domingo, 11 de outubro de 2026
A CIDADE DAS MULHERES, de Christine de Pizan
I
Aqui começa o livro A Cidade das Mulheres,
cujo primeiro capítulo narra como surgiu esta obra
e com que propósito foi escrita.
Sentada um dia em meu gabinete, cercada por inúmeros livros, conforme meu hábito, já que o estudo das artes liberais é um costume que rege a minha vida, encontrava-me com a mente um pouco fatigada, após ter refletido sobre as ideias de vários autores. Abandonei os textos difíceis que lia, e procurei espairecer com a leitura de algum poeta. Sob tal ânimo, caiu em minhas mãos um opúsculo insólito, que não era meu, mas que me havia sido emprestado. Abri-o e vi que tinha por título Les Lamentations de Mateolo [1]. Sorri, pois, embora nunca o tivesse visto, sabia que esse livro tinha certa reputação de falar muito bem das mulheres!… Pensei, então, que poderia ler algumas páginas para me divertir. Mas minha leitura mal havia começado quando minha boa mãe veio me chamar para a mesa, pois já era hora de jantar. Fechei o livro, para retomá-lo no dia seguinte.
Ao regressar ao meu gabinete, na manhã seguinte, como de costume, recordei que precisava ler a obra de Mateolo. Adentrei o texto, mas como me pareceu que o assunto era pouco grato para quem não se compraz com a hipocrisia nem contribuía em nada para o cultivo de qualidades morais, além das grosserias do estilo e da argumentação, depois de ler uma página e outra, fui até o final e deixei-o para voltar aos estudos mais sérios e apropriados. Ainda que tal obra não tenha nenhuma autoridade, a sua leitura deixou-me perturbada, e com profunda perplexidade. Interrogava-me sobre que motivos inspiravam tantos homens, clérigos e laicos, a vituperar as mulheres, a criticá-las tanto em escritos e tratados. Não se trata de um homem ou dois, tampouco se tratava desse Mateolo, pois jamais obterá admiração, já que o seu opúsculo não passa de uma anedota, e não há texto que esteja isento de misoginia. Pelo contrário, filósofos, poetas, moralistas, todos — a lista é demasiado longa — parecem falar em coro para concluir que a mulher é fundamentalmente má e dada ao vício.
Debruçando-me sobre tais coisas em minha mente, eu que nasci mulher, pus-me a refletir sobre o meu caráter e a minha conduta, assim como a de outras mulheres que tive a possibilidade de frequentar, tanto princesas e ilustres senhoras como mulheres de medianas e modestas condições, que me confiaram seus pensamentos mais íntimos. Propus a mim mesma decidir, em sã consciência, se os argumentos reunidos por tantos varões insignes poderiam estar equivocados. No entanto, por mais que tentasse refletir sobre isso, avaliando as ideias como quem monda uma fruta, não compreendia nem admitia como tendo fundamento o juízo dos homens sobre a natureza e a conduta das mulheres. Ao mesmo tempo, aplicava-me em atribuir culpa a elas, porque pensava que seria improvável que homens tão preclaros, doutores de tão profundo entendimento e clarividência universal — dir-se-ia que todos desfrutavam de tais capacidades —, discorreriam de maneira tão contundente em inúmeras obras, e para mim seria quase impossível encontrar um texto acerca da moral, seja qual fosse tal autor, sem chocar-me, antes de chegar ao término, com algum parágrafo ou capítulo a acusar ou depreciar as mulheres. Bastava esse argumento para concluir que tudo era verdade, ainda que a minha mente, em sua ingenuidade e ignorância, não chegasse a reconhecer os grandes defeitos que eu provavelmente compartilhava com as outras mulheres. De tal maneira, cheguei a acreditar mais no juízo alheio do que naquilo que sentia e percebia como mulher.
Estava tão intensa e profundamente imersa em tais pensamentos tristes, que me pareceu ter caído num estado de catalepsia. Como que a brotar de uma fonte, um grande número de autores surgiu em minha mente; eu os examinava um a um e, por fim, concluí que Deus havia feito algo verdadeiramente desprezível ao criar a mulher. Não deixava de me espantar que tão grande Criador houvesse consentido em gerar obra tão abominável, já que, ao se acreditar em tais autores, a mulher seria um receptáculo capaz de conter todos os vícios e males. Inteiramente entregue a tais reflexões, fui tomada pelo desgosto e pela consternação, desprezando a mim mesma e a todo o sexo feminino, como se a Natureza houvesse engendrado monstros. Assim eu me lamentava:
“Ah, Senhor! Como poderá ser, como crer sem cair no erro de que a tua sabedoria infinita e a tua perfeita benevolência puderam gerar algo que não fosse bom? Acaso a mulher não foi criada de maneira deliberada, a incutir-lhe todas as qualidades que eram semelhantes às tuas? Como seria possível tal equívoco? Contudo, aí se encontram graves acusações, juízos e condenações contra as mulheres. Não consigo compreender tamanha aberração. Se for verdade, Senhor, que tanta abominação exista na mulher, como muitos afirmam — e se afirmas que a concordância de muitos testemunhos sirva para dar fé, há de ser verdade —, ah, Deus meu, por que não me fizera nascer varão para melhor servir-te com todas as minhas disposições, para não me equivocar com nada e ter tão grande perfeição que dizem ter os homens! Como não quiseste que assim fosse, e não estendeste até mim a tua benevolência, perdoa a minha perfídia, e consinta em recebê-la, porque o servo que menos recebe do seu senhor é o que mais merece.” Dessa maneira, desfazia-me em lamentações a Deus, angustiada pela tristeza, a ponto de desesperar-me pelo Senhor ter me feito nascer num corpo de mulher.
II
Como três Senhoras apareceram diante de Christine,
e como a primeira se dirigiu a ela
para consolá-la de sua tristeza.
Abatida por esses tristes pensamentos, baixara a cabeça, envergonhada, os olhos cheios de lágrimas, sentara-me em minha cadeira, o rosto apoiado na mão, quando subitamente desceu sobre o meu peito um raio de luz, como se o sol atingisse aquele ponto — embora o meu quarto de estudo seja escuro e o sol não o penetrasse nessas horas —, e me surpreendi como se despertasse de um sonho profundo. Ergui a cabeça para olhar de onde partira a luz e vislumbrei diante de mim três Senhoras coroadas, de estirpe altiva. O esplendor que manava dos seus rostos refletia em mim e banhava todo o cômodo. Escusado será explicar o meu sobressalto, já que as três Senhoras entraram, estando as portas fechadas. Assustara-me de tal maneira que me benzera, a temer que tal acontecimento fora causado por algum demônio.
