sexta-feira, 6 de novembro de 2026
SÓ NOS PRESÍDIOS SÃO ENCONTRADOS OS LIVROS PROIBIDOS, de Italo Calvino
Você aperta o cinto. O avião vai aterrar. Voar é o contrário de viajar: você atravessa uma descontinuidade do espaço, desaparece no vazio, aceita não estar em lugar nenhum durante um tempo que forma ele próprio uma espécie de vazio no tempo; logo reaparece num lugar e num momento sem relação com o lugar e o momento em que você desaparecera. Entrementes, o que você faz? Como ocupa sua ausência do mundo e a ausência do mundo em você? Lê; de um aeroporto a outro, não tira os olhos de um livro; porque, para além da página, está o vazio, o anonimato das escalas aéreas, do útero metálico que o contém e o nutre, da multidão passageira sempre diferente e sempre igual. Tanto faz apegar-se a essa outra abstração de percurso, levada a cabo por meio da uniformidade anônima dos caracteres tipográficos; também aqui é o poder de evocação dos nomes o que o convence de que está sobrevoando alguma coisa, e não o nada. Você sabe que é preciso boa dose de inconsciência para entregar-se a motores pouco seguros, controlados de maneira aproximativa; ou talvez isso prove uma tendência irreprimível à passividade, à regressão, à dependência infantil. (Mas, afinal, você está refletindo sobre a viagem aérea ou sobre a leitura?)
O aparelho aterra: você não conseguiu terminar a leitura do romance No tapete de folhas iluminadas pela lua, de Takakumi Ikoka. Continua a ler enquanto desce a escadinha, no ônibus que atravessa as pistas, na fila de controle de passaportes, na alfândega. Avança segurando o livro aberto diante dos olhos quando alguém o retira de suas mãos; como ao levantar-se a cortina do teatro, você vê enfileirarem-se a sua frente policiais com bandoleiras de couro cruzadas sobre o peito, munidos de armas automáticas, com águias e dragonas douradas.
— Mas meu livro… — você protesta debilmente, estendendo com gesto infantil a mão inerme para aquela barricada de botões brilhantes e bocas-de-fogo.
— Apreendido, senhor. Aquele livro não pode entrar na Ataguitânia. É um livro proibido.
— Mas como é possível…? Um livro sobre folhas de outono…? Mas com que direito…?
— Está na lista dos livros a apreender. Nossa lei é essa. Quer ensinar-nos o que fazer?
Rapidamente, de uma palavra a outra, de uma sílaba a outra, o tom mudou de seco a brusco, de brusco a intimidativo, de intimidativo a ameaçador.
— Mas eu… Faltava tão pouco para terminar…
— Desista — sussurra uma voz atrás de você. — Não vai conseguir nada com esses aí. Não se preocupe com o livro, também tenho um exemplar dele, falaremos disso depois…
É uma viajante com ar seguro, muito alta, de calças compridas, óculos, carregada de pacotes, que passa pelo controle como quem está habituada a isso. Você a conhece? Mesmo que tenha a impressão de conhecê-la, ela demonstra que não; certamente não quer ser vista conversando com você. Ela lhe faz um sinal para segui-la: não a perca de vista. Fora do aeroporto, ela entra num táxi e faz sinal, dessa vez, para que você tome o próximo. Num descampado, o táxi dela se detém, ela desce com todos os pacotes e sobe no táxi em que você está. Não fossem os cabelos curtíssimos e os óculos enormes, você diria que ela se parece com Lotaria.
Você tenta:
— Mas você é…?
— Corinna, chame-me de Corinna.
Após ter vasculhado a bolsa, Corinna tira um livro e o entrega a você.
— Mas não é este — você diz, vendo na capa um título e um nome de autor desconhecidos: Ao redor de uma cova vazia, de Calixto Bandera. — Foi um livro de Ikoka o que me expropriaram!
— É o mesmo que lhe entreguei. Na Ataguitânia, os livros só podem circular sob capas falsas.
Enquanto o táxi se dirige a toda a velocidade para uma poeirenta periferia, você não consegue resistir à tentação de abrir o livro para verificar se Corinna disse a verdade. Mas não. É um livro que você vê pela primeira vez e que não tem absolutamente nada a ver com um romance nipônico: começa com um homem que cavalga entre agaves num altiplano e assiste ao voo de aves de rapina chamadas zopilotes.
— Se a capa é falsa — você comenta —, o texto também será.
E Corinna:
— O que você esperava? O processo de falsificação, uma vez iniciado, não para mais. Estamos num país em que tudo que seja falsificável é efetivamente falsificado: quadros de museus, lingotes de ouro, bilhetes de ônibus. A contrarrevolução e a revolução se combatem a golpes de falsificações; o resultado é que ninguém mais pode ter certeza do que é verdadeiro e do que é falso; a polícia simula ações revolucionárias, e os revolucionários se disfarçam de policiais.
— E quem ganha no final?
— É muito cedo para dizer. É preciso ver quem sabe utilizar-se melhor das falsificações, tanto das próprias como das alheias: se a polícia ou se nossa organização.
O motorista do táxi aguça a audição. Você faz sinal a Corinna, como se para impedi-la de dizer frases imprudentes.
Mas ela:
— Não tenha medo. Este é um falso táxi. O que me preocupa é o outro táxi que nos segue.
— Falso ou verdadeiro?
— Certamente falso, mas não sei se é da polícia ou dos nossos.
Você olha para trás, para a estrada, e exclama:
— Mas há um terceiro táxi que segue o segundo!…
— Podem ser os nossos controlando os movimentos da polícia, mas também pode ser a polícia na pista dos nossos.
O segundo táxi ultrapassa o de vocês, para, dele saltam homens armados que obrigam todos a descer do carro.
— Polícia! Estão presos!
Os três são algemados e instalados — você, Corinna e o motorista — no segundo táxi.
Corinna, tranquila e sorridente, cumprimenta os policiais:
— Sou Gertrude. Este é um amigo. Conduzam-nos ao comando.
