grande parte, ele comandara pessoalmente a caprichosa decoração das salas para a grande fête; sob sua orientação, haviam sido escolhidas as fantasias. Sem dúvida, elas eram grotescas. Havia muito brilho, muita pompa, muita coisa fantástica, muito daquilo que, desde então, pode-se ver em Hernani. Havia figuras arabescas, com membros e adornos desproporcionados. Havia fantasias delirantes, invenções de louco. Havia muito de belo, de atrevido, de bizarro, algo de terrível, capaz em não pouca medida de provocar aversão. Para lá e para cá, nas sete salas, movimentava-se uma multidão de sonhos. E esses sonhos andavam de um canto a outro, impregnando-se do colorido das salas, fazendo a música extravagante da orquestra soar como o eco de seus passos. Mas logo cantava o relógio de ébano na sala aveludada; por um momento, tudo se fazia imobilidade e silêncio, perturbado apenas por aquela voz. Os sonhos paravam, retesados. Porém, quando os ecos do carrilhão se esvaíam — tinham durado apenas um instante —, um frouxo de riso os acompanhava. E, mais uma vez, a música era reiniciada, os sonhos tornavam a viver e a circular mais alegremente que nunca, banhados pelas cores que a luz dos trípodes, atravessando os vitrais, projetava sobre eles. Entretanto, à última das sete salas, ninguém se aventurava, porque, avançando a noite, a luz filtrada pelas rubras vidraças fazia-se mais sanguínea; e a negrura dos panejamentos causava medo. Aqueles cujos pés pisassem o tapete veludoso ouviriam o som abafado do relógio, e o ouviriam mais solenemente enfático que os convivas dos demais salões.

Esses outros salões estavam cheios de gente; neles, pulsava febril o coração da vida. E a folia continuou, rodopiante, até que o relógio começou a bater meia-noite. A música parou, como já descrevi; acalmou-se o rodopio dos dançarinos; e, como antes, uma constrangida imobilidade tomou conta de todas as coisas. Doze foram as badaladas; por isso, os que meditavam entre os foliões tiveram tempo de meditar mais longa e profundamente. E antes que se esvanecesse o eco da última badalada, muitos dos convivas puderam perceber a presença de um novo mascarado, que, até então, não atraíra as atenções. Entre murmúrios, propagou-se a notícia da nova presença; elevou-se da companhia um zum-zum, um rumor de desaprovação e surpresa, a princípio; de terror, de horror e de náusea, depois.

Numa assembleia de fantasmas, como a que descrevi, era de supor que tal agitação não seria causada por aparição vulgar. Na realidade, a licença carnavalesca da noite fora praticamente ilimitada, mas o novo mascarado excedia em extravagância ao próprio Herodes; ultrapassava, inclusive, os indecisos limites de decoro impostos pelo príncipe. Há fibras no coração dos mais levianos que não podem ser tocadas impunemente. Mesmo para os pervertidos, para quem vida e morte são brinquedos igualmente frívolos, há assuntos sobre os quais não se admitem brincadeiras. Todos os presentes pareciam se dar conta de que, nos trajes e nas atitudes do estranho, nada havia de espirituoso ou de conveniente. Alto e lívido, vestia uma mortalha que o cobria da cabeça aos pés. A máscara que lhe escondia as feições imitava com tanta perfeição a rigidez facial de um cadáver que nem mesmo a um exame atento se perceberia o engano. E, no entanto, tudo isso seria, se não aprovado, ao menos tolerado pelos presentes, não fora a audácia do mascarado em disfarçar-se de Morte Rubra. Suas vestes estavam salpicadas de sangue; sua ampla fronte, assim como toda a face, fora borrifada com horrendas manchas escarlates.

Quando os olhos do príncipe Próspero caíram sobre aquela figura espectral (que, para melhor representar seu papel, caminhava entre os dançarinos com passos lentos e solenes), viram-no ser tomado de convulsões e arrepios de terror ou asco, no primeiro instante; logo depois, porém, seu rosto congestionou-se de raiva.

— Quem se atreve — perguntou roucamente aos cortesãos que o cercavam —, quem se atreve a insultar-nos com essa brincadeira blasfema? Agarrem-no, desmascarem-no! Assim saberemos quem deverá ser enforcado ao amanhecer!

Essas palavras vieram da sala azul, onde se achava o príncipe quando as pronunciou. Ecoavam pelas sete salas, alta e claramente, porque o príncipe era homem destemido e forte, e a música havia cessado, a um gesto seu.