Então, a primeira das três Senhoras sorriu e dirigiu-se a mim com tais palavras: “Minha querida filha, não temas, não viemos aqui para te causar mal ou prejuízo, mas sim para te consolar. Tivemos piedade do teu desespero e queremos te livrar dessa ignorância, que te cega a tal ponto que rejeitas o que sabes com toda certeza para te aliares a uma opinião que não acreditas, não conheces e que fundamentas apenas na acumulação dos preconceitos alheios. Pareces aquele tolo cuja história é bem conhecida: que, tendo adormecido no moinho, foi vestido com roupas de mulher e, ao despertar, acreditou nas mentiras daqueles que zombavam dele, afirmando que havia se transformado em mulher, ao invés de confiar em sua própria experiência. Minha querida filha, onde está o teu discernimento? Acaso te esqueceste de que é no cadinho que se purifica o ouro fino; ele não se altera nem perde suas virtudes, mas, ao contrário, quanto mais trabalhado, mais refinado se torna. Não sabes que são as melhores coisas aquelas sobre as quais mais se discute e se debate? Reflete sobre as Ideias, ou seja, as coisas celestes, que são as mais sublimes; não vês que até os maiores filósofos, aqueles cujos testemunhos citas contra o teu próprio sexo, não conseguiram discernir o verdadeiro do falso, mas se refutam uns aos outros e discutem sem fim? Aprendeste isso por ti mesma na Metafísica de Aristóteles, que critica e refuta igualmente as opiniões de Platão e de outros filósofos ao citá-los. E observa ainda que Santo Agostinho e outros doutores da Igreja fizeram o mesmo em relação a certos trechos de Aristóteles, que, no entanto, é chamado de o Príncipe dos Filósofos e a quem devemos as mais elevadas doutrinas da filosofia natural e moral.
“Certamente, pareces acreditar que tudo o que afirmam os filósofos é artigo de fé e não podem errar. Quanto aos poetas a que fazes referência, não sabes que se amparam numa linguagem figurada, e que, às vezes, é necessário interpretar o contrário do sentido literal? Dessa forma, admite-se utilizar a figura retórica chamada antífrase, cujo significado é — como bem sabes —, se por exemplo disseres que algo é mau, dever-se-á compreender o contrário. Aconselho-te a reinterpretar os escritos que depreciam as mulheres, e tirar proveitos para ti, seja quais forem as suas intenções. É provável que aquele que se chama Mateolo tenha tentado em seu livro dizer isso, porque nele há coisas que, interpretadas de maneira literal, seriam pura heresia. Por exemplo, no que se refere à diatribe em relação ao matrimônio — algo bom e digno, segundo a Lei de Deus — a experiência demonstra com clareza que a verdade é o contrário do que se afirma ao tentar impor às mulheres todos os males. Não é só esse Mateolo, mas muitos outros, em particular no Roman de la Rose [2], de Jean de Meung, que desfruta de crédito pela grande unanimidade do autor. Na verdade, onde se encontraria um marido que tolerasse que sua mulher detivesse tal poder sobre ele e pudesse lançar-lhe insultos e injúrias que, conforme os autores, são característicos de todas as mulheres? Seja o que for que tenhas lido, duvido que tenhas interpretado com os teus olhos, porque não são mais do que falatório vergonhoso e mentiras perceptíveis. Para concluir, querida Christine, dir-te-ia que foi a tua ingenuidade que te levou a essa ideia de agora. Volta a ti, resgata o teu vigor e não te preocupes com tais necessidades. Tens que entender que as mulheres não podem se deixar levar por tal difamação, que por fim se voltará contra o seu autor.”
NOTAS:
[1] Les Lamentations de Matheolus (As lamentações de Mateolo) é obra do clérigo e poeta Mathieu de Boulogne, escrita em latim por volta de 1295 e vertida para o francês no final do século XIV. O texto, que é um longo poema satírico em quatro livros, critica duramente as mulheres e o casamento, refletindo um ponto de vista misógino, frequente na literatura medieval. A Cidade das Mulheres é escrito em grande parte para se contrapor a essa obra. (N. da E.)
[2] Le Roman de la Rose (O Romance da Rosa) é uma obra alegórica, muito difundida na Europa medieval, escrita em dois momentos distintos: a primeira parte, redigida por Guillaume de Lorris nos anos de 1230, celebra o amor cortês em tom idealista. A segunda, de autoria de Jean de Meung, adota uma abordagem satírica, apresentando as mulheres de maneira lasciva e depreciativa. Em 1401, Christine de Pizan publicou Le Livre des epistres sur Le Roman de la Rose em que denunciava o conteúdo misógino da segunda parte do livro. (N. da E.)
(A cidade das mulheres; tradução de Jorge Henrique Bastos)
(Ilustração: A cidade das mulheres - iluminura do livro original)
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Christine de Pizan - A cidade das mulheres
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
A DREAM / UM SONHO, de Edgar Allan Poe
In visions of the dark night
I have dreamed of joy departed —
But a waking dream of life and light
Hath left me broken-hearted.
Ah! what is not a dream by day
To him whose eyes are cast
On things around him with a ray
Turned back upon the past?
That holy dream — that holy dream,
While all the world were chiding,
Hath cheered me as a lovely beam
A lonely spirit guiding.
What though that light, thro' storm and night,
So trembled from afar —
What could there be more purely bright
In Truth's day-star?
Tradução de Oscar Mendes e Milton Amado:
Sonhei, entre visões da noite escura,
com a alegria morta, mas meu sonho
de vida e luz me despertou, tristonho,
com o coração partido de amargura.
Ah! que não vale um sonho à luz do dia
para aquele que os olhos traz cravados
nas coisas que o rodeiam e os desvia
para tempos passados?
Aquele santo sonho, sonho santo,
enquanto o mundo repelia o pária,
deu-me o conforto, como luz de encanto
a conduzir uma alma solitária.
E embora a luz, por entre a tempestade
e a noite, assim tremesse, tão distante,
que poderia haver de mais brilhante
no claro sol da estrela da Verdade?