Você ficou boquiaberto? Corinna-Gertrude sussurra, no idioma que você fala:
— Não tenha medo. São falsos policiais; na verdade são dos nossos.
Mal retomam o caminho, já o terceiro táxi bloqueia o segundo. Dele saem outros indivíduos armados, com os rostos cobertos; desarmam os policiais, tiram as algemas de você e de Corinna-Gertrude, algemam os policiais, colocam todo mundo dentro do táxi deles.
Corinna-Gertrude parece indiferente.
— Obrigada, amigos — diz. — Sou Ingrid, e ele é um dos nossos. Vocês nos levam para o quartel-general?
— Você, cale o bico! — diz um que parece o chefe. — Não tentem bancar os espertos! Agora temos que vendar seus olhos. Vocês são nossos reféns.
Você não sabe mais o que pensar, até porque Corinna-Gertrude-Ingrid foi levada em outro táxi. Quando lhe permitem recuperar o uso dos membros e dos olhos, você se encontra num escritório de delegacia ou de quartel. Oficiais de uniforme o fotografam, de frente e de perfil, tomam suas impressões digitais. Um oficial chama: — Alfonsina!
E você vê entrar Gertrude-Ingrid-Corinna, também ela fardada, que entrega ao oficial uma pasta de documentos para assinar.
Enquanto isso, de uma mesa a outra, você segue a rotina: um policial apreende seus documentos; outro, seu dinheiro; um terceiro, suas roupas, que são substituídas por um uniforme de presidiário.
— Mas que arapuca é esta? — você consegue perguntar a Ingrid-Gertrude-Alfonsina, que se aproxima num momento em que os guardas dão as costas.
— Há contrarrevolucionários infiltrados entre os revolucionários; foram eles que nos fizeram cair numa emboscada da polícia. Mas, por sorte, também há na polícia muitos revolucionários infiltrados, os quais fingiram ter me reconhecido como funcionária deste comando. Quanto a você, vão enviá-lo a um falso presídio, isto é, a um presídio de verdade, mas controlado por nós, não por eles.
Você não consegue deixar de pensar em Marana. Quem exceto ele poderia ter inventado semelhante maquinação?
— Tenho a impressão de reconhecer o estilo de seu chefe — você diz a Alfonsina.
— Não interessa quem é o chefe. Poderia ser um falso chefe, que finge trabalhar para a revolução com o único objetivo de favorecer a contrarrevolução, ou que trabalha abertamente para a contrarrevolução, convencido de que assim abrirá caminho para a revolução.
— E você colabora com ele?
— Meu caso é diferente. Sou uma infiltrada, uma revolucionária de verdade infiltrada no campo dos revolucionários de mentira. Mas, para não ser descoberta, devo parecer uma contrarrevolucionária infiltrada entre os revolucionários de verdade. E de fato é que o sou, na medida em que obedeço às ordens da polícia, mas não da verdadeira, pois dependo dos revolucionários infiltrados entre os infiltradores contrarrevolucionários.
— Se entendo bem, aqui são todos infiltrados, ou na polícia, ou na revolução. E como vocês fazem para distinguir uns dos outros?
— É preciso verificar, pessoa a pessoa, quem são os infiltradores que a fizeram infiltrar-se. E, antes ainda, é preciso saber quem infiltrou os infiltradores.
— E vocês continuarão a combater-se até a última gota de sangue, mesmo sabendo que ninguém é o que diz ser?
— O que importa isso? Cada um deve desempenhar seu papel até o fim.
— E eu? Que papel devo desempenhar?
— Fique tranquilo, espere. Continue lendo seu livro.
— Maldição! Eu o perdi quando me libertaram, não, quando me prenderam…
— Não tem importância. Você vai para um presídio modelo, com uma biblioteca provida das últimas novidades literárias.
— Inclusive os livros proibidos?
— E onde senão nos presídios deveriam ser encontrados os livros proibidos?
(Se um viajante numa noite de inverno; tradução de Nilson Moulin)
(Ilustração: Banksy - fuga da prisão de Reading)
quarta-feira, 4 de novembro de 2026
НА ДНЯХ У СОКОЛА / POR ESSES DIAS EM SÓKOL [1], de Igor Khólin
Мать укокала
Причина скандала
Дележ вещей
Теперь это стало
В порядке вещей.
Tradução de Astier Basílio:
Uma moça
Matou a mãe a socos
A razão do escândalo
Divisão de bens
Agora é normal fazer isso
E tudo bem.
[1] Sókol, cidade localizada no oblast de Vologda, norte da Rússia.
(Ilustração: Vasily Persov - a mulher afogada)
quinta-feira, 29 de outubro de 2026
ANOTAÇÕES DE BIÁ: SÓ NÓS ACENDEMOS UM CIGARRO DEPOIS, de Carla Madeira
Sexo não é opcional para a humanidade. Tem a força das coisas que precisam acontecer. Foi preciso fazê-lo espetacular, nós dois sabemos o quanto ele é. E depois do sexo, seja como for, com ou sem amor ou moral, a vida continua, e aí está nossa miséria. Uma orgasmática miséria.
Somos animais, Teo.
Passamos perfume e achamos que não fedemos.
