domingo, 21 de outubro de 2018

UNION STREET, de Irvine Welsh







Mais um dia de perambulação estoica pela cidade, percorrendo a Union Street e sendo açoitado pelas rajadas de vento. Edimburgo podia ser um lugar desolador, mas Aberdeen realmente levou a pior. Dá pra desperdiçar uma vida inteira esperando o céu trocar de cinza pra azul. Mas tô passando a maior parte do meu tempo aqui agora e indo menos pra casa. 

Na última vez que voltei, me entupi de heroína com o Matty, o Spud e o Keezbo no Swanney. 

Não lembro como cheguei no apê do Swanney depois de sair de uma noite de drogas na moradia do junky veterano Dennis Ross naquela nojeira de Abbeyhill, embora eu lembre vagamente de vasculhar os bolsos por uma eternidade, procurando grana pra pagar o viado do táxi que não parava de cornetear na minha orelha, mas retornei ao mundo consciente em Tollcross. Lembro do sol nascendo e derramando na sala do Johnny uma luz devastadora que jogou de volta em cima da gente toda a nossa decadência e fraqueza humana. Levantei e fui com o Matty e o Spud encontrar o resto da turma no Roseburn Bar, que abriu cedo antes do clássico entre Hearts e Hibs, e depois eu e mais uns outros continuamos bebendo em Haymarket. As duas torcidas tavam se ameaçando pela rua e aquela merda toda, mas a fileira de policiais se mantinha firme entre elas. A partida foi um empate suado e sem gols. Como eu tava lesado, quase todo o jogo passou batido por mim, mas lembro que o Hibs quase meteu uma bola no finalzinho; McBride driblando um Jambo e passando pro Jukebox, que deixou outro marrom pra trás e passou pro Steve Cowan, que deu um petardo de direita que passou raspando e derrubou o goleiro. Sick Boy, o papa-feto, também tava entupido de heroína, mas continuava totalmente maluco, arrastando aquela pobrezinha da Maria atrás dele. Ela é meio novinha pra ele, e parecia totalmente perdida no meio do oceano revolto de malucos. 

Depois do jogo, rolaram várias sandices com o Begbie. Ele, o Saybo e uns outros desceram a porrada nuns otários em Fountainbridge. Esse viado vai acabar preso em Saughton se continuar com essa merda, tenho certeza. Mas o caos de Edimburgo me fez lembrar do quanto aprendi a gostar do ritual da minha vida em Aberdeen. Me fez perceber que minha pretensão de ser um espírito livre era besteira. Na verdade, eu saturava a minha vida de rotina até ficar tão irritado que precisava subverter tudo com um rompante dramático. Mergulhar na heroína ajudava. Aqui, porém, eu tinha Fiona, meus estudos e minhas caminhadas. E minha necessidade de visitar Edimburgo tinha diminuído: eu tinha encontrado um fornecedor de heroína. 

Caminhei pra caramba; investigando as ruas por horas sem fim, não importava o clima. Parecia que era sem rumo, mas eu era atraído invariavelmente pra área da estação de trem, na direção das docas. Eu parava e ficava olhando os barcos grandes saindo pra Orkney, Shetland e vai saber pra onde. As gaivotas gritavam em círculos no céu; às vezes eu caminhava pela Regent Quay e era como se elas tivessem dando risada da minha cara, como se soubessem o que eu pretendia, mesmo que eu próprio não soubesse. 

Aqueles pubs náuticos: o Crown and Anchor Bar, a Regent Bridge Tavern (um barzinho ótimo) e o Cutter Wharf. E o Peep Peeps, bem mais sórdido, que fica na ruazinha lateral e onde eu sempre acabava parando; ficava ali sentado com minha cerveja, mas eu tava querendo outra coisa. Esperando chegar. Quase farejando. Sentado sempre no mesmo lugar, convencido de que ia aparecer, se eu esperasse o suficiente. 

Foi lá que avistei ele; um viado sentado sozinho do lado do jukebox, lendo o Financial Times, com uma Pepsi na frente. Intocada. Um cabelo comprido, ensebado, preto e começando a ficar grisalho, no alto do corpo magro e cadavérico e com uma tonalidade azul translúcida. Uma barba rala e irregular brotando do ninho de espinhas amarelo-mostarda no queixo. Os dentes grandes e amarelados pareciam que iam sair voando se o viado espirrasse. Em outras palavras, ele transpirava heroína. Eu não. Eu era um estudante arrumadinho com uma namorada bonita. Eu não tinha como dar sinal, não com meus olhos brilhantes, pele lisa e dentes brancos. A Fiona tinha até me ensinado a usar fio dental. Mesmo assim, quando ele me viu, como se soubesse na hora. E eu também. Sentei do lado dele. 

– Tudo em paz? – perguntou ele. 

Não fazia sentido enrolar. – Não muito. Tô meio mal. 

– Tremelique? 

Vai saber que porra isso queria dizer, mas soou correto, e ao reconhecer o meu estado foi como se eu tivesse me dado permissão pra me sentir uma bosta. 

Antes, o mal-estar era um sentimento vago de sintomas como os de uma gripe; membros pesados, cabeça boiando, dores difusas. Agora havia a sensação de alguma coisa urgente escondida por trás desse abatimento. 

– Tá precisando de um remédio, então? 

– Sim. 

Don me lançou um olhar baço como uma vela bruxuleante, similar ao de outros viciados mais velhos que conheci pelo caminho. – Sai e dá uma voltinha no quarteirão – disse-me ele com uma voz metálica e anasalada – e eu te encontro no portão das docas daqui a dez minutos – concluiu antes de voltar ao seu Financial Times. 

Tive de esperar 17 minutos até o Don se dignar a sair do bar e vir na minha direção, parecendo tão detonado quanto eu. Eu não podia estar fisicamente viciado, não logo depois de um fim de semana me injetando, mas minha mente e meu corpo tavam se contorcendo de antecipação por uma dose. Fiz força pra esconder a excitação e a ansiedade quase massacrantes no caminho até o apê imundo dele, onde fechamos a compra. 