(Ficção completa, poesias & ensaios)
(Ilustração: Nicoletta Ceccoli - castello di cuori)
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segunda-feira, 5 de outubro de 2026
A PAISAGEM DOS MEUS DIAS…, de Marguerite Yourcenar
[…]
A paisagem dos meus dias parece compor-se, como as regiões montanhosas, de materiais diversos acumulados desordenadamente. Encontro aí a minha natureza, já compósita, formada em partes iguais de instinto e cultura. Aqui e ali afloram os granitos do inevitável; por toda a parte, os desmoronamentos do acaso. Esforço-me por voltar a percorrer a minha vida a fim de encontrar um plano, seguir um veio de chumbo ou de ouro, ou o escoamento de um rio subterrâneo, mas este plano inteiramente fictício não é mais que uma aparência enganosa da lembrança. De tempos a tempos julgo reconhecer uma fatalidade num encontro, num pressentimento, numa série definida de acontecimentos, mas os caminhos de mais não conduzem a parte alguma, somas excessivas não se adicionam. Distingo perfeitamente nesta diversidade, nesta desordem, a presença de uma pessoa, mas a sua forma parece quase sempre traçada pela pressão das circunstâncias; os seus traços tornam-se confusos como uma imagem reflectida na água. Não sou daqueles que dizem que as suas acções se lhes não assemelham. É preciso que elas se pareçam comigo, porque são a minha única medida e o único meio de me desenhar na memória dos homens ou mesmo na minha própria, pois que a impossibilidade de continuar a exprimir-se e a modificar-se pela acção constitui talvez a diferença entre o estado de morto e o de vivente. Mas entre mim e esses actos de que sou feito existe um hiato indefinível. E a prova é que sinto constantemente a necessidade de os pesar, de os explicar, de dar conta deles a mim mesmo. Alguns trabalhos que duraram pouco são certamente desprezíveis, mas ocupações que se prolongaram durante toda a vida não têm maior significado. Por exemplo, no momento em que escrevo isto, o facto de ter sido imperador parece-me fracamente essencial.
Os três quartos da minha vida escapam, aliás, pelos actos a esta definição: a soma das minhas verdades, dos meus desejos, dos meus próprios projectos mantém-se tão nebulosa e tão fugidia como um fantasma. O resto, a parte palpável, mais ou menos autenticada pelos factos, é pouco mais distinta, e a sequência dos acontecimentos tão confusa como a dos sonhos. Tenho a minha cronologia muito minha, impossível de conciliar com a que se baseia na fundação de Roma ou com a era das Olimpíadas. Quinze anos nos exércitos duraram menos que uma manhã de Atenas; há pessoas com quem convivi toda a minha vida e que não reconhecerei nos Infernos. Os planos do espaço cavalgam também: o Egipto e o vale de Tempe ficam muito próximos e eu não estou sempre em Tíbure quando aqui me encontro. Umas vezes a minha vida parece-me vulgar a ponto de não valer a pena não só escrevê-la mas comtemplá-la um tanto longamente, sem mais importância, mesmo a meus olhos, que a de outra pessoa qualquer. Outras vezes parece-me única, e por isso mesmo sem valor, inútil por ser impossível reduzi-la à experiência do comum dos homens. Coisa alguma me explica: os meus vícios e as minhas virtudes são absolutamente insuficientes para isso; a minha felicidade fá-lo melhor, mas com intervalos, sem continuidade, e sobretudo sem causa aceitável. Mas repugna ao espírito humano aceitar-se das mãos do acaso, não ser mais que o produto passageiro de probabilidades a que nenhum deus preside, nem sobretudo ele próprio. Uma parte de cada vida, e mesmo de cada vida muito pouco digna de ser notada, passa-se à procura das razões de existir, dos pontos de partida, das origens. Foi a minha impotência para os descobrir que me fez por vezes inclinar para as explicações mágicas, procurar nos delírios do oculto o que o senso comum me não dava. Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros.
(Memórias de Adriano; tradução de Maria Lamas)
(Ilustração: Arch of Hadrian, northwest side (towards the Acropolis), Athens)
Nota:
On the northwest side (towards the Acropolis), the inscription was: ΑΙΔ' ΕIΣΙΝ ΑΘΗΝΑΙ ΘΗΣΕΩΣ Η ΠΡΙΝ ΠΟΛΙΣ (this is Athens, the ancient city of Theseus).
sexta-feira, 2 de outubro de 2026
REPASTOS, de Fernando Campanella
Penso nas vacas como num mundo cifrado —
a cosmogonia circunscrita das vacas.
Mas que sei de universos fechados?
Eu, que suposta ciência tenho da alma,
dissipo noites, a cismar.
Sei que os bezerros às vezes param, e me observam,
quando por sobre o muro de silêncio os contemplo —
uma súbita luz, então, elide o tempo.
Depois nada mais acontece
a não ser um delicado ruminar de bezerros
absolvendo a tarde de metafísicas inúteis.
(Ilustração: Philipe Jacques de
Loutherbourg (1740-1812) - paisagem com gado e figuras)
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Fernando Campanella - Repastos
terça-feira, 29 de setembro de 2026
A MÁSCARA DA MORTE RUBRA, de Edgar Allan Poe
Por muito tempo a “Morte Rubra” devastara o país. Jamais pestilência alguma fora tão mortífera ou tão terrível. O sangue era seu avatar e seu sinal — a vermelhidão e o horror do sangue. Surgia com dores agudas, súbitas vertigens; depois, vinha profusa sangueira pelos poros e a decomposição. As manchas vermelhas no corpo, em particular no rosto da vítima, estigmatizavam-na, isolando-a da compaixão e da solidariedade de seus semelhantes. A irrupção, o progresso e o desenlace da moléstia eram coisa de apenas meia hora.
Mas o príncipe Próspero sabia-se feliz, intrépido e sagaz. Quando seus domínios começaram a despovoar-se, chamou à sua presença um milheiro de amigos sadios e frívolos, escolhidos entre os fidalgos e damas da corte, e com eles se encerrou numa de suas abadias fortificadas. Era um edifício vasto e magnífico, criação do gosto excêntrico, posto que majestoso, do próprio príncipe. Forte e alta muralha, com portões de ferro, cercava-o por todos os lados. Uma vez lá dentro, os cortesãos, com auxílio de forjas e pesados martelos, rebitaram os ferrolhos, a fim de cortar todos os meios de ingresso ao desespero dos de fora, e de escape, ao frenesi dos de dentro. A abadia estava amplamente abastecida. Com tais precauções, podiam os cortesãos desafiar o contágio. O mundo externo que se arranjasse. Por enquanto, era loucura pensar nele ou afligir-se por sua causa. O príncipe tomara todas as providências para garantir o divertimento dos hóspedes. Contratara bufões, improvisadores, bailarinos, músicos. Beleza, vinho e segurança estavam dentro da abadia. Além de seus muros, campeava a “Morte Rubra”.
Ao fim do quinto ou sexto mês de reclusão, quando mais furiosamente lavrava a pestilência lá fora, o príncipe Próspero decidiu entreter seus amigos com um baile de máscaras de inédita magnificência.
