sexta-feira, 20 de abril de 2018

JARDINS SUSPENSOS, de Antonio Carlos Viana















Dava pena vê-lo a tarde inteira sentado no banquinho de plástico ao lado do tanque, no quintal. Minha mãe vinha e dizia "vai, vai lavar essa xoxotinha". Ele se levantava inteiramente outro, na sua bata estampada, com a voz ranhenta e pastosa. Eu ficava intrigado com minha mãe falando aquilo e ele, em vez de ficar triste, ficava era alegre. Só assim ele saía daquele torpor em que mergulhava logo depois de arrumar a cozinha. E em mim vinha uma curiosidade intensa que crescia a cada tarde, tentando descobrir que tipo de roupa ele usava por baixo porque nunca tinha visto nada parecido com cueca na corda de estender. Ou não usava nada ou fazia de sua roupa de baixo o maior segredo. O que ele tinha mesmo era uma porção de batas coloridas que fazia à mão, com muita paciência. 



Eu ouvia então o chuveiro despencando forte sobre seus cabelos mais escorridos que de índio a lhe descerem pelos ombros. E o corpo já devia estar coberto de espuma, um corpo liso talvez, como seus braços. Me vinha uma vontade doida de olhar pela janelinha, ver como ele era, que mistério havia sob aquele rosto triste e sem idade, que vivia a maior parte do tempo olhando para nada. Mas a janelinha era alta e, se minha mãe me pega, eu estava frito. Em que estaria ele pensando todas as tardes para só ser despertado por minha mãe dizendo aquela graça mais idiota? A nossa casa ficava numa vila de casinhas iguais, com o mesmo desconforto e sujeira. Eram casas escuras, tudo com o mesmo cheiro de ovo frito ou de carne moída sem tempero, parecendo grudado para sempre nas paredes. Raro o dia em que não estouravam brigas. Mas a gente vivia bela e solitariamente. 



Não sei que moral tinha mãe para despistar todo mundo de nossa vida, fazer com que ninguém se interessasse por nada que nos acontecia. Ela dizia que era também para eu não dizer nada na escola e, quando perguntassem quantos éramos, eu dizer só dois. Fazia de conta que ela alugava o quartinho dos fundos para ter mais uma renda. A vila tinha de bonito só o nome, de civilização antiga e opulenta, como dizia a professora nas aulas de História. Nabucodonosor era o meu rei. E eu vivia sozinho naquela casinha de nada, com aquele hóspede cuja origem minha mãe mantinha em segredo e que só fazia espicaçar a minha imaginação. Ela dizia "se perguntarem alguma coisa a você, diga que é nosso inquilino", como se naquele espaço mirrado pudéssemos nos dar a esse luxo. Ela fazia tudo para eu não ir brincar no rego com os outros meninos para não pegar doença. Eu fazia meus deveres, tempo de terra molhada ia brincar de furão, tempo de terra seca, soltava arraia. E ele sempre me olhando, o tempo passando e minhas inquietações crescendo. 



Uma vez por mês, em cada primeira sexta-feira, vinha um homem de branco e que não era doutor. Nessas noites eu tinha que dormir mais cedo e acordava de madrugada com muito cheiro de vela e a casa já em silêncio. No outro dia bem cedo, minha mãe saía com uma sacola na mão, onde eu via dois pombos alvíssimos sem as cabeças. Uma galinha também degolada, pretíssima, seria o nosso almoço. Era a única ocasião em que o via um pouco diferente, se bem que mais silencioso ainda. Mudava só as feições, como de quem conheceu o Paraíso. O seu contato com o mundo era só esse e, a cada dia, eu tentava me aproximar dele sem saber como. Ele só saía mesmo de casa quando lhe doíam os dentes e voltava com o lenço na boca, onde se viam largas manchas vermelhas. Suas gengivas iam ficando cada dia mais limpas e eu acho que ele ansiava pelo dia em que já não tivesse mais nenhum dente na boca. Já arrancara quase todos e devia certamente ser o primeiro da fila, pois saía com tudo ainda muito escuro e voltava esbaforido, me pegando ainda tomando o café para ir à escola. 



Uma vez tentei me comunicar com ele, como fazia minha mãe. Aí eu disse "vá, vá lavar a xoxotinha". Mas ele me lançou um olhar tão triste, tão amargo, que me fez apanhar a toalha e ir tomar um banho fora de hora. O que mais me chamava atenção nele eram os dedos finos e ágeis trabalhando tapetes de estopa que minha mãe ia vender longe, na cidade. O dinheiro dividia com ele. Não sei de que ele precisava. Seu quartinho era nu, com uma esteira e um caixote que ele arrumava, pondo em cima seus pentes de dentes finos e um pote de creme para as mãos. A manhã inteira passava fazendo esse trabalho e de tarde caía em suas cismas. Eu olhava para ele meio de banda, querendo descobrir algum segredo e via uns poucos fios de barba continuando a costeleta longa, que ele raspava com uma gilete meio embrulhada no papel da embalagem. Se a gente o pegava fazendo isso, disfarçava, como que envergonhado, escondendo a gilete na mão, com o ruído do papel de seda. 



Na escola, eu queria perguntar a alguém sobre os segredos do mundo, mas não me atrevia. Podiam rir ou pensar coisas de mim. Uma manhã me mostraram uma revistinha que me fez ficar com febre. Minha curiosidade aumentou. E eu olhava agora com mais freqüência, tantas vezes sem poder desviar os olhos de seu corpo tão encoberto. Perguntei a minha mãe por que ela dizia sempre aquela graça com ele, e ela, "você sabe que eu gosto de brincar", e pareceu ficar triste. Apesar das recomendações, eu não me continha mais dentro de casa, o mundo parecendo apertado para mim. E ele ficava agora todo inteiriçado quando me via. Até que numa tarde, sem mais nem menos, a voz ranhenta e pastosa, ao me ver, disse de repente, me tomando de surpresa: "quer ver dentro de mim?" E levantou a bata. Não usava nada mesmo por baixo. Com um riso estranho nos olhos, sentado no banquinho de plástico azul, abriu bem as pernas e de dentro delas brotou uma rosa sangrenta capaz de mudar o rumo de qualquer abelha.