A casa do Don podia ser a do Swanney, Dennis Ross, Mikey Forrester ou mesmo a nossa na Montgomery Street. Os mesmos cartazes meio descolados no papel de parede horrendo com padrões opressores colocado ali por uns viados que já tinham morrido ou tavam tão velhos que dava na mesma. Os cestos de lixo transbordando, uma pilha caótica de pratos numa pia que lembrava uma cidade mediterrânea atingida por um terremoto, e os obrigatórios montes de roupa suja pelo chão: os selos de garantia dos fracassados crônicos e desleixados em toda parte. 

Don preparou a dose pra nós dois. Dei tapas no braço direito, fazendo a minha melhor veia no pulso saltar com obediência, e dei a picada. O produto era bom e o barato foi excelente. Percorreu meu corpo inteiro e o impacto me fez desabrochar irresistivelmente como a florescência da primavera. De repente alguma coisa frutosa e azeda começou a subir do meu estômago. Fiz menção de vomitar e Don meteu uma edição antiga do Financial Times embaixo do meu rosto, mas eu empurrei de volta. Aquele momento tinha passado e agora eu era invencível. 

Embora eu não precisasse de mais nada, a não ser me deitar e curtir o efeito (incrível como a heroína torna possível ouvir até esses lixos imundos como a fita do Grateful Dead que o Don botou pra tocar), ele insistiu em puxar papo, mesmo depois de se picar. O viado aplicou uma tremenda duma dose e não pareceu se afetar quase nada. Fiquei imaginando a quantidade que ele andava injetando. – Mas então... cê é de Edimburgo, é? Tem heroína boa de sobra por lá. 

– Sim... – falei. Tive vontade de explicar que no Leith a gente se considerava separado de Edimburgo, mas do jeito que eu tava agora, derretido e curtindo a onda, aquilo parecia uma questão trivial. 

– É de lá que vem tudo. – Ergueu um saquinho plástico cheio de pó branco contra a luz de uma lâmpada descoberta. – É lá que fabricam: no belo centro de Gorgie. Cê conhece o Seeker? 

Sei lá que caralho é esse papo de Gorgie, eu cresci no Leith, mas que sera. – Só pela reputação. 

– Pois é, ele é barra-pesada, cara. Melhor ficar longe desse maluco. 

Sorria diante da doce futilidade de tudo aquilo. Era inevitável que eu e esse tal de Seeker nos tornássemos no mínimo sócios de alguma espécie. A única coisa surpreendente era que isso ainda não tinha acontecido. Então fiquei ali sentado, ouvindo a ladainha monótona do Don e vendo a sala se enchendo de escuridão. 

Eu não tava nem um pouco interessado em nada que ele tava dizendo; o viado podia estar falando do cachorrinho que deu de presente pra sobrinha ou nos cadáveres que tavam debaixo do assoalho, mas a voz ritmada dele tinha um efeito calmante e confortante. 

Quando consegui me mexer de novo, fui embora e voltei pro meu quarto na moradia estudantil. A Fiona tinha deixado um bilhete por baixo da porta. 

                      M 

                      Passei aqui e não encontrei nenhum lindo 
                      limpinho do Leith. Buá. 

                     Te vejo amanhã na aula de Renascimento 
                     ou passo aqui de noite pra 
                     tomar um chá... e bolinhos? 

                      Com amor 

                      F xxxx 

O bilhete tremia na minha mão. Eu amava essa garota, amava mesmo. Senti um espasmo terrível por dentro ao perceber, ali e naquele instante, que em breve ela ia ser menos importante pra mim do que um vagabundo que eu tinha acabado de conhecer e com quem não ia muito com a cara. Mas foi só um sussurro passageiro, logo abafado pelo discursinho da heroína, que cantarolava: “Cê tá bem, tá tudo bem.” 

Mas não fui atrás dela. Fiquei deitado na minha cama, encarando as espirais do reboco do teto. Depois de cair num sono sofrido e anêmico, acordei com contrações de fome na luz fraca do início do dia. Percebi que não tinha comido nada no dia anterior. Minhas roupas tavam no chão, do lado da cama; de algum jeito eu tinha me livrado delas durante a noite. Tinha uma mancha amarela na dobra do meu braço. Naquela manhã, decidi não ir na aula sobre Renascimento. 

Em vez disso, fui caminhar. Tava frio. Durante cerca de um minuto, o céu cinzento se abriu com ferocidade e a luz do sol conseguiu passar, se derramando por cima da cidade e refletindo no granito cintilante. O sangue pulsou na minha cabeça, me dando vontade de estar em outro lugar. Em seguida o sol sumiu e o manto cinzento nos encobriu de novo. Eu preferia assim; gosto do jeito que minha mente se desacelera ao caminhar debaixo de um céu desses, até eu ficar amortecido e vazio de pensamentos, livre do peso opressor das infinitas escolhas mundanas. 

Eu só tinha que trocar uma sepultura por outra, mais acima no litoral. Mas tudo bem; Aberdeen me servia. Gostava da cidade e gostava das pessoas em geral. Eram calmas e tranquilas; diferentes da maioria dos cretinos presunçosos e autorreferentes das Terras Baixas, que vivem se gabando, acreditando que cê achava que eles eram grande coisa, enquanto na verdade são todos um pé no saco. Em vez da vida estudantil, em preferia beber com os velhos que me contavam histórias de pesca de arrastão e do cotidiano das docas. Coroas jogadores de bola que falavam de partidas e brigas do passado; eles raramente sentiam necessidade de enfeitar as histórias em favor próprio, era tudo muito casual. Eu sempre era o único aluno nesses lugares. 

Mesmo assim, isso tudo ficava muito perto de Marischal College, o prédio da Universidade de Aberdeen, que parecia um projeto desenhado em papel quadriculado. Só de vez em quando eu me aventurava a entrar no bar do diretório estudantil com o Bisto e alguns outros, ou com a Fiona. Mas eu evitava ao máximo. Uma vez fui arrastado até lá pra comemorar o aniversário da Joanne. 