Vieram da sala azul, onde estava o príncipe, rodeado de cortesãos empalidecidos. No primeiro momento que se seguiu à fala do príncipe, houve um ligeiro movimento de avanço do grupo em direção ao intruso. Este se achava perto e, com passos deliberados e firmes, aproximou-se do anfitrião. Mas, devido ao indefinível terror produzido pelo mascarado no ânimo de todos, ninguém se atreveu a agarrá-lo. Sem empecilho, ele se afastou, passando a um metro do lugar onde estava o príncipe. À sua passagem, toda a vasta assembleia, como que movida pelo mesmo impulso, afastou-se do centro das salas para as paredes, e o mascarado pôde seguir seu caminho com desembaraço, e com os mesmos passos solenes e medidos com que passara da sala azul à vermelha, da vermelha à verde, da verde à alaranjada, desta para a branca, e para a violeta, sem que nenhum dos circunstantes tivesse esboçado um gesto para detê-lo. Foi quando, louco de raiva e vergonha da própria e momentânea covardia, o príncipe Próspero cruzou apressadamente as seis salas, sem ninguém a segui-lo: o terror se apoderara de todos. Brandindo o punhal, avançava impetuosa e rapidamente; já estava a três ou quatro passos do vulto que se retirava, quando este, atingindo a extremidade da sala aveludada, virou-se bruscamente e enfrentou seu perseguidor. Nesse instante ouviu-se um grito agudo, e o punhal caiu cintilante no tapete negro, sobre o qual tombou também, instantaneamente e ferido de morte, o príncipe Próspero. Recorrendo à selvática coragem do desespero, um grupo de foliões correu para a sala negra e, agarrando o mascarado, cuja alta figura permanecia ereta e imóvel à sombra do relógio de ébano, detiveram-se eles, horrorizados, ao descobrir que a mortalha e a máscara mortuária que tão rudemente haviam agarrado não continham nenhuma forma tangível.

Só então se reconheceu a presença da Morte Rubra. Viera como um ladrão na noite. E, um a um, caíram os foliões nos ensanguentados salões da orgia, e morreram, conservando a mesma desesperada postura da queda. E a vida do relógio de ébano extinguiu-se simultaneamente com a do último dos foliões. E as chamas dos trípodes apagaram-se. E a Escuridão, a Ruína e a Morte Rubra estenderam seu domínio ilimitado sobre tudo.



(A causa secreta: e outros contos de horror; tradução de José Paulo Paes)



(Ilustração: Enrique Chavarria - the masque of the red death)


sábado, 26 de setembro de 2026

SYNTRA / SYNTRA, de Luisa Sigea



Est locus, occiduas ubi sol æstivus ad oram

Inclinat radios, nocte premente diem:

Oceanumque petit, curruque invectus eburno,

Iam cursu lassos æquore tingit equos.

Vallis ibi inclusa, scopulis ad sidera ductis,

Deflectit clivos: murmurat intus aqua.

Obiicit Oceano molem, ternæque minantur

Excelsæ rupes tangere tecta poli.

Et nisi condensi cingant fastigia nimbi,

His cælum credas sistere verticibus.

Rupibus his Fauni, sunt hic quoque lustra ferarum,

Venator matres figat ubi et catulos.

Inferne viridi densantur robora fronde:

Silvano et Satyris efficit umbra domos.

Populus hic, corylique decus, fagusque pirusque,

Et cerasus, prunus, castaneaeque nuces,

Et plantæ innumeræ mortalibus esca beatis,

Quæ sunt divorum munera cælicolum.

Flava Ceres dextra mortales vertere terram,

Et serere, et messes condere, sponte docet.

Pan læva, Arctoum mundus qua surgit ad axem,

Pascere dat passim gramina læta gregi.

Citrea mala rubent, vallis qua tendit ad imum,

Qualia fert rutilans hortulus Hesperidum:

Et lauri frondes, victorum premia quondam,

Quæque poetarum texere serta solent:

Et myrtus Veneri sacra crispatur in umbra:

Cuncta placent fructu, floribus ас redolent.

Hic philomela canit, tirtur gemit atque columba:

Nidificant volucres, quotquot ad astra volant.

Silva avium cantu resonat, florentia subtus

Prata rosas pariunt, liliaque et violas,

Fragrantemque thymon, mentam, roremque marinum,

Narcyssum et neptam, basilicumque sacrum:

Atque alios flores, ramos herbasque virentes,

Terra creat pinguis vallibus ac nemore-.

Queis passim Dryades capiti cinxere corollas,

Et Fauni et Nymphæ cornigerique Dei.

Ast ubi præcipitans leni fluit unda susurro

Per vallem umbrosam rupibus aëriis:

Stagna replet, pulchræ mersant ubi corpora Nymphæ,

Aurora aut splendet, seu tegit umbra polum:

Regia celsa lacu supereminet, unde comantem

Prospectat silvam candida virginitas.

Hinc ego prospiciens, oculis dum singula lustro,

Naturæ admirans munera, delicias,

Liquerat Auroram Cephalus, vultuque rubenti

Illa aperit terras, pandit et illa polum:

Emersit stagnis subito pulcherrima Nympha

Tunc forma referens, corpore, voce deam.

Suspicit, alloquiturque ultro me hac voce sedentem

Vocibus his: “Salve grata puella Deis.

Quid tecum, SYGAEA, putas? Tu principis almæ

Arcibus his spectans noscere fata cupis?”

Tunc ego: “Si superi firmarent numine quantum

Exoptem, dominant tollere ad astra velim,

О quæ cæsarie, vultuque, oculisque, sinuque,

Et certe incessu diva videre mihi!

