sexta-feira, 22 de junho de 2018

SENZA NOME / SEM NOME, de Ada Negri







Io non ho nome.—Io son la rozza figlia

Dell'umida stamberga;

Plebe triste e dannata è mia famiglia,

Ma un'indomita fiamma in me s'alberga.



Seguono i passi miei maligno un nano

E un angelo pregante.

Galoppa il mio pensier per monte e piano,

Come Mazeppa sul caval fumante.



Un enigma son io d'odio e d'amore,

Di forza e di dolcezza;

M'attira de l'abisso il tenebrore,

Mi commovo d'un bimbo alla carezza.



Quando per l'uscio de la mia soffitta

Entra sfortuna, rido;

Rido se combattuta o derelitta,

Senza conforti e senza gioie, rido.



Ma sui vecchi tremanti e affaticati,

Sui senza pane, piango;

Piango su i bimbi gracili e scarnati,

Su mille ignote sofferenze piango.



E quando il pianto dal mio cor trabocca,

Nel canto ardito e strano

Che mi freme nel petto e sulla bocca,

Tutta l'anima getto a brano a brano.



Chi l'ascolta non curo; e se codardo

Livor mi sferza o punge,

Provocando il destin passo e non guardo,

E il venefico stral non mi raggiunge.



Tradução de Fabio Malavoglia:


Eu sou sem nome.— Eu sou a tosca filha

Do úmido pardieiro;

Plebe triste e danada por família,

Mas indômito é o fogo companheiro.



Segue meus passos maligno um duende

E ora um anjo adiante.

Galopa meu pensar e sobe e pende,

Como Mazeppa no cavalo arfante.



Enigma sou de amor e de sadismo,

De força e de doçura;

Atrai-me a treva do abismo,

Comove-me a criança e sua candura.



Se pela porta da água-furtada

O infortúnio entra, rio;

Rio se atacada ou enjeitada,

Sem alegrias e sem confortos, rio.



Mas pelos velhos tremendo fatigados,

Pelos sem pão, eu choro;

Pelo menino magro e esfomeado,

Por mil desconhecidas dores, choro.



E quando o pranto do peito me transborda,

Num canto estranho e ardente

A alma toda arranco corda a corda

Na melodia que à boca vem fremente.



De quem ouve não cuido e se covarde

Palor me fere e cinge,

Peito o destino de vez que não me atarde,

E o viperino fel já não me atinge.





(Ilustração: Horace Vernet - Mazeppa, 1826)




terça-feira, 19 de junho de 2018

UMA ROSA PARA EMILY, de William Faulkner





Quando Miss Emily Grierson morreu, toda a nossa cidade compareceu ao enterro: os homens em atenção a essa espécie de carinho respeitoso que se tem por um monumento tombado; as mulheres movidas pela curiosidade de ver o interior de sua casa, onde ninguém entrara nos últimos dez anos, exceto um velho negro, ao mesmo tempo cozinheiro e jardineiro. 

Era um casarão quadrado, de madeira, outrora branco, decorado de cúpulas, de flechas, de balcões, no estilo pesadamente frívolo da época de 1870, situado na rua que já tinha sido a mais distinta da cidade. Mas as garagens e as debulhadoras de algodão, multiplicando-se em derredor, acabaram por fazer desaparecer até os nomes augustos daquele bairro. A casa de Miss Emily era a única, levantando sua decrepitude teimosa e faceira acima dos vagões de algodão e das bombas de gasolina. Emily tinha ido juntar-se aos representantes daqueles nomes augustos, no cemitério adormecido sob os cedros, onde jaziam entre os túmulos enfileirados e anônimos, dos soldados da União e dos Confederados mortos no campo de batalha de Jefferson. 

Viva, Miss Emily fora uma ‘tradição, um dever e um aborrecimento: espécie de obrigação hereditária, pesando sobre a cidade desde o dia em que, em 1894, o Coronel Sartóris (o prefeito que baixou o decreto proibindo às negras saírem à rua sem avental) a isentara do pagamento de impostos, isenção definitiva, que datava da morte de seu pai. Isto não quer dizer que Miss Emily aceitasse a caridade. O Coronel Sartóris inventara a complicada história de um empréstimo em dinheiro, feito pelo pai de Miss Emily à cidade e que a cidade, por conveniência própria, preferia reembolsar dessa maneira. Só um homem da geração e com as idéias do Coronel Sartóris poderia ter imaginado semelhante coisa, e só uma mulher poderia ter acreditado. 

Quando a geração seguinte, com suas ideias modernas, deu, por sua vez, prefeitos e intendentes municipais, essa concessão provocou alguns descontentamentos. No primeiro dia do ano, dirigiram a Miss Emily uma notificação de impostos. Fevereiro chegou, sem trazer resposta. Enviaram-lhe uma carta oficial, pedindo-lhe para passar, quando pudesse, no gabinete do delegado. Na semana seguinte, o próprio prefeito lhe escreveu, oferecendo-se para ir, em pessoa, à sua casa, ou para mandar buscá-la no seu carro particular. Recebeu, como resposta, uma folha de papel de feitio arcaico, escrita com tinta desbotada, numa letra miúda e fluente, comunicando-lhe que não saía mais de casa. A notificação dê pagamento de imposto vinha inclusa, sem comentários. 

O Conselho Municipal reuniu-se em sessão extraordinária. Uma delegação dirigiu-se à sua casa e bateu naquela porta que nenhum visitante transpusera desde que, oito ou dez anos antes, Miss Emily deixara de dar lições de pintura em porcelana. Os membros da delegação foram introduzidos num saguão escuro, de onde uma escada se projetava para as sombras ainda mais que espessas do andar superior. Havia em tudo um cheiro de poeira, de guardado, de coisas que nunca são usadas -um cheiro de mofo e umidade. O negro conduziu-os ao salão, de mobiliário pesado, forrado de couro. Quando o negro abriu as cortinas de uma das janelas, viram que o couro estava estalado, descascando e, ao se sentarem, uma nuvem leve de pó subiu-lhe preguiçosamente em volta das coxas e se espalhou em círculos vagarosos, desenrolando-se, desagregada, na única réstia de sol. Num cavalete de moldura dourada, perto da lareira, via-se o retrato a carvão do pai de Miss Emily. 

Levantaram-se à sua entrada. Era uma mulherzinha pequena e gorda, vestida de preto, com uma fina corrente de ouro descendo-lhe do pescoço até a cintura, onde desaparecia no cós da saia. Tinha a ossatura pequena e delicada; talvez, por isso, o que em outra pessoa seria apenas gordura, parecia, nela, obesidade. Dava a impressão de estar inchada, como um cadáver muito tempo submerso numa água estagnada; tinha, mesmo, de um afogado, a carne lívida e balofa. Seus olhos, perdidos nas intumescências de sua face, lembravam dois pedacinhos de carvão enfiados numa bola de massa e iam de um rosto a outro, enquanto os visitantes expunham o caso. 

Não mandou que sentassem. Conservou-se, apenas, em pé no limiar da sala, e esperou tranquilamente que o porta-voz se interrompesse, balbuciando. Então, puderam ouvir o tic-tac do relógio invisível, preso na ponta de sua corrente de ouro. 

Sua voz era seca e fria: 

– Não tenho impostos a pagar em Jefferson. O Corenel Sartóris me explicou isso. Talvez um dos senhores possa consultar os arquivos da cidade e dar satisfações aos demais. 

– Mas nós o fizemos. Nós somos as autoridades no município, Miss Emily. A senhora não recebeu a notificação assinada pelo delegado? 

– Sim, recebi um papel – disse Miss Emily. – Talvez ele se considere realmente o delegado… Não tenho impostos a pagar em Jefferson. 