Ela ficou meio bêbada e falou comigo de um jeito agressivo e condenatório: – O que cê vive fazendo, Mark, onde cê vai? Alguma outra pessoa disse algo sobre “o misterioso Mark Renton” e percebi que a Fiona me encarava com um olhar de incentivo. Tava todo mundo prestando atenção em mim, e eu só ri e disse alguma coisa sobre gostar de andar por aí. Na verdade, eu tava passando uma boa parte do meu tempo livre frequentando os bares da área das docas, esperando o Don. 

Fiona apareceu de novo numa manhã de sábado. Ela não era nem um pouco boba, mas, embora a gente tivesse um relacionamento, cada um também tinha uma vida independente. Edimburgo ficava perto o bastante pra que eu pudesse dizer pra ela que ia passar a noite em casa por um motivo qualquer, em geral pra ficar de olho na minha família fragilizada. Mas eu ia pro sofá do Don, que ficava numa parte de Aberdeen em que poucos alunos ou professores apareciam. Dessa vez, porém, meu estado geral parecia confirmar a impressão que minha ausência das aulas durante a semana já tinha causado, ou seja, a de que algo tava errado. – Mark... onde cê tem andado... tá tudo bem? 

– Acho que peguei uma gripe daquelas de derrubar. 

– Cê tá com uma cara horrível... vou descer e comprar um antigripal, amado. 

– Cê pode me fazer uma cópia das suas anotações do Renascimento? 

– Claro que posso. Cê devia ter me falado que tava mal desse jeito, bobalhão – disse ela, me dando um beijo na testa suada e saindo. Voltou cerca de meia hora depois com os remédios. Depois me deixou ali e foi pro trabalho que ela fazia no sábado. Esperei um pouco e então, ansioso pra sair do cheiro rançoso e químico daquele quarto, o meu cheiro (como ela podia não sentir o meu cheiro, se eu próprio sentia?), fiz a mesma coisa que ela e fui pra rua. 

Fiona fazia trabalho voluntário nos sábados com crianças carentes; uns pivetinhos briguentos que adoravam ela. Psicopatas embrionários com orelhas de abano ficavam vermelhos de vergonha quando ela os cumprimentava; garotinhas de olhar fulminante, mascando chiclete, começavam a implorar atenção de uma hora pra outra. Algumas semanas atrás, num dos meus passeios sem rumo, vi ela encontrando uma turma deles em frente ao teatro Lemon Tree. Parecia feliz; era careta. Andava falando sobre a gente procurar um apê pra morar junto ano que vem. Depois formatura, emprego das nove às cinco e outro apê com financiamento. Depois noivado. Depois casamento. Financiamento maior ainda pra comprar uma casa. Filhos. Despesas. Depois os quatro Ds: desencanto, divórcio, doença e decesso. Apesar dela fazer questão de dizer o contrário, ela era assim. Era isso que ela esperava. Mas eu amava ela, e por isso lutava pra esconder os sentimentos ruins que ela despertava em mim. Ali parado na rua, vendo ela conduzir a garotada como um bando de gatos pra dentro do teatro, eu sabia que nunca ia conseguir ser daquele jeito. Nunca ia poder ter ela: ter ela de verdade, no sentido de me entregar pra ela. Ou talvez eu só estivesse agindo como um babaca. Tinha mais que uma migalha de aceitação pra mim no mundo dela. As aspirações dos meus pais eram dignas. Eu odiava essa merda dessa palavra. Me dava calafrios. 

Mas eles se importavam. 

Dentro da livraria, fiquei numa posição de onde podia espiar, escutando o que diziam na cafeteria ao lado. Tinha um quatro-olhos desajeitado e entusiasmado junto com Fi e as crianças. – Ei, meninada, podem largar o papel e caneta agora mesmo e me acompanhar? 

Ela acabaria ficando com um cara como ele. Talvez uma versão mais descolada, que comia alguém de vez em quando, talvez um viado um pouco mais arrogante, que cedo ou tarde acabaria sacaneando ela; mas essencialmente a mesma coisa. Dá pra fazer o cara vestir um anoraque ou meter óculos de fundo de garrafa bele, ou botar uma camisa de rúgbi e um monte de músculos; não faria diferença alguma, um janotinha é sempre um janotinha. 

Vou pra casa. Quando Fiona chega, tô sentado esperando. Não tomei nada além de dois antigripais. O cabelo dela tá molhado de chuva. Ela tira uma toalha da mochila e se seca. A chaleira aquece e eu preparo um pouco de chocolate quente. 

Sabendo da minha queda por cabelos molhados, Fiona lança um olhar na direção da cama, mas então percebe que o grau da minha doença elimina a possibilidade de que eu a agarre e jogue no colchão. – Cê tá tremendo, amor. 

Devia ir no médico... 

– Posso te contar uma coisa? 

Assim que as pupilas dela se dilatam e ela diz “É claro, Mark, o que foi?”, sei que não vou ser capaz de dizer o que pretendo, mas pra esconder isso tenho que contar alguma outra coisa igualmente profunda e importante. 

– Meu irmão menor – me pego dizendo, quase chocado com minha própria voz, como se uma outra pessoa no recinto tivesse me dedurado. – Nunca contei isso pra ninguém... 

Ela assente com a cabeça, enrola os cabelos com a toalha e pega a caneca fumegante. Parece aquela mina que toma um pé na bunda no comercial de Nescafé. 

Limpo a garganta enquanto ela senta na poltrona em posição de lótus. – O Pequeno Davie, eu percebi uma vez, tinha uma queda pela Mary Marquis, que apresentava o noticiário na TV. Cê deve ter visto, ela tem um visual... italiano, digamos; cabelo preto, um monte de maquiagem, com atenção especial aos olhos, e batom vermelho brilhante. 

– Acho que sei quem é, amor. A do jornal da noite? 

– Sim, ela mesma. Bom, eu meio que percebi que o Pequeno Davie ficava agitado quando ela falava pra câmera. A respiração dele ficava mais intensa. E não dava pra não reparar no que acontecia ali na calça de moletom... 

Fiona dá um aceno de cabeça compreensivo. Tem uma mancha vermelha no joelho da calça jeans dela, eu não tinha visto antes. Deve ser tinta de alguma oficina com a crianças. 