Que cena voluptuosa, essa mascarada! Mas me permitam, primeiramente, falar das salas em que se realizou. Era uma série imperial de sete salões. Na maioria dos palácios, tais séries formam longas perspectivas em linha reta, as portas abrindo-se de par em par, possibilitando a visão de todo o conjunto. Aqui, o caso era diverso, como se devia esperar do gosto bizarro do duque. Os apartamentos estavam dispostos de forma tão irregular que a vista abarcava pouco mais de um por vez. A cada vinte ou trinta metros, havia um cotovelo brusco, proporcionando novas perspectivas. À direita e à esquerda, no meio de cada parede, uma alta e estreita janela gótica abria-se para o corredor fechado que acompanhava as sinuosidades do conjunto. Essas janelas estavam providas de vitrais cuja cor variava de acordo com o tom predominante da decoração da sala para a qual davam. A sala da extremidade oriental, por exemplo, fora decorada em azul, e intensamente azuis eram suas janelas. A segunda sala tinha ornamento e tapeçarias purpúreas; purpúreas eram as vidraças. A terceira fora pintada de verde, sendo também verdes as armações das janelas. A quarta havia sido decorada e iluminada de alaranjado; a quinta, de branco; a sexta, de violeta. O sétimo aposento estava completamente revestido de veludo preto, que, pendendo do teto e ao longo das paredes, caía em dobras pesadas sobre um tapete de mesmo estofo e cor. Nesse aposento, entretanto, a cor das janelas não correspondia à das decorações. Suas vidraças eram vermelhas, de uma escura tonalidade sanguínea. Cumpre notar que em nenhum dos aposentos havia lâmpada ou candelabro pendendo do teto ricamente ornamentado a ouro. Luz alguma emanava de lâmpada ou candelabro em qualquer das salas. Contudo, nos corredores que as acompanhavam, em frente de cada janela, havia um pesado trípode a sustentar um braseiro cuja luz, filtrando-se através dos vitrais, iluminava o aposento, ocasionando uma infinidade de vistosas e fantásticas aparências. Na sala negra, porém, o clarão, infletindo sobre as negras cortinas através dos vitrais sanguíneos, produzia um efeito extremamente lívido e dava aparência tão estranha à fisionomia dos que ali entrassem que poucos tinham coragem de atravessar-lhe o umbral.
Era nesse mesmo aposento que havia, encostado à parede oeste, um gigantesco relógio de ébano. Seu pêndulo ia e vinha num tique-taque lento, pesado, monótono. Quando o ponteiro dos minutos completava a volta do mostrador e a hora estava para soar, saía dos brônzeos pulmões do relógio um som limpo, alto, agudo, extremamente musical, mas de ênfase e timbre tão peculiares que, a cada intervalo de hora, os músicos da orquestra viam-se constrangidos a interromper momentaneamente a execução para ouvi-lo. Nesses momentos, era forçoso que os dançarinos parassem de dançar, e um breve desconcerto se apoderava da alegre companhia. Enquanto vibrava o carrilhão do relógio, os mais afoitos empalideciam, e os mais idosos e sensatos passavam a mão pela fronte, como em sonho ou meditação confusa. Tão logo se esvaíam os ecos, um riso ligeiro percorria a assembleia. Os músicos se entreolhavam, sorrindo da própria nervosidade e loucura, fazendo juras sussurradas, uns aos outros, de que o próximo carrilhonar do relógio não mais produziria neles tal comoção. Todavia, sessenta minutos mais tarde (que abrangem três mil e seiscentos segundos do tempo que voa), quando vinha outro carrilhonar do relógio, de novo se dava o mesmo desconcerto, o mesmo tremor, a mesma meditação de antes.
.
A despeito de tudo isso, a folia ia alegre e magnífica. Os gostos do duque eram originais. Tinha ele olho esperto para cores e efeitos. Desprezava as maneiras da moda em vigor. Seus projetos eram audazes e vivos; suas concepções esplendiam de um lustro bárbaro. Muitos acreditariam tratar-se de um louco. Seus adeptos, porém, sabiam que não. Era preciso ouvi-lo, vê-lo e tocá-lo para assegurar-se de seu juízo perfeito.
Em grande parte, ele comandara pessoalmente a caprichosa decoração das salas para a grande fête; sob sua orientação, haviam sido escolhidas as fantasias. Sem dúvida, elas eram grotescas. Havia muito brilho, muita pompa, muita coisa fantástica, muito daquilo que, desde então, pode-se ver em Hernani. Havia figuras arabescas, com membros e adornos desproporcionados. Havia fantasias delirantes, invenções de louco. Havia muito de belo, de atrevido, de bizarro, algo de terrível, capaz em não pouca medida de provocar aversão. Para lá e para cá, nas sete salas, movimentava-se uma multidão de sonhos. E esses sonhos andavam de um canto a outro, impregnando-se do colorido das salas, fazendo a música extravagante da orquestra soar como o eco de seus passos. Mas logo cantava o relógio de ébano na sala aveludada; por um momento, tudo se fazia imobilidade e silêncio, perturbado apenas por aquela voz. Os sonhos paravam, retesados. Porém, quando os ecos do carrilhão se esvaíam — tinham durado apenas um instante —, um frouxo de riso os acompanhava. E, mais uma vez, a música era reiniciada, os sonhos tornavam a viver e a circular mais alegremente que nunca, banhados pelas cores que a luz dos trípodes, atravessando os vitrais, projetava sobre eles. Entretanto, à última das sete salas, ninguém se aventurava, porque, avançando a noite, a luz filtrada pelas rubras vidraças fazia-se mais sanguínea; e a negrura dos panejamentos causava medo. Aqueles cujos pés pisassem o tapete veludoso ouviriam o som abafado do relógio, e o ouviriam mais solenemente enfático que os convivas dos demais salões.
Esses outros salões estavam cheios de gente; neles, pulsava febril o coração da vida. E a folia continuou, rodopiante, até que o relógio começou a bater meia-noite. A música parou, como já descrevi; acalmou-se o rodopio dos dançarinos; e, como antes, uma constrangida imobilidade tomou conta de todas as coisas. Doze foram as badaladas; por isso, os que meditavam entre os foliões tiveram tempo de meditar mais longa e profundamente. E antes que se esvanecesse o eco da última badalada, muitos dos convivas puderam perceber a presença de um novo mascarado, que, até então, não atraíra as atenções. Entre murmúrios, propagou-se a notícia da nova presença; elevou-se da companhia um zum-zum, um rumor de desaprovação e surpresa, a princípio; de terror, de horror e de náusea, depois.
