segunda-feira, 1 de abril de 2024

APENAS UM CORPO, de Eugénio de Andrade

 


 



Respira. Um corpo horizontal,

tangível, respira.

Um corpo nu, divino,

respira, ondula, infatigável.



Amorosamente toco o que resta dos deuses.

As mãos seguem a inclinação

do peito e tremem,

pesadas de desejo.



Um rio interior aguarda.

Aguarda um relâmpago,

um raio de sol,

outro corpo.



Se encosto o ouvido à sua nudez,

uma música sobe,

ergue-se do sangue,

prolonga outra música.



Um novo corpo nasce,

nasce dessa música que não cessa,

desse bosque rumoroso de luz,

debaixo do meu corpo desvelado.



(Até Amanhã, 1956).



(Ilustração: Armand Rassenfosse - Baudelaire e sua musa)


Nenhum comentário:

Postar um comentário