(O Meio do Mundo e outros Contos)





(Ilustração: Bernard Buffet -1928-1999; 1967: tete rousse)



sábado, 14 de abril de 2018

BEING BEAUTEOUS, de Mário Cesariny





O meu amigo inglês que entrou no quarto da cama e correu de um só gesto todas as cortinas

sabia o que corria

digo disse direis era vergonha

era sermos estranhos mais do que isso: estrangeiros

e tão perto um do outro naquela casa

mas eu vejo maior mais escuro dentro do corpo

e descobri que a luz é coisa de ricos

gente que passa a vida a olhar para o sol

cultivar abelhas no sexo liras na cabeça

e mal a noite tinge a faixa branca da praia

vai a correr telefonar para a polícia



E não bem pelas joias de diamante os serviços de bolso e as criadas

digo ricos de espírito

ricos de experiência

ricos de saber bem como decorre

para um lado o sémen para o outro a caca

e nos doces intervalares

a urina as bibliotecas as estações o teatro

tudo o que já amado

e arrecadado no canto do olho a implorar mais luz para ter sido verdade



O meu amigo inglês não se lembrava

senão dos gestos simples do começo

e corria as cortinas e criava

para além do beijo flébil que podemos

a viagem sem fim e sem regresso





(Pena Capital)



(Ilustração: Paul Cadmus)








quarta-feira, 11 de abril de 2018

O MISTERIOSO HOMEM-MACACO, de Valêncio Xavier







Eu ia sozinho cantando: 

Tatu Peba 

Tatu Pe-reba 

Tatu bola 

Tatu en-rola 

Eu ia sozinho mais o cão. Segurava uma 28 de chumbo e nas costas uma Winchester 22, também pendurado o bornal com os cartuchos dos dois calibres, a garrafa com café adoçado e pão de milho para mim e o Divino, bom veadeiro, mas também de muita serventia para outras caças, prestimoso que era. 

De vez em quando puxava o facão da bainha presa na cinta para abrir caminho na mata densa, fechada. Mata escura, sombreada pelas copas de muitas árvores tapadoras, de raro deixando entrever uma nesga de céu muito azul sem nuvens. 

Já ia por volta das dez horas e eu ainda não tinha caçado nada. Calorão da mata, a língua do Divino sempre de fora, também eu suava, camisa molhada grudada no corpo. Mais de uma vez tive de atorar cipó com o facão para beber a água de dentro dele e dar para o cão, tanta a sede de nós dois. 

Meu rosto preto daquelas abelhinhas miúdas, pretas que nem mosca. Ao cão não incomodavam por causa do pêlo, mas em mim, que não usava barba naquele tempo, me cobriam a cara sugando meu suor pegajoso, tirando dele alimento para fazer seu mel azedo. Não adiantava espantar as bichinhas, se não picavam, também não arredavam dali, máscara preta cobrindo minha cara e fazendo aumentar o calor sentido. 

Depois de muito andar chego numa clareira, que refrigério! Me sento num toco e vou tirando a garrafa do bornal, quando ouço uns guinchos ardidos. Era um bando de macacos que, lá no alto, faziam a travessia de uma peroba para um ipê vizinho. Coisa até interessante de se ver, iam caminhando pelo galho pelado da peroba bem até a pontinha, e dali um de cada vez dava um salto, braços levantados, até o ipê. Pendurado pelo rabo num galho mais alto do ipê, um deles apanhava o companheiro no ar e, balançando-o, atirava-o são e salvo num galhão grosso do ipê, de donde seguiam caminho. 

Se um errasse o salto, ou se o outro não o agarrasse em tempo, ele caía e ia se esborrachar no chão lá embaixo. Bicho danado de engenhoso, o macaco, nisso até se parece com gente. 

Não sou chegado a carne de macaco, acho muito seca, musculosa, sabor azedo, mas como eu não tinha comido nada até aquela hora, catei a Winchester e me levantei já apontando para o alto. Divino nem reparou na cena, entretido que estava com o seu descanso. Cachorro é bicho mais preocupado com as coisas da terra, o que se passa lá em cima não lhe interessa, senão já estaria latindo feito um condenado. Já o macaco, lá no alto, sempre se preocupa com aquilo que se passa no chão. 

Quando apontei a arma quase todos já tinham passado, sobrava só um retardatário no galho da peroba. Aquele outro que estava pendurado pelo rabo no ipê, quando me viu, num átimo pulou para o meio das folhagens e sumiu da minha vista. Mirei então no retardatário, sem o companheiro que fugira não tinha como pular para o ipê. No comprido galho onde estava não tinha ramagem para se esconder, e o tempo era pouco para ele correr até um lugar mais coberto: eu atirava antes. O que fez ele quando se viu perdido? Se meteu a gritar e pular de desespero. Não morreu ali na hora porque não atirei logo, me distraí, rindo que estava de suas macaquices. 

Quando o bicho se tocou de que eu ia mesmo atirar, pegou das costas um macaquinho bem pequenininho e o levantou nos braços para me mostrar. Vi logo que era uma fêmea com sua cria recém-nascida. Gritou, se ajoelhou e se pôs a chorar - macaco é quase como gente -, uma mãe me pedindo para eu não matar seu filho. 

A gente faz muita maldade na vida, e na hora não percebe. Eu, ali, fiz uma que fui pagar bem caro depois, caro demais. Mas na ocasião não pensei em nada, e dei com o dedo no gatilho da Winchester, Bang. O que voou de pássaro com o barulho! Tiro certeiro: a macaca despencou lá de cima - queda demorada de tão alta - e veio se estatelar no chão da clareira. Só então Divino se deu conta e correu latindo para a caça estendida, morta. Corri junto, queria ver. Cheguei antes, e foi bom porque salvei a presa que o cão ia comer. Coisas de mãe que só Deus explica: não é que mesmo morta a macaca deu um jeito de proteger a cria?! Ela caiu segurando o filho e, quando bateram no chão, o corpo dela amorteceu a queda. Morreu bem mortinha, mas salvou o filho. 

Quando percebi que o cão, nervoso, rosnando, ia abocanhar o filhote, dei um pontapé no focinho, Passa, Divino!, e protegi o bichinho com as minhas mãos. O cão perdeu o filho mas ganhou a mãe, e aí abriu a bocarra e, numa sentada, devorou o cadáver morto da macaca, só deixou pele peluda e osso grande, o resto mandou para as tripas e ainda ficou lambendo o sangue do chão. 