Sentamos em vasos de louça e tampa com duchas ao lado e civilizamos a merda. Mas somos animais. Se perdermos o controle dos esfíncteres, não haverá inteligência que nos salve. Só as fraldas, não sem antes nos humilhar. Nos humilha nossa matéria orgânica desenfreada, porque nos esfrega na cara que não controlamos tudo. Somos homens capazes de acabar com o mundo, mas animais incapazes de controlá-lo. A merda, Teo, tem claros propósitos didáticos: é o projeto somos-todos-iguais-diante-de-Deus. Já o sexo, somos nós diante de nós mesmos, todos-capazes-de-alguma-merda. É onde o pecado encontra fluidos em quantidades suficientes para se esbaldar. É a correnteza com a qual não se deve brincar. Você sabe que não sou religiosa, falo do ato de pecar como parte de nossa natureza propensa a tropeços, talvez metáfora dos momentos em que somos só animais, irracionais, puro sangue, animais sós. Mas animais nós somos, e nossa pitada de consciência não poderá cancelar essa condição. Nem a civilização ou os mandamentos. Nem nosso senso estético ou nossa sensibilidade poética. Ficamos ali naquelas posições deselegantes, nos lambendo, nos cheirando, nos sacudindo e fazendo sons de animais. Adoramos aquilo, não é, Teo? Como a gata faz com o gato, a cadela com o cachorro, a égua com o cavalo. Eu com você. E nos agride ouvir que fazemos como eles fazem. Por isso, nos chamam de cadela, nós, as mulheres, quando querem nos destruir. Alguém há de dizer, ofendido, que fazemos amor. Mas também fazemos sem amor, e, portanto, não está aí o que nos humaniza. Só nós acendemos um cigarro depois. E algum pensamento há de vir enquanto a fumaça enche o ar de bolinhas. Para nós, e para nenhum outro animal, existe o depois. Depois de nos lambuzarmos, quem sabe ao lavar a alma, quem sabe ao sujar as mãos, virão os pensamentos. E é com eles que seguiremos. Mesmo se tudo não passar de um sonho.
(A natureza da mordida)
(Ilustração: escultura de Edgar Tolson - Adam and Eve – 1979)
segunda-feira, 26 de outubro de 2026
PLACA “RAPARIGA DESCONHECIDA “, de Aldemar Paiva
Do bairro de Jaraguá
em Maceió tão florida
roubaram a placa de rua
pelo povo instituída,
contendo bela mensagem
e original homenagem
à “ meretriz desconhecida.“
Uma agressão desmedida,
um gesto triste, infeliz
ofendendo à profissão
mais antiga do país...
Uma atitude assassina
ferindo quem tem a sina
de nascer pra meretriz!
Como violeiro eu fiz
este apelo especial
em linguagem de cordel
pra sair neste jornal...
Dra. Cida me anima
junto com Carlito Lima
além de Pedro Cabral!
Minha cidade natal
do povo melhor que há,
da prostituta enfeitada
com a flor do maracujá...
Quantas lembranças antigas
do bairro das raparigas,
meu saudoso Jaraguá!
Sem ajuda de alvará,
de projeto ou de editais,
Governador ou Prefeito
mande fazer pelo Braz
nova placa na medida
pra “puta desconhecida “
poder descansar em paz!
(Ilustração: foto placa em homenagem à "rapariga desconhecida" reinstalada em agosto de 2019)
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Aldemar Paiva - Placa "rapariga desconhecida"
sexta-feira, 23 de outubro de 2026
UMA SOCIEDADE VIOLENTA, de Marilena Chauí
Conservando as marcas da sociedade colonial escravista, a sociedade brasileira é determinada pelo predomínio do espaço privado (ou os interesses econômicos) sobre o público e, tendo o centro na hierarquia familiar, é fortemente hierarquizada em todos os seus aspectos: nela, as relações sociais e intersubjetivas são sempre realizadas como relação entre um superior, que manda, e um inferior, que obedece. As diferenças e assimetrias são sempre transformadas em desigualdades, que reforçam a relação mando-obediência. O outro jamais é reconhecido como sujeito nem como sujeito de direitos, jamais é reconhecido como subjetividade nem como alteridade. As relações, entre os que julgam iguais, são de “parentesco”, isto é, de cumplicidade; e, entre os que são vistos como desiguais, o relacionamento toma a forma do favor, da clientela, da tutela ou da cooptação, e, quando a desigualdade é muito marcada, assume a forma da opressão. Há, assim, a naturalização das desigualdades econômicas e sociais, do mesmo modo que há naturalização das diferenças étnicas (consideradas desigualdades raciais entre superiores e inferiores), religiosas e de gênero, bem como naturalização de todas as formas visíveis e invisíveis de violência.
A violência está de tal modo interiorizada nos corações e mentes que alguém pode usar a frase "um negro de alma branca" e não ser considerado racista. Pode referir-se aos serviçais domésticos com a frase "uma empregada ótima: conhece seu lugar” e considerar-se isento de preconceito de classe. Pode dizer, como disse certa vez Paulo Maluf, “a professorinha não deve gritar por salário, mas achar um marido mais eficiente” e não ser considerado machista.
Podemos resumir, simplificadamente, os principais traços de nossa violência social considerando a sociedade brasileira oligárquica, autoritária, vertical, hierárquica, polarizada entre a carência e o privilégio e com bloqueios e resistências à instituição dos direitos civis, econômicos, sociais e culturais.
Nossa sociedade conheceu a cidadania através de uma figura inédita: o senhor (de escravos)-cidadão, e concebe a cidadania com privilégio de classe, fazendo-a ser uma concessão da classe dominante às demais classes sociais, podendo ser-lhes retirada quando os dominantes assim o decidirem. O caso da mídia contra a Ministra Matilde [*] exprime exatamente essa ideia de cidadania concedida e retirada ao sabor dos interesses dos dominantes. Pelo mesmo motivo, no caso das camadas populares, os direitos, em lugar de aparecerem como conquistas dos movimentos sociais organizados, são sempre apresentados como concessão e outorga feitas pelo Estado, dependendo da vontade pessoal ou do arbítrio do governante.
Em nossa sociedade, as diferenças e assimetrias sociais e pessoais são imediatamente transformadas em desigualdades, e estas, em relação de hierarquia, mando e obediência. Os indivíduos se distribuem imediatamente em superiores e inferiores, ainda que alguém superior numa relação possa tornar-se inferior em outras, dependendo dos códigos de hierarquização que regem as relações sociais e pessoais. Todas as relações tomam a forma da dependência, da tutela, da concessão e do favor. Isso significa que as pessoas não são vistas, de um lado, como sujeitos autônomos e iguais, e, de outro, como cidadãs e, portanto, como portadoras de direitos. É exatamente isso que faz a violência ser a regra da vida social e cultural. Violência tanto maior porque invisível sob o paternalismo e o clientelismo, considerados naturais e, por vezes, exaltados como qualidades positivas do "caráter nacional".
