domingo, 1 de fevereiro de 2026

O PAI DE HORACIO, de Enrique Vila-Matas



Penso em toda essa gente que há pouco vi praticar a saudade[*] no Campo das Cebolas. A cidade inteira está cheia de solitários dominados pela nostalgia do passado. Sentados em cadeiras públicas, que nos mirantes ou nos píeres a prefeitura dispôs para isso, os praticantes da saudade calam e olham a linha do horizonte. Parece que estão esperando algo. A cada dia, com perseverança admirável, sentam-se em suas cadeiras e esperam enquanto evocam os dias do passado. Isso que eles têm é melancolia, uma certa tristeza leve. Penso neles agora, enquanto digo a mim mesmo ser ridículo que eu ande por aqui desolado quando, entre outras tantas coisas, ainda sou jovem, dono de uma próspera rede de tinturarias, tenho uma mulher bonita e inteligente, posso viajar para onde bem entender, atraio facilmente as mulheres de que gosto, amo muito minhas duas filhas e tenho uma saúde de ferro. Não, não parece razoável que eu vá agora por aqui, por entre os jacarandás do largo do Carmo, dominado por lembranças de infância e deixando atrás de mim um rastro inesgotável de tristeza leve.

Lembro do dia em que vi, estacionado na frente do colégio, o imenso automóvel de um pai que sempre me disseram não existir. No conversível, os assentos de couro vermelho brilhando ao sol me deslumbraram. No pai de Horacio, tudo me deslumbrou: a altura extraordinária e a corpulência, o chapéu marrom, os óculos pretos, o terno listrado, a gravata de seda, o bigode desafiador e, sobretudo, o fato de existir. Horacio sempre havia dito que seu pai tinha desaparecido nos porões da cidade de Beranda.

— Reapareceu, é isso que importa. Veio liquidar um grupo rival — Horacio me explicou de modo sucinto.

Parecia-me cada dia mais difícil acreditar em qualquer coisa do que Horacio me dizia, mas preferia ficar quieto, por medo de estar enganado e fazer papel de ridículo e, ainda por cima, de não poder subir nunca no automóvel interminável.

Durante duas semanas, o pai nunca faltou ao encontro com o filho à porta do colégio. No lugar dos pés descalços de Isabelita aparecia o couro vermelho dos assentos brilhando ao sol, o gigantesco conversível. E eu ficava extasiado diante daquele espetáculo que oferecia o monumental pai de terno mafioso com listras e gravata de seda.

Ao longo de toda a primeira semana, o pai caminhava de um jeito firme e seguro. Mas na segunda, já desde a segunda-feira, o passo do pai se tornou vacilante e algo temeroso. Nesse dia todos pudemos observar a presença de um estranho. A certa distância do conversível, estacionou sigilosamente uma moto conduzida por um espião louro de cabelo muito curto e olhos azuis esbugalhados que olhavam para o conversível. Não tardou e começamos a importunar o espião, e na terça nos atrevemos inclusive a invadir-lhe o sidecar. Na quarta-feira, como era previsível, se cansou de nos suportar.

— Vocês vão ver o que é bom — nos disse, levantando a mão em um tom muito feroz e ameaçador, e parecia que falava com sotaque berandês.

Nesse mesmo dia, Horacio afinal me convidou a subir no conversível de seu pai. Levaram-me até minha casa. Do assento traseiro do carro, o Paseo de San Luis assumia outra dimensão, parecia diferente. O pai não falou nada em todo o trajeto, mas de vez em quando me vigiava através do retrovisor, e logo ajeitava o chapéu. Num semáforo, em frente ao cine Vênus, acendeu um cigarro, e riu sozinho. Eu estava um pouco assustado quando chegamos em casa. Desceu cerimoniosamente do carro e abriu a porta traseira. Com inesperada cortesia, tirou o chapéu, inclinou a cabeça e me disse:

— Adeus, senhor.

Eu deduzi que era um pai preocupado. No dia seguinte, atribuindo a conduta do pai à presença da moto, fiz circular o rumor de que uma gangue berandesa se propunha a sequestrar Horacio, e que seu pai ia diariamente ao colégio para protegê-lo.

— Não devia ter espalhado essa bobagem. Além disso, Beranda não existe — Horacio me disse na sexta-feira, e achei-o muito mudado, como se algo andasse muito mal em sua vida. Não havia sinal do seu habitual senso de humor.

Essa sexta foi o último dia em que vi o pai de Horacio. No dia seguinte, uma fria segunda-feira de janeiro daquele ano ímpar, não havia mais conversível à saída do colégio, nem moto de espião, nem nada. Toda a cenografia berandesa tinha desaparecido, e só se podia ver numa esquina Isabelita, com cara de preocupada, aspecto de gripada, e com os sapatos calçados. Aproximou-se de Horacio, sussurrou-lhe algo ao ouvido, e o levou sem dizer nada.

Na manhã seguinte, sob uma chuva torrencial, entramos no colégio pela porta da igreja. Às terças havia missa obrigatória, e foi nessa missa que nos disseram, do púlpito, que o pai de Horacio também se chamava Horacio, que tinha quarenta anos e que já não pertencia ao mundo dos vivos, pois descansava em paz, tinha morrido.

— Adeus, senhor — eu disse, e fiz o sinal da cruz.

Lembro que não parou de chover o dia inteiro, e que pelo colégio circulou em voz baixa todo tipo de versão sobre aquela morte, cada uma mais arrepiante do que a outra, e que o único ponto em comum era que o pai de Horacio tinha sentido a tentação do salto e se lançado ao vazio da parte mais alta da Torre de San Luis.

O professor de redação, um homem irritadiço e sem piedade, me contou o resto. Não havia um só professor do colégio que conseguisse despertar meu entusiasmo, mas, dentre todos, o mais odioso e lamentável era o raivoso professor de redação, que perdia a compostura ao menor pretexto e nos insultava com apaixonada maldade. A profunda aversão que me produzia foi a que me levou a falar com ele, convencido (e não me enganei) de que era a pessoa certa para me contar a crua verdade, a verdade que se escondia para o resto dos meus companheiros. Ele gostava de praticar o mal, e em mim viu uma ocasião inigualável de poder fazê-lo. Nunca imaginei que, ao me dirigir a ele, agi de forma inocente, mas sim guiado pela intuição de estar no limiar de uma emoção que podia ser bem forte.

Contou-me que há apenas duas semanas o pai de Horacio tinha recebido alta do manicômio. Permitiram que recuperasse o automóvel comprado outrora em Caracas, mas ao mesmo tempo o submeteram a uma rigorosa vigilância para assegurar plenamente que o vento da baía já não exercia nenhuma influência sobre ele. O espião da moto não era mais que um médico do manicômio de quem se esperava o veredicto final. Diante do acontecido, o único veredicto que podia confirmar era que, mantendo-se fiel a uma arraigada tradição familiar, o pai de Horacio tinha trocado o vento da baía pelo suicídio.