Numa assembleia de fantasmas, como a que descrevi, era de supor que tal agitação não seria causada por aparição vulgar. Na realidade, a licença carnavalesca da noite fora praticamente ilimitada, mas o novo mascarado excedia em extravagância ao próprio Herodes; ultrapassava, inclusive, os indecisos limites de decoro impostos pelo príncipe. Há fibras no coração dos mais levianos que não podem ser tocadas impunemente. Mesmo para os pervertidos, para quem vida e morte são brinquedos igualmente frívolos, há assuntos sobre os quais não se admitem brincadeiras. Todos os presentes pareciam se dar conta de que, nos trajes e nas atitudes do estranho, nada havia de espirituoso ou de conveniente. Alto e lívido, vestia uma mortalha que o cobria da cabeça aos pés. A máscara que lhe escondia as feições imitava com tanta perfeição a rigidez facial de um cadáver que nem mesmo a um exame atento se perceberia o engano. E, no entanto, tudo isso seria, se não aprovado, ao menos tolerado pelos presentes, não fora a audácia do mascarado em disfarçar-se de Morte Rubra. Suas vestes estavam salpicadas de sangue; sua ampla fronte, assim como toda a face, fora borrifada com horrendas manchas escarlates.
Quando os olhos do príncipe Próspero caíram sobre aquela figura espectral (que, para melhor representar seu papel, caminhava entre os dançarinos com passos lentos e solenes), viram-no ser tomado de convulsões e arrepios de terror ou asco, no primeiro instante; logo depois, porém, seu rosto congestionou-se de raiva.
— Quem se atreve — perguntou roucamente aos cortesãos que o cercavam —, quem se atreve a insultar-nos com essa brincadeira blasfema? Agarrem-no, desmascarem-no! Assim saberemos quem deverá ser enforcado ao amanhecer!
Essas palavras vieram da sala azul, onde se achava o príncipe quando as pronunciou. Ecoavam pelas sete salas, alta e claramente, porque o príncipe era homem destemido e forte, e a música havia cessado, a um gesto seu.
Vieram da sala azul, onde estava o príncipe, rodeado de cortesãos empalidecidos. No primeiro momento que se seguiu à fala do príncipe, houve um ligeiro movimento de avanço do grupo em direção ao intruso. Este se achava perto e, com passos deliberados e firmes, aproximou-se do anfitrião. Mas, devido ao indefinível terror produzido pelo mascarado no ânimo de todos, ninguém se atreveu a agarrá-lo. Sem empecilho, ele se afastou, passando a um metro do lugar onde estava o príncipe. À sua passagem, toda a vasta assembleia, como que movida pelo mesmo impulso, afastou-se do centro das salas para as paredes, e o mascarado pôde seguir seu caminho com desembaraço, e com os mesmos passos solenes e medidos com que passara da sala azul à vermelha, da vermelha à verde, da verde à alaranjada, desta para a branca, e para a violeta, sem que nenhum dos circunstantes tivesse esboçado um gesto para detê-lo. Foi quando, louco de raiva e vergonha da própria e momentânea covardia, o príncipe Próspero cruzou apressadamente as seis salas, sem ninguém a segui-lo: o terror se apoderara de todos. Brandindo o punhal, avançava impetuosa e rapidamente; já estava a três ou quatro passos do vulto que se retirava, quando este, atingindo a extremidade da sala aveludada, virou-se bruscamente e enfrentou seu perseguidor. Nesse instante ouviu-se um grito agudo, e o punhal caiu cintilante no tapete negro, sobre o qual tombou também, instantaneamente e ferido de morte, o príncipe Próspero. Recorrendo à selvática coragem do desespero, um grupo de foliões correu para a sala negra e, agarrando o mascarado, cuja alta figura permanecia ereta e imóvel à sombra do relógio de ébano, detiveram-se eles, horrorizados, ao descobrir que a mortalha e a máscara mortuária que tão rudemente haviam agarrado não continham nenhuma forma tangível.
Só então se reconheceu a presença da Morte Rubra. Viera como um ladrão na noite. E, um a um, caíram os foliões nos ensanguentados salões da orgia, e morreram, conservando a mesma desesperada postura da queda. E a vida do relógio de ébano extinguiu-se simultaneamente com a do último dos foliões. E as chamas dos trípodes apagaram-se. E a Escuridão, a Ruína e a Morte Rubra estenderam seu domínio ilimitado sobre tudo.
(A causa secreta: e outros contos de horror; tradução de José Paulo Paes)
(Ilustração: Enrique Chavarria - the masque of the red death)
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Edgar Allan Poe - A máscara da morte rubra
sábado, 26 de setembro de 2026
SYNTRA / SYNTRA, de Luisa Sigea
Est locus, occiduas ubi sol æstivus ad oram
Inclinat radios, nocte premente diem:
Oceanumque petit, curruque invectus eburno,
Iam cursu lassos æquore tingit equos.
Vallis ibi inclusa, scopulis ad sidera ductis,
Deflectit clivos: murmurat intus aqua.
Obiicit Oceano molem, ternæque minantur
Excelsæ rupes tangere tecta poli.
Et nisi condensi cingant fastigia nimbi,
His cælum credas sistere verticibus.
Rupibus his Fauni, sunt hic quoque lustra ferarum,
Venator matres figat ubi et catulos.
Inferne viridi densantur robora fronde:
Silvano et Satyris efficit umbra domos.
Populus hic, corylique decus, fagusque pirusque,
Et cerasus, prunus, castaneaeque nuces,
Et plantæ innumeræ mortalibus esca beatis,
Quæ sunt divorum munera cælicolum.
Flava Ceres dextra mortales vertere terram,
Et serere, et messes condere, sponte docet.
Pan læva, Arctoum mundus qua surgit ad axem,
Pascere dat passim gramina læta gregi.
Citrea mala rubent, vallis qua tendit ad imum,
Qualia fert rutilans hortulus Hesperidum:
Et lauri frondes, victorum premia quondam,
Quæque poetarum texere serta solent:
Et myrtus Veneri sacra crispatur in umbra:
Cuncta placent fructu, floribus ас redolent.
Hic philomela canit, tirtur gemit atque columba:
Nidificant volucres, quotquot ad astra volant.
Silva avium cantu resonat, florentia subtus
Prata rosas pariunt, liliaque et violas,
Fragrantemque thymon, mentam, roremque marinum,
Narcyssum et neptam, basilicumque sacrum:
Atque alios flores, ramos herbasque virentes,
Terra creat pinguis vallibus ac nemore-.
Queis passim Dryades capiti cinxere corollas,
Et Fauni et Nymphæ cornigerique Dei.
Ast ubi præcipitans leni fluit unda susurro
Per vallem umbrosam rupibus aëriis:
Stagna replet, pulchræ mersant ubi corpora Nymphæ,
Aurora aut splendet, seu tegit umbra polum:
Regia celsa lacu supereminet, unde comantem
Prospectat silvam candida virginitas.
Hinc ego prospiciens, oculis dum singula lustro,
Naturæ admirans munera, delicias,
Liquerat Auroram Cephalus, vultuque rubenti
Illa aperit terras, pandit et illa polum:
Emersit stagnis subito pulcherrima Nympha
Tunc forma referens, corpore, voce deam.