Nela, as leis sempre foram armas para preservar privilégios e o melhor instrumento para a repressão e a opressão, jamais definindo direitos e deveres concretos e compreensíveis para todos. Essa situação é claramente reconhecida pelos trabalhadores quando afirmam que "a justiça só existe para os ricos". O Poder Judiciário é claramente percebido como distante, secreto, representante dos privilégios das oligarquias e não dos direitos da generalidade social. Para os grandes, a lei é privilégio; para as camadas populares, repressão. A lei não figura o polo público do poder e da regulação dos conflitos, nunca define direitos e deveres dos cidadãos porque, em nosso país, a tarefa da lei é a conservação de privilégios e o exercício da repressão. Por este motivo, as leis aparecem como inócuas, inúteis ou incompreensíveis, feitas para serem transgredidas e não para serem transformadas - situação violenta que é miticamente transformada num traço positivo, quando a transgressão é elogiada como “o jeitinho brasileiro”.
Em nossa sociedade, não existem nem a ideia nem a prática da representação política autêntica. Os partidos políticos tendem a ser clubes privados das oligarquias locais e regionais, sempre tomam a forma clientelística na qual a relação é de tutela e de favor. É uma sociedade, consequentemente, na qual a esfera pública nunca chega a constituir-se como pública, pois é definida sempre e imediatamente pelas exigências do espaço privado (isto é, dos interesses econômicos dos dominantes). A indistinção entre o público e o privado não é uma falha acidental que podemos corrigir, pois é a estrutura do campo social e do campo político que se encontra determinada por essa indistinção.
É uma sociedade que por isso bloqueia a esfera pública da opinião como expressão dos interesses e dos direitos de grupos e classes sociais diferenciados e/ou antagônicos. Esse bloqueio não é um vazio ou uma ausência, mas um conjunto de ações determinadas que se traduzem numa maneira determinada de lidar com a esfera da opinião: os mass media monopolizam a informação, e o consenso é confundido com a unanimidade, de sorte que a discordância é posta como ignorância ou atraso.
As disputas pela posse da terra cultivada ou cultivável são resolvidas pelas armas e pelos assassinatos clandestinos. As desigualdades econômicas atingem a proporção do genocídio. Os negros são considerados infantis, ignorantes, safados, indolentes, raça inferior e perigosa, tanto assim, que numa inscrição gravada até há pouco tempo na entrada da Escola de Polícia de São Paulo dizia: "Um negro parado é suspeito; correndo, é culpado". Os índios, em fase final de extermínio, são considerados irresponsáveis (isto é, incapazes de cidadania), preguiçosos (isto é, mal adaptáveis ao mercado de trabalho capitalista), perigosos, devendo ser exterminados ou, então, "civilizados" (isto é, entregues à sanha do mercado de compra e venda de mão-de-obra, mas sem garantias trabalhistas porque "irresponsáveis"). Os trabalhadores rurais e urbanos são considerados ignorantes, atrasados e perigosos, estando a polícia autorizada a parar qualquer trabalhador nas ruas, exigir a carteira de trabalho e prendê-lo "para averiguação", caso não esteja carregando identificação profissional (se for negro, além de carteira de trabalho, a polícia está autorizada a examinar-lhe as mãos para verificar se apresentam "sinais de trabalho" e a prendê-lo caso não encontre os supostos "sinais"). Há casos de mulheres que recorrem à Justiça por espancamento ou estupro, e são violentadas nas delegacias de polícia, sendo ali novamente espancadas e estupradas pelas “forças da ordem". Isto para não falarmos da tortura, nas prisões, de homossexuais, prostitutas e pequenos criminosos. Numa palavra, as classes populares carregam os estigmas da suspeita, da culpa e da incriminação permanentes. Essa situação é ainda mais aterradora quando nos lembramos de que os instrumentos criados durante a ditadura (1964-1975) para repressão e tortura dos prisioneiros políticos foram transferidos para o tratamento diário da população trabalhadora e que impera uma ideologia segundo a qual a miséria é causa de violência, as classes ditas "desfavorecidas" sendo consideradas potencialmente violentas e criminosas.
É uma sociedade na qual a estrutura da terra e a implantação da agroindústria criaram não só o fenômeno da migração, mas figuras novas na paisagem dos campos: os sem-terra, volantes, boias-frias, diaristas sem contrato de trabalho e sem as mínimas garantias trabalhistas. Boias-frias porque sua única refeição - entre as três da manhã e as sete da noite - consta de uma ração de arroz, ovo e banana, já frios, pois preparados nas primeiras horas do dia. E nem sempre o trabalhador pode trazer a boia-fria, e os que não trazem se escondem dos demais, no momento da refeição, humilhados e envergonhados.
É uma sociedade na qual a população das grandes cidades se divide entre um "centro" e uma "periferia", o termo periferia sendo usado não apenas no sentido espacial-geográfico, mas social, designando bairros afastados nos quais estão ausentes todos os serviços básicos (luz, água, esgoto, calçamento, transporte, escola, posto de atendimento médico). Condição, aliás, encontrada no "centro", isto é, nos bolsões de pobreza, os cortiços e as favelas. População cuja jornada de trabalho, incluindo o tempo gasto em transportes, dura de 14 a 15 horas, e, no caso das mulheres casadas, inclui o serviço doméstico e o cuidado com os filhos.
É uma sociedade que não pode tolerar a manifestação explícita das contradições, justamente porque leva as divisões e desigualdades sociais ao limite e não pode aceitá-las de volta, sequer através da rotinização dos "conflitos de interesses" (à maneira das democracias liberais). Pelo contrário, a classe dominante exorciza o horror às contradições produzindo uma ideologia da indivisão e da união nacionais, a qualquer preço. Por isso recusa perceber e trabalhar os conflitos e contradições sociais, econômicas e políticas enquanto tais, uma vez que conflitos e contradições negam a imagem mítica da boa sociedade indivisa, pacífica e ordeira. Contradições e conflitos não são ignorados e sim recebem uma significação precisa: são considerados sinônimo de perigo, crise, desordem e a eles se oferece uma única resposta: a repressão policial e militar.