– Mas não há, nos livros, nada que o possa provar. Veja a senhora… É preciso que nós… 

– Procurem o Coronel Sartóris. Não tenho impostos a pagar em Jefferson. 

– Mas, Miss Emily – 

– Procurem o Coronel Sartóris. (Havia quase dez anos que o Coronel Sartóris estava morto) – Não tenho impostos a pagar em Jefferson. Tobe! – O negro apareceu. – Acompanha estes cavalheiros. 

Assim ela os venceu irremediavelmente, como já lhes vencera os pais, trinta anos antes, a respeito do cheiro. Isso aconteceu dois anos após a morte de seu pai, e quase em seguida à ocasião em que o namorado – aquele mesmo que nós pensávamos iria se casar com ela – a abandonou. Aquela morte e o abandono do namorado fizeram que ela depois pouco saísse de casa. Algumas senhoras tiveram a temeridade de ir visitá-la, mas não foram recebidas e, naquela casa, o único sinal de vida era o negro – ainda moço, então – que entrava e saía com um cesto de compras. 

– Como se um homem – seja quem for! – pudesse conservar limpa uma cozinha! – diziam as senhoras. Assim, ninguém se surpreendeu quando se começou a sentir o cheiro. Foi um novo laço que se estendeu entre a gente grosseira e prolífica do bairro e os grandes e poderosos Grierson. 

Uma mulher, sua vizinha, foi queixar-se ao prefeito, Juiz Stevens, que contava, então, oitenta anos. 

– Mas que quer a senhora que eu faça? – perguntou ele, 

– Ora, que ela acabe com isso – disse a mulher. Não existe lei? 

– Estou certo de que não será necessário – afirmou o Juiz Stevens. Provavelmente, é só uma cobra ou um rato que o negro matou no quintal. Amanhã falarei com ele a esse respeito. 

No dia seguinte, recebeu duas novas queixas; uma partiu de um homem, que apresentou uma súplica tímida. 

– Nós precisamos, realmente, fazer alguma coisa nesse caso, sr. Juiz. Eu seria a última pessoa neste mundo capaz de incomodar Miss Emily, mas precisamos fazer alguma coisa. 

Nessa mesma noite, reuniu-se o Conselho Municipal: três barbas grisalhas e um rapaz moço, membro da nova geração. 

– A coisa é muito simples – disse o moço. – Mandem. lhe dizer para limpar a casa. Deem-lhe um certo prazo para obedecer e, se ela não… 

– Deus me livre, senhor! – exclamou o Juiz Stevens. Quer então dizer a uma senhora, nas bochechas, que ela cheira mal? 

Assim, na noite seguinte, de madrugada, quatro homens atravessaram o gramado do jardim de Miss Emily e, como assaltantes, rondaram a casa, farejando os alicerces de tijolos e os respiradouros do porão, enquanto um deles, com um saco nos ombros, fazia, com regularidade, o gesto do semeador. Arrombaram a porta da adega, que salpicaram de cal, assim como todas as dependências. Quando, de volta, atravessaram o gramado, uma janela, até então sombria, iluminou-se de repente e viram Miss Emily sentada à contraluz, ereta, rígida, imóvel como um ídolo. Atravessaram em silêncio o gramado, metendo-se por entre as sombras das acácias que margeavam a rua. Depois de uma ou duas semanas, o cheiro desapareceu. 

Isso foi quando as pessoas começaram realmente a ter pena dela. A gente de nossa cidade, que se lembrava de Lady Wyatt, sua tia-avó, que acabara louca, achava que os Grierson se julgavam muito mais importantes do que eram na realidade. Nenhum dos rapazes da cidade fora jamais considerado à altura de Miss Emily. Nós os imaginávamos muitas vezes como um quadro: ao fundo, Miss Emily, esguia figura vestida de branco; no primeiro plano, a silhueta de seu pai, virando-lhe as costas, com as pernas abertas, um chicote na mão; ambos, enquadrados pelos caixilhos da porta escancarada. Assim, quando ela chegou aos trinta anos ainda solteira, não posso dizer que isso tenha causado uma verdadeira alegria, mas nós, os rapazes, nos sentimos vingados; mesmo com os casos de loucura na família, ela não teria virado as costas a todas as oportunidades, se essas se tivessem verdadeiramente materializado. 

Morto o pai, correu o boato de que só lhe tinha ficado a casa de herança, o que, de certo modo, alegrou todo mundo. Até que enfim, podiam apiedar-se de Miss Emily. Sozinha e na pobreza, iria humanizar-se. Agora, ela também conheceria a velha satisfação e o velho desespero de um vintém a mais ou de um vintém a menos. 

No dia seguinte ao da morte do velho, as senhoras da cidade preparavam-me para ir à sua casa, apresentar-lhe os pêsames, conforme o costume. Miss Emily recebeu-as no limiar da porta, vestida como nos outros dias, e sem a menor marca de tristeza ou sofrimento na expressão. Disse-lhes que o pai não tinha morrido. Repetiu essas palavras durante três dias, quando os pastores e os médicos iam vê-la, tentando persuadi-la a deixar dispor do cadáver. Mas, no momento em que estavam resolvidos a recorrer à Lei e à força, ela cedeu, e enterraram-lhe o pai a toda pressa. 

Não se disse, então, que estava louca. Pensamos que tinha agido como devia. Lembrávamo-nos de todos os moços que seu pai afastara, e sabíamos que, achando-se sem nada, ela deveria agarrar-se àquele que a despojara de tudo, como em geral acontece. 

Esteve muito tempo doente. Quando tornamos a vê-la, tinha os cabelos cortados, o que a fazia parecer uma menina e lhe dava uma vaga semelhança com os anjos dos vitrais de igreja – uma mistura de trágico e sereno. 

A cidade acabava justamente de firmar o contrato para pavimentação das calçadas e, no verão que seguiu a morte de seu pai, começaram os trabalhos. A companhia construtora trouxe negros, mulas e máquinas, e um contramestre chamado Homer Barron, um “yankee”, homem grande, moreno e decidido, com um vozeirão enorme e olhos mais claros do que a pele do rosto. Os garotos seguiam-no aos bandos, para ouvi-lo gritar com os negros, e para ouvir os negros cantando em compasso, enquanto erguiam e abaixavam a picareta. Em breve, o contramestre conhecia toda a gente da cidade. Cada vez que se ouviam ruidosas gargalhadas na praça, podia-se jurar que Homer Barron estava no centro do grupo. Não tardamos a avistá-lo, nos domingos à tarde, passeando com Miss Emily na carriola de aluguel, que tinha rodas amarelas e era puxada por uma parelha de cavalos baios. 

A princípio, todos ficaram satisfeitos de ver que Miss Emily tinha agora um interesse na vida. As senhoras andavam dizendo: “Naturalmente, nunca uma Grierson tomará a sério um nortista, um assalariado.” 

Mas havia outras pessoas, as mais velhas, que achavam que nem mesmo o desgosto deveria fazer que uma verdadeira senhora se esquecesse de que “noblesse oblige”. (Sem no entanto, empregar essa expressão: Noblesse oblige). Diziam, apenas: “Pobre Emily. Os parentes deviam procurá-la.” 

Tinha parentes em Alabama, mas, alguns anos antes, o pai rompera com eles por causa da herança da velha Lady Wyatt, a louca, e não havia mais relações entre as duas famílias. Nem sequer se tinham feito representar no enterro. 

E, mal a gente velha exclamou “Pobre Emíly”, os mexericos começaram: “Vocês imaginam que, realmente. . .” diziam uns para os outros. – “Mas nem há dúvida. Porque, a não ser isso. . ” tudo sussurrado atrás das mãos no amarrotado farfalhar de sedas e cetins por detrás das janelas fechadas ao sol das tardes de domingo, enquanto a parelha de cavalos baios passava num leve e apressado clop-clop-clop. – “Pobre Emily!” 