O macaquinho tremia e chorava nas minhas mãos. Magrinho e miudinho, pensei, mas vai me servir de janta. Coloquei o bichinho dentro do bornal e com o calorzinho ele parou de tremer, aos poucos se acalmou, acho que até dormiu quieto, esquecido da morte da mãe. E eu peguei o caminho de casa. 

Na volta perdi o Divino. Caminhou uns tempos ao meu lado, normal, depois parou e devolveu tudo que tinha comido, vômito verde, fedido. Aí passou a caminhar inquieto, parando a toda hora para se mijar, sem levantar a pata, que nem uma cadela. Todo nervoso, começou a latir e a correr em roda tentando morder o próprio rabo. De repente, deu uma guinada e disparou ganindo, e sumiu no mato. Chamei, chamei, mas ele não voltou; ainda pensei em correr atrás dele, mas a mata era muito fechada e desisti. 

Nessa hora o macaquinho pôs a cabecinha para fora do bornal e espiou, olhinhos bem abertos, a mim me pareceu que ele até estava dando risada. Percebi então que a queda não o tinha afetado. 

Chegado ao rancho, contei a caçada pra minha mulher e mostrei o macaquinho. Seu malvado, ela me repreendeu. Isso não é coisa de cristão fazer. Achou bonito o bichinho: Tadinho, deve estar com fome, o pequeno órfão! E se tomou de dores pelo macaquinho. Foi tirar leite da cabra, e de um vidrinho com um chumaço de pano no gargalo aprontou uma mamadeira. O danadinho se achou! Era até bonito de ver aquele toquinho feioso, agarrado aos peitões da minha mulher, tomando seu leitinho adoçado com rapadura, chupando a mamadeira. 

E como mamava, o desgraçadinho! Não havia leite que chegasse. Não fosse, um dia depois, o cabritinho ter morrido de picada de cobra, não sei se a cabra ia ter leite suficiente para o sustento dos dois. Mamava tanto que dali a uns dias já estava forte e grandinho. Não sei se foi pelo leite de cabra, mais forte do que o leite da macaca sua mãe, ou se foi pelo fortume do açúcar de rapadura, só sei que lhe caiu quase todo pêlo, deixando à vista sua pele enrugadinha, parda, mosqueada. E daí ficou ainda mais parecido com gente humana. 

Minha mulher andava com ele para cima e para baixo, se tomou de amores pelo bichinho. Não largava dele nem para cozinhar, enquanto segurava o danadinho com uma das mãos, mexia nas panelas com a outra. 

Para cuidar da criação e trabalhar na roça, levava o macaquinho atado nas costas. Ele bem que gostava, ficava o tempo todo agarrado à minha mulher, como se ela fosse a mãe dele, a falecida. Dormia na nossa cama, os dois abraçados como mãe e filho. 

Tinha um pintão enorme, cabeça de prego, e para esconder essa vergonha minha mulher até fez umas fraldas, que trocava sempre que molhadas. Era muito dengue para uma criaturinha da mata, mas eu não ligava. Nossa filha já andava com doze anos, viçosa, bonita, carregava as tristezas próprias da idade, vivia ensimesmada, já não era companhia para a mãe. Nosso filho, Pedro, naquele tempo andava buscando ganhar a vida na cidade e quase nunca vinha nos visitar. 

Mulher é bicho diferente, tem suas coisas, suas manias, e desde que não incomode os outros o melhor é deixar. 

O carinho dela pelo macaquinho não perturbava ninguém, nem a mim nem à nossa filha. Se isso trazia alegria para ela, se diminuía sua solitude naquele rancho perdido no meio do mato, por que se incomodar, se existem tantas outras coisas para a gente se preocupar nesta vida que Deus nos deu? 

Não é mesmo? 

Assim foi indo até aquela noite da tempestade. Foi logo depois da janta, já muito escuro começou um vento forte, assobiador, e despencou uma chuvarada forte como nunca se viu antes, um verdadeiro dilúvio. Um frio úmido começou tão de repente que tive que me enrolar num cobertor. Era um relâmpago atrás do outro. A mulher queimou as palmas bentas e rezava assustada para Santa Bárbara. A menina tinha pavor de raio, se abraçou a mim fechando os olhos contra o meu peito, e assim ficou. Só o macaquinho parecia não se incomodar com o temporal, dormia o sono dos justos bem grudadinho na minha mulher. 

Foi a noite do cão. O medo não deixava ninguém dormir, nem sei como as águas não levaram embora o meu rancho, as horas foram passando e nada da chuva querer diminuir. Até que se deu o acontecido: na madrugada, nós três ainda acordados, assustados, molhados até os ossos pela chuva que caía pelos buracos do teto, e não é que de repente o macaquinho acorda, abre os olhinhos, se levanta, caminhando vai até o fogão, risca um fósforo e acende a lamparina? Na hora até que a gente não estranhou esse seu ato. Afinal, macaco é bicho esperto, achamos que o que ele fez não tinha sido nada mais do que imitar um gesto que tantas vezes nos viu fazer. O de causar espanto era ver a chama da lamparina, que, naquela ventania toda, se mantinha reta, firme, bem luminosa. O macaquinho veio se chegando perto de nós trazendo a lamparina acesa, nos olhos, bem nos olhos, e falou com um vozeirão grosso: 

- Eu me chamo João da Silva! 

Cruz credo, Ave Maria, te esconjuro! Já vi muito animal inteligente, mas nunca dantes nem eu, nem ninguém, viu bicho falar, ainda mais macaco. 

Foi um susto só: a menina começou a chorar de medo, o queixo da mulher caiu lá embaixo, os olhos arregalados, nem sei se de espanto ou terror. 

- Eu me chamo João da Silva! 

Dito isso, tirou o pinto para fora da fralda e, rindo de gargalhar, mijou quase ao pé da gente no chão de terra batida, mijou tão forte que abriu um buracão. 

No exato momento da mijada, caiu um raio tão forte, tão estrondoso que alumiou o mundo todo. Tão forte que a noite clareou como dia e derrubou o flamboyant que meu avô plantara na frente do rancho, queimando num fogo que nem a chuva conseguiu apagar, aquilo que talvez fosse a única beleza daquela terra. 