Nela vigora o fascínio pelos signos de prestígio e de poder, como se observa no uso de títulos honoríficos sem qualquer relação com a possível pertinência de sua atribuição, o caso mais corrente sendo o uso de "Doutor" quando, na relação social, o outro se sente ou é visto como superior ("doutor" é o substituto imaginário para os antigos títulos de nobreza); ou como se observa na importância dada à manutenção de criadagem doméstica, cujo número indica aumento de prestígio e de status etc.
A desigualdade salarial entre homens e mulheres, entre brancos e negros, a exploração do trabalho infantil e dos idosos são consideradas normais. A existência dos sem-terra, dos sem-teto, dos desempregados é atribuída à ignorância, à preguiça e à incompetência dos "miseráveis". A existência de crianças de rua é vista como "tendência natural dos pobres à criminalidade". Os acidentes de trabalho são imputados à incompetência e ignorância dos trabalhadores. As mulheres que trabalham (se não forem professoras, enfermeiras ou assistentes sociais) são consideradas prostitutas em potencial e as prostitutas são tidas como degeneradas, perversas e criminosas, embora, infelizmente, indispensáveis para conservar a santidade da família.
A sociedade brasileira está polarizada entre a carência absoluta das camadas populares e o privilégio absoluto das camadas dominantes e dirigentes, bloqueando a instituição e a consolidação da democracia.
Nota do blog:
[*] A autora se refere a Matilde Ribeiro, ativista política do PT, ministra-chefe da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, no governo Lula que, em 2027, declarou: “Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou”. Apesar de todas as ressalvas que buscou frisar em sua resposta, a declaração da ministra está repercutindo na maior parte dos órgãos da grande imprensa como sendo uma declaração de incentivo ao racismo.
(Portal do Partido dos Trabalhadores; março de 2007)
(Ilustração: Nivaldo Rosa - sede de vida)
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Marilena Chauí - Uma sociedade violenta
terça-feira, 20 de outubro de 2026
NOTES FOR A SPEECH / NOTAS PARA UM DISCURSO, de Amiri Baraka (LeRoy Jones)
African blues
does not know me. Their steps, in sands
of their own
land. A country
in black & white, newspapers
blown down pavements
of the world. Does
not feel
what I am.
Strength
in the dream, an oblique
suckling of nerve, the wind
throws up sand, eyes
are something locked in
hate, of hate, of hate, to
walk abroad, they conduct
their deaths apart
from my own. Those
heads, I call
my “people.”
(And who are they. People. To concern
myself, ugly man. Who
you, to concern
the white flat stomachs
of maidens, inside houses
dying. Black. Peeled moon
light on my fingers
move under
her clothes. Where
is her husband. Black
words throw up sand
to eyes, fingers of
their private dead. Whose
soul, eyes, in sand. My color
is not theirs. Lighter, white man
talk. They shy away. My own
dead souls, my, so called
people. Africa
is a foreign place. You are
as any other sad man here
american.
Tradução de Luci Collin:
O blues africano
não me conhece. Seus passos, em areias
de seu próprio
solo. Um país
em preto & branco, jornais
lançados nas calçadas
do mundo. Não
sentem
o que eu sou.
Resistência
no sonho, um oblíquo
sugar do vigor, o vento
levanta areia, os olhos
estão algo fechados no
ódio, do ódio, do ódio, para
perambularem, eles conduzem
suas mortes em separado
da minha. Aquelas
cabeças, que chamo de
meu “povo”.
(E quem são. Povo. Pra interessar
a mim, homem feio. Quem é
você, para se preocupar com
os estômagos lisos e vazios
das donzelas, morrendo
dentro das casas. Negras. Luar despido
sobre os movimentos
dos meus dedos por baixo
das roupas dela. Cadê
seu marido. Negras
palavras jogam areia
nos olhos, dedos de
seus mortos particulares. Cujas
almas, olhos, na areia. Minha cor
não é a deles. Mais clara, papo de
branco. Eles recuam assustados. Minhas próprias
almas mortas, meu, assim chamado,
povo. A África
é o estrangeiro. Você é
como qualquer outro infeliz aqui
does not know me. Their steps, in sands
of their own
land. A country
in black & white, newspapers
blown down pavements
of the world. Does
not feel
what I am.
Strength
in the dream, an oblique
suckling of nerve, the wind
throws up sand, eyes
are something locked in
hate, of hate, of hate, to
walk abroad, they conduct
their deaths apart
from my own. Those
heads, I call
my “people.”
(And who are they. People. To concern
myself, ugly man. Who
you, to concern
the white flat stomachs
of maidens, inside houses
dying. Black. Peeled moon
light on my fingers
move under
her clothes. Where
is her husband. Black
words throw up sand
to eyes, fingers of
their private dead. Whose
soul, eyes, in sand. My color
is not theirs. Lighter, white man
talk. They shy away. My own
dead souls, my, so called
people. Africa
is a foreign place. You are
as any other sad man here
american.
Tradução de Luci Collin:
O blues africano
não me conhece. Seus passos, em areias
de seu próprio
solo. Um país
em preto & branco, jornais
lançados nas calçadas
do mundo. Não
sentem
o que eu sou.
Resistência
no sonho, um oblíquo
sugar do vigor, o vento
levanta areia, os olhos
estão algo fechados no
ódio, do ódio, do ódio, para
perambularem, eles conduzem
suas mortes em separado
da minha. Aquelas
cabeças, que chamo de
meu “povo”.