Ela, porém, erguia a cabeça bem alto, mesmo quando pensávamos que tinha decaído. Parecia, mais do que nunca, exigir que se reconhecesse sua dignidade de última dos Grierson, como se fosse necessário aquele toque de vulgaridade terrestre para acentuar mais profundamente a sua impenetrabilidade. Tal como no dia em que comprou o veneno para ratos, o arsênico. Isso aconteceu um ano depois de terem começado a dizer: 

“Pobre Emily”, e quando as duas primas estavam hospedadas em sua casa. 

– Quero comprar veneno – disse ao farmacêutico. Contava, então, mais de trinta anos; era ainda delgada, embora estivesse mais magra do que de costume, com os olhos negros, altivos e frios num rosto cuja pele se repuxava na altura das têmporas e em volta das pálpebras, como se imaginava que deveria ser o rosto de um guardião de farol. – Quero comprar veneno. 

– Pois não, Míss Emily. Que espécie de veneno? para ratos ou qualquer coisa assim? Recomen… 

– Quero o que o senhor tiver de melhor. Não importa qual seja. 

O farmacêutico citou alguns: 

– Matariam até mesmo um elefante. Mas o que a senhora quer e… 

– Arsênico – disse ela. – É bom? 

– É… arsênico? Pois sim, senhora. Mas o que a senhora quer …. 

– Eu quero arsênico. 

– Pois, naturalmente – disse ele. – Se é isso que a senhora quer. Porém, a lei determina que a senhora declare o fim que dará ao veneno. 

Miss Emily limitou-se a fitá-lo, com a cabeça pendida para melhor fixar os olhos nos olhos dele, até forçá-lo a desviar o olhar e a ir buscar o arsênico, que embrulhou. O caixeiro negro que fazia entregas trouxe-lhe o pacote, pois o farmacêutico não tornou a aparecer. Ao chegar em casa, tirou o papel; na tampa da caixa, debaixo da caveira e os dois ossos, estava escrito: “Para ratos”. 

Assim, no dia seguinte, nós dizíamos: “Ela vai suicidar-se”, e achávamos que era a melhor solução. Quando começáramos a vê-la com Homer Barrou, tínhamos dito: “Vai casar-se com ele”. Depois, dizíamos: “Ela ainda acabará por persuadi-lo”, porque o próprio Homer observava – gostava da companhia dos homens e sabia-se que bebia com os rapazes no Elk’s Club – que não era feito para casamento. Mais tarde, dissemos: “Pobre Emily”, por detrás das venezianas, quando ambos passavam, nas tardes de domingo, na carriola vistosa, Miss Emily de cabeça erguida e Homer Barrou com o chapéu de lado e um charuto entre os dentes, segurando as rédeas e o chicote nas luvas amarelas. 

Então, algumas senhoras começaram a declarar que aquilo era uma vergonha para a cidade e um mau exemplo para a gente moça. Os homens não ousavam intervir, mas, finalmente, as mulheres forçaram o pastor batista – a gente de Miss Emily era episcopal – a ir procurá-la. O pastor negou-se sempre a contar o que acontecera durante a entrevista e recusou-se a voltar à sua casa. No domingo seguinte, saíram juntos novamente e, no outro dia, a mulher do ministro escreveu aos parentes de Miss Emily, em Alabama. 

Dessa forma, ela teve pessoas de seu sangue outra vez debaixo de seu teto e nós ficamos todos à espera dos acontecimentos. A princípio, nada aconteceu. Depois, ficamos convencidos de que iam se casar. Soubemos que Miss Emily fôra à joalheria e encomendara um jogo de toucador para homem, todo de prata, com as iniciais II. B. gravadas em cada peça. Dois dias mais tarde, fomos informados de que comprara um enxoval masculino completo, inclusive uma camisola de dormir, e dissemos: “Estão casados”. E ficamos contentes, porque as duas primas eram mais Grierson ainda do que Miss Emily jamais o fora. 

Não tivemos grande surpresa quando, terminado o calçamento das ruas, Homer Barron partiu. Sentimo-nos um pouco decepcionados por não ter havido nenhuma manifestação pública de regozijo, mas julgamos que se tivesse afastado para preparar a ida de Miss Emily, ou para lhe dar a oportunidade de se livrar das primas. (Por essa época formáramos uma verdadeira cabala, e éramos todos aliados de Miss Emily no sentido de ajudá-la a alijar as primas). O que é certo é que elas partiram ao fim de outra semana. E, como esperávamos, no terceiro dia após essa partida, Homer Barron estava de volta à cidade. Os vizinhos viram o negro abrir-lhe a porta da cozinha, uma tarde ao escurecer. 

Foi essa a última vez que vimos Homer Barron. E, durante algum tempo, não tornamos também a ver Miss Emily. O negro ia e vinha com a cesta das compras, mas a porta da entrada continuava fechada. Uma vez ou outra conseguimos avistá-la à janela por alguns instantes, como naquela noite em que os homens foram à sua casa espalhar a cal; durante mais de seis meses, porém, ela não apareceu nas ruas. Compreendemos que isso também era de esperar; como se aquele aspecto do caráter de seu pai, que tantas vezes constrangera sua vida de mulher, fosse virulento e furioso demais para morrer assim. 

Quando a vimos novamente, Miss Emily tinha engordado muito e seus cabelos estavam ficando grisalhos. Nos anos seguintes, foram ficando cada vez mais grisalhos, até o momento em que, tendo adquirido um tom cinzento-de-aço, sua cabeleira não mudou mais de cor. Até o dia de sua morte, aos setenta e quatro anos, aqueles cabelos conservavam ainda esse vigoroso tom cinzento-de-aço, como os cabelos de um homem ativo. 

Desde aquela época, sua porta ficara fechada, exceto no decorrer de um período de seis ou sete anos, quando ela, quarentona, dava aulas de pintura em porcelana. Instalara, num aposento do andar térreo, o atelier onde as filhas e netas dos contemporâneos do Coronel Sartóris lhe eram enviadas com a mesma regularidade e dentro do mesmo espírito com que as mandavam à igreja, nos domingos, munidas de uma moedinha de vinte centavos para a hora da coleta. Nesse ínterim, Miss Emily se vira dispensada do pagamento de impostos. 

A nova geração tornou-se, então, a espinha dorsal e a alma da cidade, as alunas cresceram e dispersaram-se, e não lhe mandaram as filhas com as caixinhas de tinta, os aborrecidos pincéis e os modelos recortados das revistas ilustradas femininas. A porta fechou-se sobre a última aluna e ficou fechada desde então. Quando a cidade adotou a distribuição gratuita do correio, Miss Emily foi a única pessoa que se negou a consentir que fixassem um número de metal acima de sua porta e uma caixa postal ao lado. Não houve argumento que a convencesse. 

Dias, meses e anos, vimos o negro, cada vez mais grisalho e curvado, entrando e saindo com a cesta de compras. Anualmente, em dezembro, mandavam-lhe a declaração de impostos, que o correio devolvia na semana seguinte, com a nota de não haver sido reclamada. Uma vez ou outra, nós a avistávamos diante da janela do andar térreo – tinha, evidentemente, fechado todo o andar superior da casa – semelhante ao busto esculpido de um ídolo no seu nicho, e nunca chegamos a saber se estava olhando para nós, ou se nem sequer nos via. E assim passou ela de geração para geração – querida, inevitável, impenetrável, tranquila e perversa. 

E, então, ela morreu. Caiu doente no seu casarão cheio de sombras e de pó, tendo como único auxílio o negro caduco. Nem ao menos soubéramos que estava doente, pois havia já muito tempo que desistíramos de arrancar qualquer informação ao negro. Não falava com pessoa alguma, talvez nem mesmo com ela; sua voz se tornara áspera e rouquenha como uma voz que não serve nunca. 