Nympha loci custos, vitreo quæ gurgite lymphas

Concipis, et Divum pandere fata potes:

Tu mihi fatorum seriem, quæ regia virgo

Regna manet, resera, quosve manet thalamos?”

Illa libens roseo ( dum sic loquor) intonat ore:

“Quod, virgo, rogitas, accipe, nec dubita.

Neptunus genitor nuper me ad summa tonantis

Atria perduxit concelebrata Deis.

Constiterant cuncti vescentes nectare, пес non

Ambrosia: at postquam mensa remota fuit,

Digna petunt divi regali in principe dona,

Imperio ut superet, quas superat meritis.

Docta Minerva aderat, cantusque inventor Apollo,

Nec non Calliope, pignora chara lovis.

Quos coluit virgo, quorumque exercuit artes,

Illi gratantes munera pulchra petunt.

luppiter adridens vultu, quo sidera lustrat,

Respondet divis, qui petiere simul:

“Gaudete, o Superi: perstare immota potentis

Principis augustæ maxima fata volo.

Nec, licet adspiciat quasdam nunc carpere regna,

Desperet: capient mox sua fata locum.

Non nisi per magnos vincuntur magna labores:

Nec tulit ignavos regia celsa Deos.

Quosque aliæ sponsos captent, visuntur ubique:

Quem sibi fata parant, non nisi summa tenet.

Нæс reget Imperium fœlix, quum nupserit, orbis:

Pacatus dominæ cedet uterque polus.

Vade ergo, et timidæ referas, quæ diximus, oro

Fatidico, ut lætos exigat illa dies.

Nec sis sollicita, aut metuas prædicere fata:

Succedent votis ordine cuncta tuis.”

“Augurii, .repeto, tempus mihi, Nympha, recense.”

“Recte, inquit, rogitas: tempora nosse opus est.

Nam Pater omnipotens, epulis de more solutis,

Fatorum superis tempora certa dedit.

Ante polum quam sol circum volvatur utrumque,

Sæpius a Cancro versus ad Ægoceron,

Quæ cecini, venient: voti rea maxima princeps

Ante aram supplex tunc pia thura feret.

Dixerat, et liquidas resilit Dea rursus in undas,

Præcipiti et saltu gurgite mersa latet.

Ast ego, quæ Infantis causa dubitare solebam

Antea, tunc rediens omine certa fui.

Mercurium, credo, Nymphæ sub imagine Olympo

Demissum, ut Dominæ sic mihi fata canat.

Nunc supplex tendo iunctas ad sidera palmas

Pro tali augurio; nec mihi cassa fides.

Нæс ego quum cernam compleri in principe vates,

Spero cælicolas inter habere locum.



Syntra



Tradução do Reverendo Padre Fiadeiro(*):



Junto às praias do ocidente, onde o sol, ao aproximar-se a noite, já demanda o oceano, e levado no seu carro ebúrneo, quase toca o imenso mar, com os seus cavalos cansados pela longa carreira, fica um lugar, onde um vale ameno, por entre rochedos que se elevam até aos céus, se recurva em graciosos outeiros, por entre os quais se sente o murmurar da água.

Circunda o oceano a imensa mole, e três píncaros elevadíssimos guindam-se até aos astros, a ponto de, quando densas nuvens os não coroam, chegarmos a acreditar que o céu assenta sobre tais colunas.

Vivem os Faunos nestas solidões, as quais servem de abrigo às feras, vindo frequentemente os caçadores armar laços às mães e aos filhos. Na parte inferior, os carvalhos apinham-se no meio de densa folhagem, fornecendo a sombra amplas casas para Silvano e para os Satyros. Aqui se encontram em grande número, o choupo, a aveleira, a faia, a pereira, a cerejeira, a ameixieira, os castanheiros, e inúmeras outras árvores que dão alimento aos felizes mortais, tudo dádiva dos Deuses do céu. À direita, a flava Ceres espontaneamente ensinou os mortais a lavrar os campos, a semeá-los, e a formar as searas. Do lado esquerdo para a parte do norte, a cada passo oferece Pan amplas pastagens para os rebanhos. Às faldas da serra ostentam-se viçosos limoeiros, tão belos quanto os costuma produzir o jardim das Hespérides. Aqui se encontram as folhas do louro, outrora prémio dos vencedores, com as quais ainda hoje os poetas costumam cingir as suas frontes, e cresce abundantemente a murta, tão querida de Vénus; tudo, enfim, nos encanta e perfuma o ambiente com a sua fragrância e com os seus frutos. Ressoam os bosques com os gorjeios do rouxinol, geme a rola, e a pomba, e fazem ali seus ninhos todas as aves que voam pelo espaço, no meio de um chilrear ensurdecedor.

Nos prados florescem as odoríferas rosas, os lírios, as violetas, o fragrante tomilho, a hortelã, o alecrim, o narciso, o poejo bravo, a videira sagrada, e muitas outras flores, ervas e arbustos que a terra fertilíssima produz, nos vales, e nas selvas, com que a cada passo ornam as suas frontes as Dryades, os Faunos, as Ninfas, e os Deuses cornígeros. Corre a água cristalina com brando murmúrio pelo meio do vale sombrio, por entre enormes rochedos, e nos pequenos lagos que ela forma, costumam vir banhar-se as formosas Ninfas, no romper da aurora, ou mesmo ainda quando a noite tem o seu manto estendido pela serra. Sobranceiro a um destes lagos fica soberbo palácio, de onde a régia prole, na candura da inocência, desfruta o sublime panorama que lhe oferece a espessa mata.