(E quem são. Povo. Pra interessar
a mim, homem feio. Quem é
você, para se preocupar com
os estômagos lisos e vazios
das donzelas, morrendo
dentro das casas. Negras. Luar despido
sobre os movimentos
dos meus dedos por baixo
das roupas dela. Cadê
seu marido. Negras
palavras jogam areia
nos olhos, dedos de
seus mortos particulares. Cujas
almas, olhos, na areia. Minha cor
não é a deles. Mais clara, papo de
branco. Eles recuam assustados. Minhas próprias
almas mortas, meu, assim chamado,
povo. A África
é o estrangeiro. Você é
como qualquer outro infeliz aqui
(Ilustração: Jacob Lawrence - painel 27, 1956)
sábado, 17 de outubro de 2026
CHRISTINE DE PIZAN: UMA ESCRITORA PIONEIRA EM PLENA EUROPA MEDIEVAL, de Isabelle Anchieta de Melo
“Propus a mim mesma decidir, em sã consciência,
se os argumentos reunidos por tantos varões insignes poderiam estar equivocados.”
Christine de Pizan
Quando li A Cidade das Mulheres, livro escrito entre 1404 e 1405 pela franco-italiana Christine de Pizan, considerada a primeira mulher escritora profissional do Ocidente, fiquei profundamente impactada e logo pensei: essa obra instigante precisa ser mais conhecida no Brasil. Não só pelo pioneirismo, mas pela combinação rara entre erudição, ironia fina e uma capacidade incomum de pensar por si mesma em uma defesa justa, forte e equilibrada das mulheres. Depois, busquei pelas demais obra nos arquivos da Biblioteca Nacional da França, onde se encontram os originais, indisponíveis para consulta direta, mas digitalizados. São 15 livros manuscritos, além de baladas, poemas e tratados de educação e política. Ainda que seja difícil a leitura dos manuscritos, em sua maioria em francês, pude observar as iluminuras que acompanham algumas edições.
Christine de Pizan é conhecida, traduzida e estudada na Europa; o mesmo não se pode dizer por aqui. Um dos primeiros esforços foi feito pela pesquisadora Luciana Calado, em 2006, ao produzir uma tese sobre a obra da autora pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e depois pela pesquisadora Lucimara Leite, em 2015, ao publicar uma biografia de Pizan (Christine de Pizan: Uma Resistência; Chiado Editora). Em outubro deste ano, um importante passo foi dado pela Editora 34, que lançou no Brasil o livro A Cidade das Mulheres. Com tradução do jornalista e editor Jorge Henrique Bastos e introdução de Eric Hicks e Thérèse Moreau, a edição contempla notas cuidadosas para a compreensão da obra e dá, enfim, acesso mais amplo a um dos livros mais irreverentes, criativos e eruditos da autora. Mas o que uma obra escrita há mais de seiscentos anos tem a nos dizer hoje?
Antecipo: mais do que imaginam. Christine de Pizan não é uma mulher do passado: ela suscita questões e respostas que sequer formulamos hoje.
Pizan nasceu em Veneza, em 1364, mas ficou pouco na Itália. O pai, Thomas de Pizan, um ilustre professor da cidade de Bolonha, foi convidado pelo então rei da França, Carlos V, para fazer parte de sua corte. Um parêntese: a cidade de Bolonha foi sede da universidade mais antiga da Europa e ficou conhecida por ser uma sociedade progressista em relação às mulheres. Não sem razão, muitas bolonhesas destacaram-se profissional e artisticamente, revelando a entrelaçada relação entre educação, liberdade de gênero e excelência profissional. A informação não me parece menor, na medida em que explica, sociologicamente, as razões que levaram o pai de Christine a incentivá-la a estudar, na contramão da maioria dos homens de sua época (e mesmo a contragosto de sua mãe).
Pizan mudou-se com a família para Paris, quando tinha apenas quatro anos. Lá cresceu em uma das cortes mais ilustradas da França e teve acesso à famosa biblioteca de Carlos V. Aos 15 anos, casou-se com o jovem Etienne Castel, escolhido por seu pai. Apesar do arranjo matrimonial (comum naquela época), a relação foi muito bem-sucedida. Provavelmente, o pai escolheu Etienne tendo em vista a abertura dele às tendências intelectuais de sua filha. Etienne era um jovem ilustrado e inteligente, e ascendeu socialmente tornando-se secretário do rei Carlos V.
Assim como o pai, o marido incentiva Pizan a seguir a sua paixão. Ávida por conhecimento, Pizan dominou cinco idiomas (grego, latim, francês, italiano e um pouco de inglês). Leu quase todos os clássicos dessas línguas e tornou-se a primeira defensora pública das mulheres ao publicar, em 1405, Le Livre de la Cité des Dames, que agora temos a oportunidade de ler em português.
Porém, a transição para a escrita não foi pacífica. Ocorreu, aliás, no momento mais difícil de sua vida. Seu pai morre em 1386 e, três anos depois, ela perde o marido, com quem vivera ao longo de uma década. Com apenas 25 anos de idade, três filhos e sem recursos financeiros, Pizan encontra na escrita uma forma de expressar sua dor e um meio de sustentar sua família. Em uma balada diz: “Diversas vezes com rosto choroso/ Desde o dia que a alegria me foi retirada/ Quando me levaste o belo e bom e sábio/ A morte abandonou-me em tormento tal/ Que muitas vezes desejo, furiosa/ Que meus males queixosos sejam por ti aliviados/” (Balada IX). A dor penosa do luto reverbera nos leitores das suas baladas, e ela continuou escrevendo outras, como aquela em que manifesta o desinteresse por sua existência, dizendo: “Maldita vida que dura tanto/ Pois, nada mais me apetece/ Apenas morrer, continuar a viver não tem mais sentido/ Depois que morreu aquele que me deixava em vida/” (Balada XV).
O luto, que perdurou por cinco anos, foi, aos poucos, acolhido e amenizado pela dedicação à escrita e pelo retorno dos leitores. Pizan recebe encomendas de nobres, inclusive do rei. Os textos, que até então foram a via encontrada para manifestar seu insuportável sofrimento, passam a ser também a sua fonte de sustento. Quando escreve A Cidade das Mulheres, entre 1404 e 1405, já era uma reconhecida e respeitada escritora de sua época — e se autoafirmava como tal. Dois indícios disso são, primeiro, a sua inserção no texto, como uma escritora profissional. Já na abertura, relata: “Sentada um dia em meu gabinete, cercada por inúmeros livros, conforme meu hábito, já que o estudo das artes liberais é um costume que rege a minha vida (…). Abandonei os textos difíceis que lia, e procurei espairecer com a leitura de algum poeta”.