Morreu num dos quartos do andar térreo, numa cama de nogueira maciça com cortinados, a cabeça grisalha erguida por um travesseiro amarelo e mofado pelo tempo e pela falta de sol. 

O negro encontrou a primeira das senhoras na porta da frente; deixou-as entrar, com suas vozes sussurradas e sibilantes, com seus olhares rápidos, furtivos e curiosos, e depois desapareceu. Meteu-se pela casa a dentro, atravessou-a toda, saiu pelos fundos e sumiu para sempre. 

A duas primas não tardaram a chegar. Fizeram o enterro no segundo dia. A cidade em peso compareceu para ver Miss Emily coberta por um montão de flores compradas, o retrato, a carvão, de seu pai profundamente pensativo, acima do caixão, cercado pelas senhoras sibilantes e macabras. No saguão e no gramado, homens, muito velhos – alguns nos uniformes de confederados muito bem escovadinhos – falavam de Miss Emily como se fosse uma de suas contemporâneas, imaginando que tinham dançado com ela, e até mesmo, talvez, que a tinham namorado, confundindo o tempo e a progressão matemática, como fazem os velhos, para os quais o passado não é uma estrada que se vai encurtando, porém uma vasta planície nunca atingida pelo inverno, dividida para eles, agora, pelo estreito gargalo da ampulheta dos últimos dez anos. 

Nós todos já sabíamos da existência, naquela região, do andar superior, onde ninguém pisara há quarenta anos, de um quarto fechado que seria preciso arrombar. Esperamos que Miss Emily estivesse docemente enterrada, antes de forçá-lo. 

A violência com que pusemos a porta abaixo pareceu encher o quarto de uma poeira penetrante. Era como se uma mortalha, tênue e acre, se estendesse sobre todas as coisas daquele quarto, mobiliado e enfeitado para urna noite de núpcias: sobre as desbotadas cortinas de pesada seda cor-de-rosa, sobre os quebra. Luzes rosados das lâmpadas, sobre a penteadeira, sobre os delicados objetos de cristal, sobre as peças do aparelho de toucador para homem, com seus dorsos de prata embaciados, tão embaciados que nem se distinguiam os monogramas escurecidos. 

Entre os pertences do toucador, estavam jogados um colarinho e uma gravata, como se tivessem acabado de tirá-los naquele momento; quando os levantamos, deixaram na superfície uma pálida meia lua traçada na poeira. O terno de roupa estava dobrado cuidadosamente numa cadeira, debaixo da qual se viam os dois sapatos mudos e as meias largadas no chão. 

E o homem estava deitado na cama. 

Durante muito tempo, ali ficamos, imóveis, olhando para o seu ríctus profundo e descarnado, O corpo devia ter, a princípio, repousado na atitude de carícia, abraçado a outro corpo, mas agora o grande sono que sobrevive ao amor, o grande sono que vence até mesmo as carícias do amor, dominara-o afinal. O que restava dele, em decomposição dentro do que restava de sua camisola de dormir, tornara-se inseparável do leito em que jazia; e sobre ele, assim como sobre o travesseiro vazio ao seu lado, estendera-se aquela camada espessa de paciente e obstinada poeira. 

Notamos, então, que no segundo travesseiro havia a marca funda de uma cabeça. Um de nós encontrou qualquer coisa caída sobre esse travesseiro e, debruçando-se, enquanto a leve, impalpável poeira acre e seca, nos entrava pelas narinas, vimos um longo fio de cabelo de um tom cinzento-de-aço. 



(Tradução de Lia Corrêa Dutra) 


(Ilustração: Jan Davidsz de Heem  - Vanitas)







sábado, 16 de junho de 2018

EU E O OUTONO, de Alceu Wamosi







Quando, a primeira vez, eu encontrei o outono,

num fim de tarde triste, em um parque fanado,

o céu resplandecia em ouro, como um trono.



Andava pelo espaço um silêncio encantado,

magnífico, oriental, mágico, deslumbrante,

como se fosse a voz calada do passado.



A velha fonte, outrora alva Ninfa cantante,

que um lírio de cristal perenemente erguia

para despetalar em música um instante,



tinha os lábios sem som, de mármore, esse dia.

Tombavam, como pranto, as folhas mortas. Era

um imenso soluço verde de agonia



o parque, na atitude exul de quem espera

um mistério qualquer... Errava em todo o ambiente

a saudade da derradeira primavera.



As violetas, na sombra, iam-se lentamente

esvaindo-se em perfume – ametistas de aroma

que vestiram de luto a alma viúva do poente.



Nessa divina tarde

o outono me cobriu todo de uma redoma...

E eu, desde aí, reflito o outono, eternamente,

como um espelho ideal que um sonho guarde.



(Em “Sonho de Estação Morta”, na Coroa de Sonho)



(Ilustração: Jean Béraud)



quarta-feira, 13 de junho de 2018

O NEOLIBERALISMO É UM FASCISMO, de Manuela Cadelli






O tempo das precauções oratórias acabou; convém nomear as coisas para permitir a elaboração de uma resposta democrática acordada, especialmente no âmbito dos serviços públicos. 

O liberalismo é uma doutrina derivada do Iluminismo, tanto política e econômica, que procurou impor ao Estado a distância necessária em respeito às liberdades e ao advento da emancipação democrática. Ele foi o motor do advento e dos progressos das democracias ocidentais. 

Já o neoliberalismo é o economicismo total, que atinge todas as esferas de nossas sociedades, a cada instante do nosso tempo. É um extremismo. 

O fascismo é definido como o assujeitamento de todos os componentes do estado a uma ideologia totalitária e niilista. 

Afirmo que o neoliberalismo é um fascismo porque a economia subjugou os governos de países democráticos, bem como todos os espaços de reflexão. O estado está hoje a serviço da economia e das finanças, que o tratam como um subordinado, pondo em risco até o bem comum. 

A austeridade desejada pelo sistema financeiro tornou-se um valor superior, que substitui a própria política. Fazer cortes no orçamento impede a realização de qualquer outro objetivo público. O princípio da ortodoxia orçamentaria avança até se inscrever na Constituição dos países. E a noção de serviço público passa a ser ridicularizada. 

O niilismo que então se instala permitiu descartar o universalismo e os valores humanistas mais evidentes: solidariedade, fraternidade, integração e respeito por todos e pelas diferenças. Mesmo a teoria econômica clássica não enxerga mais a utilidade destes valores: o trabalho era, anteriormente, um elemento da demanda, e os trabalhadores eram, nesta medida, respeitados; o sistema financeiro internacional os transformou em uma simples variável de ajuste. 

Todo totalitarismo começa com uma distorção da linguagem e, como no romance de George Orwell, o neoliberalismo tem sua Novilíngua e seus elementos de comunicação que permitem distorcer o real. Assim, qualquer corte orçamentário decorre hoje da modernização dos setores afetados. Os menos favorecidos não têm mais reembolso de alguns tratamentos de saúde e precisam abrir mão da consulta ao dentista? Nada mais é que a modernização da seguridade social. 

A abstração domina o discurso público como forma de apagar suas implicações nos seres humanos. Assim, no que diz respeito aos imigrantes, é imperativo que o seu acolhimento não sirva de incitação à imigração, o que poderia impactar a economia. Da mesma forma, algumas pessoas são classificadas como “assistidas” por se beneficiar da solidariedade nacional. 

O darwinismo social domina, atribuindo a cada um os mais estritos requisitos de performance: fraquejar é falhar. Nossos fundamentos culturais são destruídos: todo postulado humanista é desqualificado ou desmonetizado, porque o neoliberalismo tem o monopólio da racionalidade e do realismo. Margaret Thatcher disse, em 1985: "Não há alternativa". Todo o resto não passa utopia, irracionalidade e regressão. As virtudes do debate e do conflito são desmerecidas já que a história é governada por uma necessidade. 

