segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

THOMAS DE QUINCEY: ALGUMAS NOTAS BREVES, de Véra Motta





Thomas De Quincey (1785-1859) iniciou o uso do ópio (Ópio! O terrível agente de inimagináveis prazeres e dores! [1] ) em 1804, aos dezenove anos, portanto, como paliativo contra o sofrimento gástrico e para enfrentar uma incipiente tuberculose, que ele acreditava estar sofrendo (o pai morre de tuberculose quando o escritor contava sete anos). 

A princípio, ele tomou ópio uma vez em cada três semanas, em 1812 já o fazia uma vez por semana; no ano seguinte, após uma dolorosa desordem gástrica, começou a ingeri-lo diariamente. Por volta de 1816, a dosagem era de 320 grãos ou oito mil gotas por dia. 

Tecnicamente falando, ele era um bebedor de ópio, e não um comedor. Em 1817/1818, atingiu 480 grãos diários, alcançando este mesmo patamar em 1843, aos 58 anos de idade. 

O texto das Confissões foi escrito em 1821, quando o escritor contava 36 anos, tendo sido revisado em 1856. Ao expor ao leitor as razões que o levam a escrever suas Confissões, De Quincey admite “(...) desenredei, quase até o último nó, o emaranhado de cordas que me atava”.[2] Trata-se, a seu ver, de uma conquista pessoal, o que não o exime de se indagar acerca das motivações para um uso tão prolongado da substância: são atos que visam ao alívio da dor ou apenas ao desejo do prazer? 

Isolemos algumas passagens em que o escritor descreve as sensações advindas de sua primeira experiência com a droga: 
  • Que ascensão dos mais profundos abismos do meu espírito! Umapocalipse do mundo dentro de mim! O ter-me aliviado das minhas dores era agora insignificante diante de meus olhos: todo aspecto negativo foi tragado pela imensidade daqueles efeitos positivos que se abriram diante de mim, no abismo da alegria então repentinamente revelada (...) A felicidade podia agora ser comprada com uma moeda e carregada no bolso do casaco: êxtases portáteis poderiam ser engarrafados e a paz de espírito poderia ser remetida em galões pela diligência do correio. [3] 
Como todo usuário de uma substância, De Quincey arrola as inúmeras vantagens do ópio sobre o vinho: se neste último os prazeres são sempre crescentes e tendem a uma crise, o efeito do ópio demora de oito a dez horas — ou seja, no vinho, um caso de prazer agudo, no outro, de prazer crônico: “Um é uma chama, o outro apenas um brilho permanente e imutável”. [4] 

Além disso, para o escritor e usuário, o vinho perturba as funções mentais, e o ópio acrescenta a elas as ordens mais especiais, leis e harmonia, acusando de erro a afirmação segundo a qual a elevação de espírito produzida por esta substância é seguida de uma depressão, cuja consequência é o torpor e a estagnação física e mental. 
  • O ópio, ao contrário, dá serenidade e harmonia a todas as faculdades, ativas ou passivas; e com respeito pela índole e sentimentos morais em geral, simplesmente fornece aquele calor vital que é aprovado pelo julgamento e que provavelmente sempre acompanhou a constituição física de uma saúde antediluviana ou ancestral. [5] 
As Confissões se elevam um tom, na medida em que o escritor atribui a descoberta do ópio a uma revelação divina: “(...) o comedor de ópio (...) sente que está sob o domínio da parte mais divina de seu ser; isto é, as afeições estão em completa serenidade e acima de tudo brilha a luz do majestoso intelecto”. [6] 

Se a descoberta da substância se apresenta como movimento divino, estatui-se a doutrina de uma igreja da qual De Quincey supõe ser “(...) o único membro: alfa e ômega”. [7] Entre as vantagens auferidas pelo usuário do ópio, o escritor inclui o aumento da atividade geral da mente, e consequente incremento do prazer intelectual. 
  • É suficiente dizer que um coro de elaborada harmonia coloca à minha frente, como uma peça de um sério trabalho, toda a minha vida passada — não como se estivesse sendo recordada por um ato de memória, mas presente e encarnada na música, deixando de ser dolorosa, com os detalhes do incidente removidos ou misturados em alguma enevoada abstração, e sua paixão exaltada, sublimada e espiritualizada. [8] 
Em sua relação com o tempo/espaço, Thomas De Quincey revela uma certa ruptura com o tempo, que se dilata — “um comedor de ópio é feliz demais para observar a passagem do tempo” [9] — e uma relação de amplificação do espaço, que incha — “mercados e teatros não são os lugares apropriados para o comedor de ópio chegar ao mais divino estado de seu aproveitamento”. [10] 

Restam, então, a solidão e o silêncio, condições indispensáveis para os transes do comedor de ópio, ou seus sonhos profundos, coroamento e consumação de tudo o que pode fazer o ópio pela natureza humana, afirma De Quincey. No seu caso particular, reconhece o escritor a inestimável ajuda da substância, necessária para estabelecimento dos seus laços sociais: “os remédios que eu procurava eram para viver em sociedade e manter minha inteligência em contínua ligação com os assuntos da ciência”. [11] 

Ao final de sua exposição sobre os prazeres do ópio, e na fronteira com a contraparte intitulada de “Dores do ópio”, o escritor oferece-nos uma ode à substância: 
  • Oh! justo, sutil e poderoso ópio! que aos corações dos pobres e dos ricos, às feridas que nunca cicatrizarão e às angústias que induzem o espírito à rebelião és um doce bálsamo; ópio eloquente! tu, com tua poderosa retórica, roubas os argumentos da ira; ao criminoso devolves por uma noite as esperanças da juventude, mãos lavadas de todo o sangue; e ao orgulhoso, trazes um esquecimento fugaz dos erros não redimidos e insultos não vingados (...); e da anarquia do sono evocas à luz do sol os rostos de belezas enterradas há longo tempo, purificadas dos ultrajes da sepultura. Só tu dás ao homem tais tesouros e possuis as chaves do Paraíso, oh justo, sutil e poderoso ópio! [12] 
Na sua Ilíada de sofrimentos, ou ao relatar as dores do ópio, De Quincey chama a atenção do leitor para a irregularidade de sua narrativa e pelo caráter excessivamente pessoal de sua prosa, a respeito do qual Freud [13] irá comentar, distinguindo o relato de um indivíduo de suas experiências pessoais da narrativa de um escritor criativo. Em relação ao primeiro, sugere que em geral sentimos repulsa ou indiferença, ao passo que as narrativas de um escritor criativo despertam em nós o prazer. 
  • A verdadeira ars poetica está na técnica de superar esse nosso sentimento de repulsa, sem dúvida ligado às barreiras que separam cada ego dos demais. Podemos perceber dois dos métodos empregados por essa técnica. O escritor suaviza o caráter de seus devaneios egoístas por meio de alterações e disfarces, e nos suborna com o prazer puramente formal, isto é, estético, que nos oferece na apresentação de suas fantasias. [14] 
Num extenso rol de infortúnios sofridos pelo escritor, um em especial nos chama atenção, pela sua estreita ligação com a arte poética: trata-se dos efeitos paralisantes sobre as faculdades intelectuais, exceção feita a um único trabalho, deixado inconcluso, em razão de seu artífice considerar empreendimento superior às suas potências criativas. 
  • E, em vez de sobreviver a mim como um monumento de desejos, ao menos —, de uma vida de trabalho dedicada à exaltação da natureza humana, naquela maneira que Deus melhor me criou para promover um objetivo tão grande, este trabalho resulta mais como um memorial de esperanças vencidas, ou esforços vãos, de materiais acumulados sem uso, de fundações feitas, mas que nunca poderiam suportar uma superestrutura — pesar e ruína do arquiteto. [15] 
Contudo, o aspecto mais saliente das Confissões de De Quincey, tendo em vista nossos interesses neste estudo, prende-se ao fato de se associarem, na experiência deste comedor de ópio, os devaneios aos estados oníricos: “(...) à medida que os estados criativos dos olhos aumentavam, uma simpatia parecia surgir entre os estados de sono e vigília do cérebro”. [16] 