– Eu costumava ficar cuidando dele na hora do chá, nas sextas. Quando começava o noticiário local, eu via o Davie encarando a tela com o pau visivelmente ereto, e aí comecei a pensar, caralho, ele tem 15 anos, porra, coitado do pirralho... entende o que eu tô dizendo? 

– Sim – diz Fiona com um tom pesaroso, mas analítico. – Tipo, ele tem uma sexualidade, mas nenhuma válvula de escape. 

– Exatamente – expiro, aliviado porque finalmente alguém é capaz de entender essa porra. – Então... decidi que ia bater uma punheta pra ele. 

Os olhos da Fiona se cravam no chão por um momento e depois procuram os meus. Seus lábios se comprimem. Ela não tá me estimulando a prosseguir nem me pedindo pra parar. 

Respiro fundo. – E foi o que eu fiz. Ele pareceu ficar aliviado. 

– Ai, Mark... 

– Eu sei, eu sei... ele é meu irmão e é um ato sexual, então não foi uma atitude muito sensata. Hoje eu percebo isso. Só que na época eu só tava pensando em aliviar o tormento dele, igual a bater nas costas dele pra ajudar a drenar o fluido do peito. Então eu fiz. O pobrezinho ficou maluco e esporrou no que pareceu ser uma fração de segundo. Depois ele caiu no sono, todo feliz. Nunca tinha visto ele tão em paz. Limpei ele, e então ele tirou a melhor soneca da vida. 

De modo que eu pensei: tá tudo bem. 

– O que aconteceu? – Ela relaxa a posição e larga a caneca no piso, sem tirar os olhos de mim nem por um instante. 

– Ele começou a ficar na expectativa. Crianças autistas são programadas pra aderir a uma rotina. Como um relógio. Refeições sempre na mesma hora, sono sempre na mesma hora. Aquilo virou uma espécie de presentinho de sexta-feira pra ele; não fossem os outros problemas físicos, ele continuaria fazendo sozinho, dia e noite. Mas nos outros dias em que a TV ficava ligada ele olhava pra tela, depois pra mim e gritava – e aí eu imito aquele guincho horrível – MAY-HAY! MAY-HAY!... e é claro que eu não podia mais ajudar, com todo mundo em casa. 

Agora a expressão da Fiona é de aversão. Ela senta bem reto na poltrona, de pernas cruzadas. 

– Todo mundo pensava que ele tava gritando “Marky ” e achava bonitinho. Só eu e ele sabíamos que ele tava gritando “Mary ” – explico, e agora a Fiona tá tão imóvel que começo a ficar nervoso. – Cê acha que eu fiz errado? 

– Não... – diz ela, hesitante – claro que não, amor... é só que... é só que... cê não podia contar pra eles do que aconteceu com o Davie? 

– A gente não tem esse tipo de relação. São os meus pais. 

Fiona acena com a cabeça pensativamente, pega a caneca e acaricia entre as mãos. 

– Bom, continuei batendo punheta pra ele, toda sexta, diante da imagem da Mary na tevê. Não era fácil; foi ficando cada vez mais complicado. Ela tava lendo as notícias no estúdio e ele tava quase gozando, mas aí cortavam pra uma tomada externa e ele se encolhia todo, gritava e às vezes tinha um acesso de tosse. A coisa continuou nesse rumo. Chegou a um ponto em que eu tinha que caprichar muito pra conseguir fazer ele gozar. Bem, aí teve o dia em que esqueci que o Billy tinha folga em Belfast e tava vindo pra casa. Não ouvi ele chegando de mansinho, como ele costumava entrar pra fazer surpresa pra mãe. Ele chegou por trás da gente no sofá... bem na hora que a Mary apareceu de novo na tela... 

Os olhos da Fiona ficam arregalados. – Então... então... ele te pegou fazendo aquilo no Davie? Seu irmão, o Billy? 

– Pior. A caceta do Pequeno Davie entrou em erupção, o jorro saiu voando no ar e a porra acertou o Billy em cheio como uma serpentina, no rosto e na frente do uniforme do exército. 

Fiona leva as mãos à boca. – Ai meu Deus... ai, Mark... o que aconteceu? 

– Ele me arrancou pra longe do Davie, me afastou do sofá e me acertou um chute nas costelas. Levantei e até que consegui acertar uns socos, mas tomei uma surra. O Pequeno Davie só gritava. Os vizinhos escutaram a briga e a sra. McGoldrick começou a bater na porta ameaçando chamar a polícia, o que provavelmente me livrou de uma sova muito maior. A gente acabou se acalmando, mas quando o pai e a mãe chegaram perceberam na hora que a gente tinha brigado. Fomos interrogados e cada um contou seu lado da história. 

Começou a chover. Escuto os pingos batendo no vidro. 

– O que eles disseram? 

– Eles mais ou menos ficaram do lado dele. Disseram que eu era um merdinha doente e depravado. Eu mal tinha acabado o colégio; não conseguia articular o que pretendia ao fazer aquilo com ele. O direito dos deficientes físicos à sexualidade! – Bato no peito, como se ela tivesse me questionado, mas ela se mantém tesa, concordando com a cabeça numa tentativa de mostrar empatia. 

Diante do silêncio dela, porém, me dou conta da impressão que tô passando. Sei que se Fiona tivesse uma irmã deficiente, a última coisa que passaria pela cabeça dela seria tocar uma siririca pra mina diante da imagem de, digamos, o David Hunter de Crossroads. Pela primeira vez, sou obrigado a reconhecer que talvez eu seja, em algum nível, um pervertido, ou pelo menos um cara equivocado. 

Meu tom de voz se reduz a um apelo angustiado: – Ele tava sofrendo, e eu só tava tentando dar algum alívio pro pobre desgraçado. Não dá pra dizer que eu gostei de fazer aquilo! 

Por um momento, no meio da luz que se esvai, Fiona me observa com um olhar quase vazio, mas seu rosto mantém a compostura de uma pessoa perfeitamente em paz. – Você não pode dizer isso pra eles agora? Pros seus pais? 