Enquanto eu daqui espraiava os olhos por todo o horizonte, admirando tanto mimo, tantas delícias da natureza, Céfalo tinha deixado a Aurora, e ela ruborizada começou a iluminar as terras afugentando a noite.

Então repentinamente, de um dos lagos, levanta-se uma Ninfa com um corpo e uma voz divina, olha, e assim se me dirige, espontaneamente com estas palavras amigas:

‘Salve! donzela, que tão grata és aos Deuses. Em que pensas, ó Sigeia? Habitando nestas altas mansões, desejas conhecer os destinos da tua querida princesa?"

Então eu:

"Se os Deuses despachassem favoravelmente os meus desejos, levantaria até aos astros Senhora tão excelsa. Ó Ninfa, guarda deste recinto, que semelhas urna deusa com essa tua formosa madeixa, nesse teu rosto, nos olhos, no seio e mais que tudo no teu majestoso porte, tu que reúnes as águas no vítreo pego, e tens poder para revelar os destinos dos Países, diz-me para que reinos e para que tálamos está destinada a princesa real’.

Enquanto assim falo, ela alegre solta dos róseos lábios as seguintes palavras:

“Ó Donzela, ouve a resposta ao que me perguntas e não duvides: O Pai Neptuno conduziu-me há pouco até aos remontados paços onde Júpiter costuma reunir os deuses. Lá os vi todos libando o néctar precioso e a ambrósia: terminado o banquete, os Deuses imploram para a princesa dons régios, que a façam avantajar-se em poder a quantas excede já em merecimentos. Achava-se presente a douta Minerva, Apolo inventor do canto, e também Calíope, todos estimadíssimos de Júpiter, e também estimados da princesa, cultora exímia das suas artes. Agradecidos portanto eles pedem dádivas extraordinárias.

Júpiter com o sorriso com que ilumina os astros, responde assim á súplica unânime dos Deuses:

— Alegrai-vos, ó Deuses! Sabei que é minha vontade que fiquem inabaláveis os destinos da augusta e poderosa princesa. Não desespere, embora veja que outras princesas a vão precedendo no trono: a seu tempo os destinos dela assumirão o seu lugar. As grandes coisas só se alcançam por meio de grandes trabalhos: nem o régio Olimpo detém os Deuses inactivos; por toda a parte são vistos os esposos que outras hão-de tomar, porém aquele que os Fados lhe destinam a ela, só o sabem as mentes celestes. Depois, feliz, quando casar, terá o império do mundo; e um e ouro hemisfério pacificados, curvar-se-ão diante da sua Senhora.

Vai pois, e conta-lhe com discrição o que te acabámos de vaticinar, para que ela passe os dias tranquilos. Nem fiques com cuidados, ou temas relatar-lhe os destinos: todos os teus desejos se irão gradualmente realizando. "

- "Todavia, diz-me ó Ninfa, encarecidamente to peço, o tempo do presságio».

«Perguntas bem; é necessário conhecer também os tempos; porque o Pai omnipotente, levantada a mesa, os marcou nos deuses. Antes que o sol da primavera se volva por sobre um e outro pólo, muitas vezes de Câncer para Capricórnio, sucederão todas as coisas que profetizei.

A ilustre princesa, então, irá súplice diante dos altares oferecer os seus votos, juntamente com o incenso”.

— Assim falara, e a Deusa, de novo salta para as líquidas aguas e veloz na carreira, esconde-se no pego.

E eu que de tudo costumava duvidar em atenção à Princesa, voltei depois segura do vaticínio.

Creio que Mercúrio foi mandado do Olimpo sob a forma de uma Ninfa, para me predizer o futuro da minha Senhora.

Agora, suplicante, levanto para os céus as minhas mãos por tão feliz acontecimento, porque, em verdade, não me falece a crença.

E quando eu vir já tudo completamente realizado na Princesa, espero então obter um lugar entre os habitantes do céu.



Nota:

(*) Actualizou-se a ortografia.



Fontes:

Latim: ALOISIÆ SYGÆÆ Toletana, Syntra, aliaque eiusdem ac nonnullorum præterea virorum ad eamdem epigrammata, PAULLI III epistola, et tumulo eiusdem ab ANDREA RESENDIO et CLAUDIO MONSELLO concinato, in Clarorum Hispanorum opuscula selecta et rariora tum latina, tum hispana, edição de F. Cerdà y Rico, Madrid, 1781, pp. 261-264.