De acordo com a sua descrição, à noite, estando ainda acordado na cama, seus devaneios traçavam, por assim dizer, diversas formas, em cores desmaiadas e visionárias, que se transformavam em fantasmas aos seus olhos e logo ganhavam o terreno dos sonhos, alcançando um insuperável esplendor. Essas mudanças em seus sonhos eram acompanhadas por um estado de ansiedade e profunda melancolia, estados que nada devem aos enunciados desde sua juventude: “(...) lembro-me de minhas jovens ejaculações de angústia (...)”. [17] 

Um outro aspecto enumerado entre as dores, embora não reconheçamos aí senão o mais salutar hábito praticado pela técnica da psicanálise — a rememoração onírica — é incluído: “Os incidentes mais momentâneos da infância ou as cenas esquecidas dos últimos anos eram frequentemente revividos (...)” [18], afirma o escritor, assegurando que não há nada que possa ser esquecido pela mente, o que antecipa a descoberta do recalque em Freud. 
  • Milhares de acidentes podem se interpor, e com certeza cobrirão como um véu a nossa consciência presente das inscrições secretas da mente. Acidentes do mesmo tipo poderão fazer com que esse véu se descubra, mas de qualquer forma, veladas ou não, as inscrições permanecem para sempre, exatamente como as estrelas que parecem sumir com a luz do dia, quando na verdade estão cobertas pelo véu da claridade, e apenas esperam o fim do dia para se revelar. [19] 
Na arquitetura onírica do escritor, os elementos componentes eram não apenas os devaneios da vida de vigília e as experiências infantis, como também o universo literário do escritor, um comedor de livros. É a partir desse material que se constroem os sonhos que ele designa de arquitetônicos, revestidos de esplendor: “Com o mesmo poder de infinito crescimento e repetição procedia minha arquitetura em meus sonhos”. [20] 

Lagos e extensões prateadas de água, logo transformados em mares e oceanos, desenharam-se no universo onírico do escritor, em que pontuava, como ausência, o rosto humano. Em seguida, uma espécie de tirania se apodera de suas criações oníricas, em que “(...) o mar parecia repleto de rostos, virados para os céus, rostos implorando, furiosos, desesperados, surgidos das profundezas aos milhares, por gerações, por séculos”. [21] 

Os sonhos orientais, pontuados por seres de toda espécie, assediaram o escritor no ano de 1818, ano em que o uso do ópio alcançou índices considerados, para os padrões atuais, alarmantes. “Sobre todas as formas, ameaças e punições, sobre todas as prisões escuras e incomensuráveis, surgia um sentimento de eternidade e de infinito que me levava a uma opressão como a da loucura”. [22] 

O tema da loucura, presente nos sonhos, alia-se ao da morte, a respeito da qual o escritor elabora algumas teses, entre as quais a de que a contemplação da morte é mais recorrente no verão do que em qualquer outra época do ano. 

Ao final das Confissões, De Quincey declara o objetivo do relato, qual seja o de mostrar os fantásticos efeitos do ópio, quer no prazer, quer na dor, apontando como herói da narrativa a própria substância. Erige-se, desse modo, o ópio, à condição de protagonista de uma narrativa que, embora confessional, desloca o centro do criador para o objeto criado. 



REFERÊNCIAS 

DE QUINCEY, Thomas. Confissões de um comedor de ópio. Tradução de Ibañez Filho. Porto Alegre: L&PM, 2002, 146p. 

FREUD, Sigmund. Escritores Criativos e Devaneio (1908 [1907]). In: . ‘Gradiva’ de Jensen e Outros Trabalhos. Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. IX. 


Notas: 

1 DE QUINCEY (2002), p.78. 

2 DE QUINCEY (2002), p.21. 

3 DE QUINCEY (2002), p.80. 

4 DE QUINCEY (2002), p.83. 

5 DE QUINCEY (2002), p.83. 

6 DE QUINCEY (2002), p.85 

7 DE QUINCEY (2002), p.85. 

8 DE QUINCEY (2002), p.91. 

9 DE QUINCEY (2002), p.94. 

10 DE QUINCEY (2002), p.94-95. 

11 DE QUINCEY (2002), p.95. 

12 DE QUINCEY (2002), p.96-97. 

13 FREUD. Escritores Criativos e Devaneio (1908 [1907]). 

14 FREUD. Escritores Criativos e Devaneio (1908 [1907]). 

15 DE QUINCEY (2002), p.121. 

16 DE QUINCEY (2002), p.127 

17 DE QUINCEY (2002), p.76. 

18 DE QUINCEY (2002), p.128. 

19 DE QUINCEY (2002), p.129. 

20 DE QUINCEY (2002), p.132. 

21 DE QUINCEY (2002), p.135. 

22 DE QUINCEY (2002), p.138 



(Ilustração: Thomas de Quincey by Sir John Watson Gordon)



 





sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

AN ESSAY ON CRITICISM / ENSAIO SOBRE A CRÍTICA, de Alexander Pope




‘Tis hard to say, if greater Want of Skill

Appear in Writing or in Judging ill,

But, of the two, less dang’rous is th’ Offence,

To tire our Patience, than mis-lead our Sense:

Some few in that, but Numbers err in this,

Ten Censure wrong for one who Writes amiss;

A Fool might once himself alone expose,

Now One in Verse makes many more in Prose.

‘Tis with our Judgments as our Watches, none

Go just alike, yet each believes his own.

In Poets as true Genius is but rare,

True Taste as seldom is the Critick’s Share;

Both must alike from Heav’n derive their Light,

These born to Judge, as well as those to Write.

Let such teach others who themselves excell,

And censure freely who have written well.

Authors are partial to their Wit, ’tis true,

But are not Criticks to their Judgment too?



Yet if we look more closely, we shall find

Most have the Seeds of Judgment in their Mind;

Nature affords at least a glimm’ring Light;



The Lines, tho’ touch’d but faintly, are drawn right.

But as the slightest Sketch, if justly trac’d,

Is by ill Colouring but the more disgrac’d,

So by false Learning is good Sense defac’d.

Some are bewilder’d in the Maze of Schools,

And some made Coxcombs Nature meant but Fools.

In search of Wit these lose their common Sense,

And then turn Criticks in their own Defence.

Each burns alike, who can, or cannot write,

Or with a Rival’s or an Eunuch’s spite.

All Fools have still an Itching to deride,

And fain wou’d be upon the Laughing Side;

If Maevius Scribble in Apollo’s spight,

There are, who judge still worse than he can write



Some have at first for Wits, then Poets past,

Turn’d Criticks next, and prov’d plain Fools at last;

Some neither can for Wits nor Criticks pass,

As heavy Mules are neither Horse or Ass.

Those half-learn’d Witlings, num’rous in our Isle,

As half-form’d Insects on the Banks of Nile:

Unfinish’d Things, one knows now what to call,

Their Generation’s so equivocal:

To tell ’em, wou’d a hundred Tongues require,

Or one vain Wit’s, that might a hundred tire.



But you who seek to give and merit Fame,

And justly bear a Critick’s noble Name,

Be sure your self and your own Reach to know.

How far your Genius, Taste, and Learning go;

Launch not beyond your Depth, but be discreet,

And mark that Point where Sense and Dulness meet.



Nature to all things fix’d the Limits fit,

And wisely curb’d proud Man’s pretending Wit:

As on the Land while here the Ocean gains,

In other Parts it leaves wide sandy Plains;

Thus in the Soul while Memory prevails,

The solid Pow’r of Understanding fails;

Where Beams of warm Imagination play,

The Memory’s soft Figures melt away.

One Science only will one Genius fit;

So vast is Art, so narrow Human Wit;

Not only bounded to peculiar Arts,

But oft in those, confin’d to single Parts.