Esta subcultura esconde uma ameaça existencial que lhe é própria: a ausência de performance condena ao desaparecimento e, ao mesmo tempo, cada um passa a ser acusado de ineficiência e forçado a se justificar sobre todas as suas escolhas. A confiança é quebrada. Só o que vale é a avaliação, e a decorrente burocracia que impõe a definição e a busca de uma infinidade de metas e indicadores aos quais é preciso se adequar. A criatividade e o pensamento crítico são sufocados pela gestão. E todos devem ser penalizados pelos gastos desnecessários e pela inércia de que forem culpados. 

A ideologia neoliberal gera uma normatividade que passa a concorrer com as leis em vigor. O poder democrático do direito fica, assim, comprometido. Por representarem a concretização das liberdades e das emancipações e por imporem freios aos abusos, a lei e o processo passam a ser obstáculos. 

Da mesma forma, o Judiciário, que seria capaz de contrariar as classes dominantes, precisa ser enquadrado. A justiça belga é, aliás, subfinanciada; em 2015, ficou em último lugar num ranking europeu que inclui todos os estados localizados entre o Atlântico e os Urais. Em dois anos, o governo conseguiu tirar a independência que a Constituição concede ao Judiciário em nome do cidadão, para que possa desempenhar o papel de contrapoder que se espera dele. O projeto é claramente um só: que não haja mais justiça na Bélgica. 

A classe dominante, no entanto, não receita para si a mesma poção prescrita aos cidadãos comuns, pois uma austeridade bem organizada começa sempre pelos outros. O economista Thomas Piketty descreveu perfeitamente o fenômeno em seu estudo sobre as desigualdades e o capitalismo no século XXI. 

Apesar da crise de 2008, e os encantamentos éticos que se seguiram, nada foi feito para policiar o sistema financeiro e submetê-lo às exigências do bem comum. Quem pagou? As pessoas comuns, como você e eu. 

E enquanto o Estado belga consentia às multinacionais incentivos fiscais de sete bilhões de euros para os próximos dez anos, o cidadão viu o acesso à justiça ser sobretaxado (aumento de custas judiciais, tributação a 21% dos honorários de advogados). Para obter uma reparação, as vítimas de injustiças precisam ser, antes de tudo, ricas. 

Isso em um país onde o número de mandatários públicos desafia todos os padrões mundiais. Neste setor particular, nada de avaliação ou estudos comparando custo e benefício. Exemplo: mais de trinta anos após o federalismo, a instituição provincial sobrevive sem que ninguém saiba dizer para que serve. Oportunamente, a racionalização e a ideologia gerencial são barradas na porta do mundo político. 

O terrorismo, outro niilismo que revela nossas fraquezas e nossa covardia na afirmação de nossos valores, deve agravar o processo, permitindo, em breve, justificar todas as violações das liberdades e do direito ao protesto, dispensar juízes considerados ineficazes, e reduzir ainda mais a proteção social dos mais pobres, a ser sacrificada em nome desse “ideal” de segurança. 

Este contexto ameaça, sem dúvida, as bases de nossas democracias, mas deveria nos condenar ao desespero e ao desânimo? 

Certamente não. Há 500 anos, no auge das derrotas sofridas pela maioria dos estados italianos, impondo-lhes uma ocupação estrangeira por mais de três séculos, Nicolau Maquiavel incitava os homens virtuosos a resistir diante do destino e da adversidade, preferindo a ação e a audácia à cautela. Pois quanto mais trágica uma situação, mais ação e recusa em desistir ela exige (O Príncipe, capítulos 25 e 26). 

Este ensinamento se impõe a nosso tempo, quando tudo parece ameaçado. A determinação dos cidadãos comprometidos com a radicalidade dos valores democráticos constitui um recurso inestimável, que ainda não revelou seu potencial de transformar aquilo que tem sido apresentado como inevitável. Graças às redes sociais e à ampliação das vozes, todos hoje podem se engajar, particularmente nos serviços públicos, universidades, entre os estudantes, na magistratura e na advocacia, para trazer o bem comum e a justiça social de volta ao centro do debate público, da administração do estado e das comunidades. 



* Manuela Cadelli é presidenta da Associação Sindical dos Magistrados da Bélgica 



(Tradução de Clarisse Meireles) 


(Ilustração: Diego Rivera – flowercarrier)




domingo, 10 de junho de 2018

GENOVA / GÊNOVA, de Dino Campana





Poi che la nube si fermò nei cieli

Lontano sulla tacita infinita

Marina chiusa nei lontani veli,

E ritornava l’anima partita

Che tutto a lei d’intorno era già arcana-

mente illustrato del giardino il verde

Sogno nell’apparenza sovrumana

De le corrusche sue statue superbe:

E udìi canto udìi voce di poeti

Ne le fonti e le sfingi sui frontoni

Benigne un primo oblìo parvero ai proni

Umani ancor largire: dai segreti

Dedali uscìi: sorgeva un torreggiare

Bianco nell’aria: innumeri dal mare

Parvero i bianchi sogni dei mattini

Lontano dileguando incatenare

Come un ignoto turbine di suono.

Tra le vele di spuma udivo il suono.

Pieno era il sole di Maggio.



*



Sotto la torre orientale, ne le terrazze verdi ne la lavagna

cinerea

Dilaga la piazza al mare che addensa le navi inesausto

Ride l’arcato palazzo rosso dal portico grande:

Come le cateratte del Niagara

Canta, ride, svaria ferrea la sinfonia feconda urgente al

mare:

Genova canta il tuo canto!



*

Entro una grotta di porcellana

Sorbendo caffè

Guardavo dall’invetriata la folla salire veloce

Tra le venditrici uguali a statue, porgenti

Frutti di mare con rauche grida cadenti

Su la bilancia immota:

Così ti ricordo ancora e ti rivedo imperiale

Su per l’erta tumultuante

Verso la porta disserrata

Contro l’azzurro serale,

Fantastica di trofei

Mitici tra torri nude al sereno,

A te aggrappata d’intorno

La febbre de la vita

Pristina: e per i vichi lubrici di fanali il canto

Instornellato de le prostitute

E dal fondo il vento del mar senza posa.



*



Per i vichi marini nell’ambigua

Sera cacciava il vento tra i fanali

Preludii dal groviglio delle navi:

I palazzi marini avevan bianchi

Arabeschi nell’ombra illanguidita

Ed andavamo io e la sera ambigua:

Ed io gli occhi alzavo su ai mille

E mille e mille occhi benevoli

Delle Chimere nei cieli:. . . . . .

Quando,

Melodiosamente

D’alto sale, il vento come bianca finse una visione di

Grazia

Come dalla vicenda infaticabile

De le nuvole e de le stelle dentro del cielo serale

Dentro il vico marino in alto sale,. . . . . .

Dentro il vico chè rosse in alto sale

Marino l’ali rosse dei fanali

Rabescavano l’ombra illanguidita,. . . . . .

Che nel vico marino, in alto sale

Che bianca e lieve e querula salì!

«Come nell’ali rosse dei fanali

Bianca e rossa nell’ombra del fanale

Che bianca e lieve e tremula salì: …..»

Ora di già nel rosso del fanale

Era già l’ombra faticosamente

Bianca. . . . . . . .

Bianca quando nel rosso del fanale

Bianca lontana faticosamente

L’eco attonita rise un irreale

Riso: e che l’eco faticosamente

E bianca e lieve e attonita salì. . . . .

Di già tutto d’intorno

Lucea la sera ambigua:

Battevano i fanali

Il palpito nell’ombra.