— Não me parece agradável — disse o professor de redação — evocar a interminável nota necrológica da família de suicidas a que pertence o seu amigo Horacio. Porque ainda que seja totalmente real, parece inventada, ninguém poderia acreditar nela. Com a história dessa família de suicidas não se poderia jamais redigir um conto convincente, pois há muitos disparos e muitos saltos no vazio, muito veneno, muitas mortes pelas próprias mãos.

Não lhe parecia agradável, mas evocou a nota necrológica, desfiando um extenso rosário de calamidades: o tio Alejandro, por exemplo, um irmão do pai de Horacio, havia matado seu melhor amigo numa caçada, e isso o consumiu em tal desespero que, não sabendo mais o que fazer com sua vida, internou-se em um hospital fingindo estar doente e ali roubou uma forte dose de cianureto com a qual se matou. Uma irmã da mãe de Horacio, a tia Clara, pouco antes de abrir o gás, deixou uma carta ao juiz na qual dizia que a impossibilidade de frear o desejo de viver era a causa direta de seu suicídio. A filha da tia Clara, a prima Irene, que queria ser trapezista, acabou escolhendo a Torre de San Luis para, com perícia e grande exibição de arrojo e técnica, dar um triplo salto mortal no vazio, estatelando-se pouco depois no asfalto duro e frio da zona alta do Paseo. Em comparação, o salto do pai de Horacio parecia coisa de amador, um salto bem mais modesto, ainda que sem dúvida mais rápido e direto, talvez porque a vontade de se espatifar contra o solo fosse superior a qualquer outra coisa.

Passaram-se mais de trinta anos desde que o professor de redação me colocou no rastro da terrível história da família de Horacio, e ainda sinto em meus ossos a emoção daquele dia. Agora, enquanto vou ao Miradouro de Santa Luzia, um lugar adequado para o salto no vazio, penso que aquilo foi o mais próximo a uma revolução que jamais senti na própria carne, e que, sem que eu me desse conta, mudou a minha vida. Acho que se meu amigo Horacio, que se rebelou contra seu destino suicida e estará agora tranquilamente em seu escritório, pudesse me ver neste momento, caminhando por aqui feito um vagabundo, riria com todas as suas forças e se perguntaria pelas forças obscuras que me levaram a assumir como minha a trágica história de sua família, que me levaram a ser todo melancolia, uma tristeza leve — dizem que a nostalgia é a tristeza que fica mais leve — quando evoco aquelas jornadas nas quais descobri que, na vida, a vida é inalcançável, que a vida está por baixo de si mesma e que a única plenitude possível é a plenitude suicida.

Mas não saltarei no vazio, amigo Horacio. Vou deixar que me invada toda essa tendência a recuperar a infância, toda essa nostalgia por um passado que, à medida que me aproximo do Miradouro de Santa Luzia, percebo ir conciliando com o presente, até o ponto de ter a impressão de não estar retrocedendo no tempo, mas quase a eliminá-lo. Vou me sentar para esperar, haverá uma cadeira para mim nesta cidade, e nela poderei ver todos os entardeceres, calado, praticando a saudade, o olhar fixo na linha do horizonte, esperando a morte que já se desenha em meus olhos, e que aguardarei, sério e calado, todo o tempo que for necessário, sentado diante deste infinito azul de Lisboa, sabendo que à morte lhe cai bem a tristeza leve de uma severa espera.



Nota

[*] Em português, no original.



(Suicídios exemplares; tradução de Carla Branco)



(Ilustração: Édouard Manet - Le Suicidé)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

UN ANARQUISTA / UM ANARQUISTA, de William Ospina





Yo no soy el que mata a distancia, escudado en el aire invisible.

Yo no soy el que hace inviolable su crimen bajo el ropaje de uma ley o

una iglesia.

Salgo de en medio de las multitudes, ebrio de indignación y de cólera;

no me importa morir, sé que mi muerte es poco comparada con esta empresa espléndida

de mostrar al tirano que su carne es mortal, que hasta el último esclavo

puede tocar la estrella con la frente, puede tomar el hacha de la justicia;

que no hay nadie tan mísero que no pueda despojar a un Rey de su trono;

que hasta el último hombre puede ser en su hora es estruendo y el rayo de un dios de cólera.



Avanzo hacia el cortejo marcial; quedan atrás la multitud y el pasado.

Tomo las riendas del caballo del príncipe, miro su rostro elegante y perplejo.

Apunto el arma hacia su pecho cargado de medallas y emblemas.

Ya en vano corren hacia mí los sobresaltados esbirros.



El caballo me salpica de espuma. La barbada boca del príncipe intenta una maldición o una orden.

Este seco estampido se está escuchando hasta en los últimos confines del mundo.



Tradução de Antonio Miranda:



Eu não sou o que mata à distância, escudado no ar invisível.

Eu não sou o que torna inviolável seu crime sob a roupagem de uma lei ou

de uma igreja.

Saio do meio da multidão, ébrio de indignação e de cólera;

Não me importa morrer, sei que minha morte é pouco comparada com esta tarefa esplêndida

de mostrar ao tirano que sua carne é mortal, que até o último escravo

pode tocar a última estrela com a testa, pode tomar o machado da justiça;

que não tem ninguém tão mísero que não possa despojar um Rei de seu trono;

que até o último homem pode ser em sua hora o estrondo e o raio

de um deus de cólera.



Avanço até o cortejo marcial; ficam para trás a multidão e o passado.

Tomo as rédeas do cavalo do príncipe, miro seu rosto elegante e perplexo.

Aponto a arma para o seu peito carregado de medalhas e emblemas.

Já em vão corre em minha direção os sobressaltados esbirros.



O cavalo me salpica de espuma. A boca barbada do príncipe tenta uma

maldição ou uma ordem.

Este seco estampido se escuta até nos derradeiros confins do mundo.



(Ilustração: Egon Schiele – Anarchist)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

O BONDE DE BERLIM OU, KURT TUCHOLSKY E O FASCISMO, de Bruna Della Torre




O fiscalizado


Eis o bonde berlinense… mas não deve ser tão diferente em outros trens… Nele as pessoas se sentam e sonham e fitam e conversam e às vezes leem ––. De repente, um homem uniformizado adentra o vagão e diz: “passagens, por favor” – é um funcionário cuja função principal é controlar os passageiros.

Obedientemente, tudo nas bolsas é revirado. Todos apresentam o pedacinho de papel ao funcionário. Apenas um perdeu a sua passagem.