Like Kings we lose the Conquests gain’d before,

By vain Ambition still to make them more:

Each might his sev’ral Province well command,

Wou’d all but stoop to what they understand.



First follow NATURE, and your Judgment frame

By her just Standard, which is still the same:

Unerring Nature, still divinely bright,

One clear, unchang’d and Universal Light,

Life, Force, and Beauty, must to all impart,

At once the Source, and End, and Test of Art

Art from that Fund each just Supply provides,

Works without Show, and without Pomp presides:

In some fair Body thus th’ informing Soul

With Spirits feeds, with Vigour fills the whole,

Each Motion guides, and ev’ry Nerve sustains;

It self unseen, but in th’ Effects, remains.

Some, to whom Heav’n in Wit has been profuse.

Want as much more, to turn it to its use,

For Wit and Judgment often are at strife,

Tho’ meant each other’s Aid, like Man and Wife.

‘Tis more to guide than spur the Muse’s Steed;

Restrain his Fury, than provoke his Speed;

The winged Courser, like a gen’rous Horse,

Shows most true Mettle when you check his Course.



Those RULES of old discover’d, not devis’d,

Are Nature still, but Nature Methodiz’d;

Nature, like Liberty, is but restrain’d

By the same Laws which first herself ordain’d.



Hear how learn’d Greece her useful Rules indites,

When to repress, and when indulge our Flights:

High on Parnassus’ Top her Sons she show’d,

And pointed out those arduous Paths they trod,

Held from afar, aloft, th’ Immortal Prize,

And urg’d the rest by equal Steps to rise;

Just Precepts thus from great Examples giv’n,

She drew from them what they deriv’d from Heav’n

The gen’rous Critick fann’d the Poet’s Fire,

And taught the World, with Reason to Admire.

Then Criticism the Muse’s Handmaid prov’d,

To dress her Charms, and make her more belov’d;

But following Wits from that Intention stray’d;

Who cou’d not win the Mistress, woo’d the Maid;

Against the Poets their own Arms they turn’d,

Sure to hate most the Men from whom they learn’d

So modern Pothecaries, taught the Art

By Doctor’s Bills to play the Doctor’s Part,

Bold in the Practice of mistaken Rules,

Prescribe, apply, and call their Masters Fools.

Some on the Leaves of ancient Authors prey,

Nor Time nor Moths e’er spoil’d so much as they:

Some dryly plain, without Invention’s Aid,

Write dull Receits how Poems may be made:

These leave the Sense, their Learning to display,

And theme explain the Meaning quite away



You then whose Judgment the right Course wou’d steer,

Know well each ANCIENT’s proper Character,

His Fable, Subject, Scope in ev’ry Page,

Religion, Country, Genius of his Age:

Without all these at once before your Eyes,

Cavil you may, but never Criticize.

Be Homer’s Works your Study, and Delight,

Read them by Day, and meditate by Night,

Thence form your Judgment, thence your Maxims bring,

And trace the Muses upward to their Spring;

Still with It self compar’d, his Text peruse;

And let your Comment be the Mantuan Muse.



When first young Maro in his boundless Mind

A Work t’ outlast Immortal Rome design’d,

Perhaps he seem’d above the Critick’s Law,

And but from Nature’s Fountains scorn’d to draw:

But when t’examine ev’ry Part he came,

Nature and Homer were, he found, the same:

Convinc’d, amaz’d, he checks the bold Design,

And Rules as strict his labour’d Work confine,

As if the Stagyrite o’er looked each Line.

Learn hence for Ancient Rules a just Esteem;

To copy Nature is to copy Them.



Some Beauties yet, no Precepts can declare,

For there’s a Happiness as well as Care.

Musick resembles Poetry, in each

Are nameless Graces which no Methods teach,

And which a Master-Hand alone can reach.

If, where the Rules not far enough extend,

(Since Rules were made but to promote their End)

Some Lucky LICENCE answers to the full

Th’ Intent propos’d, that Licence is a Rule.

Thus Pegasus, a nearer way to take,

May boldly deviate from the common Track.

Great Wits sometimes may gloriously offend,

And rise to Faults true Criticks dare not mend;

From vulgar Bounds with brave Disorder part,

And snatch a Grace beyond the Reach of Art,

Which, without passing thro’ the Judgment, gains

The Heart, and all its End at once attains.

In Prospects, thus, some Objects please our Eyes,

Which out of Nature’s common Order rise,

The shapeless Rock, or hanging Precipice.

But tho’ the Ancients thus their Rules invade,

(As Kings dispense with Laws Themselves have made)

Moderns, beware! Or if you must offend

Against the Precept, ne’er transgress its End,

Let it be seldom, and compell’d by Need,

And have, at least, Their Precedent to plead.

The Critick else proceeds without Remorse,

Seizes your Fame, and puts his Laws in force.



I know there are, to whose presumptuous Thoughts

Those Freer Beauties, ev’n in Them, seem Faults:

Some Figures monstrous and mis-shap’d appear,

Consider’d singly, or beheld too near,

Which, but proportion’d to their Light, or Place,

Due Distance reconciles to Form and Grace.

A prudent Chief not always must display

His Pow’rs in equal Ranks, and fair Array,

But with th’ Occasion and the Place comply,

Conceal his Force, nay seem sometimes to Fly.

Those oft are Stratagems which Errors seem,

Nor is it Homer Nods, but We that Dream.



Still green with Bays each ancient Altar stands,

Above the reach of Sacrilegious Hands,

Secure from Flames, from Envy’s fiercer Rage,

Destructive War, and all-involving Age.

See, from each Clime the Learn’d their Incense bring;

Hear, in all Tongues consenting Paeans ring!

In Praise so just, let ev’ry Voice be join’d,

And fill the Gen’ral Chorus of Mankind!

Hail Bards Triumphant! born in happier Days;

Immortal Heirs of Universal Praise!

Whose Honours with Increase of Ages grow,

As streams roll down, enlarging as they flow!

Nations unborn your mighty Names shall sound,

And Worlds applaud that must not yet be found!

Oh may some Spark of your Coelestial Fire

The last, the meanest of your Sons inspire,

(That on weak Wings, from far, pursues your Flights;

Glows while he reads, but trembles as he writes)

To teach vain Wits a Science little known,

T’ admire Superior Sense, and doubt their own!


Tradução de D. Leonor d'Almeida Portugal Lorena e Lencastre, marquesa d'Alorna, condessa d'Assumar, e d'Oeynhausen, conhecida entre os poetas portugueses pelo nome de Alcipe: 





Não sei dizer qual mostra menos arte,

Se quem escreve mal, se quem mal julga;

Entre ambos, menos risco há, menos dana

O que me cansa que esse que me engana:

Dos primeiros há poucos, muitos destes;

Por um que escreve mal, dez mal censuram:

Um néscio a si somente expõe, rimando;

Mas este em verso, vale dez em prosa.



Como os relógios são nossos juízos;

Nenhum vai certo, e todos creem no próprio.

No vate engenho genuíno é raro;

É mais raro entre os Críticos o gosto:

Uns e outros do Céu precisam luzes;

Críticos nascem, bem como os Poetas.

Os excelentes só, outros ensinem;

E só quem bem compõe, livre censure.

Autores parciais do próprio gênio

Pode haver, é verdade; mas é menos

Parcial do que opina, quem critica?



Se de perto observarmos, acharemos

Que da Crítica o germe na alma existe:

Certo clarão despende a natureza;

Linhas ligeiras traça, mas direitas;

Esboço tênue, porém bem traçado,

Que se esperdiça mal iluminado.

Falso saber bom senso desfigura:

No labirinto das escolas quantos

Desvairando se perdem! quantos outros,

Que a natureza fez tolos somente,

Presumindo de si, mais asnos ficam!

Em busca de juízo a razão perdem,

E por desculpa, em Críticos se tornam:

Igual fogo os agita, os incendeia,

Ou possam, ou não possam, sempre escrevem,

Com a raiva de um rival, ou com o ciúme

De um custódio das belas do serralho.