Suspicit, alloquiturque ultro me hac voce sedentem
Vocibus his: “Salve grata puella Deis.
Quid tecum, SYGAEA, putas? Tu principis almæ
Arcibus his spectans noscere fata cupis?”
Tunc ego: “Si superi firmarent numine quantum
Exoptem, dominant tollere ad astra velim,
О quæ cæsarie, vultuque, oculisque, sinuque,
Et certe incessu diva videre mihi!
Nympha loci custos, vitreo quæ gurgite lymphas
Concipis, et Divum pandere fata potes:
Tu mihi fatorum seriem, quæ regia virgo
Regna manet, resera, quosve manet thalamos?”
Illa libens roseo ( dum sic loquor) intonat ore:
“Quod, virgo, rogitas, accipe, nec dubita.
Neptunus genitor nuper me ad summa tonantis
Atria perduxit concelebrata Deis.
Constiterant cuncti vescentes nectare, пес non
Ambrosia: at postquam mensa remota fuit,
Digna petunt divi regali in principe dona,
Imperio ut superet, quas superat meritis.
Docta Minerva aderat, cantusque inventor Apollo,
Nec non Calliope, pignora chara lovis.
Quos coluit virgo, quorumque exercuit artes,
Illi gratantes munera pulchra petunt.
luppiter adridens vultu, quo sidera lustrat,
Respondet divis, qui petiere simul:
“Gaudete, o Superi: perstare immota potentis
Principis augustæ maxima fata volo.
Nec, licet adspiciat quasdam nunc carpere regna,
Desperet: capient mox sua fata locum.
Non nisi per magnos vincuntur magna labores:
Nec tulit ignavos regia celsa Deos.
Quosque aliæ sponsos captent, visuntur ubique:
Quem sibi fata parant, non nisi summa tenet.
Нæс reget Imperium fœlix, quum nupserit, orbis:
Pacatus dominæ cedet uterque polus.
Vade ergo, et timidæ referas, quæ diximus, oro
Fatidico, ut lætos exigat illa dies.
Nec sis sollicita, aut metuas prædicere fata:
Succedent votis ordine cuncta tuis.”
“Augurii, .repeto, tempus mihi, Nympha, recense.”
“Recte, inquit, rogitas: tempora nosse opus est.
Nam Pater omnipotens, epulis de more solutis,
Fatorum superis tempora certa dedit.
Ante polum quam sol circum volvatur utrumque,
Sæpius a Cancro versus ad Ægoceron,
Quæ cecini, venient: voti rea maxima princeps
Ante aram supplex tunc pia thura feret.
Dixerat, et liquidas resilit Dea rursus in undas,
Præcipiti et saltu gurgite mersa latet.
Ast ego, quæ Infantis causa dubitare solebam
Antea, tunc rediens omine certa fui.
Mercurium, credo, Nymphæ sub imagine Olympo
Demissum, ut Dominæ sic mihi fata canat.
Nunc supplex tendo iunctas ad sidera palmas
Pro tali augurio; nec mihi cassa fides.
Нæс ego quum cernam compleri in principe vates,
Spero cælicolas inter habere locum.
Syntra
Tradução do Reverendo Padre Fiadeiro(*):
Junto às praias do ocidente, onde o sol, ao aproximar-se a noite, já demanda o oceano, e levado no seu carro ebúrneo, quase toca o imenso mar, com os seus cavalos cansados pela longa carreira, fica um lugar, onde um vale ameno, por entre rochedos que se elevam até aos céus, se recurva em graciosos outeiros, por entre os quais se sente o murmurar da água.
Circunda o oceano a imensa mole, e três píncaros elevadíssimos guindam-se até aos astros, a ponto de, quando densas nuvens os não coroam, chegarmos a acreditar que o céu assenta sobre tais colunas.
Vivem os Faunos nestas solidões, as quais servem de abrigo às feras, vindo frequentemente os caçadores armar laços às mães e aos filhos. Na parte inferior, os carvalhos apinham-se no meio de densa folhagem, fornecendo a sombra amplas casas para Silvano e para os Satyros. Aqui se encontram em grande número, o choupo, a aveleira, a faia, a pereira, a cerejeira, a ameixieira, os castanheiros, e inúmeras outras árvores que dão alimento aos felizes mortais, tudo dádiva dos Deuses do céu. À direita, a flava Ceres espontaneamente ensinou os mortais a lavrar os campos, a semeá-los, e a formar as searas. Do lado esquerdo para a parte do norte, a cada passo oferece Pan amplas pastagens para os rebanhos. Às faldas da serra ostentam-se viçosos limoeiros, tão belos quanto os costuma produzir o jardim das Hespérides. Aqui se encontram as folhas do louro, outrora prémio dos vencedores, com as quais ainda hoje os poetas costumam cingir as suas frontes, e cresce abundantemente a murta, tão querida de Vénus; tudo, enfim, nos encanta e perfuma o ambiente com a sua fragrância e com os seus frutos. Ressoam os bosques com os gorjeios do rouxinol, geme a rola, e a pomba, e fazem ali seus ninhos todas as aves que voam pelo espaço, no meio de um chilrear ensurdecedor.
Nos prados florescem as odoríferas rosas, os lírios, as violetas, o fragrante tomilho, a hortelã, o alecrim, o narciso, o poejo bravo, a videira sagrada, e muitas outras flores, ervas e arbustos que a terra fertilíssima produz, nos vales, e nas selvas, com que a cada passo ornam as suas frontes as Dryades, os Faunos, as Ninfas, e os Deuses cornígeros. Corre a água cristalina com brando murmúrio pelo meio do vale sombrio, por entre enormes rochedos, e nos pequenos lagos que ela forma, costumam vir banhar-se as formosas Ninfas, no romper da aurora, ou mesmo ainda quando a noite tem o seu manto estendido pela serra. Sobranceiro a um destes lagos fica soberbo palácio, de onde a régia prole, na candura da inocência, desfruta o sublime panorama que lhe oferece a espessa mata.
Enquanto eu daqui espraiava os olhos por todo o horizonte, admirando tanto mimo, tantas delícias da natureza, Céfalo tinha deixado a Aurora, e ela ruborizada começou a iluminar as terras afugentando a noite.
Então repentinamente, de um dos lagos, levanta-se uma Ninfa com um corpo e uma voz divina, olha, e assim se me dirige, espontaneamente com estas palavras amigas:
‘Salve! donzela, que tão grata és aos Deuses. Em que pensas, ó Sigeia? Habitando nestas altas mansões, desejas conhecer os destinos da tua querida princesa?"