É realmente um povo subserviente, o povo alemão. Porque todos agora encaram o homem como se ele tivesse cometido um crime. Eles acreditam que o funcionário os controla. Lá está o funcionário educado, que não faz nada para reforçar essa superstição. Mas eles pensam assim e estão tomados pelo medo e desprezam todos o homem que perdeu a passagem. Num piscar de olhos, todo o vagão está contra ele. Alguns poderiam observar com um pouco de empatia a maneira como ele se debate e estremecem ao se pensar nessa situação terrível…

Eles se encolhem. Ficam com os rostos vermelhos. O perdedor, roxo. Ele se desculpa. Ele não diz: “Eu o perdi, mas vou pagar minha parte…” Ele se sente flagrado. Não se pode imaginar que se tem diante de si um adulto, que talvez tenha uma esposa, filhos que deve criar, funcionários para quem ele rosna… Aqui ele é muito pequeno. Porque aqui apareceu o mais sagrado para um alemão: o uniforme. E aqui acaba a diversão.

Uma pequeneza, uma insignificância, certamente. Mas, mais uma vez, uma simples observação da vida cotidiana, que mostra como aqui o indivíduo nem sequer se atreve a dizer: “Olá! Cá estou eu!” – Ao contrário, ele fica com o rosto vermelho, se encolhe e procura a passagem.

E isso é uma miséria da vida alemã.



Vorwärts, 18.09.1913 (tradução da autora)


Não há sangue, não há câmeras de gás ou execuções, não há trabalhos forçados, não há guerra ou campos de concentração, perseguição a comunistas, judeus, Sinti e Roma, homossexuais, deficientes e associais, espancamentos ou estupros, mas, de alguma forma, “O fiscalizado” [Der Kontrollierte] traz em seu encalço todo o terror do nazifascismo alemão. O pequeno texto (um misto de conto e reportagem), publicado anonimamente, é de Kurt Tucholsky, mas poderia ter sido escrito por Franz Kafka, a quem o autor conheceu e admirava, não só pela simplicidade e brutalidade de sua narrativa, mas por toda a potência aniquiladora que pode evocar. Como se vê, o texto foi escrito em 1913, antes da declaração da República de Weimar e das duas Guerras mundiais, quando Tucholsky estava ainda em seus vinte anos e iniciava uma carreira jornalística bem-sucedida que seria interrompida brevemente devido à convocação para lutar na I Guerra, na qual o autor atuou a contragosto e que fez dele um antimilitarista e pacifista militante. Tucholsky, ainda pouco traduzido para o português, foi, além de jornalista (escreveu, principalmente para o jornal Die Schaubühne, que depois mudou o nome para Die Weltbühne), crítico de teatro, poeta e escritor. Quando os nazistas assumiram o poder, suas obras foram uma das primeiras a ir para a fogueira.

“O fiscalizado” adianta características que depois da guerra estariam presentes no movimento chamado de “Nova Objetividade” – talvez mais uma palavra de ordem ou uma manchete (vale lembrar que é uma das poucas vanguardas sem manifesto) do que um movimento propriamente dito – em torno do qual giraram autores diversos entre si como Irmgard Keun, Alfred Döblin, Erich Kästner, Hermann Hesse, Hans Fallada, Bertolt Brecht e o próprio Tucholsky, para ficar apenas no âmbito literário. O lócus da narrativa é a Berlim urbana (Tucholsky, como outros autores do movimento, era um berlinólogo), seu estilo se aproxima da reportagem e do jornalismo e da fotografia – não pela montagem, que não está presente aqui, mas pelo impulso de retratar objetivamente a realidade (uma espécie de novo naturalismo que pode recorrer, mas não nesse caso, a procedimentos modernistas). Trata-se de uma investigação da vida cotidiana e da tentativa de decifrar, dos trens aos cabarés, como são e como pensam as pessoas comuns, o chamado “pequeno homem” [kleiner Mann] ou “pequena mulher”[...]. Conforme constava numa das músicas constituintes do movimento (inspirada na exposição que nomeia a Nova Objetividade no museu Kunsthalle de Mannheim, em junho de 1925), de Marcellus Schiffer e Mischa Spoliansky, que depois daria origem a uma revista sobre música [Es liegt in der Luft], “está no ar uma objetividade”. E ler o texto de Tucholsky, escrito antes disso, é compreender que de fato algo se anunciava na Alemanha desde o início do século.

A situação descrita é mesmo rotineira. Na Alemanha, até hoje, a entrada em trens, ônibus e bondes é “livre”, isto é, sem catracas, mas suscetível de fiscalização e multas caras para quem esquecer de comprar e validar o ticket no transporte. Nada demais, como diz a voz narrativa, algo que pode ocorrer com qualquer um que está com pressa ou com a cabeça cheia ou não tem dinheiro para pagar a passagem do dia. Mas a presença de alguém com uniforme no bonde muda tudo. A cena revela o paradoxo do imperialismo capitalista, ou seja, o fato de que a dominação daquilo que está fora (do país) não pode ser desligada da dominação do que está dentro (a dominação interna de classe): as pessoas tremem diante do uniforme que, no texto, é uma espécie de alegoria da autoridade e da impotência autoimposta diante dela. O uniforme revela também a importância de símbolos como este em países nos quais a chamada revolução burguesa (mais exceção que regra) ocorreu de forma conservadora, sem deixar de assimilar elementos estamentais pré-capitalistas – não é fortuito que o uniforme tenha tido tanta importância durante o nazismo (vale lembrar que Hugo Boss era o estilista favorito de Hitler e um colaboracionista notório). O uniforme está profundamente ligado à hierarquia; ao mesmo tempo, homogeneíza e distingue, mas sempre de forma grupal, sem espaço para a variação individual. Ele também é um elemento que marca a diferença entre quem manda e quem obedece. Em sociedades periféricas como a Alemanha do Kaiserzeit, ele contradiz em parte a frase de Marx sobre a diferença entre sociedades capitalistas e pré-capitalistas, de que o capitalista anda com seu poder social no bolso. Ali, o poder (ainda) dependia do uniforme.

O mero símbolo – afinal, o funcionário é simpático – faz todo mundo revirar a bolsa. Quando alguém se destaca da massa pagadora de seus deveres, é considerado um criminoso. O distraído pode até ser um pai de família que se engrandece ao chefiar a esposa e os filhos e descontar suas frustrações nos subordinados, mas ao esquecer a passagem, perde seu lugar na sociedade, se apequena, é alienado até mesmo de sua condição de adulto. Para utilizar um termo de Kant, recai na menoridade. Para falar como Freud, regride à fase infantil. Tudo isso por conta de uma passagem de trem. Tucholsky, que era um boêmio de carteirinha, ironiza o bom cidadão e a superficialidade do moralismo burguês e revela como nessa sociedade a figura do pobre é associada à do criminoso. Aquele que não paga perde sua dignidade e seu direito de existir. Ademais, quem se destaca da massa deve ser imediatamente punido.