Rumori lontano franavano

Dentro silenzii solenni

Chiedendo: se dal mare

Il riso non saliva. . .

Chiedendo se l’udiva

Infaticabilmente

La sera: a la vicenda

Di nuvole là in alto

Dentro del cielo stellare.



*



Al porto il battello si posa

Nel crepuscolo che brilla

Negli alberi quieti di frutti di luce,

Nel paesaggio mitico

Di navi nel seno dell’infinito

Ne la sera

Calida di felicità, lucente

In un grande in un grande velario

Di diamanti disteso sul crepuscolo,

In mille e mille diamanti in un grande velario vivente

Il battello si scarica

Ininterrottamente cigolante,

Instancabilmente introna

E la bandiera è calata e il mare e il cielo è d’oro e sul molo

Corrono i fanciulli e gridano

Con gridi di felicità.

Già a frotte s’avventurano

I viaggiatori alla città tonante

Che stende le sue piazze e le sue vie:

La grande luce mediterranea

S’è fusa in pietra di cenere:

Pei vichi antichi e profondi

Fragore di vita, gioia intensa e fugace:

Velario d’oro di felicità

È il cielo ove il sole ricchissimo

Lasciò le sue spoglie preziose

E la Città comprende

E s’accende

E la fiamma titilla ed assorbe

I resti magnificenti del sole,

E intesse un sudario d’oblio

Divino per gli uomini stanchi.

Perdute nel crepuscolo tonante

Ombre di viaggiatori

Vanno per la Superba

Terribili e grotteschi come i ciechi.

Vasto, dentro un odor tenue vanito

Di catrame, vegliato da le lune

Elettriche, sul mare appena vivo

Il vasto porto si addorme.

S’alza la nube delle ciminiere

Mentre il porto in un dolce scricchiolìo

Dei cordami s’addorme: e che la forza

Dorme, dorme che culla la tristezza

Inconscia de le cose che saranno

E il vasto porto oscilla dentro un ritmo

Affaticato e si sente

La nube che si forma dal vomito silente.



*



O Siciliana proterva opulente matrona

A le finestre ventose del vico marinaro

Nel seno della città percossa di suoni di navi e di carri

Classica mediterranea femina dei porti:

Pei grigi rosei della città di ardesia

Sonavano i clamori vespertini

E poi più quieti i rumori dentro la notte serena:

Vedevo alle finestre lucenti come le stelle

Passare le ombre de le famiglie marine: e canti

Udivo lenti ed ambigui ne le vene de la città mediterranea:

Ch’era la notte fonda.

Mentre tu siciliana, dai cavi

Vetri in un torto giuoco

L’ombra cava e la luce vacillante

O siciliana, ai capezzoli

L’ombra rinchiusa tu eri

La Piovra de le notti mediterranee.

Cigolava cigolava cigolava di catene

La grù sul porto nel cavo de la notte serena:

E dentro il cavo de la notte serena

E nelle braccia di ferro

Il debole cuore batteva un più alto palpito: tu

La finestra avevi spenta:

Nuda mistica in alto cava

Infinitamente occhiuta devastazione era la notte tirrena.



Tradução de Aurora Bernardini:


Depois que a nuvem estancou nos céus

Ao longe sobre a tácita infinita

Marina presa nos longínquos véus,

E retornava a ânima partida

Que tudo em volta dela já era arcana-

mente ilustrado do jardim o verde

Sonho na aparência sobrehumana

Das coruscantes estátuas suas soberbas:

E ouvi canto ouvi voz de poetas

Nas fontes e as esfinges nos frontões

Benignas um primeiro olvido aos pronos

Humanos pareceram dar: dos secretos

Dédalos sai: surgia branco no ar

Um torrear: inúmeros do mar

Pareceram os brancos sonhos das manhãs

Ao longe dispersando encadear

Como um ignoto turbilhar de som.

Entre as velas de espuma ouvia-se o som.

Pleno estava o sol de Maio.



*



Sob a torre oriental, nos terraços verdes na ardósia (lousa) cinérea

Alastra-se a praça ao mar que adensa os navios inexausto

Ri o arcado palácio roxo do grande alpendre:

Como as cataratas do Niágara

Canta, ri, variega férrea a sinfonia fecunda urgente ao

mar:

Gênova canta o teu canto!



*



Em uma gruta de porcelana

Sorvendo o café

Olhava da vidraça a multidão sair veloz

Entre as vendedeiras feito estátuas, estendendo ofertando

Frutos do mar com roucos gritos esbatendo deslizando

Sobre a balança imóvel:

Assim lembro-te ainda e vejo-te imperial

Subindo tumultuosa a ladeira

Rumo à porta descerrada

Contra o azul da tarde

Fantástica de troféus

Míticos por entre as torres nuas no sereno,

Agarrada a ti em volta

A febre da pristina

Vida: e pelos becos lúbricos de fanais o canto

Estornelado das putas

E vindo do fundo o vento do mar sem pausa.



*

Pelos becos marinhos na tarde

Ambígua empurrava o vento entre os fanais

Prelúdios do emaranhado dos navios:

Os palácios marinhos tinham brancos

Arabescos na sombra enlanguescida

E íamos eu a tarde ambígua:

E eu erguia os olhos para os mil

E mil e mil olhos benévolos

Das Quimeras nos céus . . . . . . . . . .

Quando,

Melodiosamente

De alto sal, o vento como branca fingiu uma visão de Graça

Como do suceder-se infatigável

De nuvens e de estrelas dentro do céu noturno

Dentro do beco marinho em alto sobe,

Dentro do beco que roxas alto eleva

Marinho as asas roxas dos fanais

Arabescavam a sombra enlanguescida,

Que no beco marinho no alto sobe

Que branca e leve e quérula subiu!

“Como nas asas roxas dos fanais

Branca e roxa na sombra do fanal

Que branca e leve e trêmula subiu...”

Já agora no roxo do fanal

Já era a sombra fatigosamente

Branca

Branca quando no roxo do fanal

Branca afastada fatigosamente

O eco atônito riu de um riso

Irreal: e que o eco fatigosamente

E branco e leve e atônito subiu...

Já em toda a volta

Luzia a tarde ambígua:

Pulsavam os fanais

O palpitar na sombra.

Ruíam ao longe ruídos

Em solenes silêncios

E perguntavam se do mar

O riso não subia...

E perguntavam se o ouvia

Infatigavelmente

A tarde: no suceder-se

De nuvens lá no alto

Dentro do céu estrelar.



*



No porto pousa o batel

No crepúsculo que brilha

Nas árvores quietas de frutos de luz,

Na paisagem mítica

De navios no seio do infinito

Na noite

Cálida de alegria, luzindo

Num grande num grande velário

De diamantes estendido no crepúsculo,

Em mil e mil diamantes em um grande velário vivo

O batel descarrega

Rangendo ininterruptamente,

Atroa incansavelmente

E a bandeira amainou e o mar e o céu é de ouro e no molhe

Correm as crianças e gritam

Com gritos de felicidade.

Já aventuram-se aos bandos

O viajadores à cidade trovejante

Que estende suas praças e suas ruas:

A grande luz mediterrânea

Fundiu-se em pedra e cinzas:

Pelos antigos becos e profundos

Rumor de vida, alegria intensa e fugaz:

Velário d’ouro de felicidade

É o céu onde o sol riquíssimo

Deixou seus despojos preciosos:

E a cidade compreende

E se acende

E a chama titila e absorve

Os restos magnificentes do sol,

E entretece um sudário de olvido

Divino para os homens cansados.

Perdidas no crepúsculo toante

Sombras de viajantes

Vão pela Soberba

Terríveis e grotescos como os cegos.



*



Vasto, dentro de odor tênue esmorecido

De alcatrão, velado pelas luas

Elétricas, no mar que mal se mexe

O vasto porto adormece.