Então eu:
"Se os Deuses despachassem favoravelmente os meus desejos, levantaria até aos astros Senhora tão excelsa. Ó Ninfa, guarda deste recinto, que semelhas urna deusa com essa tua formosa madeixa, nesse teu rosto, nos olhos, no seio e mais que tudo no teu majestoso porte, tu que reúnes as águas no vítreo pego, e tens poder para revelar os destinos dos Países, diz-me para que reinos e para que tálamos está destinada a princesa real’.
Enquanto assim falo, ela alegre solta dos róseos lábios as seguintes palavras:
“Ó Donzela, ouve a resposta ao que me perguntas e não duvides: O Pai Neptuno conduziu-me há pouco até aos remontados paços onde Júpiter costuma reunir os deuses. Lá os vi todos libando o néctar precioso e a ambrósia: terminado o banquete, os Deuses imploram para a princesa dons régios, que a façam avantajar-se em poder a quantas excede já em merecimentos. Achava-se presente a douta Minerva, Apolo inventor do canto, e também Calíope, todos estimadíssimos de Júpiter, e também estimados da princesa, cultora exímia das suas artes. Agradecidos portanto eles pedem dádivas extraordinárias.
Júpiter com o sorriso com que ilumina os astros, responde assim á súplica unânime dos Deuses:
— Alegrai-vos, ó Deuses! Sabei que é minha vontade que fiquem inabaláveis os destinos da augusta e poderosa princesa. Não desespere, embora veja que outras princesas a vão precedendo no trono: a seu tempo os destinos dela assumirão o seu lugar. As grandes coisas só se alcançam por meio de grandes trabalhos: nem o régio Olimpo detém os Deuses inactivos; por toda a parte são vistos os esposos que outras hão-de tomar, porém aquele que os Fados lhe destinam a ela, só o sabem as mentes celestes. Depois, feliz, quando casar, terá o império do mundo; e um e ouro hemisfério pacificados, curvar-se-ão diante da sua Senhora.
Vai pois, e conta-lhe com discrição o que te acabámos de vaticinar, para que ela passe os dias tranquilos. Nem fiques com cuidados, ou temas relatar-lhe os destinos: todos os teus desejos se irão gradualmente realizando. "
- "Todavia, diz-me ó Ninfa, encarecidamente to peço, o tempo do presságio».
«Perguntas bem; é necessário conhecer também os tempos; porque o Pai omnipotente, levantada a mesa, os marcou nos deuses. Antes que o sol da primavera se volva por sobre um e outro pólo, muitas vezes de Câncer para Capricórnio, sucederão todas as coisas que profetizei.
A ilustre princesa, então, irá súplice diante dos altares oferecer os seus votos, juntamente com o incenso”.
— Assim falara, e a Deusa, de novo salta para as líquidas aguas e veloz na carreira, esconde-se no pego.
E eu que de tudo costumava duvidar em atenção à Princesa, voltei depois segura do vaticínio.
Creio que Mercúrio foi mandado do Olimpo sob a forma de uma Ninfa, para me predizer o futuro da minha Senhora.
Agora, suplicante, levanto para os céus as minhas mãos por tão feliz acontecimento, porque, em verdade, não me falece a crença.
E quando eu vir já tudo completamente realizado na Princesa, espero então obter um lugar entre os habitantes do céu.
Nota:
(*) Actualizou-se a ortografia.
Fontes:
Latim: ALOISIÆ SYGÆÆ Toletana, Syntra, aliaque eiusdem ac nonnullorum præterea virorum ad eamdem epigrammata, PAULLI III epistola, et tumulo eiusdem ab ANDREA RESENDIO et CLAUDIO MONSELLO concinato, in Clarorum Hispanorum opuscula selecta et rariora tum latina, tum hispana, edição de F. Cerdà y Rico, Madrid, 1781, pp. 261-264.
Versão Portuguesa: Conde de Sabugosa, O Paço de Sintra, Câmara Municipal de Sintra, 1989-1990, edição facsimilada da da IN de 1903
(Ilustração: François Boucher - two nymphs)
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Luisa Sigea - Syntra / Syntra
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
FOTOGRAFIA, EROS E THANATOS EM (DES) LIMITES SENSUAIS ENTRE PAIXÃO E DESEJO (UMA REFLEXÃO SOBRE O NU ARTÍSTICO, O EROTISMO E A PORNOGRAFIA), de Adriana Vianna
Tradicionalmente, o pensamento sobre o corpo na nudez artística passa pelo conceito de apelo sexual. Desde a Grécia Antiga, a filosofia dividiu-se entre punir o corpo e os prazeres dos sentidos com o ideal ascético enquanto os hedonistas eram, na melhor hipótese, os imorais. A questão é que o limite entre as manifestações artísticas que envolvem os fenômenos do instinto e os fenômenos emocionais do corpo, foram e ainda são, por muitos, tratados como negativos, ruins e de mau gosto. O sex appeal que faz parte da vida, na fauna e na flora, é inato à existência, apreciado ou não, explorado ou não, ele existe - independente de registros fotográficos ou plásticos. A ênfase e a interpretação que se dá, a cada práxis, pode ser determinante para contornar o artístico - entre o erótico e o antropológico, entre o erótico e o pornográfico, entre a fantasia e a vida.
Não faz muito tempo houve um leilão na Sotheby's com o tema “Erotic: Passion & Desire” que tratou de reunir imagens de obras plásticas e fotográficas de nus em diversas tensões e variações a fim de provocar o que está entre o erótico e o pornográfico. A interpretação do leilão destacou a nudez nas diversas artes para conexões sensuais da paixão, do amor e do sexo, explorando desde a beleza do desejo às representações do nu - até o próprio ato carnal de consumação sexual, despojado de metáforas, enigmas, sutilezas, sugestões. Apresentando mais de cem obras em suportes variados, o leilão arrecadou £ 5.292.625, ultrapassando os valores estimados.
A mobilidade modernista era o contexto de Man Ray. Seus amigos Marcel Duchamp (ready-made) e Francis Picabia perceberam o simbolismo sexual das máquinas: Picabia achava erótico até os carburadores. Mas a imagem surpreendente de Man Ray atribui significado sexual a um secador de cabelo elétrico. Imediatamente, isso sugere “L'Origine du monde” de Courbet, o mais famoso “click” de virilha da história da arte, bem como o estado de espírito “alucinante” (perturbado) cultivado pelos surrealistas. Na verdade, Man Ray enviou suas fotos para Andre Breton, o fundador do Surrealismo, cuja crença era “a beleza deve ser convulsiva” - como de fato aconteceria com uma rajada de ar quente entrando na vagina. Esta fotografia poderosa e transgressora obscureceu as fronteiras da pornografia e do erotismo tanto quanto, ou mais, que a pintura de Courbet.