A moral da história da narrativa, para utilizar a expressão de Walter Benjamin, é a falta de solidariedade, o colaboracionismo e a subserviência dos colegas de trem em relação ao não pagador: “Num piscar de olhos, todo o vagão está contra ele”. Essa permanece sendo a grande pergunta suscitada pela violência produzida pelas várias modalidades e configurações do capitalismo e do fascismo até hoje. Como foi e é possível? A questão, na narrativa, não é a falta de empatia (a explicação banal da banalidade do mal), nem de uma denúncia rasa da frieza burguesa (outra armadilha da sociologia alemã), mas a incapacidade de agir mesmo quando existe empatia devido ao medo de ser a próxima vítima: “Alguns poderiam, sim, observar com um pouco de empatia a maneira como ele se debate e estremecem ao se pensar nessa situação terrível…”. Uma espécie de identificação com o agressor ou com a autoridade cujo fundamento é o medo e que está na base, gostem os marxistas ou não, do processo social de produção da subserviência que leva muita gente a compactuar com a violência da qual também é vítima. Mas trata-se também da extinção da solidariedade que permitiria dialeticamente superar a contradição entre o indivíduo e o todo. Algo dessa atmosfera está presente no final do filme Kuhle Wampe, ou a quem pertence o mundo? (1932), dirigido por Slatan Dudow, com roteiro de Brecht e música de Hans Eisler. Enquanto os trabalhadores saem do metrô em massa, porém atomizados, após uma discussão sobre o aumento do preço do café (aqui contamos com a presença do Brasil no filme), escuta-se o refrão: “Avante, sem esquecer / O que é que nos fortalece. — / Quando estamos com fome, ou quando comemos: / Avante, e nunca esquecendo / a solidariedade por trás da canção!”

Mas essa miséria, embora alemã, não é exclusiva. Vale lembrar como começa a narrativa: os trens alemães não são tão diferentes de outros trens hoje em dia. Essa primeira afirmação sugere que o texto ultrapassa uma cena cotidiana singular. O excerto de Tucholsky é uma pílula literária da dialética do esclarecimento e, embora Theodor W. Adorno e seus companheiros detestassem a Nova Objetividade, é possível dizer que o tipo de filosofia que praticaram, o modo como Adorno mobiliza a própria experiência pessoal para pensar a política em Minima Moralia, seria impensável sem o experimentalismo desses “autores menores” do período de Weimar. Sendo assim, o que está em jogo em “O fiscalizado” é uma situação e as consequências políticas mais amplas que se pode extrair dela. Esse texto de Tucholsky é um excelente exemplo de arte engajada. Sua simplicidade, como em Kafka (embora estejamos falando de escritores de diferentes níveis), vai fundo e não pode ser identificada à superficialidade de uma tese política imediata. E mais, fala ao nosso presente. Um dos grandes achados de “O fiscalizado” é mostrar que o fascismo germina quando o sofrimento de uma pessoa é percebido como caso isolado e, portanto, tratado como tal por todos ao redor. Uma lição, para parte da esquerda, ainda por aprender. Na Alemanha, e fora dela.



(Ilustração: bonde berlinense, início do século XX)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

1970 / 1970, de Elke Erb

     


Die Dichter wohnen in den Jahrhundert,

Dieser in jenem, jener in diesem, einer lappt über

Der andere mittendrin wie der andere, der auch mittendrin wohnt.

Schön und gut. Endler erstreckt sich von 50 bis 90 in seinem.

Sonst wohnen auch die Dichter in Wohnungen wie dieser,

Die z.B. der Endler besitzt, Quartierchen fünfter Stock,

Badlos, hinterhaus, Aussenklo, aber mit Sonne.

Wenn der Dichter Endler seinen Kopf zum Fernster raus-



………………………………………………………………………………….Streckt,

sieht er nach, ob die Müllkübel leer sind.



Adolf Endler, Gedichte, Essays und andere Prosa, geb. 1930, gest. 2009, also viel später, als in Gedicht steht. Wir waren 10 Jahre verheiratet, von 1968 bis 1978. Das Gedicht habe ich vorgetragen bei einer oppositionellen Veranstaltung gegen den Schriftstellerverband der DDR. Die der Partei, der SED, sie nannte sich das >>Hirn der Klasse<< (nämlich der Arbeitsklasse) gehorsam Genossen im Verband sollten und wollten uns beherrschen.



Tradução de Moisés Alves:



Poetas vivem esse século.

E esse naquele e aquele nesse, alguém ultrapassa

enquanto isso, como o restante, um outro vive no meio disso.

Bom e agradável. Endler fica dos 50 aos 90 no mesmo canto.

Aliás os poetas vivem em apartamentos como esse,

Que por exemplo Endler possui, um quartinho no quinto andar, Sem banho, com privada na parte externa, mas ensolarado. Quando o poeta Endler enfia a cabeça na janela,



confere se as latas de lixo estão vazias.



Adolf Endler, poemas, ensaios e outros textos em prosa, nascido em 1930, morreu em 2009, portanto, anos depois, como diz o poema. Ficamos dez anos casados, de 1968 a 1978. Li o poema em voz alta num evento contra a associação de escritores da Alemanha Oriental. Ali mesmo onde eles, do Partido Socialista Unificado Alemão, declararam-se como >>O cérebro da Classe<< (isto é, da classe dos trabalhadores) os mesmos camaradas obedientes que desejavam e pretendiam nos governar.



(Ilustração: foto de Adolf Endler - Berlim, ano 2000)

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

SAUDAÇÃO PARA O FUTURO, de Kurt Tucholsky




Caro leitor de 1985,

Por um acaso qualquer te meteste na biblioteca, encontras meu livro Mona Lisa, te surpreendes e lês. Bom dia!

Estou muito embaraçado: usas um terno cujo estilo difere completamente do de minha época; diversa também é a forma como vestes teu cérebro… Já tentei começar três vezes, cada vez com um assunto novo, tem de haver uma ponte entre nós… Toda vez que tento, tenho de desistir — não nos entendemos de jeito nenhum. Sou pequeno demais; estou com minha época até o pescoço; mal dou uma olhada no altímetro do tempo… Vês? já sabia: ris de mim.

Tudo em minha pessoa te parece antiquado: minha maneira de escrever, minha gramática, minha postura… Ah! Não me dês tapinhas nos ombros, não gosto disso. Em vão tento te dizer como vivíamos, como eram as coisas… pra nada. Sorris, a minha voz ressoa do passado, impotente. Tu sabes tudo, e melhor. Devo te contar sobre o que excita as pessoas em minha aldeia do tempo? Sobre Genebra? Sobre a estreia de Shaw? Sobre Thomas Mann? Sobre a televisão? Sobre uma ilha de aço no meio do oceano, servindo de base aérea? Sobre tudo isso tu sopras, e a poeira sobe tão alto que não consegues ver mais nada.