Versão Portuguesa: Conde de Sabugosa, O Paço de Sintra, Câmara Municipal de Sintra, 1989-1990, edição facsimilada da da IN de 1903



(Ilustração: François Boucher - two nymphs)

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

FOTOGRAFIA, EROS E THANATOS EM (DES) LIMITES SENSUAIS ENTRE PAIXÃO E DESEJO (UMA REFLEXÃO SOBRE O NU ARTÍSTICO, O EROTISMO E A PORNOGRAFIA), de Adriana Vianna




Tradicionalmente, o pensamento sobre o corpo na nudez artística passa pelo conceito de apelo sexual. Desde a Grécia Antiga, a filosofia dividiu-se entre punir o corpo e os prazeres dos sentidos com o ideal ascético enquanto os hedonistas eram, na melhor hipótese, os imorais. A questão é que o limite entre as manifestações artísticas que envolvem os fenômenos do instinto e os fenômenos emocionais do corpo, foram e ainda são, por muitos, tratados como negativos, ruins e de mau gosto. O sex appeal que faz parte da vida, na fauna e na flora, é inato à existência, apreciado ou não, explorado ou não, ele existe - independente de registros fotográficos ou plásticos. A ênfase e a interpretação que se dá, a cada práxis, pode ser determinante para contornar o artístico - entre o erótico e o antropológico, entre o erótico e o pornográfico, entre a fantasia e a vida.

Não faz muito tempo houve um leilão na Sotheby's com o tema “Erotic: Passion & Desire” que tratou de reunir imagens de obras plásticas e fotográficas de nus em diversas tensões e variações a fim de provocar o que está entre o erótico e o pornográfico. A interpretação do leilão destacou a nudez nas diversas artes para conexões sensuais da paixão, do amor e do sexo, explorando desde a beleza do desejo às representações do nu - até o próprio ato carnal de consumação sexual, despojado de metáforas, enigmas, sutilezas, sugestões. Apresentando mais de cem obras em suportes variados, o leilão arrecadou £ 5.292.625, ultrapassando os valores estimados.

A mobilidade modernista era o contexto de Man Ray. Seus amigos Marcel Duchamp (ready-made) e Francis Picabia perceberam o simbolismo sexual das máquinas: Picabia achava erótico até os carburadores. Mas a imagem surpreendente de Man Ray atribui significado sexual a um secador de cabelo elétrico. Imediatamente, isso sugere “L'Origine du monde” de Courbet, o mais famoso “click” de virilha da história da arte, bem como o estado de espírito “alucinante” (perturbado) cultivado pelos surrealistas. Na verdade, Man Ray enviou suas fotos para Andre Breton, o fundador do Surrealismo, cuja crença era “a beleza deve ser convulsiva” - como de fato aconteceria com uma rajada de ar quente entrando na vagina. Esta fotografia poderosa e transgressora obscureceu as fronteiras da pornografia e do erotismo tanto quanto, ou mais, que a pintura de Courbet.

Voluntariamente provocadora, esta obra distorce as regras vigentes até então. Regras que reservavam — ou pelo menos toleravam — nus inscritos nos contextos das grandes cenas mitológicas ou oníricas, sem se confrontarem diretamente ao real em sua crueza mais extrema.

Costuma-se dizer que a diferença entre pornografia e erotismo é simplesmente uma questão de iluminação e que também há uma diferença de intenção. Uma envolveria coerção e desgraça, o outro, beleza e deleite. Etimologicamente, a palavra pornografia vem do grego porné, derivado do grego peenemi, que significa “vender”. Originalmente, referencia-se àqueles que vendiam seus corpos para prostituição de um modo pouco normal e pouco apropriado, em situações explícitas e até violentas. Mas esses conceitos de “prostituição”, “vender o corpo”, também foram muito ampliados no século 21 e os limites entre os conceitos, que já desde sempre estiveram em linha tênue, se esbarram em muitas obras, sem amalgamar Eros e Thanatos.

A arte erótica sendo um campo muito subjetivo, sempre foi muito difícil diferenciá-la da pornografia. Ao tentar diferenciar os dois, a primeira coisa a considerar, talvez, seja o contexto. Se alguma fotografia erótica de hoje fosse mostrada durante o renascimento, muitas pessoas ficariam indignadas. Mas hoje temos uma abordagem totalmente diferente e mais moderna do que é considerado sexualmente explícito. Com essa ideia de contexto, é importante apreciar cada obra erótica do mesmo jeito que se aprecia qualquer outra arte e questionar o significado de cada obra. Dizem que arte erótica foca na sugestão para transmitir um significado, incentivando o espectador a inventar o resto da história. Se você vai concluir que o único interesse da obra é proporcionar prazer ao espectador, certamente pode ser considerada pornográfica. Talvez o erótico ainda esteja em uma esfera de apelo que convida à observação, como um convite sem promessa de encontro, deixando a ênfase recair sobre a plástica do corpo destacado pela iluminação, e dissociado de intenção. O apelo do pornográfico parece suscitar uma satisfação imediata, para resolver um problema do desejo. O apelo erótico não parece querer resolver objetivamente nada, mas problematizar o desejo, tornando-o ou revelando-o existente e latente.