Têm comichão d'escarnecer os tolos,

De estar da parte de quem ri, ou ladra.

Se Mévio escreve contra o jus de Apollo,

Há quem julgue pior do que ele escreve.



Alguns, antes de serem vates, foram

Por homens de juízo reputados;

Deram-se à Crítica, e asnos ser provaram.

Como as mulas, nem asnos nem cavalos,

Outros nem são sensatos, nem censores.

Esses pedantes, semissábios, praga

Que em cardumes abafa nossas ilhas,

Quais nas margens do Nilo esses insetos

Que encontramos informes, incompletos,

De equívoca estrutura; ninguém sabe

Que nome dar a tantas meias coisas:

Nomeá-las, requer umas cem línguas;

Mas a de um tolo há de estafar cem homens.



Ó vós, que buscais dar, merecer fama,

Alcançar de Censor o nobre nome,

Avistai os limites até onde

O gênio, o gosto, o saber vosso chega:

Não vos lanceis além, sede prudentes;

Fixai bem esse ponto em que se encontram

Senso e tolice, transgredindo a meta.

As coisas têm limites próprios, todas,

Com os quais sabiamente a Natureza

Quebra a esperteza vã do presumido.



Bem como em terras onde o mar, ganhando,

Deixa areais estéreis, noutras charcos;

Na alma onde a memória predomina,

O poder do intelecto desfalece;

Se a fantasia cálida vagueia,

Da memória as espécies brandas fogem.

Uma ciência pede um gênio inteiro:

Tão vasta é arte, e curta a mente humana;

Limitada não só a certas artes,

Mas nessas mesmas só capaz de partes.

Perdemos como os Reis, essas conquistas

Que fizeram vaidosos, só guiados

Pela estulta ambição de fazer muitas:

Manda bem cada qual sua província,

Se se acomoda àquilo só que entende.



Pelos marcos que pôs a Natureza

Formai vosso juízo, segui esta:

É sempre a mesma, certa, invariável;

Com luz universal em tudo brilha;

Vida, força e beleza nos reparte,

Que são origem, fim e prova da Arte.

Esta, só deste fundo se alimenta;

Preside às obras simples e singela:

Assim num corpo belo uma alma sábia

Nutre de espírito e vigor o todo,

Sustenta o nervo, guia os movimentos;

Não se vê, nos efeitos se percebe.

Alguns, a quem o Céu deu muito engenho,

Tanto mais devem consultá-lo atentos;

O juízo e a razão às vezes brigam,

Intentando ajudar-se; assim disputam

Um marido e mulher, se ambos governam.

Não quer esporas o cavalo alado,

A rédea basta; e quando a Musa corre,

Contenha a fúria, mas provoque a pressa:

Pégaso, qual ginete generoso,

Mais brio mostra, se o reprime o freio.



Não legou, descobriu a Antiguidade

Essas regras que estão na Natureza;

São Natureza, o método a restringe;

Bem como se restringe a Liberdade

Com as mesmas leis que a Liberdade cria.



Observai como a sábia Grécia indica

As suas úteis regras; como e quando

Reprimir, animar se deve o voo:

Do tope do Parnaso aos filhos mostra

As difíceis veredas que trilharam;

Com os prêmios imortais do alto acena,

Força a subir esses degraus quem teme:

Tira preceitos só de exemplos grandes,

E deles colhe o que eles do Céu colhem.



O generoso Crítico ao Poeta

Somente abana o fogo; ao mundo ensina

A louvar com razão o que é louvável.

Serve a Crítica à Musa de criada,

Que a veste e adorna e faz parecer mais bela:

Mas se desta intenção alguém se aparta,

Se corteja a criada, e deixa a dama;

Se as armas viram só contra os Poetas,

Aborrecendo assim quem os ensina,

São como os Boticários, que estudando

A ciência que têm pelas receitas,

O papel de doutores representam;

Atrevidos na prática dos erros,

Receitam, matam, e dizem mal dos mestres

Alguns tasquinham, roem folhas antigas,

Nem o tempo, nem traça destrói tanto:

Privados de invenção, na insulsa forma

De planos pecos, outros nos fabricam

Receitas tolas de compor poemas;

De fofa erudição fazendo alarde,

Põem de parte o sentido quando explicam,

Ou de tal modo explicam, que este foge.



Vós cujo entendimento bem navega,

Julgai bem dos antigos o caráter;

Em cada folha discerni com gosto

A fábula, o assunto, o fim proposto;

Religião, paz, gênio da idade:

Sem ter nisto, a um tempo, os olhos fitos,

Invectivar podeis, criticar nunca.

Vosso estudo e deleite as obras sejam

Do vate Homero, do Parnaso gloria;

Lede-o de dia, à noite meditai-o;

Por ele modelai vosso juízo,

Tirai máximas dele que vos levem

Até à origem da Castália fonte.

Lede, relede o texto; comparai-o

Consigo mesmo; e logo depois seja

A Mantuana Musa seu comento.



Quando na mente imensa o moço Maro

Primeiro desenhou obra tão rara,

Que havia durar mais que a imortal Roma,

Parecia talvez que desprezando

Da Crítica os preceitos, só queria

As fontes esgotar da Natureza:

Mas depois, quando viu parte por parte

O que tinha composto, e a gentileza,

Viu que era o mesmo Homero e Natureza.

Convencido, o desígnio audaz reprime;

Estritamente às regras se conforma,

E a trabalhosa empresa continua

Bem como se presente o Estagirita

Atento presidisse a cada linha.

A justa estima das antigas regras

Daqui se aprenda; Natureza imita

Só quem as segue, quem imita Homero.



Belezas há que as regras não declaram,

Que nascem de ventura e de cuidado.

Música e Poesia se assemelham;

Graças sem nome e sem lições têm ambas,

Que só atinge mão de mestre, às vezes.

Se onde as regras não chegam quanto basta,

(Pois são método só de encher assumptos)

Uma feliz licença corresponde

Ao intento, então é regra a licença.

Pégaso assim, para encurtar caminho,

Foge atrevido da trilhada senda,

Do limite vulgar audaz se afasta,

E ganha graça além do alcance da arte;

A qual, sem respeitar censuras, vence

Os corações, e chega ao fim de um salto.

Fora da ordem natural das coisas

Algumas há de que o prospecto agrada;

Informes rochas, precipícios, grutas.

Grandes gênios tombem erram com glória,

Fazem erros que a Crítica respeita.

Mas se os antigos às leis próprias faltam,

(Como Reis que revogam leis que fazem)

Vós, modernos, sentido! Se é preciso

Pecar contra o preceito, seu fim sempre

Vos esteja presente, em transgredindo:

Sejam raras as vezes, e forçadas,

Justificadas por exemplos grandes.

De outra sorte, sem freio, e sem remorso,

Da vossa fama a Crítica se apossa,

Prossegue, e suas leis com força alega.



Bem sei que alguns, com presumida ideia,

Esses rasgos sublimes erros chamam;

Que as figuras ao perto, ou destacadas,

Monstros e informes coisas lhes parecem,

Às quais, no seu lugar e luz expostas,

A devida distância concilia,

Com a forma bela, graças e harmonia.

Nem sempre desenvolve um Chefe sábio

Igualmente nos renques poder e arreio;

Com seu tempo e lugar os proporciona;

Encobre a sua força; e mesmo às vezes,

Por mais dissimular, finge uma fuga.

Estratagemas há que erros parecem;

Não cabeceia Homero; nós sonhamos.



De louros verdes inda ornados vemos

Os antigos altares; não lhes chega

Nem sacrílega mão, nem voraz fogo;

Da cólera feroz da Inveja isentos,

Da Guerra e Tempo gastador seguros.

Vede os Sábios, que vêm trazendo incensos

De cada clima: os Pæans aprovadores

Atentos escutai nas línguas várias!

Ressoe em cada voz tão justo o pio uso,

E do gênero humano o coro se encha.