– Já tentei algumas vezes, mas o momento certo nunca chega. Além disso, acho que já decidiram o que pensam de mim. 

Ela assopra entre os lábios apertados. – Por que não escreve uma carta pra eles? Coloca tudo ali, preto no branco. 

– Não sei, Fi... ia parecer que eu tava dando mais importância que o devido... – digo, me sentindo cansado e enjoado de repente. Me encosto na poltrona, mas em seguida me inclino de novo pra frente e cruzo os braços em volta do corpo. 

– Mas é óbvio que isso significa alguma coisa pra eles, Mark. E pra você também, do contrário cê não estaria contando isso pra mim. 

– Eu sei. – Olho pra ela com ar derrotado. – Vou pensar nisso. Obrigado por escutar. 

– É claro, amor... – Fiona abre um sorriso tristonho, percebendo como estou suando e me contorcendo. – Vou sair agora, querido, e te deixar descansando um pouco – ela sussurra, e então põe a mão e dá um beijo na minha testa suada. O abraço dela parece duro e pesado, e fico aliviado quando ela sai. 

Assim que passa um bom par de minutos, desço até o telefone público e ligo pro Sick Boy na Montgomery Street. Começo a falar descontroladamente, conto a respeito de Don e pergunto como ele anda fazendo pra descolar heroína. Ele me diz: – Cê não se interessa por nada além de um pico. 

Protestos parecem inapropriados e fúteis, e pela primeira vez me dou conta de que essa afirmação é basicamente verdadeira. O que me faz pensar: tá realmente na hora de parar. Não ouço mais nada que ele diz até as moedas acabarem. 

Cê precisa parar com isso agora mesmo ou vai arruinar tudo. 

O que eu fiz, então, foi sair e atravessar a pé a cidade fria e tempestuosa até a Union Street. 



(Skagboys; tradução de Daniel Galera e Daniel Pelizzari) 



(Ilustração: Samadhi Rajakarunanayake – autismo)




quinta-feira, 18 de outubro de 2018

ERRO DE PORTUGUÊS, de Oswald de Andrade









Quando o português chegou

Debaixo de uma bruta chuva

Vestiu o índio

Que pena!

Fosse uma manhã de sol

O índio tinha despido

O português.





(Ilustração:  Hans Staden, canibalismo)



segunda-feira, 15 de outubro de 2018

UM ULTIMATO AOS SÁBIOS, de Louis Pauwels e Jacques Bergier






Numa manhã de Verão de 1925, o carteiro entregou uma carta em casa de todos os sábios da Alemanha e da Áustria. Apenas o tempo de a abrir: a ideia da ciência tranquila morrera, os sonhos e os gritos dos condenados enchiam de súbito os laboratórios e as bibliotecas. A carta era um ultimato: 

"Agora é preciso escolher, estar conosco ou contra nós. Ao mesmo tempo que Hitler limpará a política, Hans Horbiger expulsará as falsas ciências. A doutrina do gelo eterno será o sinal da regeneração do povo alemão! Atenção! Coloquem-se do nosso lado antes que seja demasiado tarde!" 

O homem que assim ousava ameaçar os sábios, Hans Horbiger, tinha sessenta e cinco anos. Era uma espécie de profeta furioso. Usava uma imensa barba branca e tinha uma letra capaz de desencorajar o melhor grafólogo. A sua doutrina começava a ser conhecida por um vasto público sob o nome de Well. Era uma explicação do cosmos em contradição com a astronomia e as matemáticas oficiais, mas que justificava antigos mitos. No entanto Horbiger considerava-se a ele próprio como um cientista. " Mas a ciência devia mudar de via e de métodos. “A ciência objetiva é uma invenção perniciosa, um totem de decadência". Pensava, como Hitler, "que a questão prévia a qualquer atividade científica é saber quem quer saber". Só o profeta pode reclamar a ciência, pois ele é, em virtude da inspiração, elevado a um nível superior de consciência. Era o que pretendia dizer o iniciado Rabelais ao escrever: "Ciência sem consciência é apenas ruína da alma." Ele pretendia dizer: ciência sem consciência superior. Tinham falsificado a sua mensagem, em proveito de uma pequena consciência humanista primária. Quando o profeta quer saber, pode então tratar-se de ciência, mas é uma coisa diferente daquilo a que vulgarmente se chama ciência. Por isso Hans Horbiger não podia suportar a menor dúvida, o menor esboço de contradição. Agitava-o um furor sagrado: "Têm confiança nas equações e não têm em mim!, berrava. De quanto tempo precisarão ainda para compreender que as matemáticas representam uma mensagem sem valor?" 

Na Alemanha do Herr Doktor, cientista e técnica, Hans Horbiger, com gritos e murros, abria caminho ao saber inspirado, ao conhecimento irracional, às visões. Não era o único; mas nesse domínio era o que mais se distinguia. Hitler e Himmler tinham-se unido a um astrólogo, mas não o divulgavam. Esse astrólogo chamava-se Führer. Mais tarde, após a tomada do poder, e como que para afirmar a sua vontade, não só de reinar, como de "modificar a vida", eles próprios ousariam provocar os sábios. Nomeariam Führer "plenipotenciário das matemáticas, da astronomia e da física" . 

De momento, Hans Horbiger organizava, nos domínios da inteligência, um sistema comparável ao dos agitadores políticos. 

Parecia dispor de grandes possibilidades financeiras. Agia como um chefe de partido. Criava um movimento, com serviços de informações, recrutamento e quotizações, propagandistas e "agentes" escolhidos entre a juventude hitleriana. As paredes estavam cobertas de cartazes, inundavam os jornais de editais, distribuíam panfletos em massa, organizavam-se "meetings". As reuniões e conferências de astrónomos eram interrompidas pelos partidários que gritavam: "Fora os sábios ortodoxos! Sigam Horbiger!" Os professores eram molestados nas ruas. Os diretores dos institutos científicos recebiam cartões: "Quando ganharmos, o senhor e os seus semelhantes irão mendigar pelos passeios". Homens de negócios, industriais, antes de contratarem um empregado obrigavam-no a assinar uma declaração: "Juro ter confiança na teoria do gelo eterno". Horbiger escrevia aos grandes engenheiros: "Ou aprenderá a acreditar em mim, ou será tratado como inimigo". 