Eu me chamo João da Silva... foi assim que tudo começou. 

Foi nessa noite amaldiçoada que ele se revelou, que se fez homem aquele macaco amaldiçoado que em maldita hora eu fui trazer para dentro da minha casa. 

Esse macaco que fez o padre enlouquecer no dia do seu batizado. Que na escola onde foi aprender as primeiras letras atazanou tanto a professorinha que ela, coitada, abortou. Esse macaco que sempre tratei como filho e que abusou da inocência da minha filha, sua enteada, e fez mal para ela, matando minha mulher de desgosto. 

Que, com suas artimanhas diabólicas, fez meu filho Pedro pagar por ele, até hoje cumprindo pena na cadeia por um crime que o macaco cometeu. Que de tanto me judiar, me transformou no velho aleijado que hoje eu sou. Tanta sacanagem, tanta maldade, tanta coisa ruim esse João da Silva fez, e ainda faz em suas andanças pelo mundo, que se eu fosse contar levava a vida inteira e ainda não chegava ao fim. 

Não gosto nem de lembrar dos crimes hediondos que esse ser maligno cometeu. Mas, se você não tiver medo de ouvir e, para se precaver, quiser saber de toda a verdade sobre esse homem-macaco, um dia eu me armo de coragem e te conto tudo. 



(Ilustração: David Teniers  -1610-1690)







domingo, 8 de abril de 2018

A LA ORILLA DEL AGUA ESTANDO UM DIA / À BEIRA D'AGUA ESTANDO CERTO DIA, de Anônimo (século de ouro da literatura espanhola)


 




A la orilla del agua estando um dia,

ajena de cuidado, una hermosa

de mirarse su infierno deseosa,

por verse sola allí sin compañia,



la saya alzó que ver se lo empedía,

y, pegada de ver tan rica cosa,

le dice con voz mansa e amorosa:



"Por vos soy yo de tantos requebrada,

por voz me dan aljorcas, gargantilla,

chapines, saya y manto para el frio,



Um beso quiero darvos," Y abajada

a darle, por estar tan a orilla,

trompicó e cabeça y dio en el rio.



Tradução de José Paulo Paes:



À beira d'agua estando certo dia,

descuidada, uma dama primorosa

de mirar seu inferno desejosa

e vendo-se ali só, sem companhia,



a saia ergueu, que vê-lo lhe impedia

e feliz de ver coisa tão preciosa,

e que de dentro d'alma lhe saía:



"Por vós eu sou de tantos requestada,

por vós me dão colares e pulseira,

sapatos, saia e manto para o frio.



Um beijo quero dar-vos" e abaixada

para o dar escorregou na beira

e de cabeça despencou no rio.




(Ilustração: Edvard Munch - Desnudo femenino de rodillas, 1919)

sexta-feira, 6 de abril de 2018

DOIS CORPOS QUE CAEM, de João Silvério Trevisan







Por simples acaso, dois desconhecidos encontraram-se despencando juntos do alto do Edifício Itália, no centro de São Paulo. 

– Oi – disse o primeiro, no alvoroçado início da queda. – Eu me chamo João. E você? 

– Antônio – gritou o segundo, perfurando furiosamente o espaço. 

E, só pra matar o tempo do mergulho, começaram a conversar. 

– O que você faz aqui? – perguntou Antônio. 

– Estou me matando – respondeu João. – E você? 

– Que coincidência! Eu também. Espero que desta vez dê certo, porque é minha décima tentativa. anos venho tentando. Mas tem sempre um amigo, um desconhecido e até bombeiro que impede. Você afinal está se matando por quê? 

– Por amor – respondeu João, sentindo o vento frio no rosto. – Eu, que amava tanto, fui trocado por um homem de olhos azuis. Infelizmente só tenho estes corriqueiros olhos castanhos… 

– E não lhe parece insensato destruir a vida por algo tão efêmero como o amor? – ponderou Antônio, sentindo a zoada que o acompanhava à morte. 

– Justamente. Trata-se de uma vingança da insensatez contra a lógica – gritou João num tom quase triunfante. – Em geral é a vida que destrói o amor. Desta vez, decidi que o amor acertaria contas com a vida! 

– Poxa – exclamou Antônio – você fez do amor uma panaceia! 

– Antes fosse – replicou João, com um suspiro. – Duvidoso como é, o amor me provocou dores horríveis. Nunca se sabe se o que chamamos amor é desamparo, solidão doentia ou desejo incontrolável de dominação. O que na verdade me seduz é que o amor destrói certezas com a mesma incomparável transparência com que o caos significante enfrenta a insignificância da ordem. Não, o amor não é solução para a vida. Mas é culminância. Morrer por ele me trouxe paz. 

Ante o vertiginoso discurso, ambos tentaram sorrir contra a gravidade. 

– E você, como se sente? – perguntou João a Antônio. 

– Oh, agora estou plenamente satisfeito. 

– Então por que busca a morte? 

– Bom – respondeu Antônio – me assustou descobrir um fiasco primordial: que a razão tem demônios que a própria razão desconhece. Daí, preferi mergulhar de vez no mistério. 

– Sim, da razão conheço demasiados horrores. Mas que mistério é esse tão importante a ponto de merecer sua vida? 

– Não sei – respondeu Antônio. – Mistério é mistério. 

– Mas morto você não desvendará o mistério! – protestou João. 

– Por isso mesmo. O fundamental no mistério é aguçar contradições, e não desvendar. Matar-me, por exemplo, é bom na medida que me torna parte do enigma e, de certo modo, o agudiza. Tem a ver com a fé, que gera energias para a vida. Ou para a história, quem sabe… 

– Taí um negócio que perdi: a fé. Deus para mim… – e João engasgou. 

– Ora – revidou Antônio vivamente. – A fé nada tem a ver com Deus, que se reduziu a uma pobre estrela anã de energias tão concentradas que já nem sai do lugar. Deus desistiu de entender os homems, e virou também indagador. Sem Deus nem Razão, a única fé possível é mergulhar neste abismo do mistério total. 

– Mas para isso é preciso ao menos saber onde está o mistério – insistiu João com os cabelos drapejando ao vento. 

