terça-feira, 14 de abril de 2026
DIÁLOGO SOBRE A NATUREZA DO UNIVERSO, de Albert Einstein e Rabindranath Tagore
[...] duas conversas que poderiam ser facilmente classificadas como os maiores duelos intelectuais do século XX. Essa colisão épica de duas visões de mundo distintas começou no dia 14 de julho de 1930, quando o poeta, filósofo e prêmio Nobel de Literatura Rabindranath Tagore visitou Albert Einstein em Berlim. Durante o encontro, o seguinte diálogo foi registrado:
EINSTEIN: Existem duas concepções distintas sobre a natureza do universo: 1) o mundo como entidade dependente da humanidade e 2) o mundo como realidade independente do fator humano.
TAGORE: Quando o universo está em harmonia com o homem, o eterno, referido por nós como a Verdade, nós o experimentamos como beleza.
EINSTEIN: Essa é a concepção puramente humana do universo.
TAGORE: Não pode haver outro tipo de concepção. Este é um mundo humano – a visão científica dele também é a do homem científico. Existe um padrão de razão e prazer que nos dá a Verdade, o padrão do Homem Eterno cujas experiências são experimentadas pelas nossas experiências. EINSTEIN: Essa é a realização da entidade humana.
TAGORE: Sim, uma entidade eterna. Devemos percebê-la através das nossas emoções e atividades. Percebemos o Homem Supremo que não tem limitações individuais com as nossas próprias limitações. A ciência se preocupa com aquilo que não se restringe aos indivíduos; o mundo humano impessoal de verdades. A religião percebe essas verdades e as liga com as nossas necessidades mais profundas; a nossa consciência individual da Verdade ganha significância universal. A religião aplica valores para a Verdade, e nós reconhecemos esta Verdade como sendo boa por meio da nossa harmonia com ela.
EINSTEIN: A Verdade, então – ou a Beleza –, não é independente do homem?
TAGORE: Não.
EINSTEIN: Se não houvesse mais nenhum ser humano, o Apollo de Belvedere não seria mais belo.
TAGORE: Não.
EINSTEIN: Concordo no que diz respeito ao conceito de beleza, mas não com o que se refere à Verdade.
TAGORE: Por que não? A Verdade é percebida pelo homem.
EINSTEIN: Eu não posso provar que a minha concepção é verdadeira, mas essa é a minha religião.
TAGORE: A beleza é o ideal de perfeita harmonia que está presente no Ser Universal; a Verdade como a perfeita compreensão da Mente Universal. Nós, como indivíduos, a abordamos através de erros e enganos, através de experiências acumuladas, de consciência iluminada – como, de outra forma, reconheceríamos a Verdade?
EINSTEIN: Não posso provar cientificamente que a Verdade deve ser concebida como uma Verdade válida independentemente da humanidade; mas acredito nisso firmemente. Acredito, por exemplo, que o teorema de Pitágoras em estados geométricos é aproximadamente verdadeiro, independentemente da existência do homem. De qualquer forma, se existe uma realidade independente do homem, deve existir também uma Verdade relativa a essa realidade – e, da mesma forma, a negação da primeira levaria à negação da existência da segunda.
TAGORE: A Verdade, que é uma com o Ser Universal, deve essencialmente ser humana, de outra forma qualquer coisa que nós, indivíduos, percebemos como verdadeira não pode ser chamada de Verdade – pelo menos a Verdade que é descrita como científica e que somente pode ser alcançada pelo processo da lógica; em outras palavras, pelo órgão do pensamento (cérebro), que também é parte do ser humano. De acordo com a filosofia indiana, existe o Brahman, a Verdade absoluta, que não pode ser concebido pelo isolamento da mente individual nem descrito pelas palavras, somente pode ser experimentado com a completa imersão do indivíduo no seu infinito. E essa Verdade não pode pertencer à ciência. A natureza da Verdade que estamos discutindo é apenas uma aparência – quer dizer, aquilo que parece ser verdadeiro para a mente humana e, portanto, é humano e pode ser chamado maya, ou “ilusão”.
EINSTEIN: Assim, de acordo com a sua concepção, que pode ser considerada a concepção indiana, essa ilusão não é algo individual, mas da humanidade como um todo.
TAGORE: A espécie também pertence a uma unidade, à humanidade. Portanto, a mente humana coletiva percebe a Verdade; a mente indiana ou a europeia se encontram em uma percepção comum.
EINSTEIN: A palavra “espécie” é usada em alemão para descrever todos os seres humanos; na realidade, os símios e os sapos pertenceriam a ela também.
TAGORE: Na ciência, utilizamos o processo de eliminar as limitações da nossa mente individual para, então, alcançar a compreensão da Verdade que é a mente do Homem Universal.
EINSTEIN: O problema começa quando a Verdade independe da nossa consciência.
TAGORE: O que chamamos de “verdade” se encontra na harmonia racional entre os aspectos subjetivos e objetivos da realidade, e ambos pertencem ao homem superpessoal.
EINSTEIN: Mesmo na vida diária, nós nos sentimos compelidos a atribuir uma realidade independente do homem aos objetos que utilizamos. Fazemos isso para conectar as experiências dos nossos sentidos de forma razoável. Por exemplo, se ninguém se encontra nesta casa, a mesa permanece onde está.
TAGORE: Sim, ela permanece fora da mente individual, mas não da mente universal. A mesa que percebo é perceptível pelo mesmo tipo de consciência que eu possuo.
EINSTEIN: Contudo, se ninguém estivesse na casa, a mesa ainda existiria da mesma forma – e isso já é ilegítimo sobre o seu ponto de vista –, porque não podemos explicar o que significa que a mesa está lá, independente de nós. O nosso ponto de vista natural no que tange à existência de uma Verdade independente da humanidade não pode ser explicado ou provado, mas é uma crença que ninguém pode deixar de ter – nem mesmo seres primatas. Atribuímos a Verdade a uma objetividade superhumana; ela nos é indispensável, essa realidade independente da nossa existência e da nossa experiência e da nossa mente – embora não possamos dizer o que ela significa.