Um segundo indício são as luxuosas iluminuras, em geral três imagens, que passam a integrar as edições a partir da terceira, publicada ainda em 1405, seguindo até 1414. Na primeira iluminura, vemos a própria Christine de Pizan, vestida luxuosamente de azul, em seu gabinete de leitura, rodeada de livros. Uma imagem que servia não só para ilustrar, mas para reafirmar sua posição como uma intelectual.
Pizan, porém, não está a sós na imagem. Diante dela, apresentam-se três mulheres ou alegorias: a Razão, a Justiça e a Retidão. Ao lado dessa imagem, como em uma sequência narrativa, vemos Pizan e uma das damas, a Razão, carregando tijolos e construindo um muro de uma futura cidade: A Cidade das Mulheres. Essa foi a maneira inventiva com que Pizan arquitetou o livro. Narra a misteriosa aparição das entidades que surgem para dar-lhe uma missão e responder a uma inquietação intelectual da autora, que é também a questão central do livro: Por que os homens maldizem as mulheres? Quais são as razões da misoginia? O erro está mesmo nas mulheres ou são os homens que erram?
A partir de então, o livro apresenta uma série de inteligentes (e mesmo irônicos) diálogos entre a autora e as três damas, que refutam, com exemplos e reflexões muito originais, a misoginia. A começar pela invocação da dúvida. A Razão provoca Pizan: “Certamente, pareces acreditar que tudo o que afirmam os filósofos é artigo de fé e não podem errar. (…) Não sabes que são as melhores coisas aquelas sobre as quais mais se discute e debate?”.
Essa, aliás, é uma impressionante capacidade de Pizan: diante de tantos autores que atacaram as mulheres — e “a lista é demasiado longa” —, ela não se intimida e mostra as contradições de grandes autores e filósofos como Ovídio, Cícero e Aristóteles (pelo qual ela lamenta, afirmando como um homem tão culto escreveu tantas “asneiras” sobre a mulher). A Razão — que fala no livro como uma espécie de superego da própria autora — demonstra como os filósofos, teólogos e eruditos discordaram entre si sobre muitos assuntos. Tal capacidade de observar as contradições e mesmo elaborar uma crítica sobre os textos é fruto não só da erudição de Pizan mas do seu genuíno talento de pensar por si mesma. O que fica evidente quando diz: “propus a mim mesma decidir, em sã consciência, se os argumentos reunidos por tantos varões insignes poderiam estar equivocados”.
Guiando-se pela razão, justiça e retidão, ela consegue enfrentar todas as questões, mesmo as de cunho religioso (tão caras a ela, uma católica). Eva? Nasceu da costela de Adão e não de seu pé. Deus indicava assim que “ela permaneceria ao seu lado como a sua companheira, não [para] estar aos seus pés como uma escrava, e que ele haveria de amá-la como à sua própria carne”.
Sobre a defesa do célebre orador romano Marco Túlio Cícero, segundo o qual as mulheres deveriam servir aos homens, ela rebate: “o maior é aquele ou aquela que detém mais méritos. A superioridade ou a inferioridade de alguém não está no corpo, não atende ao seu sexo, mas na perfeição de seus hábitos e qualidades”.
Na sequência, ela questiona a Razão: se as mulheres são tão capazes, por que não podem ser juízas ou governantes? Ela afirma que se trata mais de um impedimento dos homens do que de uma incapacidade das mulheres. Pois “as mulheres são bastante inteligentes para estudar direito (…). Como poderemos ver adiante, a história gerara muitas mulheres (…) que foram grandes filósofas, suscetíveis de reger disciplinas muito mais complexas, requintadas e altivas (…). Por outro lado, se se quer afirmar que as mulheres não possuem nenhuma disposição natural para a política e o exercício do poder, citaria o exemplo de muitas mulheres ilustres que reinaram no passado”. E o faz, narrando as trajetórias de mulheres como Semíramis, que reina na Pérsia, na Ásia e no Egito (sendo comparada a Alexandre, o Grande). Zenóbia (rainha da Síria no século II a.C.), Artemísia (rainha da Ásia Menor no século V a.C.), Fredegunda (rainha da França no ano 597 d.C.). Dentre várias outras citadas que demonstram, na prática, e em reinados bem-sucedidos, que “a mulher inteligente pode desempenhar qualquer tarefa”.
Não só nos altos postos como também na ciência, identificando como principal entrave o impedimento social imposto pelos homens de que elas estudem. Então, Pizan indaga: “Por que eles fazem isso?”. A dama Retidão responde com imparcialidade: “Nem todos os homens, sobretudo os mais cultos, acham mal que as mulheres estudem. Se é verdade que pensam assim os que possuem uma formação inferior, é porque não gostariam de ver que muitas mulheres sabem mais do que eles”.
Pizan percebe no diálogo com as três virtudes que alguns homens (não todos) são movidos por sentimentos mesquinhos e não só por nobres princípios. O que fica patente quando a Razão enumera as diversas e múltiplas razões que levam os homens a odiarem as mulheres: “Alguns foram impelidos pelos seus vícios, outros devido à invalidez do corpo [cita a impotência sexual de Ovídio e a deformação física de Aristóteles], outros por pura inveja e numa medida maior, porque gostam de vituperar as pessoas. Por fim, há outros que, querendo demonstrar o quanto leram, baseiam-se no que encontraram nos livros e limitam-se a citar tais autores, repetindo o que já foi dito”.
Nem os clérigos estão isentos. Eis que Pizan muda de tom no livro. Passa das perguntas ingênuas e da ignorância para uma sensação de revolta. Grita: “Que se calem, pois! Que se calem daqui por diante, esses clérigos que difamam as mulheres! Que se calem, todos os cúmplices e aliados que falam mal delas (…)! Que baixem os olhos de vergonha por terem ousado mentir tanto em seus livros, quando se vê que a verdade contradiz o que eles dizem (…)”.