– Ué, o mistério está em mim, por exemplo, que me mato para coincidir comigo mesmo. Mas há mistério também em você: seu morrer de amor é o mais impossível ato de fé. Graças a ele, você participa do mistério. Porque se apaixonou pelos abismos. João olhou com olhos estatelados, ao compreender. E Antônio, que já faiscava na semi-realidade da vertigem, gritou com todas as forças: 

– Há sobretudo este mistério maior de estarmos, na mesma hora e local, cometendo o mesmo gesto absurdo e despencando para a mesma incerteza, por puro acaso. Além de cúmplices, a intensidade deste mergulho nos tornou visionários. Você não vê diante de si o desconhecido? É que já estamos perfurando a treva. 

E como tudo de fato reluzia, João também ergueu a voz: 

– Sim, sim. É espantoso o brilho do absurdo. 

– E agora – disse Antônio bem diante do rosto de João – falemos um pouco da permanência. Você gosta dos meus olhos azuis? 

Foi quando os dois corpos se estatelaram na Avenida São Luiz. 



(Cem melhores contos brasileiros do_século) 



(Ilustração: Nicholas Broughton - The Fall of Icarus)






quinta-feira, 5 de abril de 2018

CRIANÇA DE RUA SEM CIRCO NA PRAÇA QUINZE, de Maria Rezende








Criança malabarista de sinal,

de bola de tênis voando baixo,

rolando longe no asfalto molhado,

na poça vermelha do sinal fechado.



Criança dessa tem o circo é dentro dela:

é trapezista saltando no ar sem rede de proteção;

é palhaço de si, rindo do que não há,

fingindo ser ensaiada a puxada de cadeira que a derruba,

a tinta na cara feito máscara que a torne personagem

e só assim capaz de suportar esse número.




Criança dessa é bailarina sem roupa nem sombrinha

se equilibrando descalça na linha fina demais da vida,

o leão solto da jaula pronto pra dar o bote

e ela mágico sem cartola de onde tirar o truque derradeiro que a salve.

Pula o leão, vai-se a criança engolida numa só bocada.




De pé, o respeitável público aplaude e come amendoim.






(Ilustração: Hong Xiao Ling - poor children)

sexta-feira, 30 de março de 2018

CONTO DE VERÃO Nº2: BANDEIRA BRANCA, de Luis Fernando Veríssimo






Ele: tirolês. Ela: odalisca. Eram de culturas muito diferentes, não podia dar certo. Mas tinham só quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro. Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a todos os apelos desesperados das mães e ficaram sentados no chão, fazendo um montinho de confete, serpentina e poeira, até serem arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro baile de Carnaval. 

Encontraram-se de novo no baile infantil do clube, no ano seguinte. Ele com o mesmo tirolês, agora apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram recomeçar o montinho, mas dessa vez as mães reagiram e os dois foram obrigados a dançar, pular e entrar no cordão, sob ameaça de levarem uns tapas. Passaram o tempo todo de mãos dadas. 

Só no terceiro Carnaval se falaram. 

— Como é teu nome? 

— Janice. E o teu? — Píndaro. 

— O quê?! 

— Píndaro. 

— Que nome! 

Ele de legionário romano, ela de índia americana. 


*** 

Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se encontrarem no Carnaval e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela morava no interior, vinha visitar uma tia no Carnaval, a tia é que era sócia. 

— Ah. 

Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma tentando encher a boca das meninas de confete, e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do Bandeira branca, ele veio e a puxou pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E, quando se despediram, ela o beijou na face, disse “Até o Carnaval que vem” e saiu correndo. 

No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as fantasias dos dois combinaram. Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam olhando. Até na boca. Na hora da despedida, ele pediu: 

— Me dá alguma coisa. 

— O quê? 

— Qualquer coisa. 

— O leque. 

O leque da bailarina. Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão. 


*** 

No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo à procura, um havaiano desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro pensando nela, às vezes tirando o leque do seu esconderijo para cheirá-lo, antegozando o momento de encontrá-la outra vez no baile. E ela não apareceu. Marcelão, o mau elemento da sua turma, tinha levado gim para misturar com o guaraná. Ele bebeu demais. Teve que ser carregado para casa. Acordou na sua cama sem lençol, que estava sendo lavado. O que acontecera? 

— Você vomitou a alma — disse a mãe. 

Era exatamente como se sentia. Como alguém que vomitara a alma e nunca a teria de volta. Nunca. Nem o leque tinha mais o cheiro dela. 

Mas, no ano seguinte, ele foi ao baile dos adultos no clube — e lá estava ela! Quinze anos. Uma moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida. 

— Sei lá. Bávara tropical — disse ela, rindo. 

Estava diferente. Não era só o corpo. Menos tímida, o riso mais alto. Contou que faltara no ano anterior porque a avó morrera, logo no Carnaval. 

— E aquela bailarina espanhola? 

— Nem me fala. E o toureiro? 

— Aposentado. 

A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermuda, finalmente um brasileiro. Ela estava com um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente bávaros. Quando ela o apresentou ao grupo, alguém disse “Píndaro?!” e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava rindo também. Deu uma desculpa e afastou-se. Foi procurar o Marcelão. O Marcelão anunciara que levaria várias garrafas presas nas pernas, escondidas sob as calças da fantasia de sultão. O Marcelão tinha o que ele precisava para encher o buraco deixado pela alma. Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida, começando pelo Carnaval. Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro. 

Passou todo o baile encostado numa coluna adornada, bebendo o guaraná clandestino do Marcelão, vendo ela passar abraçada com uma sucessão de primos e amigos de primos, principalmente um halterofilista, certamente burro, talvez até criminoso, que reduzira sua fantasia a um par de calças curtas de couro. Pensou em dizer alguma coisa, mas só o que lhe ocorreu dizer foi “pelo menos o meu tirolês era autêntico” e desistiu. Mas, quando a banda começou a tocar Bandeira branca e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o com os dois braços para dançarem assim, ela dizendo “não vale, você cresceu mais do que eu” e encostando a cabeça no seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro. 