TAGORE: A ciência provou que a mesa como objeto sólido é uma aparência e, portanto, algo que a mente humana percebe como uma mesa não existiria se todas as mentes não existissem. Ao mesmo tempo, deve-se admitir que o fato de que a realidade física não passa de uma grade variedade de centros rotatórios de força elétrica também pertence à mente humana. Na compreensão da Verdade, existe um conflito eterno entre a mente universal e a mesma mente confinada em um indivíduo. O processo perpétuo de reconciliação está sendo executado pela nossa ciência, pela nossa filosofia e pela nossa ética. De qualquer forma, se existisse qualquer Verdade absolutamente dissociada da humanidade, para nós ela seria totalmente inexistente. Não é difícil imaginar uma mente em que a sequência das coisas acontece não no espaço, mas somente no tempo, como a sequência de notas de uma música. Para tal mente, essa concepção de realidade é semelhante à realidade musical na qual a geometria piTAGOREana não tem significado algum. Existe a realidade do papel, que é infinitamente diferente da realidade da literatura. Pois, para a mente de uma traça que come o papel, a literatura contida em uma folha é totalmente inexistente, enquanto para a mente do homem a literatura tem um valor muito maior de Verdade que o papel em que ela foi escrita. De forma similar, se existisse uma Verdade que não guardasse relação racional ou sensual com a mente humana, ela permaneceria sendo um nada irreconhecível enquanto formos seres humanos.
EINSTEIN: Então sou mais religioso que você.
TAGORE: A minha religião é a reconciliação do Homem Superpessoal, o espírito universal humano, no meu próprio ser.
Em um segundo encontro, no dia 19 de agosto de 1930, o diálogo extraordinário continuou:
TAGORE: Eu estava discutindo… Hoje as descobertas matemáticas, que nos dizem que, no mundo dos átomos infinitesimais, a chance tem o seu papel, o drama da existência não é predestinado de uma forma absoluta.
EINSTEIN: Os fatos que fazem com que a ciência se mova nessa direção não dizem adeus à causalidade.
TAGORE: Talvez não, mas parece que a ideia de causalidade não está nos elementos, e sim que outra força constrói com eles o universo organizado.
EINSTEIN: Tentamos entender como a ordem se estabelece no plano superior. A ordem está lá, onde os grandes elementos se combinam e guiam a existência; nos elementos diminutos, todavia, essa ordem não é perceptível.
TAGORE: Essa dualidade está na profundeza da existência – as contradições do impulso livre e o desejo direcionado que se impõem sobre ele e criam um esquema ordenado das coisas.
EINSTEIN: A física moderna não diz que eles são contraditórios. As nuvens parecem de uma forma a distância, mas, ao observá-las de perto, elas se apresentam como gotas de água desordenadas.
TAGORE: Identifico um paralelo na psicologia humana. As nossas paixões e os nossos desejos são indisciplinados, mas o nosso caráter submete esses elementos em um todo harmonioso. Seriam os elementos rebeldes, dinâmicos, com o impulso individual? Existe algum princípio no mundo físico que os domina e os coloca em uma organização estruturada?
EINSTEIN: Nem mesmo os elementos existem sem ordem estatística; os elementos do radium sempre mantêm a sua ordem específica, da mesma forma como o fizeram anteriormente. Existe, então, uma ordem estatística dos elementos.
TAGORE: Senão o drama da existência seria por demais desordenado. É a harmonia constante da chance e do determinismo que faz com que ela seja eternamente nova e vivível.
EINSTEIN: Acredito que tudo o que fazemos ou vivemos tem uma causa por trás; é melhor, todavia, que possamos olhar através dela.
(O Verdadeiro Criador de Tudo; Miguel Nicolelis)
(Ilustração: Rabindranath Tagore and Albert Einstein in 1930)
sábado, 11 de abril de 2026
UNS & OUTROS, de Waly Salomão
Onde solares e ilusão, fazendas, castelos, pastagens
Onde braceletes, carrões, piscinas azul-turquesa
Nada melhor de se mirar
Neste rico mundo — para uns.
Onde, para mim, é conjugar contigo o verbo AMAR,
MARTA,
E, os dois, incarnar as pessoas, os tempos e os modos deste verbo.
Em contente união.
Uns
Outros
Tenho dito a mim mesmo repetidas vezes:
"E foi para isso que tu, ó Poeta, ouviste os profetas
Do Oriente e os hinos dos Gregos
E ainda há pouco o roncar dos trovões, para colocares
O Espírito em uso servil e ultrapassares em escárnio
A presença do bom, e negares o simples,
Sem coração e em jogo mercenário
Tangê-lo como animal cativo?"
Tenho dito.
E foi para isso que aprendes de cor e salteado, que decoraste
Que gravaste no coração as baladas de Villon, o Vagabundo
E pregaste nas paredes as canções de amor de Safo?
Tenho dito.
Tenho dito e aqui repito.
Que sou nefelibata nato.
Que antanho me supus uma máscara inscrita: "GIGOLÔ DE BIBELÔS".
Que sempre serei surrupiador de souvenirs.
E é assim, Poeta, que te indefines?
Assim te desenrolas das peçonhas e as malhas de lei não podem te
pescar.
Quem és, afinal? A qual espécie de peixe pertences?
Um mero embaralhador de cartas.
Um mero embaralhador de cartas pousadas sobre o veludo da mesa
deste profuso cassino.
(Ilustração: Pablo Picasso - the poet)
quarta-feira, 8 de abril de 2026
ISSO É ARTE?, de Jardel Dias Cavalcanti
"Pós-tudo, ex-tudo, nada"
Augusto de Campos
Uma artista inglesa expôs e vendeu a uma galeria, por 350 mil dólares, a cama onde ela passou a noite trepando e onde havia várias camisinhas usadas. Isso é arte?
O artista belga Win Delvoye enviou para a Bienal de Veneza uma lata contendo seu cocô. A obra foi denominada "Merda do artista". No ano seguinte, ele industrializou o processo, criando, com um projeto de 200 mil dólares, uma engenhoca que fabrica merda, vendendo cada latinha dessa merda por 1.000 dólares. Em 2002 uma dessas latinhas foi comprada pela Tate Galery por quase um milhão de libras. Isso é cocô, quer dizer, isso é arte?
Vito Aconti, ex-marido de Marina Abramovic montou numa galeria uma instalação chamada Seedbed, que consistia em que ele ficasse sobre um estrado se masturbando durante oito horas por dia, durante duas semanas, dizendo em voz alta todas as fantasias que os assistentes lhe despertavam. Arte?
Haggens descobriu um método de plastificar os cadáveres e realizou algumas exposições com esses seres mortos que passaram por esse processo (pós-moderno) de mumificação. Aí havia gente com o ventre aberto, fetos, animais pela metade, enfim, aquilo que se chama de "museu de horrores".
Na Feira Internacional de Arte Contemporânea, em Paris, em 1975, a performance de Herman Nitsch, patrocinada pela galeria Rodolf Stadler, consistia numa série de missas negras. Resultado: no dia seguinte ainda havia 2 cm de sangue sobre os 250 metros da galeria.