Em poucos anos, o movimento publicou três grandes volumes de doutrina, quarenta livros populares, centenas de brochuras. Editavam um magazine mensal de grande tiragem: La Clé des Evénements Mondiales (A Chave dos Acontecimentos Mundiais). Já recrutara dezenas de milhares de aderentes. Viria a representar um papel importante na história das ideias e na própria história. 

Ao princípio, os sábios protestavam, publicavam cartas e artigos para demonstrar as impossibilidades do sistema Horbiger. Depois alarmaram-se quando a Wel tomou proporções de um vasto movimento popular. A seguir à subida ao poder de Hitler a resistência diminuiu, embora as universidades continuassem a ensinar a astronomia ortodoxa. Sábios de renome aderiram à doutrina do gelo eterno, como, por exemplo, Lenard, que, juntamente com Roentgen, descobrira os raios X, o físico Oberth, e Stark, cujas investigações sobre a espectroscopia eram mundialmente conhecidas. Hitler protegia abertamente Horbiger e acreditava nele. 

"Os nossos antepassados nórdicos tornaram-se fortes devido à neve e ao gelo, declarava um panfleto popular da Wel, e é esse motivo por que a crença no gelo mundial é a herança natural do homem nórdico. Um austríaco, Hitler, expulsou os políticos judeus, um segundo austríaco, Horbiger, expulsará os sábios judeus. Com a sua própria vida, o Führer provou que um amador é superior a um profissional. Foi preciso outro amador para nos dar uma compreensão completa do Universo." 

Hitler e Horbiger "os dois maiores austríacos," encontraram-se várias vezes. O chefe nazi escutava aquele sábio visionário com deferência. Horbiger não admitia que o interrompessem no seu discurso e respondia com firmeza a Hitler: "Maul Zu!” Cala a boca! Levou ao extremo a convicção de Hitler: o povo alemão, no seu messianismo, era envenenado pela ciência ocidental, tacanha, debilitante, separada da carne e da alma. Criações recentes, como a psicanálise, a serologia e a relatividade eram máquinas de guerra dirigidas contra o espírito de Parsifal. A doutrina do gelo mundial forneceria o contraveneno necessário. Essa doutrina destruía a astronomia aceite: o resto do edifício desmoronar-se-ia em seguida por si próprio, e era preciso que se desmoronasse para que renascesse a magia, único valor dinâmico. Os teóricos do nacional-socialismo e os do gelo eterno reuniram-se em conferências: Rosenberg e Horbiger, rodeados pelos seus melhores discípulos. 

A história da humanidade, tal como Horbiger a descrevia, com os grandes dilúvios e as migrações sucessivas, com os seus gigantes e os seus escravos, os seus sacrifícios e as suas epopeias, correspondia à teoria da raça ariana. As afinidades do pensamento de Horbiger com os temas orientais das eras antediluvianas, dos períodos de salvação da espécie e os períodos de punição apaixonaram Himmler. À medida que o pensamento de Horbiger se definia, revelavam-se correspondências com as visões de Nietzsche e a mitologia wagneriana. As origens fabulosas da raça ariana, que descera das montanhas habitadas pelos super-homens de outra era, destinada a mandar no planeta e nas estrelas, estavam estabelecidas. A doutrina de Horbiger associava-se intimamente ao pensamento do socialismo mágico, aos movimentos místicos do grupo nazi. Vinha fortalecer muito o que Jung viria a chamar mais tarde "a libido do sem-razão". Ela trazia algumas dessas "vitaminas da alma" contidas nos mitos. 



(O Despertar dos Mágicos; tradução de Gina de Freitas) 



(Ilustração: Felix Nussbaum - The Damned)



sexta-feira, 12 de outubro de 2018

ARCHAISCHER TORSO APOLLOS / TORSO ARCAICO DE APOLO, de Rainer Maria Rilke









Wir kannten nicht sein unerhörtes Haupt,

darin die Augenäpfel reiften. Aber

sein Torso glüht noch wie ein Kandelaber,

in dem sein Schauen, nur zurückgeschraubt,



sich hält und glänzt. Sonst könnte nicht der Bug

der Brust dich blenden, und im leisen Drehen

der Lenden könnte nicht ein Lächeln gehen

zu jener Mitte, die die Zeugung trug.



Sonst stünde dieser Stein entstellt und kurz

unter der Schultern durchsichtigem Sturz

und flimmerte nicht so wie Raubtierfelle;



und bräche nicht aus allen seinen Rändern

aus wie ein Stern: denn da ist keine Stelle,

die dich nicht sieht. Du mußt dein Leben ändern.



Tradução de Manuel Bandeira:


Não sabemos como era a cabeça, que falta,

de pupilas amadurecidas. Porém

o torso arde ainda como um candelabro e tem,

só que meio apagada, a luz do olhar, que salta



e brilha. Se não fosse assim, a curva rara

do peito não deslumbraria, nem achar

caminho poderia um sorriso e baixar

da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.



Não fosse assim, seria essa estátua uma mera

pedra, um desfigurado mármore, e nem já

resplandecera mais como pele de fera.



Seus limites não transporia desmedida

como uma estrela; pois ali ponto não há

que não te mire. Força é mudares de vida.





(Ilustração:  torso de Apolo; foto da a. não identificado) 






terça-feira, 9 de outubro de 2018

UM GRANDE ÁLBUM DE BABEL, de James Gleick





Suponhamos que dentro de cada livro haja outro livro, e dentro de cada letra em cada página haja outro volume desdobrando-se constantemente; mas esses volumes não ocupam espaço numa escrivaninha. Suponhamos que o conhecimento pudesse ser reduzido a uma quintessência, guardada dentro de uma imagem, um sinal, guardado num lugar que é lugar nenhum.
Hilary Mantel, 2009[1]



“O Universo (que outros chamam de a Biblioteca)…”[2]

Foi assim que Jorge Luis Borges começou seu conto “A biblioteca de Babel”, de 1941, sobre a biblioteca mítica que contém todos os livros, em todos os idiomas, livros de apologia e profecia, as escrituras e o comentário das escrituras e o comentário do comentário das escrituras, a história minuciosamente detalhada do futuro, as interpolações de todos os livros com todos os demais livros, o fidedigno catálogo da biblioteca e os inumeráveis catálogos falsos. Essa biblioteca (que outros chamam de universo) abriga toda a informação. Mas nenhum conhecimento pode ser descoberto nela, precisamente porque todo o conhecimento está nela, arquivado nas prateleiras lado a lado com toda a falsidade. Nas galerias espelhadas, nas incontáveis estantes, pode-se encontrar tudo e nada. Não pode haver caso mais perfeito de saturação de informação.