*** 

Encontram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste Carnaval. Por acaso, num aeroporto. Ela desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar os filhos no Rio. Ela disse “quase não reconheci você sem fantasias”. Ele custou a reconhecê-la. Ela estava gorda, nunca a reconheceria, muito menos de bailarina espanhola. A última coisa que ele lhe dissera fora “preciso te dizer uma coisa”, e ela dissera “no Carnaval que vem, no Carnaval que vem” e no Carnaval seguinte ela não aparecera, ela nunca mais aparecera. Explicou que o pai tinha sido transferido para outro estado, sabe como é, Banco do Brasil, e como ela não tinha o endereço dele, como não sabia nem o sobrenome dele e, mesmo, não teria onde tomar nota na fantasia de falsa bávara... 

— O que você ia me dizer, no outro Carnaval? — perguntou ela. — Esqueci — mentiu ele. 

Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Os filhos dele moram no Rio, com a mãe. Ela, o marido e a filha moram em Curitiba, o marido também é do Banco do Brasil... E a todas essas ele pensando: digo ou não digo que aquele foi o momento mais feliz da minha vida, Bandeira branca, a cabeça dela no meu ombro, e que todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: como é mesmo o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e que ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu... 



(Histórias brasileiras de verão) 



(Ilustração: Cynthia McLean - Trinidad Carnival)



terça-feira, 27 de março de 2018

NOTURNO DE CHOPIN, de Pedro Nava




    



Eu fico todo bestificado olhando a lua

enquanto as mãos brasileiras de você

fazem fandango no Chopin



Tem uma voz gritando lá na rua:

Amendoim torrado

tá cabano tá no fim...

Coitado do Chopin! Tá acabando tá no fim...



Amor: a lua tá doce lá fora

o vento tá doce bulindo nas bananeiras

tá doce esse aroma das noites mineiras:

cheiro de gigilim manga-rosa jasmim.



Os olhos de você, amor...



O Chopin derretido tá maxixe

meloso

gostoso

(os olhos de você, amor...)

correndo que nem caldo

na calma da noite belo horizonte.



(Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP)




(Ilustração: lua cheira em BH - Léo Fontes) 






sábado, 24 de março de 2018

PLEBISCITO, de Arthur Azevedo










A cena passa-se em 1890. 

A família está toda reunida na sala de jantar. 

O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade. 

Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga. 

Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias. 

Silêncio 

De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta: 

— Papai, que é plebiscito? 

O senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme. 

O pequeno insiste: 

— Papai? 

Pausa: 

— Papai? 

Dona Bernardina intervém: 

— Ó seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar, que lhe faz mal. 

O senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir os olhos. 

— Que é? que desejam vocês? 

— Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito. 

— Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito? 

— Se soubesse, não perguntava. 

O senhor Rodrigues volta-se para dona Bernardina, que continua muito ocupada com a gaiola: 

— Ó senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito! 

— Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei. 

— Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que é plebiscito? 

— Nem eu, nem você; aqui em casa ninguém sabe o que é plebiscito. 

— Ninguém, alto lá! Creio que tenho dado provas de não ser nenhum ignorante! 

— A sua cara não me engana. Você é muito prosa. Vamos: se sabe, diga o que é plebiscito! Então? A gente está esperando! Diga!... 

— A senhora o que quer é enfezar-me! 

— Mas, homem de Deus, para que você não há de confessar que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. Já outro dia foi a mesma coisa quando Manduca lhe perguntou o que era proletário. Você falou, falou, falou, e o menino ficou sem saber! 

— Proletário — acudiu o senhor Rodrigues — é o cidadão pobre que vive do trabalho mal remunerado. 

— Sim, agora sabe porque foi ao dicionário; mas dou-lhe um doce, se me disser o que é plebiscito sem se arredar dessa cadeira! 

— Que gostinho tem a senhora em tornar-me ridículo na presença destas crianças! 

— Oh! ridículo é você mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer: — Não sei, Manduca, não sei o que é plebiscito; vai buscar o dicionário, meu filho. 

O senhor Rodrigues ergue-se de um ímpeto e brada: 

— Mas se eu sei! 

— Pois se sabe, diga! 

— Não digo para me não humilhar diante de meus filhos! Não dou o braço a torcer! Quero conservar a força moral que devo ter nesta casa! Vá para o diabo! 

E o senhor Rodrigues, exasperadíssimo, nervoso, deixa a sala de jantar e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta. 

No quarto havia o que ele mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de água de flor de laranja e um dicionário... 

A menina toma a palavra: 

— Coitado de papai! Zangou-se logo depois do jantar! Dizem que é tão perigoso! 

— Não fosse tolo — observa dona Bernardina — e confessasse francamente que não sabia o que é plebiscito! 

— Pois sim — acode Manduca, muito pesaroso por ter sido o causador involuntário de toda aquela discussão — pois sim, mamãe; chame papai e façam as pazes. 

— Sim! Sim! façam as pazes! — diz a menina em tom meigo e suplicante. — Que tolice! Duas pessoas que se estimam tanto zangaram-se por causa do plebiscito! 

Dona Bernardina dá um beijo na filha, e vai bater à porta do quarto: 

— Seu Rodrigues, venha sentar-se; não vale a pena zangar-se por tão pouco. 

O negociante esperava a deixa. A porta abre-se imediatamente. 

Ele entra, atravessa a casa, e vai sentar-se na cadeira de balanço. 

— É boa! — brada o senhor Rodrigues depois de largo silêncio — é muito boa! Eu! eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu!... 

A mulher e os filhos aproximam-se dele. 

O homem continua num tom profundamente dogmático: 

— Plebiscito... 

E olha para todos os lados a ver se há ali mais alguém que possa aproveitar a lição. 

— Plebiscito é uma lei decretada pelo povo romano, estabelecido em comícios. 

— Ah! — suspiram todos, aliviados. 

— Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil! É mais um estrangeirismo!... 





(Contos fora da moda





(Ilustração: Debora Arango - 1907-2005 - plebescito)





quinta-feira, 22 de março de 2018

GRAMMAR / GRAMÁTICA, de Tony Hoagland


  



Maxine, back from a weekend with her boyfriend,

smiles like a big cat and says

that she's a conjugated verb.

She's been doing the direct object

with a second person pronoun named Phil,

and when she walks into the room,

everybody turns:



some kind of light is coming from her head.

Even the geraniums look curious,

and the bees, if they were here, would buzz

suspiciously around her hair, looking

for the door in her corona.