Marina Abramovic, em 1972, apresentou a obra Ritmo 0, que consistiu em ficar parada junto a uma mesa sobre a qual havia alguns objetos: uma arma, um machado, mel, tinta, perfume, batom, azeite, etc. Ela ficava ali exposta e à disposição dos expectadores que tinham num cartaz orientação de como atuar naquela obra de arte: "há 72 objetos sobre a mesa que podem ser usados em mim conforme desejado. Eu sou o objeto". Como noticiou a imprensa, "seis horas depois suas roupas haviam sido rasgadas e a arma tinha sido apontada para sua cabeça". Assim ela apenas radicalizou outra performance quando, certa feita, passou 12 dias na Sean Kelly Galery totalmente exposta à curiosidade do público enquanto passantes, bêbados, operários curiosos viam todas as suas intimidades.
Esses são apenas alguns dos exemplos das dezenas de obras de "arte contemporânea" que têm seu estatuto de valor estético questionado por Affonso Romano de Sant'Anna no seu ousado livro Desconstruir Duchamp: arte na hora da revisão. A partir da grande receptividade de um artigo publicado no jornal O Globo, no ano de 2001, denominado "Arte ― um equívoco alarmante", Sant'Anna acabou escrevendo mais 50 artigos. Eles são saborosos de se ler, instigantes na suas argumentações e ousados em suas proposições sobre os rumos da arte atual.
O livro dá o diagnóstico: a arte meteu-se num grande imbróglio. Os culpados: Duchamp e uma legião de curadores, leiloeiros, marchands e galeristas que decidem o que é arte e o que tem valor enquanto tal. Pouco resta aos críticos, ensaístas e historiadores da arte, condenados ao silêncio e ao temor da contestação à ordem artística vigente.
E ao artista resta alguma decisão? Quantos artistas não estão traumatizados, paralisados, congelados de medo diante do desejo de pintar figuras, como se os talibãs os fossem pegar em flagrante?, questiona Sant'Anna.
Mas, diz o autor, é preciso começar a contestar os próprios contestadores que, de um momento para outro, se petrificaram, se academizaram, se midiatizaram. Segundo seu diagnóstico, Duchamp deu um xeque-mate na arte há quase 100 anos e, desde então, ela ficou paralisada, prisioneira de sua própria revolução. E é Duchamp, pai da arte conceitual, e seus correligionários, os alvos principais dos ataques de Sant'Anna.
Afinal, não foi o próprio abusado Duchamp que dizia que seus seguidores haviam se tornado vítimas de sua própria artimanha? "Joguei o urinol na cara deles como desafio e agora eles o admiram como um objeto de arte por sua beleza estética".
"Embora o urinol tivesse desaparecido daquela exposição em Nova York, para onde Duchamp o enviou, ele começou a produzir cópias de seu urinol, a assiná-las para diversos museus para inseri-las no sistema artístico que condenara. Só em 1964 autenticou oito outras peças semelhantes, caindo na repetição que tantas vezes condenou. O anti-artista virou artista, a anti-arte, arte. O feitiço virou contra o feiticeiro. O contestador sucumbiu à cultura do mercado. E, no final da década de 90, a Tate Gallery de Londres comprou uma das cópias por quase um milhão de libras", diz Sant'Anna.
Pensar Duchamp através de suas próprias problematizações é desconstruir o desconstrutor. O livro se encarrega dessa tarefa blasfema com muita propriedade.
O urinol nos revelou que todos podemos ser artistas, basta termos a atitude de escolher um objeto qualquer e denominá-lo arte. O trabalho braçal teve dessa forma seus dias contados (técnica para quê?). O que interessa é a receita, não o bolo. Interessa o conceito, não o fazer. Dessa forma tudo pode ser arte... se assim o quisermos.
Se tudo é arte, nada é arte. Se uma gosma espermática ou um bule velho de café podem ser arte, qualquer leigo, sem o mínimo talento para a arte, poderia se perguntar: por que não eu também? Calma lá, tudo bem que democratizamos o "talento", mas nem todos podem ser chamados de "artistas". Apenas os que o sistema artístico, composto por leiloeiros, curadores, galeristas e divulgadores (não críticos de arte), amparados numa estratégia de marketing que renderá milhares dólares, decidir chamar de artista será artista. Estes produzirão o que veremos nas Bienais distribuídas pelo mundo afora.
Interrogações: quem nunca sentiu uma enorme insatisfação, um tremendo vazio, diante de uma coleção de obras "contemporâneas" expostas nas mais famosas galerias e bienais de arte do mundo? Quem nunca sentiu que ali não havia grande coisa para se apreciar ou que desse o que pensar? Quem é que após estar diante da presença arrebatadora da pintura de um Edward Munch, de um Francis Bacon (participantes anos atrás da Bienal de São Paulo na seção "histórica"), quem é que num momento desse não percorreu a Bienal com tremendo desgosto pelo que era ali exposto como o melhor da criação "contemporânea" (arte é contemporânea? Goya e Rembrandt são apenas o passado, ou o presente e o futuro também?). Não seria, pensamos, uma covardia expor esses gigantes diante das míseras expressões artísticas contemporâneas? Aliás, a curadora da próxima Bienal de São Paulo já se encarregou de desfazer essa humilhação, retirando o "núcleo histórico" da próxima exposição.
Segundo Sant'Anna "a melhor homenagem que podemos fazer aos mestres contestadores de ontem é contestá-los hoje. Não para que a arte volte ao passado, mas para que ela se possibilite um futuro".
Por isso, "é preciso estar maduro para o passado", vaticina Sant'Anna. Se não... que futuro teremos?
(Digestivo cultural – blog)
(Ilustração: Alyssa Monks)
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domingo, 5 de abril de 2026
FINJO-ME ESFINGE, de Líria Porto
meia lua meu amor
é tua
a outra metade
guardei-a para o compadre
que me beija a boca
quando chegas tarde
da casa da outra
(Escritoras suicidas)
(Ilustração: escultura de Javier Marín)
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quinta-feira, 2 de abril de 2026
NO PRINCÍPIO…, de Miguel Nicolelis
No princípio,
O Verdadeiro Criador de Tudo proclamou:
Que haja luz.
Depois de um breve silêncio,
Ele, então, decretou:
E que ela seja E = mc2.