Mas o limite ainda pode ser muito ambíguo, sem contexto. Por exemplo: a obra mural fálica de Keith Haring poderia, à primeira vista, ser considerada pornográfica, mas, na verdade, a pintura é uma das muitas obras criadas pelo artista, que luta para avançar nas pesquisas sobre a AIDS. Se levarmos em conta que o próprio artista morreu de AIDS, o mural fica ainda mais poderoso. A obra fica ainda mais forte quando se entende que Haring queria derrubar a falocracia instituída pelo falo como poder de governo para ser um simples órgão do corpo que está destinado a proporcionar prazer. Toda a obra desse artista é muito sugestiva, mas o público precisará de mais do que um simples olhar para decifrar todo o seu significado. Isso nunca é uma verdade para a pornografia, onde não há espaço para qualquer debate. Em termos simples, para determinar se uma obra é de fato pornográfica, você deve primeiro considerar essa obra como uma obra de arte, se for possível, pois a arte afirmou-se como cultural.

A obra “Nu Couché” de 1917, óleo sobre tela, do pintor italiano Amadeo Modigliani, representa uma mulher nua totalmente exposta. Esse trabalho tem sido objeto de muita controvérsia desde o início do Século 20 e a peça foi descartada pelo público. Mas, depois de quebrar o recorde do leilão da Christie's em 2015, vendida por 170.405.000 dólares para o empresário chinês Liu Yiqian, a obra foi destaque em jornais de todo o mundo. Contudo, o trabalho, mesmo assim, foi censurado.

Considerando a cultura atual e a atitude em relação à sexualidade, pode-se realmente perguntar por que essa obra foi censurada novamente.



(Ilustração: Keith Haring - Untitled, 1985)

domingo, 20 de setembro de 2026

A MALINCHE[*], de Margarida Vale de Gato




1.



Marina, la que yo sempre conmigo he traido

escreve-o a seu rei Cortés, meu concubino

aquele que me traz me trai, aportou num barco

me recebeu por escrava me trocou por dote

me ofereceu e retomou quando me viu útil

no interceder da fala nesse jogo bizarro

de telefone avariado



em que participaram:



um padre (Aguilar), três línguas, o temido

Moctezuma, o soberbo meu amo e uns quantos

caciques das terras, funcionando assim: Cortés

falava para o padre, o padre em maia para mim,

eu em náhuatl quer para o imperador quer

para outra gente que de bom grado trocava,

como eu, os astecas, seus altares de sangue

pelos cristãos e o deus único que são três



batizaram-me de Marina e em revanche

chamaram os índios “o Malinche” a Cortés;

como eu, que já fui Malintzin, a cativa

que agora é um híbrido, um corpo

estupro, a mãe de Martín o mestiço

do México, a quem os caciques temem

e as mulheres sibilam la chingada

e já esquecem os filhos levados pelo tirano

anterior e dizem que eu trouxe traidor

mais ímpio, a varíola, que por ouro

me despi, não honro a raça (mas como?

se morreu meu pai, me vendeu minha

mãe, se o abandono foi minha senha

o tráfico a minha vantagem, a dual

língua meu passe) que “não as represento”



mas qual entre nós não se sumiria já

criada para desembarcar rainha

qual de nós não sofreu de redução

à míngua, qual de nós, chingada, não teria

se pudesse, trocado de mãos e de língua?





2.



Os meus ovos, logo os pus na cesta

da indiferença do ego—da equi-

distância da sorte; se nasci

nobre, me enjeitaram por molesta

me tomaram por morta, por cativa



moeda, me passaram entre reinos

donos, credos. Por minha parte brandi

sobre um império dotes de linguista.



Quando com Cortés de raspão passámos

no retorno da conquista pela terra

de onde parti, a mãe velha, o irmão

que herdou—deixei-os gratos, pasmos:

nada de nativo me era congénito.



Eu pude ser real na abdicação.


Nota do blog:

[*] La Malinche (1496 d.C. ou 1505 d.C. - 1529 d.C) foi uma mulher nahuatl que se tornou guia, companheira e confidente de Hernán Cortéz durante a Conquista do México. É conhecida por diversos nomes como Malintzin, criado do seu nome Nahuatl de nascença (Malinalli), Marina (Doña Marina), nome que recebeu quando foi batizada, e Malinche, nome pelo qual é mais conhecida.



(Ilustração: Diego Muñoz Camargo - Cortés e Malinche de Lienzo Tlaxcala, c. 1585)

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O DIABO NO CONFESSIONÁRIO, de Mary del Priore




Os séculos ditos “modernos” do Renascimento não foram tão modernos assim. Um fosso era então cavado: de um lado, os sentimentos, e do outro, a sexualidade. Mulheres jovens da elite eram vendidas, como qualquer animal, nos mercados matrimoniais. Excluía-se o amor dessas transações. Proibiam-se as relações sexuais antes do casamento. Instituíram-se camisolas de dormir para ambos os sexos. O ascetismo tornava-se o valor supremo. Idolatrava-se a pureza feminina na figura da Virgem Maria. Para as igrejas cristãs, toda relação sexual que não tivesse por finalidade a procriação confundia-se com prostituição. Em toda a Europa, as autoridades religiosas tinham sucesso ao transformar o ato sexual e qualquer atrativo feminino em tentação diabólica. Na Itália, condenava-se à morte os homens que se aventurassem a beijar uma mulher casada. Na Inglaterra, decapitavam-se as adúlteras. E em Portugal, sodomitas eram queimados em praça pública.