Salve, ó Bardos sublimes, triunfantes,

Que nascestes em dias mais ditosos!

Herdeiros imortais do geral prêmio!

Cujas honras com o tempo vão crescendo,

Como engrossam torrentes que se aumentam

Á medida que as terras vão lavando:

Vossos nomes potentes, hão de ouvi-los

Nações que hão de nascer; hão de aplaudi-los

Mundos que inda não foram descobertos.

Desse fogo celeste uma faísca

Venha inflamar a débil, triste Alcipe,

Que adejando de longe quer seguir-vos;

Que arde quando vos lê, treme se escreve

Para ensinar aos gênios presumidos

A ciência, que pouco se conhece,

De apreciar talentos superiores,

E com modéstia duvidar dos próprios.





(Obras poéticas. Tomo V)



(Ilustração: Michael Dahl - Alexander Pope)






terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

MINHA NATUREZA ATORMENTADA, de John Cheever






1948_Estou com um leve resfriado, nada sério, mas ele tem um efeito depressivo, e a febre e a tosse seca sempre comprometeram a minha estabilidade. Além disso, às vezes tusso um pouco de sangue e isso me traz pressentimentos de morte que parecem pura petulância. Ontem à noite, por motivos que compreendo, minha esposa sugeriu que eu a deixe por um tempo, sugestão que não consigo achar razoável. Instigou-se em mim um tipo de orgulho que se pode transformar em algo perverso, como uma longa separação ou um divórcio. Uma longa separação seria perigosa, pois somos os dois pouco comunicativos e não estamos inclinados a perdoar. Ela tem um lado que não é sociável nem afetuoso, e que ela nunca manifestou a mim ou a outros sem que isso resultasse em dor. Ela passava muito tempo sozinha na juventude e esses hábitos solitários às vezes reaparecem. De vez em quando, se sente sufocada por uma total ausência de privacidade. Ela tem todo direito a isso – é algo que identifiquei quando a conheci e a pedi em casamento. Ainda por cima, há o fato de que minha vida recente tem tido todas as características de um fracasso. 


*** 

Estou cansado, mas vai passar. Amo o corpo da minha mulher e a inocência dos meus filhos. Nada mais. 


1952_Quando a autodestruição brota no coração, parece ser menor do que um grão de areia. É uma dor de cabeça, uma leve indigestão, um dedo inflamado; mas você perde o trem das 8h20 e chega atrasado à reunião sobre a dívida do cartão de crédito. O velho amigo com quem você se encontra para almoçar esgota a sua paciência sem mais nem menos e num esforço para ser agradável você toma três drinques, mas a essa altura o dia já perdeu a forma, o propósito e o significado. Na esperança de lhe devolver algum sentido e beleza, você bebe demais nos coquetéis e fala demais, dá em cima da mulher de alguém e termina fazendo algo idiota e obsceno, e pela manhã você quer estar morto. Mas quando tenta reconstituir o caminho que o conduziu a esse abismo, tudo que você encontra é um grão de areia. 


*** 

Prestes a completar 40 anos sem ter realizado nada do que pretendia realizar – sem jamais ter alcançado a criatividade profunda à qual me dediquei todo esse tempo –, me sinto ocupando uma posição menor, débil e obscura, a que cheguei não por destino, mas por culpa minha, como se me tivessem faltado, a certa altura do caminho, o espírito e a coragem necessários para me encaixar com competência nos moldes que iam surgindo. Penso em Leander[1] e em todos os outros. Não é por serem histórias de fracasso; não é isso que assusta. É que esses registros são banais, eles não têm a menor importância; é porque Leander, caminhando no jardim ao entardecer, padecendo de uma paixão violenta, não interessa a ninguém. Não importa. Não importa… 


1955_Você encontra na rua um colega de turma ou alguém do gênero e aceita um convite para jantar. Assim que põe o pé no apartamento, repara que algo está errado. Sua anfitriã andou chorando e seu antigo colega parece bêbado. Não a ponto de cambalear, mas demonstra aquela agressividade típica de alguns bêbados. Se você recusa os amendoins, ele fica sarcástico. Antes de chegarem à mesa do jantar, ele já começou a agredir, a difamar e a ridicularizar a esposa, e no meio da sopa ele te diz que ela é uma puta nojenta. Ela dá a impressão de ser uma mulher simples e de temperamento doce. Enquanto ela chora e ele a acusa de indecências improváveis de todo tipo, você pega o chapéu, o casaco e vai embora no meio do jantar. Dez ou quinze anos se passam até que uma noite, saindo do teatro, você é abordado de novo pelo velho colega. Ele está acompanhado da mesma esposa, e analisando com curiosidade o rosto dela você tem a impressão de que ela está feliz. O apartamento deles, por acaso, fica perto do seu, de modo que você divide o táxi com os dois e sobe para beber alguma coisa. Tudo está agradável há uns dez minutos quando o seu velho colega pergunta à esposa por que ela não prepara uns sanduíches; por que ela não levanta a bunda gorda e vai fazer algo que preste. Ela começa a soluçar e vai à cozinha, e quando você pega o chapéu e o casaco ele começa a gritar de longe que ela é uma vadia, uma puta nojenta, uma vagabunda. 


1957_No dia seguinte ao nascimento do meu filho, acordo querendo tudo de bom para ele: coragem, amor, virilidade, uma visão saudável de si mesmo e um arranjo viável com Deus. Subirei o monte Chocorua a seu lado. Digo à empregada como ele é lindo, e depois às crianças. Estou eufórico e, como continuo gripado, sinto os olhos úmidos e doloridos. Não vou à igreja, julgando isso desnecessário. Pego o ônibus com Ben e Susie[2] até o hospital. Entre o ponto de ônibus e o portão, passamos por um canto escuro da rua – me refiro a uma escuridão emocional. K. me disse que um assassinato foi cometido ali e creio detectar uma atmosfera de agressão sexual, cheiro de mijo, um gato dormindo numa lata de lixo e uns rabiscos bem sacanas nas paredes, que paro para examinar. No hospital encontro Mary,[3] meu lindo filho e tudo que pretendo fazer por ele. Não me lembro de alguma vez ter amado tanto uma criança. E então voltamos para casa num ônibus lotado e malcheiroso. Tomo um drinque e me sinto bem estranho – é a gripe, acho –, e do alto da minha sacada cobiço a liberdade dos garotões que vão fazer baderna em Ostia a bordo de seus conversíveis, pensando em como um homem agraciado com quase tudo que o mundo tem a oferecer pode continuar sentindo que algo ainda falta. Vamos ao Palatino depois do almoço, e agora é o mundo que me parece um tanto estranho, talvez visto através da placenta da minha gripe. O céu está uma beleza, com uma luz viva e cintilante, mas um vento frio sopra de alguma direção, revirando e agitando as folhas, fazendo um ruído desconfortável que lembra o outono. Vou de um lado a outro no sol, mas não consigo me aquecer, e sinto que tempestades ou desarranjos químicos se alastram nas minhas veias. De volta para cá, ao descer as escadas, por algum motivo me vem à mente a luta que é admitir a existência do mal no mundo e dentro de nós mesmos, a dificuldade que é alcançar o equilíbrio entre nossa expressão interior e aquilo que sabemos ser o correto. 