No princípio, havia apenas um cérebro de primata. E de suas profundezas, graças às misteriosas tempestades eletromagnéticas – originárias de um emaranhado de dezenas de bilhões de neurônios moldado por uma tão inédita quanto única caminhada evolucionária –, a mente humana emergiu. Ilimitada, irrestrita, imensa. Envolto em uma interminável combustão e expansão, esse novo tipo de plasma neural, nunca antes visto no universo, logo se fundiu em um contínuo. Dessa amálgama surgiu o andar ereto, a destreza manual, a linguagem oral, a escrita, a capacidade de formar enormes entrelaçamentos sociais, o pensamento abstrato, as mais variadas ferramentas e tecnologias, a introspecção, a consciência e, enfim, o livre-arbítrio. Desse mesmo caldeirão mental eclodiu também a mais concreta definição de espaço tempo já concebida por qualquer matéria orgânica. E, então, do bojo desse perfeito arcabouço, foi possível gerar um verdadeiro dilúvio de abstrações mentais que, quando projetado em direção ao universo que nos cerca, deu origem às verdadeiras tábuas sagradas da condição humana. Prova disso é que, tão logo foram enunciadas, essas abstrações começaram a ditar a essência e o fulcro de todas as civilizações: do nosso egoístico senso de ser às nossas mais preciosas crenças e mitos; dos mais sofisticados sistemas econômicos às mais convolutas estruturas políticas; das mais exuberantes obras de arte às mais perenes edificações, que incluíram a mais completa reconstrução científica de tudo o que circunda a todos nós. Foi assim, então, que do meio dessas tempestades eletromagnéticas neurais, surgiu o magnífico escultor da realidade, o virtuoso compositor e mestre arquiteto da nossa tão trágica, mas, ainda assim, tão heroica trajetória; o curioso explorador da natureza, o incansável perseguidor de suas próprias origens; o mestre ilusionista, o místico de muitas crenças, o artista de muitos talentos; o poeta lírico que compôs, com suas inigualáveis rimas sinápticas, cada pensamento, cada grunhido, cada registro falado, cantado ou escrito, cada mito, cada pintura rupestre, cada deus, cada teorema matemático, cada viagem ao desconhecido, cada genocídio; todas as conquistas, assim como todos os fracassos; cada gesto de amor, cada sonho, cada alucinação; cada sensação e cada sentimento, concebido ou experimentado, por todo e qualquer hominídeo que um dia vagou pela superfície da esfera azul que o Verdadeiro Criador de Tudo decidiu chamar de Terra.
(O verdadeiro criador de tudo)
(Ilustração: Mithran Samuel - Artistic brain image)
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segunda-feira, 30 de março de 2026
DAME LA MANO / DÁ-ME ESSA MÃO, de Gabriela Mistral
Dame la mano y danzaremos;
dame la mano y me amarás.
Como una sola flor seremos,
como una flor, y nada más...
El mismo verso cantaremos,
al mismo paso bailarás.
Como una espiga ondularemos,
como una espiga, y nada más.
Te llamas Rosa y yo Esperanza;
pero tu nombre olvidarás,
porque seremos una danza
en la colina y nada más...
Tradução de Fernando Pinto do Amaral:
Dá-me essa mão e dançaremos;
dá-me essa mão e amar-me-ás.
Como uma só flor nós seremos,
como uma flor e nada mais.
O mesmo verso cantaremos
e ao mesmo ritmo dançarás.
Como uma espiga ondularemos,
como uma espiga e nada mais.
Chamas-te Rosa e eu Esperança;
mas o teu nome esquecerás,
Porque seremos uma dança
sobre a colina e nada mais.
(Antologia poética Gabriela Mistral. Lisboa, 2002)
(Ilustração : Pierre-Auguste Renoir - Danse à la ville; City Dance)
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sexta-feira, 27 de março de 2026
QUANDO DITADURA IMPEDIU VIADO DE DAR?, de Amara Moira
Ditadura. E quando é que ditadura impediu viado de dar? Acha que elas eram mais apertadas, mais comportadinhas?
Bicha, não tinha HIV, travesti era a novidade: polícia podia ser uó (quer dizer, todo mundo olhando, óvio que faziam a podre, só que sem ninguém ver, afe), mas se teve uma época que a gente reinou, foi essa. Reinou assim, né, entre aspas: travesti cê sabe como gooxta de um exagero. Porque era Rogéria pra cá, Roberta Close pra lá, Thelma Lipp, aí entrevista na tevê, programa da Hebe, o Chacrinha, Clube do Bolinha, as musas cada dia capa de uma revista nova (e eu tô nem falando das pornôs, não, pensei logo é numa Manchete, uma Contigo, a Veja).
Fora que, anos 70, 80, ninguém conhecia travesti de perto, mona, curiosidade a mil, todo mundo querendo saber, ver, querendo provar. Travequeiro? Que que era igual mato nada! Mas, em compensação, era cada homão que aparecia, cada pai de família, vários cem por cento virgem de travesti. Guarda! Dava pra ver que eles eram virgem, eles tremiam, sabiam nem o que fazer com a mão. A glória era sair com um desses. A glória e a desgraça, porque a bicha, pra se apaixonar ali, de cara, era batata. Desejada como se fosse mulher, sonho de toda travesti que se preze.
Não é pra qualquer uma, lógico: apenas as mais belíssimas sabem o que é frequentar um restaurante grão-fino, entrar com o ocó de mão dada, ele com um puta tesão do tanto de olhares que você atrai. Travesti jamé que vai passar batida, ainda mais num lugar desses! E aí ele lá com tesão, mas também a tensão, medinho, porque pra ele fazer isso a bicha tem que ser muito da passável, aquelas que não tem quem diga que ela não é mulher, só que essas mais mapozadas, mesmo elas sempre tem ali alguém que, do nada, uma fulana amiga de infância da sua mãe, mais de década que ela não te vê, mas ela tá lá comendo e é só ver você entrar, já vem com — égua, Simon, como cê tá mudado! Bicha, meio do restaurante, todo mundo ouvindo. Não é de propósito? Cê acha!
Recalque puro, mapôs, elas não suportam ver a gente bem, a gente com os boys magia que elas nunquinha vão chegar nem perto. Perto da gente, que que elas são? Umas feias, umas pavorosas. Não sabem se arrumar, maquiar. Uó. Deus deu pra elas tudo, mão beijada, mas elas não aproveitam, parecem umas mindingas quando saem. Podem até ter dinheiro, mas poucas viram uma Gisele Bündchen. Já travesti é o contrário, raras são as desleixadas, as que tão se lixando. Parece que a gente nasce com essa vontade de ser a mais feminina em tudo, cê vai em qualquer rua onde as bichas tão batalhando e vai catar várias que são tão belas, se não mais, que a própria Roberta Close.