We're all attracted to the perfume

of fermenting joy,



we've all tried to start a fire,

and one day maybe it will blaze up on its own.

In the meantime, she is the one today among us

most able to bear the idea of her own beauty,

and when we see it, we do what is natural:

we take our burned hands

out of our pockets,

and clap.



Tradução de Maria Rezende:


Maxine, na volta de um fim-de-semana com seu namorado,

sorri feito um gato grande e diz

que é um verbo conjugado.

Ela está fazendo o objeto direto

com um pronome da segunda pessoa chamado Phil,

e quando ela entra

todo mundo se vira:



tem uma espécie de luz saindo da sua cabeça.

Até os gerânios parecem curiosos,

e as abelhas, se estivessem aqui, zuniriam

de forma suspeita em volta do seu cabelo, procurando

a porta pra sua coroa

Somos todos atraídos pelo perfume

da alegria fermentando,



todos tentamos começar um fogo

e um dia talvez ele queime por si só.

Por hora, ela é hoje aquela de nós

mais capaz de suportar a ideia da sua própria beleza,

e quando a gente a vê, faz o que é natural:

tira nossas mãos queimadas

dos bolsos,

e aplaude.



(Donkey Gospel)



(Ilustração: Georgy Kurasov) 



domingo, 18 de março de 2018

UM TELEFONE QUE DEU O QUE FALAR, de Renato Vivacqua








Carnaval de 1917, Rio de Janeiro. Surge com enorme sucesso o samba Pelo Telefone, de Ernesto dos Santos, vulgo Donga. Um fato até então inédito acontece: os clubes carnavalescos, que nunca tocavam a mesma música em seus desfiles, entraram na Avenida Central tocando o Pelo Telefone. Naquela época samba era uma espécie de festa com dança. Dizia-se hoje vou dar um samba lá em casa. A partir do Pelo Telefone é que ficou conhecido como gênero musical. Hoje, mais de 60 anos após o seu lançamento, é considerada a mais discutida e polemizada de nossas músicas. 

As dúvidas começam com a data de sua feitura. É de 1916 ou 1917? Alguns estudiosos citam 1917, baseados no sucesso que alcançou no Carnaval desse ano. Donga afirma que foi composto em 1916 e isso é confirmado pelo registro da parte de piano que fez na Biblioteca Nacional, em 16 de dezembro de 1916. 

Outra discussão é se foi com o Pelo Telefone que pela primeira vez a palavra samba apareceu na etiqueta de um disco(1). Pesquisadores encontraram edições de A Cabocla de Caxangá com a designação de samba, anteriores a 1917. Outros afirmam que o primeiro samba perpetuado em disco chamava-se Em Casa da Baiana, admitindo sua aparição em 1911. Ary Vasconcelos informa que em 1914 foi gravada A Viola está Magoada, onde consta o batismo de samba. Guimarães Martins, biógrafo de Catulo, diz que A Viola está Magoada, de autoria deste, foi composta em 1912. Donga é incisivo, declarando que registrou o Pelo Telefone com plena consciência de que era a primeira vez que aparecia um disco com a palavra samba. Em 1972, o assunto volta à baila quando o folclorista gaúcho Paixão Côrtes encontrou o catálogo de uma antiga gravadora gaúcha, que teria funcionado entre 1913 e 1914, onde nove músicas estão designadas de samba. 

O cearense Nirez manifesta-se dizendo ter em sua coleção particular discos da Odeon, com numeração anterior ao Pelo Telefone. Em 1974, Maurício Quadrio ganha vários discos da Casa Edison. Três deles continham o repertório da revista musical Avança e um trazia em sua etiqueta: Um Samba na Penha. 

Polemizou-se também a respeito de quem realizou a primeira gravação. Para Lúcio Rangel, a primeira foi da Banda Odeon, seguida de Baiano, cantor muito popular na época e histórico também, pois gravou o primeiro disco nacional. Ary Vasconcelos tem a mesma opinião, assim como Sérgio Cabral. Aí vem o Donga e embaralha tudo, a primazia à gravação do Baiano. 

A autoria foi também muito contestada. No carnaval de 1917, o samba foi às ruas com letra atribuída ao jornalista Mauro de Almeida, apelidado de Peru dos Pés frios. O primeiro verso era cantado de duas maneiras: 





O chefe da folia 

Pelo telefone 

Manda-me avisar 

Que com alegria 

Não se questione 

Para se brincar. 




Ou: 



O Chefe da Polícia 

Pelo telefone 

Manda-me avisar 

Que na Carioca 

Tem uma roleta 

Para se jogar. 


Donga, em depoimento no Museu da Imagem e do Som, diz que a letra original é O Chefe da Folia… e explica: O Chefe da Polícia… foi uma paródia feita pelos jornalistas de A Noite. Em entrevista a Sérgio Cabral e Ary Vasconcelos, porém, se contradiz afirmando que é O Chefe da Polícia… a letra inicial, mudada para O Chefe da folia… para evitar complicações com as autoridades. 


O fato que dá origem à versão O Chefe da Polícia… é de 1913, quando repórteres de A Noite colocaram uma roleta no Largo da Carioca, para com isso mostrar que o Chefe de Polícia fazia vista grossa à jogatina. Antes de J. Efegê descobrir a data certa da peça dos jornalistas, todos os historiadores diziam ter o fato se dado em fins de 1916. Fica a dúvida se esse verso do Pelo Telefone não era anterior ao lançamento do samba. 