Devo te fazer encômios? Não consigo. É óbvio que vocês não resolveram a questão da “Sociedade das Nações ou Paneuropa?”. As questões não são resolvidas pela humanidade, mas apenas deixadas de lado. Claro que, para o dia a dia, tendes a vosso dispor trezentas máquinas inúteis a mais do que já temos, mas, no final das contas, vocês são exatamente como nós, nem mais burros nem mais inteligentes. O que sobrou de nós? Não busques tão fundo na memória, no que aprendeste na escola. O que sobrou, foi por acaso: aquilo que, de tão neutro, chegou até vós. Do que era realmente grande restou, talvez, a metade. Mas ninguém mais se interessa por isso — quem sabe numa manhã de domingo, um pouquinho, no museu. É como se hoje eu tivesse de conversar com um homem da Guerra dos Trinta Anos: “E então? Tudo bem? Ventou muito no cerco a Magdeburg?”, coisas que se dizem em situações assim.

Eu não posso sequer travar contigo uma conversa mais elevada, acima da média de meus contemporâneos, como diz a canção: porque sois um progressista, como eu. Ah, meu caro: também és um homem de teu tempo. Na melhor das hipóteses, quando digo “Bismarck” e tu tens de fazer força para te lembrares quem foi, já sorrio satisfeito comigo mesmo: não és capaz de imaginar quão orgulhosamente as pessoas à minha volta estão convencidas da imortalidade dele… Bem, deixemos isso pra lá. Além do mais, agora quereis ir tomar o café da manhã.

Bom dia. Este papel já está bem amarelado, amarelado como os dentes de nossos juízes de segunda instância. Vês, agora se esfarela a folha por entre os dedos… claro, de tão velho. Vás com Deus, ou como quer que o chameis. Não temos muito o que dizer um ao outro, nós, os medíocres. Estamos mortos, e aquilo que nos preenchia se foi junto. Tudo era forma.

Sim, ainda quero dar-te a mão. Por civilidade.

Agora vás.

Porém, ainda quero te dizer isso: não sois melhores que nós nem melhores que os que nos antecederam. Não sois nem um pouco diferente de nós, em absoluto…



Nota:

(“Gruss nach vorn” foi originalmente publicado em: Kurt Tucholsky. Das Lächeln der Mona Lisa. Berlin: Rowohlt, 1929, pp. 133-135.)



Tradução de Sérgio da Mata.



(Ilustração: Dorr Bothwell - time portals series)

sábado, 17 de janeiro de 2026

CANÇÃO DO AMOR LIVRE, de Jacinta Passos

 


Se me quiseres amar

não despe somente a roupa.

 

Eu digo: também a crosta

feita de escamas de pedra

e limo dentro de ti,

pelo sangue recebida

tecida

de medo e ganância má.

Ar de pântano diário

nos pulmões.

Raiz de gestos legais

e limbo do homem só

numa ilha.

 

Eu digo: também a crosta

essa que a classe gerou

vil, tirânica, escamenta.

 

Se me quiseres amar.

 

Agora teu corpo é fruto.

Peixe e pássaro, cabelos

de fogo e cobre. Madeira

e água deslizante, fuga

ai rija

cintura de potro bravo.

Teu corpo.

 

Relâmpago depois repouso

sem memória, noturno.

 

(Ilustração: Gerda Wegener: 1886-1940 - Lili Elbe)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O SEXO DA VOVÓ, de André Caramuru Aubert

 


No interior do Brasil nasciam os quatro rios do Jardim do Éden de Adão e Eva e, como cantou o filho Chico com as lições que aprendeu do pai, Sérgio, não havia pecado do lado de baixo do Equador. O mundo repressor e reprimido cristão só lambia, então, a beira da praia. Não entrava terra adentro. Lá bem longe, embrenhando-se mata adentro, corria a história, havia uma terra generosa em riquezas, prazeres e eterna juventude. Nem um nem dois, foram muitos os europeus que, fugindo da repressão, sumiram no sertão, morrendo ou virando “índios”. A ilusão, porém, não haveria de durar. A cultura da cana, a descoberta do ouro e a consequente extensão dos braços do Estado escravista e da Igreja para os interiores da terra carregou junto os olhos punitivos dos padres e dos soldados. O Brasil que era o Éden, o paraíso na Terra, ficou cada vez mais distante, restrito ao folclore, ao Carnaval, aos anúncios do Ministério do Turismo. O prazer ficou lá longe, ora longe no espaço, ora longe no tempo.

Num mundo que foi ficando cada vez mais repressor e reprimido, nos acostumamos a ver o prazer real com desconfiança e a cultivar uma ideia abstrata de prazer inalcançável, porque distante e irreal. O melhor lugar do mundo, você já ouviu muitas vezes, nunca é o aqui e agora. É aquela nostalgia típica dos mais velhos, que não se cansam de repetir como eram melhores as coisas no tempo deles, mesmo que no tempo deles não achassem as coisas tão boas assim. Uma nostalgia, de qualquer forma, com um razoável poder de contaminação, e acabamos acreditando, muitas vezes, que o amor antes era mais verdadeiro, os relacionamentos mais duradouros, o sexo mais intenso, que o LP era melhor que o MP3. Será que as coisas “antes”, “lá longe”, eram mesmo melhores? Será que um tempo em que as mulheres eram obrigadas a casar virgens era melhor que hoje? É curioso como convivem, lado a lado, como as duas faces da mesma moeda fatalista, as ideias de que as coisas sempre melhoram e a ideia de que elas sempre pioram. Nem uma coisa nem outra, a verdade é que as coisas mudam.

A sexualidade e os prazeres a ela ligados, por exemplo, foram muito mais livres até o século 18 do que no século 19 e primeira metade do 20 quando, como escreveu Michel Foucault, foram aprisionados no cárcere privado do matrimônio burguês. A partir daí, especialmente após os anos 60, voltaram a ser gradativamente liberados. Ou seja, é difícil negar que a nossa vida sexual é melhor que a dos nossos avós. O que também não quer dizer grande coisa, pois a vida sexual de nossos avós foi das piores de todos os tempos. E não há garantias de que daqui para a frente as coisas irão automaticamente evoluir; a história não acabou, nunca andou em linha reta e não vai fazer isso agora.

Como hoje, em todas as épocas conviveram as forças da repressão e da liberação. Os olhares severos e vigilantes dos padres e dos soldados do rei podem ter sido trocados pela visão científica e politicamente correta dos médicos e dos policiais do colesterol, do cigarro e do bafômetro, mas o fato é que hoje, como antes, há sempre alguém dizendo a você o que pode e o que não pode, o que é prazer lícito e saudável e o que não é. E também, como sempre, tem gente que não se conforma e continua a procurar os quatro rios do Éden do prazer sem pecados, só que agora não se entra mais sertão adentro para isso (até porque hoje no sertão só há soja, gado, cana e Brasília). E como agora pelo menos a diversidade é respeitada, os quatro rios do Éden podem estar, para alguns, no Nepal, na ioga e no sexo tântrico. Para outros, numa conexão de internet rápida levando a um intenso, real e verdadeiro sexo virtual. Para outros, ainda... bem, você pegou a ideia.