Aí as rachas, quando veem uma travesti se dando bem, monopolizando olhares, pronto, elas têm porque têm que contar. A língua coça. Daí a coisa espalha que é uma beleza. Eu tenho um ódio! Cuidado com mal-amada, mona: elas e as gays enrustidas são as piores raças pra travesti! A gente gosta de uma atenção, gosta de ser olhada. O prazer de sentir ocós te comendo com os olhos, devorando, sem fazer ideia que você é trava, as dondocas se cortando de inveja, desesperadas atrás de qualcosa pra te chamar de bruta e cadê? Ops, não tem. A gente quando se produz não tem pra mapô nenhuma — ninguém ama a beleza como uma travesti.
Mas era a época braba, né? Ditadura ditadura mesmo. Hoje é dizerem o nome de ocó, chamarem no masculino, pronto, ai meu Deus, a bicha já acha que vai morrer. Lá atrás não, o risco era de agressão, mutilação, ser presa, risco mesmo de vida. A violência na rua era babado. Sair de travesti de dia, só se ela passasse muito amapô, senão o caminhão do Faustão pintava e ia é levando uma por uma. Destino: a delegacia, pra ela ser estuprada lá pelos lacos ou, então, servir de empregada pros alibãs. Fosse menor, aí era Febem, mãe tendo que ir lá te tirar depois.
Dessa época quase que nem peguei, só que era assim, sim. Sei pelo que as antigas diziam. Mas eu, interiorzão do Brasil, cafundó, cafundó mesmo, a cidadezinha ó o tamanho, um ovo, quem que te disse que ditadura ia chegar lá? Vim ouvir falar disso era o colegial já, quando voltamo a morar com o papai. Ditadura acabou era o quê? Seu ano, jura? Bem quando o HIV dava as caras. Égua, bicha não tem um minuto de paz!
(Neca – romance em bajubá)
(Ilustração: Carlos Barahona Possollo)
terça-feira, 24 de março de 2026
INTIMIDADE, de Colombina (Y de (Adelaide) Schloenbach Blumenschein)
Toda alcova em penumbra. Em desalinho o leito,
onde, nus, o meu corpo e o teu corpo, estirados,
na fadiga que vem do gozo satisfeito,
descansam do prazer, felizes, irmanados.
Tendo a minha cabeça encostada ao teu peito,
e, acariciando os meus cabelos desmanchados,
és tão meu... sou tão tua. Ainda sob o efeito
da louca embriaguez dos momentos passados.
Porém, na tua carne insaciável, ardente,
o desejo reacende, estua... e, de repente,
dos meus seios em flor beijas a rósea ponta...
E se unem outra vez a lúbrica bacante
do meu ser e o teu sexo impávido, possante,
na comunhão sensual das delícias sem conta...
(Ilustração: Jack Vettriano - the perfectionist)
sábado, 21 de março de 2026
O EROTISMO NA LITERATURA FEMININA DO INÍCIO DO SÉCULO XX - DA SUBMISSÃO AO DESAFIO AO CÂNONE, de Nelly Novaes Coelho
“As transformações, universalmente conhecidas do comportamento erótico dos jovens, indicam a decomposição do indivíduo, que não tem mais a força necessária para a paixão – a força interior da libido – e muito menos precisa dela, de um lado porque a organização social que a integra encarrega-se de afastar os interditos, que antigamente inflamavam as paixões; e de outro, porque transfere o controle (de suas pulsões) para o próprio indivíduo, que deve adaptar-se (à nova ordem/desordem) a qualquer preço.” (Adorno, A Dialética Negativa)
Essa constatação de Adorno acerca da sexofilia (fruição desordenada, promíscua e aleatória do sexo) que é uma das marcas de nosso tempo, em reação contra a sexofobia (interdito ao sexo) dos tempos de ontem, toca num dos principais nervos (se não o principal) dos movimentos feministas e da literatura feminina contemporânea: o desafio à interdição ao sexo.
Em um momento de fundas crises mundiais (ou planetárias?), como este que atravessamos, que interesse poderia haver em questões aparentemente secundárias, como literatura feminina, sexo interdito ou livre e poesia? Nenhum, se tais fenômenos forem encarados como puro entretenimento ou isoladamente, cada qual como coisa-em-si, desligados do contexto em que surgiram. Mas, se vistos pelo prisma de acontecimentos visceralmente ligados ao evoluir da história, da cultura ou da nossa consciência-de-mundo em contínua transformação, eles se revelam como essenciais.
É nessa ordem de ideias que propomos aqui a leitura de certas vozes poéticas femininas que, no início de século XX, pioneiramente, se assumiram como transgressoras do cânone fundante da civilização cristã-burguesa: o interdito ao sexo. Ao rastrearmos os motivos dessa transgressão e as formas poéticas pelas quais ela se deu, possivelmente compreenderemos melhor o porquê dessa onda de sexofilia que hoje avassala o mundo ocidental.
Referimo-nos às vozes de: Colombina (S. Paulo); Gabriela Mistral (Chile); GiLka Machado (Rio de Janeiro); Juana de Ibarbourou (Uruguay); e Florbela Espanca (Portugal). Todas elas contemporâneas e que estrearam em livro nos anos 10. Como se vê, são vozes de diferentes continentes e diferentes estágios de cultura, mas identificadas entre si (mesmo sem se conhecerem umas às outras) por um denominador comum: a imagem ideal de mulher (pura, submissa ao poder do homem) que está na base da civilização herdada e cujo modelo foi criado na Idade Média, durante o grande movimento espiritualizador realizado pela Igreja. “Modelo” que no Renascimento se transformou na imagem da “amada pura e inacessível” e do Amor visto como valor absoluto, tal como vivido na poesia (Dante, Petrarca, Camões…). Modelo que se impôs até meados da Era Romântica, quando o avanço da Ciência veio pôr em questão a própria existência de Deus e roubou do homem a sua origem divina, como “filho de Deus” … É o momento (meados do século XIX) em que o homem de “alma” vira “lama”. Amputado de sua transcendência, que sentido tinham os interditos aos “apetites baixos”? que significado teria o “pecado” se já não havia Céu para os bons e Inferno para os maus? Se o homem era pura matéria, que sentido tinha abster-se dos “gozos carnais”, para preservação da pureza da alma?
Claro está que tais perguntas não foram feitas de imediato com tal objetividade. As novas ideias sempre se propagam devagar, como uma espécie de fumaça ou atmosfera que se vai imiscuindo pelos interstícios das certezas já consagradas. Assim aconteceu com as poetas aqui em causa: o desafio primeiro que todas elas lançaram ao “interdito ao pecado da carne” foi o de assumir o pecado, como um mal ao qual era impossível resistir. Para avaliarmos melhor o grau de coragem e ousadia da transgressão assumida pelas poetas aqui em causa, comecemos pelo contexto social e cultural a que elas pertenciam.