Os pesquisadores são unânimes na citação de Mauro de Almeida como autor da letra. Donga conta que o autor do primeiro verso é um tal Didi da Gracinda. O Jornal do Brasil de 4 de fevereiro de 1917 publicava uma nota do Grêmio Fala Gente comunicando que seria cantado na Avenida Rio Branco O verdadeiro tango Pelo Telefone e citava os autores: João da Mata, Germano, Tia Ciata e Hilário, sendo delicado ao bom e lembrado amigo Mauro. Donga defende-se dizendo que as músicas eram diferentes. Almirante acusa Donga de omitir o nome de Mauro na parceria, dizendo ter este se apropriado do samba enganando parceiros. É incisivo: Donga não é autor do primeiro samba gravado. No máximo, segundo a história, é um dos parceiros. E acrescentava que o samba havia sido elaborado por uma equipe da qual participara inclusive Sinhô. Donga responde que Almirante nunca quis esclarecer a autoria do samba, mas apenas acusá-lo de apropriação indébita. Declarou peremptoriamente que a letra é de Mauro de Almeida. A omissão do nome de Mauro na gravação da Casa Edison não pode ser atribuída a mim. Em fevereiro de 1917 saía publicada uma paródia alfinetando Donga: 




Pelo telefone 

A minha boa gente 

Mandou-me avisar 

Que o meu bom arranjo 

Era oferecido 

Para se cantar 

Ai, ai, ai, leva a mão à consciência, meu bem 

Ai, ai, ai por que tanta presença, meu bem 

Ó que caradura dizer na roda 

Que o arranjo é teu 

É do bom Hilário e da Velha Ciata 

Que o bom Sinhô escreveu 

Tomara que tu apanhes 

Pra não tornar a fazer isso 

Escrever o que é dos outros 

Sem olhar o compromisso. 



O cronista Vagalume, no seu livro Na Roda do Samba, diz que a letra é um arranjo de Mauro de Almeida, a música também é um arranjo de Donga e o resto: foi pescado na casa da tia Ciata. Recentemente, Flávio Silva, num trabalho sherloqueano, encontra em jornais da época considerações de Mauro sobre o assunto. Num dos artigos ele revela que não é o autor, mas tão só o arreglador. Algumas daquelas estrofes já andaram por aí no canto popular, arreglei-as para que pudessem ser cantadas com a música que me fora oferecida. Em sua coluna de 24/1/17 respondendo a outro cronista que o citara como autor da letra comenta: devo dizer-te, meu caro Arlequim, como protesto em benefício da verdade, que os versos do samba carnavalesco Pelo Telefone não são originais, ou melhor, são mas não meus. Tirei-os de trovas populares… Isso que foi dito acima corrobora a feliz observação de Tinhorão, que disse ser o samba uma verdadeira colcha de retalhos, com nuanças de batuques, estribilhos do folclore baiano e maxixe carioca. 


Agora voltemos à letra. Além da primeira estrofe, já citada, que possui duas versões, ainda havia uma versalhada: 





I – O Chefe da Polícia ou O chefe da folia… 



II – Ai, ai, ai é deixar mágoas pra trás 

Ó rapaz 

Ai, ai, ai fica triste se és capaz e verás. 



III – Tomara que tu apanhes 

Pra não tornar a fazer isso 

Tirar amores dos outros 

Depois fazer teu feitiço. 



IV – Ai se a rolinha, sinhô, sinhô 

Se embaraçou, sinhô, sinhô 

É que a avezinha 

Nunca sambou, sinhô, sinhô 

Porque este samba, sinhô, sinhô 

De arrepiar 

Põe perna bamba 

Mas faz gozar. 



V – O Peru me disse 

Se o Morcego visse 

Não fazer tolice 

Eu então saísse 

Dessa esquisitice 

De disse e não disse. 

De disse e não disse. 



VI – Ai, ai, ai está o canto ideal 

Triunfal 

Ai, ai, ai viva o nosso Carnaval 

Sem rival. 



VII – Se quem tira amor dos outros 

Por Deus fosse castigado 

O mundo estava vazio 

E o inferno habitado. 



VIII – Queres ou não, sinhô 

Vir pro cordão, sinhô, sinhô 

Vir pro cordão sinhô, sinhô 

É ser folião, sinhô, sinhô 

De coração 

Porque este samba, sinhô, sinhô 

De arrepiar… etc. 



IX – Quem for bom de gosto 

Mostre-se disposto 

Não procure encosto 

Tenha o riso posto 

Nada de desgosto. 



X – Ai, ai, ai toca o samba 

Com calor 

Meu amor 

Ai, ai, ai pois quem dança 

Não tem dor nem calor. 



O estribilho Ai se a rolinha… é pernambucano, segundo Vagalume. A letra acima é a que Baiano esgoela no disco. Com o passar do tempo vira uma verdadeira casa-da-mãe-joana, com todo mundo mexendo, uns tirando, outros implantando palavras. O segundo verso, Claribalte Passos publica invertido: 



Ai, ai, ai, fica triste se és capaz e verás 

Bota as mágoas para trás… 



O quarto verso aparece também modificado: 



Olha a rolinha, sinhô, sinhô 

Se embaraçou 

Caiu no laço 

Do nosso amor. 



Edgar de Alencar restringe o samba a oito partes. Mário Reis, na gravação que fez para os festejos do IV centenário do Rio, canta quatro partes numa tremenda salada. A primeira ficou assim: 



O Chefe da Polícia 

Pelo Telefone 

Mandou-me avisar 

Que com alegria 

Não se questione 

Para se brincar. 



No quarto verso, cheio de puritanismo, trocou o malicioso me faz gozar por um castíssimo me faz CHORAR. Almirante canta o verso ai, ai se a rolinha em disco de um jeito e publica em seu livro de outra forma. Na partitura original, impressa pelo Instituto de Artes Gráficas do Rio, não constam a nona e a décima estrofes. Como podem observar, é uma tremenda barafunda. Eu, que não pretendo atiçar o fogo, faço minhas as palavras de Ary Vasconcelos quando reivindica para o Pelo Telefone o título de primeiro samba de sucesso, independendo a época de sua feitura. 



Notas 

(1) Quando este livro já se encontrava no nascedouro gráfico foi lançado pela Funarte a “Discografia brasileira 78 rpm”, notável trabalho de quatro infatigáveis pesquisadores: Jairo Severiano, Grácio Barbalho, Alcino Santos e Nirez. 

Uma das revelações não poderia deixar de ser mencionada: a palavra samba, sem dúvida alguma, apareceu pela primeira vez na face de um disco em 1909 e não 1904 como anteriormente foi anunciado e a música era “Um samba na Penha”, cantado por Pepa Delgado, lançado pela Casa Edison. Agora persiste a dúvida, se a peça é de 1904, porque a gravação só foi feita em 1909? 



(Ilustração: na foto, da esquerda para a direita Cascata, Donga, Ataulfo Alves, Pixinguinha, João da Baiana, Ismael Silva, Alfredinho do Flautim)