1958_Bebo uísque antes do almoço; vou passear com Federico.[4] Chove de novo, mas não chega a estragar o passeio. O dia está terrível, um clima de doer. Mary parece estar se esforçando para dar fim a essa tensão entre nós e estou disposto a colaborar. Mas na hora de lavar a louça, tudo vai por água abaixo. Não é obrigação minha lavar a louça, minha obrigação é tomar conta do bebê. Acho que seria melhor se eu lavasse a louça e ela tomasse conta do bebê. Então tomo conta do bebê, mas o bebê chora e ela precisa sair da pia, e eu digo: “Precisamos conversar; precisamos conversar. Isso está insuportável. Pensei em te escrever uma carta.” “Me escreva uma carta”, ela diz, rindo, e a situação é exasperante. Não há um lugar onde possamos conversar sem que as crianças escutem. Decido naquela hora, e depois de novo às três da manhã, que irei propor três coisas. 1) Ela precisa admitir que é vítima de uma depressão inconstante e tomar uma atitude em relação a isso. 2) Não a levarei de carro até New Hampshire. Será bom para ela fazer a viagem sozinha e passar um pouco de tempo ao lado do pai. 3) Se ela continuar se queixando da casa e desejando outras casas, é melhor encontrar um lugar barato para alugar e viver sozinha com as crianças. Às 3h30, porém, cai uma pancada de chuva; o vento vira, é necessário cobrir-se com o cobertor e de repente me sinto feliz, bem-disposto e animado. No mesmo instante, talvez, a grande ratazana, o monstro, bota a cabeça na armadilha e seu pescoço é quebrado ao meio. Na luz nova da manhã, todas as minhas convicções se esvaíram como fumaça. Não mencionarei a depressão; vou levá-la de carro até New Hampshire; sairemos à procura de uma casa de campo hoje à tarde. 


1959_Ano após ano, leio aqui que estou bebendo demais, e não há dúvida de que isso é progressivo. Os dias desperdiçados só aumentam, sofro crises de remorso cada vez mais intensas e acordo às três da manhã me sentindo um defensor da sobriedade. A bebida, bem como seus apetrechos, ambientes e efeitos me parecem abomináveis. Mesmo assim, todo dia, ao meio-dia, pego a garrafa de uísque. Parece que não consigo beber moderadamente, e também não consigo parar. 


*** 

Esse foi o ano em que todo mundo nos Estados Unidos estava preocupado com o homossexualismo. Havia outras preocupações também, mas os outros anseios eram publicados, discutidos e trazidos à tona, enquanto os anseios ligados ao homossexualismo permaneciam no escuro, inconfessos. Será que ele é? Que ele foi? Que eles fizeram? Que eu sou? Que eu poderia ser? Era o que todos pareciam estar pensando. A título de defesa, deu-se uma grande ênfase à virilidade, ao atletismo, à caça, à pesca e ao vestuário conservador, mas a esposa solitária desconfiava de relance do marido que tinha ido ao acampamento de caça, e o próprio marido desconfiava do outro com quem havia dividido uma cama rústica de folhas de pinheiro. Será que ele é? Que ele já? Que ele tinha? Que ele queria? Que alguma vez? Mas o que eu realmente queria dizer é que isso é patético. Um homem pode ter culpa, mas apenas gente absurdamente reprimida se comporta dessa maneira. 


1960_Passo a noite com C., e o que pensar disso? Não tenho vergonha do que fiz, acho, mas ao mesmo tempo sinto ou apreendo o peso das restrições sociais, a ameaça de punição. Mas agi somente com base em meus instintos, tentei atenuar discretamente a minha solidão embriagada, o meu inoportuno apetite de carinho sexual. Talvez o incidente tenha algo de pecaminoso, e só tive esse tipo de relação três vezes na minha vida adulta. Conheço minha natureza atormentada e procurei contê-la nos limites da criatividade. Não escolhi estar aqui sozinho, exposto à tentação, mas espero sinceramente que isso não aconteça de novo. Não acredito ter feito nada errado. Não acredito ter prejudicado ninguém que amo. O pior talvez seja ter me colocado numa posição em que serei forçado a mentir. 


1961_Levanto às 6h30 para tomar café – de bom humor, acho, mas enquanto faço a barba Mary também levanta, me olha feio, tosse e emite pequenos grunhidos de dor até que eu fale em tom agressivo: “Além de cair morto, tem alguma coisa que eu possa fazer para te ajudar?” Não tomo café da manhã porque ele não me é oferecido – olhe só para nós, a essa altura da vida e a essa hora do dia, reencenando as brigas horríveis e amarguradas dos nossos pais, girando com ódio em volta da torradeira e do espremedor de laranja como gladiadores encolhidos e desdentados, exalando veneno, bile, maldade e petulância na cara do outro! “Posso torrar o meu pão?” “Se importa de esperar até que eu termine de torrar o meu?” Minha mãe finalmente tirando seu prato de café da mesa e comendo no guarda-louça, de costas para a mesa, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Meu pai sentado à mesa, perguntando: “Pelo amor de Deus, o que foi que eu fiz para merecer isso?” “Me deixe em paz, apenas me deixe em paz, é tudo que peço”, ela diz. “A única coisa que eu quero”, ele diz, “é um ovo cozido. Será que é pedir demais?” “Bom, então cozinhe o seu próprio ovo”, ela grita; e essa é a voz plena da tragédia, o canto do bode. “Cozinhe o seu próprio ovo, então, mas me deixe em paz.” “Mas diabo, como é que eu vou cozinhar um ovo”, ele berra, “se você não me deixa usar a panela?” “Eu deixaria você usar a panela”, ela grita, “se você não a deixasse imunda depois. Não sei como consegue, mas tudo que você toca fica imundo.” “Eu comprei a panela”, ele ruge, “o sabão, os ovos. Pago a água e a conta do gás, e estou na minha própria casa sem conseguir cozinhar um ovo. Morrendo de fome.” “Tome”, ela diz, “coma o meu. Não consigo mais. Você acabou com o meu apetite. Destruiu o meu dia.” Ela empurra o prato para cima dele e o larga sobre a mesa. “Mas eu não quero o seu prato”, ele diz. “Não gosto de ovos fritos. Detesto ovos fritos. Por que eu deveria comer o seu café da manhã?” “Porque eu não consigo mais comer”, ela grita. “Eu não consigo comer nada nesse ambiente. Coma o meu café da manhã. Coma e faça bom proveito, mas cale a boca e me deixe em paz.” Ele afasta o prato e afunda o rosto entre as mãos. Ela pega o prato e joga os ovos fritos no lixo, soluçando terrivelmente. Ela sobe para o quarto. As crianças, que foram acordadas por esse diálogo calamitoso e heroico, tentam entender por que esse bom dia criado pelo Senhor precisa ser essa calamidade. 


1962_Mary maldisposta hoje cedo, mas então penso como é maravilhoso que o casamento possa comportar uma tamanha profusão de equívocos, tempestades, infidelidades, rios de lágrimas e mesmo assim seguir seu rumo, passageiros com alguns arranhões leves, mas nada grave. 


[...] 


1972_Vinte anos atrás, depois de uma briga particularmente feroz, fiquei parado em pé na garagem, chorando por amor. Não temos garagem aqui, mas tirando isso a situação é a mesma. Não me divorcio porque tenho medo – medo da solidão, do alcoolismo e do suicídio. Esses cômodos, esses jardins e a companhia do meu filho me ajudam a permanecer vivo. Não posso discutir esses assuntos sem incitar um ataque venenoso à minha memória, ao meu intelecto, aos meus órgãos sexuais e à minha conta bancária. Tudo isso se justifica, eu acho, por eu ter trepado com as pessoas erradas, mas sob uma determinada luz – a luz do dia – parece que não tive muita escolha. 


*** 

Quero dormir. Digo isso com uma aparente serenidade. Estou cansado de me preocupar com prisão de ventre, homossexualismo, alcoolismo, e de ficar ruminando como deve ser um bar gay. Será que estão cheios de elfos perfumados, jovens andróginos, beldades ensimesmadas? Jamais saberei. Desejo mulheres e de vez em quando homens, mas não seria melhor explorar minha sexualidade em vez de me chicotear até sangrar? Nunca ficarei em paz comigo mesmo, é claro, mas alguns desses conflitos de fronteira me parecem dispensáveis. 


Notas:

[1] Leander Wapshot, personagem do primeiro romance de Cheever, A Crônica dos Wapshot. 

[2] Seus dois primeiros filhos. 

[3] Esposa de Cheever. 

[4] Seu terceiro filho. 