Nós criamos nossos próprios depósitos. A persistência da informação, a dificuldade de esquecer, tão característica de nossa época, aumenta a confusão. À medida que a enciclopédia on-line gratuita, amadora e colaborativa chamada Wikipédia começou a ultrapassar todas as enciclopédias impressas do mundo em volume e abrangência, os editores perceberam que um número grande demais de palavras e expressões tinha múltiplas identidades. Eles bolaram uma política para desfazer as ambiguidades, levando à criação de páginas de desambiguação — 100 mil delas, um número sempre crescente. Um usuário vasculhando as labirínticas galerias da Wikipédia em busca do termo “Babel”, por exemplo, encontra “Babel (desambiguação)”, que o leva por sua vez ao nome hebraico da Babilônia antiga, à Torre de Babel, a um jornal iraquiano, a um livro de Patti Smith, a um jornalista soviético, a uma revista australiana de professores de idiomas, a um filme, a uma gravadora, a uma ilha na Austrália, a duas montanhas diferentes no Canadá, e “a um planeta de alinhamento neutro no universo fictício de Jornada nas Estrelas”. E ainda mais. Os caminhos da desambiguação se multiplicam de novo e de novo. “Torre de Babel (desambiguação)”, por exemplo, inclui a história do Velho Testamento e, além disso, canções, jogos, livros, um quadro de Brueghel, uma gravura de Escher e “a carta do tarô”. Construímos diversas torres de Babel.

Muito antes da Wikipédia, Borges também escreveu a respeito da enciclopédia “falaciosamente intitulada Ciclopédia Anglo-Americana (Nova York, 1917)”, um labirinto de ficção misturada aos fatos, outro corredor de espelhos e equívocos de impressão, um compêndio de informação pura e impura que projeta seu próprio mundo. Esse mundo se chama Tlön. “Conjectura-se que esse admirável mundo novo seja a obra de uma sociedade secreta de astrônomos, biólogos, engenheiros, metafísicos, poetas, químicos, matemáticos, moralistas, pintores, geometristas”,[3] escreve Borges. “Esse plano é tão vasto que a contribuição de cada escritor é infinitesimal. De início acreditou-se que Tlön fosse um mero caos, uma irresponsável licença da imaginação; agora sabe-se que se trata de um cosmos.” Com razão, o mestre argentino foi tomado como um profeta (“nosso tio heresiarca”,[4] segundo William Gibson) por outra geração de escritores na era da informação.

Muito antes de Borges, a imaginação de Charles Babbage tinha conjurado outra biblioteca de Babel. Ele a encontrou no próprio ar: um registro, permanente embora misturado, de cada som humano.

Que estranho caos é esta atmosfera que respiramos! […] O próprio ar é uma grande biblioteca, em cujas páginas está para sempre escrito tudo aquilo que os homens já disseram ou que as mulheres sussurraram. Ali, em seus caracteres mutáveis mas precisos, misturados com os primeiros e também com os mais recentes suspiros da mortalidade, estão para sempre registrados votos não redimidos, promessas não cumpridas, perpetuando nos movimentos unidos de cada partícula o testemunho da cambiante vontade humana.[5]

Edgar Allan Poe, seguidor ansioso do trabalho de Babbage, entendeu o que ele queria dizer. “Nenhum pensamento pode perecer”,[6] escreveu ele em 1845, num diálogo entre dois anjos. “Não teria cruzado sua consciência algum pensamento acerca do poder físico das palavras? Não seria cada palavra um impulso no ar?” Indo além, cada impulso propaga sua vibração de forma indefinida, “subindo e avançando sua influência, tocando todas as partículas de toda a matéria”, até necessariamente, “no fim, marcar cada coisa individual que existe dentro do universo”. Poe também estava lendo Pierre-Simon Laplace, um partidário de Newton. “Um ser de entendimento infinito”, escreveu Poe, “para quem a perfeição da análise algébrica se revelasse desdobrada”, seria capaz de rastrear as ondulações de volta a sua origem.

Babbage e Poe adotaram uma visão teórico-informacional da nova física. Laplace tinha exposto detalhadamente e com perfeição um determinismo mecânico newtoniano. Foi além do próprio Newton, defendendo a ideia de um universo complexo como o mecanismo de um relógio, no qual nada seria obra do acaso. Como as leis da física se aplicam da mesma forma aos corpos celestes e às menores partículas, e como elas funcionam de maneira perfeitamente confiável, então sem dúvida (disse Laplace) o estado do universo a cada instante segue inexoravelmente do passado e deve conduzir com igual implacabilidade ao futuro. Era cedo demais para conceber a incerteza quântica, a teoria do caos, ou os limites da computabilidade. Para dramatizar seu determinismo perfeito, Laplace nos pedia para imaginar um ser — uma “inteligência” — capaz do conhecimento perfeito:

Este englobaria na mesma fórmula os movimentos dos maiores corpos do universo e aqueles do mais leve átomo; para tal ser, nada seria incerto e o futuro, assim como o passado, se faria presente diante de seus olhos.[7]