A concepção do sexo como pecado, característica do cristianismo, implicava a proibição de tudo o que desse prazer. Desde as carícias que faziam parte dos preparativos do encontro sexual até singelos galanteios. Na verdade, os casamentos contratados pelas famílias, em que pouco contava a existência ou não de atração entre os noivos, submetidos a constante vigilância, deixavam pouco espaço para as práticas galantes, que precisaram se adaptar às proibições. Mensagens e gestos amorosos esgueiravam-se pelas frinchas das janelas ou sobrevoavam o abanar dos leques.

Tanto controle transformava as cerimônias religiosas (uma das únicas ocasiões em que os jovens podiam encontrar-se sem despertar suspeitas e repressões dos pais ou confessores) em palco privilegiado para o namoro. Não foram poucos os amores que começaram num dia de festa do padroeiro ou de procissão, havendo até os que esperavam a Quinta-feira Santa e o momento em que se apagavam as velas, dentro da Igreja, em respeito à Paixão de Cristo, para aproximar-se um do outro. E, no escurinho, choviam beliscões, pisadelas e gestos eróticos.

As igrejas paroquiais foram convertidas, nesse tempo, em espaço para namoricos, marcação de encontros proibidos e traições conjugais. Não foram poucas as ordens dadas por bispos setecentistas exigindo a separação de homens e mulheres no interior das capelas. O clero temia os encontros e suas consequências. Compreende-se, assim, o porquê de uma carta pastoral como a de dom Alexandre Marques, de 1732, proibindo a entrada nas igrejas de “pessoas casadas que estiverem ausentes de seus consortes”. Nas igrejas, brotavam romances sem limites. Não por acaso, um manual português de 1681, escrito por dom Cristóvão de Aguirre, continha as seguintes perguntas: “a cópula tida entre os casais na Igreja tem especial malícia de sacrilégio? Ainda que se faça ocultamente?”. Lugar de culto, lugar público, a igreja seria, então, também um lugar de sedução e de prazer. Onde, vez por outra, Deus dava licença ao Diabo...

No Brasil, as missas do século XVIII eram animadas por toda sorte de risos, acenos e olhares furtivos, transformando as igrejas, para desgosto dos bispos, em concorridos templos de perdição. Mal iluminadas, suas arcadas e colunas e os múltiplos altares laterais ofereciam recantos, resguardados da curiosidade alheia, onde se podia até mesmo tentar gestos ousados: do beijo ao intercurso sexual. A costumeira reclusão das donzelas de família e a permanente vigilância a que estavam expostos todos os seus passos tornavam missas, procissões, ladainhas e novenas ocasiões sedutoras, para as quais contribuíam os moleques de recado e as alcoviteiras, ajudando a tramar encontros. Abrigo de amantes, a igreja logrou converter-se, em certas circunstâncias, num dos raros espaços privados de conversações amorosas e jogos eróticos, nos quais se envolviam nada menos do que os próprios confessores. E tais jogos eram perpetrados até mesmo no refúgio dos confessionários.

Tal foi o sucedido com Marciana Evangelha, moça solteira de 29 anos que, no Maranhão, denunciara o jesuíta José Cardoso ao comissário do Santo Ofício em outubro de 1753. Ela o acusara de pedir-lhe “seu sêmen”, de dizer que “a desejava ver nua” e ainda de lhe pegar “nos peitos no confessionário”. Sobre as relações do padre e a moça, sabia-se, por exemplo – e é o comissário quem anota –, que “o trazia doido e fora de si e que por ela perdia muitas vezes o sono da noite, o que nunca lhe sucedera com outra mulher alguma”, e que “por amor dela havia de sair fora da religião”. Seduzida por declarações ardentes e promessas, a moça atrapalhava-se nos depoimentos. Tanto que, passados mais dois dias, voltou novamente à presença do comissário para declarar que o padre lhe garantira que, “se consentisse com ele lhe daria remédio para que ficando corrupta parecesse virgem e que para não conceber lhe daria também remédio”.

Românticos não eram raros. E havia alguns como o padre Francisco Xavier Tavares, capaz de uma súplica cavalheiresca a Maria Joaquina da Assunção, mulher casada: “se queria ter com ele uns amores e se consentia que ele fosse a sua casa”. Outros confessores chegavam a requintes galantes, ofertando flores às suas escolhidas em pleno confessionário ou fazendo como o padre Custódio Bernardo Fernandes, que, no Recolhimento das Macaúbas, em Minas Gerais, dissera a Catarina Vitória de Jesus que lhe queria bem. Mais, perguntando se ela era sua, meteu na boca um raminho, pedindo a ela que o puxasse com seus dentes.

Mas existia, também, o avesso da história. O confessionário era tido como espaço ideal para abordagem de mulheres diabolicamente sedutoras. Na Bahia, ao receber “um escrito” amoroso da parda Violante Maria, o pároco João Ferreira Ribeiro mandou-lhe um recado “por um mulato seu confidente” para que fosse à igreja de Santo Antônio e, acabada a missa, se encontrasse com ele no confessionário. Marcaram então um encontro no caminho que ia para o lago e “lá entraram ambos no mato e teve ele acesso carnal a ela”. Fora dela que partira a iniciativa da conquista.