(The Journals of John Cheever; tradução de Daniel Galera) 




(Ilustração: escultura de Albert Gyorgy)



sábado, 9 de fevereiro de 2019

HARPA XXXIV – VISÕES, de Sousândrade







(...) Eu despertava em meu delírio

Ante a realidade! a virgem morta,

Pálida e fria a reconheço, eu rujo!

E de homem ver-me, comecei chorar.

— Quis seu corpo aquecer sobre o meu corpo;

Uni sua boca à minha, a voz lhe dando,

Que o túmulo não guarda. Em verdes folhas

Nua deitei-a, as mãos postas, e as tranças

Escorreram-lhe em torno. Dias, dias

Preso a seus pés levei a contemplá-la!

Grandes e abertos sobre mim ficaram

Seus olhos fixos e vidrados, longos

Como a meditação de uma sentença!



(...)

Eu vi! — seu corpo transparente inchando;

Perderem-se os seus olhos nas suas faces;

Humor fétido escoa-se da carne,

Tão pura e fresca, tão cheirosa inda ontem,

Que ela amou apertar em mim, d'insonte

Frenética de amor, nervosa e trêmula!

Formosa ondulação das castas ancas,

Dos seios virginais, da alva cintura

Bela voluptuosa... disformou-se

Em repugnante, (quem a vira e amara!)

Em nojenta, esverdeada, monstruosa

Onda de podridão! Zumbiam moscas,

Famintos corvos sobre mim se atiram,

Recurvas unhas regaçando e abrindo

Negras asas e o bico, triunfantes

Soltando agouros! Eu a defendia

Da ave e do inseto, que irritados veem-me.



(...)



(...) Eu quis limpá-la

Desses monstros horríveis, que a comiam

Diante mim! porém, tudo era imundícia,

Oh! quantas vezes me lancei sobre ela,

Julgando tudo amores, tudo encantos

Dela emanando em límpidos arroios!

Fujo de nojo... de piedade eu volto...

Depois, como as enchentes pluviais

Escoando, que os troncos já se amostram,

Seus ossos vão ficando descobertos.

Oh! mirrado eu fiquei do sofrimento,

De tanta dor curtir! E tu, ó Deus,

Que tudo acabas, sofrerás também?

Porque tão miseráveis nos fizeste,

Deus d'escárnio? teus filhos nós não somos...

Que sorte de alimento ou de deleite

Encontras na desgraça desumana?



Belo horror da existência — formosura,

Filha da natureza engrandecida

No seu pecado e morte, meteoro

Enganoso da noite, flor vermelha

Em veneno banhada, mulher bela!

— Tudo ali 'stá! — ó mundo! mundo... mundo...



(...)

Embalde interroguei mudo cadáver,

E os ossos amarelos nem respondem!

Mas, aqui a mulher não é perjura:

Só lembrança de amor santo evapora —

A beleza se forma ao pensamento,

À saudade suas véstias se derramam.



(...) 



(Ilustração: Bernard Buffet (1928-1999) au mam, oct 2016)


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

MARIA HELENA, de Chico Buarque






irmãos germanos: os filhos do mesmo pai 

e da mesma mãe uns com relação aos outros; 

irmãos bilaterais; irmãos carnais 



Se cunhássemos nossas cabeças eu e meu irmão, cada qual numa face de uma moeda, e se girássemos essa moeda com um peteleco forte, poderíamos vislumbrar a cabeça do meu pai e a cabeça da minha mãe quase simultaneamente. Já com a moeda em repouso tornamos a ser duas cabeças tão dessemelhantes que ninguém nos imagina irmãos. Só quem frequentasse muito a nossa casa, ou estudasse uma rara foto da família reunida, notaria que nós dois não somos propriamente opostos, e sim complementares. Mas entre mim e ele a partilha dos rostos de pai e mãe mostrou-se iníqua, com nítida vantagem para meu irmão. Seu rosto tem os traços do pai, que está longe de ser um homem bonito, mas no conjunto, por algum mistério, resulta numa versão masculina da nossa formosa mãe. Já eu herdei detalhes da mãe em desarmonia, como um nariz pontudo sem as maçãs salientes que o justificam, ou seus lábios carnudos que na minha boca pequena não têm cabimento. Os cabelos italianos, que meu irmão agora deu para usar em longos cachos, na minha cabeça viraram lã de arame. E talvez por um direito de primogenitura ele ficou com as cores maternas, os olhos esverdeados e a tez cor-de-rosa, relegando-me a pele rude do meu pai, além de prognatismo, olhos cinzentos e óculos. Se, de volta ao princípio, as faces do meu pai e da minha mãe se misturassem num dado rodopiante, poderíamos ter vindo ao mundo com várias outras caras, meu irmão e eu, conforme a manha do crupiê, que na hora H sempre rouba para meu irmão. Sem contar o que não estava em jogo, o seu metro e oitenta e cinco de altura e os meus vinte centímetros a menos. Porém, num lance de dados invisíveis, acho que o acaso me compensou com atributos de espírito. 