Nascidas no apagar das luzes do século XIX, Colombina, Gabriela, Gilka, Juana e Florbela surgiram num momento em que a poesia feminina era vista como o “sorriso da sociedade”, - rótulo dado pela crítica à poesia lírico-pueril então em moda nos salões e revistas culturais. Poesia que cantava a convencional graça feminina, ingênua e casta, lamentos de amor não correspondidos etc. Criticando a mesmice dessa poesia, o crítico argentino, José Bariel, escreve, em 1921: “(Essa poesia) não conhece outro mundo senão o dos amores, […] e está constituída por um íntimo horror contra a expressão da vida real e comum, ou chamar as coisas por seus nomes. Obedientes unicamente a sua infantil imaginação e a essa atitude espiritual do subjetivismo puro, no qual a complexidade da vida real cede ao simplismo da ficção, todas elas imaginam a mesma coisa, todas expressam os mesmos sentimentos e convergem para os mesmos motivos, formas, frases, locuções e termos.” (El Hogar n° 588)
É contra o panorama dessa “mesmice” (resultante da pacífica submissão da mulher aos cânones que a sociedade lhe impunha), que vão se fazer ouvir as primeiras vozes transgressoras, - as que expressam um eu que se busca como dono de sua própria verdade. Afinal, o que disseram elas? Comecemos com Colombina, seguindo a ordem cronológica de publicação dos livros de cada uma delas.
COLOMBINA (pseud. de Yde S. Blumenschein. São Paulo, 1882-1963) - Vislumbres. 1908.
Personalidade de grande agudez intelectual e sólida formação cultural (estudou na Alemanha e dominava várias línguas, - algo insólito para as mulheres da época), Colombina desde a adolescência revelou-se poeta e teve seus poemas divulgados pela imprensa. Em sua palavra poética, se fundia a preocupação formal parnasiana com o decadentismo finissecular e a paixão dos sentidos ultrarromântica. Sua principal temática é o erotismo, - o tema tabu da sociedade tradicional. Foi duramente discriminada pela crítica que, de modo geral, confundia obra e vida do autor e, nesse caso, não podia admitir que uma mulher “séria” assumisse tais paixões. Tal combate não a intimidou e a levou a fazer da poesia sua “bandeira de resistência” à opressão do meio. Teve grandes amigos e inimigos. Admirada por companheiros de geração (Martins Fontes, Vicente de Carvalho, Olavo Bilac…), recebeu o apelido de “Cigarra do Planalto”. O seu talento venceu. Em seu livro de estreia, a paixão explode em sangue, fogo, veneno, febre e morte. Explosão absolutamente insólita na poesia da época.
No sanguíneo cristal dos teus lábios ardentes
a paixão esbraveja em rubra labareda:
é a taça que contém um filtro que embebeda
e oculta no seu mel venenos inclementes.
[…]
Meus lábios quero unir aos teus lábios em febre,
mas, cuidado, por Deus! que a taça não se quebre,
e possas me beijar mesmo depois de morta! (Vislumbres.1908)
O texto fala por si. Quanto à relação Amor e Morte (de fundas raízes míticas: Eros/Tanatos) é um dos grandes temas da poesia amorosa. Nos anos subsequentes, coincidindo com os tempos de guerra, Colombina silenciará em livro. Só em 1930, volta a aparecer com Versos em lá menor, e até sua morte, prossegue escrevendo e publicando uma dezena de livros, sempre dando voz ao amor e à paixão dos sentidos.
GABRIELA MISTRAL (pseud.de Lucila Godoy y Alcayaga. Chile, 1889-1957) - Sonetos de la muerte. 1915.
Figura que se tornou quase lendária na América do Sul, Gabriela Mistral levou uma vida praticamente errante, imposta pela carreira diplomática e sua obstinada luta em defesa da Educação e dos direitos humanos. Foi a primeira mulher sul-americana a receber o Prêmio Nobel (1945), ocasião em que foi consagrada como o “mais alto nome da poesia feminina em língua espanhola”.
Desde adolescente entregou-se a uma vida de ação, notabilizando-se por sua preocupação com a americanidade; por seu trabalho revolucionário no âmbito da educação feminina. Seu universo poético é dinamizado por duas interrogações básicas: qual o verdadeiro lugar da mulher em um mundo que afundava, por ter perdido sua ordem, seu centro? E qual a verdadeira identidade dos povos sul-americanos, solapados pela cultura europeia? Coerente com seus ideais, sua poesia exalta duas faces da mulher: a mater familiae, procriadora, protetora, responsável pela continuidade da humanidade e pela harmonia e equilíbrio da família; e a mulher apaixonada, entregue ao amor como um destino superior, luminoso, avassalante, mas trágico porque irremediavelmente condenado à morte.
Amo Amor
Anda libre en el surco, bate el ala en el viento
Late vivo en el sol y se prende al pinar.
No te vale olvidarlo como al mal pensamiento:
¡lo tendrás que escuchar!
Habla lengua de bronce y habla lengua de ave;
ruegos tímidos, imperativos de mar.
No te vale ponerle gesto audaz, ceño grave:
¡lo tendrás que hospedar!
[…]
Te ofrece el brazo cálido, no le saves huir.
Echa a andar, tú le sigues hechizada aunque vieras
¡que eso es para morir!
Em Gabriela Mistral, o Amor essencial, autêntico, amor-paixão que arraiga nas profundezas do ser erótico, está indissoluvelmente ligado à Morte.
GILKA MACHADO (Rio de Janeiro, 1893-1980) - Cristais partidos. 1915.
Voz feminina de alta categoria poética, Gilka Machado está entre as mulheres que, durante o tempo em que construíram suas obras, não tiveram o justo reconhecimento de seu valor. Felizmente, o fato de ter alcançado a idade de 87 anos, permitiu-lhe conhecer em vida a consagração dos meios oficiais. De família de poetas, músicos e artistas, Gilka Machado revelou muito cedo sua atração pela poesia. Estreia em livro, com Cristais partidos, poesia que expressa o sincretismo finissecular (fusão de parnasianismo, decadentismo e esteticismo d’annunziano), e a ousada temática do desejo erótico ou de desafio ao “interdito ao sexo”, mas sempre em conflito com uma funda ânsia de pureza. É em Gilka Machado que se expressa com mais evidência o conflito entre o “pecado” e o desejo de “pureza”, - impulsos que a tradição estigmatizara como contraditórios e excludentes.
Que gozo sentir-me em plena liberdade
longe do jugo atroz dos homens e da ronda
da velha Sociedade.
- a messalina hedionda
que, da vida no eterno carnaval,
se exibe fantasiada de vestal!