Eis que os argumentos e os exemplos de mulheres ganham forma. O livro — a cidade — está pronto, edificado no “Campo das Letras”. Usando a “enxada da inteligência”, Christine de Pizan não só cavou fundo, mas também edificou a muralha e as casas utilizando como “tijolos” uma série de mulheres exemplares. Guiada pela Razão, a Justiça e a Retidão, oferece às mulheres de ontem, de hoje e de amanhã uma obra atemporal, uma fortaleza, para que elas não só se refugiem, mas se inspirem e avancem sem medo de buscar prestígio e aprimoramento intelectual.
(Ilustração: A cidade das mulheres - iluminura retrata Pizan e, diante dela, a Razão, a Justiça e a Retidão. Ao lado, com uma das damas, carrega os tijolos da Cidade das Mulheres).
quarta-feira, 14 de outubro de 2026
DEZ PARA AS DUAS, OU: SOBRE A ESTETIZAÇÃO DO MUNDO, de Horácio Costa
Dizem especialistas, dizem
que nunca Maria Callas cantou
como naquela semaninha de 1958
em Lisboa. Nunca.
Este é um poema prosaico.
Bela não era mas jovem então:
e magra e alguns de seus maravilhosos
diamantes brilhavam
na cadência do suave arfar de seu peito
enquanto transformava-se na Casta Diva
ideal de todos os cognoscenti. O
YouTube traz em preto e branco
essa apresentação lendária
que já conta com um milhão
de visualizações: Voz e diva
frescas como uma alface recém colhida
em alguma vegana horta da vida.
O São Carlos nunca foi tido
entre os grandes palcos da Europa:
pequeno – a Ópera do Tejo ruiu
em 1755 – coube-lhe a honra
de conhecer o pináculo da glória
da Prima Donna Assoluta. La Callas
foi recebida com dúzias de jornalistas
e de abundantes rosas no pequeno aeroporto
da capital de Salazar. Confira-se
a filmagem no YouTube.
Recomendo.
Ora, aquele era um mundo
outro, o de nossa infância, minha
e a do Zé Horácio. Em São Paulo,
meus pais foram ver e ouvir
Marlene Dietrich: Cantou em alemão
e francês no Teatro Paramount:
Osório queria conferir de perto o famoso
par de pernas assegurado na Lloyd’s
por um milhão de dólares.
Aficionados espanhóis
escaparam de Madri a Lisboa
para ouvir o Mito. Terá valido a pena:
uma voz perfeita! Revejo
o vídeo: perfeita.
Com o tempo, contudo
tanto ou mais do que a Callas
& seu colar
& Bellini
passou a fascinar-me não só
a esqualidez do décor mas o vetusto
da humanidade que o habita:
extraída do tempo, suspensa a imagem
como o rendez-vous vintage
que significa, alegórica e muito
do que se passou nesses 60
quase anos. O coro português
acompanha bem os trinados da musa:
afinal, além de belíssima, difícil
não é a melodia: honra
aos portugueses! Saem bem
na oitiva. Não assim na foto.
Este é um poema humorístico
que avança em adagio.
Justo atrás da Callas
uma cantora do coro feminino
tem os pés em forma bem dez
para as duas: As saias são discretas
e também os sapatos de todas, do
tipo Anabela com uma cruz de couro
cujo efeito é realçar joanetes.
Na filmagem evidenciam-se uma
de suas pernas e pés, inchados demais.
Teria àquela altura tal anônima
membro do coro problemas
de circulação, talvez
de nefrite, até elefantíase:
não o saberemos jamais.
Com seu volumoso pé direito
em notável posição dez pras duas
sobrevive singular e digna
nesse documento de época:
memorabilia de um tempo da arte
na qual defeitos, assimetrias,
aparências dos seres e seus pés
significavam bem menos: afinal,
o que para cantar importa é a voz
treinada e sublime se possível for;
não se os pés inclinados para fora
comprometem o visual
que a produção e seu gosto-sibila
dita como essencial. Como se daria
hoje o comportamento do ou da
profissional de imagem
frente a tais características? Apenas
em caráter de excepcionalidade assoluta
seriam permitidas. Seriam?
O mundo se estetizou. Foi uma indubitável
vitória da tal da beleza no capitalismo:
impor-se por completo da cabeça aos pés.
Por isto esta tristeza tão funda
quando está a sós a gente? e
tantos espelhos de selfies?
Saúdo la Callas no seu auge
que aconteceu quando aconteceu
em Lisboa num palco com menor pedigree
e assim saúdo a anônima cantora
do coro que a acompanhou:
com pés dez pras duas
como os de Carlitos.
PS. 1: Está factualmente equivocado
este poema. Como um relato de JLB,
transtroca e atraiçoa os fatos mais nímios:
sim em Lisboa esteve Maria Callas
e talvez seu pináculo vocal se tenha dado
no Teatro Nacional de São Carlos. FP
nasceu em um dos edifícios que dão
ao parvis fronteiro: Há uma placa de bronze
comemorativa. Dois cafés bem europeus
permitem-nos o desfrutar sentados
da correta fachada neoclássica da mole.
Na rua da direita há uma hamburgueria
bem boa. Também recomendo.
Este ensaio é o que é
e não se ilumina:
a ópera que responde pelo mito em seu auge
Norma não era mas a montagem da Traviata
na qual contracenaram Callas e
Alfredo Kraus (q.v). Única vez
em que tais celebridades líricas
cantaram juntas. Illo tempore!
Não está na Britannica e sim
no YouTube. Há mais de 6 horas
não o sabia: Quando escrevi este poema
verossímil mas não verdadeiro e que,
aristotelicamente, mente.
PS. 2: Para lá de monstros sagrados em seu entorno,
também se inspira este texto em L’esthétisation du monde
– vivre à l’âge du capitalisme artiste. De Lipovetsky e Serroy.
Osasco 17 VI 23
(Ilustração: Ulisse Sartini - Maria Callas; foto de Andrea Matzker)
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