Nos arredores de uma duvidosa escola de propaganda, em cujas salas de aula jamais foi visto, meu irmão ganhou fama de desbravador. Com efeito, eram sem conta as estudantes que entravam donzelas no seu quarto, para saírem ajeitando por cima as roupas de baixo, e que eu registrava numa caderneta mental. Em algum fim de tarde ia procurá-las nos bares da Bela Vista, pedia licença para sentar à sua mesa e me apresentava como irmão do meu irmão. Era o bastante para que largassem o sanduíche ou as apostilas e me atendessem, e já na primeira conversa eu ganhava sua confiança. Dava atenção às suas confidências e até me sujeitava a embolsar bilhetes amorosos que, como é claro, não chegariam ao destino. Também ouvia duras queixas, porque meu irmão era um canalha que prometia o amor e tal e coisa e sumia sem dar satisfações. E folguei em aprender que nem todas lhe dariam uma segunda chance, se por hipótese procuradas, pois era um açodado, não era afeito a preliminares e muito menos a prorrogações. À noitinha trocávamos telefones, e no encontro seguinte meu irmão já seria assunto pífio, porque era de sonetos de Shakespeare para cima que se tratava. Sei que elas me ouviam embevecidas menos pela poesia que pelo timbre da minha voz, característica paterna em que, aí sim, meu irmão e eu somos gêmeos. E que seria meu trunfo no escuro do cinema, onde eu tinha duas horas para comovê-las, diverti-las, impressioná-las com palavras que meu irmão desconhece, fosse num filme da nouvelle vague ou nas comédias românticas da Metro. No fim da sessão as luzes da sala se acendiam gradualmente, o que sempre me dava a esperança de que elas se acostumassem aos poucos com a minha pele, meus esgares, que saíssem do cinema ainda impregnadas da minha voz profunda e não estranhassem o suor da minha mão na sua. Foi do Cine Majestic que levei para casa minha primeira ex do meu irmão, o que me dava o gosto de o estar chifrando um pouco. Foi também a primeira mulher na minha cama, pois até então eu só tinha trepado em randevus. Foi talvez a primeira mulher que fiz gozar, e muito, e demais, e com escândalo, me levando a desconfiar que com seus uivos pretendia chegar ao meu irmão onde quer que ele estivesse. Ao sair do meu quarto ela ficou se arrastando no corredor, espiando as lombadas dos livros, contemplando meu pai no escritório, depois na cozinha entabulou uma conversa interminável sobre culinária com a minha mãe, que preparava uma torta de morangos. Minha mãe não era boba, sabia muito bem o que prendia a farfallina, essas sirigaitas viviam por ali fazendo hora para ver se esbarravam com o Mimmo. Precavida contra o mau passo juvenil do marido, mamãe naturalmente fazia figas para esconjurar um neto a destempo. Mas no íntimo gabava-se do rodízio feminino no quarto do Mimmo, continha-se para não desfraldar no varal seus lençóis sangrados, sempre fingindo acreditar que vinham todas estudar o mapa-múndi com ele. Vez por outra apenas reclamava de ele trancar a porta, já que ela poderia ter de entrar numa emergência caso meu pai precisasse de um Cervantes, um Quevedo, um Calderón de la Barca. E por ser maternalmente justa, se pudesse dividiria a mulherada dele meio a meio com o irmão desfavorecido. Por isso não sei como se sentiria se soubesse que meu irmão, depois de um tempo restrito aos seus domínios, foi visto farejando as cercanias da rua Maria Antônia, onde eu fazia o cursinho para a faculdade de letras. Era um campo fértil para ele, não porque as letras remotamente o atraíssem, mas porque nessa área de humanas a proporção de fêmeas era de dez para um. Percebi quando ele deitou o olho na Maria Helena, e ela custou a crer quando a preveni que aquele tipo era meu irmão. E não entendeu por que eu não os apresentava, achou um absurdo dois irmãos não se falarem, ela que por ser filha única crescera conformada a falar sozinha. Mas não pensei que meu irmão fosse se engraçar com ela, pois só na minha classe havia mais de vinte supostas virgens, e a virgindade era uma etiqueta de que ele, bem ao contrário de mim, não abria mão. A Maria Helena eu dava por certo que já não o era, embora ainda não tivesse tirado a prova. Mas ela morava só com a mãe, não tinha hora para voltar para casa, bebia cerveja, era esguia, tinha a bunda alta, tinha um não sei quê, um jeito meio liberal de caminhar, de falar com as vogais abertas, fora que a Maria Helena é carioca e cariocas são notoriamente mais soltas. Não fazia portanto o gênero do meu irmão, eram comigo suas afinidades. Fui eu que lhe apresentei Céline e Camus, e em troca ela me emprestou um Henry Miller cheio de sacanagens. Com ela dava para ver Godard, Antonioni e Bergman sem ter de explicar os silêncios, a ela pedi segredo e revelei a história do meu irmão alemão. Eu até quis lhe mostrar em casa a carta de Anne, mas ela achou que era uma cantada muito barata e me mandou catar coquinho. Por um nada a Maria Helena se magoava comigo, no minuto seguinte planejava casamento e filhos, logo adiante emendava gargalhadas com surtos de cólera, quer dizer, era louca na medida para se apaixonar por mim. De mais a mais topava qualquer programa, até me acompanhou ao estádio do Pacaembu para ver o Pelé jogar. E nas árvores do bairro gostávamos de nos encostar tarde da noite para uns beijos de língua que eu só alcançava subindo um pouco nas raízes. Pensei que logo, logo a Maria Helena entregaria os pontos, mas levei tempo para apenas chupar seus peitos com sutiã, e ela uma vez segurou meu pau por cima da calça. Isso ocorreu mais ou menos na época em que meu irmão deu para assediar a rua Maria Antônia. A temperatura entre nós dois então só fazia aumentar, e quando insisti para que subisse comigo em casa, ela aceitou com a ressalva de que talvez ainda não estivesse pronta para tudo. Sim, era virgem, e a notícia me esmoreceu, ao mesmo tempo que reavivou meus piores temores, pois meu irmão continuava de tocaia à porta do cursinho. Da minha sala ele já tinha abatido cinco ou seis, inclusive a melhor aluna, que sempre me pareceu tão recatada. Era uma caipira até interessante com quem comecei a puxar conversa, um pouco para aporrinhar a Maria Helena, e na frente da Maria Helena eu a convidei para um cinema. Fomos ver O Anjo Exterminador, mas ela estava tímida demais, assistiu ao filme encolhida na cadeira e não achou graça nas minhas observações. E depois que lhe dei um tchau na saída do cinema, sem falar nada veio me seguindo de cabeça baixa, eu quase diria que com o rabo entre as pernas, a caminho de casa. Ouvi o arrastar de suas sandálias atrás de mim na rua Augusta, da avenida Paulista às ladeiras do Pacaembu, e da entrada de casa até meu quarto, onde se despiu sem pressa. Na cama, porém, de todas as antigas presas do meu irmão, a caipira se revelou a mais insaciável. A partir dessa noite extenuante passou a dar incertas lá em casa, a me procurar nos bares, e o caso acabou chegando aos ouvidos da Maria Helena. Mas eu não estava mais a fim de perder tempo com a Maria Helena, parti logo para cima de outra colega, e outra, e outra, se pudesse lamberia todas as mulheres que meu irmão teve na vida. Até que num fim de semana a Maria Helena me fez uma visita de improviso, com botas de cano alto e uma saia curta como eu só tinha visto em filme francês. Estremeci, por um segundo julguei que se vestia daquele jeito para ele. Mas não, me fez subir o primeiro degrau da escada, me deu um chupão no pescoço e falou de como estava ansiosa para conhecer meu quarto, queria até ver a famosa carta do meu irmão mexicano. Disse com voz rouca que agora sim estava decidida, queria que eu fosse o seu primeiro macho. Disse outras coisas do mesmo teor, mas naquele momento eu só reparava na coleção de teatro italiano na estante ao pé da escada. Começou a me incomodar, que nem quadro torto na parede, começou a me dar nos nervos uma lacuna acintosa na penúltima prateleira. Olha ali, falei para a Maria Helena, que olhou para trás e não viu nada de mais. E afinal não era mesmo nada grave, apenas um livro que fora retirado havia pouco, dentre dois volumes que agora se tocavam no topo e não na base, como dois amigos que se beijam sem se abraçar. Um tonto poderia até pensar que ali faltasse um livro pontiagudo, como um canino extraído de dentadura encavalada. A meu ver o ausente era um Pirandello, mas isso só minha mãe poderia tirar a limpo. Puxei a Maria Helena até a cozinha para lhe apresentar mamãe, que não lhe deu a mão porque naquele momento pressionava a massa na assadeira. Estava empenhada em dessa vez acertar o ponto para o marido, que apesar de apreciar suas tortas, depois de mangiá-las quase inteiras, sempre opinava que tinham ficado um pouquinho massudas. Era o que mamãe falava de si para si, primeiro porque também era filha única, segundo por perceber que a Maria Helena não lhe prestava atenção, estava longe dali. Foi quando ele se intrometeu na cozinha, meu irmão. Parou diante da Maria Helena e com a ponta do dedo levantou seu rosto pelo queixo, imitando ator de filme de caubói. Sempre de olho nela, pegou uma cerveja na geladeira, destampou-a no puxador de gaveta, serviu-se de um copo e lhe estendeu outro, com o braço roçando o meu nariz. Irritado, avisei a quem quisesse ouvir que ia comprar cigarros no Riviera, onde bebi três uísques nacionais sem gelo, fumei três cigarrilhas e vomitei no balcão. Desci a ladeira devagar, tornei a subir, desci de novo e tomei um susto com a Maria Helena, que por um triz não trombou comigo ao sair de casa. Chorava aos soluços, e quando me viu tapou o rosto, escapou dos meus braços e saiu correndo rua acima com a roupa troncha, o zíper lateral da minissaia deslocado para o meio da bunda. E mesmo assim desengonçada, naquele relance a desejei como nunca, tomei banho pensando na sua figura, não dormi pensando nela a noite inteira. De manhã escolhi um Flaubert para lhe dar de presente, não Madame Bovary, mas A Educação Sentimental. Acontece que a Maria Helena nunca mais apareceu no cursinho, só bem mais tarde eu soube que passou no vestibular de arquitetura. Ainda liguei para sua casa, onde a empregada toda vez falava que d. Maria Helena estava no banheiro. Lá pelo vigésimo telefonema quem atendeu foi sua mãe, para me rogar que não importunasse mais a garota. E um dia a Maria Helena mandou um chofer devolver quantidade de poetas franceses que eu tinha surrupiado de casa, de Baudelaire a Francis Ponge. Foi mamãe quem os recebeu, repôs em ordem e me fez jurar que de uma vez por todas largaria de mão os livros do meu pai. 



(O irmão alemão) 



(Ilustração: Anthony Christian – Reading)