[…]
Esta alma que carrego amarrada, tolhida
num corpo exausto e abjeto,
há tanto acostumado a pertencer à vida
como um traste qualquer, como um simples objeto,
sem gozo, sem conforto,
indiferente como um corpo morto,
[…]
Quando longe de ti, solitária, medito
neste afeto pagão que envergonhada oculto
vêm-me às narinas, logo, o perfume esquisito
que teu corpo desprende e há no teu próprio vulto.
A febril confissão deste afeto infinito
há muito que, medrosa, em meus lábios sepulto,
pois teu lascivo olhar, em mim pregado, fito,
à minha castidade é como que um insulto.
O texto fala por si, revelando Gilka Machado como das mais importantes pioneiras que se insurgiram contra o interdito ao corpo, que era a base da moral social (e hoje, transgredido, é um dos mais fortes fatores da desagregação social… todo radicalismo é nefasto, embora inevitável em certo momentos).
JUANA DE IBARBOUROU (Uruguai, 1895-1979) - Lenguas de diamante. 1919.
Tocada pelas mesmas forças conflitantes (dentre as quais avultam as novas ideias naturalistas-positivistas, com sua ênfase na materialidade), a uruguaia Juana de Ibarbourou foi uma das grandes vozes da poesia latino-americana da primeira metade do século XX. Quando ela surgiu, a literatura uruguaia vivia um momento de estagnação: o romantismo se esgotara e o decadentismo expirara. Nesse contexto decadente, a poesia dionisíaca de Juana explode como uma nova força da natureza e é, de imediato, acolhida como a voz inovadora que se fazia necessária.
Movida pelos ventos “mundonovistas” que começavam a soprar na América, Juana se entrega à sedução cósmica da natureza, ou melhor, da terra americana, e com ela se identifica.
Mi cuerpo está impregnado del aroma / de lo pastos
maduros. Mi cabello sombroso / Esparce, al destrenzarlo,
olor a sol y a heno. […] Cierva y can, astro y flor /
Agua viva que glisa a tus pies. / Fluí / para ti. Bêbeme.
El cristal / Envidia lo claro de mi manantial.
Em seu universo predomina a sensual euforia de ser a mulher amada, - refúgio, emoção, âncora -, tal qual a terra-mãe. Mas, como sombra que pesa sobre essa mulher luminosa, aflora em sua poesia o pessimismo bíblico: “Lembra-te, ó homem, de que és pó e ao pó hás de voltar.” Daí ela dizer ao amado: “No codicies mi boca. Mi boca es de ceniza. […] No me oprimas las manos. Son de polvo. Y al estrecharlas tocas comida de gusanos.”
Fusão eu-natureza, sentimento de plenitude cósmica ensombrada pela ideia da morte… são alguns dos motivos maiores da poesia de Juana de Ibarbourou, que ficaram na memória latino-americana, como alta expressão da busca de um novo sentido para a vida humana…
FLORBELA ESPANCA (Portugal, 1894-1930) - Livro de mágoas. 1919.
Poeta de desmesurada sensibilidade e sensualidade narcisista, Florbela Espanca está entre aquelas (e aqueles) que não chegaram a ter em vida o reconhecimento público de seu valor. Por acaso, posta aqui em seguida a Juana de Ibarbourou, a poesia de Florbela chama a atenção para inúmeros pontos de contato com a da uruguaia. A começar pelo ano de estreia (1919) e também pela mesma atração pela natureza e o mesmo impulso narcísico que as singulariza. Entretanto, enquanto em Juana vai predominar a plenitude solar, em Florbela predomina o sentimento finissecular da dor, do sofrimento e da frustração existencial. Em seu livro de estreia, já se expressa a visão-de-mundo que a alimentava:
Este livro é de mágoas. Desgraçados / Que no mundo passais,
chorai ao lê-lo! / Somente a vossa dor de Torturados / Pode
talvez senti-lo e… compreendê-lo.
Nos rastros do narcisismo magoado de Antônio Nobre e do decadentismo crepuscular, a criação poética florbeliana vai transformando a mágoa, a dor, o sofrimento de viver, numa verdadeira liturgia da paixão, na qual o eu é o centro, que se quer ponto de convergência do mundo, mas continuamente frustrado, em seu desejo ou necessidade.
Sonho que sou a Poetisa eleita, / Aquela que diz tudo e tudo
sabe, […] Sonho que sou Alguém cá neste mundo… / Aquela
de saber vasto e profundo, / Aos pés de quem a terra anda
curvada! […] Eu sou a que no mundo anda perdida / Eu
sou a que na vida não tem norte […] Sou aquela que passa
e ninguém vê […] Sou talvez a visão que Alguém sonhou,/
Alguém que veio ao mundo p’ra me ver / E que nunca na vida
me encontrou.
“Narcisismo, donjuanismo, hermafroditismo” (José Régio) são os rótulos que têm definido a poética de Florbela. Na verdade, nela podemos ver a mais clara expressão da “mulher fatal”: a que se ama no amor que o amante tem por ela, - a do eu que seduz o outro, para neste encontrar a sua própria imagem sendo amada. A poesia de Florbela expressa, em essência, a paixão que ela nutria por si mesma e a dor de não ser reconhecida em sua grandeza. E a tal ponto foi essa paixão que, vendo frustrados os caminhos de realização dessa ânsia, desiste de viver e se suicida. Sua poesia é daquelas em que a psique do poeta é a própria matéria poética.
Este breve percurso pela poesia das primeiras transgressoras do cânone-base da sociedade tradicional pretendeu chamar a atenção para a natureza existencial dessa transgressão. E, por decorrência, levar a descobrir que a revolução sexual, hoje em curso no mundo, tem raízes bem mais profundas do que pode parecer, quando vista apenas pela ótica espetacular dos multimídias. Há uma “mística do corpo” que é preciso redescobrir, e que vai além da performance.
O “Interdito ao sexo” decretado pela Igreja, desde a Idade Média, e que regulamentou durante séculos as relações homem-mulher, acabou por criar uma nova ordem político-econômico-social que tinha na “família” um dos seus motores ou sustentáculos principais. Claro está que a civilização progressista e brilhante que, ao longo do séculos, se construiu sobre esse “sustentáculo”, ao entrar no século XX já começara a se deteriorar, pois o “homem”, que ela havia engendrado, deu tão certo que já não cabia (e não cabe) nos seus naturais limites. Daí o caos. Um novo homem e uma nova cultura entram em gestação.