Nada que Laplace tenha escrito ficou tão famoso quanto esse exercício mental. Tornava inútil não apenas a vontade de Deus como também a do Homem. Para os cientistas, esse newtonismo extremo parecia motivo de otimismo. Para Babbage, toda a natureza se assemelhava subitamente a uma vasta máquina calculadora, uma versão grandiosa de sua própria máquina determinista: “Ao afastar nossas opiniões dessas simples consequências da justaposição de algumas engrenagens, é impossível não perceber o raciocínio paralelo aplicado aos poderosos e muito mais complexos fenômenos da natureza”.[8] Cada átomo, uma vez perturbado, precisa comunicar seu movimento aos demais, e estes por sua vez influenciam ondas de ar, e nenhum impulso é jamais perdido por completo. O rastro de cada embarcação continua em algum lugar dos oceanos. Babbage, cujo gravador esferográfico ferroviário registrava num rolo de papel a história de uma jornada, viu a informação, antes fugidia, como uma série de impressões físicas que eram — ou poderiam ser —percebidas. O fonógrafo, que grava o som numa folha metálica ou na cera, ainda não tinha sido inventado, mas Babbage era capaz de ver a atmosfera como um motor de movimento dotado de significado: “cada átomo marcado pelo bem ou pelo mal […] recebido dos filósofos e sábios, misturado e combinado de dez mil maneiras com tudo aquilo que é baixo e desprovido de valor”. Longe de ter desaparecido no ar, cada palavra já dita, tenha ela sido ouvida por uma plateia de centenas ou por ninguém, deixa sua marca indelével, sendo o registro completo do som humano criptografado pelas leis do movimento e, teoricamente, passível de ser recuperado — dado um poder de computação suficiente.

Isso era demasiadamente otimista. Ainda assim, no mesmo ano em que Babbage publicou seu ensaio, o artista e químico Louis Daguerre aperfeiçoou em Paris seu meio de capturar as imagens visuais em placas cobertas de prata. Seu concorrente britânico, William Fox Talbot, chamou isso de “arte do desenho fotogênico, ou de formar imagens e quadros de objetos naturais por meio da luz solar”.[9] Talbot viu algo semelhante a um meme. “Por meio desse aparelho”, escreveu ele, “não é o artista que faz a imagem, e sim a imagem que faz a si mesma.” A partir de então as imagens que dançavam diante de nossos olhos poderiam ser congeladas, impressas numa substância, tornadas permanentes.

Por meio do desenho ou da pintura, um artista — usando a habilidade, o treinamento e o tempo de trabalho — reconstrói aquilo que o olho vê. Em comparação, um daguerreótipo é, num certo sentido, a coisa em si — a informação, armazenada num instante. Era algo inimaginável, mas ali estava. As possibilidades eram atordoantes. Uma vez iniciado o armazenamento, onde ele iria parar? Imediatamente, um ensaísta norte-americano fez a relação entre a fotografia e a biblioteca atmosférica de sons imaginada por Babbage: este dissera que cada palavra jazia registrada no ar em algum ponto e, quem sabe, talvez cada imagem deixasse também sua marca permanente — em algum lugar.

Na verdade, existe um grande álbum de Babel. E como será se a grande atividade do sol for agir como um registrador, proporcionando impressões de nossa aparência, e imagens de nossos atos; e, assim sendo […] até onde podemos saber, outros mundos poderiam ser povoados e conduzidos com as imagens de pessoas e transações criadas a partir disso e umas das outras; sendo toda a natureza universal nada mais do que estruturas fonéticas e fotogênicas.[10]

O universo, que outros chamaram de biblioteca ou álbum, passou então a se assemelhar a um computador. Alan Turing pode ter sido o primeiro a notar isso, observando que o computador, como o universo, é mais bem interpretado como uma coleção de estados, e o estado da máquina num dado momento leva ao estado no instante seguinte, e assim todo o futuro da máquina seria previsível a partir de seus estados iniciais e dos sinais de entrada.
O universo está computando seu próprio destino.

Turing percebeu que o sonho de perfeição de Laplace poderia ser possível numa máquina, mas não no universo, por causa de um fenômeno que, na geração seguinte, seria descoberto pelos teóricos do caos e batizado de efeito borboleta. Turing o descreveu da seguinte maneira em 1950:

O sistema do “universo como um todo” é tal que erros bastante pequenos nas condições iniciais podem trazer efeitos irresistíveis num momento posterior. O deslocamento de um único elétron em um bilionésimo de centímetro num dado momento pode resultar na diferença entre um homem ser morto por uma avalanche um ano mais tarde, ou escapar dela.[11]

Se o universo é um computador, talvez ainda tenhamos dificuldade em acessar sua memória. Caso seja uma biblioteca, trata-se de uma biblioteca sem estantes. Quando todos os sons do mundo se dispersam pela atmosfera, nenhuma palavra se mantém associada a um conjunto específico de átomos. As palavras estão em toda parte e em lugar nenhum. Foi por isso que Babbage chamou de “caos” esse depósito de informações. Mais uma vez ele estava à frente de sua época.


Notas

1. Hilary Mantel, Wolf Hall. Nova York: Henry Holt, 2009. p. 394.
2. Jorge Luis Borges, “The Library of Babel”, em Labyrinths: Selected Stories
and Other Writings. Nova York: New Directions, 1962. p. 54.
3. Jorge Luis Borges, “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, em Labyrinths, p. 8.
4. William Gibson, “An Invitation”, introdução a Labyrinths, p. xii.
5. Charles Babbage, The Ninth Bridgewater Treatise: A Fragment. 2. ed.
Londres: John Murray, 1838. p. 111.
6. Edgar Allan Poe, “The Power of Words” (1845), em Poetry and Tales.
Nova York: Library of America, 1984. pp. 823-4.
7. Pierre-Simon Laplace, A Philosophical Essay on Probabilities. Trad. de
FrederickWilson Truscott e FrederickLincoln Emory. Nova York: Dover, 1951.
8. Charles Babbage, The Ninth Bridgewater Treatise, p. 44.
9. Nathaniel Parker Willis, “The Pencil of Nature: A New Discovery ”, The
Corsair, v. 1, n. 5, p. 72, abr. 1839.
10. Ibid., p. 71.
11. Alan M. Turing, “Computing Machinery and Intelligence”, Minds and
Machines, v. 59, n. 236, p. 440, 1950.




(A Informação; tradução de Augusto Calil)



(Ilustração: biblioteca de Alexandria atual; foto de a. não identificado)