Alça-se a nuvem das chaminés

Enquanto o porto em um doce chiar

De cordas adormece: e que a força

Dorme, dorme que embala a tristeza

Inconsciente das coisas que serão

E o vasto porto oscila em um ritmo

Fatigado e se sente

A nuvem que se forma pelo vômito silente.



*



Ò siciliana proterva opulenta matrona

Às janelas ventosas do beco marinheiro

No seio da cidade sovada de sons de navios e de carros

Clássica mediterrânea fêmea dos portos:

Pelos róseos cinzas da cidade de ardósia

Soavam os clamores vespertinos

E depois mais quietos os ruídos dentro da noite serena:

Via às janelas brilhando como estrelas

Passar as sombras das famílias marinhas: e os cantos

Ouvia eu lentos e ambíguos nas veias da cidade mediterrânea:

Pois era a noite funda.

Enquanto tu, siciliana, dos vidros

Côncavos em um jogo torto

A sombra oca e a luz vacilante

Ó siciliana, nas tetas

A sombra encerrada eras tu

O polvo das noites mediterrâneas.

Rangia rangia rangia em suas correntes

O guindaste do porto no oco da noite serena:

E dentro do oco da noite serena

E nos braços de ferro

O débil coração batia em um pulsar mais alto: tu

Tinhas a janela apagada:

Nua mística oca no alto

Infinitamente olhuda devastação era a noite tirrena.



(Canti Orfici)





(Ilustração: Hartmann Schedel, 1490 - Genova - Nuremberg chronicles)



quinta-feira, 7 de junho de 2018

DA MÚSICA OVO-PODRE E DA POESIA ZUMBI, de Luis Dolhnikoff






A PBC (poesia brasileira contemporânea), assim como a MPB (música popular brasileira, para quem não se lembra), morreu. Quem constatou a morte da segunda não fui eu, mas Chico Buarque de Hollanda, que declarou, explicitamente: “A canção morreu” (e a canção era o gênero musical por excelência da MPB). 

Em tempos recentes, muita coisa foi declarada morta um tanto prematuramente: o advento da TV mataria o rádio, a fotografia mataria a pintura, o cinema mataria o teatro etc. Mas tirando a máquina de escrever, que foi substituída diretamente pelo teclado do computador (e, portanto, pelo computador), os moribundos anunciados estão bem de saúde, porque, na verdade, a cultura contemporânea, ao contrário do que aconteceu quando da Revolução Industrial, no século XVIII, é uma cultura de acúmulo, não de substituição. 

Um dos motivos é a própria Revolução Industrial: o advento da mecanização arrancou da musculatura humana o papel central, ao lado da musculatura animal (guiada por humanos), de geradora de energia para a produção. Isso levou, ao longo dos séculos XIX e XX, à indústria do entretenimento: o tempo dedicado ao trabalho tendia a diminuir, como de fato diminuiu. Além disso, o enriquecimento geral dos países industrializados (basta pensar na penúria francesa no Ancien Règime) criou a classe média e os direitos trabalhistas (com destaque para a jornada de trabalho). Havia agora muito tempo e algum dinheiro para as massas consumirem. 

Trotsky afirmou que a Revolução transformaria cada homem num Goethe. Goethe acharia a ideia um tanto estranha, imagino. Mas o que importa é a metáfora: a humanidade se transformaria numa imensa academia, uma Atenas planetária, com as multidões se dedicando à vida intelectual e à criação artística. Isto foi ainda mais explicitado por algumas vanguardas do século XX, marcadas pelo democratismo e pelo voluntarismo: “Todo homem é um artista” (Joseph Beuys). 

Não, não é. O máximo que se pode dizer numa afirmação existencial absolutista é que todo homem e toda mulher são humanos. Fora isso, é mera opinião, expressão de desejo ou talvez puro delírio. Cada homem e cada mulher são o que são. E eles são, inevitavelmente, medíocres, na maioria dos casos. A diferença desta afirmação em relação às anteriores é que não se trata de uma doxa, de uma opinião (e toda opinião vale tanto quanto as outras, incluindo a que a nega), mas de uma epistéme, de um conhecimento, baseado na própria etimologia da palavra. Medíocre é do mesmo campo de médio, mediano. E a maioria da humanidade, necessariamente, não pode senão representar a média da própria humanidade. 

Por constatação histórica já multissecular (desde a Revolução Industrial e do ensino universal, implementado primeiro na França após a Revolução Francesa), o que se comprovou é que Trotsky e as vanguardas estavam redondamente errados: as massas não querem ser Goethes, querem, em seu tempo livre, ver séries de TV, ouvir música ruim, anunciar ao mundo pelo Facebook o ponto de cozimento da salsicha que têm em mãos, tirar infinitos selfies, fotografar seu teste de gravidez e fazer buscas pelo Google sobre a vida de pessoas famosas porque muita gente faz pesquisas sobre suas vidas pelo Google. Não há encontros multitudinários em estádios para maratonas de leitura, mas para rezas públicas ou para se acompanhar com atenção, tensão e ansiedade infindáveis partidas de futebol. 

Referi-me acima à música ruim, o que me permite voltar à afirmação de Chico Buarque. Apesar de certa histeria democratista da época, tudo tem, necessariamente, um limite. Há gostos incontáveis quando se trata de ovos fritos, incluindo a consistência da clara e da gema, a quantidade de sal etc. Mas ninguém gosta de ovos queimados. Ovos queimados são ruins. Mas isso não pode se aplicar à música dita ruim, já que, ao contrário dos ovos queimados, multidões a adoram. Isso parece verdade – mas não o é, necessariamente. Marx afirmou que a razão da história (ou da “evolução histórica”) era a “educação dos sentidos”. Ninguém gosta de ovos queimados, pode-se deduzir, porque não se é acostumado a comê-los desde a infância. Uma prova indireta disso é o fato de os chineses, aos bilhões, gostarem de ovos podres (os liricamente chamados “ovos de mil anos”). Portanto, se as pessoas se acostumarem desde sempre a comer ovos podres, gostarão de ovos podres. Os chineses têm todo o direito de afirmar que são deliciosos. Mas não de dizer que não são podres. Portanto, eles são, para eles, deliciosos apesar de podres. 

A atual música de massa brasileira, filha bastarda e abastardada da morte da canção, é consumida aos milhões, mas isso, como demonstram os bilhões que consomem ovos podres, não garante nada quanto ao sabor do que se consome. Tudo que se pode deduzir com certeza é que se trata de um hábito (como diria Marx). 

A questão de por que as massas chinesas são alimentadas com ovos podres e as massas brasileiras com música ruim, deixo para os antropólogos e os sociólogos. Aqui interessa apenas o paralelo anunciado no início, entre a morte da canção constatada por Chico Buarque e a morte da poesia contemporânea idem humildemente por mim. 

A morte da canção não é a morte da música popular, obviamente, mas a morte de um gênero musical. Esse gênero se caracterizava, sinteticamente, por uma linha melódica clara, cujas notas se encaixavam às palavras da letra. Havia, ainda, certo equilíbrio minimalista mas sutilmente complexo no acompanhamento instrumental – que idealmente resultava em um diálogo musical entre notas instrumentais e vocais. A questão que a afirmação de Chico Buarque coloca, tendo em vista o contexto, é: por que, em vez de vários tipos de ovos serem hoje consumidos, a quase totalidade do país de Noel Rosa, Pixinguinha e do próprio Chico Buarque de repente passou a consumir quase que somente ovos podres? Porque, como os chineses, eles gostam de ovos podres. Não há resposta mais honesta. O que, como já dito, não muda o sabor de um ovo podre. 

A canção morreu, e seu cadáver tem cheiro de ovo podre. Mas e quanto à PBC, a poesia brasileira contemporânea? 