Voluntariamente provocadora, esta obra distorce as regras vigentes até então. Regras que reservavam — ou pelo menos toleravam — nus inscritos nos contextos das grandes cenas mitológicas ou oníricas, sem se confrontarem diretamente ao real em sua crueza mais extrema.
Costuma-se dizer que a diferença entre pornografia e erotismo é simplesmente uma questão de iluminação e que também há uma diferença de intenção. Uma envolveria coerção e desgraça, o outro, beleza e deleite. Etimologicamente, a palavra pornografia vem do grego porné, derivado do grego peenemi, que significa “vender”. Originalmente, referencia-se àqueles que vendiam seus corpos para prostituição de um modo pouco normal e pouco apropriado, em situações explícitas e até violentas. Mas esses conceitos de “prostituição”, “vender o corpo”, também foram muito ampliados no século 21 e os limites entre os conceitos, que já desde sempre estiveram em linha tênue, se esbarram em muitas obras, sem amalgamar Eros e Thanatos.
A arte erótica sendo um campo muito subjetivo, sempre foi muito difícil diferenciá-la da pornografia. Ao tentar diferenciar os dois, a primeira coisa a considerar, talvez, seja o contexto. Se alguma fotografia erótica de hoje fosse mostrada durante o renascimento, muitas pessoas ficariam indignadas. Mas hoje temos uma abordagem totalmente diferente e mais moderna do que é considerado sexualmente explícito. Com essa ideia de contexto, é importante apreciar cada obra erótica do mesmo jeito que se aprecia qualquer outra arte e questionar o significado de cada obra. Dizem que arte erótica foca na sugestão para transmitir um significado, incentivando o espectador a inventar o resto da história. Se você vai concluir que o único interesse da obra é proporcionar prazer ao espectador, certamente pode ser considerada pornográfica. Talvez o erótico ainda esteja em uma esfera de apelo que convida à observação, como um convite sem promessa de encontro, deixando a ênfase recair sobre a plástica do corpo destacado pela iluminação, e dissociado de intenção. O apelo do pornográfico parece suscitar uma satisfação imediata, para resolver um problema do desejo. O apelo erótico não parece querer resolver objetivamente nada, mas problematizar o desejo, tornando-o ou revelando-o existente e latente.
Mas o limite ainda pode ser muito ambíguo, sem contexto. Por exemplo: a obra mural fálica de Keith Haring poderia, à primeira vista, ser considerada pornográfica, mas, na verdade, a pintura é uma das muitas obras criadas pelo artista, que luta para avançar nas pesquisas sobre a AIDS. Se levarmos em conta que o próprio artista morreu de AIDS, o mural fica ainda mais poderoso. A obra fica ainda mais forte quando se entende que Haring queria derrubar a falocracia instituída pelo falo como poder de governo para ser um simples órgão do corpo que está destinado a proporcionar prazer. Toda a obra desse artista é muito sugestiva, mas o público precisará de mais do que um simples olhar para decifrar todo o seu significado. Isso nunca é uma verdade para a pornografia, onde não há espaço para qualquer debate. Em termos simples, para determinar se uma obra é de fato pornográfica, você deve primeiro considerar essa obra como uma obra de arte, se for possível, pois a arte afirmou-se como cultural.
A obra “Nu Couché” de 1917, óleo sobre tela, do pintor italiano Amadeo Modigliani, representa uma mulher nua totalmente exposta. Esse trabalho tem sido objeto de muita controvérsia desde o início do Século 20 e a peça foi descartada pelo público. Mas, depois de quebrar o recorde do leilão da Christie's em 2015, vendida por 170.405.000 dólares para o empresário chinês Liu Yiqian, a obra foi destaque em jornais de todo o mundo. Contudo, o trabalho, mesmo assim, foi censurado.
Considerando a cultura atual e a atitude em relação à sexualidade, pode-se realmente perguntar por que essa obra foi censurada novamente.
(Ilustração: Keith Haring - Untitled, 1985)
domingo, 20 de setembro de 2026
A MALINCHE[*], de Margarida Vale de Gato
1.
Marina, la que yo sempre conmigo he traido
escreve-o a seu rei Cortés, meu concubino
aquele que me traz me trai, aportou num barco
me recebeu por escrava me trocou por dote
me ofereceu e retomou quando me viu útil
no interceder da fala nesse jogo bizarro
de telefone avariado
em que participaram:
um padre (Aguilar), três línguas, o temido
Moctezuma, o soberbo meu amo e uns quantos
caciques das terras, funcionando assim: Cortés
falava para o padre, o padre em maia para mim,
eu em náhuatl quer para o imperador quer
para outra gente que de bom grado trocava,
como eu, os astecas, seus altares de sangue
pelos cristãos e o deus único que são três
batizaram-me de Marina e em revanche
chamaram os índios “o Malinche” a Cortés;
como eu, que já fui Malintzin, a cativa
que agora é um híbrido, um corpo
estupro, a mãe de Martín o mestiço
do México, a quem os caciques temem
e as mulheres sibilam la chingada
e já esquecem os filhos levados pelo tirano
anterior e dizem que eu trouxe traidor
mais ímpio, a varíola, que por ouro
me despi, não honro a raça (mas como?
se morreu meu pai, me vendeu minha
mãe, se o abandono foi minha senha
o tráfico a minha vantagem, a dual
língua meu passe) que “não as represento”
mas qual entre nós não se sumiria já
criada para desembarcar rainha
qual de nós não sofreu de redução
à míngua, qual de nós, chingada, não teria
se pudesse, trocado de mãos e de língua?
2.
Os meus ovos, logo os pus na cesta
da indiferença do ego—da equi-
distância da sorte; se nasci
nobre, me enjeitaram por molesta
me tomaram por morta, por cativa
moeda, me passaram entre reinos
donos, credos. Por minha parte brandi
sobre um império dotes de linguista.
Quando com Cortés de raspão passámos
no retorno da conquista pela terra
de onde parti, a mãe velha, o irmão
que herdou—deixei-os gratos, pasmos:
nada de nativo me era congénito.
Eu pude ser real na abdicação.
Nota do blog:
[*] La Malinche (1496 d.C. ou 1505 d.C. - 1529 d.C) foi uma mulher nahuatl que se tornou guia, companheira e confidente de Hernán Cortéz durante a Conquista do México. É conhecida por diversos nomes como Malintzin, criado do seu nome Nahuatl de nascença (Malinalli), Marina (Doña Marina), nome que recebeu quando foi batizada, e Malinche, nome pelo qual é mais conhecida.
(Ilustração: Diego Muñoz Camargo - Cortés e Malinche de Lienzo Tlaxcala, c. 1585)
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