A liberação das forças eróticas – poderosa força criadora - provoca a revolução sexual, hoje em processo. E assim como a grande poesia amorosa de um Dante, um Petrarca, um Camões… no passado difundiu o interdito ao sexo, ou melhor, o ideal da Amada pura e inacessível e o Amor como valor existencial absoluto (o único que levaria à plena realização do ser), também a poesia do nosso tempo, em suas mil diferentes faces, ajudará a compor amanhã o mosaico de vivências (eróticas ou não), fruídas hoje, e que um dia revelarão a nova ordem que se imporá às relações homem-mulher, no sentido não só de alcançarem a plenitude existencial, mas também darem continuidade a uma humanidade feliz… Uma felicidade fecunda e duradoura que a sexofilia atual, descartável, não está dando…
(Ilustração: escultura de Hans Bellmer: the doll; 1934)
quarta-feira, 18 de março de 2026
POEMA, de Noémia de Sousa
Bates-me e ameaças-me
Agora que levantei minha cabeça esclarecida
E gritei: “Basta!” (…) Condenas-me à escuridão eterna
Agora que minha alma de África se iluminou
E descobriu o ludíbrio e gritei, mil vezes gritei: “Basta!”.
Armas-me grades e queres crucificar-me
Agora que rasguei a venda cor-de-rosa
E gritei: “Basta!”
Condenas-me à escuridão eterna agora que minha
alma de África se iluminou e descobriu o ludíbrio...
E gritei, mil vezes gritei: ”Basta!”
Ó carrasco de olhos tortos,
De dentes afiados de antropófago
E brutas mãos de orango:
Vem com o teu cassetete e tuas ameaças,
Fecha-me em tuas grades e crucifixa-me,
Traz teus instrumentos de tortura
E amputa-me os membros, um a um…
Esvazia-me os olhos e condena-me à escuridão eterna… –
que eu, mais do que nunca,
Dos limos da alma,
Me erguerei lúcida, bramindo contra tudo:
Basta! Basta! Basta!
(Sangue negro. Moçambique: Associação de Escritores Moçambicanos, 2001)
(Ilustração: João Timane, artista plástico Moçambicano – rosto)
domingo, 15 de março de 2026
O VELHO ENCASTOADO, de Carlos Alberto Dória
Dentre os mortos conhecidos, era o que melhor se comportava. Não dava trabalho algum. Não exigia flores, nem visitas
A julgar pela aparência de velho, o que as roupas confirmavam, estava lá fazia bem uns vinte anos. Como o corpo não se deteriorou, ficou sobre a mesa de jantar.
Com o tempo, o incômodo que era colocá-lo sobre o étagère no momento das refeições foi contornado por um engenhoso marceneiro, que o prendeu ao tampo da mesa que girava num eixo horizontal, de modo a voltar o corpo para baixo enquanto se comia o almoço ou jantar. Seu peso ajudava mesmo a firmar o tampo. Depois, mesa limpa, girando sobre o mesmo eixo, voltava o corpo para cima, firmando-o com pequena trava, sem sequer amassar o terno com o qual jazia. Estabeleceu-se que de duas a três vezes por semana seria espanado e, nos dois dias úteis sobrantes, um aspirador limpava sua roupa. Nos sábados e domingos, em geral ficava diretamente voltado para baixo da mesa, pois era maior a atividade na casa, incluindo um lanche entre o almoço e a ceia.
Dentre os mortos conhecidos, era o que melhor se comportava. Não dava trabalho algum. Não exigia flores, nem visitas. Contentava-se com o movimento da casa e tomava como suas as flores eventuais nos vasos.
Como estava à mão, era comum ouvir-se: “Jura pelo morto?”, o que emprestava maior veracidade ao que se falava e se fazia à sua volta.
Mas nem sempre fora assim. No início, quando saía, a viúva o levava consigo. Sempre falava por ele. Narrava a vida comum, tendo-o como personagem principal. Tudo parecia normal, exceto as conjugações no pretérito mais que perfeito. Mas, quando começou a ir mais longe, a realizar os seus cruzeiros marítimos, teve que deixá-lo em casa. Foi quando ele mais se aderiu à mesa, frequentando apenas as refeições. Depois, quando as crianças cresceram e se mudaram, a casa ficou muito grande para ela e teve que abandoná-la. Foi quando o morto não quis ir. Ela se sentia só no novo e pequeno apartamento.
Os novos inquilinos da casa impuseram uma condição: que com ele ficasse a mesa engenhosa que permitia virá-lo para baixo. Rapidamente se enfronharam em sua história, e ele passou a ser familiar, pois não tinham mortos daquele tipo na ascendência. Depois, nas sucessivas locações da casa, o morto passou à condição de cláusula contratual. Era a forma de a viúva cuidar tanto do seu passado quanto do presente do morto e do seu próprio futuro.
A consequência foi converter-se em um morto sábio – coisa muito comum, quando se ouve sem poder falar. Todos os que se aproximavam dele sentiam isso: tinha expressão inteligente, e o seu silêncio oracular era denunciador. Mas bastava olhar sua serenidade para ver que o tempo não vale nada.
Depois, a sala contígua à de jantar deixou de ser ocupada. Parecia que o morto a preferia fechada, porque quando estava fechada tudo estava bem e, quando era utilizada, certo mal-estar abreviava as conversas, as visitas logo encontravam o pretexto para partir, e a sensação de normalidade em seguida se restaurava. Por dedução, os moradores chegaram à conclusão de que o morto reivindicava para si a sala de visitas. E foram ter à viúva para pleitear uma redução no aluguel, o que ela achou justo e natural. E ficou claro que o morto estava usando as pessoas da casa.
Mas a empregada, Maria dos Prazeres, que não sabia de nada, adorava ocupá-la quando a família saía aos domingos. Ficava nua à cavaleira num braço de poltrona, enquanto Jonas, o jardineiro, vinha conhecê-la por trás. Até que, um dia, sentiu um olhar frio em suas partes.
— Alguém está olhando pelo buraco da fechadura!
Mas não havia qualquer pessoa do outro lado da porta, conforme Jonas se certificou. Apenas a mesa da sala de jantar e seu encastoado habitante.
— Não dou mais procê na casa! De jeito nenhum! Credo...
Jonas, até então indiferente, ficou com raiva do morto, a quem atribuía o infortúnio sexual. Até que, um dia, deixou cair água sobre a roupa do falecido. De propósito. Queria vê-lo desandar, feder, ser enterrado, livrar-se dele.
Mas a inquilina descobriu a tempo de enxugar a tragédia. E descobriu que as formigas haviam liquidado a roseira, o pessegueiro. Jonas foi embora.
O morto, mais sólido do que nunca, parecia sorrir satisfeito. Finalmente conquistara o jardim.
(Ilustração: Edvard Munch - the death bed)
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Carlos Alberto Dória - O velho encastoado
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