(Revista Trip, 2009)


(Ilustração : Quinten Massijs - L'inegalité du mariage 1525-1530)

domingo, 11 de janeiro de 2026

MANUAL DE DESPEDIDA PARA MULHERES SENSÍVEIS, de Filipa Leal




Ser digna na partida, na despedida, dizer adeus com jeito,

não chorar para não enfraquecer o emigrante,

mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo,

dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas

com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala

que não pode levar mais de vinte quilos

(quanto pesará o coração dele? e o meu?),

três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento,

oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia

e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre,

ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda

(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui),

pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe,

pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas

e mesmo assim não chorar, nunca chorar,

mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar,

tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes,

uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar,

apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente,

mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas,

que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também

os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas

até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem,

com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico,

e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez,

cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado,

cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal.



É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um.

Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro.

Mas que não chore.



(Vem à Quinta-feira; 2016)



(Ilustração: Yana Khliebnikova – Invisível)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

POR QUE LER?, de Harold Bloom

 


Caso pretenda desenvolver a capacidade de formar opiniões críticas e chegar a avaliações pessoais, o ser humano precisará continuar a ler por iniciativa própria. Como ler (se o faz de maneira proficiente ou não) e o que ler não dependerá, inteiramente, da vontade do leitor, mas o porquê da leitura deve ser a satisfação de interesses pessoais. Seja apenas por divertimento ou com algum objetivo específico, em dado momento, passamos a ler apressadamente. Os indivíduos que, por iniciativa própria, leem a Bíblia, talvez constituam exemplos mais evidentes de leitura com objetivo específico do que os leitores de Shakespeare; no entanto, a busca é a mesma. Uma das funções da leitura é nos preparar para uma transformação, e a transformação final tem caráter universal.

Considero aqui a leitura como hábito pessoal, e não como prática educativa. A maneira como lemos hoje, quando o fazemos sozinhos, manifesta uma relação contínua com o passado, a despeito da leitura atualmente praticada nas academias. Meu leitor ideal (e herói preferido) é Samuel Johnson, que bem conhecia e tão bem expressou as vantagens e desvantagens da leitura constante. Conforme qualquer outra atividade mental, a leitura, para Johnson, devia atender a uma preocupação central, ou seja, algo que “nos diz respeito, e que nos é útil”. Sir Francis Bacon, gestor de algumas das ideias postas em prática por Johnson, ofereceu o célebre conselho: “Não leia com o intuito de contradizer ou refutar, nem para acreditar ou concordar, tampouco para ter o que conversar, mas para refletir e avaliar”. A Bacon e Johnson, eu acrescentaria um terceiro sábio da leitura, inimigo ferrenho da História e de todos os Historicismos, Emerson, que afirmou: “Os melhores livros levam-nos à convicção de que a natureza que escreveu é a mesma que lê”. Proponho uma fusão de Bacon, Johnson e Emerson, uma fórmula de leitura: encontrar algo que nos diga respeito, que possa ser utilizado como base para avaliar, refletir, que pareça ser fruto de uma natureza semelhante à nossa, e que seja livre da tirania do tempo. Falando concretamente, antes de mais nada, busquemos Shakespeare, e deixemo-nos por ele ser encontrados. Para que Rei Lear nos “encontre” é preciso refletir e avaliar até que ponto a natureza da peça é como a nossa, até que ponto a peça nos diz respeito. Não considero tal posicionamento idealista, mas pragmático. Fazer uso da tragédia, basicamente, como uma denúncia do patriarcado é trair interesses cruciais, especialmente no caso de jovens leitoras, afirmação que parece bem mais irônica do que de fato o é. Shakespeare, mais do que Sófocles, é a autoridade máxima no que concerne ao conflito de gerações, e, com mais autoridade do que qualquer outro autor, fala das diferenças entre homem e mulher. Se nos mantivermos abertos a uma leitura plena de Rei Lear, compreenderemos melhor as origens do que julgamos ser o patriarcado.

Bacon, Johnson e Emerson concordam que, em última análise, lemos para fortalecer o ego, para tomar ciência dos autênticos interesses do ego. Trata-se de um crescimento que nos proporciona prazer, e, talvez, por isso os valores estéticos sejam sempre depreciados por moralistas, de Platão até os puritanos que hoje atuam em nossas universidades. Sem dúvida, o prazer da leitura é pessoal, não social. Não se consegue melhorar — diretamente — as condições de vida de alguém apenas tornando-o um leitor mais competente. Sou cético com relação à expectativa tradicional de que o bem-estar social possa ser promovido a partir do aumento da capacidade de imaginação das pessoas, e desconfio de qualquer argumentação que associe o prazer da leitura solitária ao bem público.

É lamentável que na leitura de caráter profissional raramente tenhamos a oportunidade de resgatar o prazer que a referida atividade nos trazia na juventude, quando livros despertavam o entusiasmo de que falava Hazlitt. Hoje em dia, a maneira como lemos depende, em parte, da distância em que nos encontramos das universidades, onde a leitura não é ensinada como algo que proporciona prazer, isto é, segundo os significados mais profundos da estética do prazer. Tanto para um jovem como para uma pessoa mais madura, não é nada cômodo confrontar, de peito aberto, o que há de mais intenso em Shakespeare, e.g., em Rei Lear, entretanto, deixar de ler Rei Lear plenamente (ou seja, sem expectativas ideológicas) é deixar-se enganar cognitiva e esteticamente. A infância passada diante de um aparelho televisor leva à adolescência diante de uma tela de computador, e a universidade recebe alunos que, dificilmente, aceitarão a ideia de que “é preciso / Sair como se chega [...] Quando for a hora”.{1} A leitura se desintegra e, juntamente com ela, grande parte do ego se esvai. Porém, de nada adianta lamentar, e o problema não há de ser remediado com promessas e programas. O que é possível ser feito só pode ser implementado por meio de ingerências elitistas, o que, atualmente, é inaceitável, por bons e maus motivos. Ainda existem leitores solitários, jovens e idosos, em toda parte, mesmo nas universidades. Se resta à crítica literária, hoje em dia, alguma função, esta será a de dirigir-se ao leitor solitário, que lê por iniciativa própria, e não segundo interesses que, supostamente, transcendam o ser.