Também morreu, mas os zumbis que a substituíram não zumbem tão alto quanto os que substituíram a canção. Daí ser mais difícil percebê-lo. 

Por motivos alheios às próprias dimensões deste texto, não cabe aqui discutir as razões, mas apenas constatar que, entre os inúmeros itens da nova indústria do entretenimento, nascida do novo ócio dos trabalhadores desde a Revolução Industrial, a poesia ficou de fora. Portanto, ela é, ainda que à sua revelia, uma arte de elite, nem que fosse pelo absoluto descaso das massas em relação a ela (mas também, e principalmente, porque se insere numa milenar tradição estético-literária; é uma linguagem com características próprias). 

A ciência experimental e teórica, por razões próprias, também é uma atividade de elite (não, o mundo definitivamente não é feito de Goethes). E o que fazem os cientistas com isso? Para usar um dito popular, usam os limões para fazer uma refrescante limonada. Se a ciência é e tem de ser, por sua própria natureza, que exige talento, imaginação, imensa capacidade de trabalho e enorme preparo intelectual, uma atividade de elite, que faça então um trabalho de elite, ou seja, de alta qualidade, rigor, apuro, interesse e inventividade, ajudando, à revelia do desinteresse científico das massas, a moldar o mundo moderno. Nem o mais delirante democratista poderia afirmar que tais características se aplicam sequer minimamente à poesia contemporânea. 

Ela é, como a ciência, uma atividade ignorada pelas massas, logo, de elite. Mas, ao contrário da ciência, em vez de aproveitar essa circunstância para tirar dela o que de melhor só ela pode permitir, a poesia contemporânea não sabe ou não quer ser de elite. Mas condenada a sê-lo pelos fatos socioculturais, acaba não sabendo o que é nem o que fazer – inclusive consigo mesma. 

A canção morreu, e foi soterrada pela música ovo-podre – porque a música faz parte da indústria do entretenimento. Já a poesia se zumbificou, e vaga por aí, entre livros que ninguém lê e poetas que ninguém conhece. Mas isso não incomoda muita gente, afinal, pois a poesia não faz parte da indústria do entretenimento. 

Recusando-se a ou incapaz de ser, como a ciência, uma atividade poderosamente produtiva, criativa e inventiva, que apesar de elite, ou porque de elite, possa apreender o e se inserir no complexo mundo contemporâneo, e ao mesmo tempo excluída da indústria do entretenimento, a poesia, vagando em torno do cadáver da canção, é hoje um morto-vivo. 

“Publish or persish”: publique ou pereça, diz um antigo adágio do meio científico. Pois uma descoberta não publicada é uma descoberta indescoberta. Não entra na corrente sanguínea do fazer científico, logo, é como se não existisse. A poesia contemporânea inverteu a equação: publique e pereça, ou publique para perecer. Publique para não ser lido. 

No final do século XIX e no início do XX, ou seja, antes das primeiras vanguardas, a poesia tinha uma forte presença cultural, ao menos nos meios dominantes. Ela era lida em banquetes, em saraus, em eventos públicos (para os quais muitas vezes um poema era encomendado) e publicada em todos os jornais. Uma das principais explicações é que a poesia e seu público compartilhavam o mesmo código, que se pode chamar, senso lato, de cultura literária. Os temas e as formas (com destaque para o soneto) eram conhecidos e reconhecidos. Mas assim como aconteceu com a nova pintura, a partir do impressionismo, as vanguardas poéticas passaram a ignorar seu público em nome da supremacia das questões próprias da linguagem, exigidas pelo mundo contemporâneo (como sempre fez a ciência). Além disso, também havia um componente ideológico, que, mais do que ignorar, pretendia espantar, nos dois sentidos, seu público (resumido na palavra de ordem “épater la bourgeoisie”, “espantar a burguesia”). 

A poesia modernista de fato espantou seu antigo público – e foi disto acusada. Mas a história provaria que os modernistas sabiam o que estavam fazendo. Ao acabar com as formas fixas e trazer a língua coloquial para a poesia, eles afinal atraíram um público ainda maior, em um país que se urbanizava e se modernizava. Uma de suas revistas se chamava Klaxon, buzina. Um termo e um objeto conhecidos dos novos habitantes das cidades em rápida expansão, mas que não teria lugar no vocabulário poético antigo. Além, é claro, de servir para espantar. 

A operação era, afinal, de mão dupla: afastar o antigo público conservador da poesia conservadora, e se aproximar da vida moderna, logo, potencialmente, do público moderno. Bandeira e Drummond, para citar apenas dois nomes, seriam popularíssimos. E, em menor escala, mesmo o complexíssimo João Cabral. E todos entraram para a corrente sanguínea da cultura brasileira. Vinícius de Moraes foi um poeta que migrou das formas clássicas para a linguagem modernista (apesar de sempre praticar o soneto, mas um soneto modernizado). Não haveria “Garota de Ipanema” sem o coloquialismo da nova poesia. Nem “Construção”, de Chico Buarque, sem as permutações cabralinas. 

Mas as regras do jogo seriam de novo embaralhadas pelas vanguardas visualistas da segunda metade do século XX, com destaque para o concretismo. Segundo uma afirmação, se não me falha a memória, de Décio Pignatari, “a nova poesia seria concreta [ou visual] ou não seria”. Bem, ela foi. Mas não foi. Ao contrário do modernismo, com sua implosão das formas fixas e sua inclusão da língua coloquial, que expandiu as possibilidades, o público e o diálogo com outras linguagens (como a música popular) da então nova poesia, as poéticas visualistas se revelariam quase um beco sem saída. Nos anos 1990, seria decretada uma espécie de “morte das vanguardas” (Haroldo de Campos). 

Em 1989 caiu o Muro de Berlim, soterrando o sonho socialista. Não havia mais vanguardas nem utopias. A própria contracultura (que dera origem à chamada “poesia marginal”, última tentativa deliberada de reencontrar certo público urbano e “moderno”) morrera anos antes (“The dream is over”, nas palavras imortais de Lennon). Havia agora um mundo mais complexo e mais confuso a encarar. E os poetas, confusos ou incapazes, ou incapazes porque confusos, não deram conta. 

Para piorar, no vácuo e na confusão geral da época, emergiu o chamado “democratismo”, segundo o qual o “fim das certezas” era igual ao vale-tudo. Naturalmente, o caminho mais fácil. E mais infértil 

Porque se a poesia não conseguiria ou não tentaria mais dar conta do mundo contemporâneo, restava se encapsular. O encapsulamento mais evidente foi a migração para a academia. Grande parte dos poetas atuais são formados em letras ou professores de letras, como se o contexto institucional pudesse servir de substituto para a perda do contexto cultural geral. A subcultura (no sentido de particularismo) acadêmica faz as vezes de uma nova e apequenada suficiência. Já os poetas que não são acadêmicos são, como regra, anêmicos (o que não exclui que os primeiros também o sejam). Pois sua poesia não tem a força nem os meios para dar conta do mundo contemporâneo. Portanto, no limite, é apenas tinta no papel (e sua satisfação com essa condição é outra manifestação de encapsulamento). 

Em termos formais, essa anemia é mais evidenciada pelo prosaísmo, que se tornou dominante na poesia atual. Dizer prosaísmo é quase uma concessão. Pois ela é, em sua maior parte, pura e simples má prosa, apenas recortada aleatoriamente e margeada à esquerda. E quem precisa de uma prosa prosaica disfarçada de poesia? É esta a linguagem que falará do e falará ao complexo e confuso mundo contemporâneo? Então, a completa indiferença do público e a perfeita ausência na cultura atual são a por ora única resposta. 





(Ilustração: Georges Moreau de Tours - Heinrich Heine and the muse of poetry)