Essas atitudes parecem surpreendentes, sobretudo por virem de indivíduos que deveriam atuar como agentes da Reforma Católica dos costumes. Chocante? Não. As pesquisas têm demonstrado que as ideias reformadoras de católicos e protestantes só lentamente se traduziram em efetivas mudanças de comportamento por parte da população cristã. O processo variou em seu ritmo conforme as regiões atingidas, mesmo se considerarmos apenas o continente europeu. A exportação da Reforma Católica para o além-mar multiplicou as dificuldades normalmente impostas a uma tarefa dessa natureza. Basta lembrar as grandes distâncias, a falta de clérigos, a precária estrutura paroquial em um imenso território de ocupação populacional dispersa, as peculiaridades culturais de uma sociedade híbrida na qual se despejavam continuamente, através do degredo, elementos desviantes da metrópole, os vícios inerentes à escravidão e ao desmedido poder local concedido aos senhores. Isso tudo atrasou a efetivação da Reforma – entendida como projeto da aculturação – na colônia. Isso tudo retardou a possibilidade de os padres serem homens acima de qualquer suspeita. Como tantos, eram feitos de carne e osso. Mais carne, até.



(Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil)



(Ilustração : Clovis Trouille (1889-1975) - le bon confesseur)

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

TRICKS WITH MIRRORS / TRUQUES DE ESPELHOS, de Margaret Atwood





i

It's no coincidence this is a used furniture warehouse.

I enter with you and become a mirror.

Mirrors

are the perfect lovers,

that’s it, carry me up the stairs by the edges, don’t drop me,

that would be bad luck, throw me on the bed

reflecting side up, fall into me,

it will be your own

mouth you hit, firm and glassy,

your own eyes you find you are up against closed closed

ii

There is more to a mirror than you looking at

your full-length body flawless but reversed,

there is more than this dead blue oblong eye turned outwards to you.

Think about the frame.

The frame is carved, it is important,

it exists, it does not reflect you,

it does not recede and recede, it has limits

and reflections of its own. There’s a nail in the back

to hang it with; there are several nails, think about the nails,

pay attention to the nail marks in the wood, they are important too.

iii

Don’t assume it is passive or easy, this clarity

with which I give you yourself. Consider what restraint it

takes: breath withheld, no anger or joy disturbing the surface

of the ice.

You are suspended in me

beautiful and frozen, I preserve you, in me you are safe.

It is not a trick either, it is a craft: mirrors are crafty.

iv

I wanted to stop this,

this life flattened against the wall,

mute and devoid of colour, built of pure light,

this life of vision only, split and remote, a lucid impasse.

I confess: this is not a mirror, it is a door

I am trapped behind.

I wanted you to see me here,

say the releasing word, whatever that may be, open the wall.

Instead you stand in front of me combing your hair.

v

You don’t like these metaphors. All right:

Perhaps I am not a mirror. Perhaps I am a pool.

Think about pools.



Tradução de Carolina Paganine:






i

Não é coincidência que este seja um armazém de móveis usados.

Entro com você e me torno um espelho.

Espelhos

são as namoradas ideais,

é isso, me carregue escada acima pelas bordas, não me deixe cair,

isso daria azar, me jogue na cama

reflexo pra cima, deite-se sobre mim,

vai bater com a própria boca, firme e vítrea,

seus próprios olhos você vê estão contra você fechados fechados

ii

há mais coisas em um espelho do que você olhar pro

seu corpo inteiro perfeito mas invertido,

há mais coisas que esse olho azul oblongo e mortiço voltado pra você.

Pense na moldura.

A moldura é entalhada, é importante,

ela existe, ela não reflete você, não recua e recua, tem limites

e reflexões próprias. Há um prego atrás

pra pendurar; há muitos pregos, pense nos pregos,

preste atenção nos pregos e suas marcas na madeira, elas são importantes também.

iii

Não acredite que seja passiva ou fácil essa claridade

com a qual eu te ofereço a si mesmo. Considere o comedimento

necessário: prender a respiração, sem raiva ou alegria agitando a superfície

de gelo.

Você está suspenso em mim

elegante e congelado, eu te preservo, em mim está seguro.

Não é truque nenhum, é uma arte espelhos são arteiros.

iv

Queria acabar com isso,

essa vida achatada contra a parede,

muda e desprovida de cor, feita de luz pura,

essa vida de visão apenas, apartada e remota, um lúcido impasse.

Confesso: isto não é um espelho, é uma porta

Estou presa atrás.

Queria que você me visse aqui,

dissesse a palavra que libertasse, qualquer que fosse, abrisse a parede.

Ao invés você está à minha frente penteando o cabelo.

v

Você não gosta dessas metáforas. Tudo bem:

Talvez eu não seja um espelho. Talvez eu seja um lago.

Pense nos lagos.



(Atwood, 1976, posição 1554-1589)



(Ilustração: Vera Rocline - la mujer y el espejo)