Os valores, na literatura e na vida, têm muito a ver com o idiossincrático, com excessos que geram significados. Não é por acaso que para os historicistas — críticos que acreditam sermos, todos nós, predeterminados pela História Social — os personagens literários não passam de nomes impressos em uma página. Uma vez que nossos pensamentos não nos pertencem, Hamlet não será sequer uma anamnese. Chego, então, ao princípio número um, se quisermos reparar o modo como lemos hoje em dia, princípio esse que tomei emprestado a Johnson: Livrar a mente da presunção. No sentido aqui empregado, “presunção” implica discurso artificial, cheio de chavões, vocabulário profissional acessível apenas aos iniciados. Tendo as universidades conferido poderes a grupos fechados, e.g., adeptos de abordagens que privilegiam questões de “gênero e sexualidade”, ou “multiculturalismo”, a advertência de Johnson passa a ser: “Livra a tua mente da presunção acadêmica”. Uma cultura universitária em que a valorização de roupas íntimas femininas na Era Vitoriana substitui a valorização de Charles Dickens e Robert Browning pode até parecer algo inusitado, ultrajante, como o ressurgimento de um Nathanael West, mas é tão-somente a norma. Um subproduto desse tipo de “poética cultural” é, precisamente, a impossibilidade de haver um novo Nathanael West, pois como poderia uma cultura acadêmica dessa natureza suster a paródia? Os poemas de ontem foram substituídos pelas meias-calças da cultura. Os neomaterialistas dizem ter recuperado o corpo humano, para uso do historicismo, e afirmam que trabalham em nome do Princípio da Realidade. A vida da mente deve ceder à morte do corpo, mas tal fato não precisa ser celebrado por seitas acadêmicas.

Livrar a mente da presunção enseja o segundo princípio para o resgate da leitura: Não tentar melhorar o caráter do vizinho, nem da vizinhança, através do que lemos ou de como o fazemos. O autoaperfeiçoamento é projeto suficientemente grandioso para ocupar a mente e o espírito: não existe a ética da leitura. A mente deve guardar certa cautela, até ser expurgada da ignorância original; incursões precoces pelo ativismo têm o seu fascínio, mas consomem tempo demais, e, para a leitura, jamais haverá tempo bastante. O impulso historicista, seja com relação ao passado ou ao presente, é uma espécie de idolatria, uma veneração obsessiva das coisas no tempo. Devemos, portanto, ler à luz interior celebrada por John Milton e considerada por Emerson um princípio da leitura, o nosso terceiro: O estudioso é uma vela acesa pelo afeto e pelo gosto de toda a humanidade. Wallace Stevens, talvez esquecendo a fonte, criou belas variações dessa metáfora, mas a frase original de Emerson encerra, com grande clareza, o terceiro princípio da leitura. Não devemos recear o fato de nosso crescimento como leitores parecer por demais autocentrado, pois, se nos tornarmos leitores autênticos, os resultados dos nossos esforços nos afirmarão como portadores de luz a outras pessoas. Penso sobre as cartas que tenho recebido de estranhos, ao longo dos últimos sete ou oito anos, e sinto-me, de modo geral, comovido demais para respondê-las. Para mim, o pathos nelas expresso advém do clamor frequente pelo estudo literário com base no cânone, algo que as universidades desprezam e ignoram. Emerson dizia que a sociedade não pode prescindir de homens e mulheres cultos, e acrescentou, profeticamente: “O povo, e não a universidade, é o lar do escritor”. Emerson referia-se a autores de peso, homens e mulheres que representam a si mesmos, e não os seus “eleitorados”, pois a política por ele defendida era a do espírito.

O propósito da educação de nível superior, hoje em dia tão esquecido, consta, para sempre, do discurso de Emerson intitulado “O Intelectual Americano”, quando o autor se refere aos apanágios do intelectual: “Resumem-se, todos, à autoconfiança”. Recorro, novamente, a Emerson para definir o quarto princípio da leitura: Para ler bem é preciso ser inventor. O que, para Emerson, seria “leitura criativa” foi por mim chamado de “leitura equivocada”, expressão que levou meus adversários a crer que eu sofresse de dislexia. O fracasso, ou o branco, que tais indivíduos veem quando se deparam com um poema está em seus próprios olhos. Autoconfiança não é dom, mas o Renascimento da mente, o que só ocorre após anos de muita leitura. A estética não possui padrões absolutos. Se a ascendência de Shakespeare, segundo o entendimento de determinada pessoa, é fruto exclusivo do colonialismo, quem vai se incomodar em refutá-la? Passados quatro séculos, Shakespeare é mais corrente do que nunca; suas peças serão encenadas no espaço sideral, e em outros mundos, se tais mundos forem alcançados. [...]



(Como e por que ler; tradução de José Roberto O’Shea)



(Ilustração: Francois Xavier Bricard (1881-1935) - A Young Boy).     

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

SEGREDO, de Fernando Pinto do Amaral


Esta noite morri muitas vezes, à espera

de um sonho que viesse de repente

e às escuras dançasse com a minha alma

enquanto fosses tu a conduzir

o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,

toda a espiral das horas que se erguessem

no poço dos sentidos. Quem és tu,

promessa imaginária que me ensina

a decifrar as intenções do vento,

a música da chuva nas janelas

sob o frio de fevereiro? O amor

ofereceu-me o teu rosto absoluto,

projectou os teus olhos no meu céu

e segreda-me agora uma palavra:

o teu nome - essa última fala da última

estrela quase a morrer

pouco a pouco embebida no meu próprio sangue

e o meu sangue à procura do teu coração.



(Às Cegas)



(Ilustração: Johannes Vermeer de Delft - Girl with a Pearl Earring)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

COLINAS COMO ELEFANTES BRANCOS, de Ernest Hemingway

 


As colinas do outro lado do vale eram longas e brancas. Deste lado, não havia sombra nem árvores e a estação ficava entre duas linhas de trilhos sob o sol. Rente ao lado da estação havia a sombra quente da casa e uma cortina, feita de fieiras de contas de bambu, pendurada na porta vazada para o bar, a fim de deter as moscas. O americano e a moça com ele estavam sentados a uma mesa na sombra, fora da casa. Estava muito quente e o expresso de Barcelona chegaria em quarenta minutos. Ele parava neste entroncamento por dois minutos e seguia para Madri.

“O que vamos beber?”, a moça perguntou. Ela tirara o chapéu e o pusera sobre a mesa.

“Está bem quente?”, o homem disse.

“Vamos beber cerveja.”

“Dos cervezas”, o homem disse para a cortina.

“Grandes?”, uma mulher perguntou do vão da porta.

“Sim. Duas grandes.”

A mulher trouxe dois copos de cerveja e dois apoios de feltro. Pôs os apoios de feltro e os copos de cerveja sobre a mesa e olhou para o homem e a moça. A moça olhava para a linha de colinas. Eram brancas sob o sol e a região era parda e seca.

“Parecem elefantes brancos”, ela disse.

“Nunca vi um”, o homem bebeu sua cerveja.

“Não, não teria como.”

“Eu poderia ter visto”, o homem disse. “Você dizer que eu não teria como não prova nada.”

A moça olhou para a cortina de contas. “Pintaram alguma coisa em cima”, ela disse. “O que quer dizer?”

“Anís del Toro. É uma bebida.” “Podemos provar?”

“Escute”, o homem chamou pela cortina. A mulher veio do bar.

“Quatro reales.”

“Queremos Anís del Toro.”

“Com água?”

“Você quer com água?”

“Não sei”, a moça disse. “Fica bom com água?”

“Fica, sim.”

“Vocês querem com água?”, perguntou a mulher.

“Sim, com água.”

“Tem gosto de alcaçuz”, a moça disse e baixou o copo.

“É sempre assim.”

“É”, disse a moça. “Tudo tem gosto de alcaçuz. Especialmente aquelas coisas que você esperou por muito tempo, que nem absinto.”

“Ah, pare com isso.”

“Foi você que começou”, a moça disse. “Eu estava adorando. Foi um bom momento.”

“Bem, vamos tentar ter um bom momento.”

“Tudo bem. Eu estava tentando. Disse que as colinas parecem elefantes brancos. Não é brilhante?”

“É brilhante.”

“Eu queria provar essa bebida nova: nós não fazemos outra coisa, não é? Olhar para as coisas e provar bebidas novas.”

“Acho que sim.”

A moça olhou para as colinas do outro lado.

“As colinas são lindas”, ela disse. “Na verdade, não parecem elefantes brancos. Quero dizer, só a pele vista entre as árvores.”

“Bebemos mais uma?”

“Está bem.”

O vento quente fez a cortina de contas roçar a mesa.

“A cerveja está boa e gelada”, o homem disse.

“Está ótima”, a moça disse.

“É uma operação muito simples mesmo, Jig”, o homem disse. “Nem é uma operação de verdade.”

A moça olhou para o piso em que se apoiavam os pés da mesa.

“Eu sabia que você iria concordar, Jig. Não é nada mesmo. É só deixar o ar entrar.”

A moça não disse nada.

“Vou junto e vou ficar com você o tempo todo. Eles só deixam o ar entrar e então é tudo completamente natural.”

“E o que nós fazemos depois?”

“Vamos ficar bem depois. Como antes.”

“Como é que você sabe?”

“Essa é a única coisa que atrapalha. É a única coisa que nos deixa infelizes.’

A moça olhou para a cortina de contas, estendeu a mão e segurou duas fieiras.

“E você acha que depois nós vamos ficar bem e vamos ser felizes.”

“Tenho certeza. Não precisa ter medo. Conheço muita gente que já fez.”

“Eu também”, disse a moça. “E depois foram todos muito felizes.”

“Bem”, disse o homem, “se não quiser, você não precisa fazer. Eu não forçaria você se você não quisesse fazer. Mas sei que é muito simples.”

“E você quer mesmo?”

“Acho que é a melhor coisa a fazer. Mas não quero que você faça se você não quiser mesmo.”

“Mas se eu fizer você vai ficar feliz e as coisas vão ser como eram e você vai me amar?”

“Eu amo você agora mesmo. Você sabe que eu amo.”

“Eu sei. Mas se eu fizer vai voltar a ser bom quando eu digo que as coisas parecem elefantes brancos, você vai gostar?”

“Vou adorar. Eu adoro agora mesmo, só não consigo pensar nisso. Você sabe como eu sou quando fico preocupado.”

“Se eu fizer você não vai ficar preocupado?”

“Não vou ficar preocupado porque é tudo muito simples.”

“Então eu faço. Porque eu não me importo comigo.”

“Como assim?”

“Eu não me importo comigo.”

“Bem, eu me importo com você.”

“Ah, sei. Mas eu não me importo comigo. E vou fazer e tudo vai ficar bem.”

“Não quero que você faça se é isso que você sente.”

A moça se levantou e andou até o fim da estação. Em frente, do outro lado, havia campos de trigo e árvores ao longo das margens do Ebro. Ao longe, para lá do rio, estavam as montanhas. A sombra de uma nuvem atravessou o campo de trigo e ela viu o rio entre as árvores. “E nós poderíamos ter tudo isso”, ela disse. “E nós poderíamos ter tudo e todo dia fazer coisas ainda mais impossíveis.”

“O que você disse?”

“Disse que nós poderíamos ter tudo.”

“Nós podemos ter tudo.”

“Não, não podemos.”

“Podemos ter o mundo todo.”

“Não, não podemos.”

“Podemos ir para qualquer lugar.”

“Não, não podemos. Já não é nosso.”

“É nosso.”

“Não, não é. E depois que tiram, você nunca mais pega de volta.” “Mas ninguém tirou nada.”

“Vamos ver.”

“Volte aqui para a sombra”, ele disse. “Não se sinta assim.”

“Não estou sentindo nada”, a moça disse. “É só que eu sei.”

“Não quero que você faça nada que você não queira fazer...”

“Não é que não seja bom para mim”, ela disse. “Eu sei. Vamos beber outra cerveja?”

“Está bem. Mas você tem que entender...”

“Eu entendo”, a moça disse. “Será que não podemos parar de falar?”

Sentaram-se à mesa e a moça olhou para as colinas do lado seco do vale e o homem olhou para ela e para a mesa.

“Você tem que entender”, ele disse, “que eu não quero que você faça se você não quiser fazer. Estou perfeitamente disposto a seguir adiante se isso fizer diferença para você.”

“Não faz diferença para você? Podíamos seguir adiante.”

“É claro que faz. Mas eu não quero ninguém além de você. Não quero mais ninguém. E sei que é tudo muito simples.”

“É, você sabe que tudo é muito simples.”

“Você pode muito bem falar assim, mas eu sei como é.”

“Você faria uma coisa por mim?”

“Faria qualquer coisa por você.”

“Você pode parar de falar, por favor, por favor, por favor?”

Ele não disse nada mas olhou para as malas encostadas na mureta da estação. Tinham etiquetas de todos os hotéis em que haviam dormido.

“Mas eu não quero que você faça”, ele disse, “eu não me importo com nada.”

“Eu vou gritar”, a moça disse.

A mulher atravessou a cortina com dois copos de cerveja e os depositou sobre os apoios de feltro úmidos. “O trem chega em cinco minutos”, ela disse.

“O que ela disse?”, perguntou a moça.

“Que o trem chega em cinco minutos.”

A moça deu um sorriso radiante para a mulher, para agradecer.

“Acho melhor levar as malas para o outro lado da estação”, o homem disse. Ela sorriu para ele.

“Está bem. Depois volte e terminamos a cerveja.”

Ele pegou as duas malas pesadas e carregou-as pela estação até os trilhos do outro lado. Espreitou mas não conseguiu ver o trem. Voltando, entrou no salão do bar, onde as pessoas que esperavam o trem estavam bebendo. Bebeu um anis no balcão e olhou para as pessoas. Todas esperavam ordeiramente pelo trem. Atravessou a cortina de contas. Ela estava sentada à mesa e sorriu para ele.

“Está se sentindo melhor?”, ele perguntou.

“Estou bem”, ela disse. “Não tem nada de errado comigo. Estou bem.”





(Tradução de Samuel Titan Jr.)



(Ilustração: foto de Juan